O sistema político entrou em pane. A franja parlamentar que se costuma chamar de oposição, liderada pelo PSDB, foi inteiramente atropelada pela oposição que foi às ruas. O PT não lidera o governo que elegeu. O PMDB se divide hoje em três ou quatro ajuntamentos que não se entendem e operam de maneira independente e descoordenada. O PP simplesmente implodiu e os escombros serão recolhidos por algum cacique regional e pelo PSD, que tem dois ministros e uma bancada na Câmara que só costuma entregar metade de seus votos ao governo. Isso para falar apenas dos maiores partidos do País.
Qualquer governo nunca é rocha sólida, é sempre cheio de furos e fraturas por onde se infiltram viscosidades várias. Acontece que está difícil de ver a rocha. Os centros de comando se multiplicaram e estão operando de maneira bastante independente. Só a política econômica parece estar sob relativo controle, ainda que sob permanente ataque de todos os lados. De qualquer maneira, é um controle de tipo motoniveladora e tesoura e não efetiva coordenação.
Uma situação como essa não pode e não deve ser caracterizada apenas como uma crise. É uma crise muito grave, que pode levar o País a uma situação de paralisia ou de regressão por um longo período. É a primeira grande crise em situação de estabilidade da história recente do País.
A estabilidade que se teve nos 20 anos que vão desde o impeachment de Collor até junho de 2013 foi pontuada por momentos de crise. Mas, em termos de gravidade, nenhuma crise chega perto da que se vive agora, com a conjunção de crise de governabilidade, crise econômica, crise hídrica e de energia, crise do sistema partidário.
A crise do sistema partidário é sintoma do fosso entre sistema político e sociedade. Essa crise de representação esteve no centro das revoltas de junho, onde forças políticas opostas ocuparam a mesma rua ao mesmo tempo. A polarização da eleição presidencial de 2014 refletiu, ainda que de maneira limitada, um princípio de organização dessas polarizações sociais reais, que estavam até ali bloqueadas pelo sistema político. Mas essa polarização não se consubstanciou em bancadas de situação e de oposição correspondentes, não encontrou expressão adequada no interior do sistema político.
O pouco mais pouco menos da metade do eleitorado que votou em Dilma Rousseff não se sente representado pela megamaioria de apoio ao governo, que embute a verdadeira, real e efetiva oposição ao próprio governo. O mesmo vale para o pouco mais pouco menos da metade do eleitorado que não votou em Dilma Rousseff: não se sente representado pela franja oposicionista, que não tem nenhum outro projeto a não ser manter o condomínio do mesmo jeito, só mudando o síndico. O único político (de oposição, ressalte-se) que ousou tomar um microfone na Avenida Paulista em 15 de março foi impedido de falar pelas vaias.
Um outro efeito decisivo do junho de 2013 pode ser visto na Operação Lava Jato. Foi a conjunção do clamor das ruas com uma longa preparação de órgãos judiciais e de investigação que conseguiu superar os bloqueios escandalosos que o sistema político impôs a operações anteriores de mesma magnitude. Em 2010, por exemplo, o Superior Tribunal de Justiça bloqueou a Operação Castelo de Areia, precursora da atual Lava Jato. Com isso, foi adiada em cinco anos a nossa “Operação Mãos Limpas”, aquela que mudou para sempre a política da Itália nos anos 1990. Foi perdida mais uma chance de alçar o modo de operação do sistema político a um novo e superior patamar, em um momento econômico ainda relativamente favorável àquela altura.
Diante do risco muito concreto de enfrentarem não apenas o fim de suas carreiras políticas, mas a prisão, grupos inteiros dentro dos partidos se organizaram com o objetivo único e primordial da autodefesa, fragmentando ainda mais um sistema já perto do inadministrável. Situação que é um obstáculo quase intransponível a qualquer projeto de reorganização do sistema político com base em acordos estritamente partidários. Porque o aprofundamento das investigações da Lava Jato vai ter o efeito de desorganizar ainda mais um cenário partidário já muito desarrumado.
Do lado da sociedade, o efeito pode ser o do crescimento de uma negação abstrata da política, de uma rejeição da política enquanto tal. É o caldo de cultura perfeito para a formação de um despolitizado “que se vayan todos”, nos moldes da Argentina de 2001. Esse abismo está posto diante do País e não pode ser ignorado.
Qualquer reconstrução da governabilidade nos moldes tradicionais do peemedebismo do sistema político - ou, para lembrar o eufemismo que ficou consagrado, o “presidencialismo de coalizão” - vai ser bombardeada por quatro longos anos pelas ruas e pelo oportunismo partidário cabível. Mesmo que a desvalorização do câmbio acabe tendo efeitos econômicos positivos no horizonte de um ou dois anos. Mas pode ser que um governo assim consiga sobreviver.
Ocorre que uma reorganização como essa não depende apenas do governo, mas também da oposição. Do contrário, a crise não vai sequer se estabilizar. A reorganização nesses moldes depende de um balé coreografado entre governo e forças que se disponham a liderar uma frente oposicionista efetiva, que dê voz real à oposição presente na sociedade. Para que isso aconteça, forças partidárias de oposição terão de se perfilar no sentido das ruas, sem recuar nem mesmo diante da bandeira do impeachment, por exemplo - que até agora não foi aceita de maneira inequívoca por nenhuma liderança política de peso. O fato de a maioria dos que foram às ruas no dia 15 de março não ser favorável ao impeachment não significa que o tema saia da pauta.
Congregando o conjunto das forças de oposição presentes nas ruas em toda a sua diversidade, uma frente como essa teria o potencial de atrair uma bancada parlamentar representativa, capaz de expressar no interior sistema político a real polarização existente na sociedade entre situação e oposição, e não a encenação patética a que se assiste há quase dez anos. De qualquer maneira, se seguida, essa linha de ação teria de ser executada de maneira hábil e cuidadosa, dado o rechaço generalizado da política e dos políticos que emergiu desde junho de 2013.
Não sendo esse o caminho trilhado, pelo menos duas outras possibilidades se abrem. Na primeira delas, o sistema partidário continua desconectado das diferentes forças sociais que irromperam desde 2013. Nesse caso, o sistema político uma vez mais dará as costas às ruas, em toda a diversidade de aspirações presentes nos diferentes protestos. As forças que sustentam o movimento pelo impeachment vão recrudescer e buscar em outsiders do sistema político a expressão de sua insatisfação de base. Essa é a alternativa Joaquim Barbosa, comparável a uma experiência como a de Silvio Berlusconi na Itália. Depois da “Operação Mãos Limpas” e da ausência de uma efetiva reorganização estrutural, o sistema político italiano entrou em colapso e o rechaço generalizado da política e dos políticos só encontrou expressão em Berlusconi.
A segunda e mais improvável possibilidade é a formação de uma frente ampla em torno de uma reorganização do sistema político em novos moldes. A improbabilidade dessa via é tanto maior quanto mais profunda é a incompreensão do significado do junho de 2013. A raiva social liberada ali, a agressividade cotidiana entre vizinhos, colegas de trabalho e mesmo em círculos de amigos não vai voltar para a garrafa só porque se alcançou um novo acordo com o PMDB - qual PMDB, aliás -, ou porque a franja oposicionista resolveu “estudar a possibilidade” de pedido de impeachment.
Ainda não é suficientemente clara a consciência da gravidade da crise atual. Nem ficou ainda evidente que nenhuma força partidária irá se beneficiar do caos. Se se quiser uma imagem: ainda não ficou claro que a situação se assemelha a uma conjunção do momento pós-impeachment de Collor com o início do segundo mandato de FHC, em 1999.
Mas é apenas uma imagem. Porque, ao contrário desses dois outros momentos, hoje não se pode falar sequer em acordos estritamente partidários, dada a fragilidade em que se encontram os partidos. E a construção de um real programa de governo teria de se dar em bases que não sejam ditadas nem dirigidas por nenhuma força política em particular, mas resultado de um efetivo acordo negociado. Para não falar no fato de que o país que viveu vinte anos de relativa estabilidade, os padrões de vida melhoraram e as expectativas de diminuição de desigualdades, efetivação de direitos e de melhoria dos serviços públicos fincaram raízes profundas na sociedade.
Importa ter claro que essas possibilidades hoje visíveis evidentemente não se equivalem nem significam uma efetiva superação da crise. Se o sistema político uma vez mais optar por se blindar contra as polarizações existentes nas ruas o resultado será o prolongamento da crise por outros meios, em versões até mais dramáticas, inclusive.
Porque o pior da crise ainda está por vir. A Lava Jato ainda não fez todo o estrago que tem para fazer. A recessão econômica ainda não mostrou seus dentes. O desemprego ainda não chegou a seu pior momento nem a inflação atingiu seu pico destrutivo. Os racionamentos de água e de energia ainda não se tornaram oficiais. Os protestos de rua ainda não são cotidianos.
A longa e paquidérmica redemocratização brasileira, de 1979 a 2013, foi feita com base em um grande acordo que teve pelo menos três momentos. A década de 1980 foi marcada pela formação de um “Centrão” político para a superação do autoritarismo, uma garantia contra o risco de “guinadas bruscas” do quadro político. Na década de 1990, esse Centrão foi dirigido e direcionado para a produção de uma estabilização econômica e política, superando a paralisia e o caos da década anterior. Na década de 2000, sem alterar essa mesma lógica de gerenciamento do sistema político, a estabilização alcançada foi posta a serviço de uma melhoria geral dos padrões de vida sem aumento das desigualdades.
A crise atual mostra a obsolescência desse acordão típico da redemocratização e a necessidade de uma democratização da democracia, de uma efetiva democratização do sistema político. O ambiente para isso é ruim, evidentemente. Mas é o que se tem.
Qualquer realinhamento tem de ser feito quanto antes. Não se pode esperar que a múltipla crise que enfrentamos atinja seu momento mais destruidor. Do contrário, o que se verá é uma situação de caos social, econômico e político como só a década de 1980 foi capaz de produzir.
(Marcos Nobre é professor de filosofia da Unicamp e pesquisador do Cebrap)
Fonte: O Estado de São Paulo/Aliás
Sondagens de opinião são ferramenta eficiente no marketing comercial e, embora superestimadas, têm seu valor no marketing político. Usá-las, porém, na interpretação de cenários sociológicos complexos equivale a praticar cirurgias delicadas com faca de cozinha. Ouvindo manifestantes do 15 de março, o Datafolha concluiu que a mensagem predominante foi o repúdio à corrupção. O óbvio, no caso, é quase uma falsificação. Nas ruas, os alvos evidentes eram Dilma Rousseff e o PT. Os protestos, de dimensões históricas, foram muito além da generalidade sugerida pelo instituto de pesquisa.
As Jornadas de Junho de 2013, deflagradas pela repressão a pequenas passeatas contra reajustes de tarifas dos transportes públicos, não foram "pelos vinte centavos". O tema da corrupção, emoldurado pela paisagem da farra da Copa, é que movia multidões sem broches partidários ou insígnias de "movimentos sociais". Naquele mês louco, contudo, os protestos dirigiam-se contra toda a elite política, responsabilizada pelo desvio de recursos públicos que deveriam ter como destino a educação, a saúde e os transportes urbanos. O 15 de março refinou a crítica, associando a corrupção a um governo e um partido. É por isso que o Planalto treme.
Nas democracias, apuradas as urnas, o derrotado congratula o vencedor. O gesto simboliza o reconhecimento do eleito como representante de todos, inclusive dos que não votaram nele. O 15 de março assinalou a deslegitimação de Dilma. Os manifestantes disseram que ela não é mais vista como a presidente de todos, mas como a chefe (ou subchefe?) de uma facção. A conclusão deriva tanto do escândalo na Petrobras quanto do estelionato eleitoral. Na leitura das ruas, Dilma aceitou a transformação da estatal em ferramenta de financiamento de um sistema de poder e mentiu aos brasileiros sobre a economia.
O Brasil experimentou um levante contra uma engrenagem específica de corrupção: a subordinação do Estado a uma facção política. A queda vertiginosa dos índices de aprovação do governo revela que o 15 de março espelha os sentimentos de uma maioria esmagadora, em todas as regiões e classes de renda. As estratégias de reação do governo, sopradas por Lula, interditam os estreitos caminhos de restauração da legitimidade perdida.
"Nós contra eles." O "diálogo" de Dilma é com o PMDB e o lulopetismo, não com a sociedade. Numa ponta, tentando refazer o tecido da base aliada no Congresso, a presidente entrega o poder a Eduardo Cunha e Renan Calheiros. A demissão de Cid Gomes, o boquirroto, é um marco na instalação desse parlamentarismo bastardo, que equivale a um segundo estelionato eleitoral. Na outra ponta, o Planalto manobra para aquecer a base militante petista, piscando um olho para os órfãos da reviravolta na política econômica. O documento sigiloso da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) ilustra esse impulso desastroso, que é o caminho mais curto rumo ao impeachment.
O texto dos sábios da Secom é uma confissão de culpa. Nele, recomenda-se violar os preceitos constitucionais sobre a publicidade oficial, concentrando a propaganda federal em São Paulo para "levantar a popularidade do Haddad" e, assim, "recuperar a popularidade do governo Dilma". Paralelamente, sugere-se centralizar o comando da "guerrilha na internet", coordenando as ações do governo, do PT e dos blogueiros chapa-branca (os "soldados de fora", na precisa definição da Secom). É a primeira admissão oficial de que a máquina estatal foi capturada por uma facção política, discriminando os cidadãos segundo a cor da camisa que vestem.
Dilma perambula, de olhos vendados, à beira do abismo. O anteparo que ainda existe é a mureta erguida entre as ruas e os partidos de oposição, um vestígio persistente das Jornadas de Junho. A chefe de facção perdeu o controle sobre o seu destino.
Fonte: 21/03/15)
A esta altura da crise do “modo petista de governar”, com base em esquemas de corrupção como o mensalão e o petrolão, com parcelas significativas da população mostrando clareza na identificação dos responsáveis pelos prejuízos infligidos por tais práticas ao país e, por conseguinte, aos trabalhadores, saltam aos olhos os gestos desencontrados do líder máximo e principal beneficiário dos esquemas organizados pelo PT desde 2002.
De um lado, o Lula-pragmático estaria por trás da nomeação do ministro-banqueiro para consertar os danos causados pela melée econômica de Dilma & Mantega, ao mesmo tempo que acenaria para os peemedebistas com mais espaços de poder e às oposições com uma vaga “união nacional” para tirar o governo da crise — na esperança de que os grandes empresários pressionem pela “governabilidade” em nome de seus lucros, em fase de aperto.
De outro, o Lula-companheiro, sob pressão do bolivarianismo do MST, esbraveja: “Também sabemos brigar. Sobretudo quando o Stedile colocar o exército dele nas ruas”. A infeliz bravata lembra as invectivas de comunistas e nacionalistas nos anos 1960 contra o gorilismo — termo designador das vozes oriundas da direita militar que se eriçavam diante da radicalização dos movimentos sociais e das reformas de base “na lei ou na marra” —, baseadas na suposta invencibilidade do “povo unido” e do dispositivo militar-legalista de Jango. O gorilismo, como se sabe, cresceu em meio à falta de rumo do governo populista e sua vacilante inclinação pelas bandeiras radicais, e o esquema militar-legalista se esfumaçou diante das contradições e tibiezas da coalizão governista.
A partir de 1984, o gorilismo desapareceu de cena e as reformas de base perderam seu foco revolucionário, se tornando um anseio de forças diversas, em sentidos muitas vezes opostos, e, a princípio, processáveis pelas instituições democráticas. O fantasma do comunismo também desapareceria na década seguinte, mas em seu lugar surgiria o fantasma do bolivarianismo, que paira ainda mais ameaçador sobre a América Latina e que Lula-companheiro acaba de colocar no palco da crise, aparentemente desconhecendo seu ingrediente explosivo, potencialmente capaz de despertar as Forças Armadas para seu papel histórico de defensora em última instância da República — o que na história não se deu exclusivamente pela direita, como pensam alguns.
As invectivas de Stedile — “só temos uma forma de derrotá-los agora: é nas ruas” — são inócuas como peça dissuasória, mas têm forte potencial desestabilizador das articulações de Lula-pragmático e do próprio Governo. Assim, se a retórica radical progredir, aumentam as chances de o bolivarianismo cordial do PT — como denomina Jabor — ser crescentemente percebido como a fase larvar do bolivarianismo propriamente dito, em vez de mutação genética provocada pela tendência tupiniquim à antropofagia de ideias, que lhe emascularia o vigor populista-revolucionário.
A perspectiva confrontacionista de Lula & Stedile é perigosa para a democracia, mas é improvável que eles consigam desviar o foco da crise, do parlamento para a ruas, como pretende Stedile, porque a maioria das lideranças petistas deve se lembrar dos acontecimentos de 1963-1964, num contexto onde o partido dos trabalhadores de então (Partido Comunista Brasileiro) não podia disputar eleições e a central sindical dos trabalhadores (Comando Geral dos Trabalhadores) não estava institucionalizada — aumentando a tendência de ambos escorregarem para a aventura política —, situação em que o enfrentamento das ruas beneficiou apenas a direita.
Hoje, além de não terem um verdadeiro dispositivo militar, é muito mais custoso para o PT e a CUT optarem pela luta extrainstitucional do que outrora foi para o PCB e o CGT — o mesmo se aplicando ao MST em relação às Ligas Camponesas, embora a um custo menor. A institucionalização da esquerda foi uma das grandes conquistas da redemocratização e torna muito problemática qualquer guinada política em direção às ruas, como se viu no passado.
O próprio Parlamento é outro; nele estão representadas todas as forças políticas do país e, não obstante sua crônica crise de representação, existem todos os recursos formais e informais para digerir a crise político-econômica e oferecer uma alternativa política a ela, sem o beneplácito do PT, como outrora se viu na formação do Governo Itamar — não obstante a escassa credibilidade de suas atuais lideranças institucionais, investigadas pelo STF a pedido do MPF.
A este respeito, é bom não subestimar a capacidade dos partidos de tomar posições institucionais quando se trata da sobrevivência política, o que pode significar o rearranjo das forças oligárquicas em seu seio, entre outras atitudes não corriqueiras e pouco perceptíveis aos olhares da maioria dos analistas. De novo, o impedimento de Collor e as articulações que deram ensejo ao Governo Itamar são dignos de nota — assim como o foi a própria vitória de Tancredo no Colégio Eleitoral da Ditadura em 1984. Na primeira ocasião, se criaram as bases políticas e programáticas para que o país superasse a hiperinflação e progredisse em direção ao desenvolvimento econômico e político, cujo clímax o PT não soube gerenciar em função de seu patológico apetite por poder.
Cunha e agora Calheiros parecem ser a expressão provisória, mas não fugidia, de que o Centrão — outrora protagonista do equilíbrio político no seio da Assembleia Constituinte de 1986 — volta a articular-se no parlamento em meio à incapacidade do PT e seus aliados de acharem um rumo coerente e razoável para tirar o país da crise em que o chafurdaram.
Aqui voltamos à esquizofrenia dos dois Lula. Sua situação é como a de um afogado: quanto mais se debater, mais severo e custoso será o preço a pagar ao Centrão para atravessar a tempestade sem o apoio da maioria da população e dos agentes econômicos em agonia.
Hamilton Garcia de Lima é cientista político e professor do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce)/ UENF.
Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil
Em 2005, no auge da tensão do mensalão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ameaçou acionar o dispositivo popular do PT e dos movimentos de sua esfera de influência. Colocaria o "povo na rua". Impressionada com o "chavismo" e temerosa pelo Brasil, a oposição preferiu colocar freio a escalada de um impeachment. Avaliou que derrotaria Lula nas urnas, na eleição do ano seguinte. Já é história, mas dali se depreende que havia uma crença na capacidade mítica de mobilização de Lula e do PT.
Três episódios recentes, porém, evidenciam que pode não ser mais assim: 1) a manifestação do dia 13, em apoio ao governo Dilma Rousseff, ficou muito aquém do que se esperaria em condições tão aflitivas para a presidente - na comparação com o dia 15, será difícil não admitir que o dia 13 foi quase um fiasco; 2) o documento vazado da Secretaria de Comunicação, ao qual o Estado teve acesso, admite sem rodeios que a militância virtual do PT abandonou o governo e aponta textualmente uma goleada: "Estamos entrando em campo perdendo de 8 a 2"; e 3) na última pesquisa Datafolha, o ponto mais surpreendente são os pífios 13% de avaliação "ótimo/bom" - mais relevante que os 62% de "ruim/péssimo".
O PT teria perdido seu maior patrimônio, sua base social, e sua capacidade de mobilizá-la? FHC, em seu tempo, é verdade, esteve nesse mesmo patamar (13%), mas contava com condições mais sólidas de apoio nos partidos e não havia um caso nas dimensões da Lava Jato a pressioná-lo. Enfim, é possível que este seja o fato mais pleno de consequências: o governo Dilma pode estar absolutamente descoberto, sem o colchão de proteção que se imaginava ter. A tendência é que fique mais à mercê dos aliados do Congresso e da oposição e da fúria das ruas, com pouca força para reagir. Se o fará ou não, somente a história dirá.
Carlos Melo é cientista político e professor do Insper
Fonte: O Estado de São Paulo (19/03/15)
A descrença em nós mesmos, como povo e como sociedade, parece ser ingrediente entranhado em nossa cultura. Discuti-la tem sido recorrente entre os "explicadores do Brasil" de maior envergadura.
Na miudeza cotidiana, o ceticismo imobiliza as pessoas, pois os antídotos são as fugas coletivas, como o conformismo, o carnaval, as drogas ou a obsessão futebolística. Assim dizem os estudiosos, igualmente sugerindo que medicação adicional dos indivíduos para os perturbadores tempos da desesperança seriam as religiões. Estas podem enrijecer as crenças ancoradas no salvacionismo e nos prostrar diante dos deuses e suas magias, enquanto prometem a redenção no futuro remoto. O presente, em consequência, tornar-se-ia mais tolerável, suavizando as reações sociais.
Também seríamos um povo sem memória e por isso nos comportamos como aquietadas marionetes perante aqueles que comandam a riqueza, o poder e a política. Parece que a frase repetida entre filósofos e literatos "somos porque lembramos" não seria distinção visível entre nós. Assim infantilizados, nossas práticas sociais têm rasa densidade e nem mesmo teria existido alguma história de "longa duração", induzindo a produção de cultura mais robusta, tradições enraizadas, costumes inquebrantáveis. Vítima da amnésia geral, nosso senso de humanidade se rebaixa amesquinhado.
Seríamos mesmo um povo residual e descartável, eternamente vítima das artimanhas do poder? Como nos adverte o sociólogo José de Souza Martins, "afirmamo-nos como povo no negativo, no noticiário policial, na esquizofrenia das revoltas populares inconclusas".
Mas esses seriam os bloqueios primordiais?
Ainda que a crise atual evidencie, sobretudo, contornos econômicos e políticos, em sua essência a inquietação e o estranhamento por que passamos decorrem, particularmente, de uma crise moral.
Estamos, os brasileiros, abandonando a sustentação oferecida pela moralidade: a regra geral a partir da qual não apenas resignadamente nos curvamos, mas a norma cuja existência também almejamos ansiosamente, pois é a estrutura não escrita que garante alguma estabilidade. Levianos, excluímos sem substituição alguma os elementos constituintes e os mecanismos morais que organizam os agrupamentos coletivos e mantêm coesa a argamassa da sociedade.
Em consequência, a moralidade vem sendo corroída aceleradamente, deixando-nos à deriva no que diz respeito aos valores principais e à matriz ética que nos deveria orientar. Sem rumo algum que seja discernível, igualmente renunciamos a qualquer noção de "boa sociedade" que nos poderia seduzir politicamente. Debilitada essa estrutura de coerção positiva imposta pela moralidade, os indivíduos começam a sentir na pele os efeitos da lei da selva e sentem-se dispostos a defender-se de acordo com os interesses mais imediatos. As noções de bem comum, espaços públicos e até mesmo de sociedade lentamente desaparecem do imaginário social. Se a crise moral se aprofundar, não estaremos longe da porta do "Deus nos acuda".
Por que tem sido assim? Em sua inteireza, a explicação exigiria complexa análise das causas principais. Um dos temas tratados seria, por exemplo, o gradual, mas incontrolável apodrecimento das noções de autoridade e legitimidade.
Exemplo recente: se algumas centenas de ingênuas adolescentes urbanas travestidas de "camponesas" invadem uma firma organizada legalmente e destroem experimentos de pesquisa com eucaliptos transgênicos, mas nenhuma delas é indiciada, a aceitação social da autoridade legítima escorrega alguns degraus abaixo. Outro exemplo: a mandatária maior do País vem mentindo sistematicamente desde a última campanha eleitoral e despudoradamente persiste nesse caminho, após eleita. Parece ignorar que o conteúdo de legitimação dos cargos públicos assim se desmoraliza aos olhos dos cidadãos. Ante a ruína da Petrobrás e o simbolismo da empresa, somados ao efeito dominó operado em toda a economia e no sistema político, a lista de exemplos seria interminável.
Em nossos dias, uma cristalina consequência decorrente desse impressionante período de dissimulações de todos os tipos é que o Brasil se está transformando na sociedade modelar do fingimento. Somos atualmente um vasto teatro, com figurantes de todos os tipos, quase todos sonhando com mundos ficcionais. Exigimos bolsas estatais para tudo e todos, benefícios e favorecimentos os mais diversos e apenas discutimos direitos, mas nunca deveres. Projetos querem garantir cotas para qualquer especificidade ao gosto do proponente, mesmo que os beneficiários representem minorias minúsculas, segmentando ainda mais uma sociedade já historicamente fraturada por um obsceno padrão de desigualdade social. Fingimos que trabalhamos e simulamos que somos sérios. Em síntese, fingimos aceitar que existiria, sim, o almoço grátis e nenhum sacrifício coletivo em torno de um projeto de nação jamais será exigido dos cidadãos. E a ninguém é dado o direito de perguntar sobre o pagamento da conta, pois também fantasiamos que o ressarcimento econômico ou moral sempre poderá ser adiado para um distante ponto futuro.
Em outros tempos, a grande política discutia o poder e os limites do Estado, ou como os governos deveriam envolver-se com os cidadãos e as necessidades da população. Era um grande e permanente debate que fortalecia algo chamado sociedade. Regularmente existia a chance eleitoral de mudar a direção da discussão geral. A política sempre envolvia paixão, criatividade e, sobretudo, argumentos em torno de previsões sobre o futuro. Tudo isso acabou. A política em nossos dias está ancorada exclusivamente no dinheiro e no imediatismo. Este é o impasse: é preciso reinventar a política como forma de resgatar a chance de construir novamente o sonho da boa sociedade.
Fonte: O Estado de São Paulo (17/03/15)
Zander Navarro é sociólogo e professor aposentado da UFRGS.
Não queria mexer nessa ferida. Até em respeito a companheiros que já se foram e a muitos que felizmente ainda estão entre nós. Por eles tenho carinho e faço questão de manter laços de amizades.
Mas ao ouvir Dilma repetir pela enésima vez uma visão martirizada da esquerda que combateu a ditadura de armas na mão, não me contive.
O corajoso post de Cesar Benjamin de hoje me deu certeza. Vale a pena comprar esta briga, polemizar com quem está se apropriando da história.
Vende-se o peixe que temos democracia hoje porque a esquerda, sobretudo a armada, combateu heroicamente a ditadura. Hipervaloriza-se assim a ação dos agrupamentos armados e deifica-se suas ações.
A história não aconteceu assim. Não discuto aqui o despojamento de uma geração, da qual fiz parte. Seus sentimentos eram nobres, sem dúvidas. Embora as organizações de esquerda da época, inclusive a que eu militava, Ação Popular, não tivessem entre seus valores a democracia como valor universal.
No fundo queríamos substituir a ditadura por algum tipo de governo popular em transição ao socialismo, seja qual denominação isto assumisse.
Mas não é esta discussão que está em pauta. Sobre este tema há um livro de Daniel Aarão Reis e do saudoso Jair Ferreira de Sá que considero definitivo.
Retomo aqui um comentário do meu amigo Sérgio Fialho, outro baiano porreta:
“O que eu acho mais complicado é que esse discurso atribui implicitamente à luta armada o protagonismo da luta contra a ditadura, quando sabemos que, heroísmos à parte, que a ditadura caiu por força de um amplo, muitas vezes anônimo, movimento de massas, liderado por uma estratégia política oposta à luta armada. Se não se toma cuidado, esse discurso vira mistificação da história.”
Assino em baixo pelas seguintes razões: 1) A esquerda armada não foi vitoriosa. Foi derrotada militarmente, mas também politicamente. 2) A ditadura não caiu como ela imaginava. 3) Aliás, não foi derrubada, foi derrotada politicamente, como lucidamente, anteviu Armênio Guedes. 4) Os grandes protagonistas dessa transição da ditadura para a democracia foram os democratas (autênticos ou moderados), os liberais e, faça-se justiça, o PCB, um artesão da unidade.
Foi essa resistência molecular e cinzenta nos estreitos espaços legais, associada à luta de massas que tomou amplitude no final dos anos 70, que asseguraram o direito dos brasileiros de irem às ruas hoje para protestar contra o que quiser.
A democracia de hoje não é, portanto, uma dádiva do atual governo. É uma conquista de um povo.
Para ela contribuíram moderados como Thales Ramalho, Tancredo Neves, (um político de linha reta que jamais apoiou qualquer ação golpista), liberais como Paulo Brossard, dissidentes da Arena como Teotônio Vilela, democratas como Ulysses Guimarães, Franco Montoro, José Richa, Pedro Simon, Alencar Furtado, Lisâneas Maciel, Marcos Freire, Airton Soares, Chico Pinto, e tantos e tantos outros.
Para ser fiel a história não poderíamos deixar de registrar o quanto o PCB, seja através de seus dirigentes na clandestinidade seja através de seus parlamentares foi essencial nessa empreitada.
Para fazer justiça, teria que escrever uma nota só sobre os comunistas e a resistência democrática. Fica para outra oportunidade.
Hoje é dia de fazer uma reparação histórica.
De reconhecer a dívida que temos com liberais e democratas que construíram a ponte para fazermos a travessia e chegarmos à democracia de hoje.
Desculpem o texto longo. E se eventualmente feri suscetibilidades, mil perdões.
Os apoiadores do governo Dilma quiseram se contrapor às manifestações de ontem, domingo 15 de março, e perderam. Perderam, antes de tudo, porque na sexta-feira puseram menos gente nas ruas e não conseguiram dramatizar o ato que organizaram. Foram superados em alguns bons milhões, o que não é desprezível se considerarmos que povo nas ruas era, até então (ou até 2013), uma espécie de monopólio do PT.
Foram efetivamente milhões contra o governo. Especialmente da classe média e da “classe alta”, pelo que se pôde ver na superfície, nas caras, no estilo. Eleitores tucanos, na maioria, com certeza. Mas teria sido somente isso? O povão terá permanecido indiferente, alheio à massa de gente que se manifestou? Fechou-se em silêncio para reiterar o apoio ao governo? Não há como saber. Os governistas disseram que foi uma manifestação de “brancos”, que os negros ficaram em casa.
Falaram que as pessoas foram induzidas e estimuladas pela Globo e pela “mídia golpista”, que os “fascistas” eram a maioria. Tentaram fazer de tudo para deslegitimar os protestos. O que fica são as imagens da TV, um pouco de bom senso analítico e as vibrações da corrente elétrica que tomou conta de muitas cidades e que, em São Paulo, permaneceu ativa durante 12 horas. Perto da meia-noite ainda se ouvia uma panelinha aqui e ali.
Foi um barulho emblemático, simbólico, polifônico e em boa medida espontâneo, fora de controle. Expressou a babel brasileira em ação, juntando democratas irritados, gente desencantada com a política, grupos saudosos da ditadura e pessoas que acreditam que uma “intervenção militar” pode endireitar o país. Falou-se contra o PT e o comunismo, como se fossem sinônimos, contra a corrupção, contra os políticos e os partidos. Vestidas de verde-e-amarelo, as vozes pareciam querer se unir em torno da defesa de um País. Não necessariamente de uma comunidade política.
O governo também perdeu quando quis reagir. Não porque escalou Rossetto e Cardoso para falarem pela Presidente. Eles até que cumpriram o que deve ter sido combinado. O problema foi o script, o teor da fala, a postura. Nenhuma novidade, nenhuma proposta, nem sequer um minúsculo reconhecimento de que há um fosso entre as ruas e o Palácio. Ofereceram o mesmo lenga-lenga de sempre, sem nem se darem ao trabalho de requentá-lo.
O governo Dilma errou feio quando fez de conta que não sentiu a pancada. Não saiu do córner para onde foi empurrado. Isolou-se um pouco mais. Continuou a insistir nas mesmices que adotou como discurso desde 2013: há uma crise mundial, não temos culpa pelas dificuldades, fizemos tudo certo até agora mas o modelo se esgotou e a conjuntura conspira contra, estamos empenhados em estruturar um pacto contra a corrupção e pela reforma política.
O panelaço que acompanhou a entrevista dos ministros foi uma declaração bombástica: mudem o disco, este que continua a nos ser oferecido ninguém mais quer ouvir.
Foi preocupante. Não é bom para a democracia que um governo recém-eleito fique nas cordas, sem capacidade de reação inteligente. Como não cairá — não há golpe nem impeachment com chances reais de afirmação –, a perspectiva de tê-lo enfraquecido e zonzo por mais quatro anos não é boa. Poderá deixar as coisas ainda piores, sobretudo no chão duro da vida. Não somente na política.
Por isto, hoje há uma única pergunta pedindo respostas: e agora?
O importante não é descobrir os próximos passos dos oposicionistas, se haverá ou não novas manifestações, se serão ainda maiores e envolverão as forças políticas, ou se a onda arrefecerá na praia. O importante é, por um lado, ver o efeito disso na democracia, no sistema político e nos partidos: ver como reagirão, se conseguirão estabelecer um link ativo com as ruas, se conseguirão ser mais protagônicos e ajudar a organizar politicamente a virtude das ruas. Por outro lado, e sobretudo, é saber o que fará o governo Dilma, o PT, sua base parlamentar. Não é razoável achar que não farão nada. Não é razoável, mas a vida não é feita só de ações e reações razoáveis. Sempre há cordas e espaços para quem pensa em se enforcar.
Os políticos brasileiros — todos eles, sem exceção — têm cultuado um desconcertante desprezo pela interação social: não dialogam com o povo, não vão aonde ele está, só o procuram em épocas eleitorais. Não demonstram qualquer disposição para compreender a sociedade que aí está. São “antissociológicos”, digamos assim: acham que sociologia e análise sociológica são coisas de intelectuais acadêmicos, diversionismo e perda de tempo. Parecem desconhecer o mundo em que vivem, não reconhecem que o modo de vida mudou, que as pessoas são diferentes e estão mais massificadas do que nunca, não cabendo mais nos esquemas analíticos dicotômicos: nós e eles, ricos e pobres, burgueses e proletários.
A própria dupla esquerda x direita — que continua vivíssima, assim como o conflito social — ganhou contornos mais complicados. Os políticos precisam se libertar dos chavões dogmáticos que fazem com que a luta de classes se converta em expediente doutrinário para a luta política e perca densidade como critério de análise política. Não adianta falar em correlação de forças sem que se compreenda o estado atual das forças em jogo. São completamente insuficientes os lugares-comuns do “bom governismo”: estamos fazendo o melhor, o certo e o possível, mas nossos inimigos não nos dão trégua e não nos deixam fazer mais. Falar em participação e democracia é fácil, difícil é viabilizar isso como critério de sustentação governamental e de governação.
O governo Dilma ainda tem 14 rounds pela frente, depois de ter saído grogue do primeiro. Os que estão contra ele hoje ainda não estão articulados e nem apoiam seus adversários da oposição política.
O governo tem tempo e recursos para sair do córner e agir com inteligência. Deveria começar por um ajuste no discurso e na comunicação, explicar porque não consegue cumprir as promessas eleitorais de 2014, caprichar na linguagem. Pode mexer no ministério: incluir nele uma boa cota de figuras dotadas de brilho próprio e liderança. Se fizer isso, porém, para dar mais peso ao PMDB e acalmar a tropa no Congresso, pulará no precipício. O governo e o PT deveriam reformular o modo como praticam o presidencialismo de coalizão. Se quiser ganhar corpo e decolar, o governo pode até mesmo acenar para a oposição, chamá-la para conversar e fazer algo em conjunto.
Para qualquer uma destas opções, porém, precisa se desvencilhar da empáfia, da arrogância e da autossuficiência, aceitar que errou em certos pontos, que não retém toda a sabedoria política e gerencial da nação, que a crise é real e complicada não só porque o capitalismo globalizado é real e complicado, mas porque a sociedade brasileira é real e complicada, não tem donos nem patronos.
Podemos esperar algo assim?
Fonte: O Estado de S. Paulo (17/03/15)