quarta-feira, 16 de maio de 2012
TEORIA DA CONTRADIÇÃO - PARTE II: O ESPÍRITO SANTO..(Juca Magalhães)
A Letra Elektrônica: TEORIA DA CONTRADIÇÃO - PARTE II: O ESPÍRITO SANTO...: Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, ...
TEORIA DA CONTRADIÇÃO: MATAR É CHIQUE (Juca Magalhães)
A Letra Elektrônica: TEORIA DA CONTRADIÇÃO: MATAR É CHIQUE - SER ASSASS...: Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo, e ele nada tem em mim; mas, assim como o Pai me ordenou, assim mesmo faço...
terça-feira, 15 de maio de 2012
Zygmunt Bauman (entrevista)
Marcos Flamínio Peres
Bauman: “Viver sob pressão de mudanças constantes e, em geral, imprevisíveis favorece uma cultura do esquecimento, em vez de uma cultura do aprendizado e da lembrança”.
Zygmunt Bauman é hoje uma grife da sociologia, lido, citado e compartilhado em toda parte. Esse status se deve em grande medida ao seu conceito de “modernidade líquida”, aplicado às sociedades pós-industriais que perderam o sentido de “pertencimento”.
Desde os anos 1960, explica, houve uma aceleração radical das mudanças sociais e tecnológicas, o que acentuou os sentimentos de mobilidade e individualidade em todos os setores da vida cotidiana: família, posição social, emprego, orientação sexual, relacionamentos amorosos etc.
Bauman desenvolveu essa tese em “Modernidade Líquida” (2000), desdobrada em vários outros títulos que o levariam a conquistar um público fora dos muros da academia: “Amor Líquido”, “Vida Líquida”, “Medo Líquido” e “Tempos Líquidos” (todos publicados pela editora Zahar).
Essas sociedades “leves” e “líquidas” perderam o sentido de solidez e estabilidade, defende o sociólogo. Em consequência, o ser humano tornou-se mais autônomo, o que é um ganho, mas passou a conviver com um fardo pesado: o sentimento de incerteza. E esse estado, diz Bauman na entrevista abaixo, é “provavelmente irreversível”.
Outras mudanças acentuaram mais drasticamente esse quadro: a globalização, a internet e o consumismo.
Professor emérito da Universidade de Leeds (Reino Unido), Bauman deixou a Polônia em 1971, fugindo da perseguição antissemita promovida pelos comunistas. Talvez tenha sido esse olhar “de fora”, de alguém vindo da periferia do continente europeu, que lhe permitiu apreender as transformações agudas por que vinha passando as sociedades ocidentais do capitalismo avançado.
Também deriva desse ponto de vista periférico seu entusiasmo, às vezes ingênuo, com o papel que países emergentes como o Brasil podem exercer na nova geopolítica que se configura. “Eles são laboratórios nos quais novos modos de coabitação humana são concebidos e testados.”
Na entrevista a seguir, Bauman fala igualmente do recém-lançado “Ensaios sobre o Conceito de Cultura” (Zahar, trad. Carlos Alberto Medeiros, 328 págs., R$ 49,90), obra de sociologia “dura” e leitura atenta, mas onde discute os fundamentos teóricos destes novos tempos “líquidos”.
Valor: “Ensaios sobre o Conceito de Cultura” foi escrito 37 anos atrás, quando os estudos culturais estavam apenas começando a se consolidar nos departamentos de ciências humanas, enquanto hoje são hegemônicos. Tantos anos depois, o que mudou no debate intelectual?
Zygmunt Bauman: Alguns anos atrás, quando este livro foi reeditado, me pediram para escrever uma nova “Introdução” justamente para responder a essa pergunta. Mas o aspecto interessante é que as mudanças verdadeiramente seminais ocorridas na sociedade e no papel da cultura se cristalizaram somente poucos anos atrás, após essa “Introdução” haver sido escrita e publicada… Tentei traçar e interpretar essas mudanças em “Culture in a Liquid Modern World” [que sai no Brasil em 2013 pela Zahar]. As mudanças que observei ali são, antes de tudo, uma transformação progressiva da cultura em commodity. A cultura passou de uma função “homeostática”, estabilizadora, para servir ao mercado consumidor e promover a flexibilidade, a fome por novidades e a nova “onivoria cultural” das elites formadoras de opinião.
Valor: O senhor diz ali que vivemos hoje em uma “era da reciclagem”, na qual as ideias são “enterradas vivas”. Quais as consequências disso para o modo como vivemos?
Bauman: Viver sob pressão de mudanças constantes e, em geral, imprevisíveis favorece uma cultura do esquecimento, em vez de uma cultura do aprendizado e da lembrança. Não temos tempo para digerir e assimilar novas informações antes que sejam afastadas de nossa atenção, espremidas por novidades mais recentes – do mesmo modo como substituímos velhos aparelhos pelos novos, recém-distribuídos nas lojas, e que possuem um ou dois recursos que seus predecessores não têm… Na sociedade consumista da modernidade líquida, as coisas começam a envelhecer já no momento em que nascem, e a distância temporal entre acolhê-las entusiasticamente e rejeitá-las como ultrapassadas vem se encurtando em uma velocidade cada vez maior.
Valor: O avanço da internet e das redes sociais tem algo a ver com sua afirmação segundo a qual “nada parece estar verdadeiramente morto ou vivo”?
Bauman: A tecnologia digital, com seu espaço infinito para armazenar informação, intensificou esse processo a que me referi acima: não temos mais necessidade de expandir nossa memória pessoal, na medida em que toda informação existente está mantida em segurança em servidores da Web e pode ser recuperada quando o desejarmos. Hoje podemos esquecer sem nos sentirmos culpados… E fazemos isso. As coisas esquecidas não estão mortas – ou, ao menos, parece. Entretanto, se essa ideia é reconfortante, ao mesmo tempo é enganadora e potencialmente danosa. Nenhuma de suas consequências de longo prazo são realmente encorajadoras. Já seus resultados imediatos são a fragilidade dos limites do homem e o status provisório de quaisquer soluções para os problemas, além das sensações de desconhecimento – mais do que a capacidade de entender- e de impotência – mais do que a capacidade de agir efetivamente e com confiança no resultado.
Valor: Vivemos em um tempo mítico, sem passado nem futuro?
Bauman: Hoje, o “tempo real” se constitui no padrão em relação ao qual todos os outros tempos são comparados. O valor supremo é a imediatez. Não há nada “mítico” nisso. Trata-se, antes, do fato de que essa preferência atual faz com que todos os outros tempos imagináveis pareçam serem percebidos como míticos! Somente o tempo vivido cotidianamente parece e é sentido como “real”. Tudo aquilo que reside no “passado” e no “futuro” foi descartado. Nossas vidas, por assim dizer, são uma sucessão de “momentos presentes” – chamei tal percepção temporal de “pontilhista”, para distingui-la da percepção até então dominante, a de imagens “cíclicas” ou “lineares”. A história é hoje uma série de presentes, e esse presente transitório é a única constância… Em consequência, a incerteza é a única certeza…
Valor: Outro tema que desenvolve é a crise das ideias de nação e nacionalismo no mundo líquido. Em certa medida, “a doçura de se sentir incluído”, o sentimento de pertencimento a uma dada comunidade, se transferiu para as mídias sociais?
Bauman: Para as mídias sociais, para o mercado consumidor e para os Carnavais… Mídias sociais são “redes” fazendo o papel das comunidades enfraquecidas. Mercados consumidores: a partir dele, podemos comprar os ícones do pertencimento, mas sem o genuíno auto-sacrifício e a autoimolação que o pertencimento na vida real requer… E os Carnavais são similares às Copas do Mundo, aos jogos internacionais e às Olimpíadas. Esses três territórios “off-shore” resgatam a vida diária do “demasiadamente real”, do pesado fardo do pertencimento corporal/espiritual…
Valor: Vê-se na Europa Ocidental, berço da ideia de nacionalismo, o fortalecimento de retórica e medidas anti-imigratórias, como na recente campanha presidencial francesa, ou ainda contra trabalhadores, mesmo que qualificados, como a proibição de pesquisadores estrangeiros de lecionarem em território francês. O nacionalismo, na verdade, não está recrudescendo?
Bauman: O nacionalismo tem muitas causas – todas elas muito diferentes… Na Europa, o nacionalismo não está em crise porque o que está em crise é justamente a soberania do Estado-nação. A responsabilidade pela incerteza atual é posta na recente mudança de situação [econômica]. Essa é a razão por que o capital político tenta se construir a partir dos medos nascidos de um processo mais amplo de separação entre o poder, a capacidade de fazer as coisas, e a política, a capacidade de decidir que coisas precisam ser feitas. Na verdade, a União Europeia é um escudo que protege os Estados membros de calamidades muito piores, caso ocorresse um divórcio entre eles. Os problemas que os políticos nacionalistas prometem resolver por meio da ressurreição da “soberania plena” do Estado-nação são fadados a se aprofundar, e não serem sanados, pela desmontagem desse escudo protetor. A imigração, outro alvo dos políticos nacionalistas, também não poderia ser suprimida sem minar a economia europeia, seriamente dependente da capacidade e da mão-de-obra importadas…
Valor: Como potência emergente, o Brasil – e os Brics em geral – são bem diferente das sociedades “líquidas” e pós-industriais que o senhor abordou em seus livros, o que ele pode apresentar de novo ao mundo no que diz respeito à cultura e ao modo de vida?
Bauman: Os centros onde as inovações culturais estão sendo gestadas, de onde se irradiam as inspirações e estímulos culturais, são famosos por suas mudanças de rota. O tempo presente não oferece nenhuma exceção. Outra questão é que os padrões da “periferia” importados dos centros atuais e aparentemente imitados e copiados tendem a ser -com a ajuda do conhecimento acumulado – adaptados, reformados e reajustados criativamente para diferentes realidades. De um ponto de vista histórico, há uma deficiência ligada ao fato de “ser o primeiro” e há uma vantagem em “juntar-se mais tarde”. Se as sociedades que já passaram de seu apogeu, objeto de meus livros sobre a modernidade, podem estar vivendo o “ocaso da civilização” – como intuído cem anos atrás por Oswald Spengler em seu “O Declínio do Ocidente” -, os Brics exalam o ar de uma ressurreição. O Brasil, os demais do Brics e outros países são os centros potenciais de irradiação cultural.
Valor: O consumismo é o pior aspecto das sociedades líquidas?
Bauman: Os candidatos ao primeiro posto são muitos, mas o consumismo é certamente um deles. Ele coloca em questão a sustentabilidade do planeta e, logo, as chances de sobrevivência da humanidade. Enquanto isso, corrói a solidariedade humana necessária para a defesa do futuro do planeta assim como pressiona e enfraquece os limites do ser humano. O consumismo também provoca muita dor e humilhação a uma massa de pessoas ameaçadas pela exclusão ao direito de uma vida decente e digna e relegadas ao status de “subclasse” – os frágeis consumidores…
Valor: Como o senhor desenvolveu o conceito de “sociedade líquida”?
Bauman: Ao longo de um século de sua breve história, a sociologia lutou para se estabelecer como “ciência/tecnologia da não-liberdade”: como uma oficina para formatar as questões sociais que seriam resolvidas na teoria, mas, sobretudo, para colocar em prática o que Talcott Parsons articulou de maneira memorável como “a questão Hobbesiana”. Em outras palavras, tratava-se de saber como levar os seres humanos, abençoados com a ambígua dádiva do livre arbítrio, a serem guiados de maneira normativa em direção a um fluxo de ações previsível; ou, ainda, como reconciliar o livre arbítrio com a vontade de se submeter à vontade dos outros – isto é, elevar a “servidão voluntária”, antecipada por La Boétie no limiar da modernidade, a princípio supremo da organização social. Em resumo: como levar as pessoas a quererem fazer aquilo que elas devem fazer… Em nossa sociedade individualizada, a sociologia encara a oportunidade excitante de se transformar em uma “ciência/tecnologia da liberdade”. Acho que a sociologia não tem muita escolha a não ser seguir, agora como sempre, o mundo em transformação. A alternativa seria a perda de relevância. No entanto, esse caminho “sem escolha” não deveria ser causa de desespero, muito ao contrário. A modernidade líquida de fato coloca os indivíduos, e isso significa todos nós, num estado de indeterminação e incerteza provavelmente irreversível, pois, em nossa condição de fragilidade e transitoriedade, a contingência se tornou nosso habitat natural. Entretanto, é com esse tipo de experiência humana que a sociologia precisa se envolver, em um diálogo contínuo.
Valor: Seus livros sobre a sociedade líquida, escritos em estilo muito menos acadêmico do que “Ensaios sobre o Conceito de Cultura”, tornaram-se um sucesso junto a um público mais amplo. Como lida com esses diferentes perfis de leitores?
Bauman: O diálogo é certamente uma arte difícil. Significa esclarecer as questões em conjunto, mais do que conduzi-las por meio de seu próprio caminho; multiplicar as vozes, mais do que reduzi-las; ampliar as possibilidades, mais do que ter em vista um consenso total; perseguir o entendimento, em vez de visar a derrota do outro; e tudo isso deve estar animado pelo desejo de manter a conversa fluindo. Dominar essa arte consome um tempo terrível e não promete tornar nossa vida mais fácil. No entanto, promete torná-las mais excitante, mais útil aos outros, e transformar nossas escolhas profissionais em uma viagem de descobrimento contínua e interminável.
Valor: Qual a importância das teorias do sociólogo Pierre Bourdieu, que morreu há dez anos, para o desenvolvimento da disciplina?
Bauman: Na minha opinião, a grande contribuição de Bourdieu está em haver ressuscitado o comprometimento das ciências sociais, assim como seus conceitos de capitais cultural e social. Além disso, atualizou os argumentos para a crítica da economia capitalista centrada nos lucros dos acionistas.
FONTE: VALOR ECONÔMICO/CULTURA – 11/05/2012
segunda-feira, 14 de maio de 2012
‘Caudismo’:: José Roberto de Toledo
A maioria dos partidos brasileiros sofre de “caudismo” crônico. A divergência entre seus deputados é tão grande que a cauda formada pelos dissonantes é mais pesada do que o corpo partidário. Se fossem répteis, essas siglas seriam serpentes. A dispersão dos votos dos deputados de um mesmo partido começa no mais desapegado governismo e termina em destemida oposição. Pode significar tudo, menos coesão ideológica. O caso mais extremo de “caudismo” é o do PSD, que foi pensado para ser assim. Seu fundador definiu o PSD como um partido que não está nem à direita, nem à esquerda, nem no centro. Proféticas palavras. Quântico, o PSD está em todo lugar ao mesmo tempo. E não está sozinho. O “caudismo” não tem lado. Vai da oposição à base governista, do DEM ao PDT, do PPS ao PR, passando por PP e PV.
O Basômetro, desenvolvido pelo Estadão Dados, revela que a taxa de governismo da bancada do PSD na Câmara está em 86%. Mas um único número não traduz o comportamento de membros da sigla. Essa taxa embute um desvio padrão que é sete vezes maior do que o do PT, o mais coeso dos grandes partidos. O governismo do PSD varia dos 95% de votos pró-Dilma de João Lyra (AL) até os 36% de Nice Lobão. A independente deputada maranhense é mulher de Edison Lobão, ministro das Minas e Energia. Nice Lobão não está sozinha no lado oposicionista do PSD: 7 deputados do partido votaram mais vezes contra o líder do governo na Câmara do que segui-ram sua orientação. Na outra ponta, 8 obedeceram o governo em mais de 90% das vezes. E o resto dos deputados do partido ficou no meio do caminho, entre um extremo e outro, sem deixar espaço vazio no espectro de governismo. O corpo de votos tem o formato de uma cauda.
O fenômeno se explica pela origem dos deputados do PSD. Eles foram eleitos por outras legendas, e só se juntaram na nova sigla em outubro do ano passado. Os que emigraram do PMDB, do PR e do PTB, como João Lyra, carregavam na bagagem de votações uma alta taxa de governismo. Já os que vieram do DEM, como Nice Lobão, tinham um passado oposicionista. Depois que o PSD formou sua bancada na Câmara, o comportamento de seus deputados tornou-se majoritaria-mente governista, votando quase sempre de acordo com a vontade de Dilma. Nas 26 votações nominais ocorridas entre outubro e dezembro de 2011, a taxa de governismo do PSD foi de 97%: 45 dos 48 deputados do partido votaram com o governo em mais de 90% das vezes. Mas isso mudou no começo deste ano.
Desde fevereiro, aumentaram os votos oposicionistas do PSD. Só sobraram dois deputados no “núcleo duro” do governo na Câmara. Na média, a taxa de governismo do PSD caiu de 97% para 68%. A causa dessa mudança de comportamento é a eleição municipal. Em fevereiro, o presidente do partido, Gilberto Kassab, trocou a aliança com o PT em São Paulo pelo apoio a José Serra, do PSDB. A troca de aliado refletiu-se em outras cidades. Seria injusto dizer que o PSD inventou o “caudismo”. Ele só aperfeiçoou-o.Tome-se o partido de onde migraram mais peessedebistas, o DEM. Nas 53 votações nominais anteriores à defecção de seus parlamentares para o PSD, o DEM tinha uma taxa média de governismo de apenas 22%. Só 4 de seus 43 deputados tinham votado mais de metade das vezes com o governo. Desde então, o governismo do DEM subiu para 29%, e 5 deputados da sigla deram mais de 50% dos seus votos para Dilma. Um deles, Lael Varela, é um renitente membro do “núcleo duro” do governo: tem 100% de votos pró-Dilma em 2012.
É tentador identificar o “caudismo” como um reflexo do comportamento caudatário que a maioria dos partidos tem em relação ao governo. Afinal, apenas 4 das 23 legendas com representação na Câmara podem dizer que fazem oposição a Dilma. Na média, suas bancadas votaram mais de metade das vezes contra o governo em 98 votações nominais: PSDB (78% de oposicionismo), DEM (74%), PSOL (72%) e PPS (66%). Mas enquanto PSDB e PSOL são razoavelmente coesos nos votos de seus deputados, os outros dois sofrem de “caudismo”. Entre os deputados do PPS, a taxa de governismo varia dos 25% de Roberto Freire (SP) a mais do que o dobro disso, como é o caso de Almeida Lima (SE), que votou mais vezes com o governo do que contra ele. O desvio padrão dos votos da bancada do PPS é 26% maior do que a dos tucanos, por exemplo. Não é coincidência que PT e PSDB, os partidos que polarizam a política no País há 18 anos, estejam entre os mais coesos. Nem que PSB e PMDB, que buscam romper essa polarização, rivalizem com eles em coesão.
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO
É muito grave! (Paulo Brossard)
Quando menos se espera, surge uma surpresa, ainda que velha e carcomida, e por isso mesmo surpresa ainda maior. Confesso que não supunha tivesse de ver o ressurgimento de uma grosseira violência fartamente praticada ao tempo do regime autoritário. Pois a censura à imprensa que vicejou naquele período passou a ter defensores, agora sob a máscara do "marco regulatório da comunicação", volto a dizer que, nesta altura do século, não imaginava que alguém tivesse a ousadia de pretender a censura à imprensa e o autor dessa iniciativa fosse parlamentar com a agravante de ser presidente de partido numeroso que, aliás, tem na presidente da República uma filiada. É espantoso.
A propósito, começo por lembrar a observação de Guglielmo Ferrero em seu profundo estudo sobre "O Poder", "a censura, a princípio limitada à imprensa de oposição, pouco a pouco alarga-se a todas as manifestações do espírito", razão por que, escreveu Rui Barbosa, "de todas as liberdades, é a da imprensa a mais necessária e a mais conspícua", e como sempre ocorre quando se cuida dos valores supremos de liberdade, de dignidade humana, de justiça, é a ele que se recorre; e, quando se verifica que o presidente de um partido e parlamentar por ele eleito postula a censura à imprensa, é de ser lembrada a lição do estadista que também foi jornalista; em "A imprensa e o dever da verdade", "por agros e amaríssimos que sejam os assuntos ventilados, quando a verdade o exige, muita vez se perderá por carta de menos, mas por carta de mais não há perder nunca. Quanto mais robusta a nacionalidade, mais largo os seus costumes no exercício deste direito. É um dos sintomas, por onde melhor se revela, em qualquer comunidade, a sua boa saúde moral. As que não suportam com serenidade a discussão dos escândalos públicos, e não reconhecem o civismo dos que, para os desmascarar, se afrontam com o poder, o dinheiro, a soberba dos grandes, ainda bem longe se acham dessa autonomia, em que se lhe embala a vaidade".
Pois é esse patrimônio cultural e institucional que se pretende agora mutilar, quando resistiu inclusive em períodos de ostensiva, desabrida e demorada ditadura. É realmente impressionante a naturalidade com que se apregoa a natureza da iniciativa e sua finalidade.
Como é sabido, foi a Veja que, por primeiro, divulgou irregularidades graves em ministério que levou o respectivo titular a pedir demissão, maneira diplomática de despachar o ministro envolvido. A partir de então, sucederam-se as denúncias, de evidente gravidade, deduzidas por conceituados jornais, de resto, os maiores do país, a Folha de S. Paulo, o Estadão, o Globo... até que os dois últimos ministros alvejados foram "blindados" pela senhora presidente, segundo se diz, para não comprometer o ministério inteiro, que terminaria esfarrapado pelo critério pelo qual fora composto. O fato é que foi a imprensa, e só ela, que descobriu e divulgou as insignes anomalias e todas teriam ficado incólumes não fora a imprensa, pois dos serviços estatais nenhuma contribuição apareceu. Nenhuma. Agora a situação se agravou ainda mais. Para resumi-la, sirvo-me do editorial do O Globo que usou de seu prestígio e autoridade para analisar um fato inédito. O artigo começa assim: "Blogs e veículos de imprensa chapa-branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT desfecharam uma campanha organizada contra a revista Veja, na esteira do escândalo Cachoeira/ Demóstenes/ Delta". E aditou "é indisfarçável, ainda, a tentativa de atemorizar a imprensa profissional como um todo..."
Como se vê, é urgente amordaçar a imprensa que descobriu coisas que o aparato estatal com seus imensos recursos nem imaginava pudessem existir.
FONTE: ZERO HORA (RS)
sábado, 12 de maio de 2012
ARACELI VÍTIMA DE UM POVO (Juca Magalhães)
Como se aproxima o
julgamento de dois acusados do crime que vitimou a jornalista Maria Nilce,
antes de realmente entrar no assunto - que vai ficar para o próximo texto – vou
tecer algumas considerações sobre o fenômeno social de criminalização da vítima
usando um caso muito emblemático acontecido em 1973. Este texto tem por base
alguns trechos do documentário “O Caso Araceli - A Cobertura da Imprensa”, com
direção de Tatiana Beling:
“A mãe de Araceli
(Lola Cabrera Crespo) começou a ser indicada como uma das responsáveis pela
morte da filha. Ela estaria participando da orgia com a rapaziada”
Fala de Marien
Calixte, jornalista que na época escrevia para O Diário. As suspeitas
levantadas contra familiares da vítima ou a própria são recorrentes nos crimes
que envolvem membros da elite social, neste caso, de Vitória. Servem para
tumultuar as investigações, desviar a atenção da imprensa e manipular a opinião
pública. Infelizmente Marien não explica como é que surgiu a acusação contra
Dona Lola, parece dar a entender que a “indicação” partiu da própria polícia e
os jornais simplesmente publicaram.
Logo depois vem a fala
de um jornalista chamado Zé Maria Batista que cobriu o caso pelo jornal A
Gazeta, a acusação à atuação da polícia é um pouco mais clara:
“Relatam que ela seria
uma espécie de avião. Há informações, que também não chegaram a ser
confirmadas, até porque a polícia não permitiu, atrapalhou demais as
investigações - atrapalhou ela mesma - de que essa cocaína vinha de Santa Cruz
de La Sierra onde Dona Lola morava.”
Como já dito de outra
maneira, afirmações difusas como “relatam” ou “há informações” serviam apenas
para adicionar mistério e cortina de fumaça ao caso. Nos atuais tempos
politicamente corretos, até para evitar processos, dificilmente são divulgadas “informações
não confirmadas” nos meios de comunicação mais sérios.
Contradizendo as graves acusações
da polícia há o depoimento de Aurélio Marques um vizinho e amigo da família:
“Jamais, jamais,
jamais. Dona Lola era uma pessoa hiper ..., era mãe. Mãe que não tinha ligação com
nenhum ... Esse bairro aqui era um lugar ermo, isolado.”
Na seqüência do
documentário vem o jornalista Zé Maria novamente, dessa vez com uma fala bem
mais contundente e prenhe de opinião pessoal, botar a culpa na mãe de Araceli:
“Permitir que uma
menina que morava no Bairro de Fátima e estudava na Praia do Suá andasse a pé até
(!) o Bairro de Fátima? (aproximadamente quinze quilômetros) Passando aquela
Praia de Camburi toda ali a pé? No mínimo uma mãe irresponsável, né? Parcela de
culpa nessa história toda ela tem também, talvez por isso que ela tenha se
omitido um pouco no período da investigação.”
Zé Maria estava dizendo
simples e imponderadamente o que muita gente pensava e afirmava na época: “Pobre
é tudo irresponsável, deixa a filha largada por aí é isso o que acontece!” E o
pior, mas o pior de tudo isso mesmo, é que a informação de Dona Lola ser
traficante e Araceli “aviãozinho” tem sido publicada ou mencionada costumeiramente
como fato em vários blogs e sites. Na Wikipédia está assim:
“Também foi apontada como suspeita a
mãe de Aracelli, Lola, que teria usado a própria filha como "mula"
(gíria conhecida para pessoa que entrega drogas) para entregar drogas a Jorge
Michelini. Lola, que seria um contato na rota Brasil - Bolívia do tráfico de
cocaína, desapareceu de Vitória em 1981, residindo atualmente na Bolívia, tendo
o pai de Araceli, Gabriel Crespo, falecido em 2004.”
É bom saber que, uma
das exigências feita aos autores da Wikipédia é a confirmação das informações
publicadas através de referências, uma espécie de validação acadêmica que,
infelizmente, nem sempre funciona bem; basta dizer que o artigo se utiliza do
próprio documentário de Tatiana Beling para afirmar o que está dito no trecho
acima sem fazer a devida ressalva da não confirmação das informações.
Assim um boato vira notícia
e à vítima, ao invés de obter solidariedade e justiça, herda a reprovação da
sociedade. Porém, não é só a impunidade que deixa margem para especulação. Um
crime assim provoca medo paranóico nas pessoas causando diferentes reações
sociais. Após o crime de Araceli as famílias capixabas passaram a se preocupar
mais com o paradeiro dos seus filhos, outras aceitaram e difundiram a opinião
de que a menina morreu porque estava envolvida com drogas e que aquele perigo
não lhes pertencia.
Imaginemos, entretanto,
que Dona Lola fosse mesmo representante de um perigoso cartel de drogas da Bolívia.
Será que essa história teria terminado tão bem assim para os acusados? Rogério
Medeiros conta que o máximo que a mulher conseguiu fazer – provavelmente quando
entendeu para onde apontava a investigação - foi dar uma bofetada no rosto do
delegado. Dado as circunstâncias, deu
sorte de não parar na cadeia.
Araceli deveria ter
hoje perto de cinqüenta anos e a data de sua morte – 18 de maio – marca o Dia
Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Enfim,
não custa lembrar, é na semana que vem...
8 de maio de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
Os neocoronéis do século XXI querem acabar com a política no Espírito Santo (Mariazinha Lucas)
Os coronéis da República Velha tinham o voto de cabresto, os neocoronéis do século XXI querem arranjar o candidato de cabresto.
Para acabar com a política no Espírito Santo, permitindo aos neocoronéis do século XXI o comando inconteste do poder, arranjaram, até mesmo, um nome pomposo.
É, de novo, a tal da “geopolítica”, nome que, para acabar com a política, busca tramar e ganhar as eleições nos bastidores, não permitindo aos cidadãos capixabas a oportunidade de se pronunciar sobre projetos distintos, sobre as diferentes capacidades e biografias dos candidatos que se apresentam.
Assim, para que se ajuste o quadro político – segundo essa visão autoritária da política – é preciso que candidatos com legitimidade e capacidade abram mão – sejam rifados e expelidos, na verdade – de suas candidaturas.
O que os neocoronéis do século XXI querem é arranjar os candidatos de cabresto. Aqueles que, uma vez instalados no poder, sob as bençãos desses “líderes”, sejam submissos e atendam, somente, aos interesses desses que lhe instalaram no gabinete, querem a esterilização da política, do debate, da disputa e do conflito político, como se a política fosse somente gerência e decisões de “mais do mesmo”.
Para isso usa-se a imprensa – que consente com offs e ons na medida dos interesses dos coronéis do século XXI – para se lançar e disseminar boatos e quem tem que, necessariamente se pronunciar, para essa imprensa, são aqueles que, de peito aberto e coragem política inconteste, apresentaram seus nomes para o debate inicial da pré-campanha.
Os que tramam nos bastidores, os que inventam notinhas e as publicam na imprensa local, que muitas vezes vira disseminadora de boataria e interesses inconfessáveis, esses não precisam falar nada. Têm seus agentes e operadores. Ficam só desgastando os que se apresentam, os que disputam, os que têm a hombridade de disputar pública e não clandestinamente.
Esse jogo sujo da política – que constrói situações vexaminosas para a própria imprensa, vide a situação em que se meteu a revista Veja – tem que ser derrotado, tem que ser expurgado de nosso ambiente coletivo.
Por isso, declaro minha solidariedade a todos aqueles, mesmo os que estão em lados distintos do que defendo, que se lançaram candidatos, e faço um apelo: não se deixem levar por esse surto autoritário que mais uma vez presenciamos no Espírito Santo. Façamos das eleições de 2012 uma festa da política, do debate dos diferentes, da disputa dos distintos, que permita ao cidadão a escolha daqueles que ele achar mais apto para o representar.
fonte: Blog da Mariazinha (blogdamariazinha.wordpress.com)
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Roberto Beling
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