quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O estilo Dilma na hora H‏ (Celso Rocha de Barros)


A política brasileira ainda se organiza em torno da defesa das conquistas de FHC e de Lula, e não a partir de projetos que enfrentem os problemas que nenhum dos dois resolveu
por CELSO ROCHA DE BARROS
Já parece haver, entre os observadores da política brasileira, algum consenso sobre o que é o estilo da presidente. Dilma Rousseff dá broncas espetaculares em seus ministros, já tendo abalado a estabilidade emocional de alguns deles. Dilma microgerencia os projetos do governo, muitas vezes passando por cima dos titulares dos ministérios para lidar direto com o segundo ou terceiro escalão. Dilma tem pouca paciência com barganhas políticas (mas há quem diga que o tempo a está tornando mais paciente com elas). Dilma é uma negociadora dura que deixa claro o ponto em que não pretende mais continuar conversando. Dilma é pouco propensa a estabelecer relacionamentos pessoais próximos com aliados. (Lembram dos churrascos do Lula com direito a pelada entre os ministros?) Dilma é mais discreta, e provoca menos a oposição. Dilma tem menos diálogo com os movimentos sociais do que tinha Lula. Dilma concentra sua atenção em um número limitado de problemas, o que para alguns é foco, e, para outros, estreiteza. Já se lembraram de Max Weber para opor Dilma, a tecnocrata racional-legal, a Lula, o carismático. E, o que talvez seja o aspecto que mais aparece para a população em geral, Dilma tem parecido ser menos conivente com a corrupção, demitindo mais ou menos rapidamente ministros denunciados pela imprensa.
A vontade de fazer o contraste com Lula talvez exagere esses atributos, mas é provável que o retrato que emerge da sobreposição dessas várias descrições seja razoavelmente fiel. A imagemde presidente gestora corresponde, no mínimo, a um aspecto da autoimagem de Dilma. Em uma entrevista à tevê em 2009, ela disse que seu grande objetivo, se eleita, seria aumentar a eficiência e a capacidade de ação do Estado brasileiro. Creio que devemos levar essa afirmativa a sério, ao menos como sinalização do que Dilma pensa e espera de si mesma. (Leitores diferentes terão opiniões diferentes sobre sua capacidade de entregar o que diz pretender.) Já há, em termos de eficiência, pelo menos alguns resultados palpáveis: segundo o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (e crítico do governo) Mansueto Almeida, em junho de 2012 houve um aumento da execução orçamentária dos ministérios (à exceção do Ministério dos Transportes, abalado por uma série de escândalos), o que é uma medida aproximada do quanto o governo consegue implementar seus projetos (mas não, é importante frisar, do quão bons possam ser esses projetos).
A popularidade da presidente sugere que as pessoas – além de compreender que mulheres podem atuar em outros papéis que não apenas de mãe em música do Agnaldo Timóteo – têm uma demanda por clareza política e rigor administrativo anteriormente não satisfeita. Talvez porque, quando essa demanda aparecia no discurso da oposição, lhes fosse apresentada como uma escolha: ou isso ou as políticas sociais do Lula. Pode ser verdade o que se dizia na época da eleição de 2010, que Dilma tinha muitas características semelhantes às de José Serra, mas tinha a vantagem crucial de que não forçava ninguém a fazer essa escolha. Se a população está certa em sua avaliação de Dilma, ou se apenas projeta nela suas expectativas, é algo que descobriremos até o fim de seu mandato.
É claro que nem tudo nessa história é estilo ou, o que talvez seja mais preciso, nem tudo no estilo de uma Presidência é a personalidade do presidente. Muitas das diferenças entre Lula e Dilma, e muito da viabilidade dos dois estilos, são explicáveis por diferenças entre os momentos políticos em que cada um estabeleceu sua assinatura individual.
Por exemplo, se Dilma tem mais autonomia diante da base parlamentar, também é verdade que enfrenta uma oposição muito mais fraca do que a que confrontou Lula, especialmente após o racha do dem(que levou à formação do PSD) e a catástrofe de Demóstenes Torres. A força do PSDB e PFL/DEM durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva (em especial durante o primeiro mandato) aumentava o poder de barganha da base aliada, que podia ameaçar, com credibilidade, passar para a oposição (com a qual, afinal, tinha mais afinidade ideológica). Com a oposição fraca como está, os partidos menores calculam que romper com o governo é se afastar do poder (e dos favores que ele distribui) por um bom tempo. Em épocas de governo forte, a oferta de aliados cresce, e a lei da oferta e da procura faz seu trabalho com o preço dos aliados. Não é só de corrupção que estou falando, vejam bem: faz parte do jogo que os deputados briguem por recursos para suas regiões e bases de apoio.
Por outro lado, se Dilma tem menos diálogo com os movimentos sociais, em boa parte é porque tem menos a lhes oferecer, dada a política econômica. Na análise já citada de Mansueto Almeida (leiam esse cara), fica claro que a presidente está gastando o dinheiro que tem para gastar, fundamentalmente, com programas sociais (o MinhaCasa, Minha Vida, por exemplo, está recebendo uma boa grana). Esses programas são direcionados ao que o cientista político André Singer identificou como a base social do lulismo: os pobres desorganizados, que ele chama de “subproletariado”.
A prioridade dos gastos de Dilma não é, portanto, a base social do pt, onde predominam os setores populares organizados. E definitivamente não são os setores de renda média tradicionalmente associados ao pt, como o funcionalismo público. Diante da crise mundial, Dilma tem preferido usar o resto do dinheiro de que dispõe para tentar incentivar a economia. (Pode-se discutir, é claro, o quanto essas medidas serão eficazes.) Isso quer dizer que, a menos que a presidente decida cortar gastos sociais, não há muito dinheiro para atender reivindicações de ninguém. Como seria de se esperar, isso não está semeando alegria entre os funcionários públicos. Mas tampouco os funcionários ficariam felizes se Dilma os convidasse para um café, lhes fizesse um cafuné, e explicasse, no final, que não tem dinheiro para aumentar o salário de ninguém. Se Dilma aumentasse os salários, por outro lado, poderia receber os sindicalistas a golpes de pá que não perderia seus votos no concurso de Miss Simpatia. Isso vale, em dobro, para deputados da base governista e seus pedidos de liberação de emendas parlamentares. Não se trata de estilo.
As diferenças de estilo também podem refletir mudanças no jeito com que diferentes atores se relacionam com a nova presidente. Não sabemos se partidos aliados, ou o pt, não estão testando o terreno para saber se podem pedir mais de Dilma do que pediam de Lula; se for este o caso, isso exigirá, por parte da presidente, demonstrações de rigor para segurar a sede com que vão ao pote. Lula inspira deferência muito maior dentro do pt, o que talvez o dispensasse de maiores demonstrações de autoridade. Dilma, por outro lado, sofre muito menos preconceito de classe, o que a livra de ataques elitistas (“Vamos acabar com essa raça”) que precisariam ser respondidos com gestos populistas ameaçadores (“Vamos exterminar o dem”).
A atitude diferente diante da oposição, e mesmo a atitude diante de aliados acusados de corrupção, também é reflexo de diferenças na rede de apoios dos dois presidentes. Há testemunhos de que, após a crise do mensalão, Lula procurou se entrincheirar com os setores com os quais podia contar em qualquer eventualidade, em especial os sindicatos. Dilma não tem ninguém com quem possa contar com esse grau de certeza; por essas e outras razões, tem muito menos meios de administrar um grande escândalo de corrupção, e precisa construir mais pontes com a oposição.
Finalmente, não se pode descartar a possibilidade de as diversas manifestações de simpatia ou antipatia pelo “estilo Dilma” serem outra coisa: acertos de contas tardios e meio envergonhados de gente que faz tempo percebeu que vinha falando besteira (contra ou a favor) sobre o governo Lula, mas que já tinha empenhado sua posição, bem como sua credibilidade em sua roda de truco, a favor ou contra o sujeito, e achou mais fácil mudar de opinião agora que mudou o presidente.
Tenho amigos de esquerda que romperam com o governo Dilma por causa da Usina de Belo Monte, e lamentam a virada à direita que esse projeto “ecocida” imposto de cima para baixo representa. Mas Lula também era a favor de Belo Monte. Parece-me que esses colegas superestimaram o esquerdismo (ou, no mínimo, o ambientalismo) de Lula, e só por isso veem uma grande virada em Dilma. Da mesma forma o fazem os que passaram oito anos soando o alarme de comunismo, totalitarismo, aparelhamento, Foro de São Paulo,  o “polvo” da Veja, e depois acharam meio difícil admitir que Lula, se tinha lá seus problemas, nunca esteve nem sequer perto de ser um fanático de esquerda. É mais fácil para essa turma dizer que a Dilma é tão diferente de Lula que já é possível reconhecer uma ou outra qualidade em um governo do pt. Nessa hipótese, o que está havendo é menos uma racionalização do governo e mais uma racionalização da discussão política, que se confundiu um pouco vendo o Lula implementar políticas moderadas.
O estilo de Dilma também é sintoma de seu projeto. É possível, é claro, que Dilma tenha escolhido seu projeto por ser o tipo de tarefa que atrai alguém com sua personalidade. E é provável que Lula a tenha escolhido como sucessora porque também apostou na importância do projeto, e viu em Dilma alguém capaz de levá-lo adiante.
Quando Dilma era ministra de Lula, seu nome era frequentemente associado ao “desenvolvimentismo”. Esse é um nome que já foi usado para descrever coisas tão diferentes que talvez não seja mais muito útil, mas, em geral, se refere à defesa de que o Estado, sem substituir a iniciativa privada, tente acelerar ou induzir o desenvolvimento com obras de infraestrutura, política industrial, intervenção na taxa de câmbio ou outras coisas do tipo. Em grandes linhas, e com idas e voltas, descreve a política econômica brasileira entre Vargas e o fim da ditadura militar. Em fases diferentes, o desenvolvimentismo foi mais estatista ou mais privatista, democrático ou autoritário, com grande participação do capital estrangeiro ou nacionalista. Produziu altas taxas de crescimento por algumas décadas, mas desabou espetacularmente sob o próprio peso na passagem para a década de 80.
A moderna democracia brasileira nasce justamente na crise do desenvolvimentismo, e convive problematicamente com sua memória. As grandes realizações do Brasil nas últimas décadas foram correções de legados ruins do desenvolvimentismo: a hiperinflação (que só acabou em 1994) e a desigualdade (que só agora caiu abaixo do que era nos anos 60). Por outro lado, o crescimento econômico brasileiro na era democrática foi baixo, bem mais baixo do que no período desenvolvimentista. Por estupenda que tenha sido a vitória de Fernando Henrique Cardoso sobre a inflação, ela se deu ao preço de o Brasil ter a maior taxa de juros do mundo. E, por mais indiscutivelmente justas que sejam as políticas sociais de Lula, é fato que mais dinheiro para a área social é menos dinheiro para investimento. Isto é: a herança que Dilma recebeu de seus antecessores inclui a prataria, mas também aquele quadro feio de palhaço chorando.
Quando Dilma escolheu como prioridade recuperar a capacidade de ação do Estado, indicou disposição para enfrentar esse nó restante da transição democrática. O leitor pode chamar essa postura de “desenvolvimentista”, dependendo do que entender por desenvolvimentismo, mas o que importa é o foco na remoção de obstáculos para o crescimento. Dilma se preocupa com o financiamento de investimentos de longo prazo e com a perda de competitividade da indústria. Dilma quer criar condições para a redução da taxa de juros e resolver carências de capital humano. Dilma fala muito mais em políticas de inovação tecnológica do que seus antecessores. O desafio é implementar essa agenda sem repetir as violências praticadas pelo velho desenvolvimentismo contra a democracia, a boa gestão macroeconômica, o meio ambiente ou a igualdade.
Há quem diga que os velhos vícios estão de volta: à esquerda, militantes ambientalistas críticos da construção da Usina de Belo Monte, como o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, argumentam que Dilma demonstra a mesma despreocupação com direitos indígenas que o regime militar demonstrava. À direita, o economista Alexandre Schwartsman manifesta ceticismo em relação ao compromisso do atual governo com o regime de metas de inflação herdado de fhc. Ainda que admitamos que Dilma escolheu para si um desafio que eventualmente teria que ser enfrentado, é preciso admitir que a escolha traz riscos significativos.
 É fácil ver que muitas das características do estilo Dilma derivam da tarefa que ela se colocou. Os problemas que a presidente tem à sua frente não vão ser resolvidos por um grande plano econômico, por melhor que seja, ou por um ou dois programas sociais bem desenhados. Se Dilma é detalhista é porque os problemas que enfrenta agora exigem desatar centenas de nós menores. Se prefere discussões técnicas, é porque todos esses problemas têm aspectos técnicos absolutamente infernais. (Se alguém te disser que basta vontade política para baixar os juros, ou reduzir os gastos públicos, nunca mais ouça o sujeito.)
O estilo Dilma, portanto, é a resultante de uma personalidade, uma conjuntura política e um projeto. Resta saber qual a viabilidade desse conjunto nas circunstâncias atuais. Até porque, convenhamos, a conjuntura faz você desejar que o sujeito que sempre aparece nessas horas dizendo que “o ideograma chinês para crise é o mesmo para oportunidade” seja obrigado a lavar as cuecas de todo o Exército de Libertação Popular para ver que oportunidade ele encontra lá dentro.
Uma crise profunda como a que atinge a economia mundial desde 2008 exige certo tipo de liderança. Em horas como essa, é bem mais importante ser capaz de evitar o pânico do que despertar entusiasmo.
Dificilmente se pode acusar Dilma de ter ficado parada. Os bancos governamentais agiram coordenadamente para colocar pressão sobre os juros dos bancos privados. Dilma promoveu uma série de isenções tributárias (incluindo a desoneração da folha de pagamento para vários setores), deu mais dinheiro para o bndesemprestar, lançou um pacote de concessões ao setor privado na área de infraestrutura, e arriscou um protecionismo muito questionável.
Para tornar a redução de juros possível, a presidente arriscou seu capital político alterando a rentabilidade da poupança, o que foi uma jogada ousada. Alguns críticos têm reclamado da falta de reformas que beneficiem a economia no longo prazo, mas o foco atual do governo no curto prazo é menos um sintoma de nossa velha inércia do que a consequência do fato de que esse curto prazo que temos pela frente é muito mais perigoso do que os curtos prazos costumam ser: os curtos prazos não nascem todos iguais, e o atual é particularmente horroroso. Alguns dos que criticam o governo por miopia no meio de uma crise desse tamanho estão sofrendo de severa hipermetropia, mesmo se as reformas por eles defendidas forem uma excelente ideia e merecerem mesmo ser implementadas.
Se a crise durar menos do que se espera, é possível que as medidas tomadas até agora, ou outras da mesma natureza, sejam suficientes para blindar o Brasil contra os piores aspectos do desastre. Agora, podemos nos perguntar, quais as chances de a crise durar pouco?
 Certas coisas que hoje não parecem prováveis precisariam acontecer. Nos Estados Unidos, algum acordo entre Obama e oposição precisaria ser celebrado para garantir que o governo jogue mais dinheiro na economia agora, estimulando-a, e se planeje para economizar mais (bem mais) quando a economia voltar a funcionar. Na zona do euro, a Alemanha precisaria aceitar ter uma inflação maior do que a dos países devedores (Grécia, Espanha, Portugal, Itália), em troca de promessas, críveis, de que esses países vão tentar reformar suas economias: quer dizer, o eleitorado alemão vai ter que aceitar riscos por causa dos países devedores, e o eleitorado dos países devedores vai ter que aceitar sacrifícios para limitar o risco dos alemães. E se vocês acharam que isso tudo já estava difícil, a China, que é quem costuma vender para essa turma toda (e comprar da gente), vai ter que se voltar mais para o mercado interno. Isso quer dizer mexer no arranjo que até agora deu muito certo: poupança altíssima, investimento altíssimo e dependência das exportações. Para a China desenvolver seu mercado interno, vai ter que implementar reformas dificílimas (na remuneração da poupança, na propriedade da terra, nas políticas sociais, no financiamento dos governos locais), e todas elas, sem exceção, ameaçam algum interesse poderoso na política chinesa.
 Pode ser que tudo isso seja resolvido, ou, pelo menos, resolvido o suficiente para encaminhar a solução da crise, mas seria irresponsável apostar nisso. As exigências que a crise econômica está fazendo à política estão léguas além do que seria razoável ou parece factível. O cenário mais provável para os próximos anos inclui baixo crescimento entremeado com choques negativos, produzidos na tentativa de desemperrar os mecanismos políticos nos países desenvolvidos e na China.
Isso dificulta a realização do projeto da presidente e pode alterar drasticamente as condições políticas em que o “estilo Dilma” tem operado com sucesso. Convém aqui examinar o cenário pessimista, em que a crise bate fundo na economia brasileira, a arrecadação cresce devagar, o desemprego sobe – enfim, nada que nós nunca tenhamos visto acontecer.
Há, em primeiro lugar, o risco de o dilmismo entrar em conflito agudo com a herança de Lula. Se a situação piorar e a quantidade de recursos encolher, Dilma pode ter que escolher entre abandonar seu plano desenvolvimentista inicial ou sacrificar as conquistas sociais de Lula; isto é, escolher entre aumentar o investimento público ou manter os gastos sociais.
Caso opte por cortar os gastos sociais (o que me parece improvável), Dilma corre um sério risco de perder o apoio da base social do lulismo (os mais pobres). Isto é, Dilma teria que contar apenas com o apoio que conquista sozinha, sem o contágio da popularidade de Lula. O que hoje nela é visto como objetividade e determinação aos poucos seria reinterpretado como frieza e insensibilidade social. Se Dilma perde o lulismo (o que é diferente, vejam bem, de perder o pt), corre o risco de se aproximar demais da marca José Serra. É verdade que muitos eleitores de Serra na classe média têm se entusiasmado por Dilma, mas não sabemos se esse apoio resistiria a uma deterioração da economia ou a uma crise política mais séria. Por esses e outros riscos, seria bastante surpreendente se Dilma escolhesse sacrificar a herança de Lula.
Há, é claro, a possibilidade de abandonar a herança de fhc, uma proposta em cuja defesa, infelizmente, não faltará quem saia na esquerda. Isso poderia ser feito só pelo lado fiscal, aumentando o gasto com investimentos e com a área social muito além do que seria responsável, ou substituindo o comando do Banco Central por uma equipe mais dócil que aceitasse baixar os juros muito mais do que seria responsável. Implicaria, naturalmente, voltar a conviver com inflação mais alta.
Isso teria tudo para ser um desastre, porque – repitam 100 vezes comigo – a inflação sob controle é tão parte do lulismo quanto os gastos sociais: os aumentos da renda dos pobres seriam facilmente anulados por uma inflação só um pouco mais alta. Aqui também, cedo ou tarde, Dilma perderia o apoio dos mais pobres, além, é claro, de comprar brigas violentas com os setores que não gostavam de Lula, mas simpatizam com ela (parte da classe média, do empresariado etc.). Dilma perderia, definitivamente, sua reputação de competência gerencial, adquiriria a imagem de ideóloga populista radical (como a de Cristina Kirchner), seria vista como traidora de Lula, como destruidora do legado de fhc, e seu estilo “distante dos partidos” rapidamente apareceria como “incapaz de agradar quem quer que seja”. Os riscos associados a essa opção também a tornam improvável.
Ou seja, governar sem dinheiro durante as grandes crises cíclicas da economia moderna é uma desgraça, é horroroso, não aconselho a ninguém. Mas isso não quer dizer que, mesmo que a crise piore, não haja na-da que Dilma possa fazer. Só não há nada que seja fácil. Em vez de crescer a partir das conquistas de fhce Lula, Dilma teria que partir da solução dos problemas que os dois lhe legaram, em especial os dois citados acima: os juros muito altos e o pouco espaço no orçamento público para investimentos após a expansão dos gastos sociais.
Dilma poderia, por exemplo, tentar enfrentar a parte (vejam bem, é só uma parte) dos juros altos que, segundo gente que entende dessas coisas, é causada por mecanismos meio emperrados na economia brasileira. Não estou falando de ir lá no prédio do Banco Central e pedir para o Alexandre Tombini baixar os juros na marra (isso seria abandonar a herança do fhc). A ideia é o governo economizar dinheiro (sem isso a conversa não vai muito adiante) e tentar resolver imperfeições nos mecanismos da economia brasileira que mantêm os juros em um patamar alto demais para padrões internacionais. A complexidade do problema é infernal, e a coisa não é para amadores.
Se Dilma tentar esse caminho e der errado, pode acabar abandonando a herança de fhcinvoluntariamente, comas consequências já previstas. Mas, se der certo, será naturalmente um enorme sucesso, mesmo que suas consequências só sejam visíveis alguns anos depois (com a possibilidade, inclusive, de algum outro presidente colher esses benefícios, e Dilma jamais receber qualquer crédito).
Uma outra alternativa seria preservar os gastos sociais de Lula e “tucanizar” um pouco suas propostas para aumentar o investimento, para que não concorra com os gastos sociais pelos poucos recursos no orçamento. O uso de concessões nos serviços públicos, como foi feito recentemente com o pacote para rodovias e ferrovias, pode ser interpretado dessa forma. A interpretação corrente, porém, não é essa: é que Dilma descobriu que o Estado brasileiro é ainda mais ineficiente do que ela imaginava. Isso é parte da verdade, mas não acho que seja tudo, ou o mais importante. Mesmo se o Estado fosse inteiramente capaz de investir os recursos que agora esperamos que a iniciativa privada invista, essa seria a melhor maneira de gastar esse dinheiro? Politicamente, creio que não: é melhor para Dilma manter as políticas sociais, e o apoio político que elas trazem entre os pobres.
Leitores diferentes terão opiniões diferentes sobre a probabilidade de essa estratégia ser eficiente, mas, a crise piorando, não haverá comofazer desaparecer a escolha entre ampliar gastos sociais ou ampliar investimentos. Ainda na linha de transferir a responsabilidade do investimento para o setor privado, o governo poderia promover algumas reformas tributárias ou regulatórias que favorecessem a atividade empresarial sem conflitar demais com sua posição de esquerda. Por exemplo, duvido que muita gente na esquerda se importasse caso Dilma tivesse como objetivo melhorar a posição do país nos rankings de ambiente de negócios (dificuldade de abrir e fechar uma empresa, complexidade do sistema tributário etc.). Isso seria visto com bons olhos por novos simpatizantes de Dilma na velha classe média, mas é possível que também o fosse na nova, a classe C do Lula: ainda não sabemos o tamanho do potencial empreendedor ali travado até agora.
A estratégia tucanizante ofende profundamente muita gente no pt(bem como nos outros partidos de esquerda da base governista), mas é provável que, em algum momento, o partido seja forçado a escolher entre suas preferências por estatismo econômico e por políticas sociais generosas. O discurso da oposição, em especial do psdb, pode ser fortalecido, o que, como já vimos, aumenta o preço dos membros da base aliada. No mínimo, o debate ideológico pode ser reiniciado, o que tende a dissolver a imagem de uma Presidência puramente técnica. Se a estratégia der errado, Dilma realizará a façanha de não agradar ninguém; mas, se der certo, reforçará suas credenciais de pragmática e acima de interesses partidários mesquinhos. E, naturalmente, como em tudo que envolve concessão pública, haverá denúncias de corrupção (várias delas, sem dúvida, verdadeiras), que ameaçarão um aspecto crucial da imagem da presidente.
A política brasileira está organizada muito mais em torno da defesa das conquistas de fhcou de Lula do que a partir de projetos de resolução das tarefas que nenhum dos dois resolveu. Seria desastroso se qualquer das duas heranças fosse desperdiçada, e, se o preço para preservá-las for se mover mais lentamente, eu faria isso. Mas a margem para Dilma se desviar desses problemas é bem menor do que a de seus antecessores, e a situação internacional não está com cara de que vai ampliá-la. É possível que, dentro de seu estilo de tocadora de projetos, Dilma acabe implementando uma grande reorganização da discussão pública brasileira, quer queira, quer não.
REVISTA PIAUÍ
09/2012

Deslocamento do poder no partido (Rosângela Bittar)

Com o abatimento e o abate de grão-petistas pelo mensalão, mais do que nunca já se trabalha, em Brasília, com o contorcionismo do eixo de poder no PT à medida em que vai avançando o julgamento no Supremo Tribunal Federal: perde musculatura o PT de Lula, aqui considerado o grupo paulista, da majoritária facção articulação, e ganha o PT da Dilma, que tem aliados em todas as facções, inclusive naquele. Uma característica importante do PT que sobe a rampa é não arrastar consigo a direção partidária, ainda tentando equilibrar-se nessa transição mas pendendo, em ações, palavras, obras, defesa e geografia, para os que vão sendo defenestrados da cena política principal.

Essa é uma maneira bastante simplificada de descrever o que vai se redesenhando no partido, pois, óbvio, nem o PT que desce a rampa é todo de Lula, nem o que sobe é de Dilma, que parece dispensar esse tipo de liderança. Nos ensaios do momento, são citados alguns integrantes do grupo do PT que precisa reinventar-se: José Dirceu (mensalão) João Paulo Cunha (mensalão), José Genoíno (mensalão), Ricardo Berzoini (aloprados), Cândido Vacarezza (CPI), Delúbio Soares (mensalão), Antonio Palocci (enriquecimento).

No PT da Dilma, assim caracterizado para efeito de estabelecer um elo entre os integrantes do grupo com poder fortalecido, alistam-se Marcelo Déda (governador), Jaques Wagner (governador), Tião Viana (governador), Gleisi Hoffman (ministra), Ideli Salvati (ministra), Paulo Bernardo (ministro), Fernando Pimentel (ministro), Aluizio Mercadante (ministro), Alexandre Padilha (ministro), José Eduardo Cardozo (ministro).

Há petistas com poder interno mantido, por enquanto, como o presidente do partido, Rui Falcão, que pertencem ao primeiro grupo, como há outros que, como Gilberto Carvalho, secretário geral da Presidência, que atuam no segundo grupo mas com uma função clara determinada pelo primeiro, a de representante pessoal do ex-presidente Lula no Palácio do Planalto. Está para ser reescrita e redesenhada a nova configuração do PT, mas as tentativas prosseguem.

O primeiro grupo tinha a articulação de um projeto a uní-los, o que não se repete no segundo. Palocci guardava um projeto de país na cabeça, o PT de José Dirceu existiu com metas e liderança. O outro PT, que vai sobrando do mensalão, não está amalgamado, é um somatório de projetos individuais, mas como boa parte dele está no governo, convencionou-se chamá-lo de PT da Dilma. Ela será a candidata do partido à reeleição, por isso não há como fugir do pertencimento ao partido. Nesse também há PT de São Paulo, como Aloizio Mercadante e Marta Suplicy, as estrelas ainda brilhando. Gleisi Hoffmann quer ser governadora do Paraná mas nem o PT local está apoiando seu projeto, boa parte dele está com o adversário Ratinho Jr. O mesmo acontece no PT de Pernambuco, onde não há acusados, envolvidos, denunciados ou feridos, mas as correntes não têm meta comum. Esse PT nada tem a ver com o do Paraná, e assim segue a "desorganicidade" do grupo.

Os ministros têm relação próxima entre si e com a presidente, mas nenhuma formulação no conjunto partidário. Como grupo, começa a crescer e caminhar com autonomia agora, e nas próximas eleições internas já terá que buscar uma direção. O atual presidente perfila-se na faixa onde o poder foi corroído, mas não existe o substituto que vai conduzir a recuperação do partido. As lideranças do Parlamento estão exauridas, sem força ou resquício de poder
A presidente Dilma Rousseff não vai liderar a parte do partido que sobreviverá ao julgamento. Ela é a presidente, vai governar, insiste-se. Deu ao antecessor a função de ministro de eleições, ou seja, ministro do PT. É por aí que o partido vai procurar uma unidade de projeto.

Avaliações feitas em torno dessa nova realidade incluem, como elemento transformador, o resultado das eleições municipais que, mais do que sempre, estão balizando as disputas nacionais daqui a dois anos. Se o partido estiver caminhando para um desastre no Recife, em Salvador, em Belo Horizonte, em Curitiba, em Porto Alegre, como prenunciam as últimas avaliações internas, e apesar de tudo conquistar São Paulo, o lulismo voltará fortíssimo com o grupo paulista preservado da Lei da Ficha Limpa e as forças dos outros Estados, mesmo perdedores. Se conseguir dar a volta por cima em todas essas capitais, sobretudo do Nordeste, onde o chão vem cedendo, e perder em São Paulo, o cenário é de depressão: eleição perdida onde seria obrigatório vencer, mensalão mais desastroso do que parecia inicialmente ao partido, sem os comandos da Câmara e do Senado (os dois com o PMDB) a partir de fevereiro, o PT sabe que marchará fragilizado para o início da campanha sucessória da reeleição.

O governo encerrou sua participação, e não insistirá mais com o PMDB, no projeto de manter a governabilidade no Senado com a eleição de um presidente, em fevereiro do ano que vem, que não seja o senador Renan Calheiros (AL), candidato a voltar ao cargo que o perdeu para evitar cassação de mandato por transgressão à ética. Assim, o ministro Edison Lobão, das Minas e Energia, o mais cotado na torcida do governo para disputar a sucessão de José Sarney, não deixará mais o Ministério após as eleições municipais como estava previsto, é o que se informa hoje no círculo próximo aos atores pemedebistas.

Lobão já não queria sair, não demonstrava ímpeto de disputar, alegava empecilhos até pessoais, de resistência do filho, seu suplente, para não retomar a vaga, mas sua argumentação ficou superada pela informação que o partido fez chegar ao Planalto que Renan conseguiu romper resistências ao seu nome, tem votos para se eleger e acredita que as denúncias não voltarão a assombrá-lo.

São maiores de idade, dizem dos senadores, e há um limite para o governo intervir. Mas não desistiu de trocar, em fevereiro, seus líderes no Senado, na Câmara e no Congresso, respectivamente Eduardo Braga, Arlindo Chinaglia, José Pimentel. Todos avisados que a representação duraria apenas um ano.

FONTE: VALOR ECONÔMICO (05/09/12)

Como Lula passou de protetor a protegido (Cristian Klein)

Os anos Dilma Rousseff têm sido caracterizados pela queda inédita das taxas de juros e uma administração de coloração tecnocrática, mas ainda não representaram uma grande inovação. A margem de manobra da presidente é menor depois da conquista da estabilidade econômica, na era Fernando Henrique Cardoso (PSDB), e do avanço social ocorrido no período de seu padrinho político Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Dilma precisa de uma marca. Até agora tem sido ela mesma, com o estilo duro, o temor que desperta nos assessores mais próximos e as demissões em série que levaram à queda de quase uma dezena de ministros. Neste ano, Dilma estava um tanto quieta e faltava esbravejar com alguém. Sobrou para Fernando Henrique.

O tucano levou um pito da presidente por ter criticado em artigo a "herança pesada" que Lula teria legado para ela. O assunto é um nhenhenhém, como diria o próprio FHC, em torno do qual ele e Lula já debateram muito publicamente. A novidade é a resposta de Dilma e seu tom "overreacting".

Estratégia de fortalecer Dilma a põe em novo patamar

A reação desperta um monte de interpretações, mas nenhuma deveria partir da premissa de que o exagero foi resultado da emoção. Para uma atitude desta magnitude, em meio às eleições municipais e com os riscos envolvidos à imagem da presidente, há pouco de impulso e muito de cálculo político.

Dilma iniciou seu governo estabelecendo justamente um contraponto em relação ao padrinho. Lula, nos dois mandatos, sempre esteve às rusgas com FHC. Mas a presidente aproximou-se do tucano, conferiu-lhe um tratamento especial e até enviou-lhe carta elogiosa no aniversário de 80 anos. Era uma amizade republicana, a despeito das diferenças ideológicas e partidárias que Dilma sabia existir.

O que mudou, então?

A discussão sobre heranças malditas ou benditas poderia ter continuado entre dois velhos ex-presidentes. Lula já recuperou a voz para correr o país, subir palanques e dar declarações de apoio a seus candidatos a prefeito. Poderia muito bem ter respondido. Dilma, no entanto, comprou a briga com FHC. Houve senso de oportunidade.

O efeito simbólico é imediato. Lula, de uma hora para outra, passou de protetor a protegido. A estratégia de fortalecimento da imagem presidencial pôs Dilma em novo patamar. O bate-boca é com FHC, mas o subproduto principal é o deslocamento de Lula como o peão do jogo.

Não é pouco, uma vez que ainda há dúvidas sobre quem será o nome do PT na eleição de 2014: se criador ou criatura.

O panfleto de Dilma foi eminentemente político. Contrasta com sua atuação discreta, voltada para o gabinete. Aos poucos, a presidente amplia seu espaço, além da técnica, e entra no campo político - o que parece mostrar sua disposição de tentar um novo mandato.

O duelo com Fernando Henrique é a segunda grande intervenção da presidente que claramente dispensa a participação do padrinho. A primeira foi na troca de comando de líderes do governo no Congresso, em fevereiro, quando suas decisões ainda eram vistas como dependentes de conversas com Lula. Foi uma prova de autonomia no trato com as raposas do Legislativo. Agora, Dilma mostra independência para liderar a luta partidária/eleitoral.

Se quiser a reeleição, Dilma precisará dominar o território e andar com as próprias pernas. Precisará falar a seu partido e aos que dão sustentação ao governo, muitos descontentes com seu estilo.

Para sua legenda, a bronca em Fernando Henrique soa como música ou, ao menos, mea culpa. Dilma tem se aproximado de uma agenda muito mais tucana - privatizações, retaliação às greves do funcionalismo - do que das preferências dos petistas. Se um partido pode ser dividido em três - filiados/simpatizantes; direção; e governo/face pública-, Dilma sabe que precisará contar com o engajamento dos dois primeiros em seu projeto.

Para os aliados, o passa-fora no tucano é um aviso de que a presidente está à frente do debate e que uma romaria queremista em torno de Lula tende a ser inócua.

A ação atinge vários objetivos ao mesmo tempo. Dilma se aproveita dos reveses de Lula e da oposição. O ex-presidente tem posto à prova nestas eleições sua sagacidade política e sua popularidade. Em São Paulo, a candidatura do ex-ministro Fernando Haddad avança menos do que o esperado depois de iniciada a campanha na TV. Lula não repete o que fez em 2010, com a transferência de votos para Dilma. Na batalha no Recife, está em desvantagem no duelo de padrinhos. O até pouco tempo desconhecido candidato do governador Eduardo Campos, Geraldo Julio, ambos do PSB, ultrapassou como foguete o senador Humberto Costa, apoiado pelo ex-presidente.

Para petistas que concorrem nas capitais, é a presença de Dilma que surge agora como esperança para inverter o quadro desfavorável. Em apenas duas destas 26 cidades, Goiânia e Rio Branco, há um candidato do PT na liderança.

A oposição - especialmente o PSDB, que lidera em seis - não vai mal nos municípios, mas seus caciques nacionais tropeçam, de um jeito ou de outro. O libelo de Fernando Henrique, cujo governo foi tão renegado por seu partido, surge no momento em que o senador mineiro Aécio Neves é filmado trôpego num boteco carioca e o ex-governador José Serra cai na tabela da disputa pela Prefeitura de São Paulo.

FHC também teve senso de oportunidade. Quis reafirmar sua liderança e ser lembrado como principal face pública do PSDB e da oposição. Só não contava com o chega-pra-lá da "muy leal e amiga" presidente da República.

Se os atuais anos ainda não têm uma grande marca, os últimos dias, no melhor estilo Dilma, representaram tempos de violência para velhos caciques. A presidente rebate o octogenário FHC; Eduardo Campos atropela o sexagenário Lula; São Paulo vira as costas para o septuagenário José Serra.

Enquanto isso, a novidade Celso Russomanno (PRB), que diz não querer briga com ninguém, conquista o eleitorado paulistano, para desespero de ambas as partes, de tucanos e petistas.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Até onde vai a criminalização da pobreza (Zé Maria)

A Folha de São Paulo estampou em sua primeira página, dias atrás, a foto de uma menina, Júlia Rafaela, de apenas 7 anos. A foto ilustrava a reportagem que tratava do despejo efetuado pela Polícia Militar, a pedido da prefeitura, que desalojara a família da pequena Júlia, e dezenas de outras, de um hotel abandonado que tinham ocupado. Júlia não estava conseguindo ir à escola pela situação em que ficara sua família e as demais, dormindo em barracas numa calçada do centro da cidade, exposta ao frio do inverno paulistano. O hotel? Ora, continua abandonado, mas para a prefeitura e para a especulação imobiliária é melhor assim, vazio, do que abrigando famílias que não têm onde morar.
Cenas como essas deveriam nos fazer a todos nós, seres humanos, refletir acerca da natureza da sociedade em que vivemos. Trata-se de uma injustiça tão flagrante que é difícil crer que seja vista e tida como situação normal, e ainda por cima, protegida por lei. Qual o crime que a família de Júlia Rafaela e as demais cometeram para serem tratadas com tamanha brutalidade pelo Estado? Estavam lutando pelo direito a moradia. Mas isto não é direito de todos garantido na Constituição Federal? Porque então a polícia não interpela as autoridades que deveriam assegurar a estas famílias o direito a moradia, ao invés de despejá-las na rua, ao relento?
Se olharmos em volta, vamos ver que este caso não é isolado. Pelo contrário, trata-se cada vez mais de uma rotina dura e cruel, de criminalização da pobreza em nosso país. E isso não se dá apenas através dos despejos que, atendendo aos interesses da especulação imobiliária ou dos grandes eventos (Copa, Olimpíadas, etc), são cada vez mais comuns e violentos. Para não me alongar, cito apenas dois outros exemplos.
Alguns meses atrás, os noticiários da grande mídia foram tomados pela revolta dos operários da construção pesada que trabalham nas obras das usinas de Jirau e Santo Antonio, em Rondônia. Foram semanas inteiras de paralisação das obras, e de intensa mobilização dos operários. Os barracões onde estes trabalhadores eram amontoados como bichos pelas empresas, a título de alojamento, foram incendiados. A despeito de o Ministério Público do Trabalho e de Auditores Fiscais do Ministério do Trabalho terem constatado no local um ambiente de total desrespeito aos direitos mais básicos dos trabalhadores por parte das empresas, quem foi chamado para resolver o problema foi a polícia.
Operários que se revoltaram entre outras coisas porque eram agredidos fisicamente pela segurança das empresas, foram então espancados pela polícia. Muitos trabalhadores estão desaparecidos até hoje, vários presos, pelo menos 12 deles processados criminalmente, e há dois operários presos até hoje no presídio de Urso Branco em Rondônia. O crime que cometeram? Lutar para serem tratados como seres humanos, trabalhadores, e não como escravos.
O descumprimento dos direitos trabalhistas e humanos dos trabalhadores que vinha sendo praticado pelas empresas, por outro lado, segue livre leve e solto. E por incrível que possa parecer, depois de tudo que ocorreu, as autoridades estaduais e federais não tomaram a decisão de instalar na região, ou dentro da obra mesmo, uma delegacia do Ministério do Trabalho para fiscalizar e garantir o cumprimento por parte das empresas de suas obrigações para com os operários. Foi instalada, e está em pleno funcionamento, uma delegacia de polícia para vigiar e reprimir os trabalhadores. Não, não estamos falando de algo ocorrido no início do século passado, antes ainda da vigência da CLT. Estamos falando de algo que está acontecendo em 2012, sob governo do PT.
Deixemos a região Norte, e vamos ao Centro Sul, mais precisamente no Rio de Janeiro, onde está o outro exemplo que ilustra bem o assunto em pauta. No Rio, mais precisamente dentro da UFRJ, maior universidade federal do país, está instalado o Cenpes – Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Petrobras, lugar de excelência científica, digno do chamado primeiro mundo. Pois bem, dentro deste Centro de pesquisa há um restaurante que, por sua vez conta com trabalhadores terceirizados que são encarregados da limpeza. Dias atrás, o chefe encarregado do local resolveu submeter os trabalhadores da limpeza a uma revista no momento em que deixavam o local de trabalho, no término de sua jornada. Encontraram-se restos de comida nas mochilas de três trabalhadores. Restos de comida que seriam jogadas fora, pois eram sobra do almoço servido mais cedo.
A polícia foi chamada e os três foram presos. Acusação? Roubo. Corre-corre, desespero das famílias, consegue-se pagar a fiança e os três são libertados. Passados alguns dias, como os três trabalhadores – por falta de condições e de esclarecimento – não cumpriram os procedimentos legais previstos em lei para a situação em que se encontravam, nova ordem de prisão. Dois conseguem refugiar-se, mas um deles é novamente preso. Está neste momento na penitenciária de Bangu. Seu crime? Pegar alguns pedaços de galinha, que seriam atirados no lixo, para levar para casa, para alimentar sua família. Este cidadão está na cadeia, na cidade maravilhosa, enquanto o ex-senador Demostenes Torres exerce garbosamente seu cargo de “promotor de justiça”, em Goiás.
A este ponto chegamos. Até onde mais?
Fonte: Congresso em Foco

Que de boba não tem nada (Juca Magalhães)

Um homem que nunca foi à escola pode roubar a carga de um vagão; mas se tiver uma educação universitária, roubará a estrada de ferro inteira.

Theodore Roosevelt

Qualquer um que comece a dar aulas descobre logo que não sabe um monte de coisa que pensava saber e acaba tendo que estudar até mais do que os alunos. O processo de aprender a ensinar é árduo, mas é um caminho de enormes satisfações não financeiras. Sim, porque não conheço nenhum mestre trilhardário, embora existam alguns endinheirados por aí tentando ensinar outros a enriquecer. Por isso dizem que os livros de auto-ajuda resolvem mesmo a vida de quem os escreve...

Quarta passada estava dando aula para uma moça chamada Raissa – prometi que ia a mencionar no texto – falava da harmonia, uma parte teórica que os alunos costumam detestar. Não é com muita satisfação que os mais rebeldes descobrem que também no discurso musical pululam prosódias e prosopopéias e que, tratando do sistema tonal, existe um conjunto enorme de regras trivialmente comparado à gramática.

Raissa entendeu o assunto como contradição e me perguntou: “mas na música a gente não tem que transgredir? Inovar?”. Além de uma coisa não ser a mesma que a outra, a danada trazia consigo um livro de Augusto Cury, de quem não irei falar agora por pura preguiça. Lembrei da pobre (pobre?) moça que foi pega discursando livremente sobre “as brechas da Lei” e que por isso foi crucificada, perdoe o trocadilho, em “Via Púbica”.

Como certamente o fazem os doutos em advocacia, para transgredir é preciso conhecer, dominar um assunto em sua complexidade. Existe o caso de algum escritor inovador que não fosse versado em sua própria língua? Não me lembro agora, mas na música a esmagadora maioria do que é vendido como “revelação” sempre lembra o velho e bom ditado: “por falta de roupa nova passaram o ferro na velha”.

Por isso a importância de investimento em formação, educação, conhecimento para os nossos criadores e até quem sabe futuros transgressores e inovadores. Precisamos muito destes nas artes em geral, porque no momento nossos conterrâneos só alcançam fama quando são bons de porrada (com toda admiração e respeito à família do Touro Moreno) ou questionam a “eficácia” das Leis do trânsito...

Tem também o caso (lê-se quêize) do missionário R.R. Soares que, para quem não sabe, é natural aqui de Muniz Freire. Esse sim um capixaba famoso e um verdadeiro inovador. Outro dia estava convencendo os fiéis a assinaram uma TV a Cabo de sua igreja “em nome de Jesus de Nazareth”, Love Hurts (Sic.). Outra inovação desse epíteto estrambótico foi a cobrança do dízimo com “débito automático”... E pensar que os “protestantes” bateram de frente com a Igreja Católica por causa das indulgências...

Uma utopia realista (Gabriel Cohn)

Filósofo alemão revaloriza a prática política na Europa e resiste a toda sedução de concentrar o foco na economia

Jürgen Habermas é conhecido como autor caudaloso, que, uma vez posto em movimento, nada pode deter. Mas aqui, neste pequeno volume, é diferente. Nele encontramos dois ensaios, relativamente independentes (que podem ser lidos separadamente, embora se apresentem como formando um só). O livro pode ser lido como uma espécie de condensação da longa reflexão do autor, na sua incessante busca do entrelaçamento das grandes questões do dia com o universo conceitual que lhes possa conferir sentido, no pensamento e na ação.

Mesmo aqueles que em algum momento tenham sentido uma ponta de impaciência com as idas e vindas de um pensamento que se questiona sem descanso e não oferece atalhos, esse livro é precioso. É verdade que uma leitura mais cuidadosa poderá detectar sinais inquietantes na combinação dos dois ensaios, como faz na sua apresentação Alessandro Pinzani - ele próprio autor de importante livro sobre o conjunto da obra de Habermas. Pinzani sugere a possibilidade de que, nesses trabalhos recentes (do alto dos seus oitenta e tantos anos) Habermas tenha recuado em relação à sua fundamental ênfase numa razão discursiva que, no âmbito da política, se realiza dispensando quaisquer fundamentos e impondo todo o peso da legitimação democrática (a única que importa) à livre deliberação racional. Esse recuo se daria no papel que Habermas atribui à dignidade como categoria que precede os direitos humanos, ao lhes garantir uma referência universal. Significaria isso uma âncora fixa, que acaba amarrando o intercâmbio discursivo e funcionando como fundamento normativo dos direitos (o que Habermas sempre quis evitar, ao concentrar a atenção em processos e procedimentos)? Esse cuidado, na própria apresentação, em fazer o que Habermas tanto aprecia, ou seja, debater, mostra quanto essa edição brasileira é séria. Não é pouca coisa, aliás, que três dos quatro integrantes da comissão encarregada pela editora da Unesp do grande projeto de edição integral da obra de Habermas num padrão exigente de qualidade assinem a tradução; ainda mais sendo todos eles representativos de uma nova geração de estudiosos dessa obra no Brasil.

Na concepção de Habermas a dignidade relaciona-se com os direitos de maneira "genealógica". Ou seja, não como fundamento, mas como a "fonte moral da qual os direitos fundamentais extraem os seus conteúdos". A partir dessa posição básica torna-se possível a construção de uma "utopia concreta" dotada de conteúdo político. "A perspectiva de uma sociedade mundial constituída politicamente perde algo de sua aparência de utopia quando nos lembramos que, há poucas décadas, a retórica e a política dos direitos humanos desenvolveram efetivamente uma eficácia global", sustenta ele, para concluir: "Essa pretensão cosmopolita significa que o papel dos direitos humanos não pode se esgotar na crítica moral das relações injustas de uma sociedade mundial altamente estratificada. Os direitos humanos dependem de sua incorporação institucional em uma sociedade mundial constituída politicamente". Este é o ponto, é aqui que se manifesta o cerne da sua posição. Consiste ele em buscar a fonte das exigências efetivas de direitos na ligação entre direitos e moral mediante a exigência matriz de dignidade, para dar sentido à ligação entre direitos e política mediante novas formas de legitimação no único âmbito possível: o da constituição (em ambos os sentidos) de uma democracia transnacional com ímpeto cosmopolita. "A tensão entre ideia e realidade que com a positivação dos direitos humanos se introduziu na própria realidade nos confronta hoje com a exigência de pensar e agir de modo realista, sem trair o impulso utópico. Mas essa ambivalência pode nos levar muito facilmente à tentativa de ou assumir uma posição idealista, mas desvinculada, a favor do conteúdo moral transcendente, ou adotar a pose cínica dos assim chamados realistas". O resultado é uma posição que valoriza a prática política e resiste a toda sedução, afirmativa ou não, a concentrar o foco na economia. Falando dos estragos causados pelo capital financeiro, ele não permite dúvidas: "A política se torna irrisória se ela moraliza em vez de apoiar-se no direito de coerção do legislador democrático. Ela, e não o capitalismo, é responsável pela orientação do bem comum".

Eis, portanto, um livro no qual se articulam dois temas de eminente atualidade. Por um lado, a questão que se reacende no debate brasileiro, sobre os direitos fundamentais, suas perspectivas, seus riscos e os efeitos das suas violações; pelo outro, a questão da constituição/configuração da Europa no momento em que o projeto da união européia faz água por todos os cantos, mas se impõe como grande experiência histórica (de "aprendizado", lembra Habermas).

Habermas escreve para remover o "bloqueio mental que impede olhar para a frente". Não é possível ficar indiferente ao esforço desse pensador intrépido que, embora temperado por todas as cautelas críticas, não consegue resistir ao papel que escolheu, de ser um iluminista à altura do nosso tempo.)

FONTE: ALIÁS / O ESTADO DE S. PAULO (02/09/12)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Lula, os dragões e o poder dos fracos (Roberto Da Matta)

Um imperador chinês adorava dragões. Colecionava suas imagens e os reverenciava. Os dragões, que ocupavam o lugar mais alto na hierarquia dos animais na China e eram associados ao próprio imperador - a palavra dragão em chinês produz o som do trovão -, ficaram felizes quando, nas montanhas onde viviam exilados, souberam que ele os admirava. Rompendo o confinamento, eles resolveram visitá-lo. Desajeitados, rastejaram, galoparam e voaram para o palácio imperial. Foram recebidos com insultos. O imperador até tentou encarar a visita como uma cortesia. Mas, quando se viu diante daqueles bichos escamosos e fedorentos, que, enquanto falavam, provocavam labaredas que queimavam plantações, deixou de lado a admiração que sentia e os expulsou do palácio.

Ouvi essa história de um cientista político chinês, durante uma palestra numa universidade americana. Como se sabe, disse com ironia o colega chinês, todo mundo ama e admira a democracia desde que ela, como os dragões, permaneça nas montanhas. Quando a democracia chega cuspindo o fogo da liberdade -com seu poder de reduzir ricos e pobres, fracos e fortes à igualdade perante seus poderes -, há em toda parte uma forte reação. Hoje, os dragões são bons símbolos das confusões permanentes da competição eleitoral e da igualdade de todos perante as leis, porque a vida numa democracia liberal é tão complexa e difícil quanto a desses seres que, de repente, podem botar fogo pela boca.

Como domesticar os dragões no caso de países como o Brasil? Aqui, eles correspondem não ao ideal de democracia, mas a outra idealização: a enorme diferença entre o que se diz e o que se faz com nossos companheiros e com nosso partido quando chegamos ao poder. Aí está o mensalão, armado por aficionados desses monstros, que não me deixa mentir. O dragão pergunta: será que o voto deve ter o mesmo valor para todos? Se sabemos a solução para os problemas do Brasil, não seria legítimo comprar votos e políticos, e até mesmo partidos inteiros - para permanecer no poder resolvendo, a nosso modo, os problemas do povo brasileiro? Não se trata de tomar partido, trata-se de condescender com a desonestidade como um meio para permanecer no poder.

Lula, sem sombra de dúvida, foi o político simbolicamente mais forte da história do Brasil. Ele não precisava adorar dragões, porque dentro dele conviviam o dragão da miséria, da fome, do abandono e da pobreza, com todos os seus terríveis coadjuvantes. Jamais se viu um presidente ou líder político com tanto poder de aglutinação simbólica como Lula. Ele atraía os ricos pela culpa e pelas novas oportunidades de ganhar dinheiro com - e não contra - os trabalhadores sindicalizados; era amado pelos subordinados e ressentidos; era incensado pelos intelectuais - sobretudo os chegados a um despotismozinho inocente -, porque, como Platão, supunham que ele poderia ser educado ou convertido; era idolatrado pelos fanáticos pelo poder porque, com Lula, algo novo ocorreria com seus donos. E, finalmente, Lula dragava na sua figura os cristãos porque, nascido no centro da opressão, ele sofreu, mas não desistiu.

Sua fala repleta de erros crassos de português e de imagens simplórias não era, como pensavam os letrados, um demérito. Era o mais sincero testemunho de sua origem popular, porque essa fala confirmava o "pobre" iletrado (e explorado) no papel do presidente que pode tudo. Lula foi premiado com a Presidência por suas virtudes e por algo que a teoria política burguesa dos Hobbes, Rousseaus, Lockes e Mills jamais perceberam: aquilo que alguns antropólogos chamaram de "poder dos fracos". O poder dos miseráveis nas sociedades intransigentemente desiguais, como a nossa, que tem a ilegítima legitimidade de transformar o assalto à mão armada em distribuição de renda. Esse poder dos fracos é o velho poder das ciganas que vivem miseravelmente no presente, mas predizem o futuro. Lula foi a imagem da redenção do Brasil pelo Brasil.

Nem a Revolução Francesa, nem a Russa, nem a Americana tiveram um ator com tais atributos. Pois Lula é a metáfora viva do que uma democracia pode fazer e do que só pode ser feito numa democracia construída por meio de uma imprensa livre e da competição eleitoral. Nas revoluções que romperam as realezas e inauguraram a democracia como uma forma de vida, esse dragão feio, imperfeito, inclassificável - porque é ave, réptil e é também um mamífero -, não há nenhum líder como Lula. A Revolução Gloriosa e a Francesa foram feitas por pensadores burgueses. Nem mesmo Mandela, negro e advogado, se iguala a ele. Nenhum deles veio tão de baixo - nem mesmo na Revolução Americana, onde se fundou a primeira sociedade civicamente igualitária do planeta, como tão bem percebeu um deslumbrado Alexis de Tocqueville.

Medir o que Lula representa simbolicamente é mais fácil hoje porque o tempo e a vida - e, mais que isso, a presença do petismo nas engrenagens paradoxais do poder - revelaram, logo no primeiro governo, a impossibilidade de seguir à risca o projeto ideológico de permanência, hoje em julgamento pelo Superior Tribunal Federal. Lula perdeu parte de sua atração ideológica quando se filiou ao projeto brasileiro perene de manter nossas desigualdades confiando ao Estado (não à sociedade) seu projeto de revolução. E tome roubo e recursos públicos, e tome funcionalismo acima das leis.

Está Lula hoje, como um ex-presidente profissional que sabe como ninguém jogar com a dramaticidade de sua trajetória e com os anseios messiânicos do povo brasileiro, ainda desejoso de ter um dragão que tudo resolva? É certo que Lula tem um papel ímpar no processo político nacional. Mas também é seguro que ele não goza mais aquela ausência de verniz que o cobria como um presidente messias - um pobre governando os pobres. A aura de pureza e de inocência dos fracos e destituídos desmanchou-se diante da fieira de roubalheiras que é parte de sua era.

As eleições são o teste. Veremos se Lula continua com o mesmo poder de transferir carisma ou se o desfrute do poder concreto tem mesmo a capacidade destrutiva de transformar dragões em lagartos. Quem viver verá. E quem viver também verá se ainda precisamos de messias populistas que são pais (e mães) do povo - ou se começamos a exigir um estilo de governo mais impessoal, menos mendaz, mais democrático, que gerencia em nome do povo o que só a ele pertence.

FONTE: REVISTA ÉPOCA