Quem lê a resolução da Executiva Nacional do PT sobre a reeleição da presidente Dilma Rousseff e as tarefas do novo mandato chega à conclusão de que o PT pensa que venceu as eleições sem os aliados de centro-direita — como o PMDB, o PP, o PSD e o PR — e resolveu apostar na ampliação do capitalismo de Estado e na construção de uma democracia popular. O programa proposto ao novo governo não tem ideias novas, é todo ele baseado em velhas propostas de conteúdo nacional-populistas da década de 1960.
O PT cobra de Dilma a conta da mobilização dos militantes para a vitória no segundo turno e tenta dar uma guinada à esquerda na política de alianças do governo. Sai o “presidencialismo de coalizão”, que garantiu o segundo mandato do ex-presidente Lula e a eleição de Dilma em 2010, cujo eixo privilegia o Congresso, e entra uma “ampla frente” de movimentos sociais, partidos e setores de partidos, intelectuais, juventudes e sindicalistas “em defesa de reformas democrático-populares”. É uma aposta na mobilização popular como forma de sustentação do novo governo. A implantação da jornada de trabalho de 40 horas sem redução de salário, o fim do fator previdenciário e as reformas agrárias e urbana seriam as bandeiras para empolgar os sindicatos de trabalhadores e os movimentos dos sem-terra e dos sem-teto.
Quais são as reformas? Nada a ver com a necessidade de fortalecer as instituições democráticas do país, melhorar a qualidade do ensino, o atendimento à saúde, a segurança pública, a produtividade do trabalho, promover a inovação e desenvolver a tecnologia, reorganizar o sistema tributário, mudar o modelo de transportes de pessoas e de cargas, modernizar o país e voltar a crescer. A prioridade é consolidar a hegemonia petista no governo, com a realização de um plebiscito para convocar uma Constituinte exclusiva, a aprovação de uma “Nova Lei da Mídia democrática”, a reversão da derrubada da Política Nacional de Participação Social, a desmilitarização das polícias militares e a revisão da lei da Anistia, com punição dos torturadores.
O PT exagera no peso dado aos protestos do fim de semana, nos quais surgiram propostas de impeachment e apelos à volta dos militares ao poder, para legitimar a radicalização das propostas políticas. Acusa os partidos de oposição de não reconhecerem o resultado da eleição. Mas isso é uma espécie de auto-engano. O que ameaça a estratégia petista são fatores objetivos, contra os quais o PT nada pode fazer: de um lado, a situação da economia, que faz das propostas apresentadas um salto no precipício; de outro, a correlação de forças na sociedade, depois de um resultado eleitoral tão apertado.
Diante desse cenário, qual é a alternativa sensata para a presidente Dilma Rousseff? Não é apostar na radicalização política e no confronto com a oposição, numa escalada irresponsável, que nada tem a ver com a necessidade de reaproximar o Palácio do Planalto dos setores produtivos e impedir que o país mergulhe numa grave crise econômica. A alternativa de Dilma é dar um cavalo de pau e fazer parte daquilo que dizia na campanha que a oposição faria, como elevar os juros, cortar os gastos, retomar o programa de concessões, etc. Além, é claro, de fazer uma boa faxina na Esplanada.
Essa é a encruzilhada do novo governo. A montagem de seu novo ministério dirá se dobrou a aposta no modelo que quase a levou à derrota, como gostaria o PT, ou resolveu sair dessa enrascada por uma via de negociação com o Congresso, a oposição e a sociedade. Dilma é refém das forças políticas moderadas que a apoiam, principalmente o PMDB. Ou seja, se Dilma insistir nas pedaladas, vai cair da bicicleta.
Correio Braziliense
O Partido dos Trabalhadores (PT) que acaba de ganhar as eleições com sua candidata Dilma Rousseff deverá aprender desta vez a conviver com a oposição, algo que não estava acostumado. O Brasil viveu sem ela nos últimos 12 anos de Governo petista. O carisma de Lula e suas conquistas econômicas e sociais, principalmente em seu primeiro mandato, tinham emudecido a oposição.
Se a ausência de um partido opositor – como existe em todas as democracias maduras dos países desenvolvidos – trouxe vantagens aos três mandatos do PT, é possível que a história descubra que também pode ter tido seu lado negativo.
Nem as melhores democracias sobrevivem imunes à corrupção e às tentações autoritárias sem uma oposição democrática, real, concreta, capaz de exigir que o Governo exerça a função concedida pelos eleitores. Nem mais, nem menos.
Como em uma família cujos filhos acabariam perdendo a identidade sem uma ação vigilante dos pais, também os governos podem se esquecer de sua função se não possuem o ferrão de uma oposição que os faça lembrar do que prometeram ao se eleger e os estimule ao cumprimento. E que os façam prestar contas.
O Partido dos Trabalhadores foi mestre na arte da oposição antes que o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva o levasse ao poder. Sabiam como ninguém ocupar as ruas e exigir. Fizeram oposição até ao texto da Constituição. Ninguém melhor do que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que sabe por experiência o que foi ter o PT como oposição, que gritava nas ruas e praças “Fora FHC!”. Aquela que, embora às vezes dura ao extremo, serviu de antídoto aos governos e até derrubou um deles do pedestal.
Ao chegar ao poder, o PT, que tinha até então vocação de dissidente e não de Governo federal, teve sorte não apenas de poder governar sem oposição, mas também de contar com um líder com grande força de atração nacional e internacional.
Nem sequer no momento crucial do escândalo de corrupção do mensalão, que foi o único momento dramático para Lula, a oposição quis endurecer e nunca pediu sua saída do Governo.
Agora, pela primeira vez, o PT pode começar a experimentar na própria carne o que significa uma oposição de verdade, que o novo líder Aécio Neves, forte com seus mais de 50 milhões de votos, afirmou que fará “sem adjetivos”, mas também com “total espírito democrático”.
Será uma experiência nova para o segundo mandato de Dilma Rousseff. Até ontem, a rua, com suas manifestações e protestos, às vezes democráticos e às vezes nem tanto, era exclusiva do PT e dos movimentos sociais. O protesto tinha sempre o DNA da esquerda.
Após as últimas eleições, pela primeira vez depois das manifestações de junho de 2013, as ruas começaram a ser tomadas não apenas pelos trabalhadores mas também pela classe média (filha às vezes daqueles trabalhadores de outrora), que possuem valores para reivindicar e queixas a apresentar.
As manifestações de junho foram abortadas pela infiltração do movimento dos violentos Black blocs, que fizeram com que a classe média voltasse a se recolher em suas casas.
Hoje essa classe média começa a querer defender seu direito de ser oposição e gritá-lo em público. E, imediatamente, novos infiltrados que a oposição oficial do PSDB de Aécio já repudiou tentam, conscientemente ou não, novamente abortar esse desejo legítimo da “não esquerda” de se manifestar. É justo negar-lhe esse direito?
Em todas as manifestações, no mundo inteiro, existem abusos e exageros; reúnem os verdadeiros amantes dos valores democráticos e os que se aproveitam da ocasião para barrar o direito sacrossanto de manifestação e de protesto. O direito de governar de quem ganha as eleições é tão sagrado quanto o daqueles de exercer sua função de oposição. São as duas pernas com as quais a democracia caminha. Sem uma delas andará sempre manca.
A rua não tem dono nem ideologia. Todos têm direito de ocupá-la democraticamente para reivindicar o que conscientemente consideram seus direitos e suas justas reivindicações.
Aprender a viver com os instrumentos da democracia não é sempre fácil mas, sem isso, até o melhor dos governos pode cair na tentação de transgredir.
El Pais
Para "venezuelanizar" o cenário político brasileiro, a visita do ministro chavista Elias Jaua na semana do segundo turno à escola de formação do MST foi o dado que faltava. O episódio em que a babá da família do ministro foi presa no aeroporto de Guarulhos por levar um revólver do chefe em uma valise gerou reações tanto na oposicionista Ação Democrática, em Caracas, quanto na bancada do PSDB na Câmara em Brasília. Ambas as siglas exigiram explicações de seus governos em nota oficial.
A ação antibolivariana dos tucanos, quatro dias depois do presidente venezuelano Nicolás Maduro festejar a reeleição da colega brasileira em uma cerimônia militar, não é isolada, como provou a vaia recebida ontem pelo petista Arlindo Chinaglia ao sair em defesa do convênio entre a Venezuela e o MST, durante um evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
O alerta ao perigo caribenho unifica o antipetismo e embute, do ponto de vista retórico, o ataque a aspectos autoritários da prática política de esquerda. Dá o tom radical a uma oposição que quer se mostrar pronta para o combate nas ruas e nas tribunas. Ou, nas palavras de Aécio Neves em seu discurso de ontem da tribuna do Senado, uma oposição "incansável, inquebrantável e intransigente".
Os vínculos entre o PT e seus apoiadores e o regime chavista são óbvios, como ficou claro com a trapalhada de Jaua. O mesmo ocorre entre as oposições em um e outro país. Ao passar pelo Brasil, em abril, a oposicionista Maria Corina Machado, deputada cassada pelos chavistas, teve tratamento de gala dado pela cúpula tucana. Corina não reconhece como legítima a reeleição de Maduro e junto com outras lideranças da oposição venezuelana participou de protestos marcados pela repressão que matou 41 pessoas, sendo 27 por arma de fogo. Denuncia o regime chavista como antidemocrático e controlado pela ditadura castrista.
A política venezuelana descambou para a briga de rua ainda nos anos 90, e o Brasil flerta com a prática desde o vendaval de junho. O caldo de cultura "black bloc" que emerge das redes sociais e das praças esteve presente em todo o processo eleitoral, ganhou um aditivo com a campanha de ataques sem freios do marketing da presidente e deixou as portas abertas para um protofascismo que incomoda os próprios dirigentes da oposição.
Nos últimos dias, Dilma parece empenhada em seguir o enredo clássico dos governantes que fazem um ajuste após as eleições, depois do mascaramento da realidade durante a campanha. A bola da radicalização foi deslocada para a cúpula do PT, que tenta se apropriar de maneira exclusiva e excludente da vitória, e para a luta pelo comando dentro do PSDB. Em ambientes onde há disputas pela liderança, o espaço da moderação diminui, porque não há força unitária capaz de bancar o custo de um movimento em direção ao centro. A moderação aliena apoios preciosos na demarcação de posições.
Aécio teve uma semana apoteótica em Brasília, com direito a aplausos dos colegas antes de discursar, nesta quarta. O tucano sempre poderá argumentar que está no jogo sucessório de 2018 porque fala com a autoridade de, com 51 milhões de votos no segundo turno, ser o tucano mais votado de todos os tempos. Mencionou esta circunstância três vezes em seu discurso. Mas sempre poderá ser lembrado que São Paulo, terra do rival Geraldo Alckmin, respondeu por 30% deste contingente e por 14 dos 54 deputados eleitos do partido. Se Aécio tivesse em Minas Gerais os mesmos 64% de votos válidos que obteve em São Paulo no segundo turno, ficaria com 50,1% da votação nacional. Essa conta já foi feita pelos tucanos paulistas. Também foi feita pelos mineiros, que passaram a apostar na agitação e propaganda.
"Recuperamos o caminho das ruas. Estamos fazendo manifestações de caráter democrático. Nosso pessoal não sai das redes sociais. Estamos enfoguetados", disse o deputado mineiro Marcus Pestana. O radicalismo das manifestações no último sábado, marcadas aqui e ali por desvarios de extremistas, tornou evidente que há um debate sendo feito dentro do PSDB. Em órbitas mais distantes do mineiro, as manifestações foram recebidas com frieza.
"O impacto do resultado está gerando sinais de inconformismo", disse o senador paranaense Alvaro Dias, rechaçando a comparação com a Venezuela. "Existe uma diferença abissal entre as realidades e os setores radicais não têm no Brasil a força que possuem lá. Temos instituições sólidas e o que se manifesta nas redes sociais não reflete o quadro nacional. Não são parâmetro", afirmou.
A referência à cizânia tucana foi feita ontem de modo elíptico pelo líder do PT no Senado, Humberto Costa, ao apartear Aécio. O petista lembrou que Alckmin foi enfático em condenar o extremismo. Em seguida, elogiou Aécio por também fazê-lo, ainda que sem veemência. O mineiro respondeu que o PSDB está comprometido com a democracia e que a vinculação da sigla com a extrema-direita é outra aleivosia lançada para desacreditar a oposição.
Na Venezuela, é a disputa pela liderança, dos dois lados da arena, que mantém o incêndio. A enorme votação obtida por Henrique Capriles em 2013 fez com que Corina e outros oposicionistas buscassem as ruas e colocassem em cheque a coalizão de 26 partidos que formam a Mesa da Unidade Democrática. Sem o carisma e o respeito que Hugo Chávez infundia, Maduro tornou-se a caricatura de seu inspirador para deter o avanço da ala militar do PSUV. Uma parte do ministério viaja pelo mundo acenando com a racionalidade econômica, outra confraterniza com o MST, enquanto o presidente conversa com passarinhos. É voz corrente que o Palácio de Miraflores é um campo de batalha.
A disputa também está dentro da campanha do coração valente. O último documento da Executiva Nacional do PT fala por si: "É urgente construir hegemonia na sociedade", afirma o texto. "Será necessário, em conjunto com partidos de esquerda, desencadear um amplo processo de mobilização (...) para transformar o Brasil, é preciso combinar ação institucional, mobilização social e revolução cultural". Seria oportuno saber o que o vice-presidente Michel Temer e o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles pensam sobre o tema.
Valor Econômico
Trajando suas mais típicas vestes maximalistas,
provocadoras e golpistas, a direita extremada está querendo ir para a rua.
Não que estivesse desde sempre ausente dela. Em junho de 2013, tentou mostrar as garras nas manifestações que tomaram conta da cidade, usando os expedientes que a caracterizam: o destempero verbal, a provocação, o autoritarismo, a violência. Foi repelida pelos manifestantes, que não se intimidaram diante dela, mas algum modo ajudou a desmobilizá-los.
A direita extrema que está buscando agora se exibir é um grupo dentre outros, um subgrupo de um grupo maior, mas não se articula com ele. É algo à parte, que tenta ostensivamente se apropriar da alma daqueles que votaram contra o PT nas últimas eleições. Quer ser a vanguarda belicosa do antipetismo, este estado de espírito que cresceu como mato de uns anos para cá.
Procura capturar o sentimento de cansaço, descontentamento e desilusão que há em várias franjas da população contra a má qualidade da política, as falhas da representação e os desacertos governamentais. Quer pegar carona na frustração dos que acharam que Aécio venceria as eleições.
A direita extremada tenta fazer isto a seu feitio: valendo-se do histrionismo, da demagogia barata e da ameaça autoritária, chegando ao limite de falar em golpe e intervenção militar. Faz o jogo sujo de sempre, insuflando pessoas para a “caça aos comunistas” e para a desvalorização da democracia. Descobre até mesmo uma estratégia detalhada para que o comunismo se implante no País e no continente. É uma direita que parou no tempo. Sua linha de frente é integrada por provocadores, alguns abertamente grotescos.
Tanto quanto criticá-la e repeli-la, precisamos compreendê-la. Vê-la como parte da rua, mas não como toda a rua. Esta direita virulenta não é sequer toda a direita, mas um pedaço dela, de tamanho não conhecido. Há muitas “direitas” no mundo, não faz sentido tratá-las como se fossem uma única coisa e sair por aí carimbando liberais e neoliberais como “direitistas”, indiscriminadamente. É muita pobreza intelectual e muita cegueira política.
Em suma, devemos olhar a floresta, não um ou outro galho podre.
Precisamos antes de tudo decifrar o enigma: quem são e o que pensam os que animam esta direita extremada? Qual seu alimento, que chances tem de crescer? Sua cultura pode ser conhecida, mas suas possíveis traduções não o são necessariamente. O fenômeno não é novo no Brasil, mas sua irrupção pública é. Não temos estudos que nos forneçam o identikit desta direita.
Em segundo lugar, uma sociologia das ruas nos ajudaria muito. Quem (indivíduos, grupos, classes) se mobiliza hoje, por quais motivos, quem se deixaria levar por palavras de ordem demagógicas e abertamente regressistas? O que sensibiliza e motiva tais pessoas? Todos os que protestam, hoje, podem ser acomodados numa caixinha escrita “direita”, só porque se manifestam contra Dilma ou o PT?
Disto deriva, em terceiro lugar, a questão de saber por que há pessoas hoje, no Brasil, que estão “desorganizadas” mas dispostas a protestar e a fazer ouvir sua voz. Estas pessoas não aplaudem plataformas antidemocráticas. Podem pedirimpeachment num momento inadequado, sem se dar conta de que este instrumento constitucional precisa ser devidamente processado, não pode ser usado para extravasar suspeitas ou insatisfações. Mas não são “direitistas”. São quando muito pessoas comuns, insatisfeitas, irritadas. Têm todo o direito de ir às ruas. E até de falar em impeachment caso a situação política assim indique.
Por que então ninguém consegue organizá-las em sentido democrático? Onde estão o PT, o PSDB, o PSB, a Esquerda Democrática que não conseguem atrair cidadãos que, em princípio, não concordam com o regressismo da direita extremada mas que poderão se deixar levar por ele?
Eleitores frustrados e, em parte, revoltados com a perspectiva de que tudo continue como dantes e de que o sistema político siga envenenado, são personagens democráticos como outros quaisquer. Fazem bem à democracia, funcionando como um mecanismo de controle social e de crítica ao poder. Mas precisam ter referências e recursos de mobilização e ação.
Os que foram à rua no último sábado, em São Paulo, não são “de direita”. Também não são tucanos, ainda que possam ter votado em Aécio Neves. Não sabemos bem quem são e deveríamos humildemente reconhecer isto, no mínimo para evitar generalizações. O que sabemos é que um pequeno grupo de direitistas extremados procurou manipulá-los, roubando-lhes a indignação para impulsionar propostas antidemocráticas.
Estes direitistas, seus intelectuais de plantão, seus ícones, assim como os que aceitam suas modalidades de pensamento e ação, não integram a oposição democrática. Não são do PSDB, nem do PSB, nem do PPS ou do PSol. Fazem bem, portanto, os partidos democráticos em se dissociarem claramente deles. Como fez Xico Graziano, por exemplo: “Existe no Brasil uma ideologia própria da direita que se encontra desamparada do sistema representativo, quer dizer, sem partido político. Sua força se mostra na rede da internet. Essa corrente luta para destruir o PT, acusando-o de querer implantar o comunismo por aqui. Defendem as liberdades individuais, combatem a corrupção organizada no poder, desprezam as lutas sociais, mostrando-se intolerante com o direito das minorias. (…) Na complexidade do mundo contemporâneo anda difícil rotular os partidos, e as pessoas, como de “direita” ou de “esquerda”, categorias válidas no século passado, mas ultrapassadas hoje em dia.
De qualquer forma, quem concordar com as teses dessa turma aguerrida que vê o comunismo chegando, é contra os benefícios sociais, sonha com a ordem militar, por favor, deixem o PSDB.”
Que se multipliquem manifestações como estas. Que se separem e se distingam as posições. Isto é decisivo para que se ponha um pouco mais de ordem nos alinhamentos políticos e ideológicos.
Isto deve valer para todos, vencidos e vencedores.
Moderação, sensatez e disposição para dar direção política à sociedade devem ser exigidas do PSDB e de seus aliados. Eles precisam mostrar determinação para ocupar um espaço e organizar o debate público. Devem atuar democraticamente como oposição política ativa, colar-se aos movimentos e humores da sociedade, colaborar para que se resolvam os problemas do País. Aécio Neves, ao voltar ao Senado, disse integrar “um grande exército a favor do Brasil e pronto para fazer a oposição que a opinião pública determinou”. Um exército faz guerra, não amor.
Deveria suavizar a linguagem.
Mas o PT e sua combativa militância precisam dar idêntica contribuição. Parar, por exemplo, de distribuir acusações, de estigmatizar seus adversários e de atribuir a eles a responsabilidade pela emergência da direita extremada. Quanto menos sectarismo e intolerância, melhor. Deveriam também fazer o possível para segurar seus próprios extremistas, que não são muitos mas costumam fazer muito barulho. E desativar o discurso maniqueísta que separa o Brasil em “povo petista” e “elites tucanas”, que foi incorporado por muita gente e só ajuda a emburrecer e a excitar, além de ser paralisante.
Deste ponto de vista, nada mais surpreendente e prejudicial do que a nota do PT (04/11/2014) conclamando a militância “às armas “ para combater os “fantasmas do passado” que buscam criar um “terceiro turno” na eleição presidencial. Serve somente para colocar a tropa nos cascos, “armando-a” com argumentos e estímulos “para rebater a ignorância nas redes e nas ruas”.
Contrapõe-se frontalmente ao mandato e à responsabilidade que o partido recebeu das urnas.
Em seus primeiros passos como presidente reeleita, Dilma parece estar inclinada a fazer tudo aquilo que abominou e criticou em seus adversários (Marina e Aécio): cortes de despesas, elevação de juros e preços, empresários e banqueiros no comando da economia. Há um anticlímax no ar. Ela terá de mastigar o mesmo veneno que inoculou nos adversários. Neste quadro, a insatisfação tenderá a crescer. A militância dilmista poderá se frustrar e sair em busca de um bode expiatório, pondo mais fogo nas ruas.
Democracia é conflito, tensão e luta. É ruído, não silêncio. Ação, não passividade. Contudo, sem um mínimo de cálculo político, organização e bom senso a vida democrática não se sustenta e pode terminar por embalar seu pior pesadelo: a violência e o autoritarismo sem freios.
A extrema-direita está aí, buscando ganhar espaço. Como os democratas podem enfrentá-la? A tática de hipertrofiá-la, de apresentá-la como se estivesse em forte e categórica expansão, não é somente um equívoco político: é um desrespeito à realidade e à verdade dos fatos. É agitação, não análise política.
Faz uma clonagem ao reverso da fraseologia direitista que vê o comunismo como prestes a ser instalado no País. Agiganta e estimula um ator que somente respira em condições de exacerbação dos espíritos.
Opor-se à direita extremada é algo que depende de fortalecimento democrático, no plano institucional, político e cultural. Passa por convergências e consensos que funcionem como filtros, divisores de águas e anteparos. Quanto mais polarizado o quadro, maior será o campo de ação para a direita, menos isolada se sentirá ela.
As ruas estão sempre sendo disputadas. A direita extremada é somente um dos protagonistas.
Ela cresce no vácuo. Se os demais deixarem, a disputa enveredará por caminhos que não interessam à democracia.
Cientista político e professor da teoria política na UNESP
O Estado de S. Paulo
O PT marcou reunião do Diretório Nacional para o fim de novembro, em Fortaleza (CE), a fim de fazer o balanço da jornada eleitoral de 2014. Há duas leituras da vitória apertada da presidente Dilma Rousseff, cada qual com um ponto de vista sobre o que deve ser o governo do PT, nos próximos quatro anos. Os dois lados partem de uma constatação básica: o PT vem perdendo base social e nunca correu tanto risco de perder desde que chegou ao Palácio do Planalto, em 2002, quanto nesta eleição.
Há os que acham que a vitória foi apertada por causa dos erros da presidente Dilma Rousseff no governo, de um lado, e os que consideram que o PT somente chegou à vitória pelas virtudes dela. No primeiro grupo estão todos aqueles que orbitam em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e contam com ele para a manutenção do PT no governo para além da segunda década do século 21. O outro defende que este é o segundo mandato de Dilma à luz do que ela se converteu na campanha, e não apenas um governo transitório para a volta de Lula.
O "dilmismo" afirma que a presidente ganhou duas eleições disputando a política. Na primeira abateu Marina Silva (PSB); na segunda, Aécio Neves (PSDB). Os dois com o mesmo discurso que, levado à prática no segundo mandato, implica dobrar as apostas que Dilma fez no primeiro mandato. O reverso da moeda diz que Dilma esticou a corda nos fundamentos e agora precisa arrumar o governo com vistas a conter a inflação e ajustar as contas públicas.
De imediato seria preciso uma trégua com os mercados, com a indicação de um nome para conduzir a economia como o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles ou o presidente do Bradesco, Luiz Trabuco - o executivo, aliás, recebeu uma sondagem da presidente, mas se mostrou pouco receptivo a trocar a iniciativa privada pelo governo, conforme revelou Ângela Bittencourt, do Valor PRO, o serviço de informações em tempo real do jornal Valor.
Essa é a "fórmula Lula", uma volta a 2003, quando o presidente eleito nomeou Antônio Palloci para o Ministério da Fazenda, Meirelles para a presidência do Banco Central e ilustrou o ministério com nomes representativos da sociedade, entre os quais Roberto Rodrigues (Agricultura), Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento, Indústria e Comércio) e Márcio Thomaz Bastos (Justiça). A versão 2015 dessa fórmula teria um banqueiro na Fazenda, um representante do agronegócio (a senadora Kátia Abreu) na Agricultura e um empresário (Josué Gomes da Silva, do grupo Coteminas), na Indústria e Comércio. Por esse caminho, Dilma compõe com os aliados a fim conseguir maioria estável e tranquilidade no Congresso. Em perspectiva, o novo mandato da presidente Dilma nada mais seria que um governo de transição para a volta do líder máximo em quatro anos, o que exigiria um ajuste forte agora para se chegar a 2018 com um cenário econômico favorável eleitoralmente ao PT.
Existe no PT gente e disposição para sustentar as teses da presidente na disputa eleitoral. Especialmente entre os mais jovens se diz que o "dilmismo" deixou de ser uma marca gerencial da presidente e ganhou corpo como movimento político. Entre voltar a 2003 e avançar para 2015 a escolha parece óbvia. Escolher um banqueiro para a Fazenda não seria apenas um estelionato eleitoral, mas uma traição com aqueles que foram seduzidos pelo discurso eleitoral da presidente e tomaram as ruas das grandes cidades nos últimos dias de campanha, o que há muito tempo não via o PT.
Na Câmara e o no Senado Dilma será capaz de encontrar, num estalar de dedos, gente disposta a enfrentar o PMDB e o modelo de governabilidade ditado pelo partido aos presidentes, desde a redemocratização. Mais ainda se decidir enfrentar a candidatura do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) a presidente da Câmara, na próxima legislatura. A regulação da mídia e o plebiscito também fazem parte do cardápio do "dilmismo", mas são propostas em baixa no PT tradicional, onde se entende que o partido ficou sem condições políticas de comandar a agenda devido à vitória apertada na eleição presidencial. Dilma agrada quando fala em criminalizar a homofobia.
A disputa no PT é visível nas especulações sobre a composição do novo ministério de Dilma. A presidente, por exemplo, quer por perto o governador da Bahia, Jaques Wagner, na Casa Civil ou outro ministério vinculado ao Palácio do Planalto. O PT de São Paulo, sobretudo, fala na indicação de Wagner para a Petrobras, onde o governo, de fato, pretende estabelecer um político capaz de pacificar e regularizar as atividades empresa. Mas para "dilmistas" a sugestão teria o único objetivo de afastar Wagner do núcleo decisório do futuro governo, a ser integrado também por Miguel Rosseto, Giles Azevedo, Aloizio Mercadante e Ricardo Berzoini. Dos cinco, Berzoini é o maior representante da antiga ordem.
O déficit nas contas dos governos começou em maio e atingiu o apogeu em setembro. Não é mera coincidência. Esse é o preço da reeleição. Nas duas esferas de poder. No governo federal, considerando a União e as estatais, o déficit chegou a R$ 25 bilhões em setembro, ante 14,4 em agosto. Em relação aos Estados o número dobrou, no mesmo período, para R$ 4 bilhões. Quando não havia reeleição, os governadores também esbanjavam para eleger o sucessor. Tanto um caso como o outro devem ser examinados detidamente quando e se for discutida o fim da reeleição...
Fonte: Valor Econômico
Guilherme Evelin – Época
Um dos principais cientistas sociais do país, o carioca Luiz Werneck Vianna viu com preocupação a iniciativa da presidente Dilma Rousseff, logo no primeiro discurso depois de reeleita, de propor, mais uma vez, uma reforma política pela via do plebiscito. O caminho correto para uma reforma, diz Werneck Vianna, é pela via do Congresso Nacional. Se o governo insistir na tese do plebiscito, ele acredita que poderemos ir para uma situação parecida ao dos tempos do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe de 1964. Nela, um Executivo enfraquecido tenta se fortalecer mobilizando setores da sociedade contra o Legislativo. A despeito dessa preocupação, Werneck vê um momento de virada na sociedade brasileira, em que a democracia poderá se aprofundar no país. Ele adverte, porém, que esse momento poderá se tornar “péssimo”, se as lideranças políticas não souberem jogar direito. Ele falou com ÉPOCA durante o encontro anual da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), em Caxambu (MG).
ÉPOCA – Como avalia os ensaios para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff? É boa a proposta de reforma política por meio de um plebiscito?
Luiz Werneck Vianna – Essa proposta é inviável. Ela jogaria o país no labirinto. Nem responsável é, porque ela é inteiramente incapaz de dar uma solução ao problema. Você precisa de uma reforma política que faça as coisas andar e não de uma que paralise o país, que oponha um Executivo, mobilizador de setores da sociedade, a um Legislativo, pressionado a aprovar determinado projeto. Isso não vai a lugar nenhum. A via correta para a reforma política é a congressual.
ÉPOCA – Dilma saiu enfraquecida politicamente dessas eleições?
Werneck Vianna – Saiu.
ÉPOCA – Não é uma contradição que ela fale em diálogo e coloque a carta do plebiscito na mesa de negociação, quando ela está enfraquecida?
Werneck Vianna – Sim. É contraditório falar em diálogo e vir com uma proposta de reforma política via plebiscito. Se ela for nessa direção, atenção,eu estou falando na condicional,se ela for nessa direção, isso quer dizer que ela vai procurar apoio na sociedade para se fortalecer contra o poder Legislativo, contra a oposição. Lembra um pouco os tempos do Jango, com suas reformas de base. É o Executivo tentando realizar reformas contra o Legislativo.
ÉPOCA – Há diferentes diagnósticos sobre a influência das jornadas de junho de 2013 nas eleições. Qual é a sua opinião?
Werneck Vianna – Foi muito grande. A agenda dessa campanha, com a discussão das políticas públicas de saúde e principalmente de educação, derivou das manifestações de junho.
ÉPOCA – A polarização política entre PT e PSDB tende a permanecer?
Werneck Vianna – Acho muito difícil que nós nos convertamos numa estrutura bipartidária, mas a polarização pode permanecer, sim. Nos Estados Unidos, a polarização entre democratas e republicanos está aí desde sempre. No Reino Unido, entre conservadores e trabalhistas, também. Por que não pode permanecer no Brasil? Pode, sim. A questão é outra: seria desejável? No nosso caso, eu acho que não. A existência de outras forças políticas pode reforçar a ligação do sistema político com a sociedade civil complexa e heterogênea que temos. No mundo real, o brasileiro tem se mostrado avesso a estruturas políticas muito simplificadoras.
ÉPOCA – O que achou do acirramento de ânimos provocado por essa eleição?
Werneck Vianna – Esse acirramento não foi bom, porque ele não se deu em torno de questões substantivas. Ele foi muito personalizado, fulanizado. Isso é ruim, porque não educou a sociedade.
ÉPOCA – Como observador da nossa política há muitos anos, o que lhe chama a atenção nessas eleições?
Werneck Vianna – Nós estamos num momento de uma grande virada. A democracia brasileira criou condições de se enraizar. Mais agora do que em qualquer outro momento. Está claro para a sociedade, eu penso, que as reformas e as mudanças sociais derivam do processo eleitoral – e não de ações externas ao processo eleitoral. Vale dizer: as eleições no Brasil são uma forma superior de luta da agenda social. As pessoas vizualizaram, por experiência própria, que o caminho de conquistas sociais está no aprofundamento da democracia política.
ÉPOCA – Isso já não existia antes?
Werneck Vianna – Já existia. Mas pegou mais força, mais consistência, mais densidade.
ÉPOCA – Que tipo de consequência isso pode ter?
Werneck Vianna – A sociedade precisa se organizar, os partidos precisam melhorar suas estruturas para que o debate político ganhe mais consistência.
ÉPOCA – É um bom momento para o país, então?
Werneck Vianna – É um bom momento, do ponto de vista sociológico.Se será um bom momento de verdade, dependerá da ação dos atores políticos. Se eles jogarem de forma desastrada, pode ser um mau ou até um péssimo momento. Se insistirem nesse caminho da reforma política pelo plebiscito, os atores políticos estarão jogando no sentido de turvar e obstaculizar as belas possibilidades de aprofundamento da democracia, com que contamos agora.
Gabriel Manzano – O Estado de S. Paulo
O Brasil que sai das urnas "é o Brasil real, em que os dois lados retornaram à polarização, sepultaram terceiras vias e nada debateram sobre como consertar um país desigual, atrasado e incivilizado", diz o historiador Carlos Guilherme Mota. No rescaldo dos ataques entre os candidatos e da radicalização nas redes sociais, ele conclui que "o 3.º turno já começou", reforçado pelo pedido do PSDB de auditar as urnas do Tribunal Superior Eleitoral.
Mota vê "um quadro econômico preocupante somado a um conflito político latente" - e a providência mais lógica é a presidente Dilma Rousseff, reeleita, "comportar-se como estadista, construir pontes, convocar lideranças, inclusive da oposição, para uma agenda nacional comum". "Não há solução esparadrapo para o atual cenário."
Que Brasil é esse que saiu das urnas no dia 26 de outubro?
O que saiu das urnas foi o Brasil real. Um país no qual interessou aos dois lados em combate retornar à polarização, sepultar terceiras vias e gastar toda a campanha em uma discussão inútil sobre os defeitos do outro e na qual mal se falou sobre os entraves que nos definem como um país desigual, atrasado e incivilizado. Essa campanha mostrou o quanto estamos longe, ainda, de ser uma sociedade moderna. Uma sociedade com um liberalismo moderno, uma esquerda moderna, que discuta assuntos com seriedade. Onde a solução para saúde, educação ou infraestrutura não seja reduzida a frasezinhas de efeito inventadas por marqueteiros.
A campanha foi marcada por ataques e radicalização na internet. O clima piora quando o PSDB tenta auditar a votação?
O 3.º turno já começou. Somos um país politicamente rachado, que parece sair da cordialidade para o confronto. O que temos equivale a uma crise do regime: não conseguimos nos livrar de um modelo autocrático burguês e entrar em outro moderno, democrático e republicano. Mencionar o que corre nas redes sociais, como faz o PSDB, para contestar o resultado é um recurso frágil, descabido. As redes são um oceano de informações viciadas e tendenciosas por todos os lados.
No que isso vai dar?
Temos uma crise, das boas, a caminho e é preciso começar a juntar os cacos. Essa crise reúne um quadro econômico preocupante e um conflito político latente. E não há como transferir a tarefa: a iniciativa tem de ser da presidente. Não resolve tomar uma ou outra medida pontual, mandar projetos ao Congresso. Quanto ao que eu acho, diria que sou um "cético moderado". A grande virada dela seria comportar-se como estadista, como fizeram em tempos recentes Michelle Bachelet no Chile, Angela Merkel na Alemanha. Teria de afastar-se do padrinho, da marquetagem. Convocar lideranças - o que inclui os adversários - e criar uma agenda nacional comum. Seria algo mobilizador. Mas não é fácil.
De que desafios o sr. fala?
Primeiro, definir uma saída para a economia que atraia o mercado para seu projeto. Isso significa adotar medidas ortodoxas para baixar a inflação - coisa que ao longo da campanha ela desconsiderou e ironizou. Tem de trazer de volta o crescimento, reanimar a indústria, reinvestir na infraestrutura. Não há solução esparadrapo para o atual cenário.
E a negociação política? Como se entender com o Congresso?
Nas relações com o Congresso é certo que a presidente vai ter menos autonomia do que tinha - e que já era pouca. Ela é dependente do PMDB, que saiu mais forte das eleições de outubro, um sinal de que essa dependência vai aumentar. Não é por acaso que os caciques desse partido já lhe impuseram duas derrotas em uma semana, o "não" ao projeto sobre os conselhos populares e um "nem pensar" ao plebiscito para a reforma política. E ela terá o ex-presidente Lula mais perto, o que também lhe reduz os espaços. E ainda um PT mais impaciente, voltando a namorar as massas na rua.
Há quem diga que os protestos de 2013 foram ignorados nestas eleições. Outros dizem que as manifestações mudaram a agenda nacional. Quem está certo?
Há um pouco de cada. Sabemos como é o Estado brasileiro, que tem esse caciquismo, uma máquina estatal separada da sociedade. Mas acho que os clamores estão vivos. Tampouco, do outro lado, vemos uma esquerda interessada em arriscar-se a superar esse precário estado social. Ela incorporou-se nesse modelo autocrático burguês que é desmobilizador. Um modelo de poder que não vai buscar os grupos sociais para tê-los representados no Congresso. Igualmente, não tivemos ainda uma Presidência capaz de fazer uma grande costura nacional mobilizadora. O resultado é esse racha fantástico.