sábado, 15 de setembro de 2012

Padres, bispos e pastores ainda influenciam no voto de fiéis (Reginaldo Prandi/entrevista)

LUCAS NEVES


A capacidade de padres, bispos e pastores de influírem no voto de seus fiéis caiu sensivelmente nos últimos anos, mas não a ponto de os candidatos a cargos majoritários poderem dispensar aparições ao lado de líderes religiosos e declarações públicas de apoio destes --aproximação na qual, dias atrás, o petista Fernando Haddad (PT) afirmou ver "risco de fundamentalismo".
O diagnóstico é do professor sênior do departamento de sociologia da USP Reginaldo Prandi, 66, que estuda religiões. Segundo ele, com a modernização dos cultos, o controle sobre as escolhas dos devotos se afrouxou. Para ganhar uma eleição, entretanto, prossegue o professor, ainda é preciso "responder ao jogo de pressões e fazer acordos".
"[As igrejas] Vão querer saber que compromissos o candidato assumirá com a religião", diz Prandi, referindo-se à defesa do afastamento entre política e fé feita em público por Haddad.
Prandi vê o líder das pesquisas em São Paulo, Celso Russomanno (PRB), "com os pés em duas, três canoas", por ter de acenar tanto para o eleitor da entidade que sustenta seu partido, a Igreja Universal, quanto para o de denominações rompidas com esta e para o de fora do segmento evangélico.
Leia abaixo trechos da entrevista dele à Folha.
Folha - Que poder líderes religiosos cortejados por candidatos têm de efetivamente pautar o voto dos fiéis?
Reginaldo Prandi - Os deputados federais evangélicos são 73, o que significa 15% do total. Na população, os evangélicos somam 20%, 22%. Ou seja, estão subrepresentados no Congresso. Se você seguisse rigorosamente a ideia de que o eleitor sempre vota com a igreja dele, seriam mais.
Mesmo as religiões voltadas a temáticas mais tradicionais se modernizam, liberalizam-se para atender as demandas da sociedade. [O controle] Vai ficando mais frouxo. É possível que, dentro de uma igreja, haja segmentos que sigam o que as lideranças dizem. Mas não todos mais. E cada vez menos.
Em meio a declarações de apoio de religiosos a oponentes de Haddad, o petista disse que pedir votos em igrejas não era "compatível". Pode-se prescindir do endosso de padres e pastores?
Ele não pode dizer o que vai fazer ou não [a esta altura]. Não sabe que perguntas o eleitor vai fazer. Como candidato, para ganhar, tem de responder a esse jogo de pressões e fazer acordos. Vão querer saber que compromissos ele assumirá com a religião.
Se temas como fé e aborto ficassem de fora [do debate eleitoral], as religiões não saberiam o que dizer. Vão fazer uma proposta de nova sociedade, de novo homem? Não têm essa capacidade. Vão trabalhar naquilo que sabem e que a sociedade lhes permitiu, que é a intimidade, a moralidade.
Justamente um "tema da moralidade", o aborto, foi tido como decisivo para que houvesse um segundo turno em 2010. Por que assuntos dessa rubrica influem tanto em quadros eleitorais?
Há uma parte da população sensível a isso. Para muita gente, pensar nesse tema como objeto de decisão pessoal é complicado. Implica em ter mais segurança a respeito de si mesmo, do outro, dos valores.
E aí as religiões se apropriam dessa dificuldade e aprisionam mentes em caixas fechadas, de modalidade estreita, reacionária, mas, ao mesmo tempo, fácil: não pode, e ponto final.
Russomanno tenta se desvincular da Igreja Universal do Reino de Deus, que tem forte ascendência sobre o partido dele, o PRB. Mas já prometeu regularizar igrejas e disse que gostaria que houvesse uma por quarteirão. Ao oscilar entre distanciamento e aproximação da religião, não confunde o eleitor?
Isso vem da própria condição dele, de vir de um partido controlado pela Universal. No campo evangélico, há muitas igrejas que se opõem a ela, mesmo entre as que nasceram dela. Além disso, ele sabe que precisa do voto católico. E por isso diz que ªgostaria que houvesse uma igreja por quarteirãoº, sem especificar qual. Mas também busca o não religioso. Enfim, está no centro de uma teia de contradições, com os pés em duas, três canoas.
Gabriel Chalita (PMDB) está em encruzilhada parecida?
Para os católicos, ele representa um candidato carismático, associado a outros líderes carismáticos [como o padre Fábio Melo, com quem lançou livro]. É fruto de um processo de negação do interesse da Igreja Católica pelos grandes problemas ligados a justiça e distribuição de renda. Mas também procura mostrar a face do pedagogo, de secretário da Educação [de Geraldo Alckmin]. Sabe que, para ampliar seu eleitorado, tem de expandir sua fonte institucional de origem.
O prefeito Gilberto Kassab (PSD) regularizou templos evangélicos e revisou planejamentos viários para viabilizar novas edificações ligadas a grupos religiosos. Até que ponto essas medidas podem alavancar as intenções de voto em José Serra (PSDB)?
Isso é o que as igrejas querem. Esperam isso de um governante: que aumente a sua liberdade, que dê a elas prerrogativas e direitos que a Igreja Católica sempre teve. Do ponto de vista do Kassab, não chega a comprometer [sua gestão], porque é de se esperar que o Estado não interfira nas religiões.
Mas o fato de essas ações se concentrarem num período pré-eleitoral não dá a elas um caráter de moeda de troca?
Sim. Mas isso não acontece só em relação às igrejas. Por exemplo, as pessoas depredam muito as placas de sinalização pela cidade. Como o trabalho é caro, só alguns meses antes da eleição elas são trocadas. O momento ideal é aquele em que se deseja que as pessoas sintam que suas demandas foram atendidas.
Fonte: Folha de São Paulo

Igrejas não têm votos para garantir a vitória, mas ameaçam os candidatos (Reginaldo Prandi)

Eleição e religião não se dão bem em ambiente democrático. No passado, a religião interferia em todos os aspectos da vida em sociedade. Com a modernidade, as diferentes esferas da cultura ganharam autonomia, e a religião perdeu influência e poder. A religião ficou pequena, restrita a interferir apenas na vida íntima das pessoas, agarrou-se a temas da moralidade individual. Não é pouco, mas ela quer mais: voltar a ter maior influência. E faz o que sabe: usa o moralismo para intervir na política.
Os evangélicos são o ramo religioso mais envolvido na política brasileira. Elegem representantes, criam partidos e não hesitam em usar as eleições para pressionar, ameaçar e chantagear políticos, partidos e governos temerosos de perder aliados e votos.
Já mostraram ter força: têm 15% dos deputados federais. E se apropriam dos votos dos fiéis para uso das igrejas. Isso não ocorre em denominações modernas em que os fiéis têm autonomia de escolha. Nas mais retrógradas, porém, os fiéis são mantidos como cidadãos menores, e seus líderes escolhem por eles.
Em eleições majoritárias, essas igrejas não têm votos suficientes para eleger candidatos próprios. No fazer das alianças, se esforçam em vender a imagem de que são capazes de decidir uma eleição.
Candidatos sem vínculo com a religião aceitam o jogo, beijam a mão do bispo, saem em peregrinação por templos que desconhecem, renegam projetos que possam ofender os aliados religiosos da hora.
Nunca houve, contudo, comprovação de que um candidato tenha ganhado ou perdido uma eleição majoritária por apoio ou veto de igrejas.
Nesta campanha não faltam candidatos batendo à porta de igrejas em busca de bênçãos que não combinam com suas posições nem com valores republicanos.
Ninguém quer correr riscos. Sobretudo quando o campeão de intenção de voto do momento, Celso Russomanno, é de um partido controlado por uma igreja neopentecostal.
Mas os votos da igreja que lhe dá sustentação são insuficientes. Ele precisa de votos dos não evangélicos. A encenação é dupla: ser da igreja para os de dentro, para não perder os votos da casa, e não ser da igreja para os de fora, para ter o voto dos demais.
REGINALDO PRANDI é professor da USP.(Folha de São Paulo)

Mensalinho, mensalão (Fernando Gabeira)

Uiramutã é uma cidade localizada na área indígena Raposa-Serra do Sol, em Roraima. A palavra quer dizer, em macuxi, boca do Rio Mau, que separa o Brasil da Guiana. Vindo de Boa Vista, viajo numa região acima da Linha do Equador. A julgar pela canção, existe um pecado acima do Equador: o empreguismo.

No momento em que se julga o mensalão em Brasília, poucos se dão conta da dramática presença do mensalinho nas eleições municipais. Em Roraima há 32 mil funcionários públicos. Nem todos são necessários ao funcionamento da máquina. É o que chamo de mensalinho. Somado aos salários de funcionários excedentes ao longo do Brasil, desemboca num supermensalão.

Admito que essa tese possa relativizar o processo do mensalão. O empreguismo é um pecado venial tão absorvido pelo cotidiano que parece uma segunda natureza. Afinal, no caso do mensalão o dinheiro público foi utilizado para compra de votos no Congresso, algo muito diferente de um salário mensal destinado à sobrevivência.

Quem acompanha as eleições municipais no interior compreende muito rapidamente que os empregos excedentes são um capital eleitoral. Prefeitos ameaçam os funcionários que se afastam ostensivamente do voto oficial. Convencem os mais ingênuos de que perderão seu emprego se o adversário ganhar. De certa forma, têm razão. Quase nunca a oposição virá com nova perspectiva sobre o uso do dinheiro público, mas trará os próprios aliados para os cargos. O raciocínio quase consensual entre os políticos é este: se não emprego os aliados, quem empregaria, os adversários?

Compreendo que as pessoas achem eleições, com sua superfície pitoresca, algo de outra galáxia. Candidatos estranhos que parecem ter vindo de muito longe, da Neverlândia. Falar de eleições, portanto, é arriscado. Do distante Estado de Roraima, então, arriscadíssimo.

Em Boa Vista há o pitoresco eleitoral, como em toda parte. Um descendente de japoneses é candidato a vereador com o slogan "o único que não tem olho grande". Um líder partidário contou que foi chamado às pressas ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para discutir problema urgente: havia dois candidatos com o nome Pé de Pato. Quem sobraria? Ao cabo de muita negociação, o perdedor teve de se consolar com o acréscimo do nome verdadeiro: Ricardo Pé de Pato.

Por baixo dessa superfície folclórica, as eleições em Boa Vista tratam de problemas sérios e revelam um certo esgotamento do modelo empreguista. É preciso investir, abrir novos postos de trabalho, estimular as pessoas a inventar suas próprias fontes de renda. Nesse sentido, Boa Vista, que é a capital mais setentrional do País, dependente do governo federal, pode nortear alguns debates futuros, sobretudo nas cidades que recebem royalties de petróleo e não melhoram a vida de seu povo, pois uma terça parte do dinheiro se destina à contratação de servidores.

O modelo vai-se esgotando não por uma crise moral, mas a partir das necessidades econômicas. O difícil será derrotar uma elite que é mediadora entre as verbas federais e seu emprego em projetos locais.

Na maioria das cidades que percorri até agora, os prefeitos são favoritos. Isso não significa que serão vencedores de ponta a ponta.

Há casos como o do prefeito de Uiramutã, do PT, que só tinha uma bicicleta e, segundo os adversários, comprou seis caminhonetes e um avião. Aqui a dúvida se o dinheiro é público ou privado não procede. A maioria dos 9 mil habitantes vive de Bolsa-Família, há apenas um pequeno comércio. Sem estar sob nenhuma acusação específica, a prefeita de Natal, do PV, é rejeitada por mais de 90% dos eleitores e nem disputará as eleições.

Tanto as suspeitas de corrupção como o colapso administrativo são fatores que podem favorecer uma virada do jogo. O problema é prever o que significa a virada do jogo, caso ocorra. Não há programas definidos para um novo caminho.

É difícil ganhar eleições com promessa de enxugar a máquina. Os que consideram isso um fator de peso na definição do voto são minoria. E a ausência de expectativa de presença nos cargos do governo esfria os aliados e a própria equipe de campanha. A semente dos favores oficiais está num dos textos fundadores do Brasil, a carta de Pero Vaz de Caminha, na qual ele pede ao rei ajuda para seu genro. A expectativa de ser amparado pelo governo é um sonho de 500 anos.

Não acredito que as eleições de 2012 superem esse problema. No entanto, a pressão econômica poderá vir de cima para baixo, caso o governo federal avalie seus gastos. E pode vir de baixo para cima, caso haja núcleos interessados em examinar as contas públicas e monitorar o desempenho das administrações.
Num programa eleitoral em Manaus vi uma candidata que se intitula a Madona dos Ferroviários; em Boa Vista, um candidato que enfrenta a câmera seriamente e afirma muitas vezes: "Morro tentando". Depois de rir um pouco, a gente se pergunta de quem está rindo mesmo.

Por trás de toda a crosta folclórica, as eleições definem o futuro de temas vitais, como saneamento, mobilidade. Há uma muralha político-cultural e é preciso achar brechas paras algumas ideias sobre cidade brasileiras mais humanas, sustentáveis e inteligentes. Esta última, na medida do possível, de acordo com as vocações de cada uma.

No livro Bombaim, Cidade Máxima, Suketu Mehta conta a história de um cabo eleitoral do Partido do Congresso que argumentava mais ou menos assim: o partido já ganhou dinheiro suficiente; pode votar que eles não querem mais, vão apenas governar. Não sei quantos votos virou com o argumento. Não vejo consolo nele. Suficiente é um conceito relativo.

Não é preciso morrer tentando, como o candidato de Boa Vista. Mas reconhecer que o caminho é longo. Quanto perguntamos aos índios de Roraima a que distância estamos de um lugar, eles respondem: "Longe". Se perguntamos por horas de viagem, quilômetros, ele respondem de novo: "Longe, longe".

Tudo o que podemos desejar agora é uma boa viagem.

* Jornalista

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO (14/09/12)

O candidato que ocupou o vácuo (Maria Cristina Fernandes)

Perfilar Celso Russomanno como o candidato dos currais pentecostais ou do voluntarismo populista de longa cepa pode exorcizar o mal-estar da classe média com sua ascensão. Mas não ajuda a entendê-lo.

Acatar a preponderância religiosa na preferência de voto é ceder à explicação, cada vez mais em voga até na esquerda, de que a cartilha lulista para a conquista do eleitorado manda fazer concessões ao obscurantismo das massas e sacrificar o vanguardismo urbano e intelectualizado.

A religião não convence como explicação para a liderança de Russomanno assim como não é suficiente para justificar o declínio de José Serra. Ambos se ombreiam na disputa pelos rebanhos e na preferência das lideranças religiosas mais ativas.

A polarização que Russomanno quebrou nunca existiu

Se o leitor fosse pastor evangélico provavelmente se engraçaria com o candidato que se dispusesse a facilitar os alvarás para templos. Mas se não houver na parada um candidato abertamente favorável a cassar essas licenças, é despropositado imaginar que a questão faça mais a cabeça do eleitor do que o mau atendimento nos postos de saúde ou a limitação de creches.

A influência de pastores sobre a formação do voto é inversamente proporcional à diversificação do mercado de informações de uma campanha. Numa primeira fase os pastores podem até ser a única fonte de informação, mas o horário eleitoral, a cobertura jornalística e as conversas com parentes e amigos acabam confrontando percepções e definindo o voto. Isso pode confinar Russomanno a um terço do eleitorado, mas do segundo turno parece difícil tirá-lo.

A derrota de Serra na eleição presidencial já deveria ter bastado para demonstrar que há um limite à exploração dos currais pentecostais. Não é porque passou poucos anos na escola que o eleitor é incapaz de perceber excessos de pastores e candidatos que exploram a religião para conseguir seu voto. Descrer disso é reeditar o velho bordão de que o brasileiro não sabe votar.

O eleitor vota naquele em quem identifica mais condições para enfrentar os problemas que avalia serem os de seu bairro e de sua cidade. Do Pari a Higienópolis, do Prouni à USP, do shopping Aricanduva ao Cidade Jardim os problemas são diferentes e os eleitores também. Mas a motivação é a mesma.

Se Russomanno, pelo que mostram as pesquisas, consegue o dobro dos votos de seus adversários no eleitorado pentecostal isso talvez se deva menos à bíblia pela qual se reza do que ao fato de esse eleitor não morar em Higienópolis, não frequentar a USP nem o Shopping Cidade Jardim.

O candidato do PRB tampouco quebrou a polarização entre PT e PSDB na cidade porque esta, na verdade, não existe. O fato de os dois polos da política nacional terem se originado e ainda hoje manterem seus principais núcleos em São Paulo gera essa confusão. Mas das seis eleições municipais já disputadas por ambos os partidos o PSDB só foi para o 2º turno uma única vez, quando Serra ganhou em 2004.

O PT participou dos cinco segundos turnos já havidos, ganhando uma vez com Marta Suplicy (2000) e outra em 1988 (Luiza Erundina) quando a eleição era de uma só tacada.

Quem rivaliza e ultrapassa o PT como força eleitoral na cidade é a direita de Paulo Maluf, Celso Pitta e Gilberto Kassab. É desta tradição que Celso Russomanno é herdeiro? Talvez. Mas tradição não enche urna. O que importa para entender Russomanno é saber que vácuo ele preencheu ao surgir e se firmar face ao descrédito geral.

Ao lançar um desconhecido do eleitor e sem o aval de Marta, o PT deixou o flanco aberto para o candidato do PRB ocupar. A persistência de bons índices de Russomanno junto ao eleitorado petista indica que o PT ainda corre atrás do prejuízo.

O lançamento de Haddad, por si só, já confronta a tese de que o que está em jogo é a hegemonia populista. O candidato petista é um dos maiores críticos à tese de que esta foi a opção do PT para sobreviver a Lula.

O tempo que levou para transformar seu discurso em defesa do "transporte modal" na proposta do bilhete único mensal dá conta de seu divórcio com o populismo e explica o terreno ganho por Russomanno no eleitorado de seu partido.

No flanco tucano, foram a desaprovação de Gilberto Kassab e a rejeição de Serra que abriram espaço para o candidato do PRB entrar no condomínio de classe média baixa que um dia foi de Maluf e onde PSDB e PSD passaram a se revezar. Até o mensalão, última esperança tucana, jogou água no moinho do candidato que não toca no assunto. Um quarto de seus eleitores se diz influenciado pelo julgamento.

Russomanno é tratado como produto de uma política que transforma cidadãos em consumidores. Isso pode ser verdade mas é uma bandeira que só adquire feições populistas em suas mãos. Se é Dilma Rousseff que a empunha ao enfrentar operadoras de telefonia e concessionárias de energia é porque a presidente está numa guerra republicana.

Russomanno diminui a política quando trata todos por consumidores, mas esse reducionismo vem lá de trás.

Foi no boom de consumo do Real que o candidato do PRB, depois do sucesso na TV com programas em defesa do consumidor, estreou na Câmara dos Deputados em 1994 pelo PSDB com a maior votação absoluta do país.

Ao longo de quatro mandatos, além de prestar favores e destinar emendas à própria ONG, perseguiu a mesma toada da violência e dos direitos do consumidor.

Russomanno não é um representante da velha direita na base do prende e arrebenta. Na tarde de segunda feira desembarcou no sindicato dos policiais federais para falar de seus planos para a segurança pública.

Franzino, de calça jeans apertada, sapato de bico fino e com um timbre baixo de voz, falou de um curso que havia feito na polícia da Califórnia. Acompanhou um policial que depois de prender um cidadão por engano no meio da rua voltara ao mesmo local e pedira desculpas à comunidade, em nome do Estado, pela prisão do inocente. Disse que era essa polícia que quer para São Paulo.

Ainda não dá para dizer se Russomanno sobreviverá ao contraditório da campanha eleitoral. Mas numa cidade que amanhece de uma chacina ouvindo de seu governador que basta não reagir para sobreviver à polícia, é natural o sucesso que faz.

FONTE: VALOR ECONÔMICO (14/09/12)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

SERÁ QUE UM DIA AINDA TEREMOS JEITO? (Juca Magalhães)

O texto lá abaixo foi publicado originalmente no caderno Pensar de A Gazeta, curiosamente ou não, no dia do aniversário de nuestra vetusta capital do Espírito Santo (08 de setembro passado), cuja (cuja?) festa teve showzinho de Fabio Junior e tudo mais. Infelizmente isso não foi suficiente para colocar a orla botocuda em destaque nacional (cadê o delegado Fabiano Contarato?). 

 
A Globo deu a maior corda pra festa de Olinda com uma linda e longa reportagem, no final, a loira apresentadora do Jornal Hoje falou à seco "Hoje é também aniversário de Vitória: Parabéns." Nosssa moquecada ficou tão sem graça que era melhor até não ter falado nada. Parecia aniversário de criança em orfanato, embora, confesso (e a porra), nunca tenha presenciado nenhum...

Segue o texto como foi publicado na página 04 do Pensar - exceto a epígrafe de advertência - com o título de "A diferença entre ação cultural e evento"...


Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.

Voltaire



Faz um tempão fomos convidados a representar o rock (imaginem) numa reunião com responsáveis pela gestão estadual da cultura. A ideia era captar uma visão da realidade dos “artistas da terra” (bananas, como diria Alexandre Lima) e ajudarmos a definir metas e diretrizes com relação às ações e fazeres públicos. Daquela reunião lembro muito de um senhor que fazia parte de um regional tradicional (acho que era o mestre Aquiles) e que lá pelas tantas se encheu do blábláblá e perguntou assim: “vocês estão esperando eu morrer para me homenagear? Façam alguma coisa agora!”

Uns vinte e tantos anos se passaram e, curiosamente, muito pouca coisa mudou com relação a essas reuniões. Compus e gravei algumas músicas; pesquisei, escrevi e publiquei dois livros; estudei, toquei, ensinei e palestrei. Por duas ocasiões trabalhei para secretarias de cultura, conheci boas iniciativas e outras bastante oportunistas e equivocadas. Vi muitos artistas “perderem a razão” perante as mumunhas da coisa pública, uns com bons motivos, outros por desconhecimento assumido. Estes, nem deviam reclamar (mas como o faziam), afinal: como nem estar aí para uma coisa e querer ou imaginar que ela deveria estar aí para você?

Artista é, por definição, alguém que produz arte e “que faz dela profissão”. Porém, quando acontecem essas reuniões políticas com a “classe de artistas” aparece um número grande de pessoas que trabalha eventualmente com arte, mas não cria bens culturais de consumo. São os conhecidos “promotores de eventos”, muitas vezes mais respeitados que os próprios artistas, pelo menos aqui no Espírito Santo. Nessa hora de pensar política pública de base o certo seria separar algumas instâncias entre criar e produzir, mas isso não acontece e dificulta o foco. São tantas vertentes e iniciativas importantes em nossa cultura que estabelecer prioridades é sempre desafio.

Os próprios profissionais lotados em secretarias de cultura até o momento não parecem ter atentado para a necessidade de estabelecer um limite entre “evento” e “ação cultural” e vêem com naturalidade grande parte da verba ser desperdiçada nas festas da cidade. Isso acontece porque não existe uma política clara e definida para a cultura, basta comparar com a educação. As pessoas das secretarias acham que estão “mandando bem” quando “criam” projetos “itinerantes” com oficinas e apresentações que migram pelas comunidades. Já imaginou como funcionariam, ou qual efeito educacional teriam em longo prazo, aulas “itinerantes” de matemática e português?

Em Brasília existe hoje a “Frente Parlamentar em Defesa da Cultura” que concebeu uma carta compromisso a ser assassinada por candidatos a prefeito. O conteúdo da missiva é bacana, mas é também tão abrangente que acaba soando confuso, porque não tenho certeza que seja possível abraçar os “múltiplos aspectos” da dita “diversidade cultural” brasileira e ainda fazer relações com meio ambiente (!). A maioria dos prefeitos não percebe muito bem o que é cultura, menos ainda consegue quantificar sua importância quando a compara com pastas menos subjetivas como saúde e segurança. Não seria a hora de pensar simples e propor soluções pragmáticas?
                                                                                                         
Minha primeira contribuição no Caderno Pensar de A Gazeta foi um texto intitulado “Cultura para quem?” Nele já defendia alguns conceitos que vinham da experiência como professor do curso de biblioteconomia e hoje, cada vez mais, de música popular e erudita. Participei na orientação da tese de conclusão de curso de dois alunos (Lausi e Valmir) que mencionavam a obra "L'action Culturelle dans la cite" (1973) do jornalista e filósofo Francis Jeanson (1922-2009) que defendia ser a única ação cultural válida a de formação, aquela que fornecia instrumentos de trabalho para o surgimento de novos criadores.

 
“O processo de ação cultural resume-se na criação ou organização necessárias para que as pessoas inventem seus próprios fins e se tornem, assim, sujeitos da cultura e não seus objetos.”

É claro que os grandes eventos de uma cidade são importantes, porém são pontuais, portanto, sua relevância enquanto ação cultural é nula, quando muito tem impacto no comércio e no turismo da cidade e talvez devessem ser vistos assim: pelo valor turístico ou cívico que seja, cultural jamais.

Ainda quero ver um candidato a prefeito defender a dissociação entre ação cultural e evento e a criação de núcleos de ensino formal de arte, a exemplo de outras cidades do país, ou mesmo a Venezuela que é referência em ensino de música para o mundo. Existe hoje uma demanda enorme por esse tipo de iniciativa longe de ser atendida. Enquanto os municípios fervem uma ou duas vezes por ano com apresentações públicas de astros nacionais, seus próprios artistas (como o caso do mestre Aquiles) são ignorados e seu talento desperdiçado por falta de uma política formadora que proporcione acesso e o domínio das ferramentas de criação cultural.

domingo, 9 de setembro de 2012

Filosofar em alemão (João Paulo‏)



Livro reúne ensaios sobre pensadores de expressão alemã que influenciaram vários campos do saber no Brasil, da psicologia de Reich e Jung à reflexão política de Lukács e Rosa Luxemburgo 
A Alemanha, hoje no centro de todos os debates sobre a crise na União Europeia, na posição de potência responsável pela superação de parte dos problemas da Zona do Euro, sempre foi um país de destaque no concerto e desconcerto das nações. E por razões diversas. No século 20, está na origem dos dois conflitos mundiais, da divisão do mundo em blocos que marcou a guerra fria, do fim do comunismo com a queda do Muro de Berlim. O que é história, política e economia tem tradução no pensamento. A Alemanha se tornou também um polo irradiador de reflexões e de estilo de pensamento no século 20, que trazem junto uma tradição secular, seja no campo da filosofia, do direito, da religião ou das ciências da natureza. 

Se a influência da cultura francesa foi determinante no estilo do pensamento acadêmico brasileiro, nem por isso as marcas da filosofia alemã são menos visíveis, incorporando-se ainda nesse universo as questões da estética e da política. Além da força da reflexão, há elementos de ordem conjuntural que fizeram com que aportassem no Brasil, durante o período da Segunda Guerra, pensadores alemães ou de expressão alemã, que trouxeram ao país não apenas um novo estilo de pensamento como também um campo novo de problemas e autores, como foi o caso de Anatol Rosenfeld (1912-1973), do austríaco Otto Maria Carpeaux (1900-1978), chegando ao tcheco Vilém Flusser (1920-1991). Esse é o terreno abarcado pelo segundo volume de O pensamento alemão no século 20, organizado por Jorge de Almeida e Wolfgang Bader, que acaba de ser lançado pela Cosac Naify.

O livro é resultado de seminário realizado em São Paulo que teve como objetivo aproximar as duas culturas, a partir do estudo de autores de expressão alemã e de sua influência na vida intelectual brasileira no século 20. Trata-se de obra de mão única: a via é sempre da Alemanha para o Brasil. Os artigos analisam de forma enciclopédica e introdutória a obra de nove autores (entre filósofos, cientistas, psicólogos e teóricos políticos) e trazem sempre ao final uma pequena nota sobre a recepção dos pensadores no Brasil. O livro é o segundo volume da série. No primeiro, lançado em 2009, com o mesmo propósito e método, foram estudados os seguintes autores: Max Weber, Freud, Carl Schmitt, Heidegger, Hannah Arendt, Walter Benjamin, Adorno, Ernst Bloch, Marcuse, Habermas e Niklas Luhmann.

O novo livro tem como primeiro autor o psicólogo Wilhem Reich (1897-1957), um autor nem sempre levado a sério, seja pela dissidência da ortodoxia freudiana, seja por sua atuação política. O ensaio de Paulo Albertini analisa o contexto histórico-social do pensamento reichiano, recupera a biografia do psicólogo com seus inúmeros acidentes de percurso (ele morreu numa prisão nos EUA em razão de uma investigação do FDA, órgão responsável pelo controle de alimentos e medicamentos), destaca os aspectos políticos do autor, evoca sua militância por uma clínica social, chegando ao núcleo da reflexão de Reich sobre o corpo e o psiquismo, tratada com seriedade e consequência, e não como um desvio. No que diz respeito à recepção no Brasil, Abertini identifica linhas influenciadas por Reich, como a gestalt terapia, além do diálogo com propostas nas áreas da política, comportamento e educação.

O segundo nome é também de um psicólogo, o suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), apresentado por Laura Villares de Freitas. Depois de um breve panorama da vida de Jung, sobretudo de sua formação, relação com Freud e rompimento com o criador da psicanálise, a autora enfoca a obra de Jung a partir da ideia de diferença. Mais uma vez o polo de comparação é Freud: Jung é psiquiatra, Freud neurologista; Jung desde o início tratava psicóticos, enquanto Freud lidava com neuroses e histeria; para Freud tudo era sexo, para Jung a libido ia além, abrangendo a energia vital; para Freud o desenvolvimento psíquico se completa na puberdade, para Jung a individuação vai até o fim da vida. Freud se concentrava na ciência, Jung buscava saberes na religião e mitologia. São marcos que explicam as divergências teóricas e práticas entre os dois, que terão consequência na vida, na obra e na prática pessoal e política de seus seguidores. No que toca à recepção das ideias junguianas no Brasil, Laura Villares de Freitas mostra que não se trata de um legado único, mas que se divide em escolas e diferentes abordagens (escolas do self, evolutiva e arquetípica), que foram sendo defendidas por analistas como Nise da Silveira, Carlos Byington e Leon Bonaventure, entre outros.

Qual é a atualidade do pensamento de Georg Lukács? Esta é a pergunta que abre o ensaio sobre o pensador húngaro de expressão alemã, de Arlenice Almeida da Silva. Autor de obra imensa, polêmica e variada, por diversas vezes marcadas pela conjuntura, Lukács é analisado em sua dimensão filosófica e, mais especificamente, no campo da estética. Ao articular arte, sociedade e política, o autor participa das transformações pelas quais passou a estética no século 20. Para isso, a autora apresenta as diversas fases do pensamento estético de Lukács (1885-1971), desde a juventude até suas obras mais influentes, como A alma e as formas, A teoria do romance e Filosofia da arte, chegando à obra de maturidade, Estética. O artigo apresenta ainda obras de força filosófica e política do autor, como História e consciência de classe e Ontologia. Sobre a influência de Lukács no Brasil, são apresentados nomes que vão de Antonio Candido a Alfredo Bosi, passando por Roberto Schwarz e Michel Lowy, chegando à geração atual, que vem analisando a reflexão filosófica do autor de uma perspectiva histórica, destacando a relação de seu pensamento com o tempo.

Na sequência, o livro apresenta a vida e obra da polonesa Rosa Luxemburgo (1871-1919), que tem seu pensamento articulado com os grandes fatos da política de seu tempo. Isabel Loureiro mostra que não é possível compreender o pensamento político e econômico de Rosa Luxemburgo fora dos embates de sua época e da ação internacionalista do movimento dos trabalhadores. “O público, que só conhecia a militante, a oradora, a polemista, a teórica marxista, ficou boquiaberto ao descobrir que a ‘sanguinária Rosa’ era uma mulher inteligente, sensível, sempre pronta a consolar os amigos, apaixonada pela natureza e pelas artes, uma intelectual sintonizada com a vida cultural de seu tempo”, sintetiza Isabel Loureiro. Seus amores, a difícil elaboração de sua obra (muitas vezes escrita no cárcere), a defesa da ação revolucionária e a relação entre socialismo e democracia são alguns dos momentos tratados no texto. Sobre a presença de Rosa Luxemburgo no Brasil, a autora lembra desde teóricos como Mário Pedrosa à origem do Partido dos Trabalhadores, chegando aos movimentos sociais, como o MST, em sua defesa da democracia centrada na autonomia das massas, e portanto além da dimensão meramente representativa.

Trajetos da filosofia à ciência 
João Paulo

Se nos primeiros ensaios há uma mescla entre reflexão e ação política, o artigo sobre Erich Auerbach (1892-1957) tem corte mais teórico. Auerbach foi autor de uma das mais importantes obras de estética do século 20, Mimesis, publicada originalmente em 1946. Leopoldo Waizbort explica como o autor realizou seu projeto de investigar a condição humana a partir da literatura, em abordagem histórica que vai de Homero e do Antigo Testamento ao romance de maturidade Virginia Woolf. Além de dissecar o argumento de Auerbach, o autor esquematiza todos os passos seguidos em Mimesis, identificando as épocas e os autores tratados, sempre com um comentário pessoal sobre cada um dos capítulos do livro. No que tange à influência de Auerbach nos estudos literários brasileiros, Waizbort identifica um diálogo com a obra máxima de Antonio Candido (Formação da literatura brasileira – Momentos decisivos: 1750-1880), além da recepção nos estudos de Luiz Costa Lima, autor que tem nos conceitos de mimesis e história suas principais balizas teóricas. 


Os quatro ensaios que completam o volume são mais técnicos, certamente em função dos autores abordados. Dois deles são sobre filósofos, Wittgenstein e Popper, e dois sobre cientistas, Werner Heisenberg e Einstein. No texto sobre Wittgenstein (1889-1951), José Arthur Gianotti analisa a importância da obra do autor austríaco para ao pensamento filosófico ocidental, a partir do Tractatus e das Investigações filosóficas, tendo como foco a relação entre linguagem e filosofia. O artigo foge um pouco do esquema seguido no livro pelos outros autores, mais didáticos e introdutórios, assumindo um caráter mais analítico e técnico. 

No texto sobre Karl Popper (1902-1994), de Jézio Hernani Bonfim Gutierre, são analisadas as contribuições do autor no campo da epistemologia e da filosofia política. O autor apresenta a tese sobre a demarcação científica (a preocupação em discernir o que é ou não ciência) e acerca do pensamento liberal e da crítica ao historicismo. No que se relaciona à influência de Popper no Brasil, Jézio Gutierre mostra que, seguindo uma tendência também identificada na Europa, o pensamento popperiano, em epistemologia e em filosofia política, foi sempre objeto de interesse tanto entre filósofos profissionais como entre cientistas e políticos. Nesse tipo de recepção, embora cresça em repercussão, nem sempre honra a complexidade do trabalho do autor, tomado muitas vezes de forma maniqueísta. Tanto no caso de Wittgenstein como no de Popper, trata-se da busca acerca dos modelos e dos limites do conhecimento.

Os capítulos finais, sobre o pensamento de Heisenberg (1901-1976) e de Einstein (1879-1955), independentemente da importância dos autores no âmbito da ciência, parecem apontar mais, no caso brasileiro, para o imenso fosso que havia no começo do século 20 entre o Brasil e a Alemanha em termos de ciência e tecnologia. Muito mais que um capítulo da história da ciência, talvez se trate de um fenômeno no âmbito da sociologia do conhecimento, tal o descompasso. Por isso, passado mais de um século de algumas de suas teorias, é reconfortante ver tanto a contemporaneidade hoje experimentada entre os institutos de pesquisa dos dois países como a incorporação de seus principais insigths em áreas que vão além da ciência e hoje se expressam em vários campos da cultura e da arte.

Pensamento alemão no século 20: grandes protagonistas e recepção das obras no Brail, em seu segundo volume, é um instrumento de trabalho útil para quem se adentra no universo dos pesquisadores, em particular e no campo das ideias. Ao mostrar a criação em meio a múltiplas determinações de ordem epistemológica e política, é também uma porta de entrada para a compreensão da relação entre as ideias e seu contexto. Como sintetizam os organizadores, há ainda um elemento a mais nessa história, que torna o livro bastante atual: no Brasil do século 21, o pensamento alemão do século 20 se sente em casa.
ESTADO DE MINAS
08/09/2012

Como escolher o seu candidato?

Especialistas indicam 8 critérios a serem considerados na hora de decidir em quem votar para vereador

Fernando Gallo

Como escolher um vereador quando a maioria dos candidatos nunca exerceu mandato e, portanto, nunca apresentou projetos de lei nem emendas parlamentares? Como escolher entre tantos partidos políticos? Entre mais de mil candidatos, quem melhor pode representar um eleitor? Com a ajuda de especialistas, o Estado elencou alguns critérios a serem levados em conta antes de escolher quais números digitar na urna e, assim, ajudar a qualificar o Legislativo.

1) Valores e visão de mundo: Seu candidato professa os mesmos valores que você? Ele analisa a cidade e o mundo de forma semelhante à sua? "O bom vereador é aquele que tem afinidades comigo do ponto de vista ideológico, da maneira como ele enxerga o mundo. Ele deve me representar de uma maneira a espelhar aquilo que penso", sustenta Cláudio Couto, professor da PUC-SP.

2) Diagnóstico da cidade: Os problemas que o candidato considera prioritários são os mesmos que os seus? Convergem com aquilo que as enquetes elaboradas por institutos de pesquisa apontam? "Se o vereador faz um diagnóstico impreciso da cidade, não está preparado para assumir o posto. Esse é um dos pontos que avalio para escolher meu candidato. A compatibilidade entre as reais necessidades da cidade e o que ele propõe", diz Fernando Abrucio, cientista político da FGV-SP.

3) Consciência sobre o papel do vereador: Ainda que, no atual sistema, o vereador se ocupe de intermediar o contato entre seus representados e o Executivo e de resolver questões como levar asfalto a uma rua ou construir uma escada, ele tem de decidir sobre políticas mais amplas, como o modelo de gestão da saúde pública por organizações sociais, por exemplo. "O vereador tem de representar muito mais do que esse intercâmbio e esse papel intermediário. Ele tem sim, em parte, um papel de interlocutor entre o Executivo e aqueles que representa, mas não é o principal", afirma o professor de Filosofia Política da USP, Alberto Ribeiro de Barros.

4) Visão global da metrópole: Seu candidato a vereador é capaz de pensar a cidade global e sistemicamente? Além de dizer que levará creches e hospitais para sua região, ele tem ideias e projetos sobre cultura, sistema de albergues para moradores de rua ou o desenvolvimento do município como cidade global? "Devemos escolher o candidato que tem mais preocupações universais, de atender a todos, e não só a certa fatia do eleitorado. Não é só limpar o lixo da minha rua, da minha praça. É o da cidade toda", explica Maria do Socorro Sousa Braga, professora de ciência política da Universidade Federal de São Carlos.

5) O partido: A legenda de seu candidato tem vida, faz reuniões, discute a cidade? O que o partido pensa sobre temas como mobilidade urbana? O que pensa sobre política de habitação e formas de evitar uma bolha imobiliária? "O partido é um atalho para o eleitor. Além de tentar saber detalhes sobre aquele indivíduo em particular, é importante saber que conjunto de ideias o partido dele professa, que programa tem para a cidade", observa Cláudio Couto.

6) Vida no partido: O candidato está filiado há quanto tempo? Ele participa das atividades do partido? Já foi filiado a outras siglas? "Por mais que se fale que nosso sistema é personalista, é importante a relação do representante com seu partido. Espera-se que ele tenha preocupação de agir como membro de uma organização. Democracia representativa sem partido não existe", avalia Maria do Socorro Sousa Braga.

7) Visão política da cidade: Cuidado com propostas aparentemente técnicas: todas têm um fundo político. Um exemplo: o candidato defende a destinação de verbas do transporte para a construção de corredores de ônibus ou para obras viárias para carros? "São visões do mundo que competem, cada uma mobilizando um aparato técnico diferente. São percepções conflitantes mesmo", explica o professor de ciências sociais da PUC Rio Luiz Werneck Vianna.

8) Financiadores: Salvo raras exceções, as empresas que financiam campanhas eleitorais têm interesses que envolvem projetos criados ou discutidos pela Câmara. Por que seu candidato foi pedir dinheiro para este ou aquele financiador? O que ele pretende fazer por esses setores na Câmara? "É difícil devassar a olho nu quem está por trás da campanha, mas é muito importante", observa Werneck Vianna.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO