domingo, 6 de novembro de 2011

CERVEJAS, LEMBRANÇAS E REFLEXÕES (Juca Magalhães)

Encontro de velhos roqueiros é a boa vontade, já dizia o Coalhada. Uma suruba de lembranças, máximas, ditos, acordes adormecidos e velhas expressões. De vez em quando me pego encafifado com alguma coisa assim, tipo a frase: “a noite é uma criança”. Quem será que inventa essas paradas? Outra logo aventada foi a da cerveja “estupidamente gelada”. Ninguém soube dizer de onde viera a estupidez, mas lembrei a primeira vez que a ouvi:

Eu estudava no Martim Lutero, uma escola famosa por agregar as crianças problemas da classe média de Vitória. Quem não se adaptava às rotinas escolásticas de colégios católicos como o Sacre-Coeur ou o Salesiano partia para a opção protestante que nada tinha a ver com a febre evangélica que tomaria conta do país. Naquela época os evangélicos eram uma pequena minoria que todos chamavam com certo preconceito de “os crentes”.

Não quero discutir religião, muito menos o racismo: porém, quase não havia negros em nossa escola. O único que me lembro, aliás, lembrei por causa da expressão, fora trivialmente apelidado de “Negativo”, hoje isso ia dar uma confusão... Foi ele que veio dizendo orgulhoso que gostava de tomar sua cerveja “estupidamente gelada”. Ora, eu nem fazia idéia do que era beber naquela época, para mim era estranho alguém de nossa idade enfiar o pé na jaca. Achei que Negativo estava apenas querendo tirar uma onda de adulto.

Daí lembramos de um barzinho que tinha em Santa Lúcia, cuja (cuja?) principal atração era passar vídeos de rock. Era um videobar, novidade bacana à época. Era inverno, a moda era tomar Kaiser Bock que eu adorava. Ficamos tentando lembrar o nome do bar, era rock alguma coisa. Video rock? Não, acho que tinha house no nome. Putz grila! É isso mesmo, House Rock Video Bar!! Tomei umas biritas lá com a princesa Jasmyne, fizemos até algumas letras de música.

A cerveja Bock era meio avermelhada, não sei por que sumiu, nunca mais nem ouvi falar disso. Também fiquei muitos anos sem beber, mais ou menos doze, quando voltei não existia mais. Fui no Rock House algumas vezes, mas nunca dei conta de assistir os filmes que passavam por lá: The Rocky Horror Picture Show, o gigantesco documentário do Woodstock, Sem Destino, coisas assim. A urgência daquela época era muito grande e a noite uma perseguição interminável de sonhos irrealizáveis que invariavelmente terminavam em um apagão.

Numa dessas era feriado sei-lá-de-quê e depois de tomar todas eu como sempre apaguei. Coisa Gorda e Ricardão tentaram me acordar dizendo que “a noite era uma criança”. Muito doidos tiveram a brilhante idéia de me “desovar” no cemitério: “imagina a cara dele acordando no buraco do caixão, huahuahuhuha!” Só que chegando lá bateu a onda do ácido e os caras piraram geral, começaram a correr pelas sepulturas, era alta madrugada, viram vampiros, ouviram gemidos e fugiram correndo. O seguro morreu de velho e é por isso que naquela época vivíamos atrás de emoção, hoje perto dos cinqüenta me pergunto como foi possível, mas o Keith Richards não está por aí? Então, uma hora eu também vou estar...

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