terça-feira, 7 de agosto de 2012

Musa da pilhagem (Renato Lessa)

O finado Dr. Marx, em um de seus mais inspirados momentos, descreveu e analisou, na célebre oitava seção do primeiro livro de seu O Capital, o que denominou como o processo de "acumulação primitiva de capital". Páginas luminosas; não faria mal as ler quinzenalmente. Com efeito, qualquer que seja o juízo que se faça, hoje, a respeito das benesses ou desgraças do capitalismo, o bom senso recomenda reconhecer que a coisa começou pessimamente. Estivessem vigentes, naquela altura, os institutos jurídicos que hoje vigoram nos países por assim dizer democráticos - e capitalistas -, o capitalismo não teria nascido do modo como nasceu. Ou, simplesmente, não teria nascido, posto que barrado algures, em algum STF.

O cenário da acumulação primitiva, tal como hoje é fartamente sabido, exibiu intensa associação entre maximização de ganhos, uso da violência e destituição de uma série de vítimas sociais. O atributo "primitivo" não se deve tanto ao fato óbvio de que isso se deu nos primórdios do capitalismo. O termo pode revelar, ainda, uma forte dissociação entre apetite maximizador e aquilo que, graças a Norbert Elias, podemos designar como "processo civilizador". Tal dissociação esteve presente tanto nos primórdios do capitalismo europeu quanto na contemporânea pujança do capitalismo à brasileira. Somos, por cá e em grande medida, contemporâneos dessa dissociação; os operadores da modernidade são, vez por outra, agentes do primitivismo.

O emblemático personagem que ora reside em presídio vizinho a Brasília, e que dá nome a uma CPI, é um operador exemplar desse apetite infrene dos pioneiros do capital. O drama que protagoniza tem como enredo central o trânsito de dinheiro obtido em circuitos ilegais para o âmbito da, digamos, economia legal. Quer por sua materialização em bens e serviços - por exemplo, mansões e serviços de decoração - ou por sua transformação em "investimento produtivo", configura-se o circuito de uma acumulação que, mais do que "primitiva", aproxima-se do que Max Weber, em dia iluminado, denominou "capitalismo de pilhagem".

Tal processo de acumulação, no entanto, não se limita à lavagem de dinheiro ou ao trânsito de numerário ilegal acumulado para o âmbito da economia legal. Parte considerável, ao que tudo indica, tem como origem recursos públicos, o que não deve surpreender. Se voltarmos ao Dr. Marx, devemos recordar que a toda infraestrutura corresponde uma superestrutura política e jurídica. Em contextos nos quais o estado de direito está implantado de modo mais consistente, tal relação não faz lá muito sentido, mas nesta parte do mundo temo que ainda faça. Faz, ao menos, para os circuitos ilegais. A economia ilegal não prescinde de seus operadores não econômicos, incrustados nos assim chamados Poderes da República.

Vejam só, no Rio de Janeiro, para as eleições deste ano, cerca de 600 policiais e bombeiros inscreveram-se como candidatos a vereador. É forte, para dizer o mínimo, a presença de policiais e bombeiros entre milicianos que infestam as periferias cariocas, e a maioria desses candidatos tem vínculos com áreas tomadas por milícias. O que é isso, senão a tentativa de captura de espaços legais, por parte dos circuitos de pilhagem? O significado sociológico do mandado senatorial de um dos campeões da direita brasileira, posto a serviço do personagem que habita o presídio da Papuda, não tem sentido distinto.

A glamourosa companheira desse notável operador do capitalismo de pilhagem brasileiro deu significativa contribuição ao quadro aqui composto. A tentativa malograda de intimidação de um juiz, com base em ameaça de chantagem, revela um modo preciso de operação, fundado na hipótese - felizmente errada - de que o que conta na vida, para valer, são as ofertas que não podem ser recusadas. Essa lógica tem, necessariamente, implicações penais. Ou seja, seus operadores e agentes são, em termos técnicos rigorosos, "criminosos". Mas não nos iludamos, há mais coisas entre o céu e a terra do que o código penal: há sociologia na coisa, sociologia pesada.

O bom barão de Montesquieu, nos idos do século 18, falava da atividade de ganhar dinheiro como "paixão calma", proporcionada pelo "doce comércio". Com ela, as interações humanas progressivamente deixariam de ser belicosas. Uma doce complementaridade somada à percepção de que precisamos uns dos outros deveria, segundo o barão, orientar nossos interesses privados. Nada de semelhante parece estar presente no campo das relações entre, digamos, a atividade de ganhar dinheiro - ou de acumular - e o âmbito da legalidade no Brasil. As relações são, no mínimo, incertas.

A musa da pilhagem, na tentativa de chantagem ao juiz, é o avesso da "paixão calma". Ao contrário, ela pretende ensinar ao País que ganhar dinheiro exige agressividade e pouca - se alguma - atenção a formalidades. É curioso como, entre nós, "empresários agressivos" passam por personagens virtuosos. A meu juízo, trata-se da única ocupação à qual o atributo "agressivo" soa como adjetivo elogioso. Assim não dá.

* Renato Lessa - é professor titular de teoria política da Universidade Federal Fluminense, pesquisador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, presidente do Instituto Ciência Hoje.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

Quem cala corrompe (José Álvaro Moisés)

"Não tenho vergonha de dizer ao povo brasileiro que temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas..." Lula, em 2005

O escândalo do mensalão em 2005 não impediu que Lula da Silva se reelegesse em 2006 com mais de 60% dos votos. Isso sugere algumas possibilidades: a maioria dos eleitores não estava informada dos fatos; informada ou não, a maioria não estava convencida do envolvimento do presidente; ou a maioria, em qualquer caso, não associou o uso indevido de recursos públicos para fins privados - a corrupção - a crimes políticos passíveis de punição, mesmo o voto sendo o instrumento par excellence dos cidadãos para responsabilizar governos. A cultura política dos brasileiros favorece a corrupção?

A corrupção é um dos problemas mais sérios que assolam as novas e velhas democracias. Envolve o abuso do poder público para benefício privado, inclusive vantagens para partidos de governo em detrimento da oposição. Frauda a igualdade política, pois seus protagonistas ganham poder e benefícios políticos incompatíveis com os que alcançariam através de modos legítimos de competir politicamente. Distorce a dimensão republicana da democracia ao fazer as políticas públicas resultarem não da disputa entre projetos diferentes, mas de acordos de bastidores favorecendo interesses espúrios; e assim, afeta a legitimidade da democracia.

Estudos convencionais sustentam que ela deriva do grau de desenvolvimento social e econômico das nações, do seu desenho institucional ou do desempenho de governos; e tratam de consequências sistêmicas negativas como o clientelismo e o nepotismo ou de suas supostas implicações positivas para a estabilidade política em função do engraxamento de estruturas burocráticas que ela facilitaria. Modernização e desenvolvimento são vistos como condição necessária para inocular o sistema político de crimes contra o interesse público. Sociedades menos desenvolvidas ou de experiência democrática insuficiente tenderiam a não distinguir entre pagamentos legítimos e prebendas ilegais nas relações entre agentes públicos e privados e estimulariam a tolerância social diante de comportamentos antirrepublicanos, tornando letra morta o primado da lei.

Sistemas democráticos competitivos colocam o comportamento de burocratas e políticos sob vigilância dos eleitores. A associação entre indicadores de liberdades civis e políticas e a percepção da corrupção, baseada em índices internacionais agregados, varia, mas a longevidade da democracia e a liberdade de imprensa asseguram a responsabilização de políticos corruptos. Não impedem a existência da corrupção, mas oferecem alternativas para a sociedade punir os responsáveis.

Esses estudos contribuíram para o conhecimento do problema, mas não abordaram a influência da cultura política ao lado de outros fatores que afetam a qualidade da democracia. Estudos recentes sobre a América Latina estão mudando isso. Após a democratização, escândalos de corrupção atingiram a Argentina de Carlos Menem, o Peru de Alberto Fujimori e Alan García, o México de José Lopez Portillo e Carlos Salinas de Gortari, o Equador de Abdala Bucaram e a Venezuela de Rafael Caldera e Carlos Andrés Pérez, este, apeado do poder, como Collor de Mello, por um impeachment motivado por uso ilegal de recursos públicos. A corrupção foi associada a três fatores principais: oportunidades criadas pela dispersão de poder com mais agentes transacionando favores públicos em troca de benefícios privados; reformas neoliberais que ampliaram o poder dos agentes sobre bens como empresas públicas e aumentado as oportunidades de negociações espúrias; e emergência de lideranças personalistas e carismáticas levadas ao governo pela mobilização de massas através da TV.

Campanhas eleitorais caras com o uso da TV e do marketing exigem recursos só alcançáveis pela promessa de favores a financiadores privados. Isso teria levado os partidos a recorrer a mecanismos como o caixa 2 ou os chamados gastos eleitorais não contabilizados, como dirigentes do PT tentaram justificar o uso ilegal de recursos privados no Brasil. Análises da percepção do fenômeno na América Latina confirmaram que países desenvolvidos têm índices mais baixos de corrupção que os menos desenvolvidos, mas isso não explica por que Argentina, Brasil, México e Venezuela são classificados pela Transparência Internacional como muito corruptos. O advento da democracia per se, e mesmo sua continuidade, não garantem o controle da corrupção. O caráter endêmico do fenômeno sugere que, ao lado do aperfeiçoamento de mecanismos institucionais, a cultura política também conta.

As experiências neopopulistas na região com lideranças personalistas e carismáticas estimulando a relação direta entre líderes e eleitores, desqualificando mecanismos de fiscalização como parlamentos e tribunais de conta, sugerem isso. Mas o Brasil não seria passível dessa distorção da democracia, segundo analistas. Seu desenvolvimento econômico e institucional e suas políticas sociais teriam criado condições para a estabilidade política e, aparentemente, menor influência de práticas neopopulistas. O argumento pode ser testado pelo exame do papel da cultura política na continuidade da corrupção. Qual era a percepção dos brasileiros dos fatos quando ocorreram as denúncias do mensalão? Como a opinião pública avaliou a corrupção em momentos-chave da história política como 1993 e 2006, ou seja, um ano após os dois mais importantes casos recentes, o de Collor de Mello em 2002 e o de Lula da Silva em 2005?

As questões envolvem os valores e atitudes dos eleitores diante do abuso do poder. Associada ao exercício do direito de voto, a accountability vertical depende de que as pessoas sejam capazes de identificar se a corrupção existe. É o ponto de partida da decisão de continuar convivendo com políticos que praticam a corrupção ou puni-los em defesa dos interesses públicos. Em 2005, pesquisas mostraram que 58% dos entrevistados tinham conhecimento das denúncias de corrupção envolvendo o governo Lula e 78% acreditavam que o presidente tinha muita ou alguma responsabilidade nos fatos, embora muitos não vissem seu envolvimento direto. Em 2006 os entrevistados consideraram que a situação da corrupção no país tinha piorado não só no governo de Collor, mas também no de Lula em comparação com os dos antecessores. Minhas pesquisas de 2006 incluíram perguntas sobre a corrupção e os resultados mostraram uma relativa aceitação social dela no País. O que explica isso?

Desenvolvimento, desempenho institucional e a ação de governos são determinantes daquela aceitação, mas também a cultura política. Em regiões menos desenvolvidas a aceitação da noção "rouba, mas faz" foi maior, assim como entre os menos escolarizados, mas, mais importante, entre os que avaliaram positivamente o governo Lula. Os conservadores quanto ao papel do Estado diante das desigualdades sociais e econômicas também apoiavam o rouba, mas faz, e só os favoráveis a valores democráticos ou que rechaçaram a volta de alternativas autoritárias eram contra. Ou seja, a aceitação social da corrupção era maior nas regiões menos desenvolvidas, entre os politicamente autoritários, socialmente conservadores e os satisfeitos com o governo Lula. A aceitação da corrupção afeta a adesão à democracia, a confiança nas instituições democráticas ou a participação política?

As análises mostraram que afeta negativamente, ao contrário das avaliações positivas do governo e da economia. A aceitação da corrupção também se associou às opiniões favoráveis a que os presidentes deixem de lado as leis e o Congresso Nacional em situações de crise, à volta dos militares ao poder, à adoção de um sistema de partido único no País e a maiores índices de desconfiança nas instituições públicas.

Esses traços da cultura política impactam a qualidade da democracia ao comprometer a adesão ao regime, estimular a aceitação de escolhas autoritárias e inibir a participação política. Aceitar a corrupção faz as pessoas admitirem que a lei pode ser fraudada, que sua capacidade de fazer valer direitos inexiste e que os rumos da política não mudam nunca. Mas a experiência de democracias consolidadas mostra que a cultura política não é imutável: ela se transforma sob o impacto de mudanças sociais, desempenho de instituições como o STF e, principalmente, o exemplo e a responsabilidade de líderes políticos e de partidos. No Brasil, contudo, como ficou claro no caso de Lula, do PT e de outros partidos, esse é um dos elos de que padece a democracia.

* José Álvaro Moisés - é professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e autor do E-Book O Papel do Congresso Nacional no Presidencialismo de Coalizão. Este texto é resumo de um capítulo do livro A Desconfiança Política e os seus Impactos na Qualidade da Democracia - O Caso do Brasil (EDUSP, 2012, NO PRELO)

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

domingo, 5 de agosto de 2012

Gore Vidal de "A" a "Z" ( STUART JEFFRIES/STEPHEN MOSS)


Um genial ensaísta, mas franco demais na ficção 

Associated Press
Gore Vidal, emfoto de 1977, mostra seu romance "Myron", lançado três anos antes
Gore Vidal, emfoto de 1977, mostra seu romance "Myron", lançado três anos antes


STUART JEFFRIES
STEPHEN MOSS
DO "GUARDIAN"

 RESUMO

Ele amava os Kennedy, detestava Truman Capote e dizia já ter dormido com mil homens e mulheres antes dos 25.

De A a Z, um percurso pelo pensamento do intelectual que agitou os fatos e a ficção do século 20 e que, morto no dia 1º, deixou uma irônica imagem não só dos EUA, mas também da alta e da baixa cultura.

*
A DE AMÉRICA

Gore Vidal descrevia sua pátria como os Estados Unidos da Amnésia. Ao longo de toda sua vida ele denunciou o que via como sendo a traição dos princípios fundadores da nação. "Os EUA foram fundados pelas pessoas mais inteligentes do país --e não as vimos mais desde então", ele disse certa vez.

"O Congresso já não declara guerra nem redige orçamentos. Isso é o fim da Constituição como máquina funcional." Ele também tinha pouca consideração pelo cargo de presidente, pelo menos quando o cargo não estava sendo ocupado por um Kennedy, declarando: "Qualquer americano que se disponha a concorrer à Presidência deveria automaticamente, por definição, ser desqualificado como candidato."


Robyn Beck - 5.out.06/France Presse
O escritor norte-americano Gore Vidal, morto no dia 1º de agosto, em foto feita Los Angeles, em outubro de 2006
O escritor norte-americano Gore Vidal, morto no dia 1º de agosto, em foto feita Los Angeles, em outubro de 2006

Gore Vidal disse ao "Times" três anos atrás que os EUA "estão apodrecendo em ritmo funéreo. Daqui a pouco teremos uma ditadura militar, já que ninguém mais consegue manter tudo sob controle." Havia um tom de alegria sardônica nas críticas ásperas que Vidal fazia aos EUA: ontem o obituarista do "New York Times" o acusou de "presidir com certo prazer sobre o que declarava ser o fim da civilização americana".
 
B DE BUSH

Não é surpreendente, portanto, que ele detestasse George W. Bush. Na verdade, Vidal afirmou que os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 aconteceram porque a administração Bush foi "incompetente" e o próprio Bush foi "inativo e inoportuno". A "Vanity Fair" se recusou a publicar um ensaio que ele escreveu, tecendo reflexões sobre os ataques. Em outro ensaio, este publicado pelo "Independent", Vidal comparou os ataques ao ataque japonês a Pearl Harbour, argumentando que os dois presidentes, Franklin D. Roosevelt e Bush, sabiam deles de antemão e aproveitaram os desastres para promover suas agendas. "Deveríamos parar de falar baboseiras sobre sermos a maior democracia do mundo, quando nem sequer somos uma democracia. Somos uma espécie de república militarizada."
 
C DE CAPOTE

Nem todos os alvos que Vidal atacava eram políticos. Ele teve uma vendeta prolongada com o também escritor Truman Capote. É possível que tenha sido Capote quem a começou. Ele deu uma entrevista dizendo que Gore Vidal tinha sido expulso da Casa Branca por estar bêbado e brigar com a mãe de Jackie Onassis. Vidal processou Capote por calúnia, e os dois trocaram insultos no tribunal. Vidal sugeriu que Capote tinha "elevado a mentira à condição de arte --uma arte menor". Capote retrucou: "Sempre fico triste quando penso em Gore.

Muito triste que ele tenha que respirar todos os dias." Os dois fecharam um acordo extrajudicial, mas a vendeta deles continuou, mesmo após a morte de Capote. Depois de seu arqui-inimigo morrer, em 1984, Vidal o insultou uma última vez, dizendo que sua carreira tinha sido "uma boa iniciativa profissional".
 
D DE DEMOCRACIA

Vidal era cético em relação à democracia em geral ("parece que um país democrático é um lugar onde são realizadas muitas eleições, a um custo elevado, sem questões substantivas discutidas e com candidatos intercambiáveis") e a sua encarnação americana em especial ("de quatro em quatro anos, a metade ingênua [da população] que vota é incentivada a acreditar que, se pudermos eleger um homem ou mulher realmente simpático para presidente, tudo ficará bem. Mas não ficará.").
 
E DE ENSAIOS

Gore Vidal foi melhor ensaísta que romancista. Isso é dado como certo nos círculos da crítica literária atuais, e será preciso um revisionista prodigioso para defender os romances bombásticos de Vidal e inverter a visão prevalecente. Martin Amis, que tem pouca paciência com Vidal, o romancista, reconheceu a glória dos ensaios espirituosos, eruditos e aforísticos do autor. "Ele é bom nos ensaios", disse Amis. "É erudito, divertido e excepcionalmente perspicaz. Mesmo seus pontos cegos são esclarecedores." O dramaturgo David Hare disse hoje que Vidal "não tinha um único osso fictício em seu corpo" mas era "ensaísta genial".

Vidal era franco demais, excessivamente afeito a expressar suas opiniões próprias, para ser um grande escritor de ficção, gênero no qual é preciso que muitos pontos de vista sejam representados. Ele sabia onde se situava, jamais se desviou de seu compromisso jeffersoniano com a liberdade individual, e encontrou no ensaio a forma ideal na qual expressar suas posições. Sua coletânea de 1993 "United States: Essays 1952-1992" é um compêndio imenso e majestoso que mapeia não apenas sua própria vida bombástica e cheia de percalços, mas também a cultura e política do país que ele era capaz de amar e odiar na mesma sentença.

Vidal sempre prometeu que não escreveria um livro de memórias --acabou cedendo, mas foi tarde demais para escrever uma grande autobiografia-- e via seus ensaios como uma alternativa, um repositório de seu humor, sua sabedoria e, por vezes, seu veneno.

"United States: Essays 1952-1992", que lhe valeu o National Book Award de não ficção nos Estados Unidos, tem 1.300 páginas e contém 114 ensaios sobre temas tão diversos quanto Oscar Wilde, a legalização das drogas, a vida na Mongólia e o jornalista H.L. Mencken --ídolo de Gore Vidal por toda sua vida, e exceção rara à sua declaração de que "o jornalismo sempre foi a carreira preferida pelo profissional ambicioso, mas preguiçoso e de segunda categoria". Há também várias coletâneas menores, principalmente de seus ensaios posteriores, e "A View from the Diner's Club", publicado em 1991, é o lugar ideal para um novato começar.

Publicado originalmente em seu amado "New York Review of Books", seu ensaio longo sobre a escritora americana Dawn Powell é erudito, charmoso e inteiramente convincente na defesa que faz de uma romancista em grande medida esquecida. Seu ensaio de 1989 sobre Orson Welles, seu amigo, é engraçado a ponto de arrancar gargalhadas do leitor. Gore Vidal sabia fazer qualquer voz que quisesse. O que é preciso agora é uma coletânea definitiva dos ensaios -- nem mesmo o enorme "United States: Essays 1952-1992" abrange todos. Aconteça o que acontecer com os romances, os ensaios precisam sempre continuar disponíveis. Gore Vidal foi o Montaigne dos Estados Unidos.
 
F DE FELLINI

Vidal adorava aparecer em pontas em filmes e na televisão. Certa vez, apareceu como simulacro animado dele mesmo em "Os Simpsons", ao lado dos escritores Tom Wolfe, Michael Chabon, John Updike e outros; ele também se representou em "Family Guy" e fez o papel de um senador americano no filme "Bob Roberts", de Tim Robbins. Ele atuou na ficção científica "Gattaca", de 1997, com Uma Thurman e Ethan Hawke. Sua aparição final no cinema foi como apresentador de um programa de entrevistas no filme "Shrink", de 2009, sobre um psicólogo que trata estrelas de Hollywood.

Mas sua ponta mais importante talvez tenha sido feita em 1972, quando apareceu em "Roma", de seu amigo Federico Fellini. Fellini o queria no filme porque Vidal estava vivendo em Roma desde o início dos anos 1960 e era muito conhecido no cenário literário. A participação do escritor é mais memorável pelo fato de que, por uma vez em sua vida, a eloquência de Vidal foi definitivamente deixada em segundo plano. "Eu estava no meio da tomada cinco quando um caos pareceu ter se criado atrás de nós", Vidal recordou.

"Olhei para trás. E ali estavam quatro dos mais lindos cavalos brancos, puxando uma carroça vazia. 'Freddie', eu disse, 'o que diabos é isso?' 'Não sei, Gordino. É bonito. Você não acha bonito?'... Ele não parava de acrescentar coisas à cena, então tirava as coisas, e finalmente os cavalos se foram. De repente me dei conta de que não tinha importância o que eu dissesse, que eu poderia dizer qualquer bobagem em minha suposta entrevista e que não teria importância, porque eu fazia parte da composição dele."
 
G DE GORE

Quem foi ele? "Sou exatamente como aparento ser", ele disse certa vez. "Não existe nenhuma pessoa calorosa e amável aqui dentro. Por baixo de minha fachada fria, quando você quebra o gelo, vai encontrar água fria." O romancista Ítalo Calvino, seu amigo, insistia que Gore Vidal não tinha inconsciente. Vidal satirizou a monstruosidade de sua própria vaidade, sem inteiramente enfraquecê-la. "No íntimo, sou propagandista, alguém que odeia tremendamente, um chato cansativo, complacentemente seguro de que não existe problema humano que não poderia ser resolvido se as pessoas simplesmente fizessem o que eu aconselho", ele disse ao "Guardian" em 2005.
 
H DE HOMOSSEXUALISMO

"Não existe pessoa homossexual ou heterossexual", ele argumentou. "Existem apenas atos homo ou heterossexuais. A maioria das pessoas é uma mistura de impulsos, mesmo que não de práticas." Em seu livro de memórias, "Palimpsesto", ele afirmou que aos 25 anos de idade já tinha tido mais de mil encontros sexuais com homens e mulheres, tendendo mais ao que chamava de "sexo com o mesmo sexo".
 
I DE ITÁLIA

Gore Vidal viveu por muitos anos num refúgio no alto de uma montanha em Ravello, na costa amalfitana, até sua saúde fragilizada o impedir de caminhar nas colinas. Em 2003, mudou-se para Hollywood Hills, em Los Angeles.
 
J DE JACK KEROUAC

Vidal dizia ter tido um caso breve com o escritor beat. Em "Palimpsesto", recorda-se de ter descoberto, "para meu espanto", que Kerouac era circuncidado. Foi Capote, não Vidal, quem cunhou a frase mais ferina para fazer pouco caso do trabalho obra de Kerouac: "Isso não é escrever, é datilografar".
 
K DE KENNEDY

Vidal nunca se cansou de nos falar sobre seus amigos famosos. Seus dois livros de memórias --"Palimpsesto" e sua sequência, "Point To Point Navigation", publicado em 2006-- descrevem suas amizades com Eleanor Roosevelt, a princesa Margaret e Leonard Bernstein. Ele foi amigo de John Kennedy e era parente de Jackie Kennedy. "É sempre delicado", escreveu certa vez, "quando um amigo ou conhecido vira presidente."

L DE LOVE
 
"O amor não é meu negócio", ele insistiu. Isso dito, viveu por 53 anos com o ex-publicitário Howard Austen. A chave do relacionamento deles, como Vidal disse repetidas vezes a entrevistadores, é que eles nunca dormiram juntos. Austen foi sepultado no cemitério Rockcreek, em Washington, em 2003. Vidal disse que queria ser cremado e que suas cinzas fossem colocadas perto de seu companheiro de tantos anos. "Dividimos um lote no cemitério, e eu estarei lá", disse Vidal a um entrevistador. "E vou estar ansioso por revê-lo."

M DE MAILER
 
Vidal e o escritor Norman Mailer tiveram uma longa vendeta literária. Mailer deu um soco em Vidal numa festa, levando Vidal a retorquir: "Mais uma vez as palavras faltam a Norman". Mailer também teria dado uma cabeçada em Vidal antes de um programa de TV, depois de Vidal o ter comparado ao infame assassino Charles Manson.
 
N DE NARRATIVA

Vidal escreveu 25 romances. O terceiro, "The City and the Pillar", lançado em 1948, era a história de um jovem belo e atlético que sai do armário e, Vidal alegou mais tarde, foi colocado numa lista negra pelo establishment crítico e literário. "Vendi 1 milhão de cópias, e isso causou muita angústia ao 'New York Times'", ele disse. O ostracismo do livro fez com que ficasse tão difícil para Vidal ter suas obras resenhadas que ele assumiu o pseudônimo Edgar Box numa série de romances policiais. Mais tarde, abriu mão dos romances por algum tempo para escrever para o teatro, a televisão e Hollywood.

Em 1956 a MGM o contratou como roteirista; entre outros projetos, ele ajudou a reescrever o roteiro de "Ben Hur", embora não tenha figurado nos créditos oficiais. Ele também escreveu o roteiro para a adaptação ao cinema da peça "Suddenly, Last Summer", de seu amigo Tennessee Williams.

Nos anos 1960 Vidal voltou a escrever ficção, produzindo uma série de best-sellers: "Julian" (1964), sobre o imperador romano que quis restaurar o paganismo; "Washington, DC" (1967), a primeira de suas crônicas fictícias da história americana, e "Myra Breckinridge" (1968). Em seu livro "The Western Canon", o crítico Harold Bloom cita "Myra Breckinridge" como obra que integra o cânone.
 
O DE OKLAHOMA

Gore Vidal criou um laço incomum com o autor do ataque terrorista em Oklahoma City, Timothy McVeigh. Depois do artigo de 1998 na "Vanity Fair" em que Vidal afirmou que a Carta dos Direitos dos EUA tinha sido rasgada, os dois trocaram cartas, e a amizade entre eles inspirou a peça "Terre Haute", de Edmund White. "Ele é muito inteligente. Não é insano", disse Vidal, a respeito de McVeigh. Em "Perpetual War for Perpetual Peace: How We Got to Be So Hated", Vidal argumenta que tanto os atentados de Oklahoma quanto os ataques de 11 de setembro foram provocados por "as agressões insensatas de nosso governo a outras sociedades".
 
P DE POLÍTICA

Vidal candidatou-se a um cargo eleito em duas ocasiões: uma vez ao Congresso, em 1960, no interior de Nova York, e uma vez ao Senado na Califórnia, em 1982. Perdeu as duas vezes, mas na disputa de 1960, obteve mais votos que qualquer democrata no distrito nos 50 anos anteriores.

*Q DE QUEER [VEADO]*

Nos anos 1960, o colunista conservador William F. Buckley certa vez chamou Gore Vidal de "veado" na televisão ao vivo. A discussão foi assim: Buckley comparou os manifestantes contra a guerra do Vietnã a nazistas. "Quanto a mim", Vidal retrucou, "o único pró ou criptonazista que me vem à mente é você". "Ouça aqui, seu veado", disse Buckley. "Pare de me chamar de criptonazista ou eu lhe darei um soco na cara. Estive na infantaria na última guerra." "Não esteve", Vidal retorquiu. "Estive, sim." "Não esteve."

Vidal achou que ganhou esse e todos os outros duelos de TV dos quais participou: "Quero dizer, eu ganhei as discussões, não há dúvida alguma", ele disse em entrevista à CNN em 2007. "Fizeram pesquisas de opinião, foi a ABC Television. Como sou escritor, as pessoas pensam que sou um coitadinho frágil. Não sou coitadinho, não sou frágil. E qualquer pessoa que me insultar vai levar o troco na hora."
 
R DE RELIGIÃO

"O grande mal indecente que está ao cerne de nossa cultura é o monoteísmo. Três religiões anti-humanas se desenvolveram a partir de um texto bárbaro da idade do bronze conhecido como o Velho Testamento: o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de um deus celeste. São, literalmente, patriarcais --Deus é o Pai Onipotente--, e é essa a razão do ódio às mulheres ao longo de 2.000 anos nos países que sofrem a influência do deus celeste e seus representantes terrenos do sexo masculino. O deus celeste é um deus ciumento, é claro.

Ele exige obediência total de todos na terra, já que ele manda não apenas numa tribo, mas em toda a criação. Aqueles que quiserem rejeitá-lo devem ser convertidos ou mortos, para seu próprio bem. Em última análise, o totalitarismo é o único tipo de política que pode realmente atender aos objetivos do deus celeste." Em outra ocasião Vidal disse: "Deus é um chantagista".
 
S DE SUCESSO

"Cada vez que um amigo meu faz sucesso, eu morro um pouquinho." Em outra ocasião, Vidal disse: "Não basta ter sucesso. É preciso que outros fracassem."
 
T DE TELEVISÃO

Vidal dizia que a televisão não é para ser vista, mas para se aparecer nela. Pautou-se cuidadosamente por sua própria prescrição, comentando: "Nunca perco uma oportunidade de fazer sexo ou de aparecer na televisão".

*U DE UPBRINGING [EDUCAÇÃO]*

Vidal recebeu o nome Eugene Luther Gore Vidal em função de seu pai, o tenente Eugene Luther Vidal, mas "livrou-se" dos dois primeiros nomes aos 14 anos. Antes de fazer carreira no exército, Vidal, pai, foi um atleta que recebeu uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1920, na Antuérpia. "Nós nos conhecemos por 43 anos, não concordávamos sobre nada, mas nunca brigamos", disse seu filho.

"Apenas homens são capazes disso. As mulheres não são." Quando sua mãe, Nina Gore, se casou outra vez, Vidal dividiu um padrasto com Jacqueline Kennedy Onassis. Ele detestava sua mãe ("bêbados não são grande coisa como companhia"), mas adorava seu avô. "Ele era cego, e por isso, a partir dos 10 anos de idade, eu lia para ele. Lia trechos do registro do Congresso, textos de história americana, de poesia", contou Vidal. "Ele era muito bom, era extraordinário, ele foi minha educação."
 
V DE VIDAL

Gore Vidal não tinha parentesco com Vidal Sassoon. Mas Al Gore era um primo distante.
*W DE "WATERSHIP DOWN" *

"Gore Vidal está sendo entrevistado no 'Start the Week' ao lado de Richard Adams (autor de 'Watership Down'). Perguntam a Adams o que ele achou do novo romance de Vidal sobre Lincoln. 'Achei chamativo, mas sem valor real.' 'É mesmo?' diz Gore. 'Bem, um ano novo feliz, chamativo e sem valor real para você.' É assim que se faz." (De "Writing Home", de Alan Bennett, anotação de 25 de setembro de 1984.)
 
X DE X-RATED

Vidal recebeu críticas negativas por dois filmes proibidos para menores aos quais esteve ligado. "Homem e Mulher Até Certo Ponto", de Michael Sarne, baseado em "Myra Breckinridge", romance de 1968 de Vidal, foi um desastre de bilheteria, apesar da participação de Raquel Welch, sendo em pouco tempo classificado como um dos piores filmes de todos os tempos. Mais tarde, Vidal moveu uma ação, sem sucesso, para ter seu nome tirado dos créditos de "Calígula" (1979) como roteirista, depois de o produtor do filme, o publisher da revista "Penthouse", Bob Guccione, ter acrescentado cenas pornográficas.
 
Y DE YELLOW

"In a Yellow Wood" (1947), o segundo romance de Vidal, escrito quando ele tinha 22 anos, foi inspirado no primeiro verso do poema "The Road Not Taken", de Robert Frost ("Two roads diverged in a yellow wood..."). É sobre um homem que retorna da guerra e se torna corretor em Wall Street, mas continua assombrado pelas recordações das noites de amor passadas com sua amante italiana na guerra.

Quando a fogosa Carla reaparece inesperadamente, saída de seu passado, Robert tem que escolher entre a convenção e o caminho sofrido do amor e da liberdade. Vidal dedicou o livro a Anais Nin, que, para ele, personificava Carla. Mas tarde, porém, disse que o livro era tão ruim que ele não suportava relê-lo.
 
Z DE ZOROASTRO

O protagonista de "Creation", romance épico que Vidal lançou em 1981, é Cyrus Spitama, um diplomata persa aquemênida do século 5 a.C. e neto de Zoroastro. Ele viaja pelo mundo conhecido, comparando as crenças políticas e religiosas de vários Estados-nações da época. Ao longo de sua vida, Cyrus encontra muitas figuras filosóficas influentes de seu tempo, incluindo seu avô (fundador do zoroastrismo), Sócrates, Buda, Mahavira, Lao-Tsé e Confúcio.

É um livro grande, ambicioso e pouco lido hoje em que os sistemas políticos e religiosos da época são comparados de modo dramático. E também nos faz recordar um episódio de "Os Simpsons" em que Lisa segura um livro intitulado "Tome", de Gore Vidal. "Estes são meus únicos amigos", ela se queixa. "Nerds adultos, como Gore Vidal. E até mesmo Gore Vidal já beijou mais garotos que eu jamais vou beijar." "Garotas, Lisa, garotas", a corrige sua mãe, a moralista Marge.
Tradução de CLARA ALLAIN
FOLHA DE S.PAULO
05/08/2012

O réu ausente no mensalão (Suely Caldas)

No julgamento do mensalão há um ausente no banco dos réus que teria poder de abortar o caso no seu início, mas se omitiu, não cumpriu seu papel e sistematicamente violou a lei entre 2003 e 2005. Trata-se do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), criado em 1998 com a missão específica de identificar transações bancárias suspeitas de lavagem de dinheiro. A legislação obriga os bancos a informarem ao Coaf todas as operações efetuadas em dinheiro vivo - depósitos ou saques - em valores acima de R$ 10 mil. Examinadas as transações, o órgão envia as que julgar suspeitas para o Ministério Público (MP) investigar.

No caso do mensalão, o Coaf escondeu as informações e não as repassou ao MP. Entre julho de 2003 e maio de 2005 as empresas do principal operador do esquema, o publicitário Marcos Valério, realizaram uma centena de saques em dinheiro vivo de valores entre R$ 100 mil e R$ 400 mil, transportados em malas até Brasília e distribuídos a parlamentares que, segundo a acusação, eram indicados pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Uma única notificação chegou ao MP de São Paulo em 2003. Depois, silêncio completo. E nenhuma ao MP de Minas Gerais, de onde saiu o grosso do dinheiro sacado por Valério na agência do Banco Rural em Belo Horizonte.

Se desde o primeiro momento o Coaf informasse as transações suspeitas de Valério e o MP pedisse abertura de inquérito à Polícia Federal, o mensalão teria sido obstruído no nascedouro. Ou o esquema seria obrigado a buscar outros meios de financiamento. "E por que o Coaf não agiu?", indagou a ex-deputada Denise Frossard em ofício dirigido ao então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ao qual o Coaf era subordinado. Recebeu em resposta um convite de visita do ministro da Justiça e hoje advogado de um réu no caso Márcio Thomaz Bastos. Ele prometeu à deputada que o fato não se repetiria porque o Coaf passaria por uma competente reforma. Na Fazenda a conversa com a ex-deputada foi interpretada como um recôndito desejo de Bastos de transferir o Coaf para o Ministério da Justiça. Se verdade é, não conseguiu.

O mensalão teve vertentes, filhotes e desdobramentos que não chegaram a ser apurados. O caso Coaf é um deles. Mas se destaca dos demais pelo importante papel que exerce no aparato policial para investigar crimes de lavagem de dinheiro. Como a investigação começa justamente a partir dele, sua omissão tem o poder de encobrir crimes e criminosos. Por isso não podem pairar dúvidas sobre sua atuação. Ele deveria funcionar no modelo de uma agência reguladora, agir com independência, autonomia e distanciado de más influências do poder político. Mas a realidade é outra.

Em 14 anos de existência, seu balanço apresenta resultados positivos, outros negativos. Ao completar dez anos, em março de 2008, o Coaf divulgou em relatório ter rastreado 686 contas bancárias de 748 pessoas ligadas à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que movimentaram R$ 63 milhões entre 2005 e 2007. A ação do Coaf permitiu à Justiça bloquear R$ 17,7 milhões dos criminosos. Ponto positivo.

Só que os negativos causam um estrago institucional tão nocivo que superam os positivos e comprometem sua credibilidade. E eles têm ocorrido a partir do uso político do órgão e da influência de quem tem poder para mandar. No caso do mensalão isso ficou flagrante: após a primeira notificação sobre as empresas de Valério, o Coaf emudeceu durante dois anos. Em conversa que tivemos em 2008, o advogado Antonio Gustavo Rodrigues, presidente do Coaf desde 2004, não explicou a omissão ao longo de dois anos e tratou de negar influência política: "Nunca sofri pressão política de algum superior, a não ser a interferência do chefe de gabinete do ministro (Palocci) no caso do caseiro".

Mensalão, violação da conta bancária do caseiro Francenildo Costa, saques em dinheiro de R$ 1,75 milhão feitos por dois aloprados do PT para comprar um dossiê falso contra tucanos. Tudo isso aconteceu, mas o Coaf não viu.

Jornalista, é professora de Comunicação da PUC-Rio

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

DEUS ME LIVRE E GUARDE DE VOCÊ (Juca Magalhães)


“Um compositor vienense, dotado de algum mérito mas que não se comparava com Haydn, tinha um prazer especial em encontrar nas composições deste pequenas incorreções. Muitas vezes procurava Mozart para lhe mostrar alegremente onde descobrira algumas negligências de estilo. Mozart tentava sempre mudar de conversa; por fim, não podendo mais, disse-lhe uma vez num tom brusco:

- Senhor, se nos adicionassem aos dois, mesmo assim não achariam ainda com o que fazer um Haydn.”

Stendhal – A Vida de Mozart

Ontem vi pela Internet uma piada dizendo que se atualmente um livro tiver uma página que seja já vai ser grande demais para a molecada ler, mas, afinal, quem é que se importa realmente com a molecada de hoje? Todo intelectual também já foi um garoto boboca que amava os Beatles e os Rolling Stones. (Todo?) Sei lá, a verdade é que uma hora os guris vão amadurecer e querer saber “de qual é” das pessoas que abriram os caminhos; deixa inchar e curtir seus roques, porque quando os hormônios arrepiam os cabelos da nuca a saída é uma só.

Sempre pensei e alardeei não me importar muito com as aparências, a sinceridade acachapante é uma das mais famosas características dos sagitarianos típicos como eu. Não a enxergo como um defeito, mas como a afirmação autóctone de um modus vivendi. Sou observador, mas frequentemente deixo escapar coisas óbvias; sou assim como todo mundo é; ou quase todos instintivamente ingênuos. Nossa mente nos sabota. Nesse instante mesmo, há pelo menos umas três ou quatro outras coisas bem mais importantes a fazer do que estar escrevendo este texto e, no entanto...


Por serem basicamente diferentes de mim, as pessoas que se preocupam como serão julgadas pelos outros despertam minha aversão profunda, até mesmo certo desprezo; simplesmente porque sempre achei mais gostoso, digamos assim, me lixar pro que pensariam ou deixariam de pensar de minha gloriosa (cujo?) pessoa. Talvez seja uma questão de valores, talvez seja um problema de criação, talvez seja apenas o meu jeito idiota de ser. Mas nada disso é bem verdade, tá legal? No fundo eu me preocupo sim; meu desejo de negar essa atitude é já uma constatação disso.

Estranha e me incomoda quando vejo gente me olhando atravessado, fico encafifado me perguntando do por que. Dentro de mim sinto com absoluta certeza que não fiz nada para aquela pessoa querer me fuzilar sorrindo, sempre esqueço que têm umas três ou quatro que eu também não gosto só porque “não fui com a cara”. A diferença é que se alguém me incomoda eu não dou conta de disfarçar, quero logo “falar umas verdades”, distribuir uns coices de centauro e sair de perto, mas tem muita gente que não nos suporta justamente por não conseguir deixar de orbitar...

Então é um saco aquela pessoa cujo (cujo?) único assunto é falar mal de outra, que se corrói por dentro quando vê algo bem feito, que se diverte e até fica feliz exaltando o erro de quem está dando a cara à tapa. Justamente aquele tipo de pessoa idiota de corpo e alma que não traz nada de relevante pra cena, e se tentou não conseguiu e então passou a viver de produzir e disseminar veneno e mendigar amizades traiçoeiras. Gente vampirizante assim é preciso ter bem longe, mas é como falei: elas se achegam; porque precisam sugar a vitalidade dos que estão vivos, dos que estão fazendo o que elas não têm nem coragem, nem competência pra fazer.

Termino então com o “Tema do Cadinho”, uma REZA da sacrossanta Rita Lee para desbaratinar e espanar pra bem longe essa inhaca de mau olhado...


Deus me proteja da sua inveja
Deus me defenda da sua macumba
Deus me salve da sua praga
Deus me ajude da sua raiva
Deus me imunize do seu veneno
Deus me poupe do seu fim

Deus me acompanhe
Deus me ampare
Deus me levante
Deus me dê força

Deus me perdoe por querer
Que Deus me livre e guarde de você

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O julgamento da História (Demétrio Magnoli)

"O mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil", segundo a definição do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, no seu memorial conclusivo, começa a ser julgado hoje pelo STF. A palavra "história" está um tanto desgastada. Quase tudo, de casamentos de celebridades a jogos de futebol, é rotineiramente declarado "histórico". O adjetivo, contudo, deve ser acoplado ao julgamento do mensalão - e num duplo sentido. A Corte Suprema está julgando os perpetradores de uma tentativa de supressão da independência do Congresso Nacional e, ao mesmo tempo, dará um veredicto sobre um tipo especial de corrupção, que almeja a legitimidade pela invocação da História (com H maiúsculo).

Silvio Pereira, o "Silvinho Land Rover", então secretário-geral do PT, tornou-se uma figura icônica do mensalão, pois, ao receber o veículo, conferiu ao episódio uma simplória inteligibilidade: corruptos geralmente obtêm acesso a "bens de prazer" e a "bens de prestígio" em troca de sua contribuição para os esquemas criminosos. No caso, porém, o ícone mais confunde do que esclarece. "Vivo há 28 anos na mesma casa em São Paulo, me hospedo no mesmo hotel simples há mais de 20 anos em Brasília, cidade onde trabalho de segunda a sexta", disse em sua defesa José Genoino, então presidente do PT e avalista dos supostos empréstimos multimilionários tomados pelo partido.

Genoino quer, tanto por motivos judiciais quanto políticos, separar sua imagem da de Silvinho - e não mente quando aborda o tema da honestidade pessoal. Os arquitetos principais do núcleo partidário do mensalão não operavam um esquema tradicional de corrupção, destinado a converter recursos públicos em patrimônios privados. Eles pretendiam enraizar um sistema de poder, produzindo um consenso político de longo alcance. O episódio deveria ser descrito como um acidente necessário de percurso na trajetória de consolidação da nova elite política petista.

José Dirceu, o "chefe da quadrilha", opera atualmente como lobista de grandes interesses empresariais, não compartilha o estilo de vida monástico de Genoino, mas também não parece ter auferido vantagens pecuniárias diretas no episódio em julgamento. O então poderoso chefe da Casa Civil comandou o esquema de aquisição em massa de parlamentares com o propósito de assegurar a navegação de Lula nas águas incertas de um Congresso sem maioria governista estável. Dirceu conduziu a perigosa aventura em nome dos interesses gerais do lulismo - e, imbuído de um característico sentido de missão histórica, aceitou o papel de bode expiatório inscrito na narrativa oficial da inocência do próprio presidente. Há um traço de tragédia em tudo isso: o mensalão surgiu como "necessidade" apenas porque o neófito Lula rejeitou a receita política original formulada por Dirceu, que insistira em construir extensa base governista sustentada sobre uma aliança preferencial entre PT e PMDB.

A corrupção tradicional envenena lentamente a democracia, impregnando as instituições públicas com as marcas dos interesses privados. O caráter histórico do episódio em julgamento deriva de sua natureza distinta: o mensalão perseguia a virtual eliminação do sistema de contrapesos da democracia, pelo completo emasculamento do Congresso. A apropriação privada fragmentária de recursos públicos, por mais desoladora que seja, não se compara à fabricação pecuniária de uma maioria parlamentar por meio do assalto sistemático ao dinheiro do povo. Os juízes do STF não estão julgando um caso comum, mas um estratagema golpista devotado a esvaziar de conteúdo substantivo a democracia brasileira.

No PT, "Silvinho Land Rover" será, para sempre, um "anjo caído", mas o tesoureiro Delúbio Soares foi festivamente recebido de volta, enquanto Genoino frequenta reuniões da direção e Dirceu é aclamado quase como mártir. O contraste funciona como súmula da interpretação do partido sobre o mensalão. Ao contrário do dirigente flagrado em prática de corrupção tradicional, os demais serviam a um desígnio político maior - um fim utópico ao qual todos os meios se devem subordinar. São, portanto, "heróis do povo brasileiro", expressão regularmente usada nas ovações da militância petista a Dirceu.

O PT renunciou faz tempo à utopia socialista. Na visão do "chefe da quadrilha", predominante no seu partido, o PT é a ferramenta de uma utopia substituta: o desenvolvimento de um capitalismo nacional autônomo. Segundo tal concepção, o lulismo figuraria como retomada de um projeto deflagrado por Getúlio Vargas e interrompido por FHC. Nas condições postas pela globalização, tal projeto dependeria da mobilização massiva de recursos estatais para o financiamento de empresas brasileiras capazes de competir nos mercados internacionais. A constituição de uma nova elite política, estruturada em torno do PT, seria componente necessário na edificação do capitalismo de Estado brasileiro. Sobre o pano de fundo do projeto de resgate nacional, o mensalão não passaria de um expediente de percurso: o atalho circunstancial tomado pelas forças do progresso fustigadas numa encruzilhada crucial.

A democracia é um regime essencialmente antiutópico, pois seu alicerce filosófico se encontra no princípio do pluralismo político: a ideia de que nenhum partido tem a propriedade da verdade histórica. Na democracia as leis valem para todos - mesmo para aqueles que, imbuídos de visões, reclamam uma aliança preferencial com o futuro. O "herói do povo brasileiro" não passa, aos olhos da lei, do "chefe da quadrilha" consagrada à anulação da independência do Congresso. Ao julgar o mensalão, o STF está decidindo, no fim das contas, sobre a pretensão de uma corrente política de subordinar a lei à História - ou seja, a um projeto ideológico. Há, de fato, algo de histórico no drama que começa hoje.

Sociólogo, doutor em Geografia Humana pela USP.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Anarquista as avessas

 
No debate da CBN, nessa manhã, "quando questionado se seria fiel a Hartung ou Casagrande, já que defende a lealdade e os dois demonstram estar em campos opostos nestas eleições, Neucimar foi enfático: “O governador do Estado se chama hoje Renato Casagrande. Enquanto Paulo Hartung foi governador, fui leal a ele”  (Século Diário).

Ou seja, vestiu o figurino de anarquista as avessas: "Hay gobierno, soy a favor".
É o principio de sempre ser leal e a favor do governo do momento.
É a velha lógica começada por Nilson Gibson, o maior adesista da história da República. Quando questionado sobre como explicava ter passado pela Arena, PDS, PP, PMDB e terminar no PSB explicou: eu não mudo, os governos é que mudam. Eu estou sempre com o governo.