terça-feira, 15 de novembro de 2016

Neopopulismo (Sérgio C. Buarque)

O nacional-populismo envelheceu e mudou de endereço. Durante grande parte do século passado, o nacionalismo foi a energia que mobilizou milhões de pessoas na luta contra o colonialismo e a dominação imperialista na África, na Ásia e na América Latina.
O nacionalismo transformou o mundo, acabando com o sistema de exploração das colonias e neutralizando os mecanismos nem sempre sutis de submissão econômica e cultural das nações pobres. E o populismo surgiu como uma alternativa política mobilizadora do nacionalismo conduzida por líderes carismáticos em países com frágeis instituições e limitada organização da sociedade.
Assim, é possível dizer, sem exageros, que o nacional-populismo foi um dos mais importantes movimentos do século XX pela sua amplitude e pela mudança radical das relações entre as nações e a formação de centenas de novos Estados nacionais independentes.
O nacional-populismo emerge agora, em pleno século XXI, em alguns dos países altamente desenvolvidos, como Estados Unidos e Europa, numa estranha e descabida reação ao processo de globalização que tem beneficiado, precisamente, as nações líderes em capacidade de inovação e tecnologia.
O nacionalismo e o populismo se deslocaram dos antigos países do Terceiro Mundo para as nações ricas e os antigos impérios coloniais. Neste caso, vão ganhando formas retrógradas e violentas de xenofobia e isolacionismo. Foi este novo populismo com ranço nacionalista e isolacionista que levou à vitória do inominável Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e à aprovação do Brexit no plebiscito no Reino Unido e que alimenta a direita da França e outros países da Europa.
O neo-populismo reacionário e anacrônico explora a insegurança e o medo de segmentos da sociedade e da economia destes países que não conseguiram acompanhar as mudanças geradas pela globalização ou ficaram presos aos velhos paradigmas.
Como sempre, no discurso populista a culpa das mazelas e fragilidades internas é dos outros, fatores e atores externos, como a concorrência dos países emergentes, especialmente a China, os imigrantes, e a entrada de mercadorias e de trabalhadores estrangeiros. E, no entanto, estes países, especialmente os Estados Unidos, lideraram e se beneficiaram amplamente da globalização, tanto pela abertura comercial quanto pela imigração de talentos de diferentes países e culturas que fertilizam a inovação e o desenvolvimento.
Alimentado pela descarada e arrogante xenofobia, criando inimigos internos e externos e agredindo as outras nações e povos, o neo-populismo dos países desenvolvidos é uma ameaça grave à paz mundial e à própria tranquilidade interna. Foi um fenômeno semelhante de paixões nacionalistas carregadas de ódio e intolerância e exploradas por líderes carismáticos que gerou o nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália.
Como naqueles trágicos anos do século passado, os neo-populistas acendem o ressentimento dos segmentos mais atrasados da sociedade que viveram anos de glória no passado e não aceitam as mudanças decorrentes da revolução tecnológica e da globalização. Claro que o mundo hoje é muito diferente, nos valores, nas instituições e nas regras internacionais. Mas quando o neo-populismo se instala com toda pompa na maior potência econômica e militar do planeta, tremem os alicerces da ordem mundial.
Fonte: Revista Será?


domingo, 13 de novembro de 2016

A urgente reforma do Ensino Médio (Roberto Freire)

Uma das questões mais graves que afligem o país e sobre a qual a sociedade brasileira deve se debruçar é a falência do nosso sistema educacional, sobretudo quando observamos o modelo do Ensino Médio nas escolas. Diante de tal desmantelo após 13 anos de gestões lulopetistas, o governo do presidente Michel Temer não fugiu à sua responsabilidade e teve a coragem de apresentar uma Medida Provisória que propõe a reforma desse importante segmento escolar, levando em consideração a urgência e a relevância da matéria. Não podemos mais perder tempo e cruzar os braços enquanto o futuro do Brasil fica seriamente comprometido.
Não faltam indicadores que apontam, de forma categórica, o quanto nossos jovens sofrem com a falta de qualidade e o descalabro da educação em geral. Dados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015 mostram que nada menos de 91% das 8.732 escolas públicas do país com notas divulgadas obtiveram um desempenho abaixo da média na avaliação nacional. Já o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) teve sua meta para o ano passado cumprida apenas nos anos iniciais do Ensino Fundamental (etapa que vai do 1º ao 5º ano), enquanto o Ensino Médio não alcança o índice mínimo estipulado desde 2013 e, para piorar, apresenta uma estagnação desde 2011.
Como já afirmou a secretária-executiva do Ministério da Educação (MEC), Maria Helena Guimarães, o retumbante fracasso do Ensino Médio revela a absoluta falência do sistema atual e reforça a necessidade de um novo modelo para o país. Ao contrário do que apontam, equivocadamente, os críticos da Medida Provisória, haverá tempo mais do que suficiente para um amplo debate envolvendo a sociedade, especialmente as escolas, os professores e até os alunos. Entretanto, essa discussão não se dará indefinidamente e terá um prazo para que as novas regras sejam postas em prática – para que um assunto tão sério não se transforme em uma negociação prolongada e infrutífera, a tônica desses últimos anos.
Outra falácia propagada pelos críticos da MP sugere que disciplinas como artes e educação física poderiam ser excluídas da lista de conteúdo obrigatório. Na verdade, será a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio, que já começou a ser discutida em seminários e debates com as secretarias estaduais de Educação, professores e especialistas na área, que vai determinar os conteúdos obrigatórios de 50% da carga horária. A partir daí, o MEC irá elaborar uma proposta final da BNCC, o que deve acontecer até o fim do primeiro semestre do próximo ano. Em seguida, o texto será encaminhado para avaliação do Conselho Nacional de Educação (CNE) e só será implantado quando a BNCC for aprovada. Grosso modo, trata-se de um necessário processo de descentralização a partir da discussão com os estados – que serão, afinal, os responsáveis pela aplicação das mudanças.
Enquanto aqueles que foram apeados do poder pelo impeachment e pelas urnas se voltam contra a reforma, notórios especialistas como o senador Cristovam Buarque, do PPS, que dedica sua vida pública à educação, é um dos grandes entusiastas das mudanças propostas pelo governo. Ele destaca, sobretudo, a importância de seguirmos modelos bem sucedidos adotados em países como Japão e Coreia do Sul, que oferecem mais disciplinas optativas aos alunos. É evidente que haverá um conteúdo obrigatório, mas também uma flexibilização que permitirá aos estudantes escolherem as matérias que mais se adequam ao seu futuro perfil profissional e objetivos de vida.
Em mais de 13 anos de governo, Lula e Dilma não só fizeram pouco pela educação brasileira como, o que é pior, alcançaram a inacreditável façanha de aumentar o índice de analfabetismo no país em pleno século XXI. Depois de experimentar tamanho retrocesso, o Brasil exige mudanças substantivas em um modelo que, comprovadamente, não funciona mais. O legado perverso deixado pelo PT nessa área crucial é tão ou ainda mais nefasto do que a chaga da corrupção e compromete o futuro de milhões de jovens em todo o país. A reforma do Ensino Médio, urgente e necessária, é o primeiro passo para construirmos uma nação mais digna.
11/11/16




O pós-PT (José Roberto Toledo)

• Em 2016, ao longo da novela do impeachment coadjuvada pela recessão, o petismo perdeu mais dez pontos e voltou ao século passado
- O fim da era petista decretado pelas eleições municipais de 2016 é mais do que um fato histórico. Ao quebrar o modelo das disputas políticas no País nas últimas décadas, diz tanto sobre o passado quanto sobre o futuro da política brasileira. Sua resultante tem muitos nomes: vitória da antipolítica, guinada à direita, ressurreição do PSDB, ressaca da Lava Jato. Em maior ou menor grau, todos nomeiam partes do fenômeno. Para tentar compreendê-lo no todo, convém repassar a história.
A exuberância do consumo popular nos anos Lula produziu um inchaço do petismo. Em média, a preferência pelo PT cresceu oito pontos (um PSDB de novos simpatizantes) no período de 2002 a 2010 em comparação aos oito anos anteriores. Inchaço porque não foi um crescimento sustentável. Durante a era Dilma, a simpatia pelo partido recuou tudo o que crescera e mais um pouco: nove pontos, na média 2011-2015 da preferência partidária do Ibope.
Em 2016, ao longo da novela do impeachment coadjuvada pela recessão, o petismo perdeu mais dez pontos e voltou ao século passado. Essa fotografia da crise foi tirada após a maior derrota eleitoral do PT em sua história. Ainda não se sabe se plasmou o fim do partido como o conhecemos ou se registrou um momento de exceção. Por isso, é melhor analisar as médias.
Mesmo terraplanando os picos de euforia e depressão petista, o governo Lula inflou em 50% a preferência pelo PT. Encheu-a pelo bolso, muito mais de pragmatismo do que de ideologia. Mais gente passou a frequentar o supermercado e abrir crediário na Casas Bahia. Menos gente fez greves e promoveu invasões de terra.
Em paralelo à desmobilização da militância partidária e ao torpor sindical, as prefeituras, as câmaras, as assembleias e a Esplanada dos Ministérios se encheram de petistas. Novos e velhos, convertidos e históricos, aos milhares. A ocupação do poder institucional somada ao inchaço da preferência pelo PT mudou o comportamento do eleitorado brasileiro como um todo, inclusive o das outras forças políticas. Por reação.
Se antes de o PT ganhar eleições federais sucessivas e desalojar outros partidos já existia um antipetismo, depois disso ele ganhou dimensão muito maior, proporcional ao protagonismo do partido e de seu líder, Lula. A partir de 2004 e, em especial, de 2006, as eleições se organizaram em um eixo PT versus anti-PT. A polarização passou a ter fronteiras no mapa.
Era possível ver as forças antagônicas de luneta (nas grandes regiões, o Nordeste versus o Sul-Sudeste antipetista) e no microscópio (dentro das cidades, a periferia pobre pró-PT versus centro rico anti-PT). O engajamento cresceu de ambos os lados. Houve um aquecimento global do clima político.
Mais cabeças foram feitas. Em 2010, os “engajados convictos” eram 49% do eleitorado, segundo estudo do Ibope Inteligência. Ou seja, metade definiu seu voto logo no começo da campanha, assim que descobriu quem era a candidata do PT e quem era seu principal opositor. Em 2016, diminuiu muito o engajamento. Houve um terço a menos de cabeças-feitas, na maioria ex-petistas.
Esses 15% do eleitorado viraram um “isentão decisivo” (de 17% para 23%) ou um desinteressado por política que “só vota obrigado” (de 27% para 33%). Ambos deixaram para definir seu voto e prefeito na última hora. Os 3% restantes simplesmente não votaram, elevando os ausentes do processo eleitoral para 10%.
O desinchaço do petismo não apenas levou à derrocada do partido, como contribuiu para diminuir o engajamento médio do eleitorado como um todo. Junto com as mídias sociais, estimulou o voto volúvel e improvisado, produzindo mudanças de última hora nas corridas eleitorais. Por tabela, ajudou a viabilizar azarões, inflou os votos nulos e favoreceu aqueles que se apresentam como antipolíticos. E isso é só o começo.
Fonte: O Estado de São Paulo (07/11/16)

‘Podemos ter explosão de votos em branco e nulos’ ( Jairo Marconi Nicolau)

• Diante do aumento das abstenções e de votos em branco e nulos na eleição deste ano, o cientista político Jairo Nicolau é pessimista. O professor da UFRJ prevê para 2018 uma “explosão de insatisfeitos”
Jairo Nicolau, que lança em breve seu novo livro, “Representantes de quem?”, (editora Zahar) frisa que este é, por enquanto, um fenômeno só das grandes cidades de Sul e Sudeste derivado, principalmente, dos protestos de junho de 2013, dos escândalos de corrupção envolvendo a elite política, da crise do PT e das novidades impostas pela mudança na legislação eleitoral. Diz que, no horizonte, não há candidatos nem partidos capazes de motivar esse eleitor.
• O que explica o crescimento da abstenção pelo país?
A abstenção não é exclusivamente uma manifestação política. É claro que uma parte dos eleitores, e é quase impossível saber quanto, expressa isso. Outra parte também tem a ver com o problema do próprio cadastro. Cidades, como o Rio, fizeram o último recadastramento em 1986. Tem muita gente que mudou de cidade ou mora em outro bairro distante da sua seção eleitoral. Há também aqueles para quem o voto é facultativo, com mais de 70 anos. Além disso, o que é residual —e é um problema também— é que as pessoas morrem. Há uma demora para a retirada dos mortos do cadastro eleitoral. Mas a abstenção política está crescendo marginalmente, particularmente nas grandes cidades.
• O aumento de votos em branco e nulos preocupa?
Trata-se de um fenômeno concentrado nas cidades maiores. Tem quatro cidades para as quais chamaria atenção nesta eleição: Rio, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Nelas, tanto o voto em branco e nulo para prefeito quanto para vereador estão subindo eleição a eleição. Desta vez, bateu recorde. Em cidades médias do Brasil, com mais de 200 mil habitantes, esse fenômeno também cresceu, particularmente para as Câmaras municipais. No interior do Brasil, nada disso aconteceu: a taxa de brancos e nulos praticamente não se mexeu. O fenômeno está concentrado nas grandes cidades, no Sul e no Sudeste, não é ainda nacional. Claro que é preocupante. É inequívoco que a gente está diante de uma manifestação de desencanto e protesto.
• O que explica essa concentração nas grandes cidades?
Essa visão difusa contra os políticos é maior nas grandes cidades por conta das manifestações de junho de 2013, por conta dos canais em que essas informações circulam mais. No interior também tem Facebook, redes sociais, mas a impressão é que essa onda se iniciou entre as pessoas mais escolarizadas dos grandes centros e começou a se espalhar entre os mais pobres. Eleição no interior é outra coisa. Todo mundo conhece o candidato a prefeito, encontra na rua. Todo mundo tem alguém na família que é candidato a vereador.
• O sentimento antipolítica está mais forte no país desde junho de 2013?
Junho de 2013 é uma virada. A maior parte da opinião pública sempre criticou os partidos, o Congresso. Basta ver as pesquisas de opinião dos anos 1980. O que se passou de 2013 para cá? Pela primeira vez, tivemos manifestações agressivas e tendo os políticos como alvo. Isso contribuiu para reforçar uma ideia negativa da política. Depois, com tudo o que se passou no país, a desconfiança em relação à nossa elite política cresceu, por razões óbvias, pelos escândalos todos. Teve mais um fator que não pode ser desconsiderado: a crise do PT. O PT sempre foi visto como um patrimônio. Quando entrou na ciranda, isso aumentou o pessimismo. Lamentavelmente, a crise do PT não é a crise de um partido. Quando lideranças importantes são envolvidas nesses escândalos, isso sinaliza para a sociedade o seguinte: não dá, é tudo igual, política não presta. Desde que a urna eletrônica foi adotada, as taxas de branco e nulo reduziram muito. Achava que tínhamos chegado em um patamar entre 5% e 10%, esperado para uma democracia que tem o voto obrigatório. Só que a gente voltou a estourar a barreira dos 20%. Voltamos para os brancos e nulos da era da cédula de papel, em que tinha muito branco e nulo por erro, por dificuldade de preenchimento. É uma notícia ruim para a democracia.
• A nova legislação eleitoral pode ter contribuído para esse fenômeno?
As campanhas ficaram muito cerceadas. As motivações da lei são boas, as cidades estão mais limpas. Tive oportunidade de andar no interior do estado e vi a eleição muito animada, gente na rua, carreatas. As pessoas conhecem os vereadores. A televisão não tem tanta importância. No Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte, a campanha não apareceu na rua, porque foi muito curta e cerceada. Não estou criticando o cerceamento, ele é legítimo, mas bem ou mal o eleitor conhecia os candidatos. Os candidatos das grandes cidades não tiveram nem tempo fixo na televisão. Eram aquelas inserções que pingavam. Tanto que os candidatos de reduto e com uma certa máquina foram mais bem sucedidos. Você precisa ter formas de fazer com que a campanha chegue (aos eleitores). Uma parte desses votos brancos e nulos atribuo a esta nova legislação eleitoral.
• E na disputa pela prefeitura?
A eleição ficou curta demais. A lei passou (as campanhas) de 90 para 45 dias, tentando reduzir os custos. Talvez devesse ser de 90 para 60 ou 70 dias. No Rio, particularmente, por conta das Olimpíadas e Paralimpíadas, a energia do carioca ficou muito concentrada em outros temas. De repente, o tempo na TV foi muito curto. Na TV também passou de 45 para 35. No horário eleitoral, o tempo de dez minutos ficou pouco. Houve um erro, o debate foi rápido. Talvez a gente tenha que se adequar a este modelo. Não achava ruim três meses de campanha. Principalmente os candidatos que fazem campanhas mais artesanais, reuniões nas casas, precisam de tempo.
• A reforma política ajudaria a fortalecer a participação do eleitor?
Claro que mudar um pouco a legislação e aspectos eleitorais poderia deixar o sistema mais simples, com uma disputa com menos concorrentes. Isso contribuiria para um sistema eleitoral mais eficiente. Mas a questão é que esse debate nutriu muitas esperanças falsas de que você pode mudar a qualidade da elite política mudando o sistema eleitoral. Há uma onda de crítica à elite política. No lugar de se buscar melhores candidatos e partidos, se entrou em um movimento de recusa para bem ou para mal, e acho que para o mal. Na próxima eleição, em 2018, não tenho dúvida, os políticos vão continuar encontrando um território árido, um eleitor desconfiado. Isso dificulta ainda mais a campanha dos candidatos. Se nada mudar, podemos chegar à eleição de 2018 com uma explosão de votos em branco e nulos, chegando entre 20% e 30%. Não vejo nada no horizonte a curto prazo capaz de inverter esse padrão, um candidato ou um partido que encante ou retome a confiança. O que vemos na prática com esse comportamento é que uma parte dos eleitores está começando a incorporar a ideia da abstenção e voto em branco e nulo como práticas. Em 2018, vai ser pior. Porque é uma eleição nacional.
(Marlen Couto - O Globo/06/11/16)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Nove ‘verdades’ que esta eleição desmente.. (Fernão Lara Mesquita)

- Nove ‘verdades’ que esta eleição desmente...brasileiro não sabe votar, Lula ainda é força para 2018,o Brasil é uma democracia...
1 – “Identificação biométrica e rapidez de apuração são provas do avanço da democracia brasileira.” É exatamente o contrário. Aqui o eleitor só entra em campo depois do jogo jogado para dizer sim ou não aos escolhidos dos “caciques” dos partidos. Em democracias de verdade, como a americana, a suíça e outras, aproveita-se toda e qualquer eleição para que o eleitor decida literalmente tudo. Junto com presidentes, legisladores ou prefeitos ele elege diretamente os funcionários públicos sem função exclusivamente política, tais como xerifes, policiais, promotores, diretores de escolas públicas, etc.; vota leis de iniciativa popular; referenda ou derruba leis do Legislativo; autoriza ou não impostos novos ou aumentados; aprova ou não a contratação de dívida; confirma ou não o mandato do juiz da sua comarca; vota o “recall” ou não de funcionários eleitos na eleição anterior. Para a eleição da semana que vem, 162 temas adicionais, 71 propostos por abaixo-assinados de cidadãos comuns, foram certificados em 35 Estados para constar das cédulas pedindo decisão dos eleitores de Trump ou Hillary. Por isso 30 milhões deles já receberam suas cédulas com um mês de antecedência e as vão enviando preenchidas pelo correio. Por isso demora para apurar eleições em democracias de verdade.
2 – “A política não se renova porque brasileiro não sabe votar.” Essa afirmação toma o efeito por causa. O povo elege o de sempre porque só consegue autorização para se apresentar como candidato quem se compõe com os donos dos partidos. Por isso reforma política pra valer inclui necessariamente um ponto-chave da que os americanos fizeram lá atrás. Tornar as eleições municipais apartidárias para quebrar as pernas dos “caciques” (cujo poder passaria do controle dos 5.570 potenciais “currais” municipais de hoje para apenas 27 estruturas estaduais) e abrir as portas da política à entrada de sangue novo. Qualquer um pode candidatar-se a prefeito ou vereador sem pedir licença a ninguém.
3 – “Há partidos vitoriosos nesta eleição.” Esta foi a eleição do “não”. “Eu não voto mais”, “eu não voto no PT”, “eu não voto em ladrão”, “eu não voto em político”, etc... O mais foi consequência do controle da portaria do “Sistema”. Votou-se no que sobrou dos “nãos”, já era conhecido ou pôde botar a cara na TV pra mostrar que existia, o que vale dizer estar num partido grande e velho. Ponho a mão no fogo como 99% dos eleitores não sabem em que partido votaram, ou, se lembram, não sabem nem a tradução da sigla daquele em que acabaram votando, mesmo dos tradicionais.
4 – “A ideologia move a polarização esquerda x direita.” Nem os presidentes dos partidos conseguem definir esquerda e direita. Mas um grande divisor de águas aparece nítido no Brasil, como no resto do mundo, especialmente o latino: ser contra ou a favor da austeridade fiscal. Só que não é uma fronteira ideológica, é fisiológica: de um lado pena a massa que paga a conta, trabalhando dobrado e ganhando a metade; do outro se entrincheira a “casta” que é paga pela conta, trabalhando a metade e ganhando dobrado. É essa que, sentindo-se agora ameaçada, quebra-quebra e queima pneus por aí porque as TVs lhe deram a dica de que esse é o jeito de o seu “dane-se a miséria nacional, ninguém toca no meu!” alcançar mais do que as esquinas que já não consegue encher de gente e soar como o contrário do que é.
5 – “É impopular encarar de frente os problemas mais velhos e óbvios do Brasil.” Se há algo que ficou bem definido nesta eleição, é que quanto mais assertivo foi o candidato em relação a eles – necessidade de ajuste, privatização, desmonte da corrupção de sindicatos e partidos com dinheiro de imposto, fim da chantagem trabalhista e dos “marajalatos” –, mais fulminante foi sua eleição e a distância aberta em relação ao oponente, não importando as “tradições” das praças envolvidas. João Doria e Nelson Marchezan são os exemplos mais visíveis, mas não os únicos.
6 – “Existe um preconceito de gênero.” O número de prefeitas e vereadoras eleitas caiu, apesar da “cota” de 30% de candidatas imposta por aquele mesmo pessoal que, conforme a hora, nos diz que “não existe gênero” senão o que cada um escolhe para si. Quem escolheu não eleger seu prefeito ou vereador só por esse atributo foi a metade feminina do eleitorado brasileiro, ou, se quiserem, os 100% “sem gênero definido pela natureza” que acabam de aprender, com Lula e Dilma, que pôr alguém para cuidar da coisa pública só por ser mulher é um tipo de oportunismo para enganar trouxa que em geral acaba em desastre.
7 – “Lula ainda é uma força para 2018.” Nesta campanha, “ter apoio de Lula” passou a ser a “denúncia” atirada por candidatos “de esquerda” contra candidatos “de esquerda”. Em quem colou não sobrou nada...
8 – “Basta melhorar a gestão pro Brasil ir pra frente.” Foi-se o tempo! Agora o setor público está que não tem nem pra lavar o chão do IML, como no Rio, e a economia privada, em choque hemorrágico, não tem mais com que se reerguer, mas a reforma da Previdência de que se fala não toca nos “marajás”, só põe dinheiro no caixa no futuro distante, e a PEC 241 nem menciona o rombo de Estados e municípios. A briga em torno de quem vai pagar essa conta (na qual as denúncias da Lava Jato serão as armas nos bastidores) nem começou ainda.
9 – “O Brasil é uma democracia.” Da democracia não temos nem o elemento definidor, que é o império da lei igual para todos. Na raiz do presente desastre estão os privilégios legalizados e direitos “adquiridos” que “foros especiais” podem tornar até hereditários, como na Idade Média. Sem um direito só pra todo mundo não tem saída. E pra chegar lá tem de pôr o povo no poder, o que se faz submetendo os eleitos aos eleitores antes e depois da eleição, com prévias transparentes para escolha dos candidatos e “recall” para a troca dos que, eleitos, “apresentarem defeito”. Sem isso “O Sistema” continuará para sempre indomesticável, cavalgando impunemente o lombo do povo.
*Jornalista, escreve em www.vespeiro.com
04 Novembro 2016

Um pouco de quixotismo não faz mal a ninguém (Luiz Werneck Vianna)

Não dá para recusar: por mais desalentadora que tenha sido essa eleição com tantas abstenções, votos em branco ou nulos, ela estabeleceu um marco divisório na política brasileira. Não certamente pelo advento de novas narrativas que trouxessem alento para uma sociedade incerta dos seus caminhos quanto a seu futuro, menos ainda pelo surgimento de novas identidades coletivas ou de personagens que semeassem palavras de esperança, que nos faltaram. Mas, se ela não nos traz o novo, enterra um passado que nos tem pesado como chumbo, nesse longo ciclo errático que vai de Vargas a Lula-Dilma, em que temos sido prisioneiros do processo de modernização por cima que nos trouxe ao mundo com seu culto à estatolatria – do Império de um visconde do Uruguai à República com a linhagem que se inicia com Oliveira Vianna.
Se agora tateamos com o olhar perdido na longínqua sucessão presidencial de 2018, não foi por falta de avisos. Tanto os pequenos abalos que passaram a agitar a superfície da cena política quanto o grande movimento sísmico das jornadas de junho de 2013 não nos serviram para uma incontornável mudança de rumos. Fizeram-se ouvidos moucos a eles, com a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição no ano seguinte àquelas jornadas de multidões em protesto contra a política tal qual a praticamos, sustentando em campanha eleitoral – em que prometera “fazer o diabo” para vencer – os mesmos rumos malsinados do seu primeiro governo.
Perdidos em agitações estéreis, não reparamos no movimento da Terra que traz consigo a mudança das estações, metáfora famosa de Joaquim Nabuco em Minha Formação. Agora não adianta chorar o leite derramado. Está aí uma sociedade desencontrada da política, uma juventude que começa a descobrir o caminho das ruas pelo mapa de ideias de antanho, sem guias provados, os partidos em frangalhos, com as grandes corporações de Estado atuando sem freios, chegando a ameaçar o espaço do que deve ser reserva da soberania popular, às vezes mal escondendo o interesse próprio.
Essa é uma hora dos partidos e dos políticos, com o que ainda nos sobra deles, de iniciar um processo autocrítico, que para ser verdadeiro reclama a urgência da reforma das nossas instituições políticas, com a adoção de uma cláusula de barreira à representação parlamentar e o fim das coligações eleitorais nas eleições proporcionais, protegendo-se as minorias com os recursos de uma engenharia institucional adequada. Pois é da experiência consagrada que as democracias não tenham ainda encontrado solução melhor que a da representação política, sem prejuízo de que prosperem as formas de democracia direta, presença embrionária na Carta de 1988 que cumpre desenvolver. Sem ela não há salvadores da pátria que nos salvem.
Também é hora dos intelectuais, cuja intervenção em outros momentos difíceis foi seminal para o descortino de possibilidades que viessem a animar a imaginação dos brasileiros na construção do País, bastando lembrar, em rol sumaríssimo, o papel antes desempenhado por Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior e Mário de Andrade, cujas obras exemplares inovaram o repertório de nossas formas de agir e de pensar. Tanto a institucionalização da vida intelectual como a crescente especialização de suas atividades – caso extremo nas universidades –, processo que, em linhas gerais, se deve reconhecer como benfazejo, mas tem implicado um apartamento dos intelectuais da vida pública, contrariando uma larga tradição em que se comportavam, desde as lutas pelo abolicionismo, como um dos seus relevantes protagonistas.
Sintoma disso, entre outros, está na atual distância entre eles e os partidos, a quem caberia fecundar com ideias e imaginação. À falta dessa relação vital, estão cada vez mais confinados às páginas de opinião dos grandes jornais e das redes da internet, o que, se importa, é pouco para o que se pode esperar da sua contribuição.
Nesse cenário, em que medram as agitações estéreis de que falava Nabuco, como se viu ao longo do processo recente de impeachment, pode caber espaço para a menção a um manifesto de intelectuais brasileiros em favor do que designam como a ética do convivialismo. Convivialismo, na conceituação do seu principal inspirador, o sociólogo francês Alain Caillé, professor emérito da Universidade de Paris-Nanterre, “é o nome dado a tudo o que nas doutrinas existentes, laicas ou religiosas, concorre para a busca de princípios que permitam aos seres humanos ao mesmo tempo rivalizar e cooperar, na plena consciência da finitude dos recursos naturais e na preocupação partilhada quanto aos cuidados com o mundo” (Manifesto Convivialista – Declaração de Interdependência, São Paulo, Annablume, 2016).
Seus autores, secundados por apoiadores de nomes notáveis da ciência social contemporânea, como Edgar Morin e Chantal Mouffe, e dos brasileiros Gabriel Cohn e Luís Roberto Cardoso de Oliveira, entre muitos outros, esclarecem que não se trata de uma doutrina com a pretensão de se sobrepor a outras, mas sim de reter, em oposição à financeirização do mundo em curso, “o que há de mais precioso” em cada uma delas. Frédéric Vandenberghe, sociólogo do Iesp, principal animador do movimento na universidade brasileira, define-o como uma ideologia que visaria a incorporar o melhor do liberalismo, do socialismo, do comunismo, do anarquismo e do feminismo numa visão de “boa vida com os outros em instituições justas”.
Embora bem ancorados no legado de Marcel Mauss, Karl Polanyi e Antonio Gramsci, os que subscrevem o documento e seus apoiadores, que não contam com forças próprias, salvo as ético-morais, vão precisar de muita energia para se livrar da pecha de quixotismo e levar suas ideias à frente. Mas, em todos os quadrantes, hoje não se cultua o Cavaleiro da Triste Figura?
fonte: O Estado de São Paulo (06/11/16)

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

E quem nos salva da Ana Júlia? (Fernando Schuler)

As ocupações começaram em São Paulo, no ano passado, contra a organização por ciclos proposta pelo governo; depois foram para o Rio de Janeiro, contra o sistema de avaliação do ensino, o Saerj. Em Goiás elas eram contra a parceria com as organizações sociais. Agora são contra a PEC 241 e a reforma do ensino médio, e se concentram no Paraná. O motivo vai mudando, mas o ambiente em que elas acontecem é sempre o mesmo: a rede pública. Na rede privada ninguém parece disposto a perder uma aula de matemática.
Nossos revolucionários de colégio público apresentam-se como um movimento de resistência. Ninguém expressou melhor essa imagem do que a estudante Ana Júlia Ribeiro na tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná. Com a voz embargada, ela garante que o movimento é apartidário e que a preocupação é com as futuras gerações. É possível que seja verdade. Com mais de 1 milhão de views, no YouTube, quem diria que não?
De minha parte, vou na contramão. É quase sempre o que acontece quando os astros do politicamente correto se alinham. Me dá um mal-estar. A sensação de que essa mistura de ideologia e violência termina sempre do mesmo jeito. Na cena que vi nesta segunda-feira (31) em Brasília: os políticos em festa e a turma da periferia de Curitiba sem aula. Foi o que eu ouvi de um pai de aluno com ar de cachorro molhado, sem 10% do charme de Ana Júlia, perguntando para ninguém: “E quando eles vão recuperar os dias parados?”.
Minha interpretação é a seguinte: esta onda de ocupações de escolas é um exemplo do que o biólogo americano Garrett Hardin chamou de “tragédia dos comuns”. É o mesmo fenômeno que leva à poluição dos oceanos e ao desmatamento da Amazônia. Alguém vai lá e toma conta do espaço público, jogando lixo ou cortando árvores para fazer madeira e deixa a conta para todo mundo pagar.
Nas escolas públicas funciona mais ou menos do mesmo jeito. A turma tem uma ideia na cabeça: o combate à reforma do ensino médio, mas poderia ser o MBL a favor da privatização das escolas ou ainda todos contra o bruxo Voldemord, de Harry Potter. Não importa. O pessoal vai lá e ocupa um espaço público. Promove sua agenda, aparece no jornal, faz capa de revista. O prejuízo fica para todo mundo pagar. Prejuízo nos dias parados, na escola quebrada, na guerra que pode levar, em um situação extrema, à morte de um adolescente.
Quando a estudante Ana Júlia acusou os deputados de terem as “mãos sujas de sangue” pela morte do estudante Lucas era exatamente isso que ela estava fazendo. O movimento que ela representa criou o contexto no qual o adolescente perdeu sua vida. O “custo” de sua atitude, porém, é socializado para os deputados, para o “estado”, para todo mundo que der na telha da Ana Júlia.
Lucas Mota era um garoto tímido e boa-praça. Filho único da Monique, feita viúva muito jovem e dona de uma loja no Bairro Santa Felicidade, em Curitiba. Lucas não cometeu erro nenhum. Foi vítima de um “contexto”. Seu colega foi na cozinha da escola e pegou uma faca. A sala dos professores havia se transformado em alojamento da ocupação. Alguém podia se perguntar como uma coisa dessas pode acontecer em uma escola? Também me pergunto, ainda que seja inútil. Todo mundo sabe a resposta. É nossa tolerância ao delito e ao truque retórico que o justifica. A morte do Lucas é uma tragédia sem volta para Monique. Mas é apenas um “acidente” para a turma das ocupações. Um pequeno custo encaramos numa boa e logo esquecemos, enquanto Ana Júlia vira heroína no Facebook.
A pergunta relevante é por que diabos nossa sociedade tolera que escolas públicas sejam ocupadas por ativistas adolescentes e virem um campo de guerra? Por que aceitamos que a lógica banal da tragédia dos comuns se instale em nossos colégios e substitua o espaço regulado do dissenso democrático?
Não acho que a resposta seja fácil. Alguns dirão que é preciso ocupar escolas exatamente porque não há uma verdadeira democracia, no Brasil. Intuo que, para essas pessoas, uma verdadeira democracia seria aquela em que nem sequer seria cogitada uma proposta como a PEC 241. É possível. A democracia nunca é perfeita para quem já sabe das coisas.
Minha resposta vai por outro caminho. Intuo que, lá no fundo, nossa elite pensante tolera isto pela mesmíssima razão que o faz com a tragédia de nosso ensino público: a conta vai para os filhos dos outros. É inútil, mas gosto de me perguntar o que aconteceria se ocupações como estas, por qualquer razão que seja, ocorressem no colégio Bandeirantes, em São Paulo, ou no colégio São Bento, no Rio de Janeiro. A turma bacana perdendo aula, chupando “bala” de LSD na sala dos professores, pegando faca na cozinha do colégio.
Ok, é ridículo pensar nessas coisas. Escola privada tem dono, os pais pagam a conta, ficam em cima, e não demoraria meia hora para a polícia acabar com a bagunça. Não tem conta nem custo nenhum a ser socializado. Não tem essa da Ana Júlia perguntando “de quem é a escola?”, como se não soubesse que ela é de todos e não de quem é favor ou contra a PEC 241.
No fundo vem daí o mal-estar. Ao menos o meu mal-estar. A sensação do truque. Do país malandro que, parece, trata o “direito à ideologia” como um valor mais importante do que o direito à educação. Em que um debate democrático no Congresso seja aceito como justificativa para transformar espaços públicos em terra de ninguém. Que acha bacana quando um grupo de adolescentes entra numa escola e simplesmente interrompe na marra o ano letivo. Tudo de um jeito seletivo. Com a conta indo para os mais pobres, que não têm como se proteger da Ana Júlia e seu desejo de salvar o país da PEC 241.
Fonte: Época (02/11/16)