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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Os hagiográficos (Tibério Canuto)

Começo este texto com uma longa citação de Roberto Ampuero, escritor chileno que viveu sob três ditaduras: a de Pinochet, a de Honecker, da Alemanha comunista e a de Fidel Castro:“ Qual retorcido mecanismo mental conduz seres humanos a denunciar o abuso, a tortura, a marginalização, o exílio, o escárnio, o exílio, o assassinato daqueles que pensam de modo diferente sob uma ditadura de direita, mas os faz justificar as mesmas medidas contra aqueles que se opõem a uma ditadura de esquerda… Será que isso se deve à ignorância, à hipocrisia, ao ao oportunismo ou a uma lealdade mal entendida em relação a bandeiras ideológicas, à postergação da realidade em relação à utopia e do indivíduo em relação à massa?
A citação cai como uma luva para tentar entender parte da intelectualidade brasileira que colocam seu talento a serviço da deturpação histórica e para a construção de um mito ao qual endeusam e ficam esperando sua volta, como os fanáticos de Canudos acreditavam no retorno de Dom Sebastião.
Ontem disse que Palocci passaria a ser tratado como o grande traidor. Não deu outra. Os escribas do lulopetismo saíram a campo. Um deles comparou Palocci aos “desbundados dos anos 70” que iam à televisão para renegar a causa que abraçavam e tecer loas à ditadura. Com empáfia conclui: dos desbundados sentiu nojo. Eis aí um belo exemplo de lealdade mal-entendida em relação a bandeiras ideológicas.
Em nome de que causa Palocci deveria manter o silêncio? De um projeto de poder que pretendia fazer da corrupção o caminho mais rápido para o socialismo? E quem ele deveria preservar, o maior traidor dos brasileiros que institucionalizou o assalto aos cofres públicos?
Traiu a quem, aos petistas que se lambuzaram na lama? Ou a quem se aliou com a fina flor do patrimonialismo para obter vantagens indevidas? O que há de ideológico na Omertá petista?
Ainda está para ser escrito o papel nefasto da intelectualidade que pôs a sua pena, ou melhor, o seu teclado, a serviço da construção de um mito, de uma fraude. Não inovam. Na história da esquerda sempre existiram intelectuais dispostos a fazer genuflexão para seus ídolos, adotando uma postura reverencial e escrevendo hagiografias.
Os hagiográficos de ontem reverenciaram Stalin como o Pai de Todos os Povos, como Farol-Guia da humanidade. Idolatraram Dolores Ibárruri, como se ela fosse Nossa Senhora de Fátima. Veneraram o “comandante” Fidel Castro, assim como a Hugo Chávez e ao “companheiro Maduro.”
Como disse Ampuero, protestam contra ditaduras de direita, mas aplaudem as ditaduras de esquerda, como a de Cuba e a da Venezuela. Denunciam a corrupção de governos de direita, mas defendem com unhas e dentes.
Vociferam contra a corrupção quando cometida por governos de direita, mas dão justificativas ideológicas quando ela é cometida pela esquerda.
Mais grave: usam seu intelecto para vender a fraude de que, no caso de Lula e do PT, tudo não passa de uma orquestração da burguesia contra os trabalhadores. Me poupem!
Algum dia os hagiográficos terão de se ver perante a história e prestar contas de sua empulhação.
Quando os crimes de Stalin vieram à tona, Jorge Amado teve a hombridade de reconhecer que deificou um monstro, assim como deificou Prestes.
Não esperem atitude semelhante dos escribas petistas. No frigir dos ovos, eles são mais danosos do que Palocci, pois continuam firmes na sua missão de iludir o povo.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Apropriação da história (Tibério Canuto)




Não queria mexer nessa ferida. Até em respeito a companheiros que já se foram e a muitos que felizmente ainda estão entre nós. Por eles tenho carinho e faço questão de manter laços de amizades.

Mas ao ouvir Dilma repetir pela enésima vez uma visão martirizada da esquerda que combateu a ditadura de armas na mão, não me contive.

O corajoso post de Cesar Benjamin de hoje me deu certeza. Vale a pena comprar esta briga, polemizar com quem está se apropriando da história.

Vende-se o peixe que temos democracia hoje porque a esquerda, sobretudo a armada, combateu heroicamente a ditadura. Hipervaloriza-se assim a ação dos agrupamentos armados e deifica-se suas ações.

A história não aconteceu assim. Não discuto aqui o despojamento de uma geração, da qual fiz parte. Seus sentimentos eram nobres, sem dúvidas. Embora as organizações de esquerda da época, inclusive a que eu militava, Ação Popular, não tivessem entre seus valores a democracia como valor universal.

No fundo queríamos substituir a ditadura por algum tipo de governo popular em transição ao socialismo, seja qual denominação isto assumisse.

Mas não é esta discussão que está em pauta. Sobre este tema há um livro de Daniel Aarão Reis e do saudoso Jair Ferreira de Sá que considero definitivo.

Retomo aqui um comentário do meu amigo Sérgio Fialho, outro baiano porreta:

“O que eu acho mais complicado é que esse discurso atribui implicitamente à luta armada o protagonismo da luta contra a ditadura, quando sabemos que, heroísmos à parte, que a ditadura caiu por força de um amplo, muitas vezes anônimo, movimento de massas, liderado por uma estratégia política oposta à luta armada. Se não se toma cuidado, esse discurso vira mistificação da história.”

Assino em baixo pelas seguintes razões: 1) A esquerda armada não foi vitoriosa. Foi derrotada militarmente, mas também politicamente. 2) A ditadura não caiu como ela imaginava. 3) Aliás, não foi derrubada, foi derrotada politicamente, como lucidamente, anteviu Armênio Guedes. 4) Os grandes protagonistas dessa transição da ditadura para a democracia foram os democratas (autênticos ou moderados), os liberais e, faça-se justiça, o PCB, um artesão da unidade.

Foi essa resistência molecular e cinzenta nos estreitos espaços legais, associada à luta de massas que tomou amplitude no final dos anos 70, que asseguraram o direito dos brasileiros de irem às ruas hoje para protestar contra o que quiser.

A democracia de hoje não é, portanto, uma dádiva do atual governo. É uma conquista de um povo.

Para ela contribuíram moderados como Thales Ramalho, Tancredo Neves, (um político de linha reta que jamais apoiou qualquer ação golpista), liberais como Paulo Brossard, dissidentes da Arena como Teotônio Vilela, democratas como Ulysses Guimarães, Franco Montoro, José Richa, Pedro Simon, Alencar Furtado, Lisâneas Maciel, Marcos Freire, Airton Soares, Chico Pinto, e tantos e tantos outros.

Para ser fiel a história não poderíamos deixar de registrar o quanto o PCB, seja através de seus dirigentes na clandestinidade seja através de seus parlamentares foi essencial nessa empreitada.

Para fazer justiça, teria que escrever uma nota só sobre os comunistas e a resistência democrática. Fica para outra oportunidade.

Hoje é dia de fazer uma reparação histórica.

De reconhecer a dívida que temos com liberais e democratas que construíram a ponte para fazermos a travessia e chegarmos à democracia de hoje.

Desculpem o texto longo. E se eventualmente feri suscetibilidades, mil perdões.