segunda-feira, 4 de julho de 2011

Aliados de Marina Silva adiam saída do PV para depois das eleições

Cristiane Agostine

São Paulo - A ex-senadora Marina Silva deve se desfiliar do PV nesta semana, mas não será acompanhada pelos parlamentares do partido. Com receio de perder o mandato, até mesmo o vice-presidente do partido, deputado federal Alfredo Sirkis (RJ), um dos principais aliados de Marina, continuará na legenda para evitar que seu mandato seja cassado. Mesmo sem cargo no Legislativo, o ex-deputado Fernando Gabeira, fiador do ingresso da ex-senadora na sigla, também deve continuará no PV para disputar a eleição à Prefeitura do Rio, em 2012.

A insegurança jurídica sobre o mandato, com a possibilidade de cassação, fez com que parlamentares desistissem do desligamento da sigla. Sirkis afirma que deixará a vice-presidência e a presidência do diretório estadual do Rio de Janeiro, mas diz que "não poderá" sair do partido. "Tenho mandato, não vou arriscar", declara. "É uma saída burocrática", resumiu. "No nosso sistema político brasileiro, o eleitor vota na pessoa e não na legenda. Com isso, os partidos tornaram-se cartórios dominados por dirigentes. A crise do PV é a maior prova disso", analisa Sirkis. "O dono do cartório quer obrigar os filiados, os parlamentares a permanecerem no partido. Isso é opressivo, anti-democrático", opina.

O deputado federal Dr. Aluizio (RJ) diz que "não há outra saída" aos parlamentares, mesmo entre aqueles que contestam o atual comando partidário. "Quem tem mandato está em uma posição incomoda", comenta. " A lei é clara e diz que o mandato pertence ao partido, não ao eleito. Nossa alternativa é pressionar a direção por mudanças", afirma. " A democratização do PV é fundamental."

Na Câmara dos Deputados, o PV elegeu 14 deputados federais em 2012, um a mais do que na eleição anterior. A bancada, no entanto, já perdeu um deputado: Guilherme Mussi (SP) migrará para o PSD do prefeito Gilberto Kassab.

Marina deve anunciar a desfiliação do partido nesta semana, em evento a ser realizado na quarta ou quinta-feira. O grupo que sairá com ela será basicamente o mesmo que ingressou por influência da ex-senadora. Entre eles estão os empresários Ricardo Young e Guilherme Leal, o ex-secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente João Paulo Capobianco, o ex-presidente do Ibama Basileu Margarido e o ex-deputado Luciano Zica. Ligado a Marina, mas filiado ao PV desde 2005, o ambientalista Fabio Feldmann deixou a sigla na semana passada.

Segundo aliados da ex-senadora, o desligamento desse grupo deve ter um impacto mais simbólico, da crise que o PV enfrenta, do que numérico. Os aliados de Marina são minoritários na sigla. "No partido nossa saída não vai mudar muito. O impacto maior será nos simpatizantes", comenta Luciano Zica. Para João Paulo Capobianco, coordenador da campanha de Marina, "não se trata de uma conta matemática". "Nossa intenção não é a de fazer um estrago no PV. Mas não nos resta outra alternativa a não ser deixar o partido. O PV mostrou que não é o espaço da política institucional que procurávamos. Ao contrário, é um partido fisiológico, sem nenhuma perspectiva de se modernizar", diz Capobianco.

A tensão no partido agravou-se em março, quando o grupo do presidente nacional do PV, deputado José Luiz Penna (SP), derrotou o de Marina e prorrogou seu mandato por mais um ano, adiando o processo de renovação da legenda. Penna preside o PV desde 1999. Desde então, os aliados da ex-senadora formaram a tendência Transição Democrática e tentaram mudar a escolha dos dirigentes no país. Todos os diretórios são comissões provisórias, nomeadas por Penna. O grupo, no entanto, não conseguiu mudar essas regras.

O grupo de Penna não se manifesta sobre a crise. Procurados, nem o presidente nem os dirigentes próximos a ele não retornaram aos pedidos de entrevista.

Os aliados de Marina planejam formar um novo partido depois das eleições de 2012 e já teriam o apoio de cerca de 30 parlamentares. No entanto, a decisão do Senado de punir com a perda de mandato quem sair de um partido e migrar para uma nova sigla deve atingir em cheio os planos desse grupo. "Hoje, a gente conseguiria atrair de 20 a 30 deputados e uns quatro senadores. Mesmo se a regra for aprovada, vai pegar só esse punhado de parlamentares", diz Sirkis. "Nós apostamos em uma base maior, da sociedade civil. Marina teve quase 20 milhões de votos. Conseguir 500 mil assinaturas para fazer um partido não vai ser difícil", afirma. A regra, aprovada pelo Senado na semana passada, ainda será votada na Câmara.

Antes de formar o novo partido, o grupo planeja reunir-se em um movimento chamado provisoriamente de Verdes e Cidadania.

VALOR ECONÔMICO

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