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sábado, 14 de abril de 2018

A marcha da insanidade (Alfredo Sirkis)

O psicodrama ou psicotragicomédia em torno da prisão de Lula é menos importante, em si, do que como um sinalizador de tempos ameaçadores. Há três anos assistimos o desmonte destrutivo –num certo sentido revolucionário-- do establishment político brasileiro, fortemente dominado pela corrupção, institucionalizada. Era assim, a perder de vista, no passado mas nos anos petistas chegou ao apogeu: o PT pretendeu permanecer no governo, indefinidamente, a qualquer preço, unindo sua força popular e sindical com a cooptação dos tradicionais esquemões corruptos-clientelistas da política brasileira e um "tesouro de guerra" avassalador capaz de bancar super campanhas como a de 2014.
Infelizmente, tenho poucas dúvidas em relação à responsabilidade política de Lula no “Petrolão” e outras armações desenhadas para consolidar o cofre da hegemonia amealhando o que combinado com o abuso da máquina pública, perigava inviabilizar, de forma duradoura, qualquer possibilidade de alternância política. Isso quando o país e sua economia já estavam cabalmente falidos. Resultou na vitória de Pirro da reeleição de Dilma e no subsequente "cavalo de pau" que ela operou na economia, mergulhando o país numa recessão cavalar.
Em última análise o grande responsável político foi o Lula, um grande líder popular, o maior deles, desde Getúlio Vargas e a companheirada sedenta de continuar controlando seus carguinhos e esquemões. E a corda arrebentou... Num estado de direto, no entanto, a justiça não é simplesmente o exercício de um castigo a qualquer preço. Nesse sentido, acredito, sinceramente, que o julgamento de Lula pelo juiz Sérgio Moro, na primeira instância, depois agravado pela trinca radical de Porto Alegre, tratando especificamente do episódio envolvendo apartamento de Guarujá, foi uma aberração jurídica, no que pesem as loas cantadas pelos comentaristas e o deleite da classe média "indignista".
Questiono aquela sentença por três motivos que nossa grande mídia não quer ver de jeito nenhum. Primeiro: Moro funcionou tipicamente como um juiz de instrução. Trata-se de uma instituição interessante que não existe no Brasil. Lá onde existe, o juiz de instrução chefia a investigação mas não profere sentença. Instrui, mas deixa para outro magistrado, menos envolvido, essa decisão. O Brasil deve muito a Moro mas apesar disso, dado seu envolvimento, projeção midiática e antecedentes de parti pris --como aquela divulgação abusiva dos “grampos”, as polêmica públicas e sua própria caraterização como herói do processo, imune a reparos e controles-- não se assegurava aquela imparcialidade necessária para ser ele a proferir a sentença. Foi uma justiça de exceção. Revolucionária.
A segunda questão foi o fato desse processo ter feito tábula rasa do princípio in dúbio pro reu numa postura que nos aproxima de países autoritários: o réu é que tem de provar a inocência, sem margem a uma dúvida razoável. Se o apartamento, vazio, de Guarujá foi pagamento de propina por um ato de oficio, corrupto, feito para beneficiar a empresa em seus contratos com a Petrobras, tratou-se claramente de uma tentativa, não consumada, de cometer tal delito porque nem Lula nem sua família de fato se apossaram ou usufruíram daquele bem. Também não ficou provada, sem margem a dúvida razoável, uma contrapartida. Aceitou-se uma acepção vaga de aquilo fazia fora parte de uma propina pelo processo de fraudes na Petrobras genericamente falando embora na falta um ato de Lula, enquanto presidente da república, que claramente a caracterizasse. A tese do “domínio do fato” é de aplicação muito nebulosa e presta-se facilmente a colossais abusos. Entende-se sua aplicação em relação a quadrilhas mafiosas. Nos delitos vinculados à política há uma proliferação de zonas cinzentas.
Não se levou em conta outra possibilidade: a de que aquele ato preparatório para um “agrado” tivesse sido, nesse caso, praticado por Leo Pinheiro por amizade. Era, de fato, amigo de Lula devotava-lhe grande admiração, independente da corrupção na Petrobras. Em relação a qual a responsabilidade política de Lula é inquestionável mas faltam provas para além da delação premiada de pessoas em desespero para, nesse caso, considera-lo culpado de receber o apartamento como propina sem margem a dúvida razoável. Na jurisprudência brasileira esse tipo de ilação, por um pagamento que não se materializou, jamais conduziria a uma condenação de 13 anos de prisão agravada que foi pelo TFR 4 num julgamento-espetáculo televisivo de natureza a criar novos heróis midiáticos por atender o "clamor popular". “Aquilo era no tempo da impunidade, agora é assim”, dirão, muito embora para os embandeirados de verde anil, nas ruas, continua tudo "acabando em pizza”. Fica a pergunta no ar: o que precisa acontecer para deixar de ser considerado “pizza”. A execução dos corruptos --ou supostos corruptos-- com um tiro na nuca para depois da família pagar a bala, como na China? Vamos tomar um certo cuidado com aquilo que sonhamos. Pode, eventualmente, acabar se realizando.
Lula ainda vai se julgado por frequentar o tal sítio, com lago e pedalinhos, do qual, de fato, usufruiu –assim como daquele sítio que o Fernando Henrique lhe emprestava, nos anos 80-- e de um outro apartamento em relação ao qual exibiu recibos de aluguel de autenticidade contestada pelo MP. Lula será é o primeiro "grande homem" ao qual amigos ricos e admiradores proporcionam agrados e que acredita piamente que isso lhe é devido. Há muitos anos vivia assim. Depois de novas passagens por Moro e pelo TFR 4, em novos julgamentos-espetáculos, vai terminar com condenações somando mais de 30 anos, o que, na sua idade, é praticamente uma condenação a morrer na cadeia. Pode também ser rapidamente beneficiado por um habeas corpus desses tão odiados últimos moicanos da justiça liberal no STF. Mais brasileiros ficarão convencidos de que tudo "acabou em pizza" ainda que o fato de ter sido preso e impedido de se candidatar seja uma punição de vulto por sua responsabilidade política, inquestionável.
O fato é que sua prisão e tem como efeito objetivo radicalizar o clima político do pais estimulando o pior de cada um dos lados que se confrontam de forma cada dia mais irracional. Lembra aquela peça: ”Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A verdade é que a sorte de Lula menos importante em comparação com outra mais abrangente que é a do Brasil. A fase de destruição punitiva foi fundamental para desmontar os esquemas de corrupção mas em nada garante que os hábitos, costumes, cultura e cotidiano da política brasileira se transformem do dia para a noite.
O lavajatismo corre aquele clássico risco das revoluções. Alimentado cobertura de mídia fortemente emotiva e repetitiva que estimula toda noite o "indignismo" e a raiva de dezenas de milhões, a sociedade torna-se adita a esse sentimento e enamorada da guilhotina. Como uma droga: toda a frustração da crise econômica, da insegurança, todos o problemas estruturais e difíceis do país passam a ser sublimados e compensados pela lâmina sangrenta, implacável, catártica. As pessoas tomam gosto pela coisa num prazer punitivo compensador na degola --por enquanto figurada-- dos culpados, dos acusados e dos eventuais bodes expiatórios. Tudo velho como a história, já aconteceu trocentas veres em inúmeros países e momentos históricos mas nunca trouxe nada de bom, de fato, pelo menos a curto e médio prazo. É sofrimento sublimado em glória: pode não have solução alguma, avanço zero na qualidade da representação ou da governança mas tem o consolo de mais gente atrás das grades. Cria-se uma máquina punitiva que precisará se alimentar sempre mais e mais. Novos polos de poder se sentem ungidos pela missão de "limpar" o país muito embora faltem-lhes, objetivamente, os meios para produzir a melhor representação e a melhor governança que lhe faltam dolorosamente ao Brasil. Isso, até segunda ordem, depende de uma melhor qualidade da representação eleita.
A destruição punitiva não conduzirá a um país melhor se não for seguida de uma reconstrução em novas bases, um establishment político menos corrupto, fisiológico e clientelista onde haja mais participação, diálogo e tolerância. Isso inclui uma confiança e tolerância maior entre brasileiros, --ambas hoje pela hora da morte-- e pelo estabelecimento de uma autoridade acatada socialmente. O problema é que estamos rumando em alta velocidade no caminho oposto, aquele da entropia.
Uma democracia precisa de uma esquerda democrática e de uma direta civilizada. Ambas têm que fazer parte de um respeitoso jogo de aceitação da diferença e de alternância. O que temos aqui é uma esquerda regressiva que no seu ressentimento namora o chavismo e não consegue ter a menor dimensão autocrítica da sua responsabilidade em tudo que ocorreu. Do outro lado, uma direta hidrófoba, truculenta, raivosa que busca bodes expiatórios e teorias de conspiração. Seu eventual ponto de chegada é o “homem forte”: um Erdogan, Duterte, Sisi, Orban, Kaczinski, Putin, verde anil.
Uma resultante mais imediata é o caos, a síndrome dos estados falidos da qual o Rio é um prenúncio. Ninguém controla mais nada e ninguém confia mais em ninguém. Multiplicam-se ditaduras locais num momento de ouro para o crime organizado. Bandidos a sério mesmo, daqueles que matam a rodo, não esses meliantes políticos, pilantras e frouxos. É sua hora de acumular poder.
Ainda há tempo de se restabelecer um mínimo de sensatez e reduzir essa temperatura escaldante, essa histeria, de parte a parte. Senão vamos temer um amanhã pior.
Fonte: Blog (07/04/18)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Duas revoluções, dois destinos (Alfredo Sirkis)






Os recentes incidentes envolvendo a visita ao Brasil da blogueira cubana Yoani Sánchez, hostilizada por turbas agressivas da "Solidariedade com Cuba", foram também uma oportunidade perdida para debater o argumento de que a ditadura "de esquerda" seria o inevitável preço a pagar pelos grandes "avanços sociais".

É comum escutarmos que as restrições à liberdade de expressão e de imprensa, a ausência de eleições livres, de pluralismo político ou de alternância no poder, passado mais de meio século da revolução cubana, se justificam por suas conquistas na educação e na saúde e pela ausência de fome e miséria absoluta na ilha. O argumento jamais se sustentou na comparação com outra revolução que a precedeu em 11 anos: a da Costa Rica, de 1948, que obteve notáveis avanços em educação e saúde e garantiu um padrão de vida muito mais elevado, sem o sacrifício das liberdades, do pluralismo, do respeito aos direitos humanos e de um Judiciário independente.

Hoje a maioria da população costa-riquenha é de classe média, seu salário mínimo é 15 vezes maior que o de Cuba, seu produto interno bruto (PIB) e a sua renda per capita são os mais altos da região. Há três vezes menos suicídios do que em Cuba. A Costa Rica tem políticas ambientais e ecoturismo de referência internacional e ambiciona tornar-se o primeiro país carbono neutro do mundo.

A revolução de 1948, liderada por José María Figueres Ferrer, conhecido como Don Pepe Figueres, derrubou o regime oligárquico do presidente Teodoro Picado e do seu mentor político Rafael Calderón Guardia, que fraudavam sistematicamente as eleições, como na nossa República Velha. Foi desencadeada em reação a um "autogolpe" - queimaram as listas com os resultados eleitorais, privando da vitória o candidato progressista Otilio Ulate, e assassinaram um dos líderes oposicionistas, Carlos Luis Valverde. Detalhe curioso: o pequeno partido comunista local, o Partido Vanguardia Popular (PVP), apoiava ativamente o regime oligárquico.

A desmobilização de suas milícias, em troca da garantia dos direitos sindicais e da sua legalidade, acertada numa dramática negociação entre o secretário-geral do PVP, Manuel Mora, e José Figueres, na floresta de Ochomogo, foi decisiva para a relativamente incruenta vitória da revolução após 40 dias de combates.

A junta revolucionária, liderada por Don Pepe, nacionalizou os bancos para democratizar o crédito - até então exclusividade da burguesia compradora (importadora) -, permitindo desenvolver a agricultura e a indústria. Investiu obsessivamente na educação, instituiu a autonomia do Judiciário. Dissolveu seu próprio exército revolucionário depois de uma tentativa de golpe do então ministro da Defesa, Edgard Cardona, inconformado com o tratamento leniente dado por Figueres aos comunistas. Isso não o impediu de derrotar, com o povo em armas, uma invasão do ditador Anastasio "Tacho" Somoza (pai), da Nicarágua, onde se haviam exilado Picado e Calderón.

Ao final de 18 meses, Figueres entregou o governo a Otilio Ulate, legitimamente eleito nas eleições "meladas" do ano anterior, apesar de notórias divergências entre ambos. Voltou à sua Fazenda La Lucha sin Fin, onde ficou até 1953, quando disputou democraticamente e foi eleito presidente.

Cercada de ditaduras por todos os lados até anos recentes, a Costa Rica jamais deixou de promover eleições livres a cada quatro anos. Poderia ter sido assim em Cuba 11 anos mais tarde?

Don Pepe apoiou Fidel Castro com dinheiro e armas. Foram amigos, mas romperam quando Fidel se aliou ao bloco soviético. O contexto da guerra fria - em 1948, nos primórdios, em 1960, no apogeu -, com uma quase imediata hostilidade norte-americana à revolução cubana, fez a diferença, bem como a personalidade de Fidel.

Entre os líderes das duas revoluções ressaltam diferenças de idade, origem social e experiência de vida: Don Pepe, filho de um modesto médico catalão, era pequeno fazendeiro, tinha 42 anos ao liderar sua revolução. Conhecia bem os Estados Unidos, onde estudara. Sua primeira esposa, Henrietta Boggs, era americana. Ele sabia explorar com habilidade as contradições internas em Washington e nunca quis aliar-se à URSS, embora tenha nacionalizado a United Fruit, o flagelo das Repúblicas bananeiras. Fidel, filho de um grande latifundiário de origem galega, era universitário quando chefiou o assalto ao quartel de Moncada. Depois conheceu apenas a prisão, o exílio e Sierra Maestra. Don Pepe era de ouvir, negociar e pactuar. Fidel nasceu para mandar e ser obedecido.

Com pouco sangue e sem paredón, a revolução de 1948 não figura no panteão histórico-jornalístico. É praticamente desconhecida, ao contrário das revoluções trágicas ou das derrotas heroicas dos mártires, não importa quão patéticos ou desavisados. Uma revolução com final feliz, um país que há 65 anos "caiu numa democracia", para nela permanecer até hoje, um líder revolucionário que resolveu abrir mão do poder para depois disputar eleições livres, em 1953 e 1970, são decididamente indignos do rol de eventos e personagens históricos de primeira linha...

Don Pepe Figueres, que gostava de se definir como "socialista utópico", nunca cultivou o "Patria o Muerte" ou outro necrófilo brado retumbante do gênero. Seus compatriotas, los ticos - os costa-riquenhos - pacíficos e cosmopolitas, são, com toda a probabilidade, mais felizes. No entanto, a felicidade - gota de orvalho numa pétala de flor -, pelo visto, não é um indicador relevante no fazer História do nosso tempo.

Essa pacata democracia sexagenária, ainda que em terra de tantos vulcões, não evoca o menor romantismo, não vale sequer uma camiseta ou boina negra com estrelinha vermelha. Mas constitui intenso objeto de desejo na "geração Y", de Yoani Sánchez, dos filhos daquela outra revolução, a tão exaltada em prosa e verso.

* Alfredo Sirkis é escritor, jornalista e deputado federal da Rede.

Fonte: O Estado de S. Paulo

sexta-feira, 1 de março de 2013

Vale a pena? (Alfredo Sirkis)








Confesso que hesitei em me envolver novamente com um partido, 27 anos depois de ter fundado com Fernando Gabeira, Carlos Minc, Hebert Daniel e Lucélia Santos o PV, que presidi durante oito anos, representei como candidato presidencial, em 1998, e cujo manifesto e programa redigi. Na cultura política brasileira, resultante do sistema eleitoral que temos, os partidos tendem a ser meras "legendas" para o somatório aritmético dos votos dos aspirantes a uma carreira política individual. Perderam a função de portadores de alguma visão de mundo a ser colocada na arena cívica, veículos de algum programa de governo ou escolas de formação política.

Como se diz vulgarmente: aqui o buraco é mais embaixo. No atual sistema, da compra de voto e dos centros assistenciais, independentemente de quantos escândalos venham à tona, dificilmente teremos grande progresso. Apresentei na Câmara um projeto de sistema distrital misto plurinominal (grandes distritos) aparentemente sem grande chance de ser aprovado. Vivo atualmente um dilema em relação a continuar ou não na vida parlamentar/eleitoral. E, no entanto, me envolvo outra vez na criação de um novo partido... Por quê?

Marina Silva obteve em 2010 quase vinte milhões de votos. Da classe média "iluminista", da garotada de redes sociais, de um contingente imenso de mulheres pobres. Foi um voto de esperança mais que de "protesto", fora da política tradicional e favorável à sustentabilidade ambiental e ética, como denominador comum. O PV não soube aproveitá-lo; Marina, por sua parte, se precipitou - na minha opinião -, mas isso não vem mais ao caso.

O "x" da questão é que existe um contingente imenso de brasileiros que não aceita mais a política como ela vem sendo exercida, desconfia do mero desenvolvimentismo produtivista, comum aos grandes partidos, dá importância à questão ambiental e climática que eles praticamente ignoram - quando não hostilizam - e deseja mais transparência, decência e idealismo na vida pública brasileira.

Essa gente não quer uma via extremada, sectária, aspira ao que seria modernamente um centro radical. Será viável mais um partido, se já temos bem uns trinta? Vale a pena tentar algo assim? Me fiz esta pergunta meses a fio e, finalmente, me convenci que sim ao ponderar a alternativa: não fazê-lo. Deixar se perder, esvair, dispersar tudo aquilo que 20 milhões tentaram nos dizer, em 2010. Não lhes dar pelo menos a oportunidade de tentar algo novo. Sem ilusões ou fetiches penso que, afinal, vale a pena dispor desse instrumento de participação e que, além disso, é indispensável cultivar uma rede de cumplicidades e de coordenação com os melhores quadros nos outros partidos, na sociedade, nas instituições, nas empresas. A Rede, mais que um partido, é um estado d"alma.

Fonte: O Globo (25/02/13)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Partido, frente, rede: decisão tomada (Alfredo Sirkis)


Partido, frente, rede: decisão tomada




Bola pra frente...
 Não é mistério que, no que pese nossa grande amizade e identidade programática, Marina Silva e eu vínhamos divergindo em relação a alguns aspectos da conjuntura política. Embora solidário com ela --a ponto do haraquiri partidário--  achei precipitada sua saída do PV. Também na relação com a área ambiental do governo tivemos algumas diferenças de ênfase, tive restrições ao seu modus operandi político e a uma aproximação que interpretei haver com segmentos de extrema esquerda com um discurso anti-empresarial e que trabalham basicamente com energias negativas.

 Tivemos, na semana retrasada, uma longa conversa, em São Paulo,  na qual lhe coloquei a maior parte das minhas dúvidas, preocupações e questionamentos. Sem termos superado todas essas questões avançamos em boa parte delas, sobretudo em relação à nossa colocação num campo político-programático realista e tolerante, não-sectário e distante de visões econômicas atrasadas ou estapafúrdias. Encontrei-a identificada com aquele nosso discurso amplo e inclusivo da campanha de 2010.

 Em relação ao partido e à campanha presidencial pedi-lhe o prazo de uns dez dias para que eu tivesse a oportunidade de conversar com algumas pessoas, para mim importantes, antes de decidir se iria acompanha-la. Conversei pessoalmente ou pelo telefone com Fabio Feldmann, Fernando Gabeira, Sérgio Xavier, André Esteves, meu filho (e consigliere) Guilherme, Marco Mroz, presidente do PV-SP, o deputado Zequinha Sarney(PV), a deputada Rosane(PV) o governador  de Pernambuco, Eduardo Campos e meus colegas deputados Reguffe(PDT),  Walter Feldman(PSDB), Dutra(PT) e Tripoli(PSDB). 

 Ontem, junto com estes últimos quatro, estive com Marina Silva em sua casa, em Brasília,  para lhe dizer que vou participar do esforço de criação desse novo partido cujo nome propus ser ECO BRASIL, REDE ECO BRASIL ou, simplesmente ECO. 

 Enquanto não sair o registro desse novo partido permanecemos nos  nossos respectivos partidos de origem e, no meu caso, no PV. Fui fundador do PV, redator do seus manifesto e programa, presidente nacional durante oito anos, candidato à presidência da república, em 1998, vereador por quatro mandatos e deputado federal. Deixei a vice-presidência nacional e a presidência estadual do Rio em protesto contra a situação que levou a saída de Marina, em 2011. Fui cartorialmente expurgado da executiva nacional e implacavelmente perseguido e isolado. Após a saída de Marina, permaneci o no PV e, dentro de certos limites de dignidade,  procurei algum caminho de diálogo, inutilmente. Não voltarei mais às questões que levaram ao conflito. Na nova situação  é preciso deixa-lo para trás e elas deixam de ter tanta importância particularmente quando desmistificamos o instrumento “partido”.

 Enquanto o sistema eleitoral brasileiro e a cultura política por ele engendrada e reproduzida perdurar é praticamente impossível termos partidos como sonhamos: instrumentos programáticos e ideológicos, escolas educadoras de partes da sociedade,  correntes mobilizadoras em torno de ideias e ideais.  Provavelmente morreremos tentando outra coisa mas hoje não é assim. A política brasileira como ela é engendra partidos de características individualistas,  fisiológicas e clientelistas. Ela contaminou os dois partidos  de esquerda programáticos dos anos 80: o PT e o PV. Não estou seguro que um novo partido não terá, num certo prazo, os mesmos velhos problemas, embora se possa criar certos mecanismos para evitar ou atenuar isso de alguma forma.

  Muito mais que pela ilusão do partido ideal, a minha decisão passa por uma identificação prática de onde eu possa atuar com maior consequência, de onde me seja mais produtivo e, sim, mais gratificante, atuar. No meu caso, especificamente, penso que é ajudando a construir algo novo. 

 Não estou estimulando ninguém do PV a me acompanhar individualmente muito menos liderando alguma dissidência. O PV continua a ser programaticamente o mais avançado dos partidos brasileiros, foi o único a votar,  de forma unanime,  em defesa do Código Florestal. Penso que futuramente poderemos nos reencontrar numa frente.  Ela torna a convivência mais fácil que as disputas de poder dentro dos partidos. Uma frente política ecologista em torno da sustentabilidade,  é fundamental com vistas a 2014. Vejo lideranças importantes, que permanecem no PV, a começar por Gabeira, defendendo essa mesma perspectiva.

 Com 62 anos, dois stents cardíacos e 44 anos de política nas costas não posso mais me iludir nem muito menos querer iludir os outros. Partido político no Brasil, no atual sistema eleitoral, é um instrumento cartorial/institucional para permitir a participação na política formal, real. Frente, será o somatório de partidos para viabilizar uma candidatura presidencial que expresse nossas ideias e programas. 

Mas o instrumento mais estratégico é a Rede.

 Preferia que o novo partido não se chamasse “rede” por uma questão de precisão semântica. Partido não é rede, é parte.   O que propugno como “a rede” é um sofisticado e altamente informatizado instrumento de intervenção na política brasileira, destinada a transforma-la a longo prazo formando, valorizando, promovendo e ajudando lideranças políticas em todo o Brasil, independente de partido ou alinhamento em candidaturas presidenciais.

 É um trabalho que necessariamente perpassa tudo isso e começa por identificar quem possa ser um bom vereador, um bom prefeito, um bom deputado estadual, federal, etc. pelo Brasil afora.  Precisamos aprender com a experiência multi capilar, altamente informatizada e estruturada via redes sociais,  dos EUA onde a mobilização do eleitor para votar no seu distrito é essencial. Sermos capazes de detectar nos mais de 5 mil municípios brasileiros gente ética, identificada com um programa mínimo de sustentabilidade e oferecer-lhes uma fada madrinha:  cursos de formação, em vários níveis, apoio estratégico e material de campanha e, depois, no caso dos prefeitos, auxílio para uma gestão que tire do papel as ideias. É um trabalho que Guilherme Leal iniciou e que considero promissor.

 Na medida em que cogito seriamente deixar a política parlamentar/eleitoral ao final desse mandato, me fascina a perspectiva de realizar esse tipo de trabalho que, na ausência de uma reforma política --daquele mato não sai cachorro, a não ser para pior!--  é o único caminho para tentar começar a mudar a política brasileira em benefício, possivelmente,  da geração dos nossos filhos e, quiça,  netos. 

 Insisto que essa rede perpassa partidos e campanhas presidenciais pois o “bem” na política brasileira não está concentrado no partido “x”, “y” ou “z”.  Evidente há partidos que concentram o mal mais que outros... Em termos práticos jamais quero perder a ligação e a capacidade de interagir solidariamente com um segmento do PT,  que no parlamento representa cerca de metade da sua bancada,  que que esteve junto conosco nos embates do Código Florestal.  Penso que uma relação próxima com o governador Eduardo Campos é importante pois dos quadros da chamada “grande política” é, sem dúvida,  o mais próximo e permeável às nossas ideias.    excelentes quadros em partidos como o PPS, PSB, o PSOL e vamos encontrar individualmente políticos com atuação positiva em diversos outros partidos: PSDB, PP, entre os evangélicos, e por ai vai.

 Dentro da máquina governamental, nos executivos federal, estadual e municipal há milhares de quadros que se identificam com a visão de sustentabilidade e querem políticas inovadoras. Na sociedade civil,  que cada vez mais se estrutura em redes sociais,  há um imenso potencial de absorção de uma nova cultura.

 Hoje já existem ferramentas para mapear, classificar, analisar e traçar estratégias de apoio a todo um universo multifacetado, progressista,  que pode fazer o Brasil avançar  e,  pouco a pouco, superar seu enorme marasmo político e cultural,  ao mesmo tempo que preserva e aprofunda as conquistas sociais das últimas duas décadas. Há ferramentas que permitem um processo de consulta, participação cidadã e deliberação numa escala nunca d’antes vista. Há espaço para constituir massa crítica para superar, gradualmente, o peso morto da velha política brasileira como ela é hoje.

 Para isso partido, frente e rede são instrumentos distintos mas relacionados e complementares.  Nossas ferramentas de trabalho.
Partido, frente e rede: caminhos complementares para transformar o Brasil