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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Fuga pra debaixo do nariz (Juca Magalhães)


Amigos, vocês que recebem essa mensagem, especialmente da imprensa nacional, peço a gentileza de ler com atenção esse texto sobre a vexatória situação das relações entre a mídia e a justiça no Espírito Santo. É a voz indignada de um filho, órfão há mais de vinte anos, que, ao invés de respeito e consolo, tem esfregado na cara a dura realidade descrita abaixo. Se acharem o conteúdo interessante, passível de discussão, encaminhem a outros jornalistas e amigos espalhados pelo mundo. Peço, especialmente, que o encaminhem ao atual presidente da Associação Nacional dos Jornais, Carlos Lindenberg Neto, aliás, meu colega de escola a quem muito admiro, para que possa também meditar sobre o acontecido.
Atenciosamente

Juca Magalhães

FUGA PRA DEBAIXO DO NARIZ

No dia 04 de fevereiro de 2013 a polícia capixaba divulgou a notícia da prisão de José Alayr Andreatta, réu condenado em todas as instâncias judiciais como mandante do assassinato da jornalista Maria Nilce dos Santos Magalhães, ocorrido em 05 de julho de 1989. As surpresas dessa prosaica captura foram muitas, afinal, Andreatta estava foragido desde julho do ano passado e - muito longe de se esconder em alguma caverna no Cazaquistão - curtia uma espécie de aposentadoria em Jardim da Penha, bairro praiano, considerado nobre na cidade de Vitória.

Atentem para o detalhe da camiseta "submarina" que Andreatta usava no momento de sua prisão. É ou não para pensar que o sujeito "estava mergulhado"? (Imagem da TV Gazeta-ES)







A reportagem anunciando a prisão de José Alayr Andreatta, veiculada na 2ª Edição do telejornal da Rede Gazeta, afiliada Globo no Espírito Santo, adotou um ar curiosamente respeitoso para com o foragido da justiça. Mesmo tom distante e asséptico, é bom dizer, adotado de maneira geral pela mídia capixaba com relação ao caso Maria Nilce ao longo do tempo. O repórter tratou Andreatta como “empresário” e disse que a prisão fora “por acaso”. Afirmação que passa subjetivamente – sem intenção talvez - a ideia de que o empresário fora preso “por engano”. A frase foi a seguinte:

O empresário José Andreatta foi preso por acaso, ele saia de um supermercado no bairro Jardim da Penha em Vitória, quando foi reconhecido pelo delegado Danilo Bahiense.

Nem é preciso ler nas entrelinhas que, apesar de foragido, Andreatta não era necessariamente um perigoso bandido procurado, tanto que há meses morava despreocupado num bairro bacana e super populoso. Na questão da captura, o trabalho da polícia tem todo o mérito, mas o “esconderijo” do meliante surgiu através de uma denúncia anônima. Logo em seguida o repórter fornece um resumo do caso, mas bota resumido nisso, com o seguinte arremate:

O empresário José Andreatta foi apontado como mandante do assassinato, foi a júri popular em 2006 e condenado a 13 anos de prisão. O empresário recorreu da sentença em liberdade, mas teve todos os recursos negados. Não havendo mais possibilidade de recorrer, a justiça mandou prender.

Eu estou ficando maluco ou essa frase dá a entender que o homem foi preso por uma espécie de  implicância da justiça? Ora, ainda em 1989 a polícia federal apurou que esse tal Andreatta fretara o voo que dera fuga aos pistoleiros que mataram Maria Nilce e reuniu inúmeras outras provas de que o mesmo participara ativamente da articulação do crime enquadrando-o como mandante. Acontece que, com o chamado “amplo direito de defesa” - entenda-se, mais de vinte anos de recursos e apelações - o criminoso não havia sequer cumprido um dia na prisão. Somente em 2006 (!) José Alayr Andreatta foi julgado e condenado a 13 anos de cadeia. A reportagem prossegue dizendo que o mandato de prisão fora expedido em julho de 2012 e que "o empresário, na época, não foi encontrado".

Pois bem, foi se esconder debaixo do nariz da sociedade capixaba, entenda-se, o cotidiano nada clandestino dos botecos e supermercados de Jardim da Penha. Era mais um entre os inúmeros “tiozinhos gente boa” que frequentam o Pezão e o Bar dos Coroas. Ontem um conhecido meu, dono de um bar em Bairro República, disse que tomou um susto quando viu a notícia. Reconheceu Andreatta como frequentador regular de seu estabelecimento, inclusive, na companhia de policiais.  

Outra coisa curiosa são os comentários do delegado durante a reportagem, porque - sei-lá-porque - deram a entender que o Andreatta seria um coitado, vivendo em um apartamento minúsculo e dependendo da ajuda financeira de amigos. Será que era então para ter pena dele? O pior é que ninguém deu conta de explicar quem eram esses tais que ajudaram o empresário em sua doce clandestinidade pública. E, quinto parágrafo: quando foi que acobertar foragido da justiça deixou de ser crime?

Para colocar a cereja no bolo, o repórter abre o microfone para que o “empresário”, após tudo descrito aqui, tenha nova oportunidade de balbuciar sua inocência no telejornal de maior audiência do Espírito Santo.

Não tinha motivo nenhum pra matar, dentro do processo não tem uma prova, não tem nada contra mim. Eu nunca tive... Num fui condenado nada. Por que ia matar essa mulher?

O homem parecia desorientado, o que é natural quando a casa cai, enquanto isso o repórter explicava que “para a justiça José Andreatta mandou matar Maria Nilce por vingança”. Vem então o delegado Danilo Bahiense que, aliás, merece todo nosso respeito e admiração pela prisão deste assassino, reproduzir involuntariamente as velhas lorotas ditas por Andreatta no estilo do crime organizado que tem a notória prática de transformar a vítima em réu para justificar covardias e atrocidades.

Ele disse que a jornalista extorquia alguns empresários e estava querendo extorqui-lo também e ele não aceitou. E ela acabou divulgando de que ele teria se casado com um travesti naquela ocasião. Segundo consta esta teria sido a motivação.

Neste momento está entendido o crime, certo? Defesa da honra, só para justificar o último argumento, porque os anteriores são mentiras cabeludas, mas nada disso foi explicado para o público; foi, isso sim, veiculado impunemente, torno a dizer, no televisivo de maior audiência do Espírito Santo. Alguém pode explicar qual era a empresa poderosa que esse senhor Andreatta era dono em 1989 que mereceria o achaque da colunista social de maior importância e, ela sim, uma empresária bem sucedida, proprietária do segundo maior jornal de circulação diária na cidade de Vitória?

Em suma, todo o episódio dessa reportagem absurdamente desrespeitosa para com a memória de uma pessoa assassinada a sangue frio num caso que chocou o país é apenas a prova de que temer, respeitar, dar ouvido e até razão a “alta bandidagem” é ainda algo bastante trivial na sociedade capixaba. A culpa não é do repórter, nem é dos entrevistados. A criminalização de Maria Nilce, e de muitas outras vítimas de casos escabrosos, começa lá atrás e tem a ver com a corrupção de muita gente respeitada, temida e considerada “importante” no Espírito Santo. E a grande mídia - por pressão, influência e sobrevivência - com estes sempre foi conivente e condescendente.

José Alayr Andreatta foi julgado e considerado culpado, que cumpra sua dívida com a sociedade. Porém, é bom lembrar que as investigações da polícia federal o consideraram um “peixe pequeno” e que havia indícios do envolvimento de gente bem acima dele na hierarquia do “crime organizado” no Espírito Santo. A promotoria da época lamentou o fato de não ter sido possível chegar aos maiores financiadores do crime escabroso que vitimou Maria Nilce. Somente com muito custo conseguiram prenderam alguns dos operativos, os homens de campo e, ainda assim, só agora, quase vinte e quatro anos depois, um deles foi parar na cadeia. Agora, nos resta ainda saber se o "empresário" vai ficar mesmo por lá...

Segue o link da reportagem da TV Gazeta comentada acima, para que todos possam julgar a partir de sua própria percepção:


Para quem não sabe nada do crime que vitimou Maria Nilce Magalhães segue reportagem publicada no prestigioso site do Proyeto Impunidad que denuncia o assassinato de jornalistas na América Latina:


E segue outro texto de Juca Magalhães sobre o assunto, publicado no site Observatório de Imprensa, tido como o mais importante sobre jornalismo no país.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Sonhos de um escritor pop (Juca Magalhães)


Eu vivo sempre no mundo da lua

Porque sou aventureiro
Desde o meu primeiro passo
Pro infinito

Guilherme Arantes, Nosso Lindo Balão Azul

Desde pequeno sempre tive costume de me entreter com histórias, começou com revistas em quadrinhos, os chamados “gibis” – que, aliás, adoro até hoje – e por volta do final da infância vieram os livros. Havia editoras que circulavam listas de suas publicações quando eu estava no primário, foi assim que fiquei conhecendo “A Turma do Posto Quatro”. Ainda lembro, especialmente, a deliciosa emoção quando chegava pelo correio o pacote com os livros. Depois de ler um bocado, comecei a querer subverter a lógica de consumidor e fornecedor; devia ter lá pelos dez, doze anos no máximo.

 
Como tinha mais fantasia do que experiência de vida, enfiei em meu primeiro roteiro as coisas mais bestas que me rodeavam. Imaginei um misterioso caso de sequestro – era muito falado o do menino Carlinhos - em que eu e meus amiguinhos da época – Zeller, Flávinho, Teba, sei lá mais quem – ajudávamos, nada mais nada menos, do que Didi e os Trapalhões a resgatar o filho do primeiro que havia sido raptado. Daí a confusão ia parar na fazenda Fundão dos Índios, onde a coisa virava faroeste e nossa turma recebia o reforço de minhas irmãs e meus primos Felipe, Edilson e Everaldo.

Aquele meu primeiro esforço literário foi escrito à caneta esferográfica em algum dos meus rabiscados cadernos de escola – desenhar era outro hobby para espanar o tédio - e eu me sentia feliz da vida de poder arrumar para aquelas linhas bem traçadas uma utilidade mais nobre e divertida do que as aulas de caligrafia. Não pergunte por que me aborrecia estudar ou porque eu detestava a escola; posso me considerar hoje um cidadão de meia idade bem resolvido com isso e desajustado com o resto, mas nunca consegui chegar a uma boa resposta. Aliás, cheguei sim, mas...

Um dia meu mundo caiu: alguma das muito sensíveis e observadoras professoras nos espezinhou com a informação – sei lá por que – de que os pequenos livros de bolso da Ediouro que nós adorávamos não eram escritos por fedelhos bobocas como a gente. Apesar da linguagem descolada e de toda fantasia, o autor era nada mais, nada menos, que um adulto! Consequentemente, um sujeito careta e cheio de regras como ela própria. A danada devia estar querendo enquadrar a molecada e deve ter saboreado minha expressão de decepção. 

Apesar de tudo, dei um jeito da turma salvar o filho do Didi das garras dos malvados sequestradores piratas do Rio Fundão, não sem a ajuda de cowboys americanos,índios botocudos e da polícia que, como sempre, só chegava no final para prender os meliantes.

Numa de minhas tradicionais pescarias nas manhãs de sábado pelos parcos sebos de Vitória dei de cara com um daqueles livrinhos da Turma do Posto Quatro. Resolvi descobrir afinal quem era aquele autor que eu ainda admirava e guardara na memória do coração.
                                                                                          
                     
Helio do Soveral Rodrigues de Oliveira Trigo (1918-2001) tem até um blog muito bacana o homenageando e o apresenta como “o maior escritor pop do Brasil”, a iniciativa internéktica chama-se “Memorial Soveral” e é escrito por Dagomir Marquezi, um especialista na obra desse autor hoje tão pouco lembrado. Soveral era nascido em Potugal, mas emigrou com a família para o Rio de Janeiro ainda criança e morou em Copacabana por aproximadamente sessenta anos. Começou na imprensa e foi, por exemplo, o último repórter a entrevistar Noel Rosa. Veio a falecer aos oitenta e dois anos em Brasília, cidade onde residiu no final da vida para ficar perto da filha.

Foram trinta e cinco volumes da Turma do Posto Quatro publicados entre 1973 e 1979 – aliás, com o pseudônimo de Luiz do Santiago - o que prova que minhas contas estavam certas: no final de 1979 eu era ainda um pirralho completando quatorze anos. Mas Helio do Soveral escreveu também a série “Os Seis” com grande sucesso e pseudônimo de Irani de Castro, além de zilhões novelas para o rádio, chanchadas famosas, histórias em quadrinhos para as revistas Spektro e Pesadelo que eu também lia avidamente. Enfim, como pode uma pessoa povoar incógnita tanto a nossa vida? Fico pensando o quanto Soveral me influenciou para além daquela minha primeira investida literária...

Essas influências a que somos expostos, sugerem direções, resoluções e a infinita busca por expressão. Ser original não é fácil, apenas o somos na medida em que traduzimos antigas ideias numa linguagem atual, em contexto moderno. Não sei se realmente criamos alguma coisa. Queremos o que a maioria honesta quer: viver dignamente fazendo o que gostamos e nos identificamos. Eis a importância de exercer a criatividade: buscar lá dentro quem você realmente é. Sem isso o povo pira, vemos exemplos grotescos da loucura humana todos os dias.

Por isso tantas pessoas dizem que não se deve abandonar os sonhos, porque só alcançamos nossa essência quando transformamos sonhos em realidade. Não porque sonhar seja algo assim tão transcendental, mas porque no processo dessa transformação somos obrigados a amadurecer. Além do mais, e se estivermos mesmo todos ataviados a sonhos dos quais não podemos despertar? Como numa prisão?

Pois, (ora) nem mesmo Helio do Soveral conseguiu transformar todos os seus sonhos em realidade, naquela que deve ser sua última entrevista, concedida à Dagomir Marquezi e publicada na revista VIP de maio de 1998, com relação ao reconhecimento público e financeiro é perguntado ao autor:

- E se você fosse americano?

- Ah, aí eu estaria vivendo num palácio...

domingo, 4 de novembro de 2012

No ritmo da mudança (Juca Magalhães)



Eu não ia falar (escrever), 
mas agora vou dizer...
Todo mundo quer ir pro céu
Mas ninguém quer morrer...
Blitz in O Romance da Univesitária Otária
A eleição acabou e, pela primeira vez, ficou bastante perceptível a importância da Internet no processo, especialmente no Facebook. Muita gente partiu para a defesa de seus candidatos com veemência assaz (cujo?) escalafobética, no segundo turno em Vitória era mais aguda a situação porque eu tinha amigos dos dois lados e comprando a briga com a mesma empolgação. O curioso é que alguns bastante comprometidos deveriam jogar no ataque e recuaram; outros que não tinham nada a perder com o peixe, soltaram o verbo.
Parecia discussão de futebol, daquelas que a gente não entende bulufas, não gosta e preferia estar fazendo outra coisa, mas ainda assim acompanha só pra ver quem vai ganhar no final, embora no fundo desconfiemos que isso não vá fazer muita diferença no varejo. No atacado faria, mas política é uma caixinha de surpresas. Quem diria o que o PT Farias? Ou que o partido comunista ainda existiria? Alguém aí viu o novo filme de Woody Allen? O casal viaja dos EUA para Roma, o marido tem medo de avião:
- Calma, vamos apenas conhecer o noivo de nossa filha!
- Você sabia que ele é comunista?
- Não existem mais partidos comunistas. Ele é só de extrema esquerda.
- Eu também era de esquerda quando tinha a idade dele, mas nunca fui comunista. Eu não suportava a ideia de ter que compartilhar o banheiro...
Obviamente que ainda existem partidos comunistas, mas eles são bem diferentes do que eram antes, simplesmente porque muito de sua “ideologia” não se presta mais aos tempos atuais. Talvez o problema seja aquela forma de apresentação “a la Che Guevara” que é ainda utilizada a ponto de muita gente achar engraçado e transformar em piada. Outros vão mais fundo e são contundentes, como é o caso do historiador Carlos Fico, quando versa sobre as controvérsias da ditadura militar afirma:
“Depoimentos como os de Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis – que foram grandes sucessos editoriais – contribuíram para a mitificação da figura do ex-guerrilheiro, por vezes tido como um ingênuo, romântico ou tresloucado, diluído no contexto cultural de rebeldia dos anos 60, algo que não condiz com as efetivas motivações da assim chamada “luta armada” (...) transmutada em “resistência democrática”. 
A conclusão que a maioria chegou depois das eleições é que “os tempos mudaram” em direção ao “novo” ou à mudança e eu suspeito que tudo não passou, mais uma vez, de um caso clássico do “eterno retorno da diferença”. A maior vedete da eleição foi o jingle de Luciano Resende, teve um marqueteiro que se empolgou tanto que até achou que o tinha composto. Aliás, depois desse páreo eletivo temos apenas duas certezas: todo mundo compôs o “jingle da mudança” e ninguém bateu no câmera da Gazeta por causa do Neucimar que, aliás, dizem que foi um patrão bastante generoso, ora, o dinheiro não era dele mesmo. O que, por sinal, explica (MAS NÃO JUSTIFICA) a revolta da turba enfurecida.    
 
E por falar nisso, enquanto se inicia a dança das cadeiras, um bocado de gente parece estar gozando com a expectativa de ver outras perdendo o emprego. Não parece lugar comum e até cansativa essa coisa de tachar todo mundo (mas todo mundo?) que trabalha em cargo público de “vagabundo mamando nas tetas do povo”? Trabalhei como e com vários “cargos comissionados” e sei que muitas vezes – até pela ilusão de tornarem-se insubstituíveis, o que merece um texto mais aprofundado – são eles que carregam algumas administrações nas costas.
Em última análise (cujo?), são pessoas que têm família, têm contas a pagar, venha o governo que vier o certo é que ninguém escapa de ir ao supermercado, portanto ou não sacolas de plástico biodegradáveis a título de preservação do meio ambiente, o que é bom que sobra mais dinheiro pra gente.
Pensamento final para o feriado do dia de finados: Na sociedade brasileira de hoje, que mantém a todos – da classe média (alta?) pra baixo - no limite de seus recursos financeiros, perder o emprego é como uma pequena morte; portanto, achar graça na atribulação alheia é, no mínimo, coisa de babaca. E sabe o que mais? Daqui a dois anos tem tudo de novo... Um amigo meu, o Pepê, já até anunciou que vai ser candidato do PC do B. Tá pensando que só Paris que é uma festa? Não. Paris é uma ótica que tem propaganda na televisão...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

SERÁ QUE UM DIA AINDA TEREMOS JEITO? (Juca Magalhães)

O texto lá abaixo foi publicado originalmente no caderno Pensar de A Gazeta, curiosamente ou não, no dia do aniversário de nuestra vetusta capital do Espírito Santo (08 de setembro passado), cuja (cuja?) festa teve showzinho de Fabio Junior e tudo mais. Infelizmente isso não foi suficiente para colocar a orla botocuda em destaque nacional (cadê o delegado Fabiano Contarato?). 

 
A Globo deu a maior corda pra festa de Olinda com uma linda e longa reportagem, no final, a loira apresentadora do Jornal Hoje falou à seco "Hoje é também aniversário de Vitória: Parabéns." Nosssa moquecada ficou tão sem graça que era melhor até não ter falado nada. Parecia aniversário de criança em orfanato, embora, confesso (e a porra), nunca tenha presenciado nenhum...

Segue o texto como foi publicado na página 04 do Pensar - exceto a epígrafe de advertência - com o título de "A diferença entre ação cultural e evento"...


Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.

Voltaire



Faz um tempão fomos convidados a representar o rock (imaginem) numa reunião com responsáveis pela gestão estadual da cultura. A ideia era captar uma visão da realidade dos “artistas da terra” (bananas, como diria Alexandre Lima) e ajudarmos a definir metas e diretrizes com relação às ações e fazeres públicos. Daquela reunião lembro muito de um senhor que fazia parte de um regional tradicional (acho que era o mestre Aquiles) e que lá pelas tantas se encheu do blábláblá e perguntou assim: “vocês estão esperando eu morrer para me homenagear? Façam alguma coisa agora!”

Uns vinte e tantos anos se passaram e, curiosamente, muito pouca coisa mudou com relação a essas reuniões. Compus e gravei algumas músicas; pesquisei, escrevi e publiquei dois livros; estudei, toquei, ensinei e palestrei. Por duas ocasiões trabalhei para secretarias de cultura, conheci boas iniciativas e outras bastante oportunistas e equivocadas. Vi muitos artistas “perderem a razão” perante as mumunhas da coisa pública, uns com bons motivos, outros por desconhecimento assumido. Estes, nem deviam reclamar (mas como o faziam), afinal: como nem estar aí para uma coisa e querer ou imaginar que ela deveria estar aí para você?

Artista é, por definição, alguém que produz arte e “que faz dela profissão”. Porém, quando acontecem essas reuniões políticas com a “classe de artistas” aparece um número grande de pessoas que trabalha eventualmente com arte, mas não cria bens culturais de consumo. São os conhecidos “promotores de eventos”, muitas vezes mais respeitados que os próprios artistas, pelo menos aqui no Espírito Santo. Nessa hora de pensar política pública de base o certo seria separar algumas instâncias entre criar e produzir, mas isso não acontece e dificulta o foco. São tantas vertentes e iniciativas importantes em nossa cultura que estabelecer prioridades é sempre desafio.

Os próprios profissionais lotados em secretarias de cultura até o momento não parecem ter atentado para a necessidade de estabelecer um limite entre “evento” e “ação cultural” e vêem com naturalidade grande parte da verba ser desperdiçada nas festas da cidade. Isso acontece porque não existe uma política clara e definida para a cultura, basta comparar com a educação. As pessoas das secretarias acham que estão “mandando bem” quando “criam” projetos “itinerantes” com oficinas e apresentações que migram pelas comunidades. Já imaginou como funcionariam, ou qual efeito educacional teriam em longo prazo, aulas “itinerantes” de matemática e português?

Em Brasília existe hoje a “Frente Parlamentar em Defesa da Cultura” que concebeu uma carta compromisso a ser assassinada por candidatos a prefeito. O conteúdo da missiva é bacana, mas é também tão abrangente que acaba soando confuso, porque não tenho certeza que seja possível abraçar os “múltiplos aspectos” da dita “diversidade cultural” brasileira e ainda fazer relações com meio ambiente (!). A maioria dos prefeitos não percebe muito bem o que é cultura, menos ainda consegue quantificar sua importância quando a compara com pastas menos subjetivas como saúde e segurança. Não seria a hora de pensar simples e propor soluções pragmáticas?
                                                                                                         
Minha primeira contribuição no Caderno Pensar de A Gazeta foi um texto intitulado “Cultura para quem?” Nele já defendia alguns conceitos que vinham da experiência como professor do curso de biblioteconomia e hoje, cada vez mais, de música popular e erudita. Participei na orientação da tese de conclusão de curso de dois alunos (Lausi e Valmir) que mencionavam a obra "L'action Culturelle dans la cite" (1973) do jornalista e filósofo Francis Jeanson (1922-2009) que defendia ser a única ação cultural válida a de formação, aquela que fornecia instrumentos de trabalho para o surgimento de novos criadores.

 
“O processo de ação cultural resume-se na criação ou organização necessárias para que as pessoas inventem seus próprios fins e se tornem, assim, sujeitos da cultura e não seus objetos.”

É claro que os grandes eventos de uma cidade são importantes, porém são pontuais, portanto, sua relevância enquanto ação cultural é nula, quando muito tem impacto no comércio e no turismo da cidade e talvez devessem ser vistos assim: pelo valor turístico ou cívico que seja, cultural jamais.

Ainda quero ver um candidato a prefeito defender a dissociação entre ação cultural e evento e a criação de núcleos de ensino formal de arte, a exemplo de outras cidades do país, ou mesmo a Venezuela que é referência em ensino de música para o mundo. Existe hoje uma demanda enorme por esse tipo de iniciativa longe de ser atendida. Enquanto os municípios fervem uma ou duas vezes por ano com apresentações públicas de astros nacionais, seus próprios artistas (como o caso do mestre Aquiles) são ignorados e seu talento desperdiçado por falta de uma política formadora que proporcione acesso e o domínio das ferramentas de criação cultural.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Que de boba não tem nada (Juca Magalhães)

Um homem que nunca foi à escola pode roubar a carga de um vagão; mas se tiver uma educação universitária, roubará a estrada de ferro inteira.

Theodore Roosevelt

Qualquer um que comece a dar aulas descobre logo que não sabe um monte de coisa que pensava saber e acaba tendo que estudar até mais do que os alunos. O processo de aprender a ensinar é árduo, mas é um caminho de enormes satisfações não financeiras. Sim, porque não conheço nenhum mestre trilhardário, embora existam alguns endinheirados por aí tentando ensinar outros a enriquecer. Por isso dizem que os livros de auto-ajuda resolvem mesmo a vida de quem os escreve...

Quarta passada estava dando aula para uma moça chamada Raissa – prometi que ia a mencionar no texto – falava da harmonia, uma parte teórica que os alunos costumam detestar. Não é com muita satisfação que os mais rebeldes descobrem que também no discurso musical pululam prosódias e prosopopéias e que, tratando do sistema tonal, existe um conjunto enorme de regras trivialmente comparado à gramática.

Raissa entendeu o assunto como contradição e me perguntou: “mas na música a gente não tem que transgredir? Inovar?”. Além de uma coisa não ser a mesma que a outra, a danada trazia consigo um livro de Augusto Cury, de quem não irei falar agora por pura preguiça. Lembrei da pobre (pobre?) moça que foi pega discursando livremente sobre “as brechas da Lei” e que por isso foi crucificada, perdoe o trocadilho, em “Via Púbica”.

Como certamente o fazem os doutos em advocacia, para transgredir é preciso conhecer, dominar um assunto em sua complexidade. Existe o caso de algum escritor inovador que não fosse versado em sua própria língua? Não me lembro agora, mas na música a esmagadora maioria do que é vendido como “revelação” sempre lembra o velho e bom ditado: “por falta de roupa nova passaram o ferro na velha”.

Por isso a importância de investimento em formação, educação, conhecimento para os nossos criadores e até quem sabe futuros transgressores e inovadores. Precisamos muito destes nas artes em geral, porque no momento nossos conterrâneos só alcançam fama quando são bons de porrada (com toda admiração e respeito à família do Touro Moreno) ou questionam a “eficácia” das Leis do trânsito...

Tem também o caso (lê-se quêize) do missionário R.R. Soares que, para quem não sabe, é natural aqui de Muniz Freire. Esse sim um capixaba famoso e um verdadeiro inovador. Outro dia estava convencendo os fiéis a assinaram uma TV a Cabo de sua igreja “em nome de Jesus de Nazareth”, Love Hurts (Sic.). Outra inovação desse epíteto estrambótico foi a cobrança do dízimo com “débito automático”... E pensar que os “protestantes” bateram de frente com a Igreja Católica por causa das indulgências...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

IDENTIDADE SECRETA (Juca Magalhães)



"A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude."
                                                                      Rochefoucauld

Tava falando de hipocrisia na Crônika anterior e, conversa vai conversa vem, lembrei do Carambola, uma das figuras mais divertidamente hipócritas que já conheci. Como já dizia o Grilo Falante, o rapaz “trabalhava a questão da diversidade sexual”, mas não assumia isso pra senhor ninguém, nem mesmo para a namoradinha que descolou no cursinho pra “dechavar”. Davam longos amassos apaixonados na arquibancada da quadra da escola, foram até advertidos para pegar leve na conduta indecente.

Carambola adorava usar o termo “dechavar”, era gíria de malandro da época e apesar de estar com uns trinta anos ainda adotava o estilo “garotão”. Era um cara enorme, marombado e boa pinta a ponto das mocinhas suspiravam à sua passagem, mas ele gostava mesmo era de trocar idea com a rapaziada. Circulava a bordo de um sonoro carrão importado - privilégio tirado a elite no passado - e dominava qualquer assunto de macho: desde futebol aos lançamentos “de sacanagem” recentes.

Dechavar, segundo o Dicionário Informal é “Termo usado para designar qualquer ação reparadora seguida a uma outra presumidamente inaceitável ou condenável, com o intuito de disfarçar ou despistar.” É ferramenta verbal dos hipócritas assumidos que nem o Carambola. Descobrimos isso quando ele contava suas últimas aventuras...

- Ontem de noite eu saí com um bróder meu. Fomos prum lugarzinho dechavado tomar umas cervejas...

- Ora Carambola, você não disse que não estava mais bebendo? – Sua resposta foi muito tranquilizadora.

- Num esquenta que ninguém me viu bebendo não. - Nem tampouco importava saber-se-lá-o-quê que rolava entre ele e o bróder-bofe, a ponto de irem procurar um “lugarzinho dechavado”pra se esconder (namorar?)...

Sempre em busca de uma explicação lógica para preservar a identidade secreta, Carambola dizia que o tal amigo era um “sócio”, mas não conseguia disfarçar o maior entusiasmo que demonstrava pelo rapaz do que pela namoradinha. Quando chegou o feriadão da semana santa deu-lhe uma doida, pegou o bofe (cujo?) e se pirulitou (e como!) pro sul da Bahia. Ao seu álibi de masculinidade restou o nobre consolo de estudar para o simulado e garantir a média de desconto na mensalidade.

De volta do feriadão, com a cara de pau que Deus lhe emprestou e a namorada saudosa novamente a tiracolo, Carambola levou as fotografias da viagem pra galera ver. Era um álbum escancaradamente romântico dele e o “sócio” na piscina da pousada, na intimidade do quarto, tomando drinques coloridos no barzinho, passando bronzeador na praia. A sequência menos levemente bandeirosa de todas era dos dois andando de moto nas dunas e nessa mesma é que a máscara caia:

- Rapaz, a gente andou tanto de moto que eu tô com a bunda toda doída até agora!   

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O legado de Altamiro Carrilho (Juca magalhães)

Esse agosto não está muito bom para a comunidade musical de qualidade não, já perdemos o Celso Blues Boy e o Magro do MPB4 e agora acabo de ver a dolorosa e triste notícia do falecimento do grande flautista Altamiro Carrilho. No fundo nem é tão triste assim, afinal, Altamiro viveu bem 87 anos de muita música e através dela conheceu a glória internacional. Tristeza me dá porque tão poucos são como ele, embora seu legado – e elegância - há de prosseguir nos lábios de um Zé Benedito, meu compadre, seu discípulo dileto no chorinho.

Por essas voltas inexplicáveis que a vida dá, faz quase dez anos eu fiquei por conta de ciceronear o Altamiro aqui em Vitória e Vila Velha, acabei sendo o apresentador de um concerto da OFES com sua participação tocando Mozart e tive a honra de segurar o seu flautim (no melhor sentido que vocês puderem imaginar) no inesquecível concerto de abertura da Festa da Penha de 2003, com a Orquestra Phylarmonia e regência de Modesto Flávio, salvo engano.


Como ficamos pra cima e pra baixo naquele dia 24 de abril acabamos conversando bastante, o Altamiro tinha já seus setenta e tantos na época, mas era um daqueles – hoje nem tão raros - sujeitos cheios de energia e disposição, me lembra o nosso maestro Adolfo Alves que dá banho de vitalidade na garotada. Lá pelas tantas descobrimos que fazíamos aniversário no mesmo dia e, sagitarianos apontando flechas para o espaço, vimos altas transcendências naquela coincidência trivial.

Eu fazia um programa de música clássica na pequena – inclusive de alcance - Radio Comunitária da Praia da Costa e como Altamiro era uma usina em movimento resolvi o levar pra dar entrevista no programa de meu amigo Clóvis Rosa. Foi um furdúncio do lado de fora da rádio. Logo apareceram alguns senhores do entorno que não acreditavam que o Altamiro estava naquela insignificante emissora. Pois o maior flautista do Brasil ficou lá umas duas horas. Contou um monte de histórias, deu discos de presentes, enfim, acima de tudo e de todos: deu uma aula de como uma lenda viva deve se comportar com dignidade, afeto e a simplicidade de um ser humano qualquer.

Conhecer Altamiro Carrilho definiu para mim a diferença que existe entre um astro e o estrelismo. A jóia rara e o falso brilhante. Sua música plainava soberana, não precisava “fazer tremer o chão”, tudo ao seu redor vibrava em consonância com sua alegria e seu alto astral. Cheguei a conclusão de que da musicalidade emana mais simplicidade do que alvoroço e que “a direção é mais importante do que a velocidade”. Sensação parecida tive quando encontrei Monarco e, bem recentemente, Dominguinhos em Domingos Martins. Como é bonita e grandiosa essa postura da tranqüilidade assentada de quem não precisa mais provar nada pra ninguém...

Portanto: Descanse em paz Altamiro Carrilho! E viva a música popular brasileira!!

domingo, 5 de agosto de 2012

DEUS ME LIVRE E GUARDE DE VOCÊ (Juca Magalhães)


“Um compositor vienense, dotado de algum mérito mas que não se comparava com Haydn, tinha um prazer especial em encontrar nas composições deste pequenas incorreções. Muitas vezes procurava Mozart para lhe mostrar alegremente onde descobrira algumas negligências de estilo. Mozart tentava sempre mudar de conversa; por fim, não podendo mais, disse-lhe uma vez num tom brusco:

- Senhor, se nos adicionassem aos dois, mesmo assim não achariam ainda com o que fazer um Haydn.”

Stendhal – A Vida de Mozart

Ontem vi pela Internet uma piada dizendo que se atualmente um livro tiver uma página que seja já vai ser grande demais para a molecada ler, mas, afinal, quem é que se importa realmente com a molecada de hoje? Todo intelectual também já foi um garoto boboca que amava os Beatles e os Rolling Stones. (Todo?) Sei lá, a verdade é que uma hora os guris vão amadurecer e querer saber “de qual é” das pessoas que abriram os caminhos; deixa inchar e curtir seus roques, porque quando os hormônios arrepiam os cabelos da nuca a saída é uma só.

Sempre pensei e alardeei não me importar muito com as aparências, a sinceridade acachapante é uma das mais famosas características dos sagitarianos típicos como eu. Não a enxergo como um defeito, mas como a afirmação autóctone de um modus vivendi. Sou observador, mas frequentemente deixo escapar coisas óbvias; sou assim como todo mundo é; ou quase todos instintivamente ingênuos. Nossa mente nos sabota. Nesse instante mesmo, há pelo menos umas três ou quatro outras coisas bem mais importantes a fazer do que estar escrevendo este texto e, no entanto...


Por serem basicamente diferentes de mim, as pessoas que se preocupam como serão julgadas pelos outros despertam minha aversão profunda, até mesmo certo desprezo; simplesmente porque sempre achei mais gostoso, digamos assim, me lixar pro que pensariam ou deixariam de pensar de minha gloriosa (cujo?) pessoa. Talvez seja uma questão de valores, talvez seja um problema de criação, talvez seja apenas o meu jeito idiota de ser. Mas nada disso é bem verdade, tá legal? No fundo eu me preocupo sim; meu desejo de negar essa atitude é já uma constatação disso.

Estranha e me incomoda quando vejo gente me olhando atravessado, fico encafifado me perguntando do por que. Dentro de mim sinto com absoluta certeza que não fiz nada para aquela pessoa querer me fuzilar sorrindo, sempre esqueço que têm umas três ou quatro que eu também não gosto só porque “não fui com a cara”. A diferença é que se alguém me incomoda eu não dou conta de disfarçar, quero logo “falar umas verdades”, distribuir uns coices de centauro e sair de perto, mas tem muita gente que não nos suporta justamente por não conseguir deixar de orbitar...

Então é um saco aquela pessoa cujo (cujo?) único assunto é falar mal de outra, que se corrói por dentro quando vê algo bem feito, que se diverte e até fica feliz exaltando o erro de quem está dando a cara à tapa. Justamente aquele tipo de pessoa idiota de corpo e alma que não traz nada de relevante pra cena, e se tentou não conseguiu e então passou a viver de produzir e disseminar veneno e mendigar amizades traiçoeiras. Gente vampirizante assim é preciso ter bem longe, mas é como falei: elas se achegam; porque precisam sugar a vitalidade dos que estão vivos, dos que estão fazendo o que elas não têm nem coragem, nem competência pra fazer.

Termino então com o “Tema do Cadinho”, uma REZA da sacrossanta Rita Lee para desbaratinar e espanar pra bem longe essa inhaca de mau olhado...


Deus me proteja da sua inveja
Deus me defenda da sua macumba
Deus me salve da sua praga
Deus me ajude da sua raiva
Deus me imunize do seu veneno
Deus me poupe do seu fim

Deus me acompanhe
Deus me ampare
Deus me levante
Deus me dê força

Deus me perdoe por querer
Que Deus me livre e guarde de você

domingo, 15 de julho de 2012

A HORA DE CALAR E A HORA DA VERDADE (Juca Magalhães)

Entrevista concedida por Juca Magalhães a Elis Carvalho do jornal A Tribuna.

Achou que a pena de dezenove anos foi justa?

Acho que a pena aplicada ao Narcizo foi justa. Injusto é o tempo que ela levou para ser decretada. O réu tem amplo direito à defesa e todo tipo de recursos para demonstrar sua inocência. Porém, o que teve a vítima Maria Nilce e sua família por parte do Estado Brasileiro e da justiça nesses 23 anos? Qual foi a resposta que tivemos? E a sociedade, o conjunto de pessoas que forma o Estado do Espírito Santo, o que teve? Como será que esse tipo de crime e sua flagrante impunidade repercute para as pessoas de bem e para os criminosos? São questões a se ponderar, não é? Todo esse processo envia mensagens para o povo: noção de ação e reação, crime e castigo. Qual o recado que a justiça tem nos dado desde então? Vendo por esse lado é uma situação socialmente lamentável e pode seguramente ajudar a explicar o atual crescimento da violência.

Durante seu julgamento o acusado Cezar Narciso disse que o crime de Maria Nilce estigmatizou sua vida, que ele passou a ser conhecido em São Mateus – cidade onde reside - como "o matador de Maria Nilce". Pois cabe perguntar, qual foi o estigma da família de Maria Nilce desde então? Quando um crime fica em aberto, sem solução, sem resposta concreta e imediata abre-se campo para todo o tipo de especulações e comentários maldosos que sempre querem desclassificar, curiosamente, a vítima. Por que será que em Vitória Maria Nilce só é lembrada pela mídia como uma pessoa "polêmica", para dizer o mínimo? Ora, ela era mãe, empresária, uma mulher à frente de seu tempo. Era jornalista conhecida nacionalmente por sua beleza e competência, tinha cinco livros publicados e escrevia diariamente a coluna social mais lida do estado no momento em que morreu (5 de julho de 1989). Então ela era só uma pessoa polêmica?

Como avalia a atuação da promotoria?

A Dra. Carla Mendonça que atuou na promotoria do caso demonstrou ser uma profissional firme, determinada e muito aplicada aos estudos. Basta levarmos em consideração que ela teve apenas quinze dias para se inteirar de todo o processo que é, para dizer o mínimo, quilométrico e bastante intrincado. Sua atuação foi clara, direta e sem apelos emotivos ou grandiloquentes. Muito diferente do advogado da defesa que por duas ocasiões disse que não ia “denegrir” a vítima, mas o tempo todo olhava para nosso lado como se pensasse em o fazer, parecia lamentar inibido nossa presença. No pior destes momentos chegou a bater em cima do processo e dizer algo como: se eu for falar o que tem sobre Maria Nilce aqui... Deveria ter se concentrado mais em conseguir provar a inocência de seu cliente que, por essas e outras, acabou condenado. Fico pensando quantas vezes esses advogados “de porta de cadeia”, para encher lingüiça em suas preleções de hora e meia, não ficaram falando bobagens e inventando fofocas sobre Maria Nilce para desviar a atenção do júri e emprestar um verniz de lógica aos crimes injustificáveis de seus clientes.

Narcizo vai continuar solto até a decisão final, pois respondeu todo o processo em liberdade. Você teme uma fuga como ocorreu com Adreatta?

Não entendo como pessoas que já foram claramente tipificadas como "ameaças à sociedade" possam estar soltas livremente por aí. É o caso do mandante condenado José Alayr Andreata e agora do Narcizo. Se formos pensar bem a justiça põe a vida em risco dos jurados do processo, dos familiares da vítima, da promotora. Ou será que não existe o perigo de sofrermos algum tipo de coação, vingança ou represália? É assim que a justiça protege os inocentes? Por outro lado essa condenação é importante, porque ela esclarece e determina uma situação. Mesmo com o recurso, a partir daquele momento a pessoa passa a ser não mais um acusado, mas um condenado. E se empreender a fuga terá que viver uma vida na clandestinidade sem os mesmos direitos de um cidadão de bem.

Hoje temos livre um homem perigoso como o Ex-Delegado Claudio Guerra, que tanto contribuiu para o tumulto das investigações desse caso. A promotora Carla Mendonça relatou que várias peças e páginas do processo do caso Maria Nilce simplesmente desapareceram ao longo desse tempo, inclusive uma fita contendo a gravação e sua respectiva transcrição feita com o pistoleiro José Sasso - morto em 1992 como “queima de arquivo” - na qual ele confessava o crime e a participação de outros acusados como o Andreatta. Essa gravação teria sido feita por um policial civil conhecido como Pêjota que resolvera atuar como informante da polícia Federal e que posteriormente foi também assassinado. Esse é um crime “de repercussão nacional” que deixou um rastro enorme de outros crimes, com um custo muito alto em vidas e reputações. O advogado de defesa afirmou ter feito um cálculo, baseado em declarações de época, de que o montante operacional do assassinato de Maria Nilce teria sido orçado em mais de oito milhões e duzentos mil reais, atualizados os respectivos valores.

Qual a expectativa pelo julgamento do Japonês em novembro?

Ontem durante o julgamento do caso Maria Nilce, o acusado Romualdo Eustáquio, o "Japonês", após conseguir adiar pela enésima vez a sua chance de provar que é inocente, saiu jogando as mãos para o alto e clamando por justiça divina. Eu digo Amém, só que nós da família de Maria Nilce queremos a justiça terrena também! Não posso emitir juízo, quem tem que fazer isso é a justiça no dia 06 de novembro, mas, esse tal "Japonês" parece ser uma daquelas pessoas, que vez por outra vemos até em filmes, que quando jovem se meteu com a "bandidagem" e fez um bocado de coisas erradas; depois deu sorte de sobreviver ao passar dos anos - muitos de sua época não conseguiram - constituiu família, empreendeu um negócio e se estabeleceu como "pessoa de bem" e agora parece pensar não ter mais que responder pelos erros que cometeu no passado. É uma situação triste, sua família estava presente no júri prestando apoio. Agora, o grande culpado de toda essa situação é o sistema judiciário brasileiro - e o próprio acusado com as protelações que conseguiu - porque o tal Japonês deveria ter sido julgado há mais de 20 anos e até hoje isso não aconteceu. Inocente ou culpado? Quem vai determinar é a justiça.