sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Partido de um só homem (Prejudices de H.L. Mencken)

Seis volumes de Prejudices atestam independência do pensamento de H.L. Mencken e a qualidade de sua escrita, aplicada a campos diferentes, da política e do ofício jornalístico à crítica literária

O “Sábio de Baltimore”. Coletânea reúne ensaios escritos entre 1919 e 1927

LÚCIA GUIMARÃES

Com o perdão de um sábio do Rio de Janeiro, nem toda a unanimidade é burra. É difícil encontrar alguém decepcionado com a canonização de Henry Louis Mencken (1880-1956) pela Library of America. A coleção, destinada a imortalizar as letras americanas e garantir que obras fora de catálogo se mantenham em circulação, acaba de dar de presente à legião de admiradores do irascível Mencken uma bela caixa com dois tijolos que contêm os seis volumes da série Prejudices (Preconceitos). Os artigos e ensaios, escritos entre 1919 e 1927, reúnem a prosa hilariante e indignada do mais influente jornalista americano do século 20.

Caros leitores de menos de 25 anos: “influente jornalista” hoje pode soar como um oxímoro mas, acreditem, no tempo de Mencken, a pena era mais poderosa do que a espada digital de uma ex-governadora do Alasca. E por falar em personagens que Mencken teria destroçado com seu grande texto e coragem pessoal, na semana que passou, quando os americanos, mais uma vez, enfrentam o luto provocado por um massacre, sua cruzada incansável contra o obscurantismo é um contraponto bem-vindo. A seguir, numa entrevista exclusiva ao Estado, Marion Elizabeth Rodgers, responsável pela nova edição de Prejudices, autora de Mencken: The American Iconoclast, explica por que precisamos de doses regulares do Sábio de Baltimore.

Por que Prejudices é um bom começo para a estreia de Mencken na Library of America?

Prejudices foi uma das mais celebradas séries da obra dele. Foi com ela que ele se estabeleceu como uma das mais poderosas vozes no meio literário e social dos EUA, nos anos 20. Desde 1933, os seis volumes nunca foram lançados de uma só vez. O leitor contemporâneo ouve falar de Mencken, mas pode não compreender por que ele é tão citado. Além da beleza da caixa, nós editamos uma seção de Cronologia e outra de Anotações que ajudam a explicar as referências.

Qual seria uma boa iniciação a Prejudices?

O espectro de tópicos que ele cobre já justifica a leitura. Para seu estilo de prosa, recomendo os perfis de Theodore Roosevelt, Abraham Lincoln e Rodolfo Valentino. Para um olhar pessoal, vale a leitura do ensaio sentimental sobre sua casa, Vivendo em Baltimore. Mencken é bastante lembrado pelo que escreveu durante o caso Scopes, em 1925 (um professor de escola secundária foi condenado por ensinar a Teoria da Evolução no Tennessee, mas o veredito foi derrubado). Em The Hills of Zion, ele descreve como os membros de um grupo religioso entram em transe e a cena me lembra o que você poderia ver num terreiro de macumba no Brasil. Para um gosto de sua crítica à cultura americana, há os ensaios sobre Hollywood e o famoso Sobre Ser Americano. Na crítica literária, recomendo As Letras Nacionais e O Saara de Bozart, em que ele estimula escritores negros e sulistas a escrever sobre si mesmos. Foi uma inspiração para a renascença literária do Harlem e do Sul americano.

Hoje há polarização na mídia e os argumentos tendem a ser neutralizados pelo excesso de postura ideológica. Há esta procura por um jornalismo que apenas confirme nossa visão do mundo. Mencken poderia ter sido tão influente neste contexto?

Mencken não cabe em campo nenhum. Os conservadores o reivindicavam como um deles, especialmente porque ele apoiava a pena de morte, era crítico de impostos, da intrusão do governo e do sistema de previdência social. Ao mesmo tempo, o próprio Mencken se considerava um “democrata por toda a vida”. Ele defendia a liberdade de expressão, os direitos civis, dos imigrantes e das minorias, até dos socialistas. Também combateu o poder de corporações. Ele lutou por causas queridas para campos diferentes. Mas ele não queria a prisão do rótulo e dizia: “Eu não pertenço a partido algum. Sou meu próprio partido”. Sempre me perguntam se ele teria lugar na mídia atual. Será que teria seu programa no rádio ou na TV? O que faria com a internet? Mas essas comparações não nos levam longe. Sua astúcia não apenas fazia o leitor rir, fazia pensar e desafiar o senso comum. A iconoclastia de Mencken é necessária. Ele sabia que a opinião poderia ser manipulada. Ele acreditava que poucos americanos diziam o que pensavam. A tentativa de procurar escrever sobre o que é seguro e ser bem recebido: ele combatia isso como mau jornalismo.

Quais são, a seu ver, os ensaios desta coleção que falam mais ao nosso tempo?

Eu acho que boa parte do que ele escreveu resiste à passagem do tempo. Seus conselhos em The Fringes of Love Letters, especialmente quando trata de estilo e crítica, deveriam ser lidos por todos os autores aspirantes. Se hoje os jornalistas estão em crise existencial, não era diferente no tempo de Mencken. Leiam Jornalismo na América. A cada nova eleição americana eu me lembro de Sobre Ser Americano, em que ele diz: “O principal negócio da nação é fabricar heróis, principalmente falsos”. E, para sua visão sobre psicologia, há Sobre Controvérsia: “Que eu saiba, nenhuma controvérsia jamais terminou no território onde começou”.

Sua visão do escritor mudou de alguma forma desde que, após escrever sua biografia, começou a editar sua obra?

Sempre há quem diga que Mencken nunca será tão amado como Mark Twain – e acredito que seja verdade. Concordo com Charles Fecher, editor dos diários de Mencken, para quem “nenhum outro, antes ou depois, teve algo como o enorme poder e a influência de Mencken. Ele praticamente mudou o curso da literatura americana, trouxe um período literário à sua conclusão, inaugurou outro e, no processo, ajudou importantes figuras a se tornarem proeminentes. F. Scott Fitzgerald e Sinclair Lewis são dois autores que tiveram em Mencken um defensor. Ele foi um dos primeiros críticos americanos a chamar atenção para Twain, Bernard Shaw, Ibsen e a reconhecer o talento de James Joyce. E não podemos esquecer que as revistas que ele editava – The Smart Set e The American Mercury – introduziram a escrita de negros e imigrantes no país. Em suas colunas, Mencken lutava por causas impopulares, como o fim da segregação. Nas revistas, ele transformou o jornalismo americano ao examinar raça, linguagem, narrativa folclórica, medicina e música. Acho que parte do prestígio desfrutado por ele no exterior se deve ao fato de que, além de sua sabedoria e bom senso, sua visão de mundo era internacional. Ainda que fosse um verdadeiro americano de seu tempo, ele olhava para o país “de fora”.

Fonte: O Estado de S.Paulo (15/01/2011)

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