O PMDB não é pior nem melhor que os demais partidos no plano fisiológico em que se consolidou o sistema político brasileiro. É apenas o maior, o que o torna credor de um espaço proporcional ao seu tamanho na estrutura de governo que vier a apoiar.
Ocupação proporcional de espaços na estrutura de poder é inerente a qualquer processo político em qualquer sistema democrático. O sistema representativo assim o impõe, admitido que os eleitos representam uma parcela maior ou menor dos cidadãos que neles votaram.
O problema não está na distribuição dos cargos, mas o que se faz com eles, para que fim servem os meios que propiciam aos seus ocupantes. O que insere o país como carente de uma reforma menos técnica do que de costumes.
Essa reforma de costumes depende necessariamente da participação da sociedade no processo político, em que o poder maior está no voto criterioso dado com base no acompanhamento da rotina política e na fiscalização dos eleitos.
Os tempos recentes mostraram claramente que a participação dos segmentos de interesse que formam a chamada sociedade organizada impõe as mudanças saudáveis que os políticos adiam enquanto podem em benefício do usufruto das benesses do poder de que foram investidos pelos cidadãos.
No Brasil, embora crescente, essa participação ainda é incipiente e pouco organizada. Quando se articulou com foco, como no caso da lei da Ficha Limpa, impôs a sua vontade. A primeira fase dos protestos de junho do ano passado foi a mobilização mais expressiva e direcionada da população pela reciprocidade de serviços de qualidade em relação à carga tributária vertiginosa.
Do que se conclui com relativa facilidade que a crise entre o PMDB e o governo não tem raiz numa suposta postura ética do Executivo, mas na falta de fórmula conciliatória que pacifique os ânimos de dois partidos em luta pela ampliação de sua presença no mapa eleitoral brasileiro.
O governo que na fase Lula compôs com o PMDB para sobreviver ao escândalo do mensalão, afirma-se nesse momento como o partido no governo e se vale do relativo favoritismo de sua candidata à reeleição, para mudar os termos de convivência com o aliado, movido pela meta de hegemonia que já custou ao partido a condenação de seus principais – e mais históricos – dirigentes.
A decisão da presidente Dilma de investir na divisão do partido representa a escolha do PMDB com o qual pretende governar se reeleita para um segundo mandato. Um PMDB preferencialmente menor em 2015, e menos influente numericamente no Congresso, o que resultará das urnas se o plano concebido pelo PT der certo.
Para compensar a perda relativa da parcela peemedebista excluída pelas urnas, o governo conta com o PSD, do ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, desde sua criação uma linha auxiliar à espera da reeleição da presidente Dilma para de seu governo fazer parte.
É esse quadro que explica a corda esticada pelo líder do partido na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), estrategicamente demonizado pelo Planalto, porém respaldado pela bancada da Câmara, por sua vez motivada pelo que é mais caro ao político: a ameaça de não renovar o mandato, que é a materialização da perda de poder.
A bancada do senado, à qual recorre Dilma para administrar a crise com o partido, não é menos sensível a essa realidade. Apenas a renovação dos mandatos naquela Casa não coincide, em sua totalidade, com o mesmo período dos deputados, o que a torna menos inflamada.
Mas a ameaça concreta do PT à perda de capilaridade do partido envolve a todos porque está em jogo a força política da legenda que, maior ou menor, afeta cada um individualmente. O processo já está em curso com a versão eleitoral do governo de que resiste à pressão de um aliado voraz e insaciável, cujos integrantes só pensam em cargos e negócios.
A estratégia de desgastar o PMDB não autoriza ingenuidades por parte do partido: está posta, é escancarada e é nesse contexto que se tenta antecipar a convenção nacional, em que a liderança do vice-presidente Michel Temer não se impõe ao instinto de sobrevivência de um número crescente de parlamentares, governadores e prefeitos que vão às urnas em outubro.
No projeto hegemônico do PT, o PMDB é a primeira pedra a ser removida, o que já foi tentado por Lula no seu primeiro mandato, quando trocou a parceria com o partido de Temer pela cooptação de legendas menores, útero do mensalão.
Fonte: O Estado de S. Paulo
A ideia de que tudo se resolve com palanque duplo é mais ou menos um "venha a nós, ao vosso reino nada". O hegemonismo petista avança para cima do PMDB na disputa dos governos estaduais e pelos comandos da Câmara e do Senado
Foi preciso a intervenção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na reunião de coordenação de campanha da Quarta-Feira de Cinzas, para cair a ficha de que a ex-presidente Dilma Rousseff corre mesmo o risco de perder o apoio do PMDB à reeleição caso não chegue a um acordo com o partido na reforma ministerial. Acordo que estanque a crise com o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), e mantenha longe da confusão o líder no Senado, Eunício de Oliveira (CE).
Até agora, os interlocutores de Dilma com os aliados comportaram-se como macacos em casa de louças nas negociações. O presidente do PT, Rui Falcão, ao passar pelo Sambódromo do Rio, arrumou uma tremenda confusão com dois caciques locais do PMDB — o ex-deputado Jorge Picciani, que preside a legenda no estado, e o própeio Eduardo Cunha. Falcão repetiu um mantra muito ouvido no Palácio do Planalto: o PMDB faz chantagem para obter mais cargos, referindo-se à rebelião dos peemedebistas na Câmara.
A frase tem muito de verdade, mas não resume a ópera. Há mais do que isso em jogo. O tom da resposta dos dois caciques peemedebistas foi reflexo disso. Picciani, que já defende abertamente o apoio de sua legenda ao tucano Aécio Neves, chamou Falcão de vagabundo. Cunha ameaçou convocar uma convenção nacional extraordinária do PMDB para rediscutir o apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff. Na verdade, a aliança sofre muitas fraturas nos estados.
Forças centrífugas
Para convocar uma convenção extraordinária basta o apoio de nove diretórios. Cunha já conta com isso: desde a semana passada, o deputado Danilo Fortes (PMDB-CE) recolhe assinaturas a favor da convocação do encontro para abril. Começou a fazê-lo depois da desastrada reunião do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, com os líderes aliados, na qual disse que Dilma Rousseff se reelegeria no primeiro turno e que os deputados da base precisavam mais dela do que ela deles. Esqueceu-se de levar em conta que o tempo de televisão de Dilma, capaz de desequilibrar a disputa com a oposição, depende da coligação formal com o PMDB, e que o vice Michel Temer, principal interessado na coligação, não é o dono do partido. Está sendo desgastado pelos rumos da negociação e pode ficar pendurado no pincel.
Apenas cinco diretórios do PMDB fecharam alianças nos estados com o PT até agora: Distrito Federal, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Sergipe. Têm 103 delegados (13,8%) do total de 742 da convenção nacional do PMDB, marcada para junho. São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Piauí, Goiás, Mato Grosso do Sul, Roraima, Rondônia, Acre, Amazonas e Pará — que somam 489 (65,9%) dos delegados — veem a disputa contra o PT praticamente consolidada. Com 150 delegados (6,5%), estão indefinidos Paraná, Espírito Santo, Alagoas, Tocantins e Amapá. Nesse cenário, todo cuidado é pouco. Os conflitos nos estados atuam como forças centrífugas que ameaçam a coligação, apesar da participação do PMDB no governo, que atua como força de atração.
A ideia de que tudo se resolve com palanque duplo é mais ou menos um “venha a nós, ao vosso reino nada”. O hegemonismo petista avança para cima do PMDB na disputa dos governos estaduais e pelos comandos da Câmara e do Senado. Além disso, o discurso de que o PMDB faz chantagem acabará sendo desgastante para o próprio PT, se recuar para manter a aliança. E se não a mantiver? Ora, se isso acontecer, quem também vai dançar da cabeça da coligação é a presidente Dilma Rousseff, junto com Michel Temer, porque o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem o tempo de televisão do PMDB, não quererão correr o risco de entregar o poder à oposição numa bandeja. Ou seja, Dilma leva água para o moinho do “Volta, Lula!”.
Fonte: Correio Braziliense (07/03/2014)
Segundo Pereira, problema está no jeito como Dilma trata aliados; para ele, partidos como o PMDB deveriam ter mais espaço
Isadora Peron
O professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da FGV Carlos Pereira é voz dissonante ao analisar a política brasileira. Para ele, o modelo de presidencialismo de coalizão adotado no País pós-democratização deu certo. E se Dilma Rousseff enfrenta sérios problemas na base aliada, em especial com seu principal parceiro, o PMDB, é porque não sabe dividir adequadamente o poder.
Para o professor, as siglas que dão sustentação ao Planalto estão sub-representadas no ministério. Coautor do livro Making Brazil Work - Checking the president in a multiparty system, Pereira conta que o estudo teve como objetivo se contrapor à visão dominante, que caracteriza como caótica a combinação entre sistema presidencial e fragmentação partidária.
Apesar das críticas ao atual sistema político brasileiro, o sr. defende que o presidencialismo multipartidário deu certo. Em que se baseia sua argumentação?
A interpretação dominante sobre fragmentação partidária é muito crítica, negativa. E, de certa forma, ela tem razão de ser. O que eu tento argumentar no livro é que, apesar de existirem certos problemas, há o outro lado da moeda, existem aspectos positivos que normalmente a opinião pública e muitos autores não levam em conta.
Quais aspectos?
A combinação do multipartidarismo com um presidente forte, aliado a várias estruturas de controle, que são capazes de dizer não a esse presidente, gerou condições para o funcionamento desse modelo institucional. O jogo se tornou previsível. O calendário eleitoral é respeitado. Você tem perdedores que se submetem aos resultados. Não há virada de mesa.
Esse sistema não dá muitos poderes ao presidente?
Hoje, o Legislativo tem instrumentos eficientes para constranger o presidente. Nós temos também um Judiciário independente, que tem sido capaz de estabelecer limites, haja vista o julgamento do mensalão. Esse caso é um exemplo claro de como as instituições de controle no Brasil estão funcionando de maneira adequada. O Brasil é o único país no mundo que conseguiu impor perdas judiciais a uma elite política, no caso o PT, ao mesmo tempo em que esse partido ainda estava no poder. Em nenhum outro lugar isso aconteceu.
Se o presidencialismo de coalizão deu certo, por que Dilma enfrenta tantas dificuldades?
A Dilma é uma má gerente. O PT, na verdade, tem sido um péssimo gerente da sua coalizão. Ele tem construído coalizões pós-eleitorais muito amplas, com muitos partidos, muito heterogêneos do ponto de vista ideológico, e, ao mesmo tempo, tem preferido concentrar poder no próprio PT. Eu argumento no livro que, quanto maior for a coalizão, quanto mais diversa ideologicamente ela é e quanto menos poder é compartilhado, mais dificuldade de gerir a coalizão o presidente vai ter.
É isso o que acontece hoje?
Sim. A presidente trata mal seus parceiros, não leva em consideração seus pesos políticos no Congresso, privilegia fundamentalmente seu próprio partido. Isso incentiva defecções. Se o PSB (do governador de Pernambuco e pré-candidato à Presidência da República, Eduardo Campos) tivesse sido melhor tratado, optaria por uma estratégia mais conservadora e de maior alinhamento com o governo do PT. A sucessão de maus tratos, no cálculo do PSB, fez com que ele pensasse que talvez valesse a pena correr o risco de jogar o jogo da oposição nestas eleições.
O que o sr. achou da formação do "blocão" no Congresso para pressionar a presidente?
É um movimento legítimo. Há uma janela de oportunidade. É ano eleitoral e Dilma precisa de apoio para viabilizar a reeleição. Os aliados veem nessa oportunidade uma chance de aumentarem seu quinhão de poder.
O que a presidente precisa fazer para reverter essa situação?
Para que o PT continue na Presidência é fundamental abrir mão do poder e compartilhá-lo com os seus aliados. Existe uma teoria, criada por William Gamson, que virou uma lei na montagem das coalizões. Ela defende a perfeita proporcionalidade do peso político da sigla no Congresso e o peso político dentro do governo. E, dado que essa lei não é seguida pelos governos do PT, é normal que desbalanços surjam.
Quais partidos deveriam ter mais ministérios no governo?
Todos os parceiros do PT são sub-representados hoje. O único partido sobre-recompensado é o PT. Isso acontece porque o PT é um partido muito plural, que tem muitas facções internas, e é difícil você acomodar todas essas correntes. Então, é mais fácil para o PT ser desproporcional com aliados externos do que com internos. Por isso, o partido tentou identificar formas heterodoxas de recompensas. Para mim, o esquema do mensalão foi isso: uma forma alternativa de recompensa de aliados externos.
Essa rebeldia dos aliados pode prejudicar Dilma nas eleições?
Acredito que sim. Ao não comprometer parceiros agora, Dilma pode ter de pagar um preço maior depois, podendo, inclusive, colocar em risco a reeleição. Agora, ela tem uma janela de oportunidade gigantesca. Ela pode, por exemplo, dar mais poder ao PMDB e comprometer o partido até o pescoço. Num cenário de instabilidade econômica, onde ela provavelmente vai concorrer com adversários fortes, Dilma não pode sofrer oposição dos seus próprios aliados. A decisão mais correta seria abrir mão de poder agora para se garantir no poder amanhã.
Resumindo: é preciso deixar o PMDB mais contente?
Não é só o PMDB, mas todos os aliados. Todos estão sendo sub-recompensados. Governar em uma coalizão pressupõe levar em consideração o peso político dos aliados. Se não levar isso em conta, cria-se uma progressiva insatisfação na base.
Professor titular na Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp) e coautor do livro Making Brazil Work: Checking the President in a Multiparty System.
Fonte: O Estado de S. Paulo
Ao reabilitar pensadores heterodoxos ao lado de clássicos, coletânea organizada por Lincoln Secco e Luís Bernardo Pericás abre debate sobre outros nomes que recebem pouca atenção da academia
É com o subtítulo “Clássicos, rebeldes e renegados” que dois professores da USP, Luís Bernardo Pericás e Lincoln Secco, apresentam seu novo livro: “Interpretes do Brasil” (Boitempo). O trabalho reúne — para realizar o balanço proposto — 26 coautores, entre jovens e consagrados pesquisadores de diversas universidades do país.
Lincoln Secco, um pesquisador de longa trajetória, e Luiz Pericás, um jovem brilhante e inquieto, optam na organização do livro por nomes heterodoxos e inovadores. Ao lado de pensadores reconhecidamente “clássicos” e que de forma cotidiana frequentam as bibliografias universitárias, tais como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Darcy Ribeiro, buscaram outros pensadores que foram, em especial no ambiente universitário, relegados como “autores menores”. Na expressão própria dos autores, são renegados, “marginalizados”. As trajetórias, carreiras e obras de homens como Octávio Brandão, Astrojildo Pereira, Leôncio Basbaum, Heitor Ferreira Lima, Rui Facó e Everardo Dias emergem em ensaios de grande valia, na busca de corrigir tais falhas.
As escolhas são bem marcadas e bem explicitadas pela dupla organizadora do livro: são autores que, mesmo tendo se debruçado sobre variadas temáticas — a organização nacional, política, instituições, artes, literatura, educação e partidos políticos —, foram considerados “menores” e “não aceitos ou não incorporados pelo mundo acadêmico”. Assim, autores que pensaram o Brasil, que participaram ativa e valentemente de tais debates — muitos desde os anos de 1920 e 1930 — são, cada vez mais, esquecidos na elaboração de bibliografias, dissertações e teses universitárias.
O ‘establishment’ intelectual em questão
A proposta de resgatar tais autores — quase uma denúncia contra o “establishment” universitário brasileiro (e a expressão é dos organizadores) — faz justiça, necessária, a homens que de forma intensa doaram suas vidas e carreiras ao Brasil e mesmo ao sofrido e lutador continente latino-americano. Surge daí, de tais escolhas, no mínimo dois frutíferos debates. Aceitando que o “establishment” universitário brasileiro se torna, cada vez mais, tecnicista, fechado e com escolhas restritas e dirigidas nos seus quadros e nos seus projetos, caberia pensar se tal fenômeno é de fato generalizado e atinge o conjunto do mundo universitário. A própria organização do livro, com jovens pesquisadores de universidades de São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul e Pernambuco, por exemplo, nos mostra que, talvez, o pessimismo crítico dos autores, embora muito bem-vindo como instrumento metodológico, é exagerado. Afinal, são das universidades, do mesmo “establishment”, que emergem os jovens autores, incluindo um dos organizadores da obra, e que propõe os nomes e carreiras dos esquecidos a serem resgatados. Assim, a universidade brasileira não seria tão “conservadora”, e haveria (ainda) espaço, aqui e acolá, para estudos sérios e rigorosos sobre tais autores “malditos”. Talvez, uma ou outra universidade tenha se fechado ao debate; alguns departamentos tenham, de fato, escolhido “deuses tutelares”, e deixado “decair” autores seminais, como os aqui evidenciados. Mas, com certeza, nem todas.
Em segundo lugar, emerge do livro um outro debate, difícil e necessário: por que os clássicos fazem companhia aos “rebeldes” e aos “renegados”? Talvez um livro só sobre os “esquecidos” fosse, em si mesmo, mais contundente, e abrisse espaço para outros tantos “esquecidos”, “rebeldes” e “renegados”. Assim, nomes como Anísio Teixeira faltam nesta lista de “esquecidos” — ao lado de outros, ainda uma vez, esquecidos. O homem que permitiu a emergência de Darcy Ribeiro e Paulo Freire, perseguido pelo Estado Novo e pela ditadura civil-militar, exilado e morto de forma vergonhosa para o Brasil, deveria constar desta lista de “rebeldes” e de “esquecidos”. Indo além, temos ainda dívidas com Guerreiro Ramos e Josué de Castro, homens que “explicaram” o Brasil e que, por isso mesmo, tiveram sua “morte intelectual” decretada pelas elites. Guerreiro Ramos e Josué morreram de tristeza, a tristeza dos tempos de chumbo. Poderíamos citar mais dois ou três nomes, mas pode-se, também, objetar que seria algo como organizar a lista dos “melhores livros” já escritos. Ninguém jamais concordaria. Correto, seria isso mesmo. Mas, insisto, poderíamos, com certeza, sem nenhuma injustiça com os mestres já consagrados — inclusive contemplados num livro recente de Fernando Henrique Cardoso — abrir algumas páginas, mais espaço, para estes outros nomes, nomes daqueles que explicaram e sofreram o Brasil, e continuam no silêncio. Teríamos, então, um livro com sabor de resposta e de desafio.
Sem Anísio Teixeira, sem Josué de Castro e sem Guerreiro Ramos (e ainda Álvaro Vieira Pinto e, claro, um brasileiro que explicou os atavismos do coronelismo e do mandonismo, Victor Nunes Leal, e foi punido por isso, ou um rebelde de todo o sempre, Carlos Marighella, lido em todo o mundo e esquecido entre nós como pensador), o Brasil “rebelde” fica bem menor. Em vez de repetir aqueles que frequentam com assiduidade as nossas bibliografias, talvez valeria dar voz a homens que morreram de “tiro, bala ou susto” — sem esquecer a tristeza, como diria o poeta — para construir um país mais justo, tais como Teixeira, Castro, Pinto, Ramos. Este último, aliás, foi um intelectual negro ridicularizado pelos agentes da repressão por sua negritude — e abrir espaço para vozes negras, como Ramos ou Abdias do Nascimento, por exemplo, talvez fosse uma estratégia “ainda” mais rebelde. Está aberta a porta ao debate. O livro de Lincoln Secco e de Luís Bernardo Pericás, desafiador, constitui-se, neste passo, indispensável em direção a fazer justiça aos verdadeiros esquecidos.
*Francisco Carlos Teixeira da Silva é historiador e professor titular do Iuperj
Fonte Prosa / O Globo
Desde que inventaram eleição em dois turnos no Brasil dela só escapou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, tanto em 1994 quanto em 1998. Em nenhuma das três eleições posteriores o PT foi capaz de chegar à maioria absoluta dos votos para liquidar a fatura de uma só vez.
Num momento em que pemedebistas e petistas deixados ao relento, além de empresários e banqueiros queixosos, só se ocupam do "volta Lula", a aposta de que a reeleição da presidente Dilma Rousseff pode repetir a façanha de FHC parece uma alucinação.
A aposta tem nome e endereço e está a léguas, em distância e propósito, do quartel-general da campanha presidencial. Chama-se Alexandre Marinis, foi analista do banco Garantia e hoje tem uma consultoria que se dedica a esquadrinhar a política em números para seus clientes.
Todos se surpreendem até serem apresentados ao caminho percorrido pelo economista da Mosaico até as previsões que, só à primeira vista, parecem uma ressaca mal curada de carnaval.
O ponto de partida são as manifestações de junho do ano passado. Duas pesquisas Datafolha feitas antes e depois de as ruas se encherem mostram que o percentual de eleitores dispostos a dar um voto em branco ou anulá-lo havia mais do que duplicado.
Até o início de junho o patamar se mantinha no limite padrão de 7%. A partir das manifestações, esse percentual cresceria a ponto de chegar a 18% na última rodada de fevereiro.
Se um maior número de eleitores se diz disposto a anular sua opção para presidente ou votar em branco, diminui a cesta de votos válidos a partir da qual se conta a maioria necessária para que se liquide a fatura no primeiro turno.
A remissão às duas eleições de FHC é obrigatória. De cada dez eleitores que compareceram para votar em 1994 e 1998, oito validaram seus votos. O ex-presidente elegeu-se com metade desses votos.
Na era petista o sarrafo aumentou. Caiu o percentual de nulos, muito provavelmente por causa da universalização da urna eletrônica. Os votos nulos sempre foram maiores em cidades com maior número de analfabetos. A urna eletrônica facilitou o voto dessas pessoas.
Com isso, de cada dez eleitores que compareceram aos locais de votação nas três últimas disputas presidenciais nove validaram seus votos. Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma precisavam fazer uma metade mais robusta de votos que a de FHC. Falharam e acabaram enfrentando um segundo turno.
A julgar por todas as pesquisas desde as manifestações, o patamar de nulos estará mais próximo daquele observado nas eleições de FHC do que na dos petistas, o que embasa as convicções de Marinis sobre as chances de um único turno em outubro.
Além das evidências aritméticas, as pesquisas revelam que o alheamento prejudica a oposição porque tira do mercado os eleitores mais oposicionistas do pedaço. É duas vezes mais fácil encontrar um eleitor que aprova governo Dilma entre aqueles que pretendem escolher o senador Aécio Neves ou o governador Eduardo Campos do que entre aqueles que pretendem votar em branco ou nulo.
A entrada da ex-senadora Marina Silva como vice de Campos ou mesmo como candidata melhora as chances do PSB, mas não reduz o alheamento eleitoral.
Tanto Campos quanto Aécio devem torcer por candidaturas que ajudem a captar esse voto nulo. Se o pré-candidato do PSOL, o senador Randolfe Rodrigues (AP), começar a ser ouvido pelos desencantados pode ajudar a oposição. O mesmo talvez não possa ser dito se o ministro Joaquim Barbosa resolver disputar e, além dos alheios, roubar os votos da oposição.
O alheamento acendeu o sinal amarelo no Tribunal Superior Eleitoral, que prepara campanha institucional sobre a importância do voto. Ao contrário de outras, de teor mais educativo e voltada para grotões analfabetos, esta, com um apelo mais cívico, buscará o eleitor das grandes cidades.
Desde as massivas demonstrações de junho, os protestos reduziram-se em escopo, mas não é só quem solta rojão que se afasta da urna. A violência gerada por ambos os lados e seu noticiário inflam a descrença na política institucional.
A despeito do empenho do governo em aprovar lei contra os rojões, as manifestações, pelo que mostram as contas de Marinis, podem acabar ajudando a reeleição. À dura tarefa de conquistar quem quer votar, soma-se aos percalços da oposição a façanha de arrebanhar os alheios.
Fonte: Valor Econômico
Propaganda, sozinha, não resolve os ralos dos votos
As pesquisas de todos os institutos, tanto os que trabalham para candidatos e partidos quanto os que atuam para o mercado e órgãos de comunicação, convergiram mais cedo este ano. No fim de fevereiro todos eles fizeram uma rodada que apontou o que geralmente apontam às vésperas da votação. Chegaram a um consenso quanto à situação de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), os principais candidatos ao pleito presidencial já lançados, com pequenas nuances entre um instituto e outro quanto aos índices de intenção de voto de cada um.
Esse dado, contudo, não é o mais importante agora, notadamente para a presidente Dilma, candidata à reeleição. A intenção de voto é relevante para atrair financiamento de campanha, alianças, consolidar a base política, conquistar tempo de propaganda na TV, impressionar uns e outros, dar discurso.
Mas a informação fundamental das pesquisas para os especialistas, agora, do ponto de vista estratégico da campanha, são os índices de avaliação da administração da presidente candidata à reeleição, seu desempenho no cargo. É isso o que vale para que, inclusive, consiga reverter algumas tendências negativas. Tempo há, de sobra.
Até junho, época das convenções e arrancada da campanha, qualquer candidato à reeleição precisa se preocupar com a avaliação que o eleitorado faz de sua gestão. Obsessivamente. Cobrar respostas de seus ministros ou secretários, municiar o marqueteiro, que vai tratar de manipular "as realizações", reais ou fictícias, na propaganda, para que o eleitor seja conquistado para a ideia da continuidade daquela maravilha e não da interrupção, da mudança, ou da descontinuidade, como se define no jargão dos especialistas.
Nenhuma das pesquisas divulgadas em fevereiro mostrou felicidade do eleitor com o governo Dilma. Comprovou-se, nas manifestações de junho do ano passado, quando ainda foi, para alguns, surpreendente a reação da sociedade, saturada da baixa qualidade dos serviços públicos, o que ainda está em evidência hoje: uma insatisfação generalizada com o desempenho em todas as áreas do governo, da Educação à Saúde, da Segurança à Economia.
Nem os programas formulados para servirem ao marketing político de Dilma e Alexandre Padilha, dois supercandidatos inventados por Lula, o rei Midas eleitoral, estão sobrevivendo. O Mais Médicos, por exemplo, sofreu reformulação radical na última sexta-feira, pois mostrava que o tiro, longe de certeiro, estava mesmo saindo pela culatra. Por pura arrogância do governo que, desde o início, alertado para os furos no programa, resistiu a alterar sua configuração, deixando que ficasse parecendo o que acabou sendo de verdade, um projeto de ajuda financeira a Cuba.
Não se sabe se foi mera coincidência a alteração essencial do programa, no sentido de melhorar o salário pago aos médicos, reduzindo um pouco o repasse a Cuba, para evitar deserções que arruinariam a campanha eleitoral, com a visita que a presidente Dilma, primeiro, e o ex-presidente Lula, depois, fizeram à ilha, para encontros amigáveis com Raul Castro. O fato é que ele aceitou perder um pedacinho da benesse que tinha do Brasil em nome do sucesso de seus padrinhos do governo brasileiro.
E assim são todos os outros programas de áreas escolhidos para serem utilizados no portfólio eleitoral. Na Educação, outro exemplo, que era para ser a área por excelência do marketing da campanha de reeleição, os números da performance brasileira no primeiro grau, no ensino médio, no ensino técnico, no Pisa, em qualquer avaliação que se consulte, dão marcha à ré. Na segurança nem se fala, e na Saúde, se tirar o Mais Médicos fora, mesmo mal ajambrado, não sobra absolutamente nada. Alexandre Padilha terá que centrar seu discurso no ataque aos adversários, não tem o que mostrar.
A avaliação do desempenho de Dilma no governo está perto do limite que os analistas dizem ser o mínimo para que um governante consiga se reeleger: 40% para quem está no cargo. Dilma, portanto, precisa se convencer que urge uma alavancada na avaliação positiva.
Além de melhorar a avaliação do governo, a presidente candidata à reeleição precisa urgentemente determinar aos marqueteiros que trabalhem para reduzir o percentual do eleitorado que quer "mais mudança", invertendo a posição com quem quer "mais continuidade".
Uma necessidade está diretamente relacionada à outra. Se conseguir melhorar a avaliação, tenderá a ver melhorados os índices dos que querem mais continuidade. Aí é dar um passo largo para o abraço.
O placar, hoje, arredondando-se os índices, é de 60 (mais mudança), a 40 (mais continuidade). Um grave alerta, parecido com o que o governo Fernando Henrique Cardoso tinha em 2002, exatamente quando foi interrompida a administração do PSDB.
Nos casos de sucesso da reeleição, seja de governador seja de presidente, o índice dos que queriam continuar sempre ultrapassou bastante o quantitativo da mudança.
São duas questões de fundo, necessidades prementes na campanha da reeleição, e as duas têm a ver uma com a outra: Dilma tem que melhorar sua avaliação da gestão porque, melhorando, ela vai conseguir mexer na relação entre o desejo de mais continuidade e o desejo de mais mudança.
Os marqueteiros da campanha, especialmente o experiente João Santana, o chefe da propaganda de Dilma, sabem que a intenção de voto agora é secundária. Até porque conhecem bem as tecnicalidades e sabem que estão comparando alhos com bugalhos, pelo desnível do conhecimento de cada candidato. Temos no quadro eleitoral uma candidata, Dilma, com 90% de conhecimento; um candidato, Aécio, com 42%; e um terceiro, Eduardo, com 23%. É impossível comparar intenção de voto.
Quando, em fevereiro de 2010, Dilma perdia longe nas intenções de voto para José Serra, ela tinha só 50% de conhecimento.
Fonte: Valor Econômico
Estudo inédito revela que o brasileiro vota de forma conservadora.
Pesquisadoras mostram que o eleitor brasileiro prefere votar em homens com mais de 50 anos, alta escolaridade e da carreira política.
Bertha Maakaroun
Entre 1998 e 2010, número de deputados eleitos para a Assembleia Legislativa de Minas que já eram políticos saltou de 21,92% para 63,8%
Estudo inédito sobre o perfil dos deputados estaduais e distritais eleitos entre 1998 e 2010 revela um eleitor conservador, que privilegia o voto em representantes homens, com alta escolaridade, da carreira política. Além disso, até pelo crescimento das taxas de reeleição, a cada novo pleito é registrado aumento da idade média com predominância, em 2010, de deputados eleitos de 50 a 59 anos. A conclusão é de Simone Cristina Dufloth, da Fundação João Pinheiro, coordenadora do projeto “Análise do perfil dos representantes eleitos nas assembleias legislativas: estudo aplicado às unidades da federação”, e das pesquisadoras Cláudia Júlia Guimarães Horta e Carla Cristina Aguilar de Souza.
É um voto que favorece o status quo e o parlamentar que já está na carreira. “Entre 1998 e 2010, cresceu de 17,1% para 47,6% o sucesso eleitoral de candidatos que informaram à Justiça Eleitoral ter carreira política”, avaliam elas. Até porque, reeleitos, os parlamentares também estão mais velhos a cada novo pleito. A idade média dos deputados estaduais eleitos subiu nesse período de 44,97 anos em 1998 para 47,85 anos em 2010, indica o estudo. Quando os deputados estaduais e distritais eleitos para as assembleias legislativas e câmara distrital são analisados segundo as faixas de idade, há um deslocamento entre 1998 e 2010 da categoria de 40 a 49 anos – que em 1998 representava 41,5% dos eleitos – para a categoria de 50 a 59 anos, que em 2010 já integrava 31,34% dos eleitos.
Em Minas Gerais, esse perfil da representação de deputados estaduais que se expressa na “carreira política” e, a cada novo pleito, no “envelhecimento” dos eleitos, é ainda mais intenso. Entre 1998 e 2010, os deputados que informaram ter carreira política à Justiça eleitoral saltaram de 21,92% para 63,8%. Além disso, a sua idade média é maior do que a média geral de idade dos deputados estaduais e distritais das assembleias do país: passou de 47,59 anos em 1998 para 48,28 anos em 2010.
Esses dados são consistentes com a queda na taxa de renovação nos legislativos brasileiros ao longo da última década: mais parlamentares estão se reelegendo. Dados do Departamento Intersindical de Estudos Parlamentares (Diap) indicam que na Câmara dos Deputados em 2006 foram 48% de novos deputados eleitos. Em 2010, 45% novos deputados ganharam cadeiras. Nas assembleias legislativas de todo o país, a taxa de renovação média caiu de 52,58% em 2002 para 44,17% em 2006 e para 40% em 2010, segundo informações fornecidas pela União Nacional dos Legislativos (Unale).
Além de ter, ao longo das últimas quatro eleições para as assembleias legislativas, optado cada vez menos por novos candidatos “de fora” da carreira política, o eleitor brasileiro continua a se identificar mais com as candidaturas de homens do que de mulheres. Também para as assembleias legislativas é reiterada a constatação de especialistas que acompanham a representação feminina na Câmara dos Deputados. “Entre 1998 e 2002, as deputadas eleitas subiram de 10,11% para 13,35%. Mas esse percentual oscilou para 11,66% em 2006 e para 13,02% em 2010”, sustenta Simone Cristina Dufloth.
Em 2010, as assembleias legislativas do Mato Grosso do Sul, do Mato Grosso, de Goiás e de Minas Gerais apresentaram o pior desempenho em relação à representação feminina. Nas duas primeiras, nenhuma mulher foi eleita. Em Goiás, apenas 5,71% das cadeiras; em Minas, 5,8%. Nas assembleias legislativas de Sergipe, do Amapá e do Piauí foram registrados os maiores índices de sucesso eleitoral feminino: 23,81%, 25% e 25,93% das cadeiras foram conquistadas por mulheres.
Preconceito
O pífio desempenho eleitoral das candidaturas femininas se verifica apesar da chamada política de cotas, diretriz legal em vigor desde 1997, segundo a qual cada partido ou coligação deve preencher o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo, assinalam as pesquisadoras. “As mulheres também continuam subrepresentadas a despeito de a composição do eleitorado brasileiro ter se revertido no hiato de gênero, passando as mulheres a representar a maioria dos votantes em todas as faixas etárias”, acrescenta Simone Cristina Dufloth.
As pesquisadoras chamam ainda a atenção para o fato de a subrepresentação da mulher nos legislativos brasileiros apontar para o preconceito do eleitorado em relação à mulher, que, em sua avaliação, manifesta-se, principalmente, pelo eleitorado feminino, que também é influenciado pela cultura patriarcal, conservadora, e, muitas vezes, por forças religiosas que reforçam o “papel subalterno” da mulher.
Apesar de na população brasileira, segundo o censo de 2010, apenas 7,9% ter o ensino superior completo, 70% dos deputados estaduais e distritais eleitos no último pleito têm nível de escolaridade superior completo. “Na eleição de 1998, 63,69% dos deputados estaduais e distritais declararam ter nível de escolaridade superior completo. Ao longo das últimas eleições, esse percentual vem aumentando paulatinamente”, afirma Simone Cristina Dufloth. “Pessoas com baixa escolaridade têm, a princípio, menores chances de ser eleitas para deputado estadual ou distrital”, considera Simone Cristina Dufloth. Em 2010, apenas 5,21% dos deputados estaduais e distritais eleitos tinham escolaridade menor do que o ensino médio completo. Em Minas Gerais, em 2010, 72,46% dos deputados estaduais eleitos tinham escolaridade superior e apenas 4,35% não tinham concluído o ensino médio.
Estratégia eficiente
Embora ainda considerada alta quando a taxa de renovação dos legislativos brasileiros é comparada com outras democracias estáveis, é fato que a carreira política é intercalada por mandatos legislativos e executivos. Depois de eleitos, muitos deputados estaduais e federais disputam, já no ano seguinte, as prefeituras. Especialistas consideram a estratégia eficiente para que os deputados permaneçam na carreira política: nas eleições majoritárias ganham visibilidade e, se eleitos, assumem a chave do cofre do município, o que constitui grande oportunidade para levar benefícios às suas bases eleitorais. Ao fim do mandato executivo voltam para as assembleias legislativas e Câmara dos Deputados.
Fonte: Estado de Minas