segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O colapso do petismo (Luiz Carlos Azedo)

A cúpula do PT ainda está atordoada com o resultado das eleições municipais, como aquele lutador de boxe que foi à lona e levanta dando socos no ar, completamente grogue, sem se dar conta de que foi a nocaute. Acredita que a narrativa do golpe varrerá para debaixo do tapete tudo o que aconteceu. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se comporta da mesma maneira, como se fosse possível separar o fracasso do governo Dilma Rousseff dos seus dois mandatos e escapar da Operação Lava-Jato, embora os dois principais artífices de sua ascensão ao poder, os ex-ministros José Dirceu e Antônio Palocci, estejam presos. Mesmo que matem no peito o escândalo da Petrobras, como fizeram Delúbio Soares e João Vaccari Netto, o cerco está se fechando.
Como veterano líder sindical, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabe que a vida de um metalúrgico no chão da fábrica é muito mais dura do que a de um médico, bancário ou professor, sobretudo quando se trata da defesa de seus direitos e reivindicações. Um líder sindical deixa de ser metalúrgico quando perde uma eleição e estabilidade no emprego, porque a reação patronal costuma ser implacável e dificilmente outra empresa lhe oferecerá trabalho. Não é à toa que os dirigentes sindicais se encastelam nos sindicados e fazem o diabo para neles permanecerem. Um balanço da direção nacional do PT concluiu que 50 mil militantes do partido serão desalojados de seus cargos em razão das eleições municipais, nas quais sofreram uma derrota arrasadora, a começar por São Paulo e São Bernardo. Provavelmente, poucos abandonarão a luta política; porém, com certeza, muitos deixarão de ser petistas, uns por oportunismo, para manter os cargos, outros porque o desemprego os fará refletir mais seriamente sobre o colapso do petismo.
Não é uma tarefa fácil refletir sobre o próprio fracasso. No caso da derrota petista, há dois aspectos combinados: o primeiro é o envolvimento do partido no escândalo da Petrobras, que vem sendo desnudado pela Operação Lava-Jato. Essa é a parte mais fácil do diagnóstico, pelo menos para os que não se beneficiaram diretamente do esquema, embora seja muito difícil reconstruir a imagem da legenda. A parte mais difícil é reconhecer que o projeto político deu errado, porque a velha cultura nacional-desenvolvimentista, esquerdista e voluntarista, continua sendo um refúgio ideológico, ao empolgar uma parcela da juventude e possibilitar ao PT a realização de alianças à esquerda contra o governo Temer.
O verdadeiro fracasso, porém, está no esgotamento de um modelo que mistura capitalismo de Estado e populismo, que surgiu na transição de um país agrário e rural para uma civilização urbano-industrial, a partir da Revolução de 30. Lula patrocinou a recidiva desse modelo, numa nova fase do capitalismo brasileiro e da globalização. O colapso do populismo no Brasil ocorreu com a ultrapassagem do modelo de Vargas, caracterizado pela atuação conservadora do Estado e pelo nacionalismo, pelo reformismo dinamizador de Juscelino, que não conseguiu eliminar as desigualdades e distorções estruturais do país. A tentativa de reverter essa ultrapassagem, no governo Jango, resultou na crise de 1964 e na substituição, pelo regime militar, do projeto nacional desenvolvimentista pela ideologia da modernização.
Três dilemas
Com a democratização do país, porém, a cooperação e a competição externas passaram a ser variáveis naturais do nosso desenvolvimento e objeto de desejo das elites e das camadas médias urbanas, o que ficou demonstrado na eleição de Collor de Mello e, depois, nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Com a eleição de Lula (graças ao novo protagonismo de sindicatos e movimentos sociais na política nacional, diga-se de passagem, proporcionado pela crítica ao populismo e pela estabilização da economia), o eixo do modelo se deslocou da ideologia da modernização para a ideologia do consumo, o ingrediente principal do neopopulismo lulista. Além disso, a chamada “nova matriz econômica”, que garantiu a reeleição de Lula e, depois, a eleição de Dilma Rousseff, nada mais foi do que a retomada do velho modelo de capitalismo de Estado nacional desenvolvimentista, num ambiente internacional que lhe era hostil, tanto do ponto de vista econômico como político. Vem daí o colapso do petismo.
No livro A quarta revolução, a corrida mundial para reinventar o Estado, os jornalistas britânicos John Mickethwait e Adrian Wooldridge (Portfólio/Penguin) registram que os governos de todos os matizes, dos Estados Unidos à China, se deparam com três dilemas: “primeiro, não mais vender bens e serviços que não são de sua competência, revivendo, portanto, os programas de privatização, velha causa da direita; segundo, cortar subsídios que afluem para os ricos e bem relacionados, a velha causa da esquerda; terceiro, reformar os direitos sociais para garantir que sejam direcionados para quem realmente precisa deles e que sejam sustentáveis no longo prazo, velha causa dos que se importam com a saúde do Estado.” Com a crise econômica, política e ética, os três dilemas também estão na ordem do dia aqui no Brasil.
Fonte: Correio Braziliense (09/10/16)

PT sofreu derrota na urna, mas introduziu Zeitgeist que segue (Demétrio Magnoli)

"Zeitgeist", palavra alemã que, ao contrário do que reza a lenda, Hegel nunca usou, significa o "espírito do tempo" —isto é, as ideias prevalecentes numa época e numa sociedade. Hoje, no Brasil, o zeitgeist pode ser desvendado a partir de três indicadores circunstanciais, entre tantos outros: a Bienal de Arte de São Paulo, o cancelamento da prova específica para ingresso na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) e o movimento que contesta o ensino da norma culta da língua.
"Faltou arte, que é onde realmente nossas certezas são postas em xeque", diagnostica o crítico Rodrigo Naves, depois de um passeio pelas instalações da Bienal, para completar, certeiro: "ideologias são tigres de papel". Numa avaliação paralela, Ferreira Gullar contrasta a "arte de verdade" com a "arte efêmera" montada pelos artistas de uma exposição dedicada, segundo seu curador, a "questões contemporâneas" como a "ecologia", o "multiculturalismo", o "feminismo" e a "descolonização".
A arte engajada, panfletária, conduzida por "novos Timoneiros, os curadores" (Naves) recicla, quase um século depois, o Proletkult soviético, que dissolveu-se na sopa totalitária do realismo socialista. Os artistas-pedagogos contemporâneos almejam, como seus predecessores, indicar o caminho certo ao povo. A diferença é que eles não contam com o amparo do poder de um Estado profético, mas apenas com a leniência intelectual, a preguiça de pensar, das instituições organizadoras.
O zeitgeist manifestou-se também na FAU-USP. Rotulada como "elitista", a prova de Linguagem Arquitetônica não será aplicada no exame de ingresso em 2017. A professora Raquel Rolnik defendeu a suspensão sob o argumento da "necessidade de democratizar o acesso à faculdade, promovendo ações afirmativas para grupos historicamente marginalizados", enquanto seu colega Renato Cymbalista avançou uma justificativa mais ampla: "Nós formamos um 'arquiteto humanista', que pode atuar em diversos campos: na crítica, na teoria, na curadoria, no ativismo e também nas políticas públicas".
A palavra chave é "ativismo". No desenho, pelo traço, o arquiteto antecipa sua intervenção, testando hipóteses e descortinando possibilidades. Os "antielitistas" querem substituir o traço pelo discurso. Poderiam propor que a FAU, como instituição, seguisse o exemplo de alguns de seus alunos, que criaram o CursinhoLA, um curso gratuito para a prova específica destinado a candidatos de baixa renda. Mas, sem surpresa, preferem imolar o conhecimento, a técnica, no altar do seu "tigre de papel".
A "visão paternalista do povo brasileiro" (Naves, sobre a Bienal) manifesta-se, há anos, na guerrilha contra o ensino prescritivo da língua portuguesa. Tomando como pretexto a crítica moderna, tão necessária, ao ensino tradicional de gramática, os guerrilheiros acusam as escolas e (claro!) a "mídia" de usarem a norma culta escrita como instrumento de "discriminação" e "controle social". Dessa plataforma, suas franjas mais demagógicas propõem a eliminação escolar dos parâmetros unificadores da língua escrita.
Na versão inicial das bases curriculares nacionais, ao lado da abolição da "história ocidental", os demagogos da língua praticamente aboliram a gramática. Assim, escondidos no óbvio, que é o reconhecimento da diversidade no uso da língua, delineiam um programa de oficialização do "apartheid linguístico", condenando os alunos das escolas públicas à incapacidade de apreender o sentido dos textos impressos nos jornais e de apreciar a herança literária portuguesa e brasileira.
"Quando Lula fala, tudo se ilumina", exclamou certa vez Marilena Chaui, formulando uma tese filosófica que, por motivos mais práticos, ganharia a adesão de Marcelo Odebrecht. O PT sofreu uma avassaladora derrota nas urnas, mas o zeitgeist que introduziu segue entre nós.
Fonte: Folha de São Paulo (08/10/16)

De valores e dogmas (Rosiska Darcy de Oliveira)

Cidade sincrética vai escolher entre duas religiões. Nada mais estranho à cidade do Rio de Janeiro, irreverente e libertária, afeita ao sincretismo, do que ser chamada a escolher entre ícones de duas religiões. É a isso que estamos condenados, nós, os que não subscrevemos nem às igrejas do reino de Deus nem às do reino da terra?
Há um eleitorado órfão que ancora em uma terceira margem. Acreditamos nas liberdades individuais, no direito de cada um ser autor de sua biografia e, quando não acertamos, admitimos erros, não pecados. Acreditamos no direito das mulheres e dos homens sobre seu corpo. Somos a favor da descriminalização do aborto e acreditamos que a violência contra as mulheres — sobretudo o estupro, gravíssima violação de direitos humanos — são problemas incontornáveis de saúde e de segurança pública. São questões democráticas, assim como a odiosa discriminação e agressão contra gays, que há muito deveria ter sido proscrita em nossa cidade.
Queremos erradicar os vestígios da escravidão, que não são poucos, e contribuir para que a cidadania plena seja conquistada por todos os que vivem aqui. Consideramos o racismo abominável e nos orgulhamos dessa cultura ímpar que é a carioca, mestiça, capaz de conviver com as divindades de qualquer religião. Que todos os deuses do Brasil assim nos conservem.
A intolerância religiosa não rima conosco.
Somos muitos a pensar assim, gente com convicções mais do que certezas, valores mais do que dogmas, querendo viver em uma cidade mais humana, igualitária e segura. Foi lutando por tudo isso que moldamos nossa visão da democracia como apreço pela liberdade de expressão, pelo livre pensar, longe das doutrinas autoritárias que mais se assemelham a religiões laicas, das ideologias que cegam e transformam escolas e universidades em palanques. Ideologias em que o partido se quer o todo. Eé a verdade. Os outros, os que não endossam sua leitura da sociedade, desqualifica como inimigos.
A intolerância ideológica também não rima conosco.
O abismo que separa o viver e as faixas de renda da população, a pobreza onipresente, é uma tragédia a qual não podemos nos acostumar. Superá-la, é obrigação política e moral de quem se apresenta para nos governar. E um desafio à sua competência. Um elo de causa e efeito liga a corrupção e o favoritismo com os companheiros ao desgosto cotidiano com os serviços públicos. A tolerância com a corrupção contribui para o agravamento da pobreza quando faz escola e impede que escolas e creches sejam feitas. Corrupção e combate à pobreza são incompatíveis, e não há malabarismo marqueteiro ou impostura ideológica que consiga explicar essa aliança espúria.
A capacidade de admitir erros e corrigi-los, de ouvir quem discorda de nós, é um valor raro nos tempos que correm, essencial à convivência democrática e ao bom governo. Nossas convicções, se não estivessem, elas mesmas, abertas à contestação, também seriam dogmas.
Crivella e Freixo conquistaram, numa eleição rigorosamente democrática, o direito de disputar o segundo turno. O eleitorado que não se reconhece em nenhum dos dois terá que dialogar com eles. E vice-versa. Os candidatos terão que respeitar essa parcela da sociedade que tem com os dois diferenças abissais. E agora?
Agora está aberto um amplo campo argumentativo, o que de melhor a democracia oferece a quem, entre si, discorda. Porque é certo que esse eleitorado, vá ou não votar, vote branco ou nulo, não vai renunciar a pensar e agir no espaço público, o das sociedades contemporâneas, conectadas e participativas, que não param de se interrogar sobre si mesmas, não ecoam palavras de ordem e não pedem licença para escrever ou falar. Transformam-se ao impulso de incontáveis iniciativas que não necessariamente partem do governo ou dele dependem.
Os eleitores que não se identificam com os candidatos, que não são membros de uma igreja ou de um partido, continuarão a agir em defesa de seus valores e a provocar novas dinâmicas na cidade. Há uma ecologia da ação que provoca resultados onde menos se espera. Porque se é o prefeito quem nos governa, isso não o faz senhor de toda a sociedade.
O poder não se esgota no poder. Nem a democracia nas eleições. Freixo e Crivella, um ou outro governará uma cidade insubmissa, senhora de uma cultura própria e, ao mesmo tempo, cosmopolita, aberta à invenção de modos de vida. Quem quer que seja o eleito, quisera que logo entendesse que é a cultura da cidade que estará sempre no comando. E essa cultura, afeita não propriamente à fé, mas certamente à esperança, só respira em liberdade.
(*) Rosiska Darcy de Oliveira é escritora
Fonte: O Globo (08/10/16)

O colapso do PT (Cristiano Romero)

A fragorosa derrota do PT nas eleições municipais não resulta do envolvimento de suas principais lideranças em escândalos de corrupção. Isso não teria sido suficiente para promover tamanho encolhimento - a sigla perdeu 382 prefeituras em relação ao pleito de 2012, caindo do 3º para o 10º lugar no ranking de municípios sob sua gestão. Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, não está na Lava-Jato e, mesmo assim, teve bem menos votos agora do que no 1º turno de 2012.
A corrupção, claro, tem seu lugar na debacle do PT, partido que antes da chegada de Lula ao poder procurou se firmar como defensor intransigente da ética na política. Haddad, evidentemente, cometeu seus próprios erros, uma vez que o índice de rejeição à sua gestão se aproxima de 50%. Mas é inegável que a principal razão da ruína do projeto petista de poder está na economia. Mesmo o impeachment de Dilma Rousseff dificilmente teria prosperado, não fosse a tragédia econômica que seu governo impôs ao país.
2016 é o reverso de 2002. Naquele ano, mesmo desconfiada de alguns propósitos do PT, a maioria dos eleitores deu um voto de confiança a Lula, então em sua quarta disputa pela Presidência da República. O ex-sindicalista desembarcou em Brasília sob forte desconfiança graças ao discurso anacrônico, construído em mais de 20 anos de oposição.
Instalado no poder, Lula, contudo, abraçou o projeto de estabilização herdado de Fernando Henrique Cardoso; nomeou um banqueiro, eleito deputado pelo partido rival (o PSDB), para o comando do Banco Central - Henrique Meirelles -; abrigou um representante da Fiesp na pasta da Indústria e Comércio - Luiz Fernando Furlan -; e entregou a Agricultura aos cuidados de um expoente do agronegócio - Roberto Rodrigues.
Os críticos mais ácidos afirmam que Lula só deu certo porque o mundo, naquele período de muita prosperidade, ajudou. O mundo, de fato, ajudou, mas isso não teria ocorrido se Lula tivesse trilhado, por exemplo, o caminho escolhido por Dilma oito anos depois. As coisas caminharam bem porque, ao fortalecer os pilares do tripé de política econômica - geração de superávits primários, câmbio flutuante e metas para inflação -, o presidente deu credibilidade à política econômica, o que fez com que os empresários, num curto de espaço de tempo, voltassem a investir.
O registro é necessário, até para se medir a desconstrução promovida adiante pela sucessora: Lula, o líder sindicalista e de esquerda, aumentou a disciplina fiscal, fortaleceu o câmbio flutuante ao promover forte acumulação de reservas e elegeu a desinflação como prioridade - o IPCA recuou de 12,53% em 2002 para 3,14% em 2006. Além disso, fez o impensável ao propor a reforma que igualou os regimes de previdência, acabando com a aposentadoria integral dos funcionários públicos.
No fundo, Lula estava atualizando o pensamento econômico da esquerda, como fizeram na década anterior Bill Clinton nos Estados Unidos e Tony Blair na Inglaterra. Era um avanço importante porque, sendo o PT hegemônico no campo da esquerda, dificilmente haveria espaço novamente para aventuras populistas na economia.
Mas, aí, em 2005, veio o mensalão, escândalo que não conseguiu apear Lula do poder, mas o empurrou para a esquerda na frente de partidos que o apoiava. Quando nomeou Dilma para a Casa Civil, o presidente fez um primeiro aceno às esquerdas. Na sequência, colocou sindicalistas em cargos estratégicos e estendeu a receita do imposto sindical às centrais, realizando feito inédito desde o getulismo: a unificação do movimento sindical.
Lula viu no mensalão um lance das elites para tirá-lo da presidência. A resposta foi privilegiar sua base social dali em diante. No segundo mandato, ele montou um ministério bem diferente. Na economia, com exceção de Meirelles, que permaneceu no BC, os postos-chave foram ocupados por críticos da política econômica do primeiro mandato - sim, aquela que deu certo! Não se tenha dúvida: os economistas do Lula 2 tramavam, desde o Lula 1, tomar as rédeas e fazer tudo diferente.
Localizada no centro do poder e já candidata na cabeça de Lula, Dilma imprimiu sua marca nacional-desenvolvimentista, base da ruína que viria anos depois: concessão de pesados subsídios a empresas previamente definidas pelo governo como "campeãs nacionais"; protagonismo do Estado, ainda deficitário, nos investimentos em infraestrutura (PAC); mudança do modelo de exploração de petróleo - de concessão para partilha - para assegurar à União a propriedade do óleo extraído; tentativa de tornar a Petrobras novamente monopolista; adoção de política de conteúdo nacional, incentivo para a ineficiência e a corrupção.
A tragédia dos anos recentes só não se consumou ainda na gestão Lula porque este teve a sagacidade de desconfiar da sanha "desenvolvimentista" de Dilma. Na dúvida, manteve Meirelles no BC, sofrendo todo tipo de pressão, mas segurando o rojão.
Embalado pela rápida recuperação da crise mundial de 2008-2009, Lula elegeu Dilma como sua sucessora em 2010. Desconfiado quanto às ideias dela para a economia, impôs-lhe Antonio Palocci, ministro da Fazenda que liderou o pragmatismo do primeiro mandato e que sob Dilma seria o guardião da responsabilidade fiscal e monetária. Este durou pouco no cargo, apenas seis meses - hoje, um conselheiro de Dilma revela que partiu dela a operação para derrubar Palocci.
Após a queda do ministro, Dilma fez o que sempre quis fazer na economia - mandou baixar os juros na marra, acabando com a autonomia do BC; administrou a taxa de câmbio para artificialmente estimular as exportações; congelou os preços dos combustíveis; reduziu também na marra as tarifas de energia; expandiu, de forma ilimitada, o gasto público; liberou os Estados do cumprimento da meta fiscal; maquiou as contas públicas; obrigou os bancos federais a bancar despesas do orçamento etc.
O resultado: o Brasil está em recessão desde o segundo trimestre de 2014; no atual biênio, o PIB está encolhendo quase 8% e a renda per capita, perto de 10%; a inflação chegou a dois dígitos em 2015, algo que não se via há 14 anos; a taxa de desemprego atingiu 11,8% (ou 12 milhões de desempregados); o déficit público do setor público consolidado (União, estados e municípios) chegou a 10% do PIB e a dívida pública está crescendo quase 20 pontos percentuais do PIB em menos de dois anos; em 2015, o país perdeu o selo de bom pagador, obtido em 2008 depois de quase três décadas de sacrifício na área fiscal.
Não há projeto político que resista a esses números.
Fonte: Valor Econômico (05/10/16)

Quem é de esquerda? (Roberto DaMatta)

Numa velha investigação que realizei sobre identidade política, encontrei uma divisão nítida entre “esquerda” e “direita”. No início dos anos 60, um mundo muito maior e menos transparente do que o atual, dava pleno sentido à divisão entre direita e esquerda.
Além disso, quem era de esquerda ou de direita via o outro lado como contrário, mas também como imprescindível. Um dos maiores erros dos radicalismos e, no caso do Brasil, da direita representada pelo regime militar, foi a tentativa de dar uma “solução final” para a outra margem, esquecendo-se do rio por onde a história não deixa de correr. O mesmo ocorreu com a esquerda desmoralizada pelo lulopetismo.
A destruição do opositor subtrai a legitimidade de quem tem o “poder”. Quem sustenta a governabilidade é o derrotado. Daí a importância da competição eleitoral que acabamos de vivenciar. O processo eleitoral ajuda a descobrir novas lideranças tanto quanto a descartar projetos de “soluções finais” de quem, alojado no poder, planejou jamais perder uma disputa eleitoral. Enfrentar o nosso papel como como eleitores não é fácil quando não há salvadores da pátria ao lado de um punhado de partidos com bandeiras cansadas ou sem mastro. Naquele tempo havia medo, mas não havia vergonha nem culpa em ser “esquerdista”. Examinando meus dados, vejo que muitos se viam como peça de resistência ou vítima, mas todos tinham orgulho de sua escolha política.
Ser de “esquerda” era ser uma pessoa fiel, honesta e de boa vontade. Era ser alguém que enxergava a “realidade brasileira” (ou o todo) desdenhando dos “interesses de classe” que remetiam à parte e exprimiam egoísmo e descaso pelos pobres. Pelos explorados que constituíam o “povo” brasileiro ao qual nós, nos coretos acima da multidão, obviamente não pertencíamos. Éramos pastores do povo, e eu confirmei tal atitude numa entrevista na qual um operário dizia: “Os teóricos são o farol que guia a nossa prática”. Tal opinião confirmava a busca utópica de uma igualdade substantiva. A esquerda queria o paraíso neste mundo e perseguia o altruísmo. Ademais, ela não havia estado no poder. Esse poder que muda até mesmo a igreja do diabo, como ensinou Machado de Assis.
O poder corrompia, mas nós não entraríamos nisso. Como disse o próprio Lula décadas depois: em seis meses, o PT acaba com a corrupção. E José Genoino, presidente do partido, já no poder, reiterava: o PT não rouba e não deixa roubar.
O “poder” era um cetro ou palácio. Ele não era contraditório ou personalizado. Reprimíamos o fato de sermos meninos brancos de classe média que viviam em “casas” hierarquizadas e aristocráticas, com um pai-patrão e seus empregados e, talvez por isso mesmo, tínhamos o sonho de uma igualdade ilimitada no plano político. Vencer uma discussão com o pai, cantar que o Brasil era um país subdesenvolvido era fazer a revolução...
Uma revolução que surgia como um conjunto de “reformas” a serem perpetradas pelo governo e por decreto, tal como ocorreu no comício da Central do Brasil em março de 1964. Ali, João Goulart decretou alguns dos seus pontos cruciais. Dezenove dias depois, veio — aí sim — o golpe militar que em menos de 48 horas pôs a esquerda na marginalidade, explodindo uma margem do rio.
Naquele tempo havia “reacionários”. Hoje há conservadores defendendo a “ordem” para situála ao lado do “progresso” e um enorme time de fascistas (úteis e inúteis) com suas listas de temas e pessoas a serem banidos e, eventualmente, eliminados. Em 1960, imitando a experiência cubana, falava-se em paredão; hoje — imitando sem saber os velhos nazistas — temos soluções finais para o mercado e para um capitalismo diabolizado.
Em nome dos direitos, evita-se corrigir a desigualdade que começa no desencontro entre uma aristocracia paga pelo Estado e os cidadãos comuns. Os idiotas que trabalham para sustentar um Estado a ser descontaminado de sua imagem de fiador do roubo, da incompetência e de uma burocracia marginal à norma da igualdade. É incabível, com a devida vênia aos meus amigos do Judiciário, que um juiz venal seja condenado à aposentadoria em sua residência com salário integral!
Essa foi uma eleição histórica. Nela, a esquerda abalada e derrotada pelo lulopetismo que a marginalizou. A crise fez com que ser esquerdista virasse sinônimo de demagogia burra, irresponsável e arrogante. Ou, para resumir numa palavra: a tudo o que era de “direita”.
PS: Se Marta Suplicy não é de esquerda, tudo é possível.
Fonte: O Globo (05/10/16)

A velhice do novo e a novidade do velho (Marcos Nobre)

Junho de 2013 levou às ruas uma insatisfação social profunda e duradoura. A partir de 2015, a Lava-Jato levou a crise para o coração do sistema político. E os efeitos da brutal recessão iniciada ainda em 2014 abriram a temporada de caça aos culpados de todas as desgraças. Foi então que teve início um salve-se quem puder geral dentro da política oficial. O PT se posicionou contra a política econômica de sua própria presidente, aliados e inimigos ameaçaram colocar fogo no circo caso Dilma Rousseff não os defendesse dos ataques da Justiça, acordos que vigoraram durante 20 anos e cinco eleições presidenciais deixaram de valer.
O resultado desse retorno ao estado de natureza da sobrevivência política não deu apenas no impeachment de Dilma Rousseff. Deu também nestas eleições municipais. A selvageria política que se instalou impediu que os congressistas costurassem os acordos de sempre em torno das regras eleitorais. Lutas de clãs armados substituíram as negociações. Em lugar de acordos, o que se viu foram vitórias pontuais de um lado ou de outro, sem vencedores nem vencidos definitivos.
No final, é a urna que conta. Mas o resultado da urna já vem previamente formatado pelas regras eleitorais. Dependendo de quais são as regras, candidaturas nascem ou morrem antes mesmo de nascer. As regras definem previamente as chances que têm candidatos e partidos, antes mesmo da própria campanha eleitoral. Com regras feitas no tapa, introduzindo de chofre e sem transição mudanças bastante radicais, também a eleição virou um salve-se quem puder. A expressão é aqui literal. Já se ultrapassou a linha da morte meramente política. Esta eleição já registra um número de assassinatos de candidatos que tirou a selvageria do reino da metáfora.
E, no momento do salve-se quem puder, a tábua de salvação não é o novo surpreendente, mas o velho conhecido. É o candidato do governador, é o postulante do ex-candidato a presidente, é o representante da oposição histórica a tudo o que está aí, é o candidato à reeleição, é o defensor de governos passados bem avaliados. A conversa de que esta é a eleição do novo precisa de um bom grão de sal.
Os nomes podem ser novos, mas não são poucos os sustentados pela velha política. João Doria em São Paulo é o caso mais emblemático. É o novo que vem nos ombros do governador Geraldo Alckmin. Ninguém vota em alguém porque diz que não é político. Se decide votar, vota dentro das limitações que lhe são impostas pelos partidos. Com candidaturas que representam a política de sempre, faz o que pode. A cara real desta eleição é Iris Rezende em Goiânia, é Rafael Greca em Curitiba. Figuras mais do que manjadas da política de sempre.
Daí que dizer que a atual eleição é uma resposta direta a Junho de 2013 é enganadora. O que também não quer dizer que tudo ficará igual. Apesar de toda a rejeição generalizada ao sistema político, há mudanças bem mais sutis do que uma contraposição entre política e antipolítica, entre novo e velho. São mudanças bem mais complexas do que os cínicos da política quiseram apregoar quando disseram que a poeira de Junho iria acabar baixando e que, no final das contas, PSDB e PT voltariam a ser os dois grandes polos organizadores da política nacional, como se nada tivesse acontecido.
Segundo o levantamento feito por "O Globo", dos grandes partidos o PSDB foi o que apresentou o maior número de candidaturas coligadas (95,6%), enquanto o PT apresentou a menor taxa de candidaturas coligadas (77%). Esse dado dá indicações do sentido em que esses dois partidos podem se reorganizar como polos, caso consigam de fato manter essa posição. No caso do PSDB, o inchaço de coligações está intimamente ligado à disputa interna pela candidatura presidencial. No caso do PT, a relativa penúria de coligações está ligada à disputa pela hegemonia do campo da esquerda.
Na luta pela candidatura presidencial, Aécio Neves e Geraldo Alckmin tentam reforçar suas posições mediante alianças com outros partidos. Conquistar aliados fora do PSDB se tornou o mais importante trunfo na disputa interna. É essa abertura para fora do partido que não apenas vai acabar determinando quem será o candidato tucano, mas qual será a reconfiguração do PSDB. A grande questão nesse caso é de saber se o partido permanecerá unido ao final do processo, ou se, no caminho até 2018, as duas candidaturas acabarão levando a uma cisão que levará à saída de um dos dois nomes rumo a outra legenda.
O PT seguiu o caminho contrário ao do PSDB. Demonizado como ícone da corrupção, teve contestada a posição de líder do campo da esquerda que deteve por quase 25 anos. Vendo sua própria existência ameaçada, adotou a tática de seguir mais isolado na eleição municipal com o objetivo de mostrar que continua sendo o grande bastião de que dispõe a centro-esquerda para enfrentar a centro-direita. O resultado foi ambíguo. Em comparação com outras forças do mesmo campo, não foi nem dizimado nem conseguiu se impor como força absoluta. Teve o quase resultado de São Paulo, mas o conjunto está longe de ser unívoco, já que Psol, PDT e mesmo PCdoB exibem resultados expressivos e comparáveis, por exemplo. Para não falar no Rede, que não obteve bons resultados em sua tática de isolamento, mas que tem em Marina Silva uma reserva eleitoral relevante.
A atual eleição, com toda a sua selvageria própria, dará o tom da transição para uma reorganização do jogo partidário e de seus polos. Se o PSDB quiser permanecer como um dos polos do sistema, terá de resolver não só como ficará sua relação com o governo Temer, mas, sobretudo, como fará para evitar um racha ao meio entre Aécio e Alckmin. O PT tem diante de si a tarefa dificílima de reconquistar a posição de líder do campo da centro-esquerda. De qualquer maneira, para entender o significado dessa reorganização para além das aparências, o importante é não se deixar levar pelo valor de face. Uma efetiva reorganização significará que nenhum nome, partido ou campo político representará mais o que representou antes.
(*) Marcos Nobre é professor de filosofia política da Unicamp e pesquisador do Cebrap.
Fonte: Valor Econômico (03/10/16)

Cela 13 (Denis Lerrer Rosenfield)

Qualquer cidadão, por mais desatento que seja, fica estarrecido com o destino do PT. Um destino político que se tornou policial. Não há dificuldade em fazer uma reunião da cúpula petista no xilindró! Lá já estão ex-ministros, tesoureiros, líderes partidários, e assim por diante. Outros estão na fila, o que vai completar esse quadro da derrisão.
A verborragia da “perseguição política” e do “golpe” nada mais é que uma tentativa desesperada dos que não foram ainda condenados ou presos, procurando, assim, escapar do encarceramento iminente. Os que acreditam em tal palavreado mais parecem religiosos que se apegam a dogmas. Seriam dignos representantes da religiosidade petista e comunista. O partido da “ética na política” tornou-se o símbolo mesmo da imoralidade e da corrupção.
Cabe, então, uma pergunta: como pôde esse partido, que se anunciou como o da redenção nacional, cair tão baixo?
Talvez seja um equívoco conceitual considerar o PT como social-democrata, do gênero dos partidos europeus que, tendo começado com o marxismo, enveredaram para uma óptica de transformação social do capitalismo, no amplo reconhecimento da economia de mercado e do Estado Democrático de Direito. Embora algumas mentes mais lúcidas do partido tenham tentado impor essa nova visão, ela terminou não prevalecendo, dada a animosidade partidária contra a propriedade privada, a economia de mercado, a liberdade de imprensa e dos meios de comunicação em geral e a democracia.
Não é suficiente considerar as medidas sociais tomadas pelo PT quando no exercício do poder como essencialmente social-democratas, dado que a própria experiência europeia mostra que os partidos democrata-cristãos na Itália e na Alemanha, além da direita francesa com De Gaulle, seguiram política semelhante. Aliás, muitas medidas sociais, por exemplo, na Inglaterra, nasceram das consequências sociais da 1.ª Guerra, no cuidado de órfãos, viúvas e idosos.
Há uma tentativa ainda em curso no País de salvar a concepção de esquerda das consequências dos governos petistas. É curioso, pois é como se a ideia de esquerda fosse imaculada, desde sempre válida, o problema consistindo, então, em sua má realização. Ora, trata-se de uma ideia fundamentalmente religiosa, dogmática, pois a experiência histórica mostra que a realização das ideias de esquerda culmina sempre no totalitarismo, no desastre econômico-social, em políticas liberticidas, quando não no assassinato coletivo de milhões de cidadãos.
No Brasil, ela está acabando na prisão. Dos males, o menor, pois o País tem uma chance de revigorar sua mentalidade, sua concepção, e empreender um novo caminho. O que não pode – nem deve – é permanecer em mera repetição histórica.
Analisemos alguns dos fatores do malogro petista, tendo presente que não estamos diante de nenhum acidente de percurso, mas de algo inerente a esta lógica esquerdista. A corrupção seria um elemento central.
Primeiro – O intervencionismo dos governos Dilma e Lula em seu segundo mandato origina-se de profunda desconfiança quanto à economia de mercado, à propriedade privada e à livre-iniciativa. Tudo foi feito para limitar a vida dos empreendedores, salvo os grandes grupos empresariais e financeiros que se aliaram ao assalto ao Estado e aos seus “benefícios”. As bases da corrupção já se faziam presentes tanto na alocação de recursos quanto na necessidade de os empresários comparecerem aos balcões da propina. As delações bem mostram o compadrio entre eles.
Segundo – O PT considerou o lucro como algo moralmente negativo, algo a ser evitado, devendo os membros partidários se apresentar como as encarnações do bem, por mais falsa que fosse essa representação. O lucro deveria ser controlado por uma elite burocrática partidária, imbuída do esquerdismo de suas concepções.
Terceiro – Ora, se o lucro era desprezível, qualquer medida para combatê-lo seria justificável, até mesmo extorquir empresários para dele compartilharem. Ou seja, se o lucro não era legítimo, a propina e a corrupção enquanto formas de partilha seriam justificáveis, sobretudo se feitas em nome do partido. Note-se que até hoje o partido considera como válida a distinção entre corrupção privada e partidária, a segunda tendo valor moral.
Quarto – De acordo com essa perspectiva, os fins (partidários) justificariam os meios (a corrupção, a propina, saquear estatais), de tal maneira que a imoralidade e a ilegalidade nada mais seriam do que meios de atuação partidária. A imoralidade partidária foi, assim, erigida em princípio.
Quinto – A corrupção petista, no entanto, não se restringiu a enriquecer os cofres partidários, mas se alastrou também para os bolsos de seus membros. Os milhões de enriquecimento individual saltam aos olhos e assombram qualquer um. Foi, digamos, um meio perverso de conversão ao capitalismo, tudo passando a valer.
Sexto – Essa conversão perversa é, assim, o fruto de uma concepção do mercado como não tendo nenhuma regra, onde tudo valeria. Na verdade, essa concepção termina por identificar o mercado ao contrabando, não imperando nenhuma lei. E se a lei não vigora numa economia de mercado, por que os membros do partido deveriam segui-la?
Sétimo – Para que tal política fosse bem-sucedida seria necessário que a imprensa e os meios de comunicação em geral fossem controlados e supervisionados, de tal modo que a verdade não fosse revelada. Foram inúmeras as tentativas do governo Lula de exercer esse controle, aquilo que foi eufemisticamente qualificado como “controle social dos meios de comunicação”. O “social” era o acobertamento da corrupção. Isto é, a corrupção e a imoralidade partidária não poderiam tornar-se públicas, pois o projeto partidário terminaria inviabilizado. E é isso que, de fato, está acontecendo.
(*) Professor de filosofia na UFRGS.
Fonte: O Estado de São Paulo (03/10/16)