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terça-feira, 24 de abril de 2018

A hora e a vez do novo (Rosiska Darcy de Oliveira)

É como se após uma sufocação, voltássemos a respirar ar fresco. Vínhamos há muito tempo condenados a uma polarização alimentada pelo ódio e pelo medo, sentimentos corrosivos, que dividem pessoas e sociedades.
A escolha entre Lula e Bolsonaro deixava órfão quem, perplexo, se perguntava que maldita máquina do tempo era essa que nos atirava de volta a 50 anos atrás, quando o confronto entre direita e esquerda desembocou em 20 anos de ditadura militar.
A cena política mudou. Lula foi preso depois de um discurso em que tentou transformar um político preso em um preso político. Pregou ódio e violência talvez apostando em um conflito mais grave que, instalando o caos, fizesse de um condenado por corrupção uma vítima do arbítrio. Não conseguiu.
Bolsonaro, por sua vez, que surfava na onda de violência que desgraça o país, prometendo como solução mais violência, foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal pelo crime de racismo. Já havia sido denunciado pela mesma PGR ao mesmo STF por incitação ao estupro.
E, por fim, o resultado da pesquisa Datafolha de intenção de votos para a Presidência da República apontando para o colapso da velha política. Lula perdeu votos, Bolsonaro empacou na votação que tinha até agora. Ascendentes, duas candidaturas, um negro, Joaquim Barbosa, e uma mulher, Marina Silva, com trajetórias de afirmação pessoal e reputação ilibada. Ambos conheceram a pobreza na infância e juventude. Nem um nem outro esqueceu o que isso significa.
As agressões de Bolsonaro contra os negros e as mulheres, ampla maioria da população, esbarram na realidade de um país em que negros e mulheres vêm levando com coragem uma luta pelos direitos que vertebram uma verdadeira democracia.
É preciso agora desmistificar o anacrônico confronto entre esquerda e direita que Lula e Bolsonaro tentam nos impingir como expressão da sociedade, o que é falso. É torpe a tentativa de Lula e do PT de jogar no campo da direita, como um anátema, todos os que dizem que eles foram desonestos, faliram o Brasil e merecem a condenação da Justiça. O que é verdade.
Combater a pobreza e a desigualdade é uma tarefa inadiável. Não foram os movimentos sociais aparelhados pelo PT que mudaram o Brasil, foi a sociedade em movimento, os que se educaram com imenso esforço, exercem sua liberdade de pensamento e de escolha, lutam na vida real contra a pobreza e desigualdade. Os que exigem um governo livre da corrupção e acreditam na Justiça como essencial à democracia.
Lula e seu partido, Bolsonaro e quase toda a classe política não se dão conta do quanto o Brasil mudou. Não estão à procura de um centro, o que subentenderia uma referência ainda à esquerda e à direita. Um novo Brasil emerge em outro lugar, fora da polarização.
O crescimento das candidaturas de Marina Silva e Joaquim Barbosa sinaliza uma aspiração à decência na vida pública que pulsa na sociedade e será incontornável nessa eleição. Foi essa aspiração que apoiou a decisão do Supremo Tribunal Federal que, negando o habeas corpus a Lula, reafirmou a jurisprudência que permite a prisão após condenação em segunda instância, essencial à eficácia do combate à impunidade. É ela que exigia que Aécio Neves fosse tornado réu, pelo STF, como de fato foi.
Outro mito, o das máquinas partidárias, todo-poderosas, que decidem as eleições no lugar da vontade popular. Sem elas, os candidatos seriam inviáveis. O que manteria o eleitor inescapável refém dos grandes partidos por mais desmoralizados que fossem. Ora, a pesquisa atribui pífias intenções de voto ao MDB, detentor da maior parcela do fundo partidário e do tempo de televisão. O que dá ainda maior relevo à trapaça que é a atribuição de tempo e dinheiro a partidos que a população despreza. Esse mito aposta na profecia que se cumpre, desqualificando e minando candidaturas com forte potencial eleitoral como Marina e Barbosa.
É difícil reconhecer o que é novo. Programados para conviver com o velho, o novo, que vem emergindo, imperceptível, surpreende.
Somos uma sociedade que, depurada da corrupção e fortalecida pela Justiça, terá que enfrentar seus desafios maiores, a violência, a pobreza e a desigualdade, os frágeis direitos das minorias e de maiorias como os negros e as mulheres, a crise ambiental, cicatrizes que desfiguram nossa democracia.
Longe do ódio e do medo que nos separam, é em outro lugar, o da honradez, liberdade e dignidade para todos, que devemos nos reunir. A pesquisa Datafolha colocou esse lugar no mapa eleitoral.
(*) Rosiska Darcy de Oliveira é escritora
Fonte: O Globo (21/04/18)

terça-feira, 18 de julho de 2017

Um romance brasileiro (Rosiska Darcy de Oliveira)

A História é a melhor das ficcionistas. A condenação do expresidente Lula a nove anos e meio de prisão pelo juiz Sergio Moro é um capítulo — não o último — de um romance assombroso e tristíssimo.
A sentença afirma, ao cabo de longa e cuidadosa investigação, que o herói do povo brasileiro, o defensor dos pobres, o líder dos operários do ABC, o presidente da República estimado mundo afora, sonhava com um tríplex no Guarujá e não hesitou em se dar um de presente, desenhado sob medida, pago indiretamente por dinheiro sujo desviado da Petrobras. Tivesse o episódio, como protagonista, um funcionário público qualquer ou outro politico corrupto, não teria a carga dramática que tem essa condenação.
Acontece que por 40 anos Lula incendiou o imaginário do povo brasileiro e foi depositário das melhores esperanças de redenção de um país terrivelmente desigual, órfão de um “pai dos pobres”. Sobretudo os mais jovens que, com razão, vivem no futuro e se nutrem de utopias, e os mais pobres, a quem pouco resta senão fé e esperança, devotaram ao jovem imigrante nordestino que virou presidente uma admiração, confiança e fidelidade quase religiosas que, ainda hoje, resiste aos trancos da vida real e nega a nudez crua da verdade: o ídolo tinha pés de barro e sonhos de ouro, de grandeza, poder e dinheiro. E nenhum escrúpulo.
Os bons personagens da literatura têm uma alta carga de ambiguidade. Lula foi suficientemente ambíguo para bem compor o personagem principal de uma história que, durante anos, empolgou o Brasil: a incrível aventura de um partido fundado para trazer a justiça social e que, metamorfoseado em uma organização criminosa, que ele é acusado por procuradores de chefiar, saqueia o país. Representou tão bem o seu papel que ainda hoje é difícil distinguir o que nele é verdade ou ficção. Talvez nem ele mesmo saiba, à força de trocar de bonés, enganando a todos, ora amigo cúmplice de Emílio Odebrecht e companheiro de Léo Pinheiro, ora herói dos sem-terra.
O que ele certamente sabe é que quer voltar ao poder, ar sem o qual não respira e, a qualquer custo, escapar da prisão. Decadência de um personagem que se apresentou como redentor de um país gigante e dramático, percebido como um herói e que acaba condenado por um tríplex de mau gosto que um empresário rico e vigarista lhe deu de gorjeta.
Quem o condenou foi um juiz muito jovem, de primeira instância, um anônimo juiz de Curitiba, homem de classe média, admirador do juiz Giovanni Falcone, que comandou a operação Mãos Limpas na Itália, assassinado pela máfia. Saído do nada, como cabe aos personagens que vão crescer na história, imbuído de uma ideia obsessiva de bem cumprir seu dever de garantidor da lei, Sergio Moro vai puxando os fios que pouco a pouco desfazem uma gigantesca teia em que se moviam, soberanos, os ricos e poderosos, homens criados e afeitos à impunidade, assaltantes contumazes dos cofres públicos disfarçados de políticos, ministros e presidentes. Nessa teia moviam-se também, em promíscua cumplicidade, as lideranças daquele partido que ia salvar o país.
A cada capítulo desse romance é um herói que se revela bandido, um empresário que se revela mafioso, um mafioso que se torna ministro. Sergio Moro empolga seus pares, multiplicam-se os juízes e procuradores atentos à corrupção. São poucos os políticos influentes que ainda não foram chamados a se explicar.
Nas páginas atuais do romance, apesar de condenado Lula ainda se mantém viável como candidato a voltar à Presidência. Pesquisas de intenção de voto, no entanto, mostram aquele anônimo juiz de Curitiba, o que o condenou à prisão, como capaz de derrotá-lo nas urnas se candidato fosse. Mas não é. O que anda pensando e sentindo, de fato, a maioria do povo brasileiro? Os próximos capítulos dirão.
De todo modo, o que esse romance conta é a trágica história de um povo traído em suas esperanças, perplexo, que tem agora que viver o luto pelos salvadores da pátria condenados por crime comum. Que aprende duramente a viver sem mitos, a pensar pela própria cabeça e fazer escolhas encarando sua dura realidade, aquela em que o país mergulhou, a pobreza, o desemprego e a violência, por conta do saque que os salvadores da pátria, nas sombras, organizaram.
Em todo bom romance, o desfecho é surpreendente. Surgirão novos personagens, inesperados ou até agora secundários, que trarão um pouco de felicidade a essa terra tão castigada? Ou, ao contrário, estará ela condenada à repetição de um destino maldito, ser a presa de impostores?
Fonte: O Globo (15/07/17)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O país do carnaval, em marcha (Rosiska Darcy de Oliveira)

A folia nunca poupou nada nem ninguém. Tem um espírito similar ao da caricatura. Não existe caricatura a favor
E, de repente, em meio a tanto desgosto, tanta dor e violência, eis que chega o carnaval, espargindo confete e purpurina sobre as nossas vidas. Como se essa festa, tão mais velha que o Brasil, quisesse provar que, apesar de nossos múltiplos pesares, ainda conseguimos vestir e viver fantasias. É graça dada aos carnavalescos a pele colorida dos arlequins que, vestida na infância, vai vida afora em busca de alguma alegria possível. O carnaval tem leis que só os carnavalescos reconhecem e respeitam.
O carnaval começa hoje trazendo sátira e polêmica, com alta voltagem de politização. Aquela em torno das marchinhas de velhos carnavais é o reflexo de uma questão mais complexa, a relação entre a História e a Cultura. A História não se reescreve, o que foi, foi e continuará tendo sido. As rupturas históricas são ruidosas. Já a cultura vai mudando dia a dia, em movimentos imperceptíveis, até que um dia se percebe que o que foi já não é.
O Brasil dos anos 50 cantava a “Nega maluca”. Um tempo em que era comum um homem, sem culpas, engravidar a empregada negra. Feliz, ia jogar sinuca. Era então que “uma nega maluca” vinha com o filho no colo dizendo pro povo que o filho era dele. A marchinha contava uma historia que acontecia, de fato. Ele sempre repudiando essa “nega maluca” que, na vida real, tinha ingressado no bloco das mães solteiras. A música, uma sátira social, é, há 60 anos, um grande sucesso do carnaval. Ainda hoje há quem continue jogando sinuca e renegando os filhos que faz mas, em tempos de DNA, a “nega maluca”, seja ela branca, mulata ou negra, já era.
Nos anos 60, as famílias bem pensantes se perguntavam, sim, se o Zezé, com a sua longa cabeleira, seria gay. Se fosse, que horror! A ordem era cortar o cabelo dele, um transviado, acentuando bem as últimas sílabas. A música animava bailes infantis e sacudia o Gala Gay, um baile disputadíssimo, frequentado por gays e não gays. Os gays se esbaldavam no carnaval, cantando a cabeleira do Zezé.
A autoestima ferida por fatos bem mais graves do que a marchinha deu a volta por cima e hoje desfila em clima carnavalesco nas marchas paradas do orgulho gay, um bloco animadíssimo, que já arrastou três milhões de pessoas em São Paulo. Ninguém mais precisa perguntar se o Zezé é ou não é, ele mesmo, quando quer ser, se apresenta. Ou não, quando não quer dar satisfações sobre a sua cabeleira. A marchinha, um sucesso incontornável, fica como crônica de um Brasil ultraconservador.
O carnaval nunca poupou nada nem ninguém. Tem um espírito similar ao da caricatura. Não existe caricatura a favor. O barbudo vestido de mulher com seios enormes e travesseiro no traseiro, as pernas peludas apertadas na meia arrastão, empunhando um escovão à guisa de estandarte ou vestido de noiva, jogando o buquê para o povo, pode ser um prato cheio para um psicanalista ou simplesmente uma sátira dirigida às mulheres. Lá vai ele, abraçado de um lado a uma louríssima índia de espanador, do outro, a uma Helena de Troia negra. Lá vai o Brasil, rindo de si mesmo.
“O teu cabelo não nega” é racista? É, quando diz “mas como a cor não pega, mulata”. Não é, quando diz “mulata, eu quero teu amor”. Esse é o segredo da população brasileira, uma admirável paleta de todos os matizes de pele. Felizmente, salvo talvez uma minoria ridícula que não frequentaria blocos, a última coisa que somos é brancos, orgulhosos de sê-lo. A música é quase um hino na história do carnaval.
A questão racial no Brasil é das mais complexas, um dos nós do conflito original dos brasileiros, que consiste em sermos essa mistura de brancos, índios e negros. Filhos de três civilizações com histórias diversas, cosmogonias contraditórias, deuses diferentes, que se misturaram e que se aceitam e se recusam ao mesmo tempo, nutrindo uma eterna ambiguidade e insatisfação consigo mesmos. A identidade do Brasil é a diversidade: esse é o nosso paradoxo e maior riqueza, nossa comunidade de destino.
Mulatas e cachaça são grandes temas do carnaval. Em tempos de Lei Seca, letras como “as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar”, ou “pode me faltar tudo na vida, arroz, feijão e pão, (...) só não quero que me falte a danada da cachaça”, poderiam ser ouvidas como desacato. Todos cantam, e nem por isso somos um povo de alcoólatras que dirigem bêbados.
A Lei Seca pegou. O racismo é justamente punido, a homofobia condenada. Marchinhas são antes reminiscências do que uma ofensa atual a quem quer que seja. São o país do carnaval em ritmo de marcha, cantando... e se contando.
Fonte: O Globo (25/02/17)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

De valores e dogmas (Rosiska Darcy de Oliveira)

Cidade sincrética vai escolher entre duas religiões. Nada mais estranho à cidade do Rio de Janeiro, irreverente e libertária, afeita ao sincretismo, do que ser chamada a escolher entre ícones de duas religiões. É a isso que estamos condenados, nós, os que não subscrevemos nem às igrejas do reino de Deus nem às do reino da terra?
Há um eleitorado órfão que ancora em uma terceira margem. Acreditamos nas liberdades individuais, no direito de cada um ser autor de sua biografia e, quando não acertamos, admitimos erros, não pecados. Acreditamos no direito das mulheres e dos homens sobre seu corpo. Somos a favor da descriminalização do aborto e acreditamos que a violência contra as mulheres — sobretudo o estupro, gravíssima violação de direitos humanos — são problemas incontornáveis de saúde e de segurança pública. São questões democráticas, assim como a odiosa discriminação e agressão contra gays, que há muito deveria ter sido proscrita em nossa cidade.
Queremos erradicar os vestígios da escravidão, que não são poucos, e contribuir para que a cidadania plena seja conquistada por todos os que vivem aqui. Consideramos o racismo abominável e nos orgulhamos dessa cultura ímpar que é a carioca, mestiça, capaz de conviver com as divindades de qualquer religião. Que todos os deuses do Brasil assim nos conservem.
A intolerância religiosa não rima conosco.
Somos muitos a pensar assim, gente com convicções mais do que certezas, valores mais do que dogmas, querendo viver em uma cidade mais humana, igualitária e segura. Foi lutando por tudo isso que moldamos nossa visão da democracia como apreço pela liberdade de expressão, pelo livre pensar, longe das doutrinas autoritárias que mais se assemelham a religiões laicas, das ideologias que cegam e transformam escolas e universidades em palanques. Ideologias em que o partido se quer o todo. Eé a verdade. Os outros, os que não endossam sua leitura da sociedade, desqualifica como inimigos.
A intolerância ideológica também não rima conosco.
O abismo que separa o viver e as faixas de renda da população, a pobreza onipresente, é uma tragédia a qual não podemos nos acostumar. Superá-la, é obrigação política e moral de quem se apresenta para nos governar. E um desafio à sua competência. Um elo de causa e efeito liga a corrupção e o favoritismo com os companheiros ao desgosto cotidiano com os serviços públicos. A tolerância com a corrupção contribui para o agravamento da pobreza quando faz escola e impede que escolas e creches sejam feitas. Corrupção e combate à pobreza são incompatíveis, e não há malabarismo marqueteiro ou impostura ideológica que consiga explicar essa aliança espúria.
A capacidade de admitir erros e corrigi-los, de ouvir quem discorda de nós, é um valor raro nos tempos que correm, essencial à convivência democrática e ao bom governo. Nossas convicções, se não estivessem, elas mesmas, abertas à contestação, também seriam dogmas.
Crivella e Freixo conquistaram, numa eleição rigorosamente democrática, o direito de disputar o segundo turno. O eleitorado que não se reconhece em nenhum dos dois terá que dialogar com eles. E vice-versa. Os candidatos terão que respeitar essa parcela da sociedade que tem com os dois diferenças abissais. E agora?
Agora está aberto um amplo campo argumentativo, o que de melhor a democracia oferece a quem, entre si, discorda. Porque é certo que esse eleitorado, vá ou não votar, vote branco ou nulo, não vai renunciar a pensar e agir no espaço público, o das sociedades contemporâneas, conectadas e participativas, que não param de se interrogar sobre si mesmas, não ecoam palavras de ordem e não pedem licença para escrever ou falar. Transformam-se ao impulso de incontáveis iniciativas que não necessariamente partem do governo ou dele dependem.
Os eleitores que não se identificam com os candidatos, que não são membros de uma igreja ou de um partido, continuarão a agir em defesa de seus valores e a provocar novas dinâmicas na cidade. Há uma ecologia da ação que provoca resultados onde menos se espera. Porque se é o prefeito quem nos governa, isso não o faz senhor de toda a sociedade.
O poder não se esgota no poder. Nem a democracia nas eleições. Freixo e Crivella, um ou outro governará uma cidade insubmissa, senhora de uma cultura própria e, ao mesmo tempo, cosmopolita, aberta à invenção de modos de vida. Quem quer que seja o eleito, quisera que logo entendesse que é a cultura da cidade que estará sempre no comando. E essa cultura, afeita não propriamente à fé, mas certamente à esperança, só respira em liberdade.
(*) Rosiska Darcy de Oliveira é escritora
Fonte: O Globo (08/10/16)

terça-feira, 19 de julho de 2016

Psicanálise do Brasil (Rosiska Darcy de Oliveira)

Vivemos momento mais agudo da crise. Apalavra crise assombra o Brasil. Está em todas as bocas, nos sentimentos de fracasso e de falta de alternativa que nos afligem. Está em tantos fatos e sentimentos diversos e confusos que não encontra uma definição clara.
Os consultórios de psicanálise são frequentemente solicitados por situações de crise individual. Crise, nos indivíduos, é aquele momento em que alguém não pode mais ser quem era, ainda não pode ser outra pessoa e não pode, salvo morto ou delirante, deixar de ser. Habita então uma terra de ninguém em que não se tem outra escolha senão dar à luz a um novo eu, construído com o que nos é dado viver naquele momento. Quem não conheceu em sua própria trajetória um momento assim? Celebra-se depois de uma dura travessia o encontro com um eu melhor, mais verdadeiro, mais sólido, erguido sobre os escombros de falsas ilusões.
A matriz da crise que atinge a sociedade brasileira, no plano coletivo, se assemelha à matriz da crise individual. Perda de identidade, esfarelamento das ilusões e esperanças nutridas ao longo de anos em projetos, partidos, ideologias, na vaga certeza de sermos uma grande economia emergente, enfim o país do futuro que estaria chegando ao seu destino.
Nossos mitos estão sendo duramente confrontados à verdade: uma nação que nos últimos anos viveu uma farsa política, em que heróis eram bandidos e os bandidos os grandes heróis, invadido por uma corrupção metastática, à beira da falência moral e econômica, sustentado a duras penas por uma democracia que se eviscera para sobreviver.
O encontro com a verdade não pode ser senão doloroso e, no entanto, tudo isso é bom, é saudável, é promissor, único caminho possível para dar à luz um país verdadeiro. Mas, hoje ainda habitamos uma terra de ninguém.
O desnudamento da casta política pela Lava-Jato tem nos custado a reputação de um país de corruptos. O que somos e não somos. É quando vem à tona a evidência de um mundo político em decomposição que o sentimento de vergonha que invade os brasileiros revela-se ser o avesso dessa decomposição. É quando emergem as reservas de decência que são enormes no país onde a imensa maioria ganha a vida honestamente.
Vergonha, depressão são estados negativos que contêm em si mesmos os germens de uma mudança positiva, já em curso. São passagens estreitas, incontornáveis na travessia da impostura para a realidade.
Estamos no momento mais agudo da crise. Uma população triste, pessimista, desencantada. Cair na real cobra o preço da angústia pelo que está por vir. E, no entanto, estamos mudando para melhor, enfrentando a devastação do passado e o desmoronamento das vãs promessas sobre o futuro embutidas no estelionato eleitoral, confrontados à justa medida de nossas possibilidades presentes. Um novo país, redimensionado, está nascendo de sua própria crise.
É esse país em crise, confrontado às suas insuficiências, que vai receber os Jogos. A imprensa internacional tem nos pintado com as cores do inferno, talvez espelhando nossos próprios policiais que assim se apresentaram no aeroporto para receber os turistas. A voz da nossa depressão ecoa esse coral de Cassandras. O jornal “The New York Times” anunciou uma “catástrofe olímpica” e ilustrou a matéria com a foto de uma menina miserável que dorme na rua. Poderia ter sido fotografada em Nova York ou em qualquer outra grande cidade, o que em nada atenua o horror de sua miséria. A menina ilustra o desvalimento, nossa vergonhosa dívida social, não prenuncia uma catástrofe olímpica. Nos Estados Unidos, durante as Olimpíadas de Atlanta, os homeless também não encontraram um teto.
É preciso cuidado para que a voz da depressão não comece a nos autodescrever como um inferno que não somos. Tampouco somos um paraíso, já que o paraíso há muito desertou as grandes metrópoles do mundo. E não só elas.
Não se improvisa uma cidade e um país inexistentes. Assim como em crises individuais mobilizamos recursos que não pensávamos ter, no plano coletivo também dispomos de recursos insuspeitados que saberemos mobilizar. A voz da depressão joga contra, não colabora. Melhor que se cale.
Findos os Jogos, que chegam como uma festa surreal em que os convidados desembarcam em uma casa semidemolida por um imprevisto terremoto, mais do que antes seremos confrontados ao que é o nosso verdadeiro desafio: renascer de nossa própria crise, pôr de pé um país que faça sentido. Fazer sentido é de fato um fazer, o sentido não é dado. Esse fazer será a tocha que, depois dos Jogos, continuaremos a passar de mão em mão.
Fonte: O Globo (16/07/16)


sábado, 30 de abril de 2016

Agonia de uma lenda (Rosiska Darcy de Oliveira)

Brasil está sendo passado a limpo pelo trabalho da Justiça, as instituiçõesestão funcionando
Acontece no Brasil algo tão transformador quanto a luta contra a corrupção. É o desmascaramento da mentira como instrumento de governo, da ficção como prática política.
A investigação conduzida pela operação Lava-Jato nos trouxe de volta ao mundo real. Revelou mais do que um gigantesco crime organizado por um partido político, acumpliciado com empresários inescrupulosos. Desvelou o caráter impostor de lideranças que abusaram durante anos da confiança de seus eleitores. Com a mão direita, ofereciam Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, políticas necessárias e louváveis. Com a mão esquerda, assaltavam a Petrobras, destruíam a golpes de desonestidade e incompetência a economia do país, gerando desemprego, o que realimenta a pobreza. Enquanto enriqueciam suas contas bancárias. No botim do PT brilha, roubada, a esperança dos pobres. E isso é o mais imperdoável.
Investigado por crime de ocultação de patrimônio, o ex-presidente Lula foi para as ruas reavivar sua lenda e, com gestos histriônicos, garantir que o perseguem porque “eles” não querem que os pobres melhorem de vida.
Quem são eles, esses personagens da ficção de Lula? Os milhões de brasileiros que país afora saíram às ruas contra a corrupção? São milhões de malvados, reacionários e egoístas? Nessa ficção de péssima qualidade, o justo precisa dos maus, precisa de um algoz para ser vítima.
A varinha de condão do pai dos pobres transforma, então, as manifestações contra a corrupção e o fracasso do governo em artimanha da direita. Divide o país entre direita e esquerda, retrocedendo em meio século a nossa história, desqualifica o que hoje emerge com força: a consciência democrática, que abriga esquerda, direita e demais as nuances de opinião, contanto que respeitem a lei.
A ficção que Lula e seu partido escrevem sobre si mesmos, com a assessoria do ilusionista João Santana, que já está preso, não resiste à capacidade de discernimento que a população brasileira desenvolveu nos últimos anos. O aumento da escolaridade, a informação ampliada, o debate intenso nas redes sociais e a retroalimentação desses fatores amadureceram uma sociedade com senso crítico, capaz de formar, por si mesma, suas convicções. Depois de tantos anos jogando com a fé cega de seu eleitorado, é difícil para o ex-presidente admitir que o encanto tenha se quebrado.
Seu partido, na ficção, mantém viva a esquerda brasileira. Na vida real, matou-a. O que a direita não tinha conseguido fazer ele fez. Jogou na vala comum da criminalidade uma causa generosa que ainda mobiliza muitos militantes honestos, hoje atarantados, como mobilizou a minha geração na luta contra a ditadura, fundadores cuja memória o PT desrespeitou, frequentando doleiros e offshore. Acordou uma direita adormecida há três décadas, que encontrou nos seus desmandos o argumento fácil para abrir uma brecha no espectro político até então blindado a ela.
Acuado pelos próprios fracassos, escuda-se no papel de defensor dos pobres. Ora, não são os ideais de justiça, de combate à pobreza e de equidade — que não são propriedade de nenhum partido — que estão em causa. É um sistema de poder que, construído sobre a mentira, nas últimas eleições se elegeu prometendo o que sabia impossível cumprir. E não cumpriu.
Quem ganha com o descrédito dessa ficção não são os políticos de oposição, é o Brasil. O Brasil que está sendo passado a limpo pelo trabalho da Justiça, um país onde as instituições estão funcionando, apesar do baile de fantasmas que ainda dançam no Congresso Nacional e que, na mira dos juízes, têm seus dias contados.
Esses tempos de tensão e desavenças são o preço que a sociedade está pagando pelo difícil enfrentamento da verdade, pela agonia da lenda. São as dores do parto de um novo país. Duas grandes manifestações pacíficas, cada uma juntando milhões de pessoas, deram um relevante testemunho sobre a solidez da nossa democracia.
Essa jovem democracia quer viver na realidade. Esquerda e direita são categorias anacrônicas que não dão conta do mundo contemporâneo. Vai ser preciso encarnar o desejo de uma sociedade mais justa em ideias e propostas que leiam nossa sociedade atual e, sobretudo, em uma gente nova que está emergindo dos milhões que desfilaram nas ruas no dia 13 de março, que não foram guiados por ninguém e sequer abriram espaço aos velhos políticos de oposição. Não seguiam líderes, apenas exprimiam um tributo merecido à coragem do juiz Sérgio Moro.
A mentira tem autoria, serve ao seu autor. O fato é o autor da verdade. E a verdade serve a todos.
Fonte: O globo (26/04/16)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Agonia de uma lenda (Rosiska Darcy de Oliveira)

Brasil está sendo passado a limpo pelo trabalho feito pelo Judiciário. Acontece no Brasil algo tão transformador quanto a luta contra a corrupção. É o desmascaramento da mentira como instrumento de governo, da ficção como prática política.
A investigação conduzida pela operação Lava-Jato nos trouxe de volta ao mundo real. Revelou mais do que um gigantesco crime organizado por um partido político, acumpliciado com empresários inescrupulosos. Desvelou o caráter impostor de lideranças que abusaram durante anos da confiança de seus eleitores. Com a mão direita, ofereciam Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, políticas necessárias e louváveis. Com a mão esquerda, assaltavam a Petrobras, destruíam a golpes de desonestidade e incompetência a economia do país, gerando desemprego, o que realimenta a pobreza. Enquanto enriqueciam suas contas bancárias. No botim do PT brilha, roubada, a esperança dos pobres. E isso é o mais imperdoável.
Investigado por crime de ocultação de patrimônio, o ex-presidente Lula foi para as ruas reavivar sua lenda e, com gestos histriônicos, garantir que o perseguem porque “eles” não querem que os pobres melhorem de vida.
Quem são eles, esses personagens da ficção de Lula? Os milhões de brasileiros que país afora saíram às ruas contra a corrupção? São milhões de malvados, reacionários e egoístas? Nessa ficção de péssima qualidade, o justo precisa dos maus, precisa de um algoz para ser vítima.
A varinha de condão do pai dos pobres transforma, então, as manifestações contra a corrupção e o fracasso do governo em artimanha da direita. Divide o país entre direita e esquerda, retrocedendo em meio século a nossa história, desqualifica o que hoje emerge com força: a consciência democrática, que abriga esquerda, direita e demais as nuances de opinião, contanto que respeitem a lei.
A ficção que Lula e seu partido escrevem sobre si mesmos, com a assessoria do ilusionista João Santana, que já está preso, não resiste à capacidade de discernimento que a população brasileira desenvolveu nos últimos anos. O aumento da escolaridade, a informação ampliada, o debate intenso nas redes sociais e a retroalimentação desses fatores amadureceram uma sociedade com senso crítico, capaz de formar, por si mesma, suas convicções. Depois de tantos anos jogando com a fé cega de seu eleitorado, é difícil para o ex-presidente admitir que o encanto tenha se quebrado.
Seu partido, na ficção, mantém viva a esquerda brasileira. Na vida real, matou-a. O que a direita não tinha conseguido fazer ele fez. Jogou na vala comum da criminalidade uma causa generosa que ainda mobiliza muitos militantes honestos, hoje atarantados, como mobilizou a minha geração na luta contra a ditadura, fundadores cuja memória o PT desrespeitou, frequentando doleiros e offshore. Acordou uma direita adormecida há três décadas, que encontrou nos seus desmandos o argumento fácil para abrir uma brecha no espectro político até então blindado a ela.
Acuado pelos próprios fracassos, escuda-se no papel de defensor dos pobres. Ora, não são os ideais de justiça, de combate à pobreza e de equidade — que não são propriedade de nenhum partido — que estão em causa. É um sistema de poder que, construído sobre a mentira, nas últimas eleições se elegeu prometendo o que sabia impossível cumprir. E não cumpriu.
Quem ganha com o descrédito dessa ficção não são os políticos de oposição, é o Brasil. O Brasil que está sendo passado a limpo pelo trabalho da Justiça, um país onde as instituições estão funcionando, apesar do baile de fantasmas que ainda dançam no Congresso Nacional e que, na mira dos juízes, têm seus dias contados.
Esses tempos de tensão e desavenças são o preço que a sociedade está pagando pelo difícil enfrentamento da verdade, pela agonia da lenda. São as dores do parto de um novo país. Duas grandes manifestações pacíficas, cada uma juntando milhões de pessoas, deram um relevante testemunho sobre a solidez da nossa democracia.
Essa jovem democracia quer viver na realidade. Esquerda e direita são categorias anacrônicas que não dão conta do mundo contemporâneo. Vai ser preciso encarnar o desejo de uma sociedade mais justa em ideias e propostas que leiam nossa sociedade atual e, sobretudo, em uma gente nova que está emergindo dos milhões que desfilaram nas ruas no dia 13 de março, que não foram guiados por ninguém e sequer abriram espaço aos velhos políticos de oposição. Não seguiam líderes, apenas exprimiam um tributo merecido à coragem do juiz Sérgio Moro.
A mentira tem autoria, serve ao seu autor. O fato é o autor da verdade. E a verdade serve a todos.
(*) Rosiska Darcy de Oliveira é escritora
Fonte: O Globo (26/03/16)

domingo, 26 de abril de 2015

A implacável lógica da mentira (Rosiska Darcy de Oliveira)





A mentira tem uma lógica implacável. Só é possível mantê-la graças a mais mentiras. Essas mentiras a mais vão exigir, para que não sejam descobertas, uma cadeia de novas mentiras. A mentira é um poço sem fundo. Com o tempo, ela invade tudo e passa a alimentar-se a si mesma.

Para o mentiroso, o hábito da mentira acaba por transformá-la na sua verdade. Ele se sente injustiçado quando o acusam de mentir. O impostor que se apresenta como herói sofre quando lhe dizem que ele não é senão um impostor.

Foi essa logica diabólica que enredou o Partido dos Trabalhadores desde que suas lideranças começaram a mentir.

Seus militantes negam as acusações de corrupção sabendo que elas são verdadeiras. Confrontados a provas irrefutáveis, alegam estar a serviço de uma causa nobre — são os únicos que estão verdadeiramente do lado dos pobres — o que, na linha dos fins que justificam os meios, os absolveria. Argumento tragicômico. A causa dos pobres é a primeira vítima dos desvios de dinheiro público.

Protegem-se das críticas repetindo a arenga da “esquerda” contra a “direita”. E a “direita” amalgamaria todos que não compram a versão dos heróis ofendidos.

Que esquerda é essa que o PT estaria encarnando? O que o partido fundado por grandes brasileiros, como Mario Pedrosa e Paulo Freire, fez de si mesmo, seu colapso ético que desrespeitou um passado honroso e o comprometeu com uma corrupção sistêmica, não lhe autoriza a invocar o monopólio da preocupação com os mais pobres e do projeto de assegurar a todos os meios de sua dignidade.

Somos muitos no Brasil os herdeiros de um princípio de solidariedade e de igualdade, que um dia definiu a esquerda. Somos muitos, ancorados em uma consciência democrática, a honrar essa herança sem renunciar à inegociável liberdade.

À esquerda de quem estão os tesoureiros presidiários? O dossiê judiciário que se acumula contra seus dirigentes coloca o partido não à esquerda, porem à margem. Na marginalidade.

Que direita é essa com que nos assombram? A estratégia petista para manter seu poder tem sido promover a radicalização ideológica. Ameaçando as ruas com supostos exércitos do MST, pela provocação acordam fantasmas adormecidos, dando-lhes um protagonismo que já não têm. Esses fantasmas de uma volta ao passado servem então de espantalho e fica mais fácil dizer “quem não está conosco está com eles”. O amálgama desqualifica, por contágio, todos que se opõem aos seus desígnios.

A esmagadora maioria dos que hoje contestam o PT não é “direitista”. São brasileiros que querem que as instituições funcionem bem, em particular a Justiça. São pessoas que ganham a vida com o seu trabalho e a quem, por isso mesmo, a corrupção repugna. Que se preocupam, sim, com políticas que combatem a pobreza e pedem serviços públicos decentes que seus impostos pagam, bem sabendo que a corrupção é o buraco negro que suga os recursos do país.

Não se referem a doutrinas, nem à esquerda nem à direita, referem-se à vida real, querem um governo competente, querem liberdade de expressão para formar livremente sua opinião, querem respeito.

Cansaram da coleção de bonés contraditórios do ex-presidente Lula, da metamorfose ambulante, da farsa dos punhos fechados desses “prisioneiros políticos” de si mesmos, de seu próprio governo. Cansaram das promessas de campanha viradas pelo avesso, dos atos esquizofrênicos em defesa da Petrobras convocados pelos que quase a destruíram. Cansaram da mentira.

Os que se comportaram como donos do Estado quiseram também arvorar-se em donos da sociedade, tentando encapsulá-la nas fronteiras estreitas de movimentos sociais e organizações populares hoje a seu serviço mais do que da expressão autônoma de direitos e identidades. Inútil; a sociedade em sua diversidade é muito mais complexa e insubmissa do que organizações que se tornaram paragovernamentais.

A população brasileira não está dividida pela oposição esquerda e direita. Na nossa democracia cabem todos os atores políticos que se exprimam no marco da legalidade constitucional. O que não cabe mais é a corrupção se intitulando política. E, pior, mais cinicamente, revolucionária. O que não cabe mais é a impostura.

O dicionário “Aurélio” oferece várias definições da impostura, todas em torno da mentira, do embuste, da falsa superioridade. A última a define como o “farrapo que se prende ao anzol para engodar os peixes”. Engodar é seduzir com falsas promessas. O ex-presidente Lula está programando uma viagem pelo Brasil para falar às “bases”. E se os peixes não vierem?

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora
Fonte: O Globo (25/04/15)

sábado, 20 de julho de 2013

O novo atrapalha a teoria (Rosiska Darcy de Oliveira)



Cabe às autoridades identificar quem pratica atos criminosos, dizer à população quem são, impedir sua ação. Confundir os manifestantes com os baderneiros é dar ganho de causa a esses criminosos

No quebra-quebra da última quarta-feira no Leblon e em Ipanema, arruaceiros infiltrados em uma manifestação pacífica conseguiram envenená-la. Eram poucos, o estrago foi imenso. Os manifestantes são agora acusados por autoridades de serem manipulados, o que esvazia sua autenticidade e desvia o conteúdo das demandas da rua para a querela personalista. Como se as ruas nada fossem senão marionetes coadjuvantes da tragicomédia partidária. Essa acusação injusta desfigura um movimento cuja causa é nobre.

Os jovens têm o desafio e a responsabilidade de, sem ambiguidades, demarcar-se dos vândalos preservando a lição de democracia que vêm dando ao país. Violência não rima com liberdade.

É difícil entender o novo. O novo atrapalha a teoria.

Quem foi jovem em 68, com saudades de si mesmo, busca similitudes entre os manifestantes de hoje e aqueles de quase meio século atrás. Em vão. Não se é jovem duas vezes, a escultura do tempo é impiedosa. Os jovens de hoje nada têm a ver com aqueles, só a indignação.

Na efervescência em que vive o país, com partidos políticos e sindicatos agonizantes tentando um ultrapassado protagonismo, são os jovens, esses desconhecidos, que esboçam o futuro. Enquanto os partidos se aferram à tomada do poder, eles tomam a palavra e dão exemplo de exercício democrático em que o poder se distribui em múltiplas instâncias de participação.

Quem veio às ruas nesse último mês nasceu depois da queda do muro de Berlim e fez-se adulto quando aluíram as torres gêmeas. Não se define como esquerda ou direita. Não atende a convocatórias de fulano ou beltrano. São cidadãos da nação Facebook, um estado virtual sem fronteiras.

A rede é a grande revolução social que viram nascer e crescer, proeza tecnológica de que são contemporâneos onde se geram os valores de que estão imbuídos: partilha, liberdade de expressão e gratuidade. Diferentes no conteúdo, as manifestações, mundo afora, são similares na forma de organização e expressão porque emergem da cibercultura que é a cultura global contemporânea.

Pós-ideológicos, nossos jovens concentram suas exigências na liberdade, no bem viver e na condenação da corrupção. A liberdade herdada da luta de outras gerações, um patrimônio cujo valor mal avaliam; quando ameaçada, defendem.

Acusados de individualistas, vivem do compartilhamento da informação e, à sua maneira, têm uma vida em comum, posta a nu e acessível a todos, fazendo da transparência uma regra que querem válida em todos os espaços. Daí a ojeriza às zonas de sombra, à trapaça, que consideram a regra do jogo partidário.

Criados na liberdade de expressão absoluta, tocando às vezes as raias da irresponsabilidade, a irreverência juvenil encontrou na rede seu instrumento ideal, que lhes garante não só o direito de se exprimir, mas sobretudo o de ser ouvido, quiçá por milhões de interlocutores.

A gratuidade que experimentam no consumo dos bens culturais disponíveis na rede — ou o que percebem como tal, apesar de essa gratuidade ter valido ao criador do Facebook uma das maiores fortunas do mundo — se traduz na demanda radical de um mundo sem dono. Na contramão do “tudo tem seu preço”, a juventude “face” tudo disponibiliza, o que é seu e o que é dos outros, tem uma espantosa intimidade com a ideia de que tudo lhe pertence e de graça. O que exacerba sua indignação quando privada daquilo pelo que paga, ou pagam seus pais sob a forma de impostos.

São contra escolas sucateadas, a doença da saúde pública, a infelicidade feliciana e o transporte que não chega a lugar nenhum. Sua meta-demanda é o fim da corrupção. Não merecem a pecha de apolíticos. A rede não os faz individualistas, e sim autônomos e conectados. Capta e traz à tona, na palavra de cada um, tendências de opinião, cria solidariedades que se inscrevem nos seus cartazes.

Sua mobilização instantânea e geométrica provocou um curto-circuito no enferrujado motor das máquinas partidárias que entraram em pane e em pane continuam. Envelheceram no diálogo de surdos com essa população, esmagadoramente jovem, que de repente entrou em cena.

Considere-se um progresso, um retrocesso ou um progresso que contém riscos, nada muda o fato que as redes existem, são um ator político relevante, o Ágora da Pólis do século XXI.

Não há que pôr a culpa nos jovens. Cabe às autoridades identificar quem pratica atos criminosos, dizer à população quem são, impedir sua ação. Confundir os manifestantes com os baderneiros é dar ganho de causa a esses criminosos que tentam, na multidão, se confundir com eles.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Fonte: O Globo

sábado, 13 de outubro de 2012

Primavera da democracia (Rosiska Darcy de Oliveira)

 Sem demérito para Freixo a votação de Paes confirmou o bom governo. Em contraponto, a pífia votação da dupla Maia/ Garotinho fala por si

Este mês de outubro será lembrado como o tempo de uma revolução de valores que está mudando o país, trazendo à tona uma nova ideia de democracia e de política, herança bendita de um julgamento exemplar e de um processo eleitoral sem falhas.

Há muito tempo amadurece na sociedade brasileira uma exigência ética ao mesmo tempo em que empalidece o mito da corrupção como fato cultural. Ocaso de Macunaíma, decadência dos heróis sem nenhum caráter. O movimento da Ficha Limpa e o julgamento do mensalão vertebraram, com valores, a democracia.

Ao condenar o núcleo político do mensalão, o Supremo Tribunal Federal se situa na ponta de um outro Brasil, possível, em que negros e mulheres são ministros, que se orgulha de seus juízes e que aprendeu que um crime é um crime, poderosos podem ir para a cadeia e que nem tudo está a venda ou pode ser comprado.

Joaquim Barbosa fez história, inaugurando o futuro. Embora ferido pela dor, encontrou em si a energia para, em perfeita sintonia com seus pares, redimir a Justiça. Arrancou da areia movediça uma nação em que a corrupção se autoabsolvia como banal e a democracia era vulnerável ao engenho da criminalidade.

Todos assistimos em tempo real à Suprema Corte sinalizar para os tribunais, governos e sociedade o fim da impunidade de que a corrupção se nutre. Ayres Britto acertou no alvo quando, ao votar pela condenação, lembrou que o que os acusados roubavam era o voto popular. A população foi se aproximando da Justiça na medida em que obtinha resposta à sua demanda latente por respeito. Hoje chamamos todos os ministros pelo nome com a informalidade de quem os conhece há muitos anos. É que há muitos anos esperávamos por eles.

Feliz coincidência, contemporâneas do julgamento no STF, as eleições municipais revelaram que o bom governo é hoje outra exigência da sociedade. Em quatro grandes capitais — Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre — os candidatos eleitos no primeiro turno, espalhados por diferentes partidos e apoiados pelas mais bizarras coligações, tinham um denominador comum: eram governantes ou apoiados por governantes que tinham bons resultados para apresentar.

Pirotecnias de marqueteiros contaram menos que o posto de saúde, a escola dos filhos ou a ordem urbana. Não se trata de despolitização individualista e sim de uma metapolítica que submete o discurso à prova dos resultados. A população está pagando para ver ou, melhor, querendo ver o que paga com impostos.

A política vai se descolando dos partidos, mundo autista em que políticos anacrônicos, em função de projetos pessoais, improvisam tragicômicas “bases aliadas” na ilusão de que o cabresto partidário e o “toma lá dá cá” durarão para sempre. Para sempre também se acreditava duraria a impunidade. Por isso, no início do julgamento, gargalhavam advogados.

Some-se à Justiça e ao bom governo a mídia atenta à cidade e seus problemas, submetida permanentemente à concorrência da internet em que a informação transbordante e a conversa infinita tornam complexa e imprevisível a formação da opinião. A aparente cacofonia das redes sociais é uma forma contemporânea de participação, espécie de Ágora virtual, para além das praças embandeiradas e dos velhos comícios.

Dessa soma resulta uma democracia que aos trancos e barrancos amadurece, a despeito das malformações que o Brasil já assume, e vai se dando, progressivamente, os instrumentos de correção.

A exigência de eficiência na gestão pública torna obsoletos caciques e salvadores da Pátria, filhos de um tempo em que a população oprimida e desinformada não era capaz de se salvar a si mesma.
O exemplo do Rio de Janeiro é eloquente. Sem demérito para o candidato Marcelo Freixo, cujo respeitável currículo de cidadão e parlamentar foi premiado por quase um milhão de votos, a votação de Eduardo Paes confirmou todo o valor atribuído ao bom governo. Em contraponto, a pífia votação da dupla Maia/Garotinho, quintessência da velha política, fala por si.

Paes sempre se disse feliz por governar a Cidade Maravilhosa. Ela lhe retribuiu à altura. No reverso da medalha que a população colocou em seu peito dando-lhe 65% dos votos está inscrita a responsabilidade não só de assegurar a continuidade das políticas bem-sucedidas, mas também de humanizar a cidade bem acolhendo, enfim, os mais frágeis e invisíveis.

A radiosa primavera da democracia deixa um recado para os candidatos às eleições de 2014: na bolsa dos valores, respeito às leis e bom governo estão em alta. Daqui para a frente, são o melhor investimento.

ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA é escritora.

Fonte: O Globo