quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Fuga pra debaixo do nariz (Juca Magalhães)


Amigos, vocês que recebem essa mensagem, especialmente da imprensa nacional, peço a gentileza de ler com atenção esse texto sobre a vexatória situação das relações entre a mídia e a justiça no Espírito Santo. É a voz indignada de um filho, órfão há mais de vinte anos, que, ao invés de respeito e consolo, tem esfregado na cara a dura realidade descrita abaixo. Se acharem o conteúdo interessante, passível de discussão, encaminhem a outros jornalistas e amigos espalhados pelo mundo. Peço, especialmente, que o encaminhem ao atual presidente da Associação Nacional dos Jornais, Carlos Lindenberg Neto, aliás, meu colega de escola a quem muito admiro, para que possa também meditar sobre o acontecido.
Atenciosamente

Juca Magalhães

FUGA PRA DEBAIXO DO NARIZ

No dia 04 de fevereiro de 2013 a polícia capixaba divulgou a notícia da prisão de José Alayr Andreatta, réu condenado em todas as instâncias judiciais como mandante do assassinato da jornalista Maria Nilce dos Santos Magalhães, ocorrido em 05 de julho de 1989. As surpresas dessa prosaica captura foram muitas, afinal, Andreatta estava foragido desde julho do ano passado e - muito longe de se esconder em alguma caverna no Cazaquistão - curtia uma espécie de aposentadoria em Jardim da Penha, bairro praiano, considerado nobre na cidade de Vitória.

Atentem para o detalhe da camiseta "submarina" que Andreatta usava no momento de sua prisão. É ou não para pensar que o sujeito "estava mergulhado"? (Imagem da TV Gazeta-ES)







A reportagem anunciando a prisão de José Alayr Andreatta, veiculada na 2ª Edição do telejornal da Rede Gazeta, afiliada Globo no Espírito Santo, adotou um ar curiosamente respeitoso para com o foragido da justiça. Mesmo tom distante e asséptico, é bom dizer, adotado de maneira geral pela mídia capixaba com relação ao caso Maria Nilce ao longo do tempo. O repórter tratou Andreatta como “empresário” e disse que a prisão fora “por acaso”. Afirmação que passa subjetivamente – sem intenção talvez - a ideia de que o empresário fora preso “por engano”. A frase foi a seguinte:

O empresário José Andreatta foi preso por acaso, ele saia de um supermercado no bairro Jardim da Penha em Vitória, quando foi reconhecido pelo delegado Danilo Bahiense.

Nem é preciso ler nas entrelinhas que, apesar de foragido, Andreatta não era necessariamente um perigoso bandido procurado, tanto que há meses morava despreocupado num bairro bacana e super populoso. Na questão da captura, o trabalho da polícia tem todo o mérito, mas o “esconderijo” do meliante surgiu através de uma denúncia anônima. Logo em seguida o repórter fornece um resumo do caso, mas bota resumido nisso, com o seguinte arremate:

O empresário José Andreatta foi apontado como mandante do assassinato, foi a júri popular em 2006 e condenado a 13 anos de prisão. O empresário recorreu da sentença em liberdade, mas teve todos os recursos negados. Não havendo mais possibilidade de recorrer, a justiça mandou prender.

Eu estou ficando maluco ou essa frase dá a entender que o homem foi preso por uma espécie de  implicância da justiça? Ora, ainda em 1989 a polícia federal apurou que esse tal Andreatta fretara o voo que dera fuga aos pistoleiros que mataram Maria Nilce e reuniu inúmeras outras provas de que o mesmo participara ativamente da articulação do crime enquadrando-o como mandante. Acontece que, com o chamado “amplo direito de defesa” - entenda-se, mais de vinte anos de recursos e apelações - o criminoso não havia sequer cumprido um dia na prisão. Somente em 2006 (!) José Alayr Andreatta foi julgado e condenado a 13 anos de cadeia. A reportagem prossegue dizendo que o mandato de prisão fora expedido em julho de 2012 e que "o empresário, na época, não foi encontrado".

Pois bem, foi se esconder debaixo do nariz da sociedade capixaba, entenda-se, o cotidiano nada clandestino dos botecos e supermercados de Jardim da Penha. Era mais um entre os inúmeros “tiozinhos gente boa” que frequentam o Pezão e o Bar dos Coroas. Ontem um conhecido meu, dono de um bar em Bairro República, disse que tomou um susto quando viu a notícia. Reconheceu Andreatta como frequentador regular de seu estabelecimento, inclusive, na companhia de policiais.  

Outra coisa curiosa são os comentários do delegado durante a reportagem, porque - sei-lá-porque - deram a entender que o Andreatta seria um coitado, vivendo em um apartamento minúsculo e dependendo da ajuda financeira de amigos. Será que era então para ter pena dele? O pior é que ninguém deu conta de explicar quem eram esses tais que ajudaram o empresário em sua doce clandestinidade pública. E, quinto parágrafo: quando foi que acobertar foragido da justiça deixou de ser crime?

Para colocar a cereja no bolo, o repórter abre o microfone para que o “empresário”, após tudo descrito aqui, tenha nova oportunidade de balbuciar sua inocência no telejornal de maior audiência do Espírito Santo.

Não tinha motivo nenhum pra matar, dentro do processo não tem uma prova, não tem nada contra mim. Eu nunca tive... Num fui condenado nada. Por que ia matar essa mulher?

O homem parecia desorientado, o que é natural quando a casa cai, enquanto isso o repórter explicava que “para a justiça José Andreatta mandou matar Maria Nilce por vingança”. Vem então o delegado Danilo Bahiense que, aliás, merece todo nosso respeito e admiração pela prisão deste assassino, reproduzir involuntariamente as velhas lorotas ditas por Andreatta no estilo do crime organizado que tem a notória prática de transformar a vítima em réu para justificar covardias e atrocidades.

Ele disse que a jornalista extorquia alguns empresários e estava querendo extorqui-lo também e ele não aceitou. E ela acabou divulgando de que ele teria se casado com um travesti naquela ocasião. Segundo consta esta teria sido a motivação.

Neste momento está entendido o crime, certo? Defesa da honra, só para justificar o último argumento, porque os anteriores são mentiras cabeludas, mas nada disso foi explicado para o público; foi, isso sim, veiculado impunemente, torno a dizer, no televisivo de maior audiência do Espírito Santo. Alguém pode explicar qual era a empresa poderosa que esse senhor Andreatta era dono em 1989 que mereceria o achaque da colunista social de maior importância e, ela sim, uma empresária bem sucedida, proprietária do segundo maior jornal de circulação diária na cidade de Vitória?

Em suma, todo o episódio dessa reportagem absurdamente desrespeitosa para com a memória de uma pessoa assassinada a sangue frio num caso que chocou o país é apenas a prova de que temer, respeitar, dar ouvido e até razão a “alta bandidagem” é ainda algo bastante trivial na sociedade capixaba. A culpa não é do repórter, nem é dos entrevistados. A criminalização de Maria Nilce, e de muitas outras vítimas de casos escabrosos, começa lá atrás e tem a ver com a corrupção de muita gente respeitada, temida e considerada “importante” no Espírito Santo. E a grande mídia - por pressão, influência e sobrevivência - com estes sempre foi conivente e condescendente.

José Alayr Andreatta foi julgado e considerado culpado, que cumpra sua dívida com a sociedade. Porém, é bom lembrar que as investigações da polícia federal o consideraram um “peixe pequeno” e que havia indícios do envolvimento de gente bem acima dele na hierarquia do “crime organizado” no Espírito Santo. A promotoria da época lamentou o fato de não ter sido possível chegar aos maiores financiadores do crime escabroso que vitimou Maria Nilce. Somente com muito custo conseguiram prenderam alguns dos operativos, os homens de campo e, ainda assim, só agora, quase vinte e quatro anos depois, um deles foi parar na cadeia. Agora, nos resta ainda saber se o "empresário" vai ficar mesmo por lá...

Segue o link da reportagem da TV Gazeta comentada acima, para que todos possam julgar a partir de sua própria percepção:


Para quem não sabe nada do crime que vitimou Maria Nilce Magalhães segue reportagem publicada no prestigioso site do Proyeto Impunidad que denuncia o assassinato de jornalistas na América Latina:


E segue outro texto de Juca Magalhães sobre o assunto, publicado no site Observatório de Imprensa, tido como o mais importante sobre jornalismo no país.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Partido, frente, rede: decisão tomada (Alfredo Sirkis)


Partido, frente, rede: decisão tomada




Bola pra frente...
 Não é mistério que, no que pese nossa grande amizade e identidade programática, Marina Silva e eu vínhamos divergindo em relação a alguns aspectos da conjuntura política. Embora solidário com ela --a ponto do haraquiri partidário--  achei precipitada sua saída do PV. Também na relação com a área ambiental do governo tivemos algumas diferenças de ênfase, tive restrições ao seu modus operandi político e a uma aproximação que interpretei haver com segmentos de extrema esquerda com um discurso anti-empresarial e que trabalham basicamente com energias negativas.

 Tivemos, na semana retrasada, uma longa conversa, em São Paulo,  na qual lhe coloquei a maior parte das minhas dúvidas, preocupações e questionamentos. Sem termos superado todas essas questões avançamos em boa parte delas, sobretudo em relação à nossa colocação num campo político-programático realista e tolerante, não-sectário e distante de visões econômicas atrasadas ou estapafúrdias. Encontrei-a identificada com aquele nosso discurso amplo e inclusivo da campanha de 2010.

 Em relação ao partido e à campanha presidencial pedi-lhe o prazo de uns dez dias para que eu tivesse a oportunidade de conversar com algumas pessoas, para mim importantes, antes de decidir se iria acompanha-la. Conversei pessoalmente ou pelo telefone com Fabio Feldmann, Fernando Gabeira, Sérgio Xavier, André Esteves, meu filho (e consigliere) Guilherme, Marco Mroz, presidente do PV-SP, o deputado Zequinha Sarney(PV), a deputada Rosane(PV) o governador  de Pernambuco, Eduardo Campos e meus colegas deputados Reguffe(PDT),  Walter Feldman(PSDB), Dutra(PT) e Tripoli(PSDB). 

 Ontem, junto com estes últimos quatro, estive com Marina Silva em sua casa, em Brasília,  para lhe dizer que vou participar do esforço de criação desse novo partido cujo nome propus ser ECO BRASIL, REDE ECO BRASIL ou, simplesmente ECO. 

 Enquanto não sair o registro desse novo partido permanecemos nos  nossos respectivos partidos de origem e, no meu caso, no PV. Fui fundador do PV, redator do seus manifesto e programa, presidente nacional durante oito anos, candidato à presidência da república, em 1998, vereador por quatro mandatos e deputado federal. Deixei a vice-presidência nacional e a presidência estadual do Rio em protesto contra a situação que levou a saída de Marina, em 2011. Fui cartorialmente expurgado da executiva nacional e implacavelmente perseguido e isolado. Após a saída de Marina, permaneci o no PV e, dentro de certos limites de dignidade,  procurei algum caminho de diálogo, inutilmente. Não voltarei mais às questões que levaram ao conflito. Na nova situação  é preciso deixa-lo para trás e elas deixam de ter tanta importância particularmente quando desmistificamos o instrumento “partido”.

 Enquanto o sistema eleitoral brasileiro e a cultura política por ele engendrada e reproduzida perdurar é praticamente impossível termos partidos como sonhamos: instrumentos programáticos e ideológicos, escolas educadoras de partes da sociedade,  correntes mobilizadoras em torno de ideias e ideais.  Provavelmente morreremos tentando outra coisa mas hoje não é assim. A política brasileira como ela é engendra partidos de características individualistas,  fisiológicas e clientelistas. Ela contaminou os dois partidos  de esquerda programáticos dos anos 80: o PT e o PV. Não estou seguro que um novo partido não terá, num certo prazo, os mesmos velhos problemas, embora se possa criar certos mecanismos para evitar ou atenuar isso de alguma forma.

  Muito mais que pela ilusão do partido ideal, a minha decisão passa por uma identificação prática de onde eu possa atuar com maior consequência, de onde me seja mais produtivo e, sim, mais gratificante, atuar. No meu caso, especificamente, penso que é ajudando a construir algo novo. 

 Não estou estimulando ninguém do PV a me acompanhar individualmente muito menos liderando alguma dissidência. O PV continua a ser programaticamente o mais avançado dos partidos brasileiros, foi o único a votar,  de forma unanime,  em defesa do Código Florestal. Penso que futuramente poderemos nos reencontrar numa frente.  Ela torna a convivência mais fácil que as disputas de poder dentro dos partidos. Uma frente política ecologista em torno da sustentabilidade,  é fundamental com vistas a 2014. Vejo lideranças importantes, que permanecem no PV, a começar por Gabeira, defendendo essa mesma perspectiva.

 Com 62 anos, dois stents cardíacos e 44 anos de política nas costas não posso mais me iludir nem muito menos querer iludir os outros. Partido político no Brasil, no atual sistema eleitoral, é um instrumento cartorial/institucional para permitir a participação na política formal, real. Frente, será o somatório de partidos para viabilizar uma candidatura presidencial que expresse nossas ideias e programas. 

Mas o instrumento mais estratégico é a Rede.

 Preferia que o novo partido não se chamasse “rede” por uma questão de precisão semântica. Partido não é rede, é parte.   O que propugno como “a rede” é um sofisticado e altamente informatizado instrumento de intervenção na política brasileira, destinada a transforma-la a longo prazo formando, valorizando, promovendo e ajudando lideranças políticas em todo o Brasil, independente de partido ou alinhamento em candidaturas presidenciais.

 É um trabalho que necessariamente perpassa tudo isso e começa por identificar quem possa ser um bom vereador, um bom prefeito, um bom deputado estadual, federal, etc. pelo Brasil afora.  Precisamos aprender com a experiência multi capilar, altamente informatizada e estruturada via redes sociais,  dos EUA onde a mobilização do eleitor para votar no seu distrito é essencial. Sermos capazes de detectar nos mais de 5 mil municípios brasileiros gente ética, identificada com um programa mínimo de sustentabilidade e oferecer-lhes uma fada madrinha:  cursos de formação, em vários níveis, apoio estratégico e material de campanha e, depois, no caso dos prefeitos, auxílio para uma gestão que tire do papel as ideias. É um trabalho que Guilherme Leal iniciou e que considero promissor.

 Na medida em que cogito seriamente deixar a política parlamentar/eleitoral ao final desse mandato, me fascina a perspectiva de realizar esse tipo de trabalho que, na ausência de uma reforma política --daquele mato não sai cachorro, a não ser para pior!--  é o único caminho para tentar começar a mudar a política brasileira em benefício, possivelmente,  da geração dos nossos filhos e, quiça,  netos. 

 Insisto que essa rede perpassa partidos e campanhas presidenciais pois o “bem” na política brasileira não está concentrado no partido “x”, “y” ou “z”.  Evidente há partidos que concentram o mal mais que outros... Em termos práticos jamais quero perder a ligação e a capacidade de interagir solidariamente com um segmento do PT,  que no parlamento representa cerca de metade da sua bancada,  que que esteve junto conosco nos embates do Código Florestal.  Penso que uma relação próxima com o governador Eduardo Campos é importante pois dos quadros da chamada “grande política” é, sem dúvida,  o mais próximo e permeável às nossas ideias.    excelentes quadros em partidos como o PPS, PSB, o PSOL e vamos encontrar individualmente políticos com atuação positiva em diversos outros partidos: PSDB, PP, entre os evangélicos, e por ai vai.

 Dentro da máquina governamental, nos executivos federal, estadual e municipal há milhares de quadros que se identificam com a visão de sustentabilidade e querem políticas inovadoras. Na sociedade civil,  que cada vez mais se estrutura em redes sociais,  há um imenso potencial de absorção de uma nova cultura.

 Hoje já existem ferramentas para mapear, classificar, analisar e traçar estratégias de apoio a todo um universo multifacetado, progressista,  que pode fazer o Brasil avançar  e,  pouco a pouco, superar seu enorme marasmo político e cultural,  ao mesmo tempo que preserva e aprofunda as conquistas sociais das últimas duas décadas. Há ferramentas que permitem um processo de consulta, participação cidadã e deliberação numa escala nunca d’antes vista. Há espaço para constituir massa crítica para superar, gradualmente, o peso morto da velha política brasileira como ela é hoje.

 Para isso partido, frente e rede são instrumentos distintos mas relacionados e complementares.  Nossas ferramentas de trabalho.
Partido, frente e rede: caminhos complementares para transformar o Brasil

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Reflexões para o debate sobre de manifesto e programa do partido (Walter Feldman/Maurílio Maldonado)

Passada mais de uma década do início do século XXI, o mundo da chamada modernidade tardia, líquida, baixa ou o mundo pós moderno, encontra-se perplexo e paralisado. Nosso vasto repertório de respostas aos desafios políticos, econômicos e ambientais, construído historicamente principalmente a partir do iluminismo e das revoluções francesa e industrial, já não dão conta da realidade cada vez mais complexa e, agora, insuscetível de ser explicada pelas tradicionais clivagens ideológicas – simplórias e dicotômicas – que dominaram nosso ideário nos últimos dois séculos.
O século XX – fundado na crença laica do racionalismo e na modernidade técnico-científica –,  de olho nas lutas do XIX, nos prometia um grande e generoso futuro com base na Democracia Representativa ou na Revolução Socialista; no entanto, nos legou a insensatez dos totalitarismos e suas odiosas guerras mundiais e nacionais.
A resposta às catástrofes vai surgir  na segunda metade do século passado, a partir do pós-guerra, onde o mundo ocidental – mais temeroso que triunfante – foi capaz de criar a Organização da Nações Unidas, a ONU, bem como fixar ou reafirmar, no campo do Direito Internacional, padrões mínimos civilizatórios por meio da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.
A Europa Ocidental arrasada ainda foi mais longe. Em face da sua necessidade de reconstrução material e econômica, premida pela guerra-fria e acossada pelas massas empobrecidas – representadas nos partidos de orientação socialista – a Europa optou por estabelecer um pacto entre as então antagônicas classes burguesa e proletária. Os conhecidos “anos dourados” nascem da conjunção de práticas econômicas de mercado,  capitalistas, aliadas ao reconhecimento de direitos à políticas de bem-estar social. Na verdade, começa a ser aplicada a proposta da chamada social-democracia ou Estado de bem estar social. No lugar do livre-mercado, regulamentação dos mercados; ao invés de revolução, seguridade social, proteção ao trabalho, políticas públicas universalizantes para saúde, educação, transporte, moradia; enfim, justiça social, igualdade substantiva e de oportunidades.
A década de 70, vai ficar para a história com registros fundamentais e estreitamente ligados entre si.
Os 70, além da grande efervescência cultural, foram palco temporal da mudança econômica do processo produtivo de acumulação do capitalismo. Marca o início da era da informação e suas tecnologias, a partir da mudança do processo de produção de bens consumo duráveis, que alimentara os sonhos e garantira os empregos dos trabalhadores no pacto político social-democrático. Esse momento, no entanto, é caracterizado por uma importante desaceleração nos ganhos de rentabilidades do capital.
Em 1973 temos o primeiro choque do petróleo, que ao gerar uma grande inflação agravou ainda mais a rentabilidade do capital e um levou o mundo a um terrível desemprego e a uma queda brutal de arrecadação tributária. Por fim, têm início os questionamentos relativos aos custos do Estado de bem-estar social, bem como à sua crise até hoje não superada.
A mesma crise do petróleo, também teria – por incrível que pareça – um papel extremamente positivo. Ela foi responsável por expor o grau de dependência mundial aos combustíveis fósseis.
E, ao mesmo tempo, levou os países à busca por fontes de energia alternativas e, o mais importante, conferiram um maior impulso à uma das mais importantes revoluções de nossos tempos, a Ambiental.
A chamada Revolução Ambiental começou a crescer em argumentos com a publicação, em 1972, do relatório denominado “Limites do Crescimento”, no qual se condenava a busca do crescimento econômico dos países a qualquer custo e sem levar em consideração seu custo ambiental.
No mesmo ano a Organização das Nações Unidas (ONU), em Estocolmo na Suécia, realizou a I Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, que culminou com a criação do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).
A ideia de proteção ao Meio Ambiente Humano, durante os muitos anos de esforços e amadurecimento das organizações governamentais e não governamentais militantes, passou a ter sua importância cada vez mais reconhecida, bem como fora ampliada a abrangência de sua agenda.
O estágio atual é marcado pelas discussões sobre o alcance do conceito de “sustentabilidade”, tema largamente debatido em 2012 na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO + 20).
A conferência – apesar de não fixar os objetivos da sustentabilidade – no documento ao final produzido, "O futuro que queremos", reafirma que para realizar o desenvolvimento sustentável, é necessário:
•       promover o crescimento econômico sustentável,  equitativo e inclusivo;
•       criar maiores oportunidades para todos;
•       reduzir as desigualdades;
•       melhorar as condições básicas de vida;
•       promover o desenvolvimento social equitativo para todos; e
•       promover a gestão integrada e sustentável dos recursos naturais e dos ecossistemas, o que  contribui notadamente com o desenvolvimento social e humano, sem negligenciar a proteção, a regeneração, a reconstituição e a resiliência dos ecossistemas diante dos desafios, sejam eles novos ou já existentes.
Como se vê, podemos concluir que a ideia de sustentabilidade caminha para a consolidação de direitos sociais e econômicos  incorporados aos ambientais, bem como os culturais, fixando os padrões civilizatórios desejáveis para a contemporaneidade e para o futuro.
Obviamente que esta nova ordenação não exclui os direitos individuais ou civis, previstos desde a Declaração de 1948. É preciso dizer que a história já demostrou que a necessidade de escolher entre liberdade e igualdade foi um falso dilema criado pelos regimes e ideias totalitárias.
As mudanças nos paradigmas mundiais decorrentes das sucessivas crises  impõem a necessidade de novas organizações políticas e sociais capazes de apreender e agregar os novos movimentos da contemporaneidade, como a Democracia Árabe, os Indignados de Espanha, os intuitivos do Occupy Wall Street, entre outros. Para tanto, é fundamental a compreensão de todos estes fenômenos com vistas à construção de uma nova narrativa e ideário político-social que venha se expressar em verdadeiramente novos movimentos populares e partidos políticos.
A nova e necessária narrativa para nossa jornada aponta para a busca da construção social da sustentabilidade plena, que envolva as preocupações ambientais, políticas, sociais, culturais, éticas, estéticas e econômicas.
Este é um novo desafio para o mundo!
Este é um desafio maior ainda para nós brasileiros!
E para isso nos juntamos!
...

Nos unimos num novo partido político pois não encontramos no Brasil algum que reflita nossa leitura dos novos desafios políticos e sociais, bem como demonstre em sua prática cotidiana a necessária preocupação ética com os meios hábeis à superação dos problemas.
Para enfrentar os desafios do século XXI, o Brasil precisa, entretanto, deixar a política do XIX. Para isso é preciso romper definitivamente com o patrimonialismo que solapa os recursos financeiros necessários à construção de nosso Estado de bem-estar social e  nos impede de instaurar uma verdadeira república que comece pela garantia liberal da igualdade – onde todos sejamos efetivamente iguais, sem aspas, e possamos viabilizar, pelo menos, uma igualdade de oportunidades.
Diante disso, precisamos de um partido que congregue mulheres e homens não só de ficha limpa, mas de consciências e vidas igualmente limpas, com coragem e disposição para se tornarem uma alternativa para o Estado e não uma mera alternativa de poder.
Os baixos índices de comparecimento nas eleições do ano passado – com um elevado número de votos brancos e nulos –, bem como o crescimento da quantidade de brasileiros que se dizem apartidários demonstram o desinteresse da população pelas envelhecidas narrativas dos partidos atuais, bem como o descontentamento da sociedade com as formas de ação política praticadas no Brasil de hoje.
É inadmissível que os partidos que ocupam e ocuparam o poder nas últimas décadas, não tenham implementado a chamada “mãe de todas as reformas”, a Reforma Política, especialmente considerando as amplas bancadas de sustentação política, obtidas, na melhor das hipóteses, pelo loteamento nada meritocrático do poder.
Somente com uma Reforma Política poderemos resgatar nossa fragilizada democracia, principalmente por meio da ampliação radical das formas de participação direta do cidadão em consultas populares, audiências públicas, propostas de emendas à constituição, conselhos da sociedade civil, enfim, nas mais variadas formas de participação que hoje nossa tecnologia permite.
Outra reforma fundamental é a de nosso pacto federativo, político e tributário. Para que efetivamente tenhamos uma federação é vital que todas as unidades federativas gozem verdadeiramente de autonomia política e financeira que lhes permita no âmbito regional e, especialmente no local, executar de forma descentralizada as políticas públicas necessárias à vida dos cidadãos.
Precisamos colocar fim na política do pires na mão, que sujeita governos estaduais e, principalmente, os municipais às romarias dos repasses, focos de corrupção, clientelismo e submissão política aos partidos do poder, ferindo de morte a democracia ao inviabilizar a existência das oposições.
É chegado o momento também de voltarmos submeter a economia à política. A economia deve prover as necessidades dos membros da sociedade com os recursos disponíveis para satisfazê-las, ela existe para o ser humano e não o ser humano para ela. Assim, a política deve regular a economia e não o contrário.
Não interessa à sociedade brasileira a crescente financeirização da economia global, isso é do interesse dos rentistas e da banca.
Da mesma forma que não interessa ao povo um capitalismo que oligopolize nossa economia, como vem ocorrendo atualmente no Brasil, com o financiamento de grandes conglomerados nacionais para competirem internacionalmente e setores da economia tradicional.
Interessa-nos uma economia criativa e sustentável que desaliene o ser humano e conserve nosso meio ambiente, agregando conhecimento.
O Brasil ainda tem perdido outras oportunidades importantes.
Com a Rio + 20, a de ser líder de uma civilização sustentável, com a Copa do Mundo, a de realizar uma intervenção estratégica no planejamento urbano e talvez isso também ocorra com as Olimpíadas.
No entanto, não podemos perder o trem da história.
Vivemos na era da informação e na sociedade do conhecimento e nada disso existe sem educação.
Não há mais espaço para reformas em nosso sistema educacional. Só existe uma saída, uma “Revolução da Educação” no Brasil que valorizando realmente professores, utilize a tecnologia como grande aliada do processo educacional.
Não realizar essa revolução significa, verdadeiramente, “no imbecil jargão econômico em voga”, “hipotecar nosso futuro”!
A educação de baixa qualidade que vem sendo produzida no país, obviamente não nos prejudica só do ponto de vista social e econômico, ela também é responsável pela baixa densidade cívica de nossa população e pelo baixo vigor e rigor ético de nossos representantes políticos, pela formação falha de consciências críticas e culturalmente empobrecidas.
Por fim, a baixa qualidade de nossa educação não permite ainda a formação de “mantenedores de utopias” e todos precisamos disso!!!
São as reflexões que apresentamos,



São Paulo, 22 de janeiro de 2013.
Walter Feldman e Maurílio Maldonado

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

300 picaretas e uma pá de cal (Fernando Gabeira)







Num dos meus primeiro mandatos de deputado federal defendi na tribuna da Câmara os Paralamas do Sucesso, acusados de caluniar o Congresso Nacional com a música Luís Inácio (300 picaretas). Os primeiros versos diziam: “Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou/ são trezentos picaretas com anel de doutor”.
Defendi-os em nome da liberdade de expressão. Não concordava inteiramente com Lula. Talvez fossem 312 ou 417. Reconheço que 300 é um número redondo, mais fácil de inserir nos versos de uma canção popular. Além do mais, nem todos têm anel de doutor. Mas isso são detalhes. O mais importante é registrar que estávamos na véspera da chegada do PT ao governo federal, início da era do “nunca antes neste país”. E aonde chegamos, agora, uma década depois?
Renan Calheiros deve assumir a presidência do Senado, Henrique Eduardo Alves, a da Câmara e o deputado Eduardo Cunha, a liderança do PMDB. Caso se concretizem, esses eventos representam um marco na História do Congresso. Significa que, para muitas pessoas informadas, o Congresso deixa de existir. É o fim da picada…
Conheço os passos dessa estrada porque transitei nela 16 anos. O mensalão significa o ato inaugural, a escolha do tipo e da natureza de alianças políticas do novo governo. O mensalão significa a compra de votos dos partidos, uma forma de reduzir o Congresso a um balcão de negócios. Em seguida vieram as medidas provisórias (MPs). Governar com elas é roubar do Congresso tempo e energia para seus projetos. A liberação das emendas parlamentares era a principal compensação pelo espaço perdido.
Mas deputados e senadores não cedem o espaço porque são bonzinhos ou temem o governo. As MPs são uma forma simplificada de o governo realizar seu objetivo. Os parlamentares tomaram carona nesse veículo autoritário. E inserem as propostas mais estapafúrdias no texto das MPs. Com isso querem aprovar suas ideias sem o caminho democrático que passa por debates em comissão, audiências públicas, etc.
Na Câmara essas inserções oportunistas são chamadas de jabuti. O nome vem da frase “jabuti não sobe em árvore, alguém o coloca lá”. O nome jabuti pressupõe que há interesses econômicos diretos por trás de cada uma dessas emendas.
A perda de espaço para o governo não é o problema, desde que todos os negócios continuem fluindo, das MPs às emendas ao Orçamento. O espaço não interessa, o que interessa é o dinheiro. Espaço por espaço, o Congresso já abriu uma grande avenida para o Supremo Tribunal Federal julgar casos polêmicos, como aborto e união gay.
Os negócios, como sempre, são o centro de tudo. Negócios, trambiques, maracutaias e, como diziam Os Paralamas em 2003, “é lobby, é conchavo, é propina e jeton”. Uma década depois, vendo o Congresso idêntico à sua caricatura, pergunto quando é que nos vamos dar conta dessa perda, desse membro amputado de nossa anatomia democrática.
A saída da minoria – chamada, com uma ponta de razão, de Exército Brancaleone – foi pressionar por dentro e estabelecer uma tensão entre ala e a opinião pública. Na definição do voto aberto para cassar deputados, vencemos o primeiro turno porque a imprensa e eleitores estavam de olho. Vitória esmagadora, contra apenas três abstenções. Agora até esse caminho está bloqueado. Todos os dispositivos internos foram reforçados e passaram a impedir tais votações. Com a cumplicidade do PT, os piores elementos foram ascendendo aos postos estratégicos e agora o esquema chega ao auge, com a escolha de Calheiros e Alves.
De um lado, interessa-me avaliar como será o futuro do País sem um Congresso que possa realmente ser chamado por esse nome. De outro lado, um olho na saída. Não sei se repetiria hoje a campanha contra Renan, os cartazes com chapéu de cangaceiro e a frase: “Se entrega, Corisco”. Nem se gostaria de ver de novo aqueles bois se deslocando pelos campos alagoanos para as terras de Renan, para comprovar que era dono de muitas cabeças de gado. O ideal, hoje, seria poupar os bois dessa nova viagem inútil. Passar o vídeo, criar uma animação, substituir toneladas de carne de boi por milhões de pixels.
Henrique Alves destinou dinheiro a uma empresa fantasma de um assessor dele. No lugar deserto onde a empresa funcionava havia apenas um bode, chamado Galeguinho. O bode foi dispensado depois de sua estreia. Os bois mereciam o mesmo. “Parabéns, coronéis, vocês venceram”, diz a letra de Luís Inácio. Deixaram-nos monitorando bois de helicóptero e pedindo ao bode que nos levasse ao gerente da empresa.
Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou. Mas foi o primeiro a passar para o lado deles e a contribuir com algumas novas espécies para a fauna já diversa que encontramos em 2003.
A vitória dos cavaleiros do apocalipse recoloca a urgência de salvar o Congresso dele mesmo. A maneira de potencializar o trabalho da minúscula oposição é a maior transparência possível e uma ajuda da opinião pública. A partir dessa vitória, Calheiros, Alves e seus eleitores no Parlamento dizem apenas à sociedade: somos assim, e daí? Depois do descanso merecido, o bode que é o porteiro da empresa favorecida por Alves deveria ser colocado na porta do Congresso.
É impensável que 300, 312 ou 417 – não importa o número exato – picaretas enfrentem o Brasil sem uma represália dura. O espírito do “eles lá, nós aqui”, de distância enojada, no fundo, é bom para eles, que querem total autonomia para seus negócios. Será preciso mostrar que toda essa farsa é patrocinada pelo dinheiro público. E que sua performance será amplamente divulgada agora e no período eleitoral. O instinto de sobrevivência da instituição não existe. Mas o do político é muito grande. É preciso que ele sinta o desgaste pessoal produzido por suas escolhas.
Muitas pessoas vão trabalhar nisso, cada uma no seu posto, às vezes em manifestações. A eleição direta para presidente foi uma conquista. A perda do Congresso para o ramo dos secos e molhados é uma dolorosa ferida em nossa jovem democracia.
Nós demos um boi para não entrar nessa luta. Daremos um bode para não sair dela.
Artigo publicado no Estado de São Paulo em 01/02/2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Regulamentação da mídia (2) - (Roberto Romano)







Como fruto de meu último artigo (Regulamentação da mídia, 15/1), recebi uma torrente de insultos anônimos em meu endereço eletrônico. A reação prova a tese: os autoritários ignoram a fronteira do coletivo e do particular. Em vez de responder publicamente, eles ameaçam e insinuam retaliações. Volto ao tema sob outro ângulo para melhor determinar o que dele penso.
A imprensa surge com o Estado moderno. O mesmo ocorre com as táticas do poder para impedir a sua livre expressão. A importância dos panfletos políticos e religiosos é certa nos séculos 16 e 17. Basta recordar os libelos puritanos e textos como Le Reveille-Matin des François, que ampliaram rebeliões aristocráticas ou populares. No plano oposto surgem os jornais controlados pelo governo, criados para popularizar o poder oficial.
Richelieu (cardeal, primeiro-ministro de Luís XIII de 1628 a 1642) já domina o maniqueísmo da propaganda. "Aos que qualificavam a razão de Estado de 'razão do diabo' ou 'razão do Inferno' os panfletários de Richelieu replicam acusando-os de adotar 'a mais negra Teologia do Diabo'" (Thuau, Etienne: Raison d'État et Pensée Politique à l'Époque de Richelieu).
Thuau analisa estratégias cuja doutrina se resume em "governar e fazer acreditar" pelo controle estatal da palavra escrita. Diz ele: "É uma verdade reconhecida que a autoridade é inseparável das ideologias, dos mitos e das representações que os homens formam a seu respeito. O poder repousa na aliança do constrangimento e das crenças". O autor recorda Gabriel Naudé nas Considerações Políticas sobre os Golpes de Estado (1640): para manter a governabilidade o príncipe seria obrigado a mentir ao povo, "manejá-lo e persuadi-lo com belas palavras, seduzi-lo e enganar pelas aparências, ganhá-lo e colocá-lo a serviço de seus alvos por pregadores e milagres sob pretexto de santidade, ou por intermédio de bons escritores, silenciando os livrinhos clandestinos e manifestos, para levá-lo pelo nariz e fazê-lo aprovar ou condenar, só com a etiqueta da sacola, tudo o que ela contém".
O marketing político inicia ali a carreira cujo ápice ocorre sob Joseph Goebbels (ministro da Propaganda de Adolf Hitler). Controlar a imprensa é tarefa da grande ou mesquinha razão de Estado. Se o rótulo tem forma adocicada ("regulamentação social") ou ácida (censura), não importa. O alvo é calar a dissonância, silenciando críticas aos palácios e adjacências.
Richelieu reúne os auxiliares para examinar documentos oficiais, definindo a forma pela qual eles deveriam surgir como "notícias" no setor público, com o disfarce necessário. Ele já conhece a arte de reescrever a História e seus próprios textos. Os procedimentos usados no totalitarismo germinam no Estado absoluto. Ao reeditar seu discurso aos Estados em 1614, o cardeal modifica-o porque não coincide mais com sua nova política. Aqui não temos o único aspecto na genealogia que vai do Estado absoluto ao totalitarismo. Os "processos políticos" de Richelieu transformam os juízes em instrumento de terror contra os adversários. Para aquilatar a extensão e a profundidade dessa herança temos o livro de Hélène Fernandez-Lacôte Os Processos do Cardeal Richelieu, Direito, Graça e Política sob Luís, o Justo.
A função política ou econômica da imprensa, revolucionária ou governista, nem sempre suscita análises compreensivas. Basta recordar, no século 20, o crítico Karl Kraus. Em artigo intitulado A imprensa como alcoviteira, Kraus compara a jovem prostituta e o jornalismo oficialista, da Bolsa ou dos Palácios. A rameira seria moralmente superior ao que vende sua pena, pois ela "nunca sugeriu, como ele, assumir altos ideais". (Uso a tradução italiana, Morale e Criminalità.) A imprensa, com suas virtudes e seus defeitos, longe de ser odiada apenas pelos que agora se vendem ao governismo brasileiro, tem uma história densa e contraditória.
Recordo o autoritarismo dos que visam a impor silêncio a quem foge ao controle da norma formatada pelo marketing político e ideológico. Carl Schmitt, na luta contra a livre imprensa, chama os democratas de "classe discutidora", retirando o epíteto de Juan Donoso Cortés, autor do Discurso sobre a Ditadura, que inspira o fascismo. E também alimenta as ditaduras do século 20 na América do Sul e no Brasil. Com os tanques a discussão termina, vem o golpe de Estado "redentor". Mas nem todo golpe é cruento. A maioria é feita no silêncio dos gabinetes, nos acordos espúrios, nas alianças nefastas cujo nome ainda é "governabilidade". Quem aplica golpes eficazes conta com o sigilo cúmplice de todos, inclusive dos governados. É aí que os periódicos incomodam. Num país movido pela propaganda, desde a era Vargas com o DIP até hoje, a popularidade dos governantes é alvo perene, obtida à custa de ouro.
A mídia passa hoje por graves modificações. Se na cultura impressa existiu a figura do pedante, hoje na internet o pedantismo assume amplitude inaudita, unido à repetição de slogans e aos ataques às subjetividades que defendem posições adversas ao poder. Tudo indica que levará tempo para que a humanidade alcance uma síntese nova na ordem teórica e prática. Os jornais vivem uma situação inédita, com o aumento inusitado da comunicação eletrônica. As teses sobre a regulamentação da mídia, no Brasil, seguem a via coberta de ódio e dogmatismo.
Monopólios devem ser tratados com leis específicas, não podem servir de pretexto para impor ao público a visão de partidos ou seitas. Alguns veículos de comunicação, sobretudo na internet, se arrimam com ajuda oficial, reduzem seu papel à propaganda do governo e ao afogamento da crítica. Como se fosse destino, eles retornam ao tempo em que Richelieu pagava a jornais e jornalistas para combater os adversários do Estado.
Sobram ilhas de crítica e rigor intelectual na imprensa, mas é possível prever tempos escuros para as mentes lúcidas e honestas. Quem viver verá.
* Roberto Romano é filósofo, professor de Ética e Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor, entre outros livros, de 'O Caldeirão de Medeia' (Perspectiva).

Incluir não é fácil (Renato Janine Ribeiro)




 
Circulou muito no Facebook uma recomendação do blog "Viajando com os filhos", que consistia em conselhos para lidar com a babá. A autora, que em São Paulo se hospeda num dos melhores hotéis da cidade, discutia passagem, hospedagem, comida e bebida de sua empregada. O texto é detalhista e chocante. A patroa chama a babá de gênero de "terceira necessidade" e fala dela como se fosse um animal. Curiosamente, não parece mesquinha: paga um excelente quarto de hotel para a empregada; o problema é que não tem noção de como lidar com um ser humano.
Por que discutir esse tema numa coluna dedicada à política? Porque, sem querer, o texto - que foi retirado do ar, quando o blog se deu conta da péssima publicidade que angariou com ele - mostra as dificuldades para se aceitar algo que, reconheço, é difícil: a inclusão social. Não me juntarei àqueles que - com razão - condenam a autora. O que quero entender é o que passa na cabeça de alguém que vive no privilégio e não consegue sequer entender o que é a passagem ao mundo do direito. Ou que, tendo a vantagem da riqueza numa sociedade com alto teor de exclusão, não percebe que, um dia, isso acabará. Antes que me chamem de petista, é bom lembrar que tal nível de exclusão acabou faz tempo nas grandes economias capitalistas. Se a autora vivesse nos Estados Unidos, Reino Unido ou França, primeiro, dificilmente escreveria o que escreveu; segundo, se o fizesse, pagaria por isso.
O assunto faz lembrar a declaração de Delfim Netto, em abril de 2011 (quem teve empregada doméstica, que é um "animal em extinção", teve; quem não teve, não terá) ou o artigo de Danuza Leão, de novembro, observando como viagens a Paris perdem o valor quando todos podem fazê-la. Mas são casos bem diferentes. Com seu conhecido humor e inteligência, o ex-ministro anotou um fato: os empregos domésticos se extinguem, justamente porque uma pessoa cuidar da vida íntima de outra é quase humilhante e por isso, nos países desenvolvidos, se encarece ou se extingue. Danuza Leão dizia que há prazeres que dificilmente comportam o acesso de todos: o Louvre não pode, gostemos ou não disso, receber 100 mil pessoas por dia. Daí, ela conclui - o que endosso - que ler um livro pode ser bem melhor. Delfim e Danuza disseram coisas pertinentes, ainda que a formulação não tenha sido feliz. Já o post da blogueira não é reflexão, é sintoma, e suscita outra discussão.
A inclusão social mexe em nosso imaginário
Ao longo dos séculos e milênios, o que hoje chamamos de inclusão social se estagnou, cresceu raramente e com frequência recuou. Mas, nas últimas décadas, a integração dos miseráveis na sociedade (civil? de consumo? a diferença é importante) se acelerou intensamente - em muitos países. Aqui, em cinco anos do governo Lula, 50 milhões passaram das classes D e E para a C. Esse aumento de justiça social impõe mudanças de atitude radicais no interior da sociedade. Os mais vulneráveis se fortalecem. Socialmente, o dado principal é que recusam o papel subalterno ou subserviente que sempre foi o dos pobres em nosso país.
Se esse processo é amplamente positivo, ele tem seus senões, também pensando no plano social. Um diz respeito à própria condição dos ex-miseráveis. Eles parecem dar maior importância ao aumento do consumo, e junto com ele ao do crédito e do endividamento, do que ao acesso à educação e à cultura - da mesma forma, por sinal, que os gestores da economia e da política. Daí que a conquista de espaços sociais pela nova classe média continue frágil. Hoje, pode ser que muitos salários estejam subindo mais porque a economia está aquecida do que porque os seres humanos, que eventualmente chamamos de "mão de obra", se qualificaram como sujeitos de sua existência. Mas há outro problema, eticamente mais grave. Para as classes tradicionalmente ricas - ou "dominantes" - o ingresso em seu território de quem era não pessoa é chocante. Isso não quer dizer que os privilegiados sejam maldosos, de tão egoístas. O que falta é noção dos limites recíprocos que constroem uma sociedade decente. Obviamente, não merece elogio, nem sequer pena, quem age assim. Até porque essas pessoas, se viajam a países ricos, sabem que não podem tratar dessa forma as pessoas lá, mesmo as menos ricas. Seguem então um duplo padrão - assim como respeitam a lei de trânsito na Flórida e não no Brasil. Mas quem deseja mudar a sociedade não pode ficar na condenação ou no repúdio. É preciso compreender. Sem entender o que está ocorrendo, é difícil agir para mudar. Este é um campo importante para a pesquisa.
Mesmo assim, há medidas concretas e urgentes a tomar. Têm que ficar claros, para todos os brasileiros, valores como a liberdade e a igualdade. Isso depende do "governo", dos órgãos de defesa dos direitos humanos, do Ministério Público e do Judiciário mas, mais que tudo, do esforço da sociedade. É preciso difundir a ética nas escolas. Ela não pode ficar nas mãos só das Igrejas e das famílias; deve ser estudada, com uma abordagem leiga e universal, no ensino básico, isto é, da alfabetização até a conclusão do ensino médio. Deve haver também uma preocupação das empresas, que são responsáveis por boa parte da socialização das pessoas. Uma corporação ou organização não pode tolerar atitudes antiéticas de seus funcionários, sobretudo de seus dirigentes. Estas são políticas públicas, não apenas estatais. Além disso, politicas de combate aos privilégios devem ser adotadas - tanto de quem usa um cargo público para levar vantagem, quanto de quem utiliza sua riqueza para desprezar o próximo. Porque a batalha se trava, afinal, nos corações e mentes.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. 
 Valor Econômico - 28/01/2013

Sonhos de um escritor pop (Juca Magalhães)


Eu vivo sempre no mundo da lua

Porque sou aventureiro
Desde o meu primeiro passo
Pro infinito

Guilherme Arantes, Nosso Lindo Balão Azul

Desde pequeno sempre tive costume de me entreter com histórias, começou com revistas em quadrinhos, os chamados “gibis” – que, aliás, adoro até hoje – e por volta do final da infância vieram os livros. Havia editoras que circulavam listas de suas publicações quando eu estava no primário, foi assim que fiquei conhecendo “A Turma do Posto Quatro”. Ainda lembro, especialmente, a deliciosa emoção quando chegava pelo correio o pacote com os livros. Depois de ler um bocado, comecei a querer subverter a lógica de consumidor e fornecedor; devia ter lá pelos dez, doze anos no máximo.

 
Como tinha mais fantasia do que experiência de vida, enfiei em meu primeiro roteiro as coisas mais bestas que me rodeavam. Imaginei um misterioso caso de sequestro – era muito falado o do menino Carlinhos - em que eu e meus amiguinhos da época – Zeller, Flávinho, Teba, sei lá mais quem – ajudávamos, nada mais nada menos, do que Didi e os Trapalhões a resgatar o filho do primeiro que havia sido raptado. Daí a confusão ia parar na fazenda Fundão dos Índios, onde a coisa virava faroeste e nossa turma recebia o reforço de minhas irmãs e meus primos Felipe, Edilson e Everaldo.

Aquele meu primeiro esforço literário foi escrito à caneta esferográfica em algum dos meus rabiscados cadernos de escola – desenhar era outro hobby para espanar o tédio - e eu me sentia feliz da vida de poder arrumar para aquelas linhas bem traçadas uma utilidade mais nobre e divertida do que as aulas de caligrafia. Não pergunte por que me aborrecia estudar ou porque eu detestava a escola; posso me considerar hoje um cidadão de meia idade bem resolvido com isso e desajustado com o resto, mas nunca consegui chegar a uma boa resposta. Aliás, cheguei sim, mas...

Um dia meu mundo caiu: alguma das muito sensíveis e observadoras professoras nos espezinhou com a informação – sei lá por que – de que os pequenos livros de bolso da Ediouro que nós adorávamos não eram escritos por fedelhos bobocas como a gente. Apesar da linguagem descolada e de toda fantasia, o autor era nada mais, nada menos, que um adulto! Consequentemente, um sujeito careta e cheio de regras como ela própria. A danada devia estar querendo enquadrar a molecada e deve ter saboreado minha expressão de decepção. 

Apesar de tudo, dei um jeito da turma salvar o filho do Didi das garras dos malvados sequestradores piratas do Rio Fundão, não sem a ajuda de cowboys americanos,índios botocudos e da polícia que, como sempre, só chegava no final para prender os meliantes.

Numa de minhas tradicionais pescarias nas manhãs de sábado pelos parcos sebos de Vitória dei de cara com um daqueles livrinhos da Turma do Posto Quatro. Resolvi descobrir afinal quem era aquele autor que eu ainda admirava e guardara na memória do coração.
                                                                                          
                     
Helio do Soveral Rodrigues de Oliveira Trigo (1918-2001) tem até um blog muito bacana o homenageando e o apresenta como “o maior escritor pop do Brasil”, a iniciativa internéktica chama-se “Memorial Soveral” e é escrito por Dagomir Marquezi, um especialista na obra desse autor hoje tão pouco lembrado. Soveral era nascido em Potugal, mas emigrou com a família para o Rio de Janeiro ainda criança e morou em Copacabana por aproximadamente sessenta anos. Começou na imprensa e foi, por exemplo, o último repórter a entrevistar Noel Rosa. Veio a falecer aos oitenta e dois anos em Brasília, cidade onde residiu no final da vida para ficar perto da filha.

Foram trinta e cinco volumes da Turma do Posto Quatro publicados entre 1973 e 1979 – aliás, com o pseudônimo de Luiz do Santiago - o que prova que minhas contas estavam certas: no final de 1979 eu era ainda um pirralho completando quatorze anos. Mas Helio do Soveral escreveu também a série “Os Seis” com grande sucesso e pseudônimo de Irani de Castro, além de zilhões novelas para o rádio, chanchadas famosas, histórias em quadrinhos para as revistas Spektro e Pesadelo que eu também lia avidamente. Enfim, como pode uma pessoa povoar incógnita tanto a nossa vida? Fico pensando o quanto Soveral me influenciou para além daquela minha primeira investida literária...

Essas influências a que somos expostos, sugerem direções, resoluções e a infinita busca por expressão. Ser original não é fácil, apenas o somos na medida em que traduzimos antigas ideias numa linguagem atual, em contexto moderno. Não sei se realmente criamos alguma coisa. Queremos o que a maioria honesta quer: viver dignamente fazendo o que gostamos e nos identificamos. Eis a importância de exercer a criatividade: buscar lá dentro quem você realmente é. Sem isso o povo pira, vemos exemplos grotescos da loucura humana todos os dias.

Por isso tantas pessoas dizem que não se deve abandonar os sonhos, porque só alcançamos nossa essência quando transformamos sonhos em realidade. Não porque sonhar seja algo assim tão transcendental, mas porque no processo dessa transformação somos obrigados a amadurecer. Além do mais, e se estivermos mesmo todos ataviados a sonhos dos quais não podemos despertar? Como numa prisão?

Pois, (ora) nem mesmo Helio do Soveral conseguiu transformar todos os seus sonhos em realidade, naquela que deve ser sua última entrevista, concedida à Dagomir Marquezi e publicada na revista VIP de maio de 1998, com relação ao reconhecimento público e financeiro é perguntado ao autor:

- E se você fosse americano?

- Ah, aí eu estaria vivendo num palácio...