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quinta-feira, 9 de abril de 2020

Quarentena de votos (Rosângela Bittar )


Jair Bolsonaro nutre profunda descrença pela ciência. Ou, talvez, não faça a mais pálida ideia do que seja. Como, por sinal, demonstrou na formação do governo, ao chamar um astronauta para conduzi-la, refletindo, com isso, sua visão sobre a órbita da pesquisa e da inovação no Brasil.
Mas há uma ciência a que dá ouvidos: a da análise aritmética das pesquisas de opinião. Entre estas e o avassalador ciclo da pandemia que assombra o mundo, sua opção foi ignorar urbi et orbi, até relevar os pitos que tomou das autoridades mundiais, para escolher o que lhe interessa de verdade, a campanha da reeleição.
A rota de fim do mundo que a covid-19 sugere não é problema para o presidente. Bolsonaro, à vontade como um médico que não é, até receitou remédio, de eficácia duvidosa e efeito colateral certeiro, desafiando a doença. Também pediu conformismo diante das estatísticas da morte, já que, na sua lógica displicente, todos morreremos um dia. Limitou a estas suas considerações.
A ciência da pesquisa de opinião pública, ao contrário, é levada a sério. Com ela acionou a luz vermelha da sala de onde, no Planalto, se detonam os discursos, tuítes e decisões que agridem o bom senso em qualquer idioma. De lá saíram recomendações, como as de iniciar uma cruzada contra o distanciamento social que previne o contágio da doença, criar um contraponto a ela com a derrocada da economia, insuflar o comércio a abrir suas portas a pretexto de garantir o emprego.
Enquetes de março estão lhe dizendo que sua popularidade não sofreu abalo significativo a ponto de comprometer a reeleição, mas o mesmo benefício da dúvida não foi dado à atuação na economia. Esta avaliação piorou de uma maneira consistente.
É a informação mais importante que se pode extrair dos números levantados em plena crise. Pesquisa Ipespe para a XP, por exemplo, aponta inversão da curva na economia: antes, 48% diziam que o governo estava no caminho certo e 38% no caminho errado. Agora, 48% acham que está no caminho errado. Outra má notícia para Bolsonaro é a opinião sobre quem é o responsável pela situação econômica ruim. Antes, 3% atribuíam responsabilidade a ele. Agora, já são 17%. Foi a partir disso que o presidente, debilitado por um PIB em decomposição, ficou mais nervoso e desembestou.
O costume de transferir a culpa do mal para o Congresso, a imprensa e opositores políticos, e do bem para si próprio, não funciona na aflição aguda. Não há como fugir nem fingir: o governo federal é o responsável pelas ações para combater os dois maiores medos da população, hoje. A morte e, para quem escapar, o desemprego.
A economia, sabe o candidato, será determinante, principalmente para quem pede ao eleitorado o voto da reeleição. O agravamento da pandemia, somado à imprudente mistura do risco suicida no enfrentamento da peste à campanha eleitoral, produz um Bolsonaro sem rumo, na colheita dos resultados de sua desorientação.
Os que poderiam enfrentá-lo desapareceram na crise. Paulo Guedes acredita na ciência, está de quarentena. Sérgio Moro resolveu impermeabilizar as fronteiras. O PT se escondeu da crise, ou talvez já não exista mais. A hipótese Luciano Huck, forte em dezembro e janeiro, arrefeceu, talvez para evitar contágio eleitoral das posições polêmicas de alguns próximos.
MDB e PSDB não devem ser subestimados, já derrubaram dois presidentes e, no momento, procuram uma saída, com discrição, mas não têm nomes disponíveis. Ciro Gomes apareceu assinando um manifesto ao modelo estudantil, que não leva a nada. Só o general Hamilton Mourão e o governador João Doria, dos candidatos já conhecidos, usam as chances de enfrentar o desvario do presidente. Doria, porém, tem tarefa mais séria e árdua a cumprir no auge da crise que tem epicentro no Estado que governa.
O Estado de S.Paulo/1 de abril de 2020

domingo, 21 de outubro de 2018

Concepção política do governo Bolsonaro (Rosângela Bittar)

A concepção política de um governo Jair Bolsonaro, em fase de formulação, segue a seguinte fórmula: "Será um governo baseado em aliança de centro-direita, que vai resgatar a dívida social pelo fortalecimento da economia de mercado", diz uma fonte ligada ao candidato líder na preferência do eleitorado.
O que isso significa, concretamente?
Significa aproveitar politicamente essa grande maioria que chegará ao Congresso, de tendência de centro-direita, para fazer tramitar os projetos mais urgentes, respeitando a manifestação de preferência do eleitorado por um tipo de relação mais avançada com deputados e senadores.
A primeira aposta dos políticos da campanha é na guilhotina da cláusula de barreira, que ocorrerá no ano que vem. O PSL, com 56 deputados, é o segundo da Câmara mas poderá passar a ser o primeiro recebendo filiações do PRP, do Avante, do PRTB e até de alguns partidos da esquerda mais leves que também ficarão pelo caminho a partir de fevereiro, como o Rede, por exemplo. O PCdoB, o PCO, o PSTU também não cumpriram as exigências da lei eleitoral, mas esses dificilmente deixarão de fazer oposição ao novo na bancada da esquerda.
São 14 os partidos que deixarão de ter existência parlamentar e, portanto, ficarão sem fundo partidário no período de 2019 a 2023, e sem acesso ao tempo gratuito de propaganda. Muitos, para sobreviver, devem ingressar em outras agremiações e, sendo o partido do presidente, o PSL deve ser um porto natural para um grande contingente de desabrigados.
Mas o PSL, sozinho, mesmo turbinado, não pode fazer muito. Há outros instrumentos nesse método em gestação. Argumenta-se, na campanha, que há vários governos o partido do presidente da República não faz mais que 20% do Congresso, daí a necessidade de adotar o presidencialismo de coalizão que, no Brasil, transformou-se em cooptação, em negociação de cargos, emendas, verbas e outras trocas do mesmo caráter.
Jair Bolsonaro terá que negociar com outros partidos para formar a aliança de centro-direita. Seu ministro da coordenação política, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) já está começando as conversas. Não se vai fugir desse tipo de negociação. O que deve mudar é a forma, o conteúdo e a relação.
A eleição deu ao Congresso um conteúdo político-ideológico nítido e, ficou evidente, mais permeável a um governo Bolsonaro do que eventualmente a um governo do PT, argumentam políticos que darão assessoria ao futuro governo.
Várias previsões de analistas políticos não se realizaram, entre elas a assertiva de que, donos do dinheiro do fundo partidário, os caciques dos partidos, a cúpula que se eterniza no poder de cada sigla, dariam as cartas da eleição, repassando mais dinheiro para os seus candidatos favoritos. O PSL elegeu 56 deputados e não tinha dinheiro nem seu presidente tinha visibilidade ou força para distribuir qualquer coisa.
Imaginava-se inquestionável o poder de Roberto Jefferson (PTB), de Valdemar da Costa Neto (PR), de Romero Jucá (PMDB), de Ciro Nogueira (PP) e tantos outros dirigentes nacionais. O modelo que se discute agora, pelos políticos que fazem a concepção do governo Bolsonaro, é uma negociação não com os partidos na "vertical", mas com os partidos na "horizontal", as frentes parlamentares temáticas.
A Frente da Agricultura, por exemplo, já derrubou um ministro antes mesmo de ser nomeado, não quer Luiz Antonio Nabhan Garcia e vai indicar outro se Bolsonaro vencer as eleições. Os evangélicos e a bancada da bala, a aliada mais natural entre todas, terão interlocução privilegiada em tudo. E, afirma-se, a bancada do funcionalismo público tem também nichos para Bolsonaro, por exemplo, os deputados e senadores com patentes militares, com títulos da polícia, oriundos da carreira do Ministério Público e outras categorias de controle, todos nesse novo clima centro-direita do país.
Segundo as fontes com acesso às discussões do governo Bolsonaro, o clamor das ruas retratado nas urnas não é bom para as cúpulas partidárias. A relação com o Parlamento, em princípio, será com as frentes, embora não se vá desconhecer os partidos e seus caciques.
Outro ângulo da composição da aliança vai depender também de uma travessia da fase que tem sido chamada de "extrema adrenalina dos novatos". Um parlamentar do PSL, do Novo, ou mesmo de velho partido, eleito pela primeira vez na vida e logo a deputado federal, vai chegar a Brasília imbuido de uma autoimportância que transparecerá. Pode exigir mundos e fundos, até mesmo a presidência da Câmara e presidência do Senado. É preciso deixar a realidade se impor.
O baixo clero, do qual também fazia parte o próprio Onyx, vai querer se colocar e, quem sabe, até, não se vingar dos maus tratos, mas o equilibrio virá, é como se vê o modelo na campanha de Bolsonaro.
Mesmo com uma negociação assim definida, Bolsonaro não deixará de fazer nomeações com base em indicações políticas. A renovação não foi total, os experientes no ofício não nasceram ontem e vão valorizar-se. Mas não serão poucas as áreas inegociáveis, para as quais o presidente terá uma estratégia específica.
Por exemplo, o Ministério da Defesa. É um cargo que Bolsonaro guarda para o general Augusto Heleno, não porque ele seja um especialista em tecnologia de armamentos. Apesar de ter perfil no grupo mais próximo para ocupar posto mais elevado, foi escolhido para a Defesa porque vai desempenhar um papel muito mais importante.
Fontes do futuro governo, se Bolsonaro vencer, informam que o general Heleno foi escolhido porque "tem autoridade moral para dentro". Como os militares vão sentir-se com muito poder, tal como os deputados do PSL, é necessário alguém com bom diálogo na tropa e muito equilibrio para evitar repetições de episódios desagradáveis para o governo, como foram as declarações do general Mourão, candidato a vice-presidente de Bolsonaro, para a campanha.
Valor Econômico
17 de outubro de 2018

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Urgência e simbolismo (Rosângela Bittar)

• O Ministério da Cultura era o maior aparelho do governo
Desde logo é bom sublinhar a incompreensão dos que, munidos de um receituário de governos formalmente constituídos, com seus prazos normais de montagem, exigem, do governo Michel Temer, acerto nas escolhas e resultados imediatos. Este é um governo de emergência, de salvação nacional, de soluções urgentes, destinado a fazer o gigante Brasil respirar mesmo que com a ajuda de aparelhos. Construção essa que já fez bonito, mas muito mesmo, ao formular um critério útil e objetivo para a composição do Ministério: a de fazer uma montagem necessária a ter o Congresso como aliado e aprovar instrumentos e remédios adequados. Portanto, o governo teria que ser, e foi, composto pelos partidos, com o compromisso das cúpulas e bancadas nesse Tour de Force da responsabilidade para levantar do chão.
Não é, ao contrário do que diz a propaganda negativa, "mais do mesmo". Não houve esse "mesmo". O governo Dilma Rousseff não governou porque não aprovou seu projeto em um Congresso de quadro partidário múltiplo e disforme na composição de sua base. Não fez um governo com os partidos, embora tivessem partido deles alguns ministros, mas houve sempre a aposta na divisão partidária, na representação fragmentada. Vai-se tentar, agora, fazer funcionar a coalizão.
Foi a formulação que se conseguiu fazer, na emergência, e era adequada aos fins. Não havia chance para elocubrações, respeito a simbolismos como as tão faladas questões de gênero, como é mais prudente definir. Um Ministério sem mulheres, negros, índios e outras minorias não foi sequer pensado. Se algum partido tivesse indicado uma mulher seria um lembrete da existência desse problema, mas ninguém indicou. Até que mulheres havia, por acaso, mas não foram mencionadas nem nas justificativas. A secretária Executiva do MEC, Maria Helena Guimarães, que deve ser mais ministra que o ministro, já estava empossada, bem como outras, mas ninguém se lembrou, evidenciando-se a ausência de ministras, pródigas no governo Dilma.
O governo deu as mais esfarrapadas desculpas, mas foi distração mesmo, isso não era uma preocupação. Teve a coragem de fazer a autocrítica (como havia feito com outras distorções aprovadas no afogadilho) e quando resolveu corrigir, a posteriori, atendendo aos reclamos, veio logo com Maria Silvia Bastos Marques para o BNDES, espécie de divindade na gestão pública, saudada com pompa em todos os quadrantes.
A extinção do Ministério da Cultura, porém, feriu um simbolismo duramente conquistado. Mas pelo menos não foi por acaso, por desconhecimento, foi um ato consciente. Seguirá em processo de transformação em uma Secretaria de Cultura dentro do MEC, com direção politicamente forte. Como o ministério da Educação tem um orçamento significativo, é até possivel que projetos culturais contem com mais apoio. Mas não é disso que se trata. O desfazimento da estrutura é uma iniciativa tão drástica que só poderia ter uma razão prudente. E tem.
O Ministério da Cultura foi reduzido de caso pensado. Deram razão às autoridades que diagnosticaram o problema e sugeriram a transformação aqueles funcionários que, aos gritos de "ministro golpista", receberam o novo ministro da Educação e Cultura, que lá foi se apresentar acreditando que o fazia aos servidores públicos.
O governo já havia descoberto ali um bunker de resistência, uma central de alimentação das redes sociais que atuam em propaganda e campanha eleitoral, um arsenal de instrumentos de mobilização de agentes culturais e outros com objetivos partidários. Com Marta Suplicy o aparelho ficou contido; com Ana de Holanda foi um massacre sobre ela e o grupo que a derrubou não sossegou enquanto não promoveu a reocupação do espaço pelos petistas de rede e burocratas da cultura. Sob o amplo guarda-chuva de Juca Ferreira.
O governo Temer identificou o ministério como um aparelho, com incentivo dirigido e propagação da campanha do golpe. Dali partia um bombardeio contra a nascente gestão. Se a vocação do governo Temer era unificar o Brasil, o objetivo não seria atingido com uma tropa do contra radicada em área tão vital.
A vocação de hegemonia e totalitarismo, a serviço da apropriação do Estado, estava impregnada no Ministério da Cultura, concluiram os analistas do governo. Haverá enxugamento de cargos, revisão de contratos e até de empenhos. Quem sabe consiga o governo Temer criar as condições para retomar logo o simbolismo do Ministério da Cultura do ponto de onde foi interrompido.
fonte: Valor Econômico (18/05/16)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Realidade, adeus (Rosângela Bittar)

• (o artigo é da semana passada mas é uma leitura importante para entendermos como chegamos aonde chegamos)
Nestes cinco anos e meio de mandato de Dilma Roussef, especialmente de 2013 para cá, uma tropa de alerta, formada por dois ou três políticos aliados destemidos, agiu para tentar incorporar a realidade à vida da presidente. Por inúmeras vezes seus erros foram sublinhados, sem covardia. Os equívocos políticos da presidente, suas idiossincrasias que nunca quis enfrentar, o temperamento iracundo, a arrogância autoritária, traços aliados a uma ignorância de conteúdos, das relações políticas e da gestão necessários a presidir a República, permaneceram e fizeram do seu governo um tormento para todos.
Sem exceção para o ex-presidente Lula, para quem os anos Dilma não foram nada felizes. À parte a operação Lava-Jato que o fustiga e o pesado tratamento para resgatar a saúde, não se pode dizer que foi um período harmonioso na vida política do ex-presidente.
As relações dos políticos com Dilma, especialmente os do PT, e no partido notadamente com Lula, passaram por diferentes fases: desde o desdém, à organização de caravanas ao Instituto Lula com pedido de intervenção, passando por rebeliões de senadores, formação de grupo de deputados para o Volta, Lula, empresários e banqueiros em comitiva apelando ao criador para dar um jeito na criatura.
Quem não se lembra da tropa de escol em vilegiatura a São Paulo, integrada pelos senadores Renan Calheiros, Romero Jucá, Eunício Oliveira, suplicando a Lula por intervenção? De uma assembleia do agronegócio em Ribeirão Preto, onde soaram todos alarmes do assim não dá? Os sinais de deterioração, de perda de energia, foram visíveis nos últimos anos do primeiro mandato mas, no fim, quando se foi definir reeleição e o PMDB votou novamente a chapa da aliança, a perda de aderência já era total.
Em alguns momentos Dilma concordou fazer um gesto de recuo, sutil, mesmo que uma falsa aquiescência. Por várias vezes Lula ameaçava os queixosos com jogar a toalha.
Dilma tinha feito um primeiro mandato errático, a começar da faxina ministerial que atingiu os mais próximos do ex-presidente Lula, muitos dos quais recontratou depois ou buscou iguais no mesmo partido. A faxina não teve significado de depuração dos quadros políticos.
O ápice do desenlace de Dilma com a realidade do país e da vida se deu a partir dos movimentos de protesto de junho 2013, que ela não entendeu, achou que era contra os políticos e não contra ela, convocou um pacto em torno de cinco manjados pontos e acreditou que isso, com meia dúzia de filmetes de propaganda, resolveria a questão. Piorou.
A distância entre Dilma e a realidade foi se ampliando.
O período que vai dessa data à eleição de 2014, foi rampa de ladeira abaixo. O PT começou a dar sinais de impaciência com a demora da presidente a abrir o flanco para que Lula se candidatasse em seu lugar naquele ano. O sistema PT de governar, com muita propaganda, já não dava mais certo, e para funcionar na campanha eleitoral o partido teve que ultrapassar os limites.
De um lado, dizia-se que se o ex-presidente quisesse realmente voltar não teria constrangimento em pedir; de outro, Dilma agarrava-se com vigor ao cargo e à campanha, silenciando-se sobre a troca combinada. O grupo de Lula justificava o cuidado do ex-presidente. Ele não podia forçar "porque se ela fosse à TV e chorasse por haver sido removida da reeleição, a eleição dele estaria perdida".
Embora se tenha querido encontrar um padrinho para os erros crassos de Dilma -, honraria atribuída a Aluizio Mercadante, principal conselheiro da presidente nos seus anos de governo, a maioria dos equívocos são de sua autoria. Entre os movimentos de rua em 2013 e o sufrágio de 2014 Dilma andou às quedas, em curva descendente. Não teve energia para mudar a direção nem depois de reeleita. Ganhou, mas parecia haver perdido.
Seu discurso, anteontem, no Planalto, para estudantes e professores, foi um exemplo de traço forte da sua personalidade, a dissimulação. Dilma fingiu que não sabia da anulação da sessão da Câmara que aprovou a admissibilidade do impeachment e insinuou haver recebido a notícia, como todos, pelo celular, naquele instante. Pediu cautela nas comemorações, tendo em vista as "manhas e artimanhas" do processo. Ela conhecia a fragilidade da ação que, com seus assessores e amigos, o governo ajudou a preparar para mais uma chicana na disputa com o Congresso.
Em agosto de 2015, depois de meio ano de gestão sofrível no segundo mandato, sem conseguir engrenar nenhuma marcha, lhe foi jogada a boia das boias: Banqueiros, empresários, economistas, ministros, partidos, resolveram fazer uma concertação em apoio à presidente, para não deixar o país afundar de vez. Passaram a fazer viagens e reuniões com Dilma e seus ministros, a dar entrevistas para defender o governo. Em questão de dias a concertação desafinou. Dilma chegou a receber uns dois empresários, um ou dois banqueiros, fez uma concessão ao dar-lhes um ministro da Fazenda afinado com suas demandas, mas só no desenho. Do ministro tirou o tapete ao longo dos poucos meses em que ficou no cargo. A gestão da presidente estava claramente viúva de seu amigo Arno Augustin, que por anos cumpriu à risca suas determinações. O mesmo método usou com Michel Temer, a quem apelou para ser o articulador dos aliados nas votações das suas medidas de recuperação da economia, mas minou sua autoridade ao não entregar sua parte nos acordos.
As crises ocorreram sucessivamente e foram crescendo os protestos, os panelaços, a reação personificada em Dilma. A imagem de Lula foi caindo, a do PT foi ao chão. Dilma postou-se em um governo onde parecia nada ter a fazer, só discursos. Todos os seus gestos políticos foram atrapalhados, as crises voltavam a ela como bumerangue.
No fim do caminho, houve uma sucessão de desastres, entre eles a decisão de dar foro privilegiado a Lula para protegê-lo do juiz Sérgio Moro, uma decisão glosada pela Justiça.
Sem liderança política e sem experiência, Dilma procurou corrigir suas deficiências enfraquecendo os parceiros: Lula, PMDB, o lulismo petista, o Congresso. A guerrilha que arma para reverter o impeachment no julgamento definitivo no Senado pode dar todos os resultados pessoais a que ela almeja. Mas não tem a menor chance de restaurar seu governo. Dilma cavou seu revés. E ainda insufla, resiste, grita, clama ao exterior, pede um milagre. Que não vem.
Fonte: Valor Econômico (11/06/16)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Lula no espelho (Rosângela Bittar)



• É uma crise da elite do PT, não do Partido dos Trabalhadores

O PT vem se degradando, como o próprio partido demonstra quando se junta em congressos, reuniões e bancadas, fato já aqui exposto mais de uma vez. Mas não por ação dos seus quase 2 milhões de filiados, nem dos 50 milhões de eleitores que o seguem nas campanhas. Quando seu presidente de honra, o ex-presidente da República Lula da Silva lhe faz o ataque que fez em duas oportunidades nos últimos dias, está falando mais de si mesmo do que do partido.

Uma imagem criada pelo ex-deputado mineiro e sociólogo Paulo Delgado ilustra a representação das duas conversas desesperadas do ex-presidente, uma, em encontro com religiosos, na semana passada, e outra em seminário do instituto que leva seu nome, esta semana. "A fala do Lula me parece ter sido feita num quarto de espelhos".

Intelectual, estudioso do partido, ao qual vinculou seus mandatos eletivos e seu trabalho político, e do qual sempre teve uma avaliação crítica rigorosa, o sociólogo acabou criando uma referência para quem estranhou essas duas últimas reações de Lula.

O ex-presidente estaria realmente falando para si e sobre si mesmo numa iniciativa atabalhoada, ao seu estilo, porque está se vendo acossado.

Esta não é uma crise do PT, é uma crise da cúpula do PT, da sua direção, dos seus ocupantes de cargos eletivos e administrativos, dos que fizeram campanha eleitoral financiados com recursos agora sob suspeição de desvios dos cofres públicos.

São 1.586.362 filiados ao PT.

Se forem somados à presidente da República e ao ex-presidente da República os 66 deputados federais, 14 senadores, 20 ministros, 619 prefeitos, 5 governadores, não se atinge mil no que se poderia considerar direção, cúpula, comando. A crise está na elite partidária.

O ex-presidente tentou preservar-se, ficar fora do grupo que vem sendo atingido por denúncias há 12 anos, mas está vendo que os grandes escudos caíram e sua figura se aproximou do alvo.

Tal situação se coloca num momento dramático, em que o partido, a presidente no cargo e o ex-presidente chefiando uma espécie de governo paralelo no seu instituto, perderam o amálgama e, junto com ele, o elã para governar, para atuarem em conjunto, para serem um só projeto.

Há, nas duas manifestações de Lula, um claro desrespeito com todos. Como sempre. Antes, era seu jeito. Agora a intolerância ao estilo se manifesta sem pudor.

Seus adversários internos no partido, também da elite, estão todos no governo Dilma, especialmente as correntes DS e mensagem, que não têm preocupações com o exercício da solidariedade.

No domingo, Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul, agora um político tentando se plantar no Rio, falou a "O Globo" sem prestar reverência alguma a Lula; no mesmo dia, Jaques Wagner, ministro da Defesa, falou ao "Correio Braziliense", também sem referência e ambos trataram apenas de PT. No governo pontificam Aloizio Mercadante e Ricardo Berzoini, ministros fortes por ele marcados como aloprados, pecha que jamais os abalou. José Eduardo Cardozo, da Justiça, está fora do seu grupo e criticado por ele, agora, principalmente pela atuação da Polícia Federal.

O Instituto Lula virou praticamente um partido, e na contabilidade desse partido, presidido por Paulo Okamotto, a PF sequer sofreu contingenciamento de verbas para não ser tolhida na sua capacidade de ação. Ação contra o ex-presidente, subentende-se. Miguel Rossetto é do grupo mais à esquerda e possivelmente o mais distante de Lula entre os integrantes da elite partidária com lugar cativo à direita presidencial.

O governo vai mal, Dilma parece ter perdido substância. Mas o governo paralelo de Lula também vai mal, sem deixar muito claro ainda porque. Quem vai menos mal é o PT. A tática do ex-presidente Lula é não admitir que a crise seja da elite. Mas não há 2 milhões de petistas em crise.

Lula, como Dilma e políticos petistas da elite, resistem a aceitar a ideia do erro. Mas a crise é deles.

Esta semana surgiram informações de que o ex-presidente teria conversado com velhos amigos da Igreja, frades conhecidos e com credibilidade, que o teriam aconselhado a se acalmar, se desculpar, pois o brasileiro teria capacidade de perdoar.

O atual mea culpa de Lula, se é que se pode caracterizar assim suas manifestações, pode ser uma resposta a esses conselhos. Seria reconhecimento do erro dizer que ele próprio está no volume morto, mas jogando a presidente Dilma e o partido no mesmo lamaçal? Seria pedir perdão dizer que o partido quer cargos, quer mandatos, e que precisa se distanciar do poder? Lá isso é pedido de desculpa? Não seria Lula quem quer tudo isso?

Se for esse o ato de contrição, está inadequado. Ele agravou a situação da presidente Dilma para desagravar a sua.

Admita-se que o recado contido nas duas manifestações seja um pedido de desculpas no momento em que a desconstrução do seu governo o vai demolindo mais do que tem demolido o governo Dilma.

Há, porém, descrentes contumazes, para os quais os dois discursos da semana já fazem parte do arsenal Lula 2018. O ex-presidente estaria montando o palanque, o velho apelo da vítima, com a tentativa de desvincular-se do enorme desgaste partidário para iniciar a sua nova corrida eleitoral. A ideia seria, primeiro, testar sua invencibilidade, depois testar o discurso. O autoflagelo é recurso do seu arsenal eleitoral, agora em nova construção.

Os senadores do PT entraram nessa e divulgaram ontem uma nota de solidariedade a Lula, como se ele estivesse sendo atacado e não atacando. O governo não reagiu. Dilma fez uma brincadeira sobre o assunto com a imprensa. E o presidente do PT, Rui Falcão, mistério em pessoa, não teve opinião. Esse foi o saldo do primeiro dia após a nova tática exibida no picadeiro.

O volume morto, expressão que o ex-presidente aprendeu, junto com o resto do Brasil, por causa da seca na Cantareira, e estava demorando a usar, veio à cena para aliviar, dar um charme à sua autocrítica. A presidente Dilma, realmente, pode estar no volume morto, com um governo em extrema dificuldade, com os indicadores da economia e da política, ao mesmo tempo, péssimos, pouca criatividade, pouca iniciativa, pouca capacidade gerencial. Mas Lula, não. O que se vê, ao seu redor, não é seca, é abundância.

Valor Econômico (24/06/15)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Melancolia (Rosângela Bittar)




Expectativa maior, não havia, e portanto os nativos não ficaram frustrados. Mas quem reparou pela fresta, mesmo alertado para o fato de que o congresso do PT na Bahia rendeu apenas o que se esperava que fosse render, ou seja, nada, deixou emergir o sentimento de oportunidade perdida. O partido não saiu do lugar, não sacudiu a poeira, não deu a volta por cima, não se reinventou, não criou instrumentos que possam remeter sua militância à conservação do poder no futuro.

O PT chegou à reunião máxima da sigla totalmente destruído e dela saiu igualmente estraçalhado. O que mais chamou a atenção foi a evidência de que não há uma só ideia nova, uma bandeira atraente, um líder político que proponha uma saída que não seja pela propaganda, uma dose de emoção.

Seus intelectuais, os acadêmicos que sustentam suas teses, os estudiosos que criam novas maneiras de justificar o injustificável, hibernaram. Dizem que estão fazendo esses estudos no escurinho do instituto de estudos partidários, mas a discrição é regra. O que se tem notícia de lá, porém, são estudos sobre tudo, do desemprego à venda no varejo, mas nada sobre o resgate partidário.

Os políticos que foram à Bahia contiveram-se nas suas velhas idiossincrasias. O imposto novo a cobrar dos ricos é o velho imposto sobre grandes fortunas; a taxa nova a cobrar da classe média é a velha CPMF. A modernidade, a inovação, os novos pensamentos, marcaram ausência.

O congresso do PT não apontou rumos. E para não dizer que a palavra símbolo do encontro foi o não, que imobilizou o partido, faça-se constar que o nivelamento do ex-presidente Lula e antigo líder carismático aos sentimentos de derrota do conjunto foi uma novidade.

Antes, quando tudo ameaçava ruir, invocava-se Lula, que seria então o candidato a comandar as massas, que manteria o poder do partido, que não se deixaria atingir. O congresso mostrou que Lula não é mais o mesmo. A simples convocação para depor à CPI da Petrobras de Paulo Okamotto, o número dois do instituto que leva seu nome, sócio no negócio de palestras nacionais e internacionais, pego justificando com uma argumentação inacreditável os pagamentos recebidos de empreiteiras envolvidas em investigações da polícia, tirou o chão do ex-presidente e o fez passar um recibo público por intermédio da repreensão às bancadas na Câmara e no Senado.

O congresso foi realizado no momento em que havia mais de um ano de investigações da Operação Lava-Jato, que vitimou o coração e o bolso do partido: seu tesoureiro e membro da Executiva Nacional está preso. As bancadas advertidas pelo líder maior da sigla, mostrando sua nova fraqueza. A militância imobilizada, sem responder aos apelos como o fazia antes, porque tolhida. Sequer pode criticar o governo como gostaria.

Também não deu para correr para o ombro presidencial, que também vai mal e está sem condições de arregimentar socorro. A presidente Dilma falou por quase uma hora sem ser ouvida. Alguns saíram, outros se refestelaram no chão, e muitos aumentaram o tom da conversa.

Proibida de atacar a política de ajuste fiscal do governo, a contenção de gastos e os sacrifícios exigidos agora dos seus eleitores para corrigir erros do passado, a militância foi recuando, afinou a voz e acabou em críticas apenas sussurradas.

Mas a perplexidade chegou mesmo com o fato de que os maus augúrios bateram em Lula. Esse o fato novo a registrar, a ameaça concreta de perda de poder, o medo.

A direção do partido, da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB) desmobilizou a elaboração de documentos e cartas críticas de recomendação da reunião dos petistas, e também foi criticada.

As bancadas na Câmara e no Senado foram desqualificadas, não só por haverem cochilado na convocação de Okamotto, mas também por não estarem reagindo ao cerco ao partido, cada um cuidando do seu mandato e deixando para voltar-se ao PT mais perto das eleições, quando, segundo as ácidas referências do congresso, precisam de dinheiro. As eleições, sim, especialmente as municipais, ainda mobilizam grupos que pretendem se candidatar às prefeituras e realizam movimentos de deserção, ainda preliminares, a serem concluídos em fins de setembro.

O congresso não foi um marco da virada, e ainda permitiu que se notasse a ausência de um, dois ou três líderes, como já houve no PT, que apontassem a estratégia rumo ao futuro.

Lula está preocupado, muito preocupado, com a percepção de que não é mais impermeável às denúncias e críticas. Está sentindo o aperto, inclusive nas pesquisas internas, que comprovam terem o caso Petrobras e as dificuldades do governo Dilma atingido em cheio suas pretensões de voltar a candidatar-se a presidente. Antes, o PT corria para o alto Lula, agora, neste novo momento de adversidade, Lula corre para o baixo PT.

Fonte: Valor Econômico (17/06/15)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ao gosto do freguês (Rosângela Bittar)


O objetivo, hoje, é fazer acreditar em vitória no 1º turno

Na entrevista com que brindou a imprensa para oferecer-lhe os resultados de uma pesquisa que encomendou ao MDA, instituto do qual é cliente, o presidente da Confederação Nacional dos Transportes, senador Clésio Andrade (PMDB-MG), apresentou uma coleção completa das distorções que têm solapado a credibilidde das pesquisas eleitorais no Brasil. Desconsiderou a candidatura do ex-governador José Serra (PSDB), decidindo por convicção pessoal que ele não será candidato; duvidou da candidatura Eduardo Campos (PSB), afirmando que ele próprio já disse (ele nega) que não sabe se será candidato ou se a candidata será Marina Silva; e ousou fazer uma distribuição discricionária dos benefícios de programas e dos votos de Marina entre os candidatos, pela qual Dilma Rousseff (PT) herda a maior parte.

Nada desse festival de arbítrio teve sua razão explicada. Desenhou os cenários que quis para o trabalho do instituto do qual é cliente e parceiro, e analisou os dados também como se analista de pesquisa fosse, sem ressalvas.

Clésio é integrante da base de apoio à reeleição da candidata líder, Dilma Rousseff, e dá a opinião que quiser sobre os resultados de pesquisas, encomendadas por ele ou não, por outros políticos do seu grupo e de sua aliança eleitoral, tenham que objetivos tiverem. Cabe à imprensa, porém, que tem responsabilidade com a informação, não tomar suas opiniões como se ciência fossem, porque não são.

Uma pesquisa como essa, além de outras feitas a soldo de clientes engajados, eles próprios candidatos ou com um objetivo de fortalecimento do seu poder dentro da aliança, ou de partidos políticos, perde em capacidade de projetar o que vai ocorrer mais adiante, no futuro próximo, uma das principais finalidades, se não a principal, de pesquisas eleitorais nesse momento, para referência do eleitor.

É um desvirtuamento decorrente do rei dos equívocos, que é a dupla militância do instituto de pesquisa, que trabalha para partidos, candidatos, organizações representativas de grupos, interessados em eleger determinados políticos. Com a exceção conhecida, no Brasil, do Datafolha, que não trabalha para partidos e candidatos. O país partiu para mais uma campanha eleitoral sem ter superado a distorção.

Está claro que as pesquisas de agora, tendo como cliente o governo, ou o PT, ou seus partidos coligados, têm um objetivo às vezes até declarados. Sua batalha do momento é fazer crer que a candidata Dilma Rousseff vai vencer no primeiro turno. Não para forçar de verdade a vitória no primeiro turno, isto ainda é uma questão da estratégia da campanha no ano que vem. Mas para ter efeito em uma ação que se desenrola agora: a negociação das alianças nos Estados. Destinam-se a criar um clima que facilite a montagem dos palanques estaduais.

Assim, é compreensível que os clientes de pesquisas definam as perguntas do questionário e analisem os dados como lhes aprouver tendo em vista o objetivo do momento da campanha, que é esse da vitória no primeiro turno. Mas é também nítido que a imprensa não deve tomar a iniciativa partidária como verdade científica.

Por exemplo, um dado que retrataria bem a realidade do momento e que está sendo omitido de pesquisa divulgada, talvez porque não interesse ao freguês, é que, quando apresentado o candidato e seu principal apoiador, como se fossem uma chapa, o resultado muda totalmente o quadro eleitoral: Dilma-Lula, Eduardo-Marina, Aécio-Fernando Henrique. Fica evidente, segundo quem conhece os dados, a transferência de votos de Marina para Eduardo, reduzindo a diferença entre ele e a candidatura líder e definindo o segundo turno entre os dois. O que, evidentemente, não interessa a quem quer fazer crer que tudo será liquidado no primeiro turno nem a quem ficaria de fora do segundo.

No lusco-fusco dos dados o MDA mostrou dados de pesquisa anterior sobre para quem iriam os votos de Marina: 7% para Dilma, 4% para Aécio, 4% para Eduardo Campos, 5% para brancos e nulos e 2% para indecisos. Diante da pergunta sobre a ausência de tão precisa distribuição do texto por escrito com os dados da pequisa, o repórter Fábio Brandt, do Valor, ouviu que isso constaria apenas da análise oral, não da impressa. O presidente da CNT deixou dúvidas também sobre suas considerações a respeito dos benefícios para a candidata Dilma Rousseff dos programas Mais Médicos e leilão de Libra. Ao exaltá-los, foi confrontado com a estagnação dos índices de intenções de voto e da avaliação do governo. Em seu socorro, o diretor do Instituto MDA, Marcelo Souza, disse ao repórter que a avaliação do presidente da CNT tinha base nas "simulações de segundo turno" e não "nos cenários de primeiro turno". Compreender, quem há de?

No berço das pesquisas eleitorais o cidadão não é mais um paciente dessas distorções. Se o eleitor vê uma pesquisa da CNN, sabe que foi feita por um instituto que não conduz a campanha eleitoral de ninguém. Quando a imprensa divulga uma pesquisa de instituto que trabalha para partidos, diz isso com todas as letras - instituto que trabalha para os republicanos, ou instituto que trabalha para os democratas. E há os que trabalham para meios de comunicação, emissoras de TV, jornais, e atualmente também para blogs.

Não há restrições nem legislação sobre pesquisa, e o bom senso do mercado fez todas as distinções por ele mesmo. Aqui há legislação, limites, metodologia, regras de divulgação, proibições, que resultam num cipoal de descontrole que transforma as pesquisas em peças de campanha quase individuais, pois qualquer político pode usar o instrumento como uma baliza de sua própria carreira.

Tudo isso, principalmente a dupla militância dos Institutos, tem minado a credibilidade das pesquisas, mas com certeza não será o projeto do senador Luiz Henrique (PMDB-SC), que proíbe divulgação de pesquisa 15 dias antes do pleito, que vai corrigir tão acentuado desvio.

Fonte: Valor Econômico

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Os Silva e a presidente (Rosângela Bittar)



A um ano da eleição presidencial, a pesquisa da MDA, divulgada ontem pela Confederação Nacional dos Transportes, revela concretamente o seguinte: os índices da presidente Dilma melhoraram muito, mas ainda estão muito longe de sua posição antes das manifestações de junho, que foram tomadas pelo eleitorado como um ato contra ela. Dois candidatos menos conhecidos, Aécio Neves e Eduardo Campos, estão com índices considerados provisórios exatamente por isso, sendo que o desconhecimento de um deles, Campos, é superlativo, tem espaço para crescer muito. E o mais consistente avanço sobre o quadro eleitoral, que deve preocupar a candidata à reeleição, que está no cargo e pode fazer campanha todo o tempo, foi o de Marina Silva. Uma última síntese dessa leitura é que a pesquisa de ontem ainda aponta para a disputa final em segundo turno, pois Dilma não se recuperou o suficiente para voltar a vencer no primeiro.

Em índices arredondados, Dilma ficou com 36%, Marina em segundo lugar com 22%, Aécio com 15% e Eduardo Campos com 5%, sendo que a cada um desses números seguem-se alguns quebradinhos. Dilma já teve 56%, está portanto muito distante do seu eleitorado, deve correr para trás, ao encontro do seu desempenho de maio. Marina recebeu 19% dos votos em 2010, o que significa que os 22% de agora, se consideradas as intenções de voto nulos e em branco, chegariam a 27% dos votos válidos, um crescimento absurdo com relação à sua votação na eleição presidencial de que participou. Aécio e Eduardo se expuseram pouco, têm por onde circular à procura do cenário definitivo.

Segundo o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda, no momento Dilma deve temer Marina Silva, só. Ele concorda que a meta da candidata à reeleição deve ser buscar, gradualmente, encontrar-se com seus os índices de maio passado. Lavareda não concorda, porém, como destacou a CNT, em atribuir o crescimento da presidente, no cargo e em campanha, ao programa Mais Médicos. O programa facilitou a exposição da presidente, mas seu impacto na votação favorável só pode ser medido quando for avaliada a questão da saúde, problema que figura sempre entre os piores identificados nas sondagens pela população. Quando o eleitorado manifestar opinião de que houve melhoria significativa da saúde, unindo sua percepção ao programa Mais Médicos, será possível associar uma coisa à outra.

O grande problema de Dilma ainda se chama Marina

Dilma melhorou mesmo, na opinião do analista, porque arrefeceu o noticiário negativo sobre ela na televisão, no rádio, na internet, nas ruas. No auge das manifestações de junho, o noticiário negativo chegou a 55%, um recorde, o positivo foi medido em 19%, ficando o restante como noticiário neutro. A população percebeu as manifestações como um ato contra o governo federal e a presidente. Quando as pesquisas pediam à população para citar a notícia mais lembrada, 62% falavam das manifestações.

Com a mudança do caráter das manifestações entre junho para setembro, agora rechaçadas como quebra-quebra de baderneiros que depredam o patrimônio público e privado, e a redução do noticiário sobre elas, que perderam o apoio do governo, da sociedade, e portanto da mídia, reduziu-se a percepção do noticiário negativo.

Isso levou ao resgate mais acentuado de parte da avaliação positiva. A presidente está longe dos seus confortáveis índices de maio e da última disputa de que participou, em 2010, e longe também da vitória folgada no primeiro turno, mas está caminhando em direção a isso com a mudança de sinal das manifestações.

Quem ultrapassou o seu desempenho eleitoral anterior e até os índices que obteve nas pesquisas deste ano e se superou foi Marina Silva.

Aécio mostra que tem potencial de crescimento porque ainda está abaixo do que o seu partido conquistou em 2010, quando teve mais do que 30% do eleitorado com a candidatura de José Serra. Eduardo Campos é pouco conhecido e seus índices são os mais provisórios entre todos, tem por onde se expandir.

O resultado da pesquisa CNT/MDA divulgado ontem continua a ser preocupante para Dilma, enquanto representa boa notícia para Marina, que pontua praticamente 50% acima da eleição de 2010, se considerarmos os votos válidos.

Lavareda sintetiza: "Dilma tem dois Silva determinando seu destino, um soprando a favor (Lula) e outra contra (Marina).

O PT arde em chamas. As relações internas nunca estiveram tão esgarçadas. O presidente do partido, Rui Falcão, ainda é o favorito para vencer a disputa interna pela reeleição contra os candidatos das outras correntes, e a avaliação generalizada é que vai vencer. Mas sua votação reduziu-se bastante e cresceu o fosso entre as facções a partir das denúncias de compra de votos pela corrente majoritária do partido.

Passado o processo eleitoral para indicação da nova Executiva, a luta interna vai continuar, é outro consenso. Desta vez, tudo foi longe demais. Havia uma espécie de pacto pelo qual os debates da campanha eleitoral para escolha do presidente do PT seriam civilizados. Sem proibição de temas, mas com observância de um limite para golpes baixos. A denúncia de que houve compra de votos representada pelo acerto de contas que permitiu o aumento do colégio eleitoral de menos de cem mil para mais de setecentos mil votantes foi considerada uma ultrapassagem do limite pelo grupo do Construindo um Novo Brasil. Há um fenda no campo majoritário (compra de voto é uma expressão que incendeia o PT pós-mensalão) e entre esse e os demais grupos. A irritação é generalizada, os concorrentes aproveitam como podem o barulho para amplificar a campanha e a principal denúncia foi feita por um líder respeitado de corrente adversária, o deputado Henrique Fontana. Que já se pintou para a guerra muito antes, quando preterido, em benefício do grupo do ex-presidente Lula no partido, para a comissão da reforma política. O descompromisso é generalizado.

Fonte: Valor Econômico 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Deslocamento do poder no partido (Rosângela Bittar)

Com o abatimento e o abate de grão-petistas pelo mensalão, mais do que nunca já se trabalha, em Brasília, com o contorcionismo do eixo de poder no PT à medida em que vai avançando o julgamento no Supremo Tribunal Federal: perde musculatura o PT de Lula, aqui considerado o grupo paulista, da majoritária facção articulação, e ganha o PT da Dilma, que tem aliados em todas as facções, inclusive naquele. Uma característica importante do PT que sobe a rampa é não arrastar consigo a direção partidária, ainda tentando equilibrar-se nessa transição mas pendendo, em ações, palavras, obras, defesa e geografia, para os que vão sendo defenestrados da cena política principal.

Essa é uma maneira bastante simplificada de descrever o que vai se redesenhando no partido, pois, óbvio, nem o PT que desce a rampa é todo de Lula, nem o que sobe é de Dilma, que parece dispensar esse tipo de liderança. Nos ensaios do momento, são citados alguns integrantes do grupo do PT que precisa reinventar-se: José Dirceu (mensalão) João Paulo Cunha (mensalão), José Genoíno (mensalão), Ricardo Berzoini (aloprados), Cândido Vacarezza (CPI), Delúbio Soares (mensalão), Antonio Palocci (enriquecimento).

No PT da Dilma, assim caracterizado para efeito de estabelecer um elo entre os integrantes do grupo com poder fortalecido, alistam-se Marcelo Déda (governador), Jaques Wagner (governador), Tião Viana (governador), Gleisi Hoffman (ministra), Ideli Salvati (ministra), Paulo Bernardo (ministro), Fernando Pimentel (ministro), Aluizio Mercadante (ministro), Alexandre Padilha (ministro), José Eduardo Cardozo (ministro).

Há petistas com poder interno mantido, por enquanto, como o presidente do partido, Rui Falcão, que pertencem ao primeiro grupo, como há outros que, como Gilberto Carvalho, secretário geral da Presidência, que atuam no segundo grupo mas com uma função clara determinada pelo primeiro, a de representante pessoal do ex-presidente Lula no Palácio do Planalto. Está para ser reescrita e redesenhada a nova configuração do PT, mas as tentativas prosseguem.

O primeiro grupo tinha a articulação de um projeto a uní-los, o que não se repete no segundo. Palocci guardava um projeto de país na cabeça, o PT de José Dirceu existiu com metas e liderança. O outro PT, que vai sobrando do mensalão, não está amalgamado, é um somatório de projetos individuais, mas como boa parte dele está no governo, convencionou-se chamá-lo de PT da Dilma. Ela será a candidata do partido à reeleição, por isso não há como fugir do pertencimento ao partido. Nesse também há PT de São Paulo, como Aloizio Mercadante e Marta Suplicy, as estrelas ainda brilhando. Gleisi Hoffmann quer ser governadora do Paraná mas nem o PT local está apoiando seu projeto, boa parte dele está com o adversário Ratinho Jr. O mesmo acontece no PT de Pernambuco, onde não há acusados, envolvidos, denunciados ou feridos, mas as correntes não têm meta comum. Esse PT nada tem a ver com o do Paraná, e assim segue a "desorganicidade" do grupo.

Os ministros têm relação próxima entre si e com a presidente, mas nenhuma formulação no conjunto partidário. Como grupo, começa a crescer e caminhar com autonomia agora, e nas próximas eleições internas já terá que buscar uma direção. O atual presidente perfila-se na faixa onde o poder foi corroído, mas não existe o substituto que vai conduzir a recuperação do partido. As lideranças do Parlamento estão exauridas, sem força ou resquício de poder
A presidente Dilma Rousseff não vai liderar a parte do partido que sobreviverá ao julgamento. Ela é a presidente, vai governar, insiste-se. Deu ao antecessor a função de ministro de eleições, ou seja, ministro do PT. É por aí que o partido vai procurar uma unidade de projeto.

Avaliações feitas em torno dessa nova realidade incluem, como elemento transformador, o resultado das eleições municipais que, mais do que sempre, estão balizando as disputas nacionais daqui a dois anos. Se o partido estiver caminhando para um desastre no Recife, em Salvador, em Belo Horizonte, em Curitiba, em Porto Alegre, como prenunciam as últimas avaliações internas, e apesar de tudo conquistar São Paulo, o lulismo voltará fortíssimo com o grupo paulista preservado da Lei da Ficha Limpa e as forças dos outros Estados, mesmo perdedores. Se conseguir dar a volta por cima em todas essas capitais, sobretudo do Nordeste, onde o chão vem cedendo, e perder em São Paulo, o cenário é de depressão: eleição perdida onde seria obrigatório vencer, mensalão mais desastroso do que parecia inicialmente ao partido, sem os comandos da Câmara e do Senado (os dois com o PMDB) a partir de fevereiro, o PT sabe que marchará fragilizado para o início da campanha sucessória da reeleição.

O governo encerrou sua participação, e não insistirá mais com o PMDB, no projeto de manter a governabilidade no Senado com a eleição de um presidente, em fevereiro do ano que vem, que não seja o senador Renan Calheiros (AL), candidato a voltar ao cargo que o perdeu para evitar cassação de mandato por transgressão à ética. Assim, o ministro Edison Lobão, das Minas e Energia, o mais cotado na torcida do governo para disputar a sucessão de José Sarney, não deixará mais o Ministério após as eleições municipais como estava previsto, é o que se informa hoje no círculo próximo aos atores pemedebistas.

Lobão já não queria sair, não demonstrava ímpeto de disputar, alegava empecilhos até pessoais, de resistência do filho, seu suplente, para não retomar a vaga, mas sua argumentação ficou superada pela informação que o partido fez chegar ao Planalto que Renan conseguiu romper resistências ao seu nome, tem votos para se eleger e acredita que as denúncias não voltarão a assombrá-lo.

São maiores de idade, dizem dos senadores, e há um limite para o governo intervir. Mas não desistiu de trocar, em fevereiro, seus líderes no Senado, na Câmara e no Congresso, respectivamente Eduardo Braga, Arlindo Chinaglia, José Pimentel. Todos avisados que a representação duraria apenas um ano.

FONTE: VALOR ECONÔMICO (05/09/12)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O PT no seu pior labirinto (Rosângela Bittar)

Se ganhar São Paulo, as dores cessarão, tramas fortes cerrarão as principais fissuras, instalando-se a expectativa de seguir adiante com o poder conquistado. Mas se perder, o PT carregará o estado febril de hoje para o pós-eleitoral e dificilmente logrará recompor suas forças para a complicada vida dos dois anos seguintes, o que fará do imponderável uma certeza.

Tudo, hoje, no PT, é extremo, da preocupação com o julgamento do mensalão e as possíveis condenações à interminável sucessão de erros, nos últimos dois meses, do comandante in pectore do partido, Luiz Inácio Lula da Silva.

Creem os benevolentes amigos que o ex-presidente parece ter uma similitude entre seu comportamento e aquele de fase lendária de Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara, do PMDB e da Constituinte, quando, acometido de uma dosagem inadequada do medicamento lítio, falava sem freios. Lula está passando essa imagem aos seus próprios subordinados petistas, vai falando, vai fazendo, decisões em demasia, com uma ideia na cabeça e um índice de popularidade nas mãos, atropelando gregos e troianos. Embora tudo já tenha merecido o devido destaque, o caráter ilimitado das trapalhadas, com resultados negativos visíveis para o PT, renovam as preocupações.

Articulações de Lula resultam em fraturas

Com facilidade relaciona-se, em hostes petistas, três, quatro, dez erros políticos cometidos pelo antecessor de Dilma Rousseff, que peca sempre por excesso. Antes, José Dirceu, seu fiel executivo nesse quesito, formava as alianças, compunha o PT, acalmava os revoltosos, explicava a filosofia do pragmatismo do momento e o poder, no fim do túnel, a justificar os meios. Agora cabe a Lula mais que a figuração, é o ex-presidente quem sai a campo e embrenha-se em problemas.

Em Sergipe, Ceará, Pernambuco, já estão notórias as imposições que fez ao PT, desfazendo prévias, remontando coligações, destituindo e nomeando candidatos. Nessa pré-campanha passou por cima de Luizianne Lins, de Marcelo Déda, de João da Costa, e não se sabe se o candidato às eleições municipais, seja do PT ou de um dos partidos aliados, nessas capitais, será aquele que no momento o ex-presidente quer. Transitou como um trator no Nordeste, não se evidenciou ainda sua mão de ferro no Sul, mas espera-se que chegue lá a qualquer momento.

São Paulo, entretanto, é uma evidência de sua capacidade de provocar fraturas e fazer a terra arrasada.

Lula abusa do seu prestígio, é como se define no PT o voluntarismo do ex. A intervenção que fez foi um desastre, cindiu o partido e está longe de conseguir as condições para reunificá-lo.

Primeiro, ali haveria uma prévia entre quatro candidatos. Depois, com um pequeno toque, o ex-presidente tirou do caminho os dois que considerava mais fracos, Jilmar Tatto e Carlos Zarattini, dizendo a eles que o momento era para profissionais e não para fazer campanha de apresentação para daqui a quatro anos. Mandou uma funcionária do instituto que leva o seu nome avisar a Marta Suplicy, senadora da República, que o governo precisaria dela mais no Senado que na Prefeitura de São Paulo, portanto deveria ser afastar também.

Marta agradeceu mas não saiu. Aí Lula reforçou a ordem dando a missão à presidente Dilma. A presidente falou que precisava muito de Marta no Senado mas não ofereceu ministério. Com o apelo, Marta retirou sua candidatura a prefeita, mas saiu do episódio absolutamente melindrada.

Essa parte do enredo da candidatura do PT paulista é conhecida, mas não se tinha a dimensão do efeito das decisões de Lula sobre Marta. São marcas profundas.

A senadora passou a fazer ironias, mandou o candidato gastar sola de sapato, não compareceu ao lançamento de sua candidatura, resistiu ao cerco, inclusive quando apelaram ao seu ex-marido, e multiplicou por dois, com a aliança do PT com Paulo Maluf, o desdém que expressou quando Lula tratava de articular-se com Gilberto Kassab.

Marta já está fazendo algumas brincadeiras com a situação do PT na capital. Quando Lula, no lançamento de Fernando Haddad como candidato, mencionou os injustiçados do PT, entre eles Erenice Guerra, a subchefe da Casa Civil, ex-amiga íntima de Dilma, flagrada em tráfico de influência no palco de atuação mais próximo ao presidente, não só Marta, mas um grande número de petistas, não conteve a perplexidade.

Mais um registro da ilimitada capacidade de bagunçar o cenário foi o de Lula, no 'Programa do Ratinho', dizendo que se Dilma não quiser se candidatar à reeleição ele assume o encargo. O fato detonou de vez o delicado equilíbrio que vinha sendo preservado entre o PT de Dilma e o PT de Lula, e a presidente passou a ser alertada para o fato de que Lula está tentando antecipar sua sucessão, embaralhando mais ainda as cartas partidárias.

A maioria de suas interferências mais atrapalhadas, do ponto de vista do PT, teve o PSB do governador pernambucano Eduardo Campos no meio da articulação, e todos os ventos nesse partido, seja em direção a Lula, seja a Dilma, correm para 2014.

O que houve ontem, com a troca de Erundina no cargo de vice de Haddad, por causa da aliança com Paulo Maluf, foi apenas mais um episódio em que o ex-presidente não mediu consequências porque agiu, como sempre, sem ater-se às mudanças nas condições do tempo e da temperatura.

Fora das eleições, o ex-presidente está sendo considerado também algoz de boa parte do PT, principalmente do que se encontra no governo, ao lado de Dilma, enquanto age para tentar salvar seus amigos. Criou a CPI para atrapalhar o julgamento do mensalão, mas pegou a Delta, de profunda parceria com o governo federal, que pode ser atingido. A CPI como manobra diversionista do maior escândalo de corrupção no governo petista não funcionou, mas teve efeito contrário ao apressar o julgamento que até então poderia 'descoincidir' do período eleitoral, evitando prejudicar o maior partido do país. Agora todos temem os resultados do julgamento no Supremo Tribunal Federal, principalmente com o partido em luta eleitoral. A condenação está sendo, como nunca o fora, muito considerada no PT

FONTE: VALOR ECONÔMICO

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Dilma falhou no que se dizia melhor ( Rosângela Bittar)

Apagões pequenos, médios e grandes, do Oiapoque ao Chuí; epidemia grave de dengue; mortes novamente por catástrofes da natureza esperadas mas não prevenidas por governos municipais, estaduais e sobretudo federal, a quem compete muito; caos aéreo persistente, resultado de incipientes medidas; erros repetidos na administração da Educação; baixa execução de PACs I ou II; reforma agrária sem resultados; invisível avanço em desempenho na área de segurança. Problemas, esses e muitos outros, do primeiro ano do governo Dilma, todos, de gestão.

A presidente da República gastou seis meses iniciais na montagem do governo e os seis meses finais na desmontagem. Perdeu, na tessitura, dois pilares, Antonio Palocci, chefe da Casa Civil, e Nelson Jobim, ministro da Defesa, dois mais importantes colaboradores. Titubeou, demorou, negaceou, até trocar ministros política e administrativamente inviabilizados nos cargos, levando o governo à paralisia. Quando tomou providências o fez de forma acanhada - pois ainda há áreas no vácuo -, e já era o fim da primeira etapa.

Isso não influiu na popularidade, na capacidade de reeleição, no apoio popular, como citam governistas profissionais, a provar que a aceitação é prova de que o governo foi bom. Não se pode dizer, porém, para o bem do realismo, que se o mau governo não atingiu o voto, não existiu. Com altos índices de aprovação no último Ibope do ano, maior até que seus antecessores no mesmo período, Dilma seria reeleita gloriosamente se o pleito fosse hoje. Mas não poderá dizer que recebeu, para isso, contribuição decisiva de sua performance de gestora, fama que adquiriu já na equipe de transição do governo Lula, antes até de ser ministra.

O governo começa o segundo ano no mesmo ponto que começou o primeiro: tendo que ser remontado, exigindo nomeação de ministros que possam ter competência para executar programas que a presidente venha a apontar como seu projeto de Brasil. Em janeiro de 2012 estão todos no ponto do janeiro de 2011: à espera de que ela diga a que veio e para onde vai.

Dilma terminou em empate, inclusive, no quesito de preservação da democracia e das instituições, ainda necessitadas de cuidados especiais no Brasil. Para cada avanço, houve um retrocesso. Iniciativas como a criação da Comissão da Verdade, ou mudanças dos princípios de política externa para preservar o respeito aos direitos humanos, por exemplo, tiveram seu contraponto na censura a programas de TV e peças de propaganda ensaiadas sem pudores pela ministra da Mulher, Iriny Lopes, e na pressão do partido presidencial, o PT, para que promova o controle da imprensa. Houve outras ameaças que não chegaram a configurar risco real, mas promessas de autoritarismo, como o abuso do governo por medidas provisórias, o que anula o contraditório do Congresso, e renovadas tentativas de eliminar controles do Tribunal de Contas da União.

A timidez administrativa da presidente inibiu até mesmo o grupo criado para ajudá-la a romper o imobilismo da gestão do Estado, a Comissão de Gestão Pública. Jorge Gerdau, empresário coordenador do grupo que levaria para o governo os instrumentos modernos de administração na iniciativa privada, não logrou resultados. O grupo não deu respostas sobre como melhorar a gestão de áreas de administração difícil e, às vezes, dramática, como a da saúde e, principalmente, dos hospitais públicos. Nem da educação, uma gestão perdida entre erros administrativos repetidos, por exemplo, na aplicação de exames nacionais, e equívocos da política universitária expansionista que criou instituições fantasmas pelo interior afora.

O problema é que esses setores de gestão em colapso têm se tornado numerosos, a eles se somando a segurança, o combate ao uso de drogas, a prevenção de desastres ambientais, o abastecimento de energia.

A oposição, se disse neste espaço ao fim de 2011, foi um fracasso retumbante no ano em que deveria se renovar e reafirmar um projeto alternativo para o eleitorado. O governo não ficou à frente, embora, ao contrário da oposição, que nem número teve, contasse com os instrumentos para fazer e acontecer.

O ministério foi formado para atender ao projeto do ex-presidente Lula de preparar candidatos de cara nova para o PT disputar eleições municipais e estaduais. Deu errado no federal, e pode continuar nessa má trilha a julgar-se pelas especulações que cercam a substituição dos ministros candidatos. A troca de Fernando Haddad por Aloizio Mercadante - e não vai aqui nenhum lobby das corporações que lotearam o MEC a favor do secretário-executivo (Henrique Paim) e candidato preferencial de Haddad - continua dentro do projeto de formação de candidatos do PT a eleições traçado por Lula.

As corporações, que governam por intermédio de conferências, ONGs e greves, por sinal, tomaram mais de uma das áreas fundamentais para o sucesso do projeto deste governo. Na saúde tentou-se estabelecer base de alguns programas novos, voltados para a classe média, segundo orientação expressa da presidente, mas foi incipiente. Exemplo de fim de linha nesse setor acontece na porta do governo federal. Brasília, governada pelo PT, que tem na saúde o problema mais grave entre tantos, continua mergulhada na incompetência e falta de perspectiva de soluções. A última do governador Agnelo Queiroz foi criar o ciclo-socorro, as "bikelâncias" que, como o nome indica, são isso mesmo, ambulâncias em bicicleta. Não se tem notícia de reações de perplexidade, terror ou providências no Ministério da Saúde.

O governo parece amarrado, impedido. Com esse fraco e pouco criativo desempenho, Dilma está no topo das pesquisas de popularidade, apoio e aceitação do eleitorado, repetem como um mantra seus acólitos. O ex-presidente Lula já disse, nos idos do pós-mensalão, que um governo começa mesmo no terceiro ano, portanto, esse início não conta. O pior dos mundos será a marquetagem convencer Dilma da desnecessidade de reações firmes neste segundo ano.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Valor Econômico (11/01/12)