quarta-feira, 4 de março de 2020

A esquerda ficou pra trás (Cristovam Buarque)

Na véspera dos 40 anos do PT, alguns analistas, inclusive militantes e simpatizantes, afirmaram que o partido está obsoleto. Mas cometeram dois erros: não é só o PT, toda a esquerda tradicional ficou obsoleta; e eles usaram argumentos superficiais para justificar a ideia de obsolescência. O obsoletismo tem razões mais profundas.
Alguns ficaram indecentes pela corrupção, mas tornaram-se obsoletos pelo apego a ideias e propostas do passado. Não viram a história avançar. Não acompanharam as transformações tecnológicas e seus impactos sociais e políticos no mundo contemporâneo. Não entenderam que as novas tecnologias modificaram as relações entre trabalho, capital e consumidor; ficaram no tempo em que o progresso criava emprego formal e permanente, sem ver que o progresso atual cria apenas certos empregos, quase sempre qualificados, informais e provisórios.
Não enxergaram que a classe trabalhadora está dividida entre categorias com privilégios, sem interesses comuns com as massas excluídas. Que a “mais-valia” foi substituída pela “desvalia” sobre os pobres e uma “pactuada-valia” entre capitalistas e trabalhadores especializados. Por isso, os sindicatos representam trabalhadores do setor moderno, não ao povo.
Não viram que a globalização não permite políticas econômicas nacionais voluntariosas, que terminam populistas e irresponsáveis. Não aceitaram que a construção de justiça social exige economia eficiente. Não entenderam a gravidade do desequilíbrio ecológico, e continuam prometendo aumentar o consumo de tudo para todos, no lugar de apresentar propostas para elevar o bem-estar social e a qualidade de vida. Elevaram o salário mínimo, mas não melhoram a qualidade de vida dos pobres, nem da escola de seus filhos.
Não perceberam que o vetor do progresso não está mais no chão da fábrica, mas nas bancas das escolas; que a distribuição estrutural da renda não se dá por bolsas, mas pela garantia de qualidade na educação de base para todos. Não viram que o Estado se esgotou, ficou ineficiente, injusto e corrupto; continuam insistindo no equívoco de que estatal é sinônimo de público. Tampouco entenderam que devemos respeitar as restrições técnicas da economia e garantir acesso universal aos bens e serviços públicos — meio ambiente, saúde, educação, estabilidade monetária — deixando para o mercado a produção e distribuição dos bens e serviços privados. Perderam as velhas utopias do socialismo, e não construíram outra proposta para todos. Ficaram sem bandeiras transformadoras para o país, que foi dividido em corporações e segmentos sociais, sem a defesa de reformas estruturais.
Os partidos progressistas foram rejeitados porque abandonaram os valores morais que apresentavam, mas ficaram obsoletos porque abandonaram a lógica com a qual deveriam observar a realidade do mundo em transformação. A perda da vergonha levou à desmoralização, mas o obsoletismo veio da perda de vigor transformador e de bandeiras para o futuro.
Os partidos ficaram prisioneiros do imediatismo eleitoreiro de seus políticos e sem contar com pensamento modernizador em relação ao mundo, aos riscos de sua marcha e aos sonhos do que será possível construir. Ficaram com políticos ruins e sem bons filósofos. Porque cooptaram e silenciaram nossos intelectuais, prisioneiros das siglas e dos líderes que reverenciam. Como nas religiões, passaram a acreditar nas suas narrativas e em seus santos. Pior do que não ver a banda passar foi fechar as janelas que dão para a rua e transformar os salões de debate em templos reverenciando crenças do passado.
Nestes últimos anos, o PT sobreviveu como um partido parecido a uma religião, por isso sobreviverá preso a doutrinas do passado mais do que a políticas para o futuro. No seu 40º aniversário, deveria lançar um movimento “Lula Livre e PT Livre, um do outro e os dois do passado” — Lula, usando sua liderança para falar ao Brasil, não apenas aos seus militantes, e estes pensando livremente, com esperança para 2060 e não com nostalgia de 1980.
O Globo/21 de fevereiro de 2020

A dupla face do reacionarismo brasileiro (Fernando Schüler)

Há um duplo reacionarismo no debate brasileiro. O primeiro deles é de base cultural. Poderia chamá-lo de “conservadorismo de costumes”, mas sempre que faço isso alguém lembra que o termo conservadorismo é mais amplo, que há a grande tradição de Burke a John Kekes.
Não é disso que estamos falando. É algo bem mais caseiro. Não se trata de Oakeshott, mas de Marcelo Crivella. O “militante de sua nostalgia”, na frase de Mark Lilla. Aqui pelos trópicos, seu grande momento foi a censura à revista com o beijo gay, na Bienal do Livro.
Luc Ferry criticou essa visão dizendo ser um absurdo supor que a natureza deva definir a ética. Perfeito. Hayek, em seu clássico “Porque Não Sou Um Conservador”, ironizou a posição que aplaude a gradual evolução dos costumes no tempo, mas decide que o raciocínio só vale para o passado. Em algum momento tudo deveria ser congelado.
São críticas elegantes, que vão muito além do que merece o nosso conservadorismo de programa de auditório. Ele é legítimo e expressa a visão de uma parcela relevante do eleitorado, mas é um tigre sem dentes no mundo real da política. Rodrigo Maia nem sequer coloca seus temas em pauta no Congresso.
O segundo reacionarismo brasileiro diz respeito ao Estado e à economia. Ele tem apoios na academia, nos sindicatos e na intelectualidade bacana. Faz menos barulho, mas é mais efetivo.
Seu mote é a defesa do Estado. Sua paixão são as autarquias e repartições públicas. O status quo de nossas escolas e hospitais estatais quebrados, dos quais todos que têm recursos, incluindo-se aí a elite pensante, fogem como o diabo da cruz.
Sua pedra de toque é a rejeição de qualquer ideia de reforma do Estado. Foi assim nos anos 1990, à época da emenda 19 à Constituição e da criação das organizações sociais; foi assim com a Lei de Responsabilidade Fiscal; foi assim mesmo quando Lula, em 2003, fez a mini reforma da Previdência com o apoio da oposição, do DEM e do PSDB.
Mais recentemente foi assim com as reformas que o país fez a partir de 2016. A ridícula negação do déficit previdenciário, a defesa do velho imposto sindical. A lista é grande e conhecida. Sua última façanha é cruel: a recusa de que os estudantes possam fazer sua carteirinha pela internet, sem custos. Tudo para alimentar, ainda que pareça risível, os cartórios do movimento estudantil oficial.
Ninguém percebeu, entretidos que andamos com bobagens do dia, mas um episódio na última semana reuniu os dois reacionarismos brasileiros. O prefeito Crivella resolveu reestatizar os servidos de atenção à saúde no Rio de Janeiro, extinguindo os contratos de gestão com as organizações sociais.
A medida foi elogiada pelo PSOL. Encontro do bispo com Marcelo Freixo, com tudo que tem direito. Engorda a máquina, abre concurso, põe o sistema sob o mando político. Tudo que soa “progressista” em dia de comício, mas inferniza a vida das pessoas comuns na segunda-feira pela manhã, na fila do posto de saúde.
O próximo teste para a modernização brasileira é a reforma administrativa. As hesitações de Bolsonaro são previsíveis. Bolsonaro foi, no passado, uma síntese do reacionarismo brasileiro: conservador nos costumes, estatizante na economia. De uns anos para cá se aproximou de posições liberais, ainda que pareça sem sentido chamá-lo de um político liberal.
A reforma começou mal. Ela deveria ter sido apresentada logo após a aprovação da reforma da Previdência. Não foi. Deveria abranger não apenas os futuros servidores, mas também os atuais; deveria abranger todos os Poderes, sem distinção, para ter força moral e capturar o apoio da sociedade.
De qualquer modo, é uma reforma a ser feita. O debate nem sequer iniciou mas já milita no Congresso a Frente Parlamentar em Defesa do Serviço Público, com o velho discurso do “desmonte do Estado.” A nostalgia no Brasil não tem lá grande criatividade, mas não duvido que possa ganhar o jogo.
Folha de S. Paulo/20 de fevereiro de 2020

“identitários lidam com caricaturas de pessoas” ( Antonio Risério/entrevista)

No Brasil é raro pensadores de esquerda criticarem abertamente as próprias bandeiras. Não é o caso, sem dúvida, do antropólogo Antonio Risério, quem vem assiduamente chamando a atenção para os excessos dos chamados identitários. “Lugar de fala”, conceito da moda, vem perdendo a eficiência em nosso cada vez mais acuado campo democrático tornando-se por sua vez perigosa arma autoritária. É quando chega, hoje, à literatura. Mais especificamente ao modus operandi dos escritores, ditando regras sobre quem pode ou não escrever o quê. Com exclusividade para a FAUSTO, o também poeta que atuou como redator das campanhas presidenciais de Lula, autor de Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia identitária, convida a razão para ocupar o devido lugar neste debate.
• FAUSTO – Em primeiríssimo lugar, reconhece como importante o conceito “lugar de fala”?
Antonio Risério: No sentido “clássico” da sociologia e da filosofia, sim – na perspectiva autoritária e rasa do “identitarismo”, não. O que quero dizer, quando falo em sentido “clássico”, é simples. A sociologia, a antropologia, etc., sempre nos mostraram que, ao refletir sobre as ideias e os discursos que ouvimos, temos que investigar o lugar do emissor dessas mensagens tanto na estrutura social quando no seu universo de cultura. Agora, há várias formas de você examinar isso.
• Qual é o problema do identitarismo?
O problema do identitarismo é que ele faz de conta que classes e grupos sociais não existem. O que conta, para essa turma multiculral-identitária pós-moderna, é, fundamentalmente, a realidade física da pessoa, sua situação étnica ou sexual. Nesse sentido, o identitarismo é um retrocesso, um “retorno” ao cientificismo oitocentista de um Destutt de Tracy, por exemplo, que interpretava as atividades mentais como produtos de causas fisiológicas. O identitarismo é uma volta a isso, no sentido de que fecha os olhos ao movimento real da vida social e só vê a situação física do indivíduo, seja a pigmentação da pele ou o que é mesmo que a pessoa tem nas entrepernas – e isso “explica” tudo, num mundo mecânica e drasticamente dividido entre “opressores” e “oprimidos”, onde não há lugar para posições e desempenhos individuais com relação ao conjunto da sociedade, já que tudo está dado de antemão. A diferença, portanto, é que o identitarismo é ainda mais estreito, em consequência de suas obsessões cromáticas e genitais.
Então, ao abolir as classes sociais, eles não têm como analisar uma situação em que se defrontam um senhor negro e um escravo negro. Ou o caso de uma mulher que possui escravas mulheres, todas da mesma cor, todas pretas, como se viu na África com Ginga, a rainha de Matamba, por exemplo. E eu ainda prefiro pensar com Marx, Durkheim e Lévi-Strauss do que a partir da patafísica racialista dos seguidores de Abdias do Nascimento, digamos.
• A interferência do “lugar de fala” no modus operandi da escrita literária não é exatamente o oposto de um dos mais poderosos efeitos da literatura, que é o aprender a ser outros?
Sim – e ainda podemos ir adiante. Não foi Rimbaud quem disse “je suis um autre”? Os “beatmiks” também diziam isso. Jerome Rothenberg – o autor de Symposium of the Whole e Shaking the Pumpkin, entre outros – fala categoricamente: o poeta é o outro. Nós somos os “ethnoi”, os bárbaros. Mas essa coisa do “lugar de fala”, levada a extremos no neofeminismo norte-americano e no racialismo neonegro, aponta para o fim de boa parte da criação verbal da humanidade. Sei que Robinson Crusoe – naquela ilha deserta onde ele naufraga depois de sair da Bahia – Sim: pouca gente lê, de fato: sempre que falo que Defoe fez de Robinson um senhor escravista no Recôncavo Baiano, as pessoas ficam completamente surpresas, mas está lá no romance, é só ler – se queixa de não ter um escravo, até achar o pobre do Friday, mas nunca se queixa de não ter uma mulher.
Mas isso não é bem a regra. Vamos agora, em obediência ao esquerdismo identitário, ter romances que se passem apenas entre homens, se o romancista for homem, ou exclusivamente entre mulheres, se a romancista for mulher? Vamos jogar Madame Bovary no lixo? Jogar no lixo a esplendorosa fala final de Molly Bloom no Ulysses de Joyce? Acho que é mais ou menos para essa direção que acabam apontando. E não é só literatura, claro. Um historiador do sexo masculino, que for escrever a história do sul da França entre os séculos XII e XIII, a história da Occitânia ou Languedócio, não pode dissertar sobre a realidade das mulheres naquela região, quando elas tinham autonomia econômica, algumas eram ricas e poderosas e chegavam a financiar trovadores? Não vai poder falar de Eleonora de Aquitânia ou da Condessa de Dia? Isso é absurdo, puro e simples absurdo.
• Se vinga essa interferência, o primeiro a perder o pescoço seria Chico Buarque? Quem melhor escreve sobre os sentimentos de uma mulher?
Veja só: quem está dizendo isso sobre Chico é você – e você é uma mulher… Vamos viajar em algumas direções? Veja que criação maravilhosa é a Dulcineia de Cervantes. A gente fala dela com familiaridade até. Mas a gente não tem ideia do que ela pensa, nunca ouviu uma sílaba dita por ela. Em momento algum de Dom Quixote ela dá o ar de sua graça. No livro, a gente ouve a pastora Marcela, por exemplo. Mas Dulcineia não se materializa nunca, não aparece em nenhuma cena, nada. No entanto, todos a conhecemos. É o poder encantador, enfeitiçador mesmo, de Cervantes.
Mas vejamos ainda outra coisa. Quando Jorge Amado morreu, o jornalista William Waack fez um programa de televisão sobre ele. Fomos convidados eu, Renato Ortiz e uma professora universitária paulista cujo nome já não lembro. E esta senhora contou uma coisa que certamente deixaria Jorge fascinado e comovido. Ela disse que, em inícios de sua juventude, vivendo num meio social muito repressivo, “vitoriano”, onde não se falava de sexo, etc., ela e umas amigas liam Jorge Amado escondido. E foram personagens femininas de Jorge Amado que mostraram muitas coisas a elas, que serviram de modelos para elas com relação a certos aspectos da vida. Então, ela disse uma coisa esplêndida: “foi com Jorge Amado que aprendemos a ser mulheres”. Por essas e outras, acho maravilhoso que mulheres escrevam sobre mulheres, que relatem suas vivências femininas do mundo, etc. E que escrevam também sobre os homens, claro. Sempre aprendi muito sobre os homens ouvindo as mulheres, a começar por minha mãe – e continuando ainda hoje com Sara Victoria, minha mulher.
Agora, não queiram nos proibir de escrever sobre mulheres. De escrever sobre o que amamos. Aliás, Roland Barthes dizia isso: “só estudamos o que desejamos ou o que tememos”. E pode ficar certa de que não é por temor que falo de mulheres. É apenas pitoresco que algumas feministas radicais não suportem que nós homens escrevamos sobre mulheres, embora citem Foucault e Derrida – que, até onde eu saiba, não são mulheres – em defesa de suas posições. Mas é impossível não fazer isso. O planeta em que vivo não é habitado exclusivamente por homens. E eu posso muito bem me sentir levado a recriações estéticas da vida feminina. Nessas conversas, o filósofo Spinoza é meu guru. Ele, que conheceu o “herem” (a excomunhão rabínica), disse tudo:
“É preciso conceder a cada um o poder de pensar o que quiser e de dizer o que pensa”.
• Uma de suas queixas é que identitários não condenam crimes de identitários?
Não se trata de queixa, mas de constatação. É como no caso dos maoistas que evitavam falar das orgias sexuais de Mao Zedong com jovenzinhas virgens chinesas, que eram levadas de bandeja para ele… Com relação aos identitários, o caso paradigmático, a que sempre me refiro, é o do “pantera preta” Eldridge Cleaver, relatado por ele mesmo, em seu livro Soul on Ice.
• O que relata?
Cleaver conta que estuprou mulheres brancas como um ato de vingança, de revanche, de “reparação” histórica. Diz que sentia um prazer imenso em “sujar” as fêmeas do homem branco. E nunca nenhuma neofeminista, nenhuma “radfem” norte-americana, abriu a boca para protestar, condenar isso. Mais ainda: Cleaver conta muito tranquilamente que, antes de currar brancas, treinou no gueto currando pretinhas. E então? Cadê Angela Davis? Onde estão as feministas neonegras, que não falam sequer uma sílaba sobre o assunto? Ora, isso significa que, por ser um preto, um “oprimido”, Cleaver tem todo o direito de ser um criminoso sexual, estuprador de pretas e brancas? Sinto muito, mas se este é o sentido de justiça do identitarismo – vale dizer, identitários têm o direito de cometer crimes –, aviso que não tenho nem quero ter nada a ver com esse mundo. Se existem coisas que não arquivei – e espero nunca arquivar – são o meu senso de justiça e a minha capacidade de indignação.
• Em que momento o caráter representativo do conceito “lugar de fala” se tornou um truque de autoritarismo? A meu ver, o “lugar de fala” faz muito sentido no que tange a dar voz para quem vive na pele certas dores, pessoas que nunca puderam falar, escrever, encenar, o que for, mas me parece que esse conceito se perdeu em algum momento…
Em que momento, exatamente, não sei, mas é fato que se perdeu. As coisas, como sempre, partem de uma base justa. O problema são as perversões que vêm nos desdobramentos, nas radicalizações malucas. Dar voz a quem não tinha voz não implica cassar a voz de quem a tem. E foi isso que passou a significar. Um problema, também, é que os identitários lidam com caricaturas de pessoas – e não com pessoas reais, complexas, contraditórias, etc. Somos todos múltiplos e diversos. Além disso, o mundo mudou muito e muda o tempo todo. Os identitários não suportam a ideia de transformação, seja ela política, social ou cultural. Precisam de um mundo parado no tempo. As feministas, por exemplo, falam de um Ocidente “patriarcal” que há muito não existe mais. A grande opressão machista, hoje, está no mundo islâmico – e contra isso as neofeministas não dizem nada, porque os muçulmanos são também “oprimidos”. Não dá para levar a sério. O Brasil também mudou muito.
A sociedade brasileira em que viveram Ana Nery e Nísia Floresta Brasileira Augusta não é a sociedade brasileira em que vivem Bia Lessa, Tabata Amaral ou Fernanda Torres, que não só têm voz, como se manifestam com frequência, e podem curtir livremente a vida sexual que escolherem, sem que ninguém tenha nada a ver com isso.
Do mesmo modo, o Brasil em que viveu José do Patrocínio não é o Brasil em que viveram Donga e Hilário Jovino Ferreira, nem o Brasil em que vivem Vagner Love e Ronaldinho Gaúcho. Temos problemas, sim, mas muita coisa mudou. Nosso esquerdismo identitário não admite mudanças, tem uma visão estática do mundo, estática e maniqueísta, como um truque barato para não enfraquecer seus discursos. Mas, feliz ou infelizmente, a história não para. E o que enfraquece os movimentos não são as mudanças – é a visão estática, que vai ficando para trás, enquanto a roda gira.
• O “lugar de fala” tende a simplificar as formas de pertencimento? Como se toda experiência de racismo, de sexismo, de homofobia, entre outros, fossem iguais, envolvendo algozes parecidos, e, principalmente, como se fosse fácil identificar porque numa relação de afeto tudo é muito mais complexo, o algoz pode ser o pai, a mãe, o filho…
Entendo perfeitamente o que você quer dizer e concordo, mas vou dar uma variada. Existem algumas leituras do tema, mas uma em particular me atrai. Quem a sugeriu, anos atrás, foi o sociólogo Jessé Souza – hoje, infelizmente, convertido em “intelectual orgânico” do PT. A sociologia weberiana dá forte ressalte, em sua leitura do protestantismo ascético triunfante nos Estados Unidos, ao espírito de seita. À “capacidade protestante sectária de associação para fins de interesse comum”. É um associativismo sectário que se funda não em base afetiva, mas em relações “horizontais” de interesse, logo, relações entre iguais – indivíduos da mesma classe social ou do mesmo grupo profissional, por exemplo.
“Para Max Weber, a confiança intersubjetiva é produto do espírito de seita, por oposição ao espírito da Igreja católica”. É a diferença fundamental entre o espírito sectário e o princípio da fraternidade universal do catolicismo. E Weber vai ver nos Estados Unidos, país do protestantismo sectário, o reino por excelência desse espírito de seita, com seu típico associativismo exclusivista – que se expande em todas as direções, para além da esfera religiosa. Vale dizer, ocorre a secularização do espírito sectário, com “a filiação religiosa acrescida ou substituída pela filiação às mais diversas associações, sociedades, clubes e universidades”.
Mas o importante, de momento, é que Jessé situa o multiculturalismo identitário justamente nesse contexto. É a exacerbação do associativismo sectário exclusivista – e excludente – que vai gerar sua vocação, disposição ou ânsia para estabelecer compartimentações. Fixar divisórias. Instaurar apartheids. Concordo plenamente: em última análise, o fragmentarismo identitário-multicultural é produto do puritanismo anglo-saxão, do protestantismo ascético calvinista, correndo extremado e esbaforido nas baias do associativismo sectário.
• Pode haver superioridade moral em um ambiente como a literatura, que é exatamente o encontro com outros indivíduos?
Ser ético é uma coisa, considerar-se moralmente superior aos demais, pela simples circunstância de se ter nascido mulher ou preto, por exemplo, é outra. Podemos falar do ambiente artístico, de modo geral. O fato de uma pessoa ter uma conduta moralmente condenável não faz dela um artista maior ou menor. Tudo indica que Cacilda Becker, por exemplo, podia ter às vezes um comportamento algo canalha, como relata Paulo Lima em Anjo Bom, Gênio do Mal, mas isso não tira dela o título de grande atriz. E o mesmo pode ser dito a propósito de crenças religiosas, ideológicas, etc. Muita gente já escreveu que a Divina Comédia, de Dante Alighieri é uma “tradução” estética da teologia de Santo Tomás de Aquino, mas não conheço ninguém que tome isso como critério de julgamento de Dante. E ainda há todo tipo de contradição por aqui. Ezra Pound, que chegou a aderir ao fascismo italiano, escreveu versos violentamente anticapitalistas.
• Sim…
Aqui mais perto, entre nós, Nelson Rodrigues era aplaudido pelos militares quando criticava Dom Hélder Câmara, a “teologia da libertação”, os “padres de passeata”. Ao mesmo tempo, ele foi um dos escritores brasileiros que mais sofreram com a censura, durante a vigência do regime militar. Então, não existe isso. Um grande poeta racista ou homofóbico pode e deve ser condenado enquanto racista ou homofóbico, mas não vai deixar de ser um grande poeta por causa disso.
George Orwell dizia que podia dar exemplos e mais exemplos de antissemitismo nas obras dos maiores nomes da literatura universal. E é verdade. Mas isso não diminui em nada a grandeza dessas obras, como forma de conhecimento da vida, do mundo e da humanidade. Aliás, no Evangelho segundo Mateus, Jesus designa os povos não-judaicos como “cães”, mas isso em nada tira a beleza e a força do texto. Oscar Wilde, de resto, ficou encantado com a passagem. Enfim, não é a ética que faz o poeta. Nem a ideologia. Roman Jakobson disse certa vez que se o que fosse importante, na arte verbal, fosse o conteúdo, a Declaração dos Direitos do Homem seria certamente o maior de todos os poemas, em todos os tempos. E é isso.
• Qual deve ser o lugar do escritor em sua própria obra?
O lugar ou a clareira que ele conseguir desenhar.
Eliana de Castro/19 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

'Cancelamento' é falta de caráter (Joel Pinheiro da Fonseca)

Desde que o mundo é mundo, um dos passatempos favoritos da espécie humana é se juntar em pequenas multidões e agredir algum indivíduo que tenha cometido algum delito (real ou imaginário) que o torne impuro e indigno de viver na sociedade. Hoje em dia, com as redes sociais, é possível participar desse prazer sem de fato apedrejar e matar a pessoa, restringindo-se aos possíveis danos psicológicos do ostracismo social. É o linchamento virtual.
Quando feito por pessoas que se consideram progressistas, o linchamento recebe o nome de "cancelamento". Como quase tudo no meio progressista brasileiro, isso é cópia de uma moda da cultura pop norte-americana. Uma pessoa famosa ou semifamosa é pega falando algo que fere a moral vigente —por exemplo, alguma atitude que possa ser interpretada como preconceituosa—; uma multidão de seguidores decide que aquele deslize a desqualifica como formadora de opinião/artista pop, e passam a atacá-la nas redes, sugerindo que todos deixem de segui-la.
Do ponto de vista de um usuário qualquer, apenas deixar uma ofensa ou deboche na página alheia é um ato pontual e de pouca importância. Do ponto de vista do alvo do ataque, que recebe dezenas de milhares de mensagens parecidas —com variado grau de falta de educação— pode ser uma experiência traumatizante.
Hoje em dia, julgamos uma pessoa pela pureza ideológica de suas crenças. Desviar um milímetro da ortodoxia aceita no pensamento ou no modo de falar é visto como revelando uma séria falha de caráter. É uma superstição. Acreditar-se um pessoa melhor por acreditar em A ou B e defender esse valor em brigas de ego nas redes sociais é equivalente às pessoas que, no passado ou no presente, se julgam superiores às outras por seguirem uma religião qualquer.
Na verdade, o que distingue as pessoas em termos éticos não é a opinião que cada um traz em sua cabeça; é a maneira como como tratam o seu semelhante, sua capacidade de controlar seus desejos imediatos em nome do bem-estar alheio, a generosidade para com aqueles de quem não se espera favores, a honestidade e boa-fé em suas relações, a profundidade e franqueza com que pensam e discutem.
Claro que, por esses critérios, um jovem adulto que xinga outro nas redes sociais por algum deslize de fala ou de opinião ocupa os degraus inferiores da escala moral. Não é o amor pela justiça, e sim a hipocrisia (afinal, todo mundo comete deslizes o tempo todo) e talvez uma certa inveja que leva alguém a se juntar a uma multidão de linchadores.
Ainda bem que a tal "cultura do cancelamento" também parece não ser muito eficaz. Há riscos reais: uma empresa pode ser intimidada a demitir um funcionário injustamente, ou familiares e entes queridos podem ser importunados.
Mas, conforme as ondas de indignação vão se tornando mais frequentes, mudando cada vez mais rápido de foco para cada novo "absurdo" dito na rede social, e conforme a sociedade vai entendendo melhor seu comportamento injusto e seletivo, o "cancelamento" fica mais impotente. Três dias depois, o alvo da patrulha —se é que conseguiu preservar sua dignidade e não se dobrou perante a turba— em geral tem mais seguidores do que originalmente, e o ódio já passou. A cultura do cancelamento mostra-se um exercício de vaidade de uma geração que acredita que a militância em redes sociais lhe confere algum tipo de traço admirável.
Folha de S. Paulo/18 de fevereiro de 2020

Os evangélicos e as eleições (Denis Lerrer Rosenfield)

Os evangélicos estão no centro do debate nacional. Tornaram-se atores políticos, pautando sua ação em valores conservadores, incluindo desde costumes até questões dogmáticas, como a mudança da Embaixada do Brasil em Tel-Aviv para Jerusalém. Ao contrário dos católicos, que não seguem normalmente os dizeres políticos de seus padres, eles tendem a observar as orientações de seus pastores. É bem verdade que os católicos são numericamente superiores aos evangélicos, porém tal diferença não tem relevância eleitoral.
Ademais, por muito tempo os católicos abandonaram posições religiosas em benefício de posições esquerdistas da Teologia da libertação, apoiada pela CNBB. Criou, por sua Pastoral da Terra, o MST e sempre o apoiou desde então. Não mais respeitou o direito de propriedade, afastando a Igreja dos empreendedores rurais. Esses setores da Igreja foram firmes apoiadores dos governos petistas.
O eleitorado evangélico considera os costumes sob uma ótica religiosa. Aí não entra em questão uma discussão propriamente racional, pois o seu fundamento se encontra num texto bíblico, que fornece os critérios do juízo e da ação. Assim é o caso do aborto, do casamento homoafetivo, dos textos didáticos sobre gênero e do que o PT considera politicamente correto. Aliás, esse partido começou a perder seu eleitorado evangélico ao contrariar essa pauta de valores. Quando Bolsonaro se manifesta sobre a pauta de costumes, tem em mente precisamente esse eleitorado.
Outro ponto de princípio dos evangélicos diz respeito à mudança da embaixada brasileira para Jerusalém. Trata-se de uma questão dogmática, não sujeita a discussão: Jesus ressuscitará quando Jerusalém se tornar a capital do Estado judeu. Passa, então, a correr outro tempo, o do processo de conversão dos judeus, passando ambas as religiões a ser uma, sob os princípios do cristianismo, principalmente o reconhecimento de Jesus Cristo como Messias.
Bolsonaro comprometeu-se com esse seu eleitorado a fazer tal mudança. Seu compromisso continua, embora por questões conjunturais tenha sido adiado. Muito provavelmente realizará essa mudança em 2021, um ano antes da eleição presidencial. Ao cumprir sua promessa, terá apoio maciço da comunidade evangélica. Note-se que Trump assim conquistou o apoio do eleitorado evangélico, ganhou as eleições e cumpriu a sua promessa.
O PT está aqui mal colocado, pois optou pelo politicamente correto de forma esquerdizante e se chocou de frente com os evangélicos. As contrariedades e os ressentimentos se traduziram no apoio ao candidato Bolsonaro em 2018. As posições antissemitas/antissionistas do PT igualmente tiveram papel importante no distanciamento. Lula tenta uma reaproximação, porém suas dificuldades são imensas. A visita ao papa tampouco atenua o problema, ao dirigir-se a outro eleitorado, além de seu caráter manifestamente inapropriado ao envolver o santo padre numa questão política, a da corrupção e do roubo em seus governos, sem arrependimento nem confissão.
Tomemos o exemplo da Assembleia de Deus. Essa confissão tem no Brasil em torno de 20 milhões de membros. São pessoas acima de 14 anos de idade, capazes de fazer a escolha de sua religião, quando então se tornam parte integrante dela, em sentido pleno. Considerando a idade eleitoral de 16 anos, quase todos são eleitores, em sentido estrito. Não barganham com questões dogmáticas, como certos preconceitos veiculam contra os evangélicos. Foram missionários suecos que a introduziram no País. São pessoas extremamente sérias e comprometidas com sua religião. A Igreja Universal do Reino de Deus, numericamente menor, tem, por sua vez, enorme importância midiática, por ser proprietária da Rede Record. Trata-se de uma rede de comunicação que abarca principalmente as classes C e D.
Qualquer PEC ou projeto de lei, para ser aprovado na Câmara dos Deputados, necessita passar pelo crivo da bancada evangélica. Após a bancada da agricultura e da pecuária, é a segunda em importância. A Câmara tem 513 deputados federais e a bancada evangélica, 86. Outras estimativas chegam a 106. O Senado tem 81 parlamentares e a bancada evangélica, 9. Outras estimativas chegam a 14. Qualquer articulação parlamentar de governo deve passar por tratativas com essa bancada, que sempre sustentará suas questões de princípio, mesmo quando não forem objeto específico de negociação.
Os evangélicos estão distribuídos em vários partidos, embora votem alinhados entre si. A sua estratégia consiste em captar o maior número possível de eleitores em diferentes configurações partidárias, atendendo a conveniências regionais. Ademais, escolhem candidatos preferenciais em cada Estado, concentrando neles os seus votos. Os candidatos escolhidos são pessoas próximas das lideranças religiosas e delas dependem, agindo organicamente. Muitos são “filhos espirituais”, assessores e discípulos.
Bolsonaro extraiu bem essa lição. O PT não a levou em consideração. Os demais candidatos deverão enfrentar essa questão.
O Estado de S. Paulo/17 de fevereiro de 2020

O resultado das eleições conta (Albert Fishlow)

No mundo todo, a espera angustiante por notícias otimistas tornou-se a regra. O coronavírus parece estar se espalhando. A taxa de mortes vem crescendo acentuadamente na China, enquanto em outros países o número de casos vem aumentando, ainda que com menor intensidade. As restrições às viagens de chineses estão se ampliando em toda parte, especialmente após a pausa dos feriados de ano-novo. Apropriadamente, estamos no Ano do Rato, o que traz à lembrança os horrores da Peste Negra de muitos séculos atrás. Desta vez, o morcego parece ser o principal responsável.
As consequências para o comércio internacional são negativas, o que impede a recuperação do mercado mundial e a reversão dos baixos números dos anos recentes. A globalização cede espaço a um populismo intenso e a barreiras protetoras, que dificultam o fluxo de bens e serviços, de capitais e pessoas. A busca por soluções locais ganhará prioridade.
Sem um impulso econômico externo, vai se apelar para déficits nacionais para manter o crescimento. Todos estão surpresos de que a menor alta nos preços não tenha levado a taxas de juros maiores. Assim, nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e outros países europeus, bem como na China, Índia e parte da América Latina, têm se registrado grandes déficits. O menor custo da manutenção de estoques e as taxas menores de juros nos países em desenvolvimento ainda são suficientes para atrair um capital externo que, em seus países de origem, tem retorno negativo.
A política é a principal preocupação do momento. A maioria dos líderes (e parlamentares) prefere hoje ações governamentais que aumentem os gastos em lugar de os restringir. Entre a atual retração e o anterior compromisso democrático, a decisão de gastar ganha força. Há ainda uma ajuda adicional na queda de preços, especialmente dos combustíveis, reduzidos por causa do menor crescimento industrial da China e do aumento do fraturamento hidráulico pelos EUA para extração de petróleo.
As próximas eleições nos Estados Unidos e Brasil são relevantes. Populistas de direita – como os atuais presidentes dos dois países – acreditam nas virtudes dos ricos e na preguiça dos pobres. Há pouco interesse em melhorar a distribuição de renda. Eles acham que governos locais são totalmente responsáveis pela saúde, educação, saneamento, etc, permitindo assim a redução de impostos federais sobre a riqueza. É chocante como esses serviços essenciais são negligenciados e como é baixa a qualidade dos ministros da educação.
Trump foi absolvido no julgamento de impeachment. Todos os senadores democratas votaram pela saída do presidente e apenas um senador republicano votou a favor do impeachment. A ira de Trump veio à tona em numerosos tuítes, concentrando-se naqueles que tiveram o desplante de tentar proibi-lo de fazer o que quiser, quando quiser.
Muitos funcionários que testemunharam contra ele foram demitidos dos cargos. E a popularidade de Trump aumentou nas pesquisas, enquanto democratas da esquerda populista apelam para os jovens em busca de mudanças revolucionárias. Trump os chama de comunistas.
Bolsonaro no momento está sem partido. Sua projetada Aliança para o Brasil – na qual procura apoio popular via internet – não estará em condições de disputar as próximas eleições municipais. Mas candidatos que apoia certamente aproveitarão todas as oportunidades de se identificarem com ele.
Bolsonaro tem demitido ministros e outros funcionários que o desagradam. Seu círculo administrativo mais próximo consiste agora de militares. Ao mesmo tempo, ele mantém no governo – em cargos diferentes – alguns demitidos por comportamento inapropriado, mas que têm apoio de seus familiares. Sua popularidade também sobe.
As próximas eleições presidenciais em ambos os países vão mostrar se o centro conseguirá retomar o controle político e reestabelecer compromissos com valores democráticos. Parlamentares e tribunais têm um papel decisivo a desempenhar, em lugar de serem dominados pelo Executivo. E, num sistema federalista, o mesmo se aplica a governadores e deputados. Tanto nos EUA como no Brasil, diferenças regionais voltaram como fator divisório que eram antes. Isso é também é verdadeiro em todo o mundo. A resistência à imigração avança. O livre comércio é desafiado como não era desde os anos 1930.
A força positiva da globalização dos últimos 60 anos perde terreno para um nacionalismo crescente. Esse desafio exige liderança real para evitar um retorno a décadas menos felizes e menos prósperas. / Tradução de Roberto Muniz
O Estado de S. Paulo/16 de fevereiro de 2020

A tentação de Goebbels (Simon Schwartzman)

Em 1934 o jovem Luís Simões Lopes, chefe de gabinete de Getúlio Vargas e mais tarde criador do Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp) e da Fundação Getúlio Vargas, vai a Berlim, fica fascinado com o Ministério de Propaganda de Goebbels e manda uma carta entusiasmada para o presidente dizendo que o Brasil precisava de algo parecido. “O que mais me impressionou em Berlim”, escreve, “foi a propaganda sistemática, metodizada do governo e do sistema de governo nacional-socialista. Não há em toda a Alemanha uma só pessoa que não sinta diretamente o contato do nazismo ou de Hitler, seja pela fotografia, pelo rádio, pelo cinema, através da imprensa alemã, pelos líderes nazis, pelas organizações do partido...”.
A carta expressa dúvida sobre a obsessão nazista com a grande conspiração dos judeus para dominar o mundo (“parece-me que através do capitalismo seria mais fácil”), mas é só um detalhe: “A organização do Ministério da Propaganda fascina tanto que eu me permito sugerir a criação de uma miniatura dele no Brasil.
Evidentemente, não temos recursos para manter um órgão igual ao alemão (...), mas podemos adaptar a organização alemã dotando o país de um instrumento de progresso moral e material formidável. A Alemanha, além de outras todas, leva-nos a vantagem de ter um governo praticamente ditatorial”.
“Com todos os tropeços que se nos deparam, devemos ensaiar a adoção dos métodos modernos de administração, de órgãos de ação pronta e eficaz, experimentados em outros países.”
Depois de detalhar as áreas de atividade do ministério, a carta continua dizendo que “a antiga nobreza é contra Hitler, que acabou na Alemanha com as castas”, e “a democratização é um fato. Os ‘dancings’, cinemas etc., que eram frequentados pela elite, estão hoje repletos de povo, que vive satisfeito e distraído, esquecido da política”.
Num apêndice há um resumo das principais áreas de atuação do Ministério da Propaganda: são dez itens, começando com questões gerais da vida social e política, combatendo os adversários dentro e fora do país e controlando todos os meios de propaganda e publicação, da arte e de cultura, e culminando com a organização de manifestações oficiais, festas nacionais, feriados e o hino nacional.
Estávamos em 1934, ano em que uma nova Constituição foi promulgada, com a promessa de marcar uma nova eleição em 1938. Dois anos antes São Paulo havia se insurgido contra o governo central e a nova Constituição foi, sobretudo, uma tentativa de conciliação de Vargas com as elites paulistas, que durou até a implantação da ditadura, em 1937.
Não é por acaso que essa carta tenha sido repassada por Getúlio para Gustavo Capanema, Ministro da Educação, em cujo arquivo se encontra. Na visão de Getúlio, e do próprio Capanema, caberia a esse ministério, em aliança com a Igreja conservadora, administrar o uso do rádio, do cinema, das artes, dos currículos escolares e de grandes eventos cívicos, como os grandes desfiles e o canto orfeônico, mobilizando o povo a favor da Nação, tal como entendida pelo governo.
Ao longo dos anos, o ministério fez o que pôde para cumprir esse papel, ao mesmo tempo que acenava para os intelectuais com a proteção ao patrimônio histórico e a convivência com os modernistas, Em 1939, desistindo do Ministério da Educação, que chegou a ser prometido a Plínio Salgado, Vargas finalmente segue a sugestão de Simões Lopes e cria o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), a versão cabocla do ministério de Goebbels. Basta ler os objetivos do DIP no seu decreto de criação para ver que foram praticamente copiados do resumo feito cinco anos antes por Simões Lopes.
Simões Lopes e Getúlio Vargas compartilhavam a ideia de que a democracia representativa era um modelo político fracassado, que precisava ser substituído por regimes que fizessem uso de todos os meios para modernizar a sociedade e instaurar a verdadeira democracia, que para eles significava deixar o povo “satisfeito e distraído”. O que diferenciava o regime de Vargas dos fascismos europeus era que ele via a mobilização ideológica como ameaça, e por isso mesmo se desfez de seus aliados integralistas logo após o golpe de 1937.
Coisas como antissemitismo, nacionalismo, religião, normas constitucionais, direitos humanos, arte, literatura, todo esse mundo de valores e princípios, certos ou errados, eram meras conveniências que podiam ou não ser usadas para conseguir o que importava: a administração “moderna”, a capacidade de ação “pronta e eficaz” e o esperado progresso “moral e material”.
É possível que hoje, como nos anos 1930, a grande tentação de Goebbels não seja tanto a ideologia grotesca do nazismo, com o antissemitismo assassino, o nacionalismo doentio, o anti-intelectualismo e o culto macabro da morte e da violência, mas, sobretudo, a indiferença ética e moral dos que colocam seus objetivos políticos, com boas ou más intenções, acima de tudo e não se importam com os meios para chegar a seus fins.
É isso que nos deve preocupar mais.
O Estado de S.Paulo/14 de fevereiro de 2020