Um genial ensaísta, mas franco demais na ficção
| Associated Press |
 |
| Gore Vidal, emfoto de 1977, mostra seu romance "Myron", lançado três anos antes |
STUART JEFFRIES
STEPHEN MOSS
DO "GUARDIAN"
RESUMO
Ele amava os Kennedy, detestava Truman Capote e dizia já ter dormido com mil homens e mulheres antes dos 25.
De A a Z, um percurso pelo pensamento do intelectual que agitou os fatos
e a ficção do século 20 e que, morto no dia 1º, deixou uma irônica
imagem não só dos EUA, mas também da alta e da baixa cultura.
*
A DE AMÉRICA
Gore Vidal descrevia sua pátria como os Estados Unidos da Amnésia. Ao
longo de toda sua vida ele denunciou o que via como sendo a traição dos
princípios fundadores da nação. "Os EUA foram fundados pelas pessoas
mais inteligentes do país --e não as vimos mais desde então", ele disse
certa vez.
"O Congresso já não declara guerra nem redige orçamentos. Isso é o fim
da Constituição como máquina funcional." Ele também tinha pouca
consideração pelo cargo de presidente, pelo menos quando o cargo não
estava sendo ocupado por um Kennedy, declarando: "Qualquer americano que
se disponha a concorrer à Presidência deveria automaticamente, por
definição, ser desqualificado como candidato."
|
Robyn Beck - 5.out.06/France Presse |
|
 |
| O escritor norte-americano Gore Vidal, morto no dia 1º de agosto, em foto feita Los Angeles, em outubro de 2006 |
Gore Vidal disse ao "Times" três anos atrás que os EUA "estão
apodrecendo em ritmo funéreo. Daqui a pouco teremos uma ditadura
militar, já que ninguém mais consegue manter tudo sob controle." Havia
um tom de alegria sardônica nas críticas ásperas que Vidal fazia aos
EUA: ontem o obituarista do "New York Times" o acusou de "presidir com
certo prazer sobre o que declarava ser o fim da civilização americana".
B DE BUSH
Não é surpreendente, portanto, que ele detestasse George W. Bush. Na
verdade, Vidal afirmou que os ataques terroristas de 11 de setembro de
2001 aconteceram porque a administração Bush foi "incompetente" e o
próprio Bush foi "inativo e inoportuno". A "Vanity Fair" se recusou a
publicar um ensaio que ele escreveu, tecendo reflexões sobre os ataques.
Em outro ensaio, este publicado pelo "Independent", Vidal comparou os
ataques ao ataque japonês a Pearl Harbour, argumentando que os dois
presidentes, Franklin D. Roosevelt e Bush, sabiam deles de antemão e
aproveitaram os desastres para promover suas agendas. "Deveríamos parar
de falar baboseiras sobre sermos a maior democracia do mundo, quando nem
sequer somos uma democracia. Somos uma espécie de república
militarizada."
C DE CAPOTE
Nem todos os alvos que Vidal atacava eram políticos. Ele teve uma
vendeta prolongada com o também escritor Truman Capote. É possível que
tenha sido Capote quem a começou. Ele deu uma entrevista dizendo que
Gore Vidal tinha sido expulso da Casa Branca por estar bêbado e brigar
com a mãe de Jackie Onassis. Vidal processou Capote por calúnia, e os
dois trocaram insultos no tribunal. Vidal sugeriu que Capote tinha
"elevado a mentira à condição de arte --uma arte menor". Capote
retrucou: "Sempre fico triste quando penso em Gore.
Muito triste que ele tenha que respirar todos os dias." Os dois fecharam
um acordo extrajudicial, mas a vendeta deles continuou, mesmo após a
morte de Capote. Depois de seu arqui-inimigo morrer, em 1984, Vidal o
insultou uma última vez, dizendo que sua carreira tinha sido "uma boa
iniciativa profissional".
D DE DEMOCRACIA
Vidal era cético em relação à democracia em geral ("parece que um país
democrático é um lugar onde são realizadas muitas eleições, a um custo
elevado, sem questões substantivas discutidas e com candidatos
intercambiáveis") e a sua encarnação americana em especial ("de quatro
em quatro anos, a metade ingênua [da população] que vota é incentivada a
acreditar que, se pudermos eleger um homem ou mulher realmente
simpático para presidente, tudo ficará bem. Mas não ficará.").
E DE ENSAIOS
Gore Vidal foi melhor ensaísta que romancista. Isso é dado como certo
nos círculos da crítica literária atuais, e será preciso um revisionista
prodigioso para defender os romances bombásticos de Vidal e inverter a
visão prevalecente. Martin Amis, que tem pouca paciência com Vidal, o
romancista, reconheceu a glória dos ensaios espirituosos, eruditos e
aforísticos do autor. "Ele é bom nos ensaios", disse Amis. "É erudito,
divertido e excepcionalmente perspicaz. Mesmo seus pontos cegos são
esclarecedores." O dramaturgo David Hare disse hoje que Vidal "não tinha
um único osso fictício em seu corpo" mas era "ensaísta genial".
Vidal era franco demais, excessivamente afeito a expressar suas opiniões
próprias, para ser um grande escritor de ficção, gênero no qual é
preciso que muitos pontos de vista sejam representados. Ele sabia onde
se situava, jamais se desviou de seu compromisso jeffersoniano com a
liberdade individual, e encontrou no ensaio a forma ideal na qual
expressar suas posições. Sua coletânea de 1993 "United States: Essays
1952-1992" é um compêndio imenso e majestoso que mapeia não apenas sua
própria vida bombástica e cheia de percalços, mas também a cultura e
política do país que ele era capaz de amar e odiar na mesma sentença.
Vidal sempre prometeu que não escreveria um livro de memórias --acabou
cedendo, mas foi tarde demais para escrever uma grande autobiografia-- e
via seus ensaios como uma alternativa, um repositório de seu humor, sua
sabedoria e, por vezes, seu veneno.
"United States: Essays 1952-1992", que lhe valeu o National Book Award
de não ficção nos Estados Unidos, tem 1.300 páginas e contém 114 ensaios
sobre temas tão diversos quanto Oscar Wilde, a legalização das drogas, a
vida na Mongólia e o jornalista H.L. Mencken --ídolo de Gore Vidal por
toda sua vida, e exceção rara à sua declaração de que "o jornalismo
sempre foi a carreira preferida pelo profissional ambicioso, mas
preguiçoso e de segunda categoria". Há também várias coletâneas menores,
principalmente de seus ensaios posteriores, e "A View from the Diner's
Club", publicado em 1991, é o lugar ideal para um novato começar.
Publicado originalmente em seu amado "New York Review of Books", seu
ensaio longo sobre a escritora americana Dawn Powell é erudito, charmoso
e inteiramente convincente na defesa que faz de uma romancista em
grande medida esquecida. Seu ensaio de 1989 sobre Orson Welles, seu
amigo, é engraçado a ponto de arrancar gargalhadas do leitor. Gore Vidal
sabia fazer qualquer voz que quisesse. O que é preciso agora é uma
coletânea definitiva dos ensaios -- nem mesmo o enorme "United States:
Essays 1952-1992" abrange todos. Aconteça o que acontecer com os
romances, os ensaios precisam sempre continuar disponíveis. Gore Vidal
foi o Montaigne dos Estados Unidos.
F DE FELLINI
Vidal adorava aparecer em pontas em filmes e na televisão. Certa vez,
apareceu como simulacro animado dele mesmo em "Os Simpsons", ao lado dos
escritores Tom Wolfe, Michael Chabon, John Updike e outros; ele também
se representou em "Family Guy" e fez o papel de um senador americano no
filme "Bob Roberts", de Tim Robbins. Ele atuou na ficção científica
"Gattaca", de 1997, com Uma Thurman e Ethan Hawke. Sua aparição final no
cinema foi como apresentador de um programa de entrevistas no filme
"Shrink", de 2009, sobre um psicólogo que trata estrelas de Hollywood.
Mas sua ponta mais importante talvez tenha sido feita em 1972, quando
apareceu em "Roma", de seu amigo Federico Fellini. Fellini o queria no
filme porque Vidal estava vivendo em Roma desde o início dos anos 1960 e
era muito conhecido no cenário literário. A participação do escritor é
mais memorável pelo fato de que, por uma vez em sua vida, a eloquência
de Vidal foi definitivamente deixada em segundo plano. "Eu estava no
meio da tomada cinco quando um caos pareceu ter se criado atrás de nós",
Vidal recordou.
"Olhei para trás. E ali estavam quatro dos mais lindos cavalos brancos,
puxando uma carroça vazia. 'Freddie', eu disse, 'o que diabos é isso?'
'Não sei, Gordino. É bonito. Você não acha bonito?'... Ele não parava de
acrescentar coisas à cena, então tirava as coisas, e finalmente os
cavalos se foram. De repente me dei conta de que não tinha importância o
que eu dissesse, que eu poderia dizer qualquer bobagem em minha suposta
entrevista e que não teria importância, porque eu fazia parte da
composição dele."
G DE GORE
Quem foi ele? "Sou exatamente como aparento ser", ele disse certa vez.
"Não existe nenhuma pessoa calorosa e amável aqui dentro. Por baixo de
minha fachada fria, quando você quebra o gelo, vai encontrar água fria."
O romancista Ítalo Calvino, seu amigo, insistia que Gore Vidal não
tinha inconsciente. Vidal satirizou a monstruosidade de sua própria
vaidade, sem inteiramente enfraquecê-la. "No íntimo, sou propagandista,
alguém que odeia tremendamente, um chato cansativo, complacentemente
seguro de que não existe problema humano que não poderia ser resolvido
se as pessoas simplesmente fizessem o que eu aconselho", ele disse ao
"Guardian" em 2005.
H DE HOMOSSEXUALISMO
"Não existe pessoa homossexual ou heterossexual", ele argumentou.
"Existem apenas atos homo ou heterossexuais. A maioria das pessoas é uma
mistura de impulsos, mesmo que não de práticas." Em seu livro de
memórias, "Palimpsesto", ele afirmou que aos 25 anos de idade já tinha
tido mais de mil encontros sexuais com homens e mulheres, tendendo mais
ao que chamava de "sexo com o mesmo sexo".
I DE ITÁLIA
Gore Vidal viveu por muitos anos num refúgio no alto de uma montanha em
Ravello, na costa amalfitana, até sua saúde fragilizada o impedir de
caminhar nas colinas. Em 2003, mudou-se para Hollywood Hills, em Los
Angeles.
J DE JACK KEROUAC
Vidal dizia ter tido um caso breve com o escritor beat. Em
"Palimpsesto", recorda-se de ter descoberto, "para meu espanto", que
Kerouac era circuncidado. Foi Capote, não Vidal, quem cunhou a frase
mais ferina para fazer pouco caso do trabalho obra de Kerouac: "Isso não
é escrever, é datilografar".
K DE KENNEDY
Vidal nunca se cansou de nos falar sobre seus amigos famosos. Seus dois
livros de memórias --"Palimpsesto" e sua sequência, "Point To Point
Navigation", publicado em 2006-- descrevem suas amizades com Eleanor
Roosevelt, a princesa Margaret e Leonard Bernstein. Ele foi amigo de
John Kennedy e era parente de Jackie Kennedy. "É sempre delicado",
escreveu certa vez, "quando um amigo ou conhecido vira presidente."
L DE LOVE
"O amor não é meu negócio", ele insistiu. Isso dito, viveu por 53 anos
com o ex-publicitário Howard Austen. A chave do relacionamento deles,
como Vidal disse repetidas vezes a entrevistadores, é que eles nunca
dormiram juntos. Austen foi sepultado no cemitério Rockcreek, em
Washington, em 2003. Vidal disse que queria ser cremado e que suas
cinzas fossem colocadas perto de seu companheiro de tantos anos.
"Dividimos um lote no cemitério, e eu estarei lá", disse Vidal a um
entrevistador. "E vou estar ansioso por revê-lo."
M DE MAILER
Vidal e o escritor Norman Mailer tiveram uma longa vendeta literária.
Mailer deu um soco em Vidal numa festa, levando Vidal a retorquir: "Mais
uma vez as palavras faltam a Norman". Mailer também teria dado uma
cabeçada em Vidal antes de um programa de TV, depois de Vidal o ter
comparado ao infame assassino Charles Manson.
N DE NARRATIVA
Vidal escreveu 25 romances. O terceiro, "The City and the Pillar",
lançado em 1948, era a história de um jovem belo e atlético que sai do
armário e, Vidal alegou mais tarde, foi colocado numa lista negra pelo
establishment crítico e literário. "Vendi 1 milhão de cópias, e isso
causou muita angústia ao 'New York Times'", ele disse. O ostracismo do
livro fez com que ficasse tão difícil para Vidal ter suas obras
resenhadas que ele assumiu o pseudônimo Edgar Box numa série de romances
policiais. Mais tarde, abriu mão dos romances por algum tempo para
escrever para o teatro, a televisão e Hollywood.
Em 1956 a MGM o contratou como roteirista; entre outros projetos, ele
ajudou a reescrever o roteiro de "Ben Hur", embora não tenha figurado
nos créditos oficiais. Ele também escreveu o roteiro para a adaptação ao
cinema da peça "Suddenly, Last Summer", de seu amigo Tennessee
Williams.
Nos anos 1960 Vidal voltou a escrever ficção, produzindo uma série de
best-sellers: "Julian" (1964), sobre o imperador romano que quis
restaurar o paganismo; "Washington, DC" (1967), a primeira de suas
crônicas fictícias da história americana, e "Myra Breckinridge" (1968).
Em seu livro "The Western Canon", o crítico Harold Bloom cita "Myra
Breckinridge" como obra que integra o cânone.
O DE OKLAHOMA
Gore Vidal criou um laço incomum com o autor do ataque terrorista em
Oklahoma City, Timothy McVeigh. Depois do artigo de 1998 na "Vanity
Fair" em que Vidal afirmou que a Carta dos Direitos dos EUA tinha sido
rasgada, os dois trocaram cartas, e a amizade entre eles inspirou a peça
"Terre Haute", de Edmund White. "Ele é muito inteligente. Não é
insano", disse Vidal, a respeito de McVeigh. Em "Perpetual War for
Perpetual Peace: How We Got to Be So Hated", Vidal argumenta que tanto
os atentados de Oklahoma quanto os ataques de 11 de setembro foram
provocados por "as agressões insensatas de nosso governo a outras
sociedades".
P DE POLÍTICA
Vidal candidatou-se a um cargo eleito em duas ocasiões: uma vez ao
Congresso, em 1960, no interior de Nova York, e uma vez ao Senado na
Califórnia, em 1982. Perdeu as duas vezes, mas na disputa de 1960,
obteve mais votos que qualquer democrata no distrito nos 50 anos
anteriores.
*Q DE QUEER [VEADO]*
Nos anos 1960, o colunista conservador William F. Buckley certa vez
chamou Gore Vidal de "veado" na televisão ao vivo. A discussão foi
assim: Buckley comparou os manifestantes contra a guerra do Vietnã a
nazistas. "Quanto a mim", Vidal retrucou, "o único pró ou criptonazista
que me vem à mente é você". "Ouça aqui, seu veado", disse Buckley. "Pare
de me chamar de criptonazista ou eu lhe darei um soco na cara. Estive
na infantaria na última guerra." "Não esteve", Vidal retorquiu. "Estive,
sim." "Não esteve."
Vidal achou que ganhou esse e todos os outros duelos de TV dos quais
participou: "Quero dizer, eu ganhei as discussões, não há dúvida
alguma", ele disse em entrevista à CNN em 2007. "Fizeram pesquisas de
opinião, foi a ABC Television. Como sou escritor, as pessoas pensam que
sou um coitadinho frágil. Não sou coitadinho, não sou frágil. E qualquer
pessoa que me insultar vai levar o troco na hora."
R DE RELIGIÃO
"O grande mal indecente que está ao cerne de nossa cultura é o
monoteísmo. Três religiões anti-humanas se desenvolveram a partir de um
texto bárbaro da idade do bronze conhecido como o Velho Testamento: o
judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de um deus celeste.
São, literalmente, patriarcais --Deus é o Pai Onipotente--, e é essa a
razão do ódio às mulheres ao longo de 2.000 anos nos países que sofrem a
influência do deus celeste e seus representantes terrenos do sexo
masculino. O deus celeste é um deus ciumento, é claro.
Ele exige obediência total de todos na terra, já que ele manda não
apenas numa tribo, mas em toda a criação. Aqueles que quiserem
rejeitá-lo devem ser convertidos ou mortos, para seu próprio bem. Em
última análise, o totalitarismo é o único tipo de política que pode
realmente atender aos objetivos do deus celeste." Em outra ocasião Vidal
disse: "Deus é um chantagista".
S DE SUCESSO
"Cada vez que um amigo meu faz sucesso, eu morro um pouquinho." Em outra
ocasião, Vidal disse: "Não basta ter sucesso. É preciso que outros
fracassem."
T DE TELEVISÃO
Vidal dizia que a televisão não é para ser vista, mas para se aparecer
nela. Pautou-se cuidadosamente por sua própria prescrição, comentando:
"Nunca perco uma oportunidade de fazer sexo ou de aparecer na
televisão".
*U DE UPBRINGING [EDUCAÇÃO]*
Vidal recebeu o nome Eugene Luther Gore Vidal em função de seu pai, o
tenente Eugene Luther Vidal, mas "livrou-se" dos dois primeiros nomes
aos 14 anos. Antes de fazer carreira no exército, Vidal, pai, foi um
atleta que recebeu uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1920, na
Antuérpia. "Nós nos conhecemos por 43 anos, não concordávamos sobre
nada, mas nunca brigamos", disse seu filho.
"Apenas homens são capazes disso. As mulheres não são." Quando sua mãe,
Nina Gore, se casou outra vez, Vidal dividiu um padrasto com Jacqueline
Kennedy Onassis. Ele detestava sua mãe ("bêbados não são grande coisa
como companhia"), mas adorava seu avô. "Ele era cego, e por isso, a
partir dos 10 anos de idade, eu lia para ele. Lia trechos do registro do
Congresso, textos de história americana, de poesia", contou Vidal. "Ele
era muito bom, era extraordinário, ele foi minha educação."
V DE VIDAL
Gore Vidal não tinha parentesco com Vidal Sassoon. Mas Al Gore era um primo distante.
*W DE "WATERSHIP DOWN" *
"Gore Vidal está sendo entrevistado no 'Start the Week' ao lado de
Richard Adams (autor de 'Watership Down'). Perguntam a Adams o que ele
achou do novo romance de Vidal sobre Lincoln. 'Achei chamativo, mas sem
valor real.' 'É mesmo?' diz Gore. 'Bem, um ano novo feliz, chamativo e
sem valor real para você.' É assim que se faz." (De "Writing Home", de
Alan Bennett, anotação de 25 de setembro de 1984.)
X DE X-RATED
Vidal recebeu críticas negativas por dois filmes proibidos para menores
aos quais esteve ligado. "Homem e Mulher Até Certo Ponto", de Michael
Sarne, baseado em "Myra Breckinridge", romance de 1968 de Vidal, foi um
desastre de bilheteria, apesar da participação de Raquel Welch, sendo em
pouco tempo classificado como um dos piores filmes de todos os tempos.
Mais tarde, Vidal moveu uma ação, sem sucesso, para ter seu nome tirado
dos créditos de "Calígula" (1979) como roteirista, depois de o produtor
do filme, o publisher da revista "Penthouse", Bob Guccione, ter
acrescentado cenas pornográficas.
Y DE YELLOW
"In a Yellow Wood" (1947), o segundo romance de Vidal, escrito quando
ele tinha 22 anos, foi inspirado no primeiro verso do poema "The Road
Not Taken", de Robert Frost ("Two roads diverged in a yellow wood..."). É
sobre um homem que retorna da guerra e se torna corretor em Wall
Street, mas continua assombrado pelas recordações das noites de amor
passadas com sua amante italiana na guerra.
Quando a fogosa Carla reaparece inesperadamente, saída de seu passado,
Robert tem que escolher entre a convenção e o caminho sofrido do amor e
da liberdade. Vidal dedicou o livro a Anais Nin, que, para ele,
personificava Carla. Mas tarde, porém, disse que o livro era tão ruim
que ele não suportava relê-lo.
Z DE ZOROASTRO
O protagonista de "Creation", romance épico que Vidal lançou em 1981, é
Cyrus Spitama, um diplomata persa aquemênida do século 5 a.C. e neto de
Zoroastro. Ele viaja pelo mundo conhecido, comparando as crenças
políticas e religiosas de vários Estados-nações da época. Ao longo de
sua vida, Cyrus encontra muitas figuras filosóficas influentes de seu
tempo, incluindo seu avô (fundador do zoroastrismo), Sócrates, Buda,
Mahavira, Lao-Tsé e Confúcio.
É um livro grande, ambicioso e pouco lido hoje em que os sistemas
políticos e religiosos da época são comparados de modo dramático. E
também nos faz recordar um episódio de "Os Simpsons" em que Lisa segura
um livro intitulado "Tome", de Gore Vidal. "Estes são meus únicos
amigos", ela se queixa. "Nerds adultos, como Gore Vidal. E até mesmo
Gore Vidal já beijou mais garotos que eu jamais vou beijar." "Garotas,
Lisa, garotas", a corrige sua mãe, a moralista Marge.
Tradução de CLARA ALLAIN.
FOLHA DE S.PAULO
05/08/2012