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domingo, 18 de novembro de 2018

O Triunfo do Bolsonarismo (Jairo Nicolau)


No sábado, véspera do primeiro turno das eleições, fui a uma festa de família em Nova Friburgo, minha cidade natal. Durante o dia, no inevitável passeio pela avenida principal da cidade, deu para perceber os sinais de campanha presidencial, o que não tinha ocorrido em nenhum momento no Rio de Janeiro: dezenas de cabos eleitorais balançando bandeiras, muita gente vestindo a camisa amarela com a foto de Bolsonaro estampada.
Em conversa com familiares, comecei a dimensionar a força do bolsonarismo na cidade. No grupo de 25 pessoas que jogam vôlei com a minha irmã, apenas ela e mais três disseram que não votariam no candidato do PSL; no grupo de vinte que jogam a tradicional pelada de fim de semana com o meu cunhado, apenas ele e mais quatro não iam votar em Bolsonaro. O mais inesperado foi ouvir relatos sobre antigos colegas de colégio, figuras silenciosas e discretas, que tinham se transformado em virulentos defensores de Bolsonaro nas redes sociais. Adotando uma “tática de enxame”, eles se especializaram em conjuntamente atacar páginas do Facebook de amigos que postassem qualquer crítica ao capitão.
Friburgo é uma cidade conservadora, mas saí de lá com a sensação de que Bolsonaro estava muito mais forte do que eu imaginava. De volta ao Rio, ao votar no primeiro turno, encontrei uma situação muito mais equilibrada. Meu passatempo, durante a longa espera, foi tentar identificar o voto dos eleitores das filas vizinhas. Alguns, atendendo ao pedido da campanha de Bolsonaro, chegaram com a camisa da Seleção brasileira. Vi muitos com adesivos de candidatos do PSOL e de Ciro Gomes. Será que as urnas em geral estariam mais próximas da maré bolsonarista vista em Friburgo ou do cenário mais equilibrado das filas de uma escola de Botafogo?
Já faz alguns anos que não ligo a tevê para acompanhar a apuração. Prefiro baixar o programa do TSE e abrir o site de um grande jornal, navegando conforme as minhas escolhas. Esse ano, porém, como os resultados demoravam a aparecer, resolvi seguir as previsões feitas pelas pesquisas de boca de urna. À medida que os resultados eram divulgados nos jornais televisivos e outros eram compartilhados via WhatsApp por amigos que estudam eleições, mais estupefato eu ficava.
No Rio de Janeiro, o juiz Wilson Witzel, candidato apoiado pela família Bolsonaro, chegava em primeiro lugar, desbancando Eduardo Paes, líder em todas as pesquisas que foram publicadas desde o começo do ano. Imediatamente, recebo mensagens de toda a parte. Quem é esse juiz? Em Minas Gerais, os petistas sonharam com o crescimento do candidato do Novo, um empresário chamado Romeu Zema. Mas não imaginavam que ele tirasse o governador Fernando Pimentel da disputa no segundo turno. A sensação de que essa era uma eleição de ruptura com a velha ordem partidária ficou clara quando apareceram os dados para o Senado de Minas, com a ex-presidente Dilma amargando o quarto lugar. Era isso mesmo? Sim. Uma ex-presidente vitoriosa em quatro turnos naquele estado estava atrás de outros três concorrentes.
Os resultados da noite deixaram os analistas de política sem adjetivos. O uso de analogias climáticas, embora meio desgastado depois de anos de crise (quem não se lembra da “tempestade perfeita”?), foi a opção. Estávamos diante de um “tsunami” eleitoral, do “furacão” Bolsonaro, da “avalanche” de votos do PSL. Restava falar da velha ordem política também com imagens de destruição. O sistema partidário estaria “em escombros”, “em ruínas”, teria vindo ao chão diante de uma “hecatombe” de renovação.

Afinal, quais eram as bases do sistema partidário que teria sido destruído no primeiro turno do pleito de 2018?
Vale a pena voltar no tempo e lembrar a grande instabilidade que marcou a primeira década da vida partidária após a redemocratização. Cinco partidos foram fundados ainda no regime militar: PDS, PMDB, PT, PDT e PTB. Entre 1985 e 1994, nada menos do que 68 partidos foram organizados e disputaram pelo menos uma eleição. Dentre esses, destacam-se o PFL, o PSDB, o PL, o PCdoB, o PSB e o PRN.
Mais do que pelo grande número de legendas, o período foi caracterizado pela crise que afetou os partidos tradicionais. Nas eleições presidenciais de 1989, os candidatos do PMDB e PFL – os dois partidos responsáveis pela vitória na eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral – tiveram um desempenho pífio. Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Constituinte que encerrara seu trabalho um ano antes da eleição, obteve 4,7% dos votos. Aureliano Chaves, ex-vice-presidente da República, alcançou apenas 0,9%.
A vitória de Fernando Collor pelo PRN, legenda à qual se filiou apenas para concorrer à Presidência, e o subsequente governo de Itamar Franco, presidente que se desfiliou do PRN e governou sem estar vinculado a nenhuma legenda, ilustram bem o quadro de crise do sistema partidário nos primeiros anos da década de 90.
Podemos definir o ano de 1994 como o início do sistema partidário com características mais ou menos estáveis, que perduraria por duas décadas até as eleições de 2014. Destaco três principais características desse sistema.
A primeira delas é a polarização entre PT e PSDB na disputa presidencial. Os dois partidos chegaram em primeiro ou em segundo lugar em todos os dez turnos disputados entre 1994 e 2014. Nas duas eleições em que o PSDB venceu no primeiro turno (1994 e 1998), o PT chegou em segundo lugar. Nos oito turnos em que o PT venceu (2002, 2006, 2010 e 2014), o PSDB chegou em segundo lugar.
A segunda característica é o papel central do PT no sistema partidário. Será difícil para os historiadores do futuro não chamarem esses vinte anos de “era do PT”. O partido ficou à frente da Presidência por mais tempo do que qualquer outro na história da República. Mesmo durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o PT conseguiu ser um ator relevante, comandando uma combativa oposição.
Para além do sucesso eleitoral, um aspecto que sempre chamou a atenção no PT foi a sua capacidade de organização. Enquanto os outros partidos mantiveram uma estrutura organizacional tênue, com baixo envolvimento dos filiados em suas atividades, o PT inovou ao apostar em uma estrutura capaz de mobilizar milhares de quadros para as suas fileiras.
Os cientistas políticos David Samuels e Cesar Zucco, no livro Partisans, Antipartisans and Nonpartisans: Voting Behavior in Brazil(2018), mostraram como a divisão PT/anti-PT foi importante na escolha dos eleitores. Caso raro, o principal concorrente do PT não foi outro partido, mas um sentimento genérico com nome próprio: antipetismo.
Uma terceira característica do sistema partidário brasileiro é a fragmentação. Contrastando com a disputa concentrada para a Presidência, o quadro no Congresso Nacional é de alta pulverização, tendência que vem se aprofundando desde os anos 90. Para se ter uma ideia dessa dispersão: em 1994, as quatro legendas mais importantes (PSDB, PMDB, DEM e PT) tinham, juntas, 308 cadeiras na Câmara dos Deputados; em 2014, passaram a deter apenas 210. A predominância dos quatro partidos não é por acaso. PT e PSDB controlaram a Presidência, enquanto o PMDB (depois MDB) e o PFL (depois DEM) foram centrais no controle do Congresso Nacional.

Depois da perplexidade com os resultados de boca de urna do primeiro turno divulgados pela televisão, voltei ao computador para analisar os dados oficiais da apuração. Ao abrir os resultados de deputado federal do Rio de Janeiro me dei conta que o sucesso de Bolsonaro tinha transbordado para os cargos proporcionais.
Quem é esse Hélio Lopes que chegou em primeiro entre os candidatos a deputado federal, elegendo-se com 345 mil votos, à frente de Marcelo Freixo? Encontro na internet a foto de Lopes. Lembro que recebi um santinho dele. Dias depois, me atualizo. Chamado por Bolsonaro de “Hélio Negão”, ele é subtenente do Exército e tentou ser vereador em Nova Iguaçu em 2016, quando recebeu 480 votos. Nas estatísticas não será considerado como um político que tenta um cargo pela primeira vez.
Numa eleição de tantas surpresas, nada foi mais espantoso do que a votação obtida pelo Partido Social Liberal para a Câmara dos Deputados. O partido obteve 11,3% dos votos e 10,1% das cadeiras. Havia conseguido eleger apenas um deputado federal nas quatro das cinco eleições que disputou antes de 2018. Era um dos partidos a serem barrados pela cláusula de desempenho. A filiação de Bolsonaro e de seus seguidores ao PSL, em março desse ano, mudou inteiramente a sorte da legenda.
O PSL foi o partido que teve o maior crescimento desde as eleições de 1990, quando é possível comparar com a primeira eleição do regime democrático, em 1986. Em 1990, o PRN do então presidente Collor obteve 8,3% dos votos, enquanto o estreante PSDB recebeu 8,7%. Ambos já contavam com um grande número de deputados e tinham o apoio de importantes lideranças regionais.
Outra característica singular do PSL é o grande número de eleitos que disputam um cargo pela primeira vez. Dos 52 deputados federais eleitos, trinta nunca haviam concorrido. Nunca um partido elegeu tantos novatos como o PSL. Guardadas as proporções, é um fenômeno semelhante ao da ascensão do partido do presidente francês Emmanuel Macron (La République en Marche!) e do Movimento 5 Estrelas, na Itália; são novos partidos que levam dúzias de cidadãos sem experiência prévia aos legislativos nacionais.
Os diversos perfis da bancada do PSL feitos pela imprensa destacam a sua heterogeneidade. O que os une, além da admiração por Bolsonaro, é o fato de se posicionarem na extrema direita do espectro partidário. Só no fim da noite de domingo do primeiro turno da eleição, quando já era possível estimar o tamanho das bancadas de cada partido, me dei conta de algo surpreendente: os eleitores haviam criado o maior partido de extrema direita da história das eleições brasileiras.

Quando teria começado a ruína dos partidos e de parte da tradicional elite política do país? Não são poucos os analistas que atribuem a origem de tudo às manifestações que varreram o país em 2013. O forte conteúdo antipolítica dos protestos teria ajudado a minar a confiança da população no sistema representativo.
Além de pedir aos manifestantes que não usassem camisas com símbolos partidários e promover a queima da bandeira dos partidos, os protestos lançaram alguns bordões que expressam uma visão realmente negativa da política. “Partidos não” e “Não me representa” eram palavras de ordem reiteradas inúmeras vezes quando as pessoas se aproximavam da Câmara Municipal ou da Assembleia Legislativa.
É difícil dimensionar se 2013 teve um efeito mais duradouro sobre a avaliação dos brasileiros acerca dos seus representantes. O fato é que nas eleições do ano seguinte o impacto não foi perceptível. As pesquisas de opinião não indicaram um aumento da desconfiança em relação às instituições e aos partidos. A taxa de abstenção continuou praticamente a mesma da eleição anterior. Fora do padrão, apenas um aumento dos votos nulos e em branco para deputado federal, particularmente nos estados do Rio e de São Paulo.
Somente uma força externa muito poderosa poderia abalar um sistema de partidos estruturado em duas décadas de competição política, com diversos mecanismos de autoproteção. A Operação Lava Jato cumpriu esse papel. As investigações afetaram diversas legendas, mas sobretudo as três mais importantes: PT, PSDB e MDB. O PT teve vários de seus dirigentes presos e investigados, entre eles o ex-presidente Lula. Os principais dirigentes investigados do MDB tinham foro privilegiado (eram senadores e deputados), mas o que se viu na maior seção do partido, a do Rio de Janeiro, com a prisão de Sérgio Cabral, Eduardo Cunha e Jorge Picciani, foi suficiente para fazer um estrago sem precedentes na legenda. Vários dirigentes do PSDB investigados também se beneficiaram do foro privilegiado, mas a revelação das conversas de Aécio Neves com o empresário Joesley Batista também amplificou muito a rejeição ao partido.
Olhando para trás e relembrando a maré de denúncias contra a elite política que circulou entre 2015 e 2018, percebo como os analistas subestimaram os efeitos da Lava Jato. A operação mudou o patamar de rejeição em relação aos principais partidos. Todos foram igualados por participarem sem pudor de gigantescos esquemas de corrupção.

Até o começo do horário eleitoral, a visão dominante dos cientistas políticos sobre as eleições de 2018 era a de que repetiria os padrões dos pleitos anteriores. Eles acreditavam que: a disputa pela Presidência se daria novamente entre PT e PSDB; a renovação parlamentar seria baixa; e o trio PSDB/PT/MDB continuaria dominando a política brasileira.
O argumento dos que defendiam a tese de que “essa eleição é igual às últimas” baseava-se em duas premissas. Primeiro, a importância que a estrutura partidária e a montagem das coalizões de apoio nos estados havia tido em pleitos anteriores. Segundo, a nova legislação eleitoral, que concentrou o tempo de propaganda eleitoral e o dinheiro do fundo eleitoral nos grandes partidos; juntos, MDB, PSDB, PT e PP ficaram com 44% do dinheiro.
A mesma visão parece ter orientado as ações dos dirigentes partidários. O PSDB optou por lançar Geraldo Alckmin, uma liderança tradicional, que já havia sido candidato à Presidência. O ex-governador de São Paulo, mais do que qualquer um dos nomes ventilados pelo partido, tinha a cara da velha política. O PSDB teve como prioridade a montagem de palanques estaduais e o apoio dos partidos para conquistar o que havia sido o melhor ativo de outras eleições: o tempo de propaganda na tevê.
A estratégia do PT também mirou o passado. A ideia parecia simples. Lula liderava as pesquisas com enorme vantagem. O que, por si só, seria uma evidência de que o eleitorado queria uma nova edição da época de ouro dos governos petistas. Como as pesquisas mostravam que um número expressivo de eleitores estaria disposto a votar em um nome indicado por Lula, a equação estava fechada. Confiando na força do ex-presidente e na teoria de transferência de votos, o PT se deu ao luxo de fazer a mais estreita coalizão eleitoral desde 1989. Só conseguiu o apoio do PCdoB – que retirou a candidatura de Manuela D’Ávila à Presidência – e do PROS.
Nada, porém, supera a crença dos partidos na manutenção da velha ordem do que o comportamento dos partidos do centrão (DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade). É interessante lembrar que alguns deles haviam sido sondados pelo PT e outros pela candidatura de Ciro Gomes. Bolsonaro gostaria de ter o senador Magno Malta como seu vice, mas o PR não aceitou. Depois de semanas de negociação, os partidos resolveram apoiar qual candidato? Geraldo Alckmin.
PT e PSDB se prepararam para enfrentar um ao outro. Nenhum dos dois acreditava no fenômeno Bolsonaro. No último debate do primeiro turno na Rede Globo, a certa altura Alckmin escolheu Haddad para responder uma de suas perguntas. Durante minutos os dois falaram como se estivessem em 2014. Enquanto isso, Bolsonaro concedia uma entrevista nos seus termos à Rede Record do bispo Edir Macedo.

Fui mais cético que meus colegas de ofício sobre a possibilidade de que a eleição de 2018 repetisse o padrão das eleições anteriores. Minha desconfiança se devia a duas razões. A primeira, mais genérica, pode ser resumida no sentimento de que, depois de três anos de crise política, dificilmente as estruturas do sistema partidário não sairiam abaladas. Lembro-me de uma conversa com a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, que também compartilhava do meu ceticismo, em que ela fez a pergunta definitiva: “Depois de tudo que aconteceu nesses anos, as eleições não vão mudar nada?”
A segunda razão é que venho há anos acompanhando a movimentação do candidato Bolsonaro. Por intermédio de um amigo que compartilha o material do candidato, assisti aos seus vídeos postados nas redes sociais, e os mais impressionantes deles mostravam o acolhimento efusivo que recebia de seus seguidores pelos aeroportos do país. Mas, apesar de não desprezar a força de Bolsonaro, minha expectativa sobre o que seria a eleição presidencial se revelaria totalmente equivocada. Consulto os slides de uma apresentação que fiz em março deste ano sobre o tema. Estimava que Bolsonaro teria algo em torno de 15% a 20% dos votos.
Minha aposta era que cinco candidatos (Marina, Alckmin, Ciro, Bolsonaro e o candidato do PT) disputariam entre si as duas vagas para o segundo turno; todos eles com potencial de votação semelhante, entre 10% e 20% dos votos. Uma pessoa cujo nome não lembro e que compartilhava de avaliação semelhante chegou a propor um número mágico: nesse cenário, o candidato que tivesse 17% dos votos passaria para o segundo turno.
Meu equívoco maior se deu quando projetava os resultados do segundo turno. Mais de uma vez, fui perguntado em debates e aulas sobre as chances de Bolsonaro vencer as eleições. Na resposta, sempre me lembrava do caso francês. Bolsonaro é candidato de um segmento específico do eleitorado, é um candidato de nicho, que lembra o desempenho do partido de extrema direita da França. Lá, a Frente Nacional consegue até chegar ao segundo turno, mas todas as forças do espectro político (da direita republicana à esquerda comunista) se juntam contra o partido, que é sempre derrotado. Não me lembro, mas provavelmente devo ter dito uma frase que muitos falavam em meados do ano: “O candidato do PSL será derrotado por qualquer um no segundo turno.”

Bolsonaro saiu do nicho. Esse é o fenômeno mais impressionante da campanha presidencial de 2018 e será o tema incontornável dos estudos sobre o comportamento político no Brasil nos próximos anos.
Como um candidato com uma história tão à direita no espectro político, com dezenas de vídeos em que revela seu racismo, sua homofobia e seu menosprezo pelas mulheres, foi capaz de conquistar uma parcela tão expressiva de eleitores de alta renda e alta escolaridade? Fui a São Paulo em junho e percebi que Bolsonaro já era o preferido dos motoristas de Uber e dos trabalhadores do hotel onde me hospedei. Em setembro, em nova viagem, soube que a comunidade judaica o apoiava em peso. O mesmo acontecia com a elite da cidade, outrora eleitora do PSDB.
O mais impressionante é que uma grande parte do eleitorado passou a apoiar Bolsonaro sem conhecer minimamente suas ideias. Recolhido no hospital ou em casa desde o atentado que sofreu em 6 de setembro, Bolsonaro compareceu somente aos dois primeiros debates da campanha. Sem dispor de tempo no horário eleitoral gratuito, também não detalhou nenhum dos seus projetos para o país. Minha impressão é que seus eleitores, ao votarem nele, imaginam escolher uma espécie de João Doria nacional.
Outra hipótese, mais óbvia mas não menos intrigante, é a que vê no antipetismo uma razão forte para Bolsonaro ter saído de seu nicho. A maré bolsonarista deveria menos aos méritos do candidato do que a uma força inercial da opinião pública. Dito de outro modo, qualquer candidato que disputasse contra o PT acabaria vencendo.
Usei o adjetivo “intrigante” no parágrafo acima por uma razão muito simples. Onde estava o antipetismo tão visceral que ninguém foi capaz de dimensioná-lo? Aos olhos de agora, parece que todo mundo já sabia da força do antipetismo, mas nenhuma pesquisa de opinião feita antes de a campanha começar foi capaz de capturá-lo. Ao contrário, as pesquisas mostravam que Lula reerguia o petismo e que o partido já recuperava seu tamanho como legenda preferida do país. Havia inclusive uma hipótese para explicar a força do petismo: “O governo Temer e a prisão do Lula teriam ressuscitado o PT.”
Estudos sobre o desenrolar da campanha eleitoral de 2018, particularmente sobre o papel das redes sociais, devem mostrar a evolução do antipetismo. Meu palpite é que tanto a ampliação do antipetismo, como a mudança de patamar desse sentimento (de um estágio relativamente leve para um visceral) deve-se à eficácia do que chamarei, na falta de expressão melhor, de máquina de propaganda da campanha de Bolsonaro.
As eleições para prefeito do Rio de Janeiro em outubro de 2016 e a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, mostraram a força de uma nova forma de comunicação e mobilização social: o WhatsApp. Falo especificamente desse instrumento porque ele é realmente uma inflexão na forma de os brasileiros se comunicarem. De novo, não tenho estudos, mas posso observar na minha rotina que o WhatsApp é o grande responsável pela inclusão de milhões de cidadãos de baixa renda e baixa escolaridade na era digital.
Somente a comunicação via redes sociais, cultivada nos últimos anos no país, poderia explicar a força e a rapidez com que as ondas de opinião se propagaram nessas eleições. Antes, velhas ondas de campanha demoravam dias para se formar e precisavam do “boca a boca” para se propagar. Agora, a propagação da informação faz-se de maneira veloz, em escala geométrica – como provavelmente ocorreu na impressionante campanha que levou o juiz Witzel a saltar de um dígito nas pesquisas feitas na quarta-feira antes da eleição para 41% dos votos válidos no primeiro turno.
A campanha também foi invadida por uma onda de fake news. Assisti a dezenas de vídeos, quase todos pró-Bolsonaro, com montagens toscas, adulterações de fatos e estatísticas inventadas. A Justiça Eleitoral não se preparou para lidar com o fenômeno. Diferentemente do que tinha feito em outras eleições, quando controlava os desvios e agressões da propaganda de rádio e televisão, nesse ano o silêncio foi a sua tônica.
Mas nem tudo foi fake news. Depoimentos e trechos de eventos foram difundidos com eficácia pela campanha do PSL. Ouvi pastores e lideranças empresariais pedirem voto para o Bolsonaro. Vi compararem algumas propostas do candidato com as do PT. Acabo de assistir a um vídeo em que um bispo finaliza a sua homilia repetindo, e sendo efusivamente aplaudido pelos fiéis, o principal bordão da campanha bolsonarista: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.”
Bolsonaro é, a meu juízo, o maior fenômeno da história das eleições no Brasil. Muitos o comparam com Collor em 1989, mas sua força e abrangência são bem maiores. Uma coisa parece certa. Com Collor, vimos a emergência de um fenômeno propagado pelas redes de televisão. Bolsonaro não só nos mostrou que a era da televisão está se encerrando, como uma nova era começa: a das campanhas feitas nos subterrâneos da sociedade, por meio das redes sociais.

Embora essa seja uma análise ainda inicial, minha sugestão é que o pleito desse ano é um exemplo do que os cientistas políticos chamam de “eleição crítica”: uma disputa que desestrutura o padrão de competição partidária vigente.
Enumero quatro elementos que demonstram que as eleições deste ano marcam o encerramento do sistema partidário que vigorou por duas décadas: o fim da polarização entre PT e PSDB nas eleições presidenciais; o fim da centralidade do primeiro como força organizadora do sistema partidário; o declínio dos dois maiores partidos de centro (PMDB e PSDB); e a emergência de um novo e expressivo partido de direita (PSL).
A onda bolsonarista foi tão forte que, nos dias que se seguiram ao primeiro turno, os prognósticos sobre o resultado do segundo turno podiam ser resumidos em duas perguntas: Qual será a diferença a favor do candidato do PSL? Será que ele superará o desempenho de Lula em 2002? (Nesse ano, o candidato do PT recebeu 61,3% dos votos válidos, a maior votação já obtida por um candidato a presidente.) As pesquisas publicadas na primeira semana após o segundo turno reforçaram a ideia de vitória por grande margem. Na pesquisa do Datafolha, o deputado do PSL vencia com 58% dos votos válidos; na pesquisa Ibope vencia com 59%.
Em razão da grande vantagem confirmada nas primeiras pesquisas, Bolsonaro manteve a mesma estratégia adotada no último mês de campanha do primeiro turno: priorizou a difusão de mensagens por intermédio das redes sociais, não participou de eventos públicos e nem compareceu aos tradicionais debates promovidos pelos principais meios de comunicação do país. A diferença é que sua campanha chegou ao rádio e à televisão.
Com apenas oitos segundos, o ex-capitão havia sido quase invisível nos meios tradicionais de comunicação no primeiro turno. No segundo, com os dez minutos do programa eleitoral e centenas de inserções, ele teve que dar uma atenção especial ao velho (e para ele novo) formato de comunicação.
Se pudermos recorrer a uma metáfora esportiva, a estratégia de Bolsonaro lembrou a dos times de futebol que, vencendo por larga vantagem, “jogam contra o relógio”. Deixam o tempo passar, trocam passes para o lado até que o juiz aponte para o centro do gramado.
Na campanha de Haddad, em contrapartida, inicialmente nada parecia funcionar. A tentativa de organizar uma frente democrática foi um fiasco. O petista recebeu apoio crítico do PDT e Ciro Gomes preferiu não declarar seu voto; Fernando Henrique Cardoso e outras lideranças nacionais do PSDB também preferiram não se manifestar; Marina Silva deu seu apoio quinze dias depois do domingo do primeiro turno. Chegavam notícias de que até mesmo os dirigentes do PT não acreditavam na sorte de seu candidato e temiam uma derrota humilhante. Em mais de uma conversa com amigos chamei a atenção para a “solidão de Haddad”. A sensação era outra: a do time que está sendo derrotado por uma grande diferença e conta os segundos para que o jogo acabe.
A incapacidade de Haddad e do PT para ampliar o seu arco de alianças foi relativamente compensada por um movimento de apoio, também cultivado nas redes sociais, que contou com grandes atividades de rua na última semana antes do pleito. Foi provavelmente por causa desse movimento que o candidato do PT não sofreu a derrota que se desenhava no começo do segundo turno. A comparação dos votos dos dois turnos, incluindo os votos nulos e em branco no cálculo, mostra que Haddad acabou crescendo mais (passou de 27% para 40% dos votos totais), do que Bolsonaro (passou de 42% para 50%).

Escrevo as linhas finais desse texto poucos minutos após a confirmação de que Bolsonaro é o novo presidente do Brasil. Escuto muitos gritos, panelas batidas e fogos para celebrar a vitória. O volume se assemelha ao das manifestações contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Numa eleição de tantas novidades cabe registrar mais essa. Pelo menos no Rio de Janeiro, nunca tinha visto uma vitória eleitoral ser tão celebrada.
Ainda vou passar muitas semanas analisando os dados das eleições de 2018. Mas como não podia deixar de ser, começo observando o que ocorreu em Nova Friburgo: no primeiro turno, Bolsonaro obteve 63% dos votos válidos, Ciro Gomes, 16% e Haddad, 10%. No segundo turno, Bolsonaro obteve 73%. Já na minha zona eleitoral, no Rio, o quadro foi bem mais equilibrado no primeiro turno: Bolsonaro obteve 44% dos votos, Ciro, 30% e Haddad, 13%; no segundo turno Bolsonaro chegou aos 54%.
Olho os números e me dou conta de como Bolsonaro foi bem votado em outras áreas da cidade do Rio de Janeiro. Enquanto isso, os gritos pró-Bolsonaro e contra o PT continuam a ecoar lá fora. Realmente, estamos diante de um fenômeno eleitoral diferente de tudo que eu já tinha visto.
Revista Piauí (edicão novembro 2018)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

De como pensando que se vai para Alemanha chega-se a Bolívia (Jairo Nicolau)

Dois mistérios rondam a discussão sobre as instituições brasileiras. O primeiro mistério refere-se à crônica insatisfação com o desempenho das mesmas. Sabe-se lá por que razão, as regras que regulam a escolha de representantes, os partidos políticos e o funcionamento do legislativo e do executivo são alvos de permanentes manifestações de descontentamento. Editoriais, comissões, plebiscitos, emendas constitucionais manifestam reiterada desconfiança quanto às opções constitucionais feitas pela carta de 1988. Ao submeter duas escolhas fundamentais (a república e o presidencialismo) a plebiscito e permitir a revisão por maioria simples – que acabou não ocorrendo –, a própria Constituição de 1988 talvez tenha contribuído para a criação de uma cultura política da insatisfação institucional.
A insatisfação com o desempenho das instituições está amparada em um diagnóstico pessimista, que acredita que temos as piores instituições representativas do planeta. O presidente Fernando Henrique Cardoso, em depoimento ao Jornal do Brasil, expressou a versão do subdesenvolvimento institucional brasileiro de maneira definitiva: –"Nossa estrutura política está atrás de outros países. Digo isso desde que sou senador. Nosso problema é que nosso sistema político está atrás da sociedade. A sociedade avançou mais, mudou mais depressa que o sistema político".
A conseqüência natural do diagnóstico do mau desempenho institucional é a proposta de uma vasta agenda de reforma política. Todos os aspectos do sistema representativo brasileiro foram alvos de projetos reformistas. As regras do presidencialismo foram modificadas (mandato de quatro anos para presidente e possibilidade de reeleição), enquanto o sistema proporcional que vigora nas eleições parlamentares é ameaçado a cada legislatura pela adoção de um virtual sistema distrital misto. Nesses últimos anos, falou-se de voto facultativo, de eleições para suplente de senador, de correções para distorção da representação dos estados na Câmara dos Deputados.
Aqui chegamos ao segundo de nossos mistérios: a adoção de um sistema misto nas eleições legislativas. Novamente, sabe-se lá por que, o distrital misto passou a aparecer como um consenso no meio jornalístico e político brasileiro. Talvez porque, apresentado superficialmente, ele realmente parece comportar o melhor da representação proporcional e da majoritária.
Na impossibilidade de discutir a natureza do que seja o distrital misto, pois cada proposta que carrega este nome fala de um modelo com características singulares, comento a proposta apresentada pelo senador Sérgio Machado.
Apesar de ser freqüentemente comparado com o sistema eleitoral da Alemanha, o projeto Machado é semelhante ao sistema adotado na Bolívia em 1993. Na Alemanha o cálculo para distribuição das cadeiras é feito no âmbito nacional (o que gera alta proporcionalidade), enquanto no projeto Machado o cálculo é realizado em cada unidade da federação. Outra diferença importante é que na Alemanha o número de cadeiras de cada unidade da federação na Câmara dos Deputados não é definido previamente e depende da taxa de comparecimento, enquanto no projeto Machado o número de representantes por estado é fixo.
O maior adversário da adoção de um sistema misto no Brasil é o ato de desenhar os distritos em cada unidade da federação (distritamento); menos pelas possíveis manipulações que porventura possam ser feitas para favorecer determinados candidatos e mais pela incerteza que produz. O sistema representativo brasileiro já tem um padrão de preferências razoavelmente estabilizado em termos eleitorais: alguns partidos têm força em determinados estados, determinados políticos têm redutos eleitorais em certas áreas do estado. O distritamento introduzirá uma variável abominada por qualquer político: a imprevisibilidade. A criação de um distrito eleitoral – que envolverá necessariamente a agregação de municípios médios e pequenos e a divisão de megacidades – interferirá em interesses eleitorais cristalizados. Alguns candidatos terão seus redutos diluídos em outros maiores, alguns partidos terão seus redutos divididos em um processo cujo resultado é imprevisível.
Gostaria de chamar a atenção para cinco possíveis efeitos (pouco explorados) da adoção do chamado sistema distrital misto no Brasil:
1.Complexidade do sistema. Sistemas mistos são mais complexos e tendem a dificultar sua inteligibilidade pelo eleitor. Na Alemanha, apesar da simplicidade da cédula, menos da metade dos eleitores sabem a função do voto dado na lista partidária. No Brasil, nas eleições gerais o eleitor necessitaria fazer até oito escolhas – marca praticamente desconhecida em outras democracias. Em um quadro de baixa escolaridade do eleitorado e de espetaculares taxas de votos em branco e anulados, um componente que torne a escolha eleitoral mais difícil, pode ter efeitos bastante negativos para a legitimidade de nosso sistema representativo.
2.Distritos eleitorais justapostos. Metade dos deputados eleitos pelo distrito e metade pela lista em cada estado significa que o número de distritos eleitorais seria diferente nas eleições para Câmara e para Assembléia Legislativa. No Rio de Janeiro, por exemplo, seriam 35 distritos com cerca de 285 mil eleitores na eleição para a Assembléia e 23 distritos com cerca de 434 mil eleitores para a Câmara dos Deputados. Pode-se imaginar o que isso produziria em termos de confusão para os eleitores e para a estratégia eleitoral dos partidos candidatos.
3.Distritos com um número de representantes muito diferenciado. Como as distorções da representação dos estados na Câmara dos Deputados não seriam corrigidas, o número de eleitores por distrito eleitoral variaria intensamente. Em números das eleições de 1998: um distrito eleitoral de Roraima seria composto por cerca de 43 mil eleitores, enquanto um distrito de São Paulo representaria 667 mil eleitores. Dividindo um pelo outro encontramos um raio de 15,5.
4.A possibilidade de criação de deputados com diferentes status. A eleição de deputados por dois métodos pode estimular diferenças marcantes na atividade legislativa. De um lado, os deputados eleitos nos distritos (com um determinado número de votos) teriam forte incentivo para cultivar laços com suas bases eleitorais – pode-se reforçar a tendência de alguns parlamentares a atuarem exclusivamente como vereadores federais, intermediários entre interesses locais e o executivo; de outro lado, os parlamentares eleitos na lista (sem voto pessoalmente identificado) teriam forte incentivo para cultivar laços com a vida orgânica do partido, pois isso garantiria uma boa posição na lista de candidatos da eleição seguinte.
5.Número excedente de cadeiras. Como ocorre na Alemanha, o projeto Machado prevê que um partido assegurará cadeiras a mais nas situações em que ele conquistar mais representantes nas eleições majoritário-distritais do que teria direito pelo cálculo proporcional. Tal mecanismo aumenta o número total de representantes da Câmara. A principal razão para a criação de cadeiras suplementares é o "voto quebrado" (o eleitor vota em um partido na lista e em outro no distrito). Como os eleitores brasileiros tradicionalmente votam em candidatos de diferentes partidos, pode-se prever uma alta taxa de cadeiras suplementares criadas em cada eleição.
Tentei mostrar neste breve texto que a escolha de um sistema que aparentemente combina o melhor dos dois modelos de representação (majoritário e proporcional), comporta aspectos pouco explorados por seus defensores.

Pelas razões apresentadas acima, acho que o sistema misto não é apropriado para o Brasil.
Podia terminar explorando um terceiro mistério: por que pouco se fala sobre o aperfeiçoamento do sistema proporcional de lista em vigor no Brasil desde 1946? Países sem graves crises institucionais, em geral, optam por fazer ajustes marginais no sistema representativo, ao invés de substituí-lo. Mas esse é um mistério para outra oportunidade.
(*) Professor de Ciência Política do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro - IUPERJ
Fonte: Conjuntura Política: Boletim de análise nº 06, 1999.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O distritão, a fragmentação dos partidos e a radicalização dos nossos defeitos (Jairo Nicolau/entrevista)

IHU On-Line — Por que, na sua avaliação, o distritão é uma das piores propostas já apresentadas para aperfeiçoar o sistema eleitoral? O que é essa proposta, como e em que contexto ela surge e quais são seus principais problemas?
Jairo Nicolau — O distritão é um sistema que é muito fácil de ser explicado, porque ele é intuitivo e, curiosamente, muitas pessoas acham que já o usamos no Brasil. O distritão é o seguinte: imagine uma eleição em que existem 50 deputados para serem eleitos em um estado, e que existam 20 partidos e mil candidatos concorrendo às vagas para deputado. No sistema distritão, os 50 candidatos mais votados, entre esses mil, serão eleitos. Portanto, esse sistema tão simples é o distritão. A ideia base do distritão é que em uma eleição os mais votados ocupem as cadeiras que estão em disputa.
Como o eleitor não tem informação do modo como funciona a votação proporcional, ele acha que o sistema atual já funciona como o distritão. Mas o sistema que existe no Brasil é um modelo em que os votos de todos os candidatos de um mesmo partido são agregados, para ver quantas vezes aquele partido ultrapassa uma cota, que é o chamado quociente eleitoral. Então, nessa eleição hipotética de 50 vagas, o partido que tem 10% dos votos provavelmente ficará com cinco vagas, assim, serão eleitos os cinco primeiros candidatos daquela lista. A grande mudança do distritão é o fim do quociente eleitoral, pois, atualmente, os votos dos candidatos de cada lista ou de cada partido são somados para saber qual é a proporção — por isso é um sistema proporcional — que cada lista vai obter. Com o distritão não tem mais lista, só tem a lista para apresentar os nomes: há uma “corrida de todos contra todos”, em que os mais votados do estado serão eleitos.
Se cada um concorrer com seus esforços, os partidos pequenos serão povoados por artistas, empresários, jogadores, pessoas que não têm tradição na política, mas que são líderes e têm algum apoio da sociedade
Muitas pessoas acham que o distritão é mais democrático porque dá a vaga para os mais votados e, intuitivamente, isso parece correto. Entretanto, faço algumas críticas a esse modelo. Vamos considerar esse exemplo hipotético de 50 candidatos eleitos. Além desses 50 candidatos eleitos, outros 950 candidatos que concorreram por outros partidos receberam milhares de votos nas eleições, mas esses votos vão para o lixo. No nosso sistema atual, o voto de um candidato menos votado ajuda a eleger o candidato mais votado da lista: há um espírito de cooperação, pelo menos na lista. Se um candidato se afasta do cargo ou sai para se candidatar a outro cargo, o suplente que assume é do partido, assim o candidato desse partido que recebeu menos votos tem chance de ser contemplado. Então a primeira crítica que faço ao distritão é em relação à dispersão de votos.
O segundo aspecto crítico do distritão é a ausência da suplência partidária. No sistema atual, se um deputado vai ser ministro, o suplente do partido assume o lugar dele, mas no distritão o suplente pode ser de uma força política completamente diferente: o 50º eleito pode ser de um partido de esquerda e o 51º de um partido de direita.
O terceiro aspecto é que o distritão fragiliza ainda mais os partidos, porque deixará de existir uma coordenação dos candidatos numa mesma chapa. Ou seja, as pessoas não votarão mais no partido, mas nos nomes do partido X. Se um determinado candidato for eleito, os votos dele não ajudarão na eleição dos colegas de partido. Assim, quando um candidato recebe muitos votos, ele pode ser o único candidato eleito do partido, e um outro candidato que fez menos votos não se elege. Esse aspecto não é irrelevante para um país com partidos tão frágeis quanto o nosso. Não haverá mais campanha partidária, não haverá mais voto de legenda: simplesmente o eleitor vai votar no candidato.
O quarto efeito é o aumento da personalização, porque o candidato vai fazer um esforço individual, vai fazer campanha para ele próprio e, provavelmente, durante o mandato esse candidato terá um poder de barganha maior, porque ele dirá que não foi eleito com voto dos colegas de partido, mas com seus próprios votos. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, foi eleito com 53 mil votos; no distritão perigaria não se eleger, mas ele foi beneficiado com a transferência de votos de outros colegas da lista. Então, num sistema hiperpersonalizado, quem seria Rodrigo Maia? O candidato teria sua própria barganha e não teria nenhuma obrigação com o partido.
A única vantagem do distritão é que ele é fácil de entender, de explicar. Não estou convencido do que muitos têm dito, de que esse modelo produziria campanhas mais baratas. Se cada um concorrer com seus esforços, os partidos pequenos serão povoados por artistas, empresários, jogadores, pessoas que não têm tradição na política, mas que são líderes e têm algum apoio da sociedade.
IHU On-Line – A sua preocupação é que o distritão possa fragmentar os partidos, porque os candidatos farão campanhas mais personalizadas e, de outro lado, pessoas que não têm uma trajetória política passarão a concorrer em pequenos partidos. Mas essa já não é a realidade? De outro lado, uma parte considerável dos eleitores já vota mais de acordo com o candidato do que com a legenda.
Jairo Nicolau — Sem dúvida e, nesse sentido, o distritão vai radicalizar os nossos defeitos. Hoje, um décimo do eleitorado vota na legenda. Se o distritão for aprovado, esse valor vai ser zero. Hoje os partidos coordenam minimamente suas campanhas, dão dinheiro e mais tempo de TV para os candidatos preferidos — isso não quer dizer que o eleitor concorde com as escolhas do partido. De todo modo, no distritão o voto de legenda não existirá formalmente. O nosso sistema faz sentido porque os votos são somados para a lista dos candidatos de uma mesma legenda. Então, se você vota no candidato Z, esse voto é somado para ajudar o partido Z a ultrapassar o patamar de votos para eleger um deputado. Se optássemos pelo distritão, estaríamos fazendo uma escolha com todos esses defeitos que apontei, de votos esterilizados, com hiperautonomia do candidato com relação ao partido e seu poder de barganha no legislativo. Imagine um presidente tendo que negociar com um deputado que representa a si mesmo — já é assim em certa medida, mas isso será potencializado.
O distritão vai radicalizar os nossos defeitos
Hoje, numa votação, o líder do partido ainda consegue formar e orientar a sua bancada minimamente e há uma previsibilidade das bancadas. No entanto, se um candidato for eleito de forma independente, ele tem muito mais motivos para não ser fiel a um partido em termos de comportamento, e barganhar com o chefe do Executivo com um preço mais alto, porque ele foi eleito por conta do seu próprio empenho e não deve nada a ninguém.
O distritão não nos traz nada de positivo a não ser simplicidade: não tem cota, não tem sobra, não tem coligação. Vamos ganhar em simplicidade e perder em outro lado: vamos jogar milhões de votos no lixo e enfraquecer os partidos. Então, não vejo isso como uma boa opção.
Não entendo por que os deputados estão fixados nessa opção, já que ela aumentará a concorrência. Os deputados querem trocar uma concorrência limitada por uma concorrência aberta, em que eles vão concorrer não mais com 50 adversários, mas entre mil. Não entendo a razão de os deputados terem se animado com essa proposta. Ela me parece absolutamente irracional do ponto de vista da decisão, mas eles devem ter alguma motivação.
IHU On-Line — Hoje se discute muito a crise de representatividade, de um lado porque as pessoas votam em determinados candidatos e eles não são eleitos e, de outro, porque elas não se sentem representadas inclusive por quem é eleito. Se o distritão não resolve esse tipo de problema, o que seria uma alternativa diante da crise de representatividade?
Jairo Nicolau — Quando as pessoas dizem que votaram em alguém e que esse candidato não foi eleito, e que por conta disso o sistema é ruim — é verdade que os deputados representam 40% dos votos dados nas urnas —, elas estão mal-acostumadas e desinformadas, porque elas não foram educadas para entender o sistema eleitoral brasileiro: nós votamos em pessoas, mas essas pessoas não estão sozinhas, elas fazem parte de um time. Por mais que existam lideranças mais importantes que outras, o voto é uma coordenação, um esforço de uma série de pessoas. Quando eu digo que perdi meu voto porque votei em alguém que não foi eleito, estou usando a lógica de eleição do Executivo, mas a eleição para deputado não funciona assim. Quando digo que votei no candidato do partido Z, o meu voto ajudou o partido a ultrapassar o quociente eleitoral. Então, nesse sentido, no sistema atual, poucos votos são jogados fora, se considerarmos a perspectiva do partido.
Do ponto de vista do distritão, em alguns estados como Rio de Janeiro e São Paulo, de 60 a 70% dos eleitores jogariam seus votos fora. No sistema atual, o seu voto vai para alguém da lista do partido. As pessoas querem que o sistema dê uma coisa que ele não prometeu. A ideia não é que você eleja alguém em quem você votou, mas que o partido pelo qual você votou eleja alguém; essa é a lógica da representação proporcional. Como nós utilizamos um modelo em que votamos em nomes, achamos que estamos votando de fato nos nomes. Em Portugal, por exemplo, as pessoas não votam em nomes, porque a lista já está pronta antes das eleições.
No Brasil, há um vício em relação a como funciona o sistema eleitoral e isso está relacionado à falta de educação das pessoas. Com isso, se cobra do sistema algo que ele não promete. Não é justo exigir de um sistema o que ele não prometeu. Da mesma forma, se optássemos pelo distritão, não poderíamos cobrar que o sistema não fortalece os partidos, porque na verdade ele não promete isso, ao contrário, ele promete fortalecer os nomes das pessoas mais votadas.
IHU On-Line — Como os partidos em geral têm se posicionado sobre essa possibilidade de aprovar o distritão?
Os deputados estão pensando mais na vida deles, na carreira, do que propriamente num modelo para funcionar a longo prazo no Brasil
Jairo Nicolau — No que se refere aos partidos, não tenho visto propostas unificadas em relação a nenhum tema. O sistema eleitoral não divide o quadro partidário em direita e esquerda ou em governo e oposição. Em cada bancada observamos deputados com posições muito diferentes, portanto não há um consenso, mas existem algumas tendências. Por exemplo, o PT é o partido mais favorável à lista fechada; o PSDB, tradicionalmente, defendia o voto distrital, mas não quer dizer que o partido, quando votar, se comportará assim.
Em 2015 houve uma sessão no Plenário, com a atual legislatura da Câmara de Deputados, que não acatou o distritão, porque a maioria votou contra; o PT votou massivamente contra: de 63 deputados, 62 foram contrários ao distritão. Todos os deputados do PRB também votaram contra e os outros partidos se dividiram, como o PSDB, em que 26 deputados foram contra e 21 a favor. O PMDB foi fortemente favorável ao distritão: 48 votos a favor e 13 contra. No PCdoB, todos os deputados votaram a favor do distritão. Curiosamente, sabe-se que foi feito um acordo entre o PCdoB e o Eduardo Cunha, que prometeu que não votaria nenhuma cláusula de barreira para prejudicar os pequenos partidos, e em troca o PCdoB votou a favor do distritão.
Esses deputados podem mudar de posição, mas já demonstraram uma tendência. Pelo que ouvi, muitos deputados do PSDB já estão favoráveis ao distritão. Com relação aos partidos, há tendências majoritárias a favor, tendências contra, mas a maioria dos partidos se divide. Os deputados estão pensando mais na vida deles, na carreira, do que propriamente num modelo para funcionar a longo prazo no Brasil.
IHU On-Line — Há necessidade de fazer uma reforma no sistema eleitoral? Em que sentido?
Jairo Nicolau — Precisamos, sim, reformar algumas coisas no sistema eleitoral, mas não acredito que a forma de eleger deputados — lista fechada ou lista aberta, distritão ou proporcional, distrital ou distrital misto — deva ser discutida dessa maneira atabalhoada, de afogadilho, em poucos meses, só porque até o começo de outubro o Congresso teria que aprovar um novo sistema eleitoral para entrar em vigor em 2018. Por razões óbvias, essa legislatura está muito afetada por denúncias e perda de legitimidade política, por isso acredito que não é a melhor legislatura para fazer uma reforma em um sistema eleitoral que já está em vigor há tanto tempo — são mais de 70 anos.
Portanto, uma sugestão seria uma pequena mudança na legislação no sentido de criar um sistema mais dirigível, sem as coligações, ou seja, cada partido faz seu esforço pessoal, e criar uma cláusula de barreira nacional baixa, que ajude a reduzir um pouco essa alimentação partidária no Brasil, que chegou a graus incomparáveis com qualquer outra democracia. Se pudesse sugerir, modestamente, diria que temos de fazer uma reforma curtinha, proibindo as coligações, estabelecendo uma cláusula de barreira nacional baixa, em meio por cento, e deixar uma reforma mais forte, se for o caso, para uma legislatura que assumiria, mais renovada e mais conectada com o Brasil, em 2019.
A partir disso, eventualmente, se poderia abrir um grande debate com a sociedade, e uma reforma mais profunda envolveria até uma consulta à população em relação à decisão de qual modelo seria melhor. Quem sabe uma possibilidade seria votar, junto com as eleições municipais de 2020, um referendo sobre o tema. Mas agora, neste momento, não vejo nada além de oportunismo; os deputados estão preocupados em como aumentar a probabilidade de não perderem o mandato, o foro íntimo e a posição na carreira. É uma insanidade, em um cenário de tanta incerteza, mudar o sistema eleitoral para um sistema em que todos disputarão contra todos.
(*) Jairo Nicolau é doutor em Ciência Política pelo IUPERJ, posteriormente transformado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - IESP-UERJ. Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.
Fonte: IHU On-Line (10/07/17)

domingo, 13 de novembro de 2016

‘Podemos ter explosão de votos em branco e nulos’ ( Jairo Marconi Nicolau)

• Diante do aumento das abstenções e de votos em branco e nulos na eleição deste ano, o cientista político Jairo Nicolau é pessimista. O professor da UFRJ prevê para 2018 uma “explosão de insatisfeitos”
Jairo Nicolau, que lança em breve seu novo livro, “Representantes de quem?”, (editora Zahar) frisa que este é, por enquanto, um fenômeno só das grandes cidades de Sul e Sudeste derivado, principalmente, dos protestos de junho de 2013, dos escândalos de corrupção envolvendo a elite política, da crise do PT e das novidades impostas pela mudança na legislação eleitoral. Diz que, no horizonte, não há candidatos nem partidos capazes de motivar esse eleitor.
• O que explica o crescimento da abstenção pelo país?
A abstenção não é exclusivamente uma manifestação política. É claro que uma parte dos eleitores, e é quase impossível saber quanto, expressa isso. Outra parte também tem a ver com o problema do próprio cadastro. Cidades, como o Rio, fizeram o último recadastramento em 1986. Tem muita gente que mudou de cidade ou mora em outro bairro distante da sua seção eleitoral. Há também aqueles para quem o voto é facultativo, com mais de 70 anos. Além disso, o que é residual —e é um problema também— é que as pessoas morrem. Há uma demora para a retirada dos mortos do cadastro eleitoral. Mas a abstenção política está crescendo marginalmente, particularmente nas grandes cidades.
• O aumento de votos em branco e nulos preocupa?
Trata-se de um fenômeno concentrado nas cidades maiores. Tem quatro cidades para as quais chamaria atenção nesta eleição: Rio, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Nelas, tanto o voto em branco e nulo para prefeito quanto para vereador estão subindo eleição a eleição. Desta vez, bateu recorde. Em cidades médias do Brasil, com mais de 200 mil habitantes, esse fenômeno também cresceu, particularmente para as Câmaras municipais. No interior do Brasil, nada disso aconteceu: a taxa de brancos e nulos praticamente não se mexeu. O fenômeno está concentrado nas grandes cidades, no Sul e no Sudeste, não é ainda nacional. Claro que é preocupante. É inequívoco que a gente está diante de uma manifestação de desencanto e protesto.
• O que explica essa concentração nas grandes cidades?
Essa visão difusa contra os políticos é maior nas grandes cidades por conta das manifestações de junho de 2013, por conta dos canais em que essas informações circulam mais. No interior também tem Facebook, redes sociais, mas a impressão é que essa onda se iniciou entre as pessoas mais escolarizadas dos grandes centros e começou a se espalhar entre os mais pobres. Eleição no interior é outra coisa. Todo mundo conhece o candidato a prefeito, encontra na rua. Todo mundo tem alguém na família que é candidato a vereador.
• O sentimento antipolítica está mais forte no país desde junho de 2013?
Junho de 2013 é uma virada. A maior parte da opinião pública sempre criticou os partidos, o Congresso. Basta ver as pesquisas de opinião dos anos 1980. O que se passou de 2013 para cá? Pela primeira vez, tivemos manifestações agressivas e tendo os políticos como alvo. Isso contribuiu para reforçar uma ideia negativa da política. Depois, com tudo o que se passou no país, a desconfiança em relação à nossa elite política cresceu, por razões óbvias, pelos escândalos todos. Teve mais um fator que não pode ser desconsiderado: a crise do PT. O PT sempre foi visto como um patrimônio. Quando entrou na ciranda, isso aumentou o pessimismo. Lamentavelmente, a crise do PT não é a crise de um partido. Quando lideranças importantes são envolvidas nesses escândalos, isso sinaliza para a sociedade o seguinte: não dá, é tudo igual, política não presta. Desde que a urna eletrônica foi adotada, as taxas de branco e nulo reduziram muito. Achava que tínhamos chegado em um patamar entre 5% e 10%, esperado para uma democracia que tem o voto obrigatório. Só que a gente voltou a estourar a barreira dos 20%. Voltamos para os brancos e nulos da era da cédula de papel, em que tinha muito branco e nulo por erro, por dificuldade de preenchimento. É uma notícia ruim para a democracia.
• A nova legislação eleitoral pode ter contribuído para esse fenômeno?
As campanhas ficaram muito cerceadas. As motivações da lei são boas, as cidades estão mais limpas. Tive oportunidade de andar no interior do estado e vi a eleição muito animada, gente na rua, carreatas. As pessoas conhecem os vereadores. A televisão não tem tanta importância. No Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte, a campanha não apareceu na rua, porque foi muito curta e cerceada. Não estou criticando o cerceamento, ele é legítimo, mas bem ou mal o eleitor conhecia os candidatos. Os candidatos das grandes cidades não tiveram nem tempo fixo na televisão. Eram aquelas inserções que pingavam. Tanto que os candidatos de reduto e com uma certa máquina foram mais bem sucedidos. Você precisa ter formas de fazer com que a campanha chegue (aos eleitores). Uma parte desses votos brancos e nulos atribuo a esta nova legislação eleitoral.
• E na disputa pela prefeitura?
A eleição ficou curta demais. A lei passou (as campanhas) de 90 para 45 dias, tentando reduzir os custos. Talvez devesse ser de 90 para 60 ou 70 dias. No Rio, particularmente, por conta das Olimpíadas e Paralimpíadas, a energia do carioca ficou muito concentrada em outros temas. De repente, o tempo na TV foi muito curto. Na TV também passou de 45 para 35. No horário eleitoral, o tempo de dez minutos ficou pouco. Houve um erro, o debate foi rápido. Talvez a gente tenha que se adequar a este modelo. Não achava ruim três meses de campanha. Principalmente os candidatos que fazem campanhas mais artesanais, reuniões nas casas, precisam de tempo.
• A reforma política ajudaria a fortalecer a participação do eleitor?
Claro que mudar um pouco a legislação e aspectos eleitorais poderia deixar o sistema mais simples, com uma disputa com menos concorrentes. Isso contribuiria para um sistema eleitoral mais eficiente. Mas a questão é que esse debate nutriu muitas esperanças falsas de que você pode mudar a qualidade da elite política mudando o sistema eleitoral. Há uma onda de crítica à elite política. No lugar de se buscar melhores candidatos e partidos, se entrou em um movimento de recusa para bem ou para mal, e acho que para o mal. Na próxima eleição, em 2018, não tenho dúvida, os políticos vão continuar encontrando um território árido, um eleitor desconfiado. Isso dificulta ainda mais a campanha dos candidatos. Se nada mudar, podemos chegar à eleição de 2018 com uma explosão de votos em branco e nulos, chegando entre 20% e 30%. Não vejo nada no horizonte a curto prazo capaz de inverter esse padrão, um candidato ou um partido que encante ou retome a confiança. O que vemos na prática com esse comportamento é que uma parte dos eleitores está começando a incorporar a ideia da abstenção e voto em branco e nulo como práticas. Em 2018, vai ser pior. Porque é uma eleição nacional.
(Marlen Couto - O Globo/06/11/16)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O PT muda ou acaba? (Jairo Marconi Nicolau)





O PT faz 35 anos e isso não é pouco na nossa história republicana. Tirando os partidos políticos da Primeira República, que duraram quase 40 anos, mas com feições diferentes, já temos instituições longas para o padrão brasileiro. Ele é a organização partidária mais diferenciada que o País já teve. Quando nasceu, esta era a leitura que os próprios membros faziam de si mesmos: ‘Somos diferentes de tudo que tem aí, quebramos um padrão de se fazer política’. Essa fase do início da década de 1980 é muito celebrada, de maneira romântica, porque ele não dependia das estruturas estatais como hoje. Era uma agremiação de voluntários, com um processo de deliberação mais de baixo para cima.

Esse partido acabou, e passou por dois processos de inflexão - um interno e outro externo. O interno, de moderação do discurso tendo em vista a chegada à Presidência da República, veio com a expulsão das correntes mais de esquerda e o estabelecimento de uma aliança em 2002 com um partido fora do campo de esquerda, o PL. Mas há o externo, que talvez seja um pouco subestimado pelos analistas: o PT sofreu grande influência de fora para dentro com a mudança da Lei de Partidos, em 1995. Ela transformou completamente a forma de organização dos partidos no Brasil, com a criação do fundo partidário - que poucos anos depois já era a principal fonte de recursos do PT, em detrimento dos dízimos pagos pelos militantes e dirigentes na primeira fase. Entra também o Horário Eleitoral Gratuito. Foi quando nossos partidos passaram a ser mais regulados pelo Estado; a lei puxou sua organização do âmbito da sociedade para o do Estado e os colocou mais dependentes de recursos estatais. Nesse contexto entram também as decisões do TSE, desde o alinhamento das coligações em todos os níveis até as restrições recentes às trocas de legenda. Quando as pessoas olham o PT hoje e dizem que ele virou ‘uma máquina’, basicamente um partido de funcionários e de gente que vive da política, se esquecem que parte disso se deve a esse processo exógeno, que afetou o sistema todo.

O PT ficou mais parecido com as outras organizações. Os partidos hoje no Brasil estão se tornando instituições paraestatais, não só porque recebem dinheiro e tempo de TV, mas também porque não conheço outro país no mundo em que as listas de filiados sejam controladas pelo TSE, a criação de partidos dependa da chancela de um burocrata, ou o Supremo decida se alguém pode ou não trocar de legenda. Apesar dessa peculiaridade, a tendência é mundial, com o declínio da imagem dos partidos e a opção da sociedade pela militância em outras formas de organização.

Entrando na questão da ex-ministra Marta Suplicy, o fato de o PT governar o País há 12 anos - indo para 16 - torna praticamente impossível o partido se desvencilhar do fato de ser governo. Mesmo que em seus congressos e documentos internos até tente se posicionar de maneira autônoma. Vivemos uma ‘era do PT’ nas duas últimas décadas: mesmo quando ainda não era governo, o PT de alguma forma organizou a vida política brasileira. E acho que o partido vai viver esses dilemas internos, com disputas entre correntes e lideranças, talvez até mais aguçadas. Entretanto, como o partido é muito grande e organizado, tendo a achar que a tensão que a Marta denuncia entre Lula e Dilma tem caráter pontual, de um certo momento da campanha em que a candidatura apresentava dificuldades. Eu não daria tanto peso a essa interpretação.

O grande desafio que o PT vai viver é no momento que voltar a ser partido no sentido clássico, pois agora ele é partido-governo. Boa parte de seus dirigentes está longe do partido, ocupando cargos de confiança em secretarias e ministérios. Então, o desafio virá quando ele perder a eleição presidencial, for para a oposição e decidir como vai defender seu legado político no governo.

A referência, inevitavelmente, vai ser a das políticas sociais, de distribuição de renda. Não por acaso, um trabalho que acabo de apresentar em Portugal mostra que nenhum candidato a presidente no Brasil recebeu apoio tão maciço do eleitorado pobre quanto Dilma Rousseff. A votação da atual presidente nos 20% dos municípios mais pobres do Brasil chegou numa mediana de 67% do voto total, inclusive brancos e nulos. É um apoio que nem Lula teve. E um patrimônio que o partido conseguiu construir, soube comunicar enquanto governo e explorar durante a campanha - às vezes com um discurso forte não só de persuasão, mas de ameaça, de que as pessoas iriam perder aquilo que conquistaram com uma eventual vitória da oposição.
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Jairo Nicolau, cientista político, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Fonte: Aliás / O Estado de S. Paulo

terça-feira, 9 de setembro de 2014

"Nunca vi uma eleição como esta" (Jairo Marconi Nicolau/entrevista)





Sob o impacto da ascensão fulminante da candidatado PSB, Marina Silva, nas últimas semanas, o cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Jairo Nicolau afirma que nunca viu um fenômeno similar em nossa história política: "Nas eleições recentes, e mesmo antes, nunca tivemos nada do gênero dessa "onda" Marina. Em 15 dias, ela amealhou algo em torno de 38 milhões devotos. Foram quase 2 milhões de votos por dia". Nicolau arrisca dizer que é alta a probabilidade de uma vitória de Marina, mas alerta para os riscos que a ex-senadora ainda corre, tendo que se expor a debates, críticas e questionamentos. "Ela está ganhando de 2 a 0 no segundo tempo, tem um time bom, está jogando melhor, tem mais torcida, mas tem que segurar esse resultado até o final da partida", compara. No caso de Dilma Rousseff, o problema está no segundo turno: "Crescer e superar Marina, com esse forte antipetismo no ar, vai ser um enorme desafio para Dilma. O segundo turno é mata-mata. O eleitor zera o taxímetro. O PT vai ter que se organizar de outra forma", pontifica Nicolau.

Eduardo Miranda / Paulo Henrique de Noronha - Brasil Econômico

Marina Silva pode ser a próxima presidente do Brasil?

A probabilidade é alta. Eu acompanho eleição há muito tempo e nunca vi nada do gênero. É algo tão surpreendente quanto aquele 7 a 1 do Brasil e Alemanha. É totalmente fora dos padrões do comportamento eleitoral brasileiro. Mesmo se você lembrar, por exemplo, do Collor. Ele foi um outsider naquele momento, porque era filiado a um partido pequeno. Foi do PDS, depois se filiou ao PMDB, e depois desfiliou-se para entrar em um partido nanico, chamado PJ (Partido da Juventude). Trocou o nome para PRN e se candidatou à Presidência. A ascensão dele foi muito lenta, aconteceu em alguns meses. Virou um fenômeno de opinião pública, conquistou eleitores mais pobres, uma parte da classe média, e também do Nordeste. Nas eleições recentes, e mesmo antes, nunca tivemos nada do gênero dessa "onda" Marina. Em 15 dias, ela amealhou, nas minhas contas, algo em torno de 37, 38 milhões de votos.

Ela teve 19,6 milhões de votos na eleição de 2010.

Se a Rede tivesse saído e eu tivesse que apostar, em janeiro, projetaria que ela teria em torno de 20% a 25% dos votos válidos. Na estimativa que eu faço agora, excluindo os indecisos, ela estaria, hoje, com 37%, 38%. Os indecisos, brancos, nulos e candidatos dos pequenos partidos formavam 30%, e o Eduardo, 10%. Agora, eles somam10%, e Marina, mais de 30%. Ela tirou voto de todo mundo. Fez com que a Dilma tenha, hoje, o pior desempenho de um candidato do PT depois de 2002. É algo realmente impressionante para 15 dias. Foram quase 2 milhões de votos por dia que ela capturou. Dilma perdeu. Aécio, então, nem se fala. Os pequenos, que chegaram a somar 10 pontos, estão praticamente reduzidos a resíduo.

Como avalia as últimas pesquisas do Ibope e do Datafolha?

Acho que mudou pouca coisa, Dilma não cresceu, nem Marina. Elas apenas oscilaram na margem de erro. Mas a polarização é clara. Dilma parece ter se ancorado num patamar de votos válidos de 35% a 40%, o que lhe garante lugar no segundo turno. Para Marina, o desafio agora é saber se ela já atingiu seu teto devotos no primeiro turno, um teto que não é baixo, e se consegue se manter ali para evitar o risco de cair e ver o Aécio voltara crescer e ameaçar — o que é pouco provável, mas não impossível. Fazendo paralelo com um jogo de futebol, Marina está ganhando de 2 a 0 no segundo tempo, tem um time bom, está jogando melhor, tem mais torcida, mas tem que segurar esse resultado até o final da partida. Esse é o desafio dela agora, que pode se complicar porque ela está tendo que se expor, sendo criticada e questionada. E uma parcela significativa dos eleitores dela, que tem curso superior e quer uma nova política, e que migrou de maneira fulminante para Marina, vai querer saber quais são os programas, as ideias, o que ela pretende. Esse eleitor quer mais. Marina vai se expor, vai a debates, será criticada. Há uma série de críticas que vão aparecer, medos, coisas do gênero. Quando se embarca em uma onda emocional, não se pensa muito, as pessoas votam na Marina porque ela é moderna. Mas ela já recuou em alguns aspectos. De repente, o sujeito vê que estava embarcando no moderno, mas não era bem isso.

E a situação da presidenta Dilma Rousseff?

O grande desafio da campanha de Dilma será o segundo turno. O sentimento anti-Dilma é muito forte, se agravou bastante desde 2010, e a campanha do Aécio Neves concentra muitos votos desses eleitores antipetistas. No segundo turno, eles tenderão a migrar para Marina. Crescer no segundo turno e superar Marina, com esse forte antipetismo no ar, vai ser um enorme desafio para Dilma. O primeiro turno é por pontos corridos, o segundo é mata-mata. O eleitor zera o taxímetro. O PT vai ter que se organizar de outra forma.

Qual a ligação entre votos brancos, nulos, os indecisos, eleitores do Aécio, dos nanicos, e a ascensão da Marina?

Acho que os nacos que ela tirou são diferentes. Por exemplo: Rio e São Paulo estavam com 30% de eleitores dispostos a votar em branco e nulo na última pesquisa, antes da morte do Eduardo. O que já era algo espetacular, muito alto. Nas últimas eleições, os brancos e nulos ficavam na faixa de 10%. Quando o horário eleitoral começava, entre 8% e10% das pessoas diziam que iam anular o voto. Agora, a média era de 15%, mas, no Rio e em São Paulo, estava em 30%. No caso de São Paulo, o eleitor tradicional estava acostumado a ver uma polarização entre PT e PSDB, mas com um candidato a presidente tucano de São Paulo. Desta vez, não tem paulista na disputa. O candidato Aécio não teve tempo de se fazer conhecerem São Paulo. O eleitor do Rio e de São Paulo, que dizia que iria votar nulo e branco por desconhecimento, era antipetista, mas não conhecia direito nem o Campos, nem o Aécio. O Aécio teve interrompido seu processo de ascensão, sobretudo nas cidades médias do Sudeste para o Sul, onde o PSDB sempre foi muito bem desde 2002. Tudo indicava que, no mínimo, o PSDB empataria em São Paulo, com chances de vencer. Agora, está em terceiro lugar.

Mas as pesquisas indicam que o PSDB ainda está muito forte em São Paulo, deve eleger facilmente Geraldo Alckmin e José Serra.

O eleitor tucano de classe média, por alguma razão, antes de se transferir para o Aécio, migrou para a Marina. Isso aconteceu em outros estados, principalmente nos do Sul. É um fenômeno de opinião pública, que nunca aconteceu. Não só pela ascensão enorme, como pela velocidade. Todos os processos de expansão eleitoral que eu vi no Brasil foram mais graduais do que esse.

A comoção com a morte de Eduardo Campos contribuiu?

Acho que é um exagero essa avaliação. É claro que, pelo fato de ele ser um governador de um estado importante e um candidato competitivo à eleição presidencial, e a forma trágica como tudo aconteceu, acabou tendo um destaque grande na cobertura da imprensa. Eu não me lembro, nos últimos anos, de ter visto o velório de um político brasileiro que tenha mobilizado tanto. É um fenômeno... a própria cobertura da televisão, as redes sociais, a forma como tudo aconteceu, surpreendendo a todos. Ele dá uma entrevista no "Jornal Nacional" e, pela primeira vez, tem uma audiência de massa na campanha. No outro dia, de manhã... A Marina não fez nada para crescer assim tão rapidamente, ela nem teve tempo. Na verdade, teve a memória de seu desempenho em 2010. Mas é um paradoxo inacreditável. Como uma mulher que, em outubro do ano passado, não conseguiu registrar 500 mil assinaturas para organizar um partido, consegue 38 milhões de votos? É algo chocante para todos os parâmetros razoáveis. Enquanto ela não conseguia oficializar a Rede, o PEN, que é o Partido Ecológico Nacional, conseguiu. O que é o PEN? O Solidariedade também conseguiu, o Pros...

Dá para apontar uma causa para o crescimento da Marina, além dos 19,6 milhões de votos que ela teve em 2010?

É difícil de explicar. É um fenômeno que acontece, exclusivamente, na eleição nacional, não se reproduz nos pleitos estaduais. Independentemente da avaliação que se faça da Marina, das suas ideias, do que ela simboliza, há um fenômeno de contágio de opinião pública, epidemiológico. Uma coisa de "meme", para quem acompanha as redes sociais. Ela encaixou um sentimento de insatisfação como governo do PT. É um fenômeno muito pouco refletido, comum forte componente emocional. Não vejo uma reflexão, as pessoas pouco conhecem o que a Marina pensa do mundo.

Mas as pessoas têm uma imagem da Marina...

Têm. É um clichê a respeito dela, de que ela representaria uma nova política, uma política diferente. Uma mistura de correção pessoal com ideias novas no campo ambiental. Tem um clichê de sua biografia, que já tinha sido veiculado em 2010. Isso estava adormecido? O que foi isso? Mas acho que tem um fenômeno emocional, de contágio, que não está necessariamente associado à morte do Campos. Havia, no eleitorado, uma acolhida para alguém diferente, com esse perfil.

Quanto do sentimento anti-Dilma está nisso?

Se a gente lembrar daquela teoria dos conjuntos matemáticos,há várias interseções. Por exemplo, uma parte do voto anti-Dilma mais forte, que estava com Aécio, foi transferido, por razões muito simples. É um voto útil: Marina tem mais chances de derrotar Dilma. E parte da elite está embarcando na Marina como alternativa com condições de vitórias. Não acho que ela tenha tirado votos da Dilma. Ela pegou um sentimento antiDilma dos indecisos e do Aécio.

Dilma já está em um nível histórico mínimo de votos?

Ela está abaixo do que o Lula navegou, em 2002 e 2006, desde que o horário eleitoral começou, e que ela própria navegou, em 2010 — quando começou o horário eleitoral, na faixa dos 40% (dos votos válidos). Agora, tem a chance de ela embicar para baixo, chegando aos 35%, voltando para um patamar mais próximo do PT de 1998.

E o Aécio Neves, como fica?

O Aécio tem, hoje, pouquíssimas chances. Para o PSDB, este momento é um desastre total. Mas o partido ainda tem ambições de fazer uma boa bancada e, provavelmente, será decisivo para a base de sustentação de um eventual governo Marina.

O que PT e PSDB poderiam fazer para virar esse quadro?

O Aécio conseguiu abrir dez pontos em relação a Campos, estava administrando razoavelmente bem, mirando para cima. E o PT logo percebeu que disputaria o segundo turno com ele. Agora, os estrategistas dos dois partidos não têm saída, só bater na Marina. A probabilidade de uma vitória da Dilma sobre a Marina é baixa. Não diria que é impossível, mas, em termos de probabilidade, é muito pequena. A rejeição dela é muito grande, e o voto do Aécio no segundo turno irá quase todo para a Marina. Um dado interessante desta eleição é que, ao contrário do que aconteceu com Brizola em 1989, e com Garotinho e Ciro Gomes em2002, os votos do terceiro colocado não irão para o PT no segundo turno, porque Aécio representa o voto anti-Dilma.

E a propaganda negativa, as denúncias?

Eu acho que Marina vai sofrer um ataque pesado, não tem como não sofrer. Da blogosfera petista, da máquina petista, dos partidos da base governista que estão bem alocados. De milhares de pessoas que estavam razoavelmente tranquilas e cujas vidas não mudariam caso o PT se mantivesse no poder.

Marina falou que vai convidar PSDB e PT para compor seu governo, mas não o PMDB. É possível governar sem o PMDB?

Acho difícil. Historicamente, o PMDB é um partido que se divide. Ele sempre entra com uma ala, e a outra fica na oposição. O partido pode não entrar no governo, mas algumas lideranças, sim — Pedro Simon, Jarbas Vasconcellos, Geddel Vieira Lima.Acho difícil ela falar que não vai aceitar peemedebistas. O que vejo mais parecido com o que pode ser o governo Marina é o governo Itamar Franco. Um governo de centro-direita, com setores da esquerda. Por exemplo, o Itamar puxou a Luiza Erundina, ela foi expulsa do PT por ter sido sua ministra. Vai ser um governo com PSB, PSDB, DEM, alas do PMDB. Mesmo assim, provavelmente, um governo de minoria.

O PT aceitaria o convite?

Acho que não. Marina provavelmente atrairá muitos técnicos do PT, pessoas que estão em Brasília, à frente de programas, projetos, técnicos competentes do partido que devem continuar por razões até de oportunidade. Como uma ex-egressa do PT, ela tem contatos no partido. Agora, não acredito que o partido, formalmente, participará do governo. Porque ainda tem um mês de campanha, mais o segundo turno, quando a tensão, os conflitos, os ódios e as rusgas vão se aprofundar. Ainda que ela seja uma ex-petista, hoje ela é a principal adversária, e vice-versa. No final de outubro, a relação vai estar totalmente esgarçada,é inevitável. Com o potencial, sempre, da volta de Lula em2018, é mais razoável o PT apostar e ir para a oposição, esperando quatro anos. O problema é que a minha expectativa é deque o PT saia muito mal dessas eleições. Pode se salvar um pouco em Minas, mas deve encolher sua bancada na Câmara, no Senado e em muitas assembleias. Há muita rejeição ao PT.

O PSB parece que não está se beneficiando da "onda" Marina... o partido corre o risco de não ganhar nenhum governo estadual. Aparentemente, o fenômeno Marina não se reproduz nos estados.

Pela primeira vez na história, o PSB possivelmente vai reduzir sua bancada. Ele é o único partido no Brasil que sempre aumentou sua bancada na Câmara em relação à eleição anterior. Sem Campos, ele não tem aquela força. Nas eleições estaduais, deve acontecer o de sempre. O PMDB vai crescer sua bancada, porque tem muitos candidatos a governador, e a gente vai continuar nesse cenário da hiperfragmentação, com partidos com 25, 30 deputados. O PSDB deve aumentar, vai voltar para um patamar mais condizente com seu tamanho. Deve somar, nacionalmente, uma bancada maior do que tem. Mas os demais partidos não vão ficar muito diferentes. O PT está perdendo para a oposição e vai ter que se reconfigurar internamente e fazer sua autocrítica, apostando em 2018.

No programa de governo da Marina, algo lhe chamou a atenção?

A política econômica é muito semelhante à do PSDB. Tem um ponto ou outro de políticas públicas, mas não tem nenhum diferencial significativo. Desde o governo Lula, a gente discute mais programas do que projetos. Não se fala em projeto de desenvolvimento, projeto para a educação. O que temos são programas. Acho que o programa de governo do Campos foi desenhado lá atrás por alguns técnicos de partido, com ideias socialistas. Só que, agora, o programa passou a ser algo que as pessoas vão ler. Em nenhuma outra eleição as pessoas tiveram tanto interesse em ler um programa como terão, agora, como da Marina, porque ela nos colocou nessa incerteza total do que ela é. A gente entrou em um território de muita incerteza, em termos de ideias.

Dá para dizer se a Marina é de esquerda, direita ou centro?

Não acho que ela seja uma pessoa de direita. Ela veio da esquerda, militou no PT a vida inteira, mas, desde que saiu do PT— e não tem muito tempo, foi em 2009 — tem procurado um espaço. Buscou abrigo no PV e não conseguiu ficar. Quis organizar a Rede e não conseguiu. E buscou o PSB por uma pura estratégia de viabilizar seus quadros, de modo que os candidatos ligados a ela pudessem se eleger e criar uma base mínima. A ideia era muito mais fortalecera Rede para, depois, ela ter um partido, do que propriamente uma vitória. Não acho que seja de direita, mas terá que fazer um governo de centro-direita. Talvez, com um diferencial de uma agenda com temas ambientais. O meio ambiente nunca foi o tema central do PT, que sempre foi um partido desenvolvimentista clássico, com o tema ambiental entrando pela lateral. Talvez, ela possa, em uma política pública aqui, outra acolá, colocar essa marca ambiental. Mas, seu governo deve ser parecido com o que seria um governo liberal na economia, conservador nos costumes e progressista nas questões ambientais. Pelo menos são os sinais que está dando.

E a resistência do agronegócio?

O agronegócio encontrou no Aécio seu candidato mais natural, outra parte foi acolhida no governo petista e Marina deu declarações fortes. Acho que eles não odeiam, mas não têm simpatia por ela. O que ela poderia fazer? Um presidente pode muito pouco. Mandar uma lei proibindo o alimento transgênico? Isso é com o Congresso, que no Brasil é de centro-direita. Ela não pode muito contra o agronegócio.

Marina é a "nova política"?

Não se faz uma nova política sem um novo partido. Talvez se a Rede tivesse se viabilizado com uma agenda nova, quadros novos, fazendo bancada... O que percebo é alguém que encarnou essa renovação da política, mas não tem o lastro do carisma e do que ela representa. O Lula, por exemplo, sempre foi muito maior que o PT e conseguiu se comunicar com a sociedade de maneira muito mais eficiente do que o partido. A Marina é uma figura que acentua esse aspecto da renovação, mas o que me preocupa é que ela subiu sem nada embaixo. Para mim, é muito sintomático que ela não tenha conseguido organizar a Rede. É uma expressão de inépcia política não conseguir 500 mil assinaturas para registrar um partido no Brasil. Marina não tem um movimento, e as renovações da política acontecem com movimentos. Acho que ela está chegando à Presidência em função de um sentimento geral de insatisfação como governo que aí está, sem que a população tivesse tido chances de conhecer outras alternativas. Acho que ela é uma candidata que vai se cercar de quadros bons, terá de fazer aliança com quadros tradicionais, mas não tem o lastro da renovação.

Beto Albuquerque, vice de Marina, defendeu que a população vá às ruas pressionar o Congresso pela reforma política. Isso é viável?

Não é viável. Eu quase diria que é patético. Primeiro, a população não vai para a rua por esse exemplo particular. A população só vai para a rua discutir reforma política quando isso envolve a corrupção. Foi assim na Itália e no Japão, em 1993. São os únicos exemplos que eu conheço, em um regime democrático, para a reforma política. Temas da reforma política são técnicos, envolvem uma discussão ouvindo especialistas. É o mesmo que pedir à população para ir às ruas pela reforma tributária. Exige um conhecimento técnico-orçamentário. Acho isso uma fantasia. A população brasileira não tem esse hábito de pressionar Congresso nenhum para tema nenhum. Se, eventualmente, em um tem a chave, tivermos que fazer algumas passeatas, como os cariocas fizeram para o pré-sal, e os evangélicos por uma lei das células-tronco, é da vida. Agora, pressupor uma mobilização permanente, não cabe no modelo democrático brasileiro. É uma tolice achar que, para o governo ser eficiente, você tem que criar uma espécie de democracia de ruas. Nem o Lula tentou isso.

O horário eleitoral gratuito no rádio e na TV ainda tem peso na eleição? Dilma tem 5,5 vezes mais tempo do que Marina...

O horário eleitoral fixo, que é o latifúndio da Dilma, de 12 minutos, praticamente não está sendo mais assistido pela população. No começo dele, bateu 30 pontos de audiência, 10 abaixo do que a última eleição. Agora, quatro anos depois, muito mais gente tem TV a cabo, Netflix, banda larga em casa, formas de pensar uma utilização do tempo que não seja ficar diante da TV. O formato do programa se exauriu, não está mais funcionando como canal de comunicação. Diferentemente daqueles spots de 30 segundos, que passam em meio à programação normal, que têm uma utilidade, de fazer com que candidatos sejam conhecidos pelo eleitor. Por exemplo, o Miro Teixeira, que eu achava que não seria mais candidato, de repente, no meio do futebol, da novela, entra o spot do Miro, com seu número. Aí a pessoa descobre que ele veio a candidato. Para o PT, que tem que enfiar a Dilma falando coisas em 12 minutos, um tempo gigantesco, esse horário rígido não irá reverter o cenário. O que poderia reverter é o contencioso: a Marina ter que se explicar, participar dos debates e não ir bem.Para o segundo turno, o PT tem uma expectativa muito grande de que a Marina deslize, por ambas terem tempos iguais no rádioe TV. A Dilma teria muitas coisas para mostrar, e Marina, não. O problema é: o eleitor já conhece os programas e está avaliando o governo mal. Uma parte da população não quer mais esse governo. Cansou, por uma série de razões. Com a economia parada, o governo mal avaliado, o PT está muito queimado.

O PSDB vai embarcar no governo Marina, se ela ganhar?

Não tem outro jeito. O PSDB acaba se não for para o governo da Marina. Apesar de ter São Paulo, deve perder o governo de Minas,e isso já é um golpe muito forte.Do ponto de vista político, o PSDB sai arrasado. Mas pode fazer uma bancada de 50 a 60 deputados federais. E Marina vai precisar de centenas de técnicos para fazer a máquina andar. O PSDB tem esses técnicos em seus quadros, nos estados. Acho que o PSDB vai em peso para o governo,como base de sustentação, e vai querer influenciar nas decisões.