segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A nova polarização (Sérgio C. Buarque)





Nas últimas décadas, a política brasileira esteve fortemente polarizada com o PSDB-Partido da Social Democracia do Brasil e o PT-Partido dos Trabalhadores disputando o poder e a condução política do Brasil. Todas as eleições do Brasil, desde 1994, tiveram os dois partidos em confronto direto em dois grandes blocos políticos. Eduardo Campos e, depois da sua morte, Marina Silva, tentaram quebrar esta polarização com uma candidatura alternativa que, embora de oposição ao governo do PT, disputava a liderança oposicionista com Aécio Neves do PSDB. O resultado das urnas parece demonstrar que não existe espaço no Brasil para uma terceira via, na medida em que jogou para o segundo turno o candidato do PSDB repetindo a disputa entre o PT e o PSDB.

Mas agora trata-se de um novo tipo de polarização que opõe, de um lado, os petistas e, do outro, os não-petistas de diversos matizes, numa aliança não declarada de todos os que rejeitam o PT e o governo Dilma Rousseff. Esta nova polarização foi se formando no Brasil nos anos recentes pela crescente insatisfação de amplos segmentos da sociedade com o governo que perdeu o controle da economia, está envolvido em escândalos de corrupção, manipula dados e informações, aparelha a estrutura do Estado e abusa da demagogia com lançamento de programas e iniciativas imediatistas e midiáticas. Além disso, o PT incomoda com a arrogância dos que se consideram donos da verdade, da ética (que ética?), do Estado e do povo brasileiro, sintetizada na repetição monótona do “nunca antes neste país”. Este sentimento de rejeição ao PT jogou na oposição vários partidos e lideranças políticas de peso, incluindo Eduardo Campos e Marina Silva, e parece levar à moderação da rejeição ao PSDB.

Esta nova polarização – petistas e não petistas – vai dominar no segundo turno das eleições, tanto mais claramente quanto Aécio Neves demonstre capacidade para capitalizar a oposição e a rejeição ao petismo, descolando do PSDB e se distanciando da disputa tradicional que demarcava o terreno político brasileiro. Marina Silva e o PSB não conseguiram quebrar a antiga polarização PT-PSDB. Quis o eleitor que um politico tucano fosse outra vez para o confronto com o PT, agora atraindo aliados que descaracterizam a velha dicotomia. Se não pode ser a terceira via, Aécio tende a ser, nestas eleições, a liderança do sentimento de rejeição ao PT e porta-voz da ampla oposição ao governo de Dilma Roussef.

Para consolidar sua posição nesta nova polarização, Aécio Neves tem que se provar um político maior do que o seu partido e construir uma aliança com as forças políticas que pretendem encerrar o ciclo de governos do PT. O apoio declarado do PSB, de outros partidos e de lideranças nacionais como Jarbas Vasconcelos, do PMDB, e Cristovam Buarque, do PDT, mostra um movimento claro de emergência de uma forte coalisão multi-partidária liderada por Aécio Neves. Mas o eleitorado brasileiro e parcela importante da oposição ao governo Dilma desejam muito mais que uma simples alternância no poder com a volta do PSDB. Embora, neste momento, a candidatura de Aécio Neves seja a única alternativa de mudança na hegemonia política petista, os brasileiros esperam que o futuro governo reorganize a economia, complemente as políticas sociais com mudanças estruturais que enfrentem as causas da pobreza e das desigualdades, realize as reformas microeconômicas, implante uma gestão responsável, profissional e eficiente e um estilo de governo republicano. A conferir.
Fonte: Revista Será?

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A dinâmica do segundo turno no presidencialismo de coalizão (Sérgio Abranches)



Começa hoje o mais disputado segundo turno em eleições presidenciais, desde 1989. Os resultados mostram o grau de competição no primeiro turno, com toda clareza e desenham o cenário de um segundo turno em aberto. Independentemente do que se vem dizendo, que 2o turno é outra eleição, uma coisa é certa: a dinâmica política desta rodada decisiva da disputa presidencial é, realmente, diferente. No primeiro turno, a primeira etapa de constituição das candidaturas envolve a negociação das coligações eleitorais que apoiarão cada uma delas. Essa negociação toma por referência a correlação passada de forças. As negociações do segundo turno não tratam de coligações. As coligações já estão dadas. Elas tratam da formação de uma coalizão para conquistar os votos dados a outros candidatos e que será a base inicial da coalizão de governo do vitorioso. São negociações que consideram a nova correlação de forças saída das urnas e o futuro Congresso. Óticas muito diferentes, portanto.

A negociação para formar coligações, em virtude da péssima regra de distribuição de tempo na televisão, que privilegia o status quo ao conferir fatias de tempo às bancadas eleitas quatro anos antes, acaba se tornando uma barganha rasteira. Troca tempo de TV por benefícios colaterais. Partidos pequenos, com baixa representatividade, adquirem valor de barganha por causa dessa regra política e eticamente deletéria. Toda a negociação se dá, portanto, com base nas bancadas da legislatura que termina e que serão submetidas ao voto. Essas bancadas tendem a mudar e essa mudança é conhecida no final do primeiro turno das eleições. Elas de fato mudaram, tanto na Câmara, como mostra o gráfico abaixo, quanto no Senado, como se vê no gráfico seguinte.


As negociações da coalizão de base levam em consideração a necessidade de promover a migração dos votos obtidos pelos outros candidatos para cada uma das duas candidaturas e as bancadas que tomarão posse em 2015. Portanto, se assentam não na correlação de forças da eleição de quatro anos atrás, mas na nova correlação de forças que saiu das urnas agora. Também influi nessa negociação o resultado das eleições para governador, porque os governadores eleitos no primeiro turno podem ter papel importante de liderança local nas negociações políticas do 2o turno e na campanha. Os que disputarão o segundo turno para os governos estaduais, definem localmente os limites para os acordos possíveis. Por exemplo, no Rio de Janeiro, disputam dois candidatos alinhados à candidatura governista, porém, na coligação de Pezão há divisão, porque seu vice, Dornelles, apóia Aécio Neves. No Rio Grande do Sul também disputam dois candidatos de partidos da coligação governista, porém o candidato do PMDB tem mais afinidades com a dissidência que apoiou Marina Silva.

O objetivo principal dessa negociação que se abre hoje é, evidentemente, conseguir apoio que aumente a probabilidade de conquistar o voto principalmente dos eleitores de Marina Silva para vencer o segundo turno. Mas, subsidiariamente, Aécio Neves terá que pensar, também, na formação de sua coalizão definitiva de governo, no caso de vencer as eleições. Ele começará a tentar obter o apoio de bancadas que não estão comprometidas com a candidatura oficial, para ampliar sua base de apoio parlamentar. A segurança da governabilidade será um tema que estará nas análises e discussões sobre os possíveis cenários pós-segundo turno. A fragmentação partidária aumentou, como previsto, com a diminuição do tamanho das maiores bancadas, o aumento de algumas bancadas médias e a entrada de pequenos partidos na Câmara dos Deputados e no Senado, como mostra o gráfico abaixo.
A coligação de Dilma Rousseff, apesar de ter perdido espaço na Câmara dos deputados, com os novos resultados teria uma base representando 53% das cadeiras, como se vê no gráfico.


Ocorre que há muitas dissidências no PMDB e em outros partidos de sua coligação. Aécio Neves, mesmo com a adesão de todos os parlamentares eleitos pela coligação de Marina Silva, ficaria com apenas 39% das cadeiras na Câmara. Isso significa que, se vencer o segundo turno, terá que buscar adesão de partidos que estiveram na coligação de Dilma Rousseff. Ele e Marina já têm o apoio de parlamentares eleitos por partidos que apóiam a candidatura oficial. Estes parlamentares, no caso de vitória da oposição, podem apoiar o governo como dissidentes, ou mudar para partidos da coalizão do novo governo, por divergência programática com seus partidos de origem.

No Senado, o quadro mudou menos porque só houve renovação de um terço. Ainda assim, houve mudanças importantes. O PSDB ganha uma liderança de muito peso com a entrada de José Serra, por exemplo. A coligação de Dilma ampliou sua representação no Senado e a de Aécio diminuiu. A de Marina dobrou. Mas mesmo somando as duas bancadas de oposição, somariam apenas 32% das cadeiras. Nenhuma das duas candidaturas, porém, tem a maioria no Senado.


A novidade deste segundo turno em relação aos demais, é que o apoio da coligação de Marina Silva a Aécio Neves, se ocorrer, terá como condicionante inarredável um acordo programático e não uma simples barganha de cargos e promessas orçamentárias como tem sido habitual. É uma novidade importante e que pode ter um efeito pedagógico fundamental para a mudança de qualidade do presidencialismo de coalizão no Brasil. Deve ter, também, impacto na campanha, uma vez que seria uma demonstração concreta do que poderia ser a transição para o que Marina Silva e Eduardo Campos chamavam de nova política. Um acordo negociado em torno de itens de programa, às claras, que seria apresentado formalmente aos eleitores por meio de um manifesto programático para formação de uma coalizão mais ampla de oposição. Há sinais de que a coligação de Marina Silva caminha para este acordo. Resta saber se Aécio Neves conduzirá essa negociação com a habilidade e a convicção necessárias. Em 2010, Marina Silva não apoiou José Serra, nem Dilma Rousseff, porque nenhum dos dois se dispôs a negociar pontos programáticos que ela considerava indispensáveis a um acordo. O primeiro sinal foi dado por Marina Silva e Beto Albuquerque, seu candidato a vice. Marina Silva disse que será uma decisão conjunta dos partidos de sua coligação, que levará em conta a urgência requerida pelo segundo turno e o fato de que a maioria dos eleitores mostrou que é contra o que “está aí”. Beto Albuquerque disse que, pessoalmente, não tem como apoiar a candidatura Dilma Rousseff que atacou de forma tão violenta a sua chapa. O segundo sinal é uma nota pedindo a união da oposição por quase 170 personalidades influentes junto às candidaturas de Aécio Neves e Marina Silva, entre elas, assessores de ponta dos dois candidatos.

O que ocorrerá nas próximas três semanas é imprevisível, como imprevisível foram as mudanças que marcaram o primeiro turno presidencial, desde o início da campanha. O que se pode dizer é que a disputa está em aberto. Dilma Rousseff buscará a reeleição tendo obtido 43,3 milhões de votos, representando 41,59% do total. Aécio Neves disputará a presidência com 34,9% milhões de votos, ou 33,55% do total no primeiro turno. Marina Silva terá papel decisivo no segundo turno, representando 22,1 milhões de eleitores, ou 21,32% do total. Com uma diferença de 8,4 milhões de votos, ou 8 pontos percentuais entre os dois, será um segundo turno muito competitivo. Seria muito bom para a democracia brasileira, que essa disputa se desse com base no confronto de ideias para o futuro do Brasil. Mas tudo indica que, por iniciativa do artífice da propaganda de Dilma Rousseff, ela será agressiva e de ataque, como no primeiro turno. O tempo de TV é igual. O período de campanha é curto. De um lado há a expectativa de um encontro programático entre as candidaturas centrais da oposição. De outro, sinais de uma campanha que tentará desconstruir a candidatura de Aécio Neves. Uma campanha negativa nem sempre é boa estratégia. Mas dependendo do tom e de seu impacto nas pesquisas iniciais, pode forçar Aécio Neves a jogar no ataque e o Brasil perderá a oportunidade de confrontar programas e ideias.

No caso de um entendimento entre Aécio Neves e Marina Silva, um ponto importante do acordo programático será o tema ambiental. A visão ambiental, climática e de política energética do PSDB é, ainda, bastante primária. A absorção das propostas nestes campos do programa de Marina Silva melhorariam significativamente o programa de governo de Aécio Neves. Na área econômica, os programas são bastante afins, mas o do PSDB é mais consistente e completo. Não haveria razões para grande divergência nesta área entre os dois.

Se Dilma Rousseff optasse por uma campanha de esclarecimento da população e confronto de ideias e programas, teria que rever, neste quadro de acordo entre Aécio Neves e Marina Silva, suas propostas para o meio ambiente, a mudança climática e a política energética. O governo Dilma Rousseff teve desempenho pífio nesses campos. Se escolhesse travar debate e confronto em torno dessas ideias precisaria rever radicalmente suas posições e convicções nessas áreas. Também na economia, o eleitor seria exposto a propostas polares. A qualidade das propostas econômicas da candidata à reeleição é baixa. Na verdade, ela não disse muito o que fará. Se optasse por debater ideias, teria que mobilizar imediatamente sua nova equipe econômica, para que pudesse expor com clareza como pretende enfrentar os desafios econômicos inegáveis que o Brasil terá que enfrentar nos próximos anos, o que não fez no primeiro turno.

Aécio redesenhado (José Arthur Giannotti)




O roteiro estava escrito. PT e PSDB haveriam de terçar armas mais uma vez, pautando as eleições de 2014 e reforçando o bipartidarismo nascente entre nós. Como o PSDB foi incapaz de exercer uma oposição articulada nos últimos anos, este esquema de polarização vacilava, o que conferiu enormes vantagens ao PT. No entanto, sempre que a oposição enfraquece, ela renasce no próprio seio do governo; e assim se fez a dissidência Eduardo Campos/Marina Silva.

A tragédia em Santos projetou Marina para o primeiro plano. Ao salvar-se do desastre, assume a figura da salvadora da pátria, que desde Jânio Quadros assombra a política brasileira. Haveria de seguir o mesmo roteiro? Vitória e crise? O papel de salvadora, porém, não resistiu aos duros ataques do PT e às estocadas do PSDB. Mas a que se deve a recuperação de Aécio? Como entender que tenha uma vitória extraordinária em São Paulo, mas perdido em Minas Gerais?

Creio que a virada de Aécio sobre Marina aponta para um fenômeno novo. As ditas "classes médias" têm demandado maior racionalidade nas discussões e decisões políticas, e não mais se deixam enganar pelo espetáculo da salvação. Aécio passa a representar a esperança de retirar a economia da estagflação em que nos meteu a política econômica de Dilma, de reforçar a associação entre capital público e capital privado, sem cair nos desmandos do neoliberalismo.

No confronto com Marina, ele vê redesenhada sua imagem política, que escapa do roteiro escrito pelo marqueteiro e das linhas gerais de uma imagem cristalizada pelos chefes de campanha, traçada ainda no velho estilo burocrático. E, sobretudo, recupera as bandeiras social-democratas do Plano Real que muitos líderes do PSDB tinham engavetado.

Aécio ainda se perde, é certo, quando, por exemplo, entra no jogo de Dilma e passa a discutir o velho tema das privações feitas durante a administração de FHC. Não que elas deixaram de ser importantes, mas vistas de hoje, quando se reforça entre nós um capitalismo de conhecimento, pouco importa o estatuto jurídico de uma grande empresa, quando ela é posta em face de suas obrigações sociais.

Um Estado moderno --e o nosso ainda não o é plenamente-- tem condições de controlar sem sufoco qualquer empresa pública ou privada, impedindo-as tanto de forçar a exploração do trabalho quanto de se tornar fontes de corrupção. O caráter público da Petrobras não a salvou do maior achaque de sua história.

Em contrapartida, na medida em que a imagem de Aécio se torna mais moderna, mais prenhe de futuro, ela absorve facilmente as acusações de corrupção contra ele mesmo e seu partido, assim como reforça por contraste os pecados dos adversários. Ela passa a espelhar o anseio por mudança contra o lulopetismo, carimbado com a marca do passado. Não é assim que se explica a onda anti-PT que hoje varre o Sudeste?

Para reforçar nossa democracia creio ser preciso fincar os pés no real. Assumir a política como ela é, quando todos nós, aliados e adversários, possamos nos projetar uns nos outros, cada um reconhecendo no outro o espelho que tende a revelar nossas particularidades. Então, separados e juntos, tratar de ampliar os controles de nossos órgãos públicos, multiplicá-los, reforçando uma burocracia estatal competente e longe do aparelhamento político.

Cabe, pois, de um lado, retomar o sentido público das instituições do Estado, acostumá-las a prestar contas de seus afazeres e negócios. Por outro lado, e não menos importante, é necessário melhorar a qualidade de nossas instituições de ensino, assim como reforçar seu caráter democrático e plural, lutando para que sejam orientadas a criar homens e mulheres livres, em vez de "cidadãos" de uma "pátria" sem fissuras, ou das igrejas de consumo.

Não será possível até mesmo esperar que cada profissional se forme visando a melhoria de seu próprio desempenho nos quadros de uma forma de vida mais autêntica? Espero que a vitória de Aécio Neves nos dê um choque de realidade.

José Arthur Giannotti, 84, é professor de filosofia da USP e pesquisador do Cebrap. Acaba de lançar o e-book "A Política no Limite do Pensar" (Companhia das Letras)
Folha de S. Paulo

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O dia seguinte (Luiz Carlos Azedo)





É grande a ressaca no alto comando petista, que pela segunda vez precisa mudar de tática na campanha eleitoral: a primeira, após a morte do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, quando Marina passou Aécio; a segunda, agora, com o desfecho do primeiro turno, no qual o tucano se recuperou e ameaça abalar o favoritismo de Dilma Rousseff, tomando-lhe o lugar de liderança no segundo turno. À beira de um ataque de nervos, a petista aguarda as primeiras pesquisas dessa semana para saber se Aécio parou de crescer ou não.

Ontem, estrategistas das duas campanhas se reuniram com os candidatos para fazer um balanço do resultado das urnas e decidir o que fazer. Uma análise prospectiva leva à conclusão óbvia: o resultado das urnas foi melhor para Aécio do que se esperava. Dilma trabalhou na reta final para ganhar a eleição no primeiro turno, mas não atingiu o objetivo porque aconteceu o que parecia impossível: perdeu votos para o tucano. Para quem estava perdendo em Minas Gerais e enfrentou dificuldades para consolidar sua candidatura em São Paulo, Aécio Neves saiu no lucro. E que lucro!

Em São Paulo, estado no qual o tucano Geraldo Alckmin foi eleito com folga no primeiro turno (57,31% do total de votos) e José Serra teve uma votação consagradora para o Senado (58,49%), Aécio Neves teve 43, 7% dos votos; Dilma, 26,1%; e Marina 23,9%. Dificilmente os votos de Marina migrarão para a petista, sobretudo por causa dos duros ataques que sofreu durante a campanha. A captura desses votos por Aécio pode decidir a eleição a seu favor, caso consiga também reverter a situação eleitoral em Minas Gerais e abrir a porteira do Nordeste, com o apoio do clã Arraes em Pernambuco. Essa é a grande encruzilhada da eleição.

Dilma venceu em 15 estados, três a menos do que na eleição do ano passado, com destaque para o Piauí, Maranhão e Ceará, onde obteve mais de 70% dos votos. Aécio venceu em nove estados, sendo São Paulo, com 44% dos votos, o determinante para sua ida ao segundo turno. A maior vantagem de Dilma foi na Bahia, com 3 milhões de votos a mais do que Aécio. Em termos político, sua vitória mais expressiva foi a eleição de Fernando Pimentel (PT) em Minas Gerais, terra de Aécio Neves, mas eleitoralmente essa vantagem é muito relativa, por causa da votação apertada em relação ao tucano (43% a 39%), que pode reverter o resultado porque foi para o segundo turno. A mesma situação se repete do Rio Grande do Sul, onde Dilma venceu também por estreita margem: 43% a 41%, com Marina recebendo 12% dos votos.

Dois Brasis
Mais uma vez o resultado das urnas mostra um país dividido: o governo tem sua principal base de sustentação nos estados do Norte e Nordeste, com exceção de Roraima e Rondônia, onde Aécio venceu, Acre e Pernambuco, territórios de Marina. Aécio foi vitorioso no Centro-Oeste, com exceção de Tocantins; no Sudeste, graça a São Paulo e Espírito Santo; e no Sul, com exceção do Rio Grande do Sul. Grosso modo, do ponto de vista das alianças, Dilma sustenta a reeleição na composição com as oligarquias dos estados de menor dinamismo econômico, enquanto Aécio alavanca sua candidatura na classe média dos estados economicamente mais desenvolvidos.

A política de transferência de renda para as populações mais pobres, que é feita pelas prefeituras municipais, cimenta essa aliança petista com forte base popular. Logo após a apuração dos votos, a presidente Dilma Rousseff ensaiou o discurso do segundo turno, com duros ataques ao governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) e a reedição da estratégia do medo (do desemprego, do arrocho salarial, da perda dos direitos trabalhistas e a reversão dos programas sociais do governo). Essa é a velha cartilha petista contra o PSDB, a polarização ideológica direita versus esquerda e dos pobres contra os ricos, que costuma ser a marca registrada da retórica eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Um olhar atento para o mapa eleitoral do país mostra, porém, que o eixo da disputa eleitoral pode ser o moderno contra o atrasado, a social-democracia contra o populismo, a sociedade contra o Estado, a democracia contra o autoritarismo, a Federação contra a centralização, que tende a ser a lógica do discurso de Aécio contra Dilma. Aquele que estiver em mais sintonia com os sentimentos do eleitor levará a melhor.
Correio Braziliense

Basta de PT (Marco Antonio Villa)





Estamos vivendo um momento histórico. A eleição presidencial de 2014 decidirá a sorte do Brasil por 12 anos. Como é sabido, o projeto petista é se perpetuar no poder. Segundo imaginam os marginais do poder — feliz expressão cunhada pelo ministro Celso de Mello quando do julgamento do mensalão —, a vitória de Dilma Rousseff abrirá caminho para que Lula volte em 2018 e, claro, com a perspectiva de permanecer por mais 8 anos no poder. Em um eventual segundo governo Dilma, o presidente de fato será Lula. Esperto como é, o nosso Pedro Malasartes da política vai preparar o terreno para voltar, como um Dom Sebastião do século XXI, mesmo que parecendo mais um personagem de samba-enredo ao estilo daquele imortalizado por Sérgio Porto.

Diferentemente de 2006 e 2010, o PT está fragilizado. Dilma é a candidata que segue para tentar a reeleição com a menor votação obtida no primeiro turno desde a eleição de 1994. Seu criador foi derrotado fragorosamente em São Paulo, principal colégio eleitoral do país. Imaginou que elegeria mais um poste. Não só o eleitorado disse não, como não reelegeu o performático e inepto senador Eduardo Suplicy, e a bancada petista na Assembleia Legislativa perdeu oito deputados e seis na Câmara dos Deputados.

A resistência e a recuperação de Aécio Neves foram épicas. Em certo momento da campanha, parecia que o jogo eleitoral estava decidido. Marina Silva tinha disparado e venceria — segundo as malfadadas pesquisas. Ele manteve a calma até quando um dos seus coordenadores de campanha estava querendo saltar para o barco da ex-senadora.

E, neste instante, a ação das lideranças paulistas do PSDB foi decisiva. Geraldo Alckmin poderia ter lavado as mãos e fritado Aécio. Mas não o fez, assim como José Serra, o senador mais votado do país com 11 milhões de votos. Foi em São Paulo que começou a reação democrática que o levou ao segundo turno com uma vitória consagradora no estado onde nasceu o PT.

Esta campanha eleitoral tem desafiado os analistas. As interpretações tradicionais foram desmoralizadas. A determinação econômica — tal qual como no marxismo — acabou não se sustentando. É recorrente a referência à campanha americana de 1992 de Bill Clinton e a expressão "é a economia, estúpido". Com a economia crescendo próximo a zero, como explicar que Dilma liderou a votação no primeiro turno? Se as alianças regionais são indispensáveis, como explicar a votação de Marina? E o tal efeito bumerangue quando um candidato ataca o outro e acaba caindo nas intenções de voto? Como explicar que Dilma caluniou Marina durante três semanas, destruiu a adversária e obteve um crescimento nas pesquisas?

Se Lula é o réu oculto do mensalão, o que dizer do doleiro petista Alberto Youssef? Imagine o leitor quando o depoimento — já aceito pela Justiça Federal — for divulgado ou vazar? De acordo com o ministro Teori Zavascki, o envolvimento de altas figuras da República faz com que o processo tenha de ir para o STF. E, basta lembrar, segundo o doleiro, que só ele lavou R$ 1 bilhão de corrupção da Refinaria Abreu e Lima. Basta supor o que foi desviado da Petrobras, de outras empresas e bancos estatais e dos ministérios para entender o significado dos 12 anos de petismo no poder. É o maior saque de recursos públicos da História do Brasil.

Nesta conjuntura, Aécio tem de estar preparado para um enorme bombardeio de calúnias que irá receber. Marina Silva aprendeu na prática o que é o PT. Em uma quinzena foi alvo de um volume nunca visto de mentiras numa campanha presidencial que acabou destruindo a sua candidatura. Não soube responder porque, apesar de ter saído do PT, o PT ainda não tinha saído dela. Ingenuamente, imaginou que tudo aquilo poderia ser resolvido biblicamente, simplesmente virando a face para outra agressão. Constatou que o PT tem como princípio destruir reputações. E ela foi mais uma vítima desta terrível máquina.

O arsenal petista de dossiês contra Aécio já está pronto. Os aloprados não têm princípios, simplesmente cumprem ordens. Sabem que não sobrevivem longe da máquina de Estado. Contarão com o apoio entusiástico de artistas, intelectuais e jornalistas. Todos eles fracassados e que imputam sua insignificância a uma conspiração das elites. E são milhares espalhados por todo o Brasil.

Teremos o mais violento segundo turno de uma eleição presidencial. O que Marina sofreu, Aécio sofrerá em dobro. Basta sinalizar que ameaça o projeto criminoso de poder do petismo. O senador tucano vai encontrar pelo caminho várias armadilhas. A maior delas é no campo econômico. O governo do PT gestou uma grave crise. Dilma foi a terceira pior presidente da história do Brasil republicano em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto — que teve no seu triênio presidencial duas guerras civis — e Fernando Collor — que recebeu a verdadeira herança maldita: uma inflação anual de quatro dígitos. O PT deve imputar a Aécio uma agenda econômica impopular que enfrente radicalmente as mazelas criadas pelo petismo. Daí a necessidade imperiosa de o candidato oposicionista deixar claro — muito claro — que quem fala sobre como será o seu governo é ele — somente ele.

Aécio Neves tem todas as condições para vencer a eleição mais difícil da nossa história. Se Tancredo Neves foi o instrumento para que o Brasil se livrasse de 21 anos de arbítrio, o neto poderá ser aquele que livrará o país do projeto criminoso de poder representado pelo PT. E poderemos, finalmente, virar esta triste página da nossa história.

Marco Antonio Villa é historiador
O Globo

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A onda virou avalanche (José Roberto de Toledo)




O resultado do 1.º turno é muito ruim para Dilma Rousseff (PT). A presidente fez uma vantagem muito menor do que a esperada sobre Aécio Neves (PSDB), cerca de 8 milhões de votos. Em 2010, ela abriu quase o dobro disso, foram 12 milhões a mais do que o tucano José Serra. Por sua vez, Marina Silva (PSB) praticamente voltou ao seu patamar de quatro anos atrás. O que ela teve a mais veio de Pernambuco, herdado de Eduardo Campos.

A missão de Dilma é a mais difícil de um candidato a presidente do PT desde 1998. Em quantidade de votos, sua vantagem equivale à de Lula em 2006, mas com uma diferença fundamental: o ex-presidente ficara a 1,4 ponto de se eleger no primeiro turno. Dilma está a 9 pontos da reeleição. Faltam-lhe 9 milhões de votos.

A petista vai precisar dos pouco mais de 2 milhões de votos de Eduardo Jorge (PV) e Luciana Genro (PSOL) e pelo menos 7 milhões dos 22 milhões de votos de Marina. Ou seja, Dilma precisa de 32%, ou 1 a cada 3 eleitores da candidata do PSB. Na última simulação de segundo turno, a petista conseguia 20%, 1 de 5.

Já Aécio, que chegou a convocar uma entrevista coletiva para dizer que não renunciaria à candidatura em setembro, teve um desempenho melhor do que o de Serra em 2010. O eleitor mudancista migrou em massa para ele nos metros finais da corrida eleitoral quando percebeu que Marina não tinha mais chances.

Por pelo menos um mês, Marina surfou sozinha a maior onda de opinião pública em muitos anos no Brasil, mas caiu da prancha e acabou na areia. Como o movimento que a carregou, sua candidatura sucumbiu ao peso das próprias contradições.

As mesmas razões que levaram a comunidade de negócios a flertar com a campanha de Marina à Presidência fizeram ela fraquejar nas pesquisas de intenção de voto quando a disputa esquentou.

Empresários e operadores do mercado financeiro enxergaram em Marina mais do que uma candidata aberta ao diálogo e disposta a ouvir opiniões divergentes - diferentemente da irredutibilidade de Dilma Rousseff (PT). Com ou sem razão, projetaram a imagem de alguém que, por falta de um partido, precisaria de mais suporte de terceiros e se tornaria assim permeável a influências externas. É como se imaginassem que poderiam tutelá-la.

O problema foi que a opinião pública pensou a mesma coisa, com sinais trocados. Quem se deixa tutelar não é um líder confiável. A partir das idas e vindas em relação ao seu programa de governo, colou na imagem pública de Marina a ideia de que ela é volúvel. Era a favor do casamento gay, depois não era mais. Saiu do PT para o PV, depois para a Rede e, por falta de opção, entrou no PSB. Tudo em um espaço de tempo muito curto.

Não houve um evento catastrófico, mas a sucessão de pequenos desgastes. Sua candidatura não implodiu, foi desconstruída a marretadas, a cada inserção de 30 segundos dos adversários na TV. Fixaram-lhe a imagem de uma candidata sem estrutura partidária, sem equipe e sem firmeza de propósito.

A campanha de Marina era a sobreposição mal costurada do estafe herdado de Eduardo Campos com o séquito da Rede. Seu comando mudou de estratégia no meio da corrida. Primeiro pintou-a de vítima. No fim, tentou vesti-la de guerreira. Deu no que deu. Nem que tivesse sido Aécio a se vestir de amarelo no debate da Globo, a queda de Marina não teria sido interrompida nem seus ex-futuros-eleitores teriam deixado de cair no colo do tucano. Depois que a avalanche começa, não há nada que consiga pará-la.

O embate de Dilma com Aécio nas próximas três semanas será uma reprise do filme que o eleitor cansou de ver em 2006 e 2010: Norte/Nordeste contra Sudeste/Centro-Oeste, interior contra capitais, pobres contra ricos, menos escolarizados contra mais escolarizados. O final é incerto, mas o enredo será o mesmo de sempre: uma mistura de farsa e suspense com momentos de terror.
O Estado de S. Paulo

Disputa entre PT e PSDB e o pêndulo do eleitorado frustrado e descontente (Rudá Ricci/entrevista)



IHU On-Line - Como o senhor interpreta o resultado das eleições presidenciais? Qual é o significado do segundo turno entre Dilma e Aécio, com a diferença de sete pontos entre eles?

Rudá Ricci - Aécio teve uma superação espetacular na reta final, não previsível porque não capturada pelos institutos de pesquisa. O fato é que São Paulo foi responsável por este feito - 30% do total de votos que Aécio recebeu no primeiro turno vieram do Estado de São Paulo, 10 milhões de votos, mais que a soma dos votos obtidos por Skaf e Padilha (o segundo e terceiro lugares na disputa pelo governo paulista). Aécio teve quase o dobro de votos que Dilma e Marina, somadas, obtiveram naquele estado. Pesou muito, ainda, o desempenho do candidato tucano nos estados do Sul do país. Com este "sprint", Aécio entra no segundo turno em ascensão e Dilma em estabilidade. Torna-se o favorito no segundo turno.

IHU On-Line - Como explica a disputa com Aécio no segundo turno e a queda de Marina? A ascensão de Aécio foi uma surpresa?

Rudá Ricci - A ascensão final de Aécio foi uma grande surpresa. Os tucanos paulistas fizeram corpo mole durante todo primeiro turno. Com a derrota em Minas Gerais, ficaram confortáveis para jogar todas suas fichas por lá. Elegeram quem quiseram. Elegeram Alckmin no primeiro turno, fizeram o senador e reduziram drasticamente a bancada do PT no Parlamento. A campanha de Aécio no segundo turno está nas mãos de Alckmin. Quanto à Marina, ela perdeu para si mesma. Não acreditou no seu discurso de que seria a nova política. Duas semanas depois de aparecer como candidata, caiu nos braços do grande empresariado e fez reverência a pastores evangélicos criticados publicamente, inclusive entre igrejas evangélicas. Enfim, traiu a base de seu eleitorado (metade dos indecisos, dos que diziam anular o voto ou votar em branco antes da sua entrada na disputa) que buscava uma terceira via.

IHU On-Line - Em que momento Marina passou a perder espaço na disputa para Aécio? Quais foram os erros de Marina?
Rudá Ricci - Duas semanas depois de se lançar candidata à Presidência. Primeiro, apareceu ao lado de empresários de agronegócio (impensado para quem defende o desenvolvimento sustentável), de banqueiros e lideranças evangélicas muito agressivas e ultraconservadoras.

Depois, passou a adotar um movimento errático em muitos pontos programáticos. Finalmente, estas mudanças foram profundamente exploradas pelo PT e PSDB. Sem estrutura partidária, não resistiu aos ataques e não tinha como se defender.

IHU On-Line - Como avalia o discurso de uma nova política da campanha de Marina, e sua queda apesar desse discurso? O que isso revela sobre esses discursos e a política brasileira?

Rudá Ricci - Primeiro, que há espaço para uma candidatura alternativa ao PT e PSDB. Segundo, que mesmo havendo espaço, ainda não surgiu uma liderança que convença este eleitorado desejoso da terceira via (30% do eleitorado). Terceiro, que este eleitorado não é homogêneo em suas convicções políticas e que vem oscilando entre o cinismo político (voto utilitarista, naquele candidato que lhe garante consumo familiar) e a negação do sistema político vigente (voto em outsider ou decidido em se abster, votar nulo ou em branco). Marina não conseguiu sustentar sua promessa de ser o novo. Rapidamente, ficou parecida com o que PT e PSDB já fazem, seja programaticamente, seja em termos de alianças. Se todos eram iguais, este eleitor decidiu cravar no que tem mais segurança.

IHU On-Line - Quais as razões de Dilma receber mais votos nos estados do Norte e Nordeste e menos no Sul e Centro-Oeste? Como interpreta os dados?

Rudá Ricci - Os programas sociais. O Nordeste foi a região que recebeu mais recursos do Programa Bolsa Família e mais recursos do BNDES, que alavancaram a economia da região. A Fundação SEADE, da Secretaria Estadual de Planejamento de São Paulo, revela que o fluxo histórico migratório inverteu: mais nordestinos voltam para sua terra natal que os que afluem para a região Sudeste.

IHU On-Line - O que explica a eleição do PT em Minas Gerais e também a vitória de Dilma no estado de Aécio?

Rudá Ricci - Principalmente a escolha de um péssimo candidato ao Governo do Estado. A imposição do nome de Pimenta da Veiga veio do PSDB paulista, o que dividiu os tucanos mineiros. O presidente estadual do PSDB-MG, o deputado Marcus Pestana, saiu atirando, dizendo que sua postulação tinha sido corroída pelos segmentos conservadores de seu partido.
Pestana, aliás, liberou suas bases para votar em Fernando Pimentel, candidato do PT. Outro forte postulante como candidato tucano ao governo estadual era o presidente da Assembleia Legislativa, Dinis Pinheiro (ex-PSDB e, hoje, PP). Não se viu, da mesma maneira, Dinis fazer campanha para Pimenta da Veiga. Enfim, o candidato tucano ao governo mineiro foi um lastro negativo para Aécio Neves. Há, ainda, méritos na candidatura petista: Pimentel é muito moderado, não utilizou as cores oficiais do PT na campanha, não reagiu aos ataques do candidato tucano e fez acordos que geraram um armistício interno histórico no PT mineiro. Era o candidato talhado para fazer a transição do PSDB para o PT.

IHU On-Line - O que explica a reeleição do PSDB em SP?

Rudá Ricci - Trata-se de um poder real do PSDB. Não se explica a vitória incontestável dos tucanos paulistas por uma ou outra candidatura. O PSDB paulista é uma força real, que conseguiu criar forte identidade com o eleitorado, talvez o mais conservador do país, mais focado no sucesso individual e na lógica empresarial e mais refratário às propostas de promoção da igualdade social. O PSDB vai se tornando o partido mais identificado com os paulistas.

IHU On-Line - Vê alguma relação das eleições com as jornadas de junho de 2013?

Rudá Ricci - Sim. O fantasma de junho de 2013 rondou todo o processo eleitoral e pode ser referência nos próximos anos. Ele não se expressou claramente nas candidaturas porque o sistema partidário brasileiro não representa as ruas, mas os acordos de cúpula. Mesmo assim, o amplo favoritismo de Dilma Rousseff, depois de reduzido com as manifestações de junho, nunca mais retornou aos patamares anteriores. A entrada de Marina revelou o quanto o eleitorado foi influenciado pelas manifestações (não exatamente composto por manifestantes, mas fortemente influenciado, como se os protestos revelassem a possibilidade real de mudança). Com a frustração das promessas de Marina, este eleitorado descontente retornou à postura cínica (voto pragmático, sem empatia) anterior às manifestações. Este é o pêndulo deste eleitorado frustrado e descontente: entre o cinismo e a manifestação de recusa do status quo político institucional. Temos que registrar que 19% do eleitorado se abstiveram e 9% anularam ou votaram em branco. Em 1994 a soma de abstenção com brancos e nulos no primeiro turno ficou em 32%, em 1998 subiu para 36%, em 2002 caiu para 25%, passando para 24% em 2006 e os cerca de 27% de 2010. Embora de forma ainda tímida, os descontentes aumentam continuamente desde 2010.


IHU On-Line - Considerando os resultados preliminares das eleições presidenciais, já é possível identificar quem são os ganhadores e perdedores?

Rudá Ricci - O PSDB, em função do prognóstico de todos institutos de pesquisas, foi a surpresa deste primeiro turno, em especial, em função de seu desempenho no Centro-Sul do país. O PT se firmou - mas já era esperado - nas regiões Norte e Nordeste do país e parte do Centro-Oeste. O PSB diminuiu de tamanho. Enfim, a polarização clássica do sistema eleitoral no período pós-ditadura retornou com força neste primeiro turno, dividindo o país, inclusive em termos regionais. O país está dividido.

IHU On-Line - O que é possível esperar para o segundo turno? Arrisca para que lado Marina e o PSB irão pender?

Rudá Ricci - Segundo o Datafolha (mas é preciso, a partir de agora, ponderar sobre estes dados em função da grande volatilidade do eleitorado nesta eleição), 50% do eleitorado de Marina votará em Aécio Neves e 20% em Dilma Rousseff. Se Dilma ficasse estacionada nos 41%, Aécio necessitaria de 30% dos votos de Marina. Contudo, é provável que Dilma absorva votos do eleitorado de Luciana Genro e Eduardo Jorge. Também parece mais provável que o eleitor pernambucano e fluminense seja mais favorável à reeleição de Dilma Rousseff que a Aécio Neves (bastando verificar como houve rejeição ao candidato tucano no primeiro turno). Aécio tem, contudo, possibilidade de reforçar o voto no Centro-Sul, declaradamente antipetista, não dependendo dos votos cravados em Marina no primeiro turno. O discurso de campanha neste segundo turno será o discurso anti-PT de Aécio (destacando a corrupção e aparelhamento do Estado) contra o discurso de promoção social e ataque ao elitismo tucano de Dilma Rousseff.

(Por Patricia Fachin)