segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Bolsonaro, um reacionário contra o futuro (Fernando Abrucio)

Acostumado a ser visto como o país do futuro, o Brasil está sendo governado com os faróis voltados para trás. Eis aqui uma característica marcante do primeiro ano de mandato: a preferência do presidente pelo passado e por (certas) ideias antigas, em contraposição às preocupações com os temas e questões mais vinculadas ao século XXI. Uma frase define tudo isso: Bolsonaro é um reacionário contra o futuro.
O presidente e seus ministros ou assessores estão a todo momento lutando contra algo “moderno” e defendendo o retorno das “tradições”. Conceitos que possam significar uma nova forma de ver uma realidade que está em mutação geralmente são malvistos pelo bolsonarismo.
O paradoxal desse discurso é que seu meio principal de propagação são as moderníssimas redes sociais. Assim, usando o Twitter do Carlucho (o Zero 2), o WhatsApp dos caminhoneiros, os programas televisivos dos evangélicos bolsonaristas e as “lives” do próprio Bolsonaro podem ser apresentados argumentos em prol de um passado idílico e são criticadas diversas modernidades que nos tirariam do rumo certo e da ordem natural das coisas.
Os exemplos de reacionarismo contra o futuro são vários. A luta contra as evidências que explicam as mudanças climáticas é um dos casos mais graves. O presidente, seu dileto ministro do Meio Ambiente e outros assessores já disseram, de um modo ou de outro, que não acreditam na opinião majoritária da comunidade cientifica.
Alguns dos aliados e gurus já falaram, inclusive, que a Terra é plana. O descaso com a ciência talvez tenha um sentido ainda maior: cientistas são “perigosos” na elucidação das ilusões do passado e realçam que os desafios do futuro trazem problemas novos, que exigem novas respostas.
Na questão ambiental, como noutras em que vigora o reacionarismo bolsonarista, a disputa não é apenas contra a ciência, mas contra os atores que defendem novos modos de lidar com as questões contemporâneas. É a defesa dos madeireiros e dos garimpeiros, geralmente ilegais, contra os índios, as ONGs e, sobretudo, os jovens que querem garantir a preservação do meio ambiente para a sua geração e para as próximas.
O episódio recente em que o presidente Bolsonaro chamou a ativista sueca Greta Thunberg de “pirralha”, porque ela dissera que indígenas brasileiros tinham sido assassinados porque estavam defendendo a floresta, revela como o bolsonarismo, além de mal-educado, vai colocar o país na vanguarda do atraso contra as bandeiras mais prementes, defendidas exatamente por aqueles que demograficamente serão o futuro do planeta.
A defesa de um passado idílico contra as “tendências nefastas” da modernidade tem no ministro da Educação um de seus baluartes. Weintraub já se posicionou contra a Proclamação da República e contratou seu guru Olavo de Carvalho para fazer um programa na TV Escola, emissora pública, no qual exalta a monarquia, ganhando a companhia dos argumentos do “príncipe-deputado” - e depois eram os outros governos que aparelhavam o Estado.
O elogio a Dom Pedro I não é um problema em si se quem o fizer perceber que o mundo de hoje precisa de respostas diferentes das propostas no passado. Nosso primeiro monarca criou a figura do Poder Moderador, que era ele mesmo e que controlava os demais, um sonho de consumo da família presidencial atual.
Quando se exalta um período histórico que aconteceu há dois séculos com o intuito de combater os problemas do presente, produz-se um anacronismo. O interessante é que o MEC criou um Programa chamado Future-se - e não precisa ser um passadista para dizer que esse slogan é um crime contra a língua portuguesa.
Continuando nessa toada de defender as tradições e a política do império (mas ignorando a escravidão), o ministro Weintraub superará Juscelino, só que numa conta inversa: quando estiver no quarto ano de seu mandato, logo na comemoração do bicentenário (2022), ele defenderá que o Brasil caminhe 200 anos para trás.
Mas o local em que a defesa do passado ganha mais força é a área da cultura. Seus gestores já defenderam que a escravidão foi positiva para os negros, que o rock (só faltou falar iê-iê-iê) é coisa do diabo, que o Brasil foi “civilizado” por Portugal com sua cultura cristã (esqueceu-se da Inquisição, é claro) e outras frases que querem apagar boa parte dos avanços obtidos pelo país e pela sua reinterpretação histórica desde pelo menos os últimos 50 anos do século XX.
Na verdade, eles querem sepultar a ideia de que a cultura representa a diversidade de uma nação - e a nossa é particularmente plural - e que não deve ser subserviente aos donos do poder, colocando no lugar uma visão medieval de bens culturais a serviço de uma moral e, é óbvio, da seita que comanda o poder.
A política externa tem uma visão reacionária contra o futuro mais sutil, porém mais esquizofrênica. O sonho do ministro Ernesto Araújo, que segue as ordens de Eduardo Bolsonaro sob a inspiração de Steve Bannon, é a de construir uma nova Guerra Fria, com uma divisão clara de quem representa o bem contra o mal no mundo contemporâneo.
Essa é a sua volta ao passado, seguindo a linha do bolsonarismo. O problema é como montar esse modelo bipolar na atual ordem internacional, que é mais multipolar e fragmentada do que o mundo do pós-guerra.
Uma possibilidade seria a junção das grandes potências cristãs do planeta - Estados Unidos, Rússia e Brasil. Parece-me que faltou, aqui, combinar com os russos e os americanos como se daria tal parceria. A outra proposta, bem ao gosto dos bolsonaristas, é a de fazer uma política externa contra o globalismo e os comunistas. O problema é que o país precisa hoje desesperadamente da China, que é uma potência que combina, paradoxalmente, comunistas e globalistas.
Esse modelo passadista tem seu ápice na visão dinástica que a família Bolsonaro tem do poder. Primeiro, os bolsonaristas-raiz atuam contra a separação entre Estado e Igreja, jogando fora a concepção secular que fundou a política moderna.
Em segundo lugar, e mais importante, o pai e os filhos veem o governo como uma extensão de sua casa. Entende-se assim porque não gostam da República e defendem a monarquia. No fundo, os Bolsonaros gostariam de ser uma família real, como as do passado.
Há, no entanto, bolsões no governo um pouco mais antenados com o mundo moderno. A ala econômica e a da infraestrutura são as que mais chegam perto disso. É bem verdade que a principal reforma realizada até aqui, a da Previdência, faz parte da velha tradição brasileira de só fazer grandes mudanças quando a casa está para cair - afinal, a reforma previdenciária tinha de ter sido aprovada há 20 anos, quando o deputado Antonio Kandir “errou” seu voto no plenário da Câmara Federal. Mas claramente existem algumas modernizações razoáveis defendidas pelo grupo mais tecnocrático.
Isso não quer dizer que a agenda econômica esteja completamente ligada à agenda mais contemporânea da área. Por exemplo, o tema das desigualdades (de renda, de gênero, de raça e de escolaridade) ganhou muita força no debate econômico internacional, mas não tem um espaço privilegiado nas ideias de Paulo Guedes. Do mesmo modo, a defesa de um liberalismo econômico meio selvagem já não é consenso nem no Departamento de Economia de Chicago. Isso para não falar de outras discussões mais de ponta, como a tributação para reduzir externalidades negativas no meio ambiente ou na gestão urbana.
Poderiam ser citados outros aspectos da discussão contemporânea que não têm tido a atenção necessária da equipe econômica. Dois exemplos, contudo, resumem a fragilidade da modernização proposta. O primeiro é o desastre na política de educação básica. Um Ministério da Economia do século XXI não pode aceitar isso, ou então deveria jogar fora todos os livros-texto sobre crescimento e desenvolvimento dos últimos 50 anos. Pior: depois dos trabalhos de Daron Acemoglu e James Robinson (“Por Que as Nações Fracassam”, por exemplo), é inimaginável colocar a democracia como um tema menor para quem é economista. Por sua terrível menção ao AI-5, Guedes mostra que, no fundo, ainda tem saudades do Chile de Pinochet.
É natural que muita gente tenha medo do futuro, porque as mudanças estão ocorrendo numa velocidade e imprevisibilidade quase sem paralelo na história. Essa é uma das razões de Bolsonaro conseguir ainda segurar um terço do eleitorado: um conjunto enorme de pessoas está querendo um porto seguro neste mundo em ebulição, e o discurso passadista em torno da moral e da religião oferece esse alento. O problema é que o tempo vai passar, e os desafios do século XXI vão se tornar maiores, exigindo respostas condizentes com a nova realidade.
Continuar em 2020 com uma política que venere um passado idílico e que abomine os novos temas do século XXI é uma estratégia que condena o país e as próximas gerações ao fracasso. Parece que o único futuro que importa a Bolsonaro e seus aliados são as próximas eleições presidenciais.
Se conseguirem ganhar o pleito, da maneira que seja, tudo bem. Diante desse cenário, as lideranças sociais e as demais forças políticas, ao centro e à esquerda, precisam atuar juntas para evitar que o passado vença o futuro. Sem isso, os próximos anos serão piores do que 2019, como numa distopia em cenário de cavaleiros medievais.
Valor Econômico/13 de dezembro de 2019

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Barbas de molho (Carlos Andreazza)

Os números da última pesquisa Datafolha são bons para Jair Bolsonaro. Indicam que a escalada de reprovação do governo teve ritmo sustado. A sangria foi estancada. Ainda com impopularidade em andar elevado; mas estabilizada. É notícia relevante. Isto porque não se pode esperar que o presidente tenha altos níveis de aprovação.
Ele não é um conciliador. Não tem o perfil daquele que amalgama sentimentos para, por exemplo, eleger-se em primeiro turno. Trata-se de alguém que cinde; que, com sucesso comprovado, fundamenta o discurso no confronto, que fala para grupos específicos — e que aposta na polarização radical como condição garantidora dos votos daqueles que, sobretudo, rejeitam seus adversários.
Este é o lugar de alguém que, ademais governante, tende a ser desprezado por cerca de 35% do eleitorado, aprovado por algo como 30% — e que investe em atrair, numa circunstância de disputa eleitoral extremada, a maioria entre os que avaliam o governo como regular e que têm pavor, no caso, do PT. Ou seja: Bolsonaro deseja — precisa — enfrentar, em clima de guerra, Lula ou seu cavalo da vez; e teme, por falta de recursos para o debate político, alguém como Luciano Huck.
Note-se que a rejeição ao governo é especialmente forte entre mulheres, negros, desempregados, pobres e nordestinos. Registre-se que este mesmo governo — percebido (não sem razão) como elitista — pagará, pela primeira vez, o décimo terceiro salário do Bolsa Família; movimento que pretende abraçar o cidadão pobre do Nordeste. Uma jogada político-eleitoral ambiciosa, cujo eventual sucesso se medirá nos próximos levantamentos.
Não deixa de ser curioso que a economia seja a grande responsável por domar a impopularidade do governo. Houve significativo aumento na taxa de aprovação da equipe econômica. Logo a área menos afeita aos interesses do presidente — aquela que delegou ao Posto Ipiranga, o ministro Paulo Guedes, quase que com porteira fechada; o quase ficando na conta das vezes em que Bolsonaro agiu deliberadamente para atrapalhar, em defesa de interesses corporativos, na reforma da Previdência, e ao impedir, num grave erro de cálculo político, que a reforma administrativa fosse enviada ao Parlamento na semana retrasada.
Seja como for, será ele — o chefe — a colher os louros. Apesar de Bolsonaro e em benefício de Bolsonaro, há uma sensação de melhora nos ares da economia — e é essa a sensação que alivia a pressão sobre o presidente. O homem tem sorte.
Ainda que timidamente, e sem que se possa descartar que nos armemos para mais um voo de galinha, a modesta retomada na geração de empregos (mesmo que informais) e os números do PIB (mais o que projetam para o futuro do que os dados em si) mobilizam uma expectativa positiva e acariciam o humor da população; pulso que se pode aferir no fato de que 53% entre os pesquisados achem que sua própria situação melhorará. Como o cidadão otimista não come volume de PIB, mas carne, firmo-me no ceticismo. Como não minimizo a influência da (depressão) política sobre a economia, firmo-me na prudência.
Gente graúda do Ministério da Economia, no entanto, já lida (reservadamente) com crescimento econômico de 3% em 2020. E fala-se em chegar a 2022 para além dos 4% — lugar em que, assim se estima, só muito improvavelmente Guedes não entregaria a reeleição a Bolsonaro.
Mas: o que Bolsonaro entregaria a Guedes? Ingratidão em curto, médio ou longo prazo?
Para os melhores interesses de seu projeto autocrático de poder, protegerá os seus liberais econômicos — ao menos até a eleição — da fome por sangue da ala jacobinista do governo? Ou os dará antes, capacidade de investimento retomada, à sanha daqueles que dirigem o Palácio do Planalto e que estiveram no cérebro das operações que derrubaram Bebianno e Santos Cruz, que engessaram Mourão e que cooptaram, para a gramática de guerra reacionária, o outrora moderador general Heleno e o até há bem pouco independente Sergio Moro, convertidos ambos ao bolsonarismo também por medo de tombar?
Moro, aliás, deveria botar as barbas de molho. A pesquisa Datafolha é boa para o ministro da Justiça a ponto de colocá-lo (novamente) em risco. Como explicar que a taxa de aprovação do governo em matéria de combate à corrupção — pilar fundamental da persona de Bolsonaro, área sensível ao imaginário bolsonarista — caia pesadamente, mas que a avaliação daquele objetivamente responsável por tal enfrentamento se mantenha estável e altíssima?
Nada cola em Moro, aprovado por impressionantes 53%. Isto enquanto os escândalos do episódio Queiroz e do laranjal do PSL, entre outros, vão integralmente para as costas do governo; assim como se a população identificasse a existência de problemas no combate à corrupção apesar do melhor empenho do herói Moro, espécie de entidade que pairaria acima até do mito Bolsonaro.
Nada cola em Moro. Nem o governo que integra. Barbas de molho, doutor.
O Globo/10 de dezembro de 2019

Evo e Salvini (Marcus André Melo)

Passaram-se já três meses que Matteo Salvini perdeu o cargo de vice-primeiro ministro, que acumulava com a pasta da Justiça. Sua jogada política malogrou: apostava que a moção de desconfiança que apresentou levasse a uma nova eleição em que seria vitorioso. Il capitano, que encarnava mais que ninguém a figura de líder populista radical, perdeu, mas o episódio não deixou traumas ou qualquer tensão institucional na Itália.
Evo Morales caiu em meio a protestos de massa contra a fraude nas eleições presidenciais que fora detectada pela OEA e que prejudicava seu adversário, Carlos Mesa. O Tribunal Constitucional que deveria arbitrar o conflito estava desmoralizado desde que chancelou a candidatura de Evo pela quarta vez.
As ruas prevaleceram após a recusa dos militares em reprimi-las. Não há novidade alguma aqui: os dois ex-presidentes anteriores soçobraram da mesma forma. O próprio Carlos Mesa naufragou, em 2005, em meio a protestos massivos e bloqueios de estradas, liderados por Morales. Antes, em 2003, manifestações de rua também sob seu comando levaram à derrocada do governo de Sanchez de Lozada (2002-2003).
Em ambos os países, líderes populistas foram derrotados, mas, no caso da Bolívia, ela envolveu a violação de regras. Não há surpresas: o que ocorreu foi “uma regressão à média”, à instabilidade crônica.
A escassa institucionalidade democrática na Bolívia é consistente com o padrão já identificado pela literatura: os melhores preditores da longevidade democrática em um país são o tempo sob o qual o país esteve sobre regras democráticas e sua renda per capita.
A democracia naufragou 70 vezes durante o século 20. O Uruguai foi o único país em que isso ocorreu onde ela existia há pelo menos 20 anos. É preciso fazer uma distinção entre a probabilidade de consolidação da democracia e a ocorrência de reversão onde a democracia não está consolidada.
Os analistas tendem a subestimar o risco de reversão nas democracias novas, e superestimam o risco de reversão onde a democracia está consolidada. A reversão autoritária parece doença para a qual se adquire imunidade com o tempo, como conclui Milan Svolik (Yale University).
É certo que mudou o padrão do colapso da democracia. Entre 1973 e 2018, ocorreram 197 casos de rebaixamento para o status de não livre na classificação da Freedom House —88 são casos em que parte do chefe do governo a transformação autoritária. Mas isso não contraria a conclusão sobre o papel da renda e da história na sobrevivência da democracia.
Misturar fenômenos em países inteiramente distintos —como Hong Kong, Chile, Bolívia, Itália, Turquia e EUA— produz apenas ruído.
Folha de S. Paulo/9 de dezembro de 2019

A era do Nacionalismo ( Diego Viana)

Após 30 anos de um consenso liberal que surfou na onda da globalização, o mundo está entrando em nova fase: guerras tecnológicas, políticas nacionalistas e pouca coordenação global devem ser a marca das próximas décadas. O período de acelerada globalização, entre a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a crise financeira de 2008, foi uma exceção histórica, segundo a economista Monica Baumgarten de Bolle, pesquisadora-sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional (Piie). O nacionalismo econômico de líderes como Donald Trump não são um acaso ou um momento passageiro, mas o primeiro passo na direção de uma outra fase da economia global.
“Está se formando uma ‘cortina de ferro tecnológica’”, afirma o cientista político Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Para Stuenkel, são duas as causas: ascensão da China como superpotência global e mudança na relação entre desenvolvimento técnico e integração regional. “O avanço das tecnologias, que costumava integrar mais os países, passa a produzir esferas de influência tecnológica”, afirma. “Para mim, essa é a maior ameaça ao livre-comércio.”
A tendência vai além da tecnologia, porém. Nesta semana, o Brasil sentiu na pele o pendor nacionalista de Trump, mas num setor tradicional: a siderurgia. O presidente americano acusou o país, e também a Argentina, de desvalorizar artificialmente suas moedas, e ameaçou reativar taxas de importação de aço e alumínio. Trata-se de taxas anunciadas para o mundo todo no ano passado, de 25% e 10% respectivamente, mas das quais os dois países sul-americanos tinham ficado isentos.
No mesmo dia, Trump ameaçou taxar produtos franceses em até 100%, em retaliação a um imposto sobre transações digitais. Desde 2017, o presidente americano também acusa a China de manipular sua moeda, o renminbi, reativando o tema das “guerras cambiais”, que era assunto em 2011, quando o então ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, dizia que a moeda artificialmente desvalorizada era o próprio dólar.
“A antítese do liberalismo não é o socialismo, como muita gente pensa, mas o nacionalismo”, afirma Monica. Em parceria com Jeromin Zettelmeyer, seu colega no Piie, a economista mediu o quanto as mensagens dos partidos políticos ao redor do mundo, à direita e à esquerda, estão se afastando do consenso liberal das últimas décadas. A dupla concluiu que é justamente essa antítese que está se expandindo.
“Ouvindo as propostas de Trump e depois de outros partidos populistas, aquilo nos pareceu familiar: lembra a tradição nacionalista e protecionista da América Latina”, afirma Monica.
O anúncio de Trump reforçou a demanda da indústria siderúrgica europeia para a Europa também aumentar barreiras à entrada do produto brasileiro. A Eurofer, associação dos produtores siderúrgicos da Europa, disse temer que o aço que o Brasil e a Argentina não puderem mais exportar para o mercado americano acabe desviado para a Europa, fragilizando ainda mais a já combalida indústria europeia.
A pesquisa do Piie, que analisou as plataformas de partidos políticos com mais de 10% dos votos nos países do G20 (grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia), antes e depois da crise de 2008, faz mais do que apontar a presença do populismo: mostra também que os partidos tradicionais do centro estão se tornando mais favoráveis a medidas de controle do comércio exterior ou de desenvolvimento macroeconômico nacional.
Em quase todos os critérios da pesquisa, as sociedades se tornaram mais protecionistas, nacionalistas e economicamente populistas. O resultado foi obtido ponderando os programas dos partidos com os votos que eles obtiveram em eleições, segundo tópicos como política industrial, recepção de imigrantes e recebimento de investimento estrangeiro. Siglas consideradas populistas, que costumavam ter uma posição econômica mais liberal, embora fossem anti-imigração, caminharam na direção de maior proteção comercial e adotaram propostas de política industrial. Ao mesmo tempo, partidos considerados não populistas passaram a adotar propostas mais hostis aos imigrantes, ao menos no mundo desenvolvido.
O fenômeno vale tanto para países ricos quanto para emergentes. As diferenças entre os dois grupos não são tão expressivas como se poderia esperar: em ambos, o gosto por tratados multilaterais de livre-comércio e instituições de governança global diminuiu acentuadamente. A principal diferença é que, no mundo desenvolvido, os partidos aumentaram a aposta em medidas de controle da imigração, enquanto nos países em desenvolvimento as promessas dos políticos evocam mais medidas de proteção à indústria local.
“As esferas de influência tecnológica vão ser o maior desafio para a política externa dos demais países, particularmente os emergentes”, afirma Stuenkel. “Uma coisa que me preocupa é que poucos países vão liderar o processo de avanço em áreas como inteligência artificial. Vão dominar essas indústrias. A corrida para controlar essas tecnologias vai criar muita desigualdade, porque os países em desenvolvimento tendem a não conseguir acompanhar o processo, o que vai aumentar a situação de dependência.”
No caso do Brasil, uma política de não alinhamento, como o país manteve durante boa parte da Guerra Fria, seria ideal, diz Stuenkel. Mas não seria fácil.
“A cortina de ferro tecnológica vai ser muito mais difícil de superar do que a cortina de ferro ideológica”, afirma. Mesmo no auge da Guerra Fria, os EUA colaboraram com países do bloco comunista, quando houve interesses em comum. “Mas se a disputa é pela dominância tecnológica e comercial, a situação é mais complicada: ou um país usa certa tecnologia ou não usa.”
Stuenkel sugere que, se não quer ficar para trás, o Brasil deve ter um “plano de investimento estratégico possante”, com adaptação da legislação que torne o ambiente econômico atraente para empresas de tecnologia e a formação de “uma nova elite, que seja competitiva no mundo da indústria 4.0”. Para as redes 5G, um bom passo seria conseguir que o país fornecedor se disponha a arcar com os custos de instalação da rede, algo que a China parece inclinada a fazer.
“Se a China tem uma empresa como a Huawei, que domina a tecnologia 5G, e os Estados Unidos não têm nada parecido, a ideia é que isto é por falta de uma política econômica nacional”, diz Stuenkel.
Mesmo nesse campo, encontra-se indício da passagem do consenso liberal à nova fase do nacionalismo econômico. “É um debate estratégico de longo prazo, que deveria acontecer nos ministérios e seria um ótimo tema para discutir em cúpulas anuais de dirigentes da América Latina, o que hoje, obviamente, não é viável, já que a mentalidade ainda está nas divisões da Guerra Fria, e não na guerra tecnológica”, diz.
Historicamente, a emergência do consenso liberal, a partir dos anos 80, foi um processo chefiado pelas potências ocidentais, na descrição do cientista político alemão Michael Zürn, autor de “Uma Teoria da Governança Global” e diretor do Centro de Pesquisa em Ciências Sociais de Berlim. Já nessa década, os acordos comerciais, ainda essencialmente tarifários, começaram a se tornar mais amplos, abrangendo mais áreas. A partir daí, os tratados começaram a intervir também nas políticas econômicas nacionais, “vistas como estratégias de proteção aos mercados domésticos”, afirma.
“O consenso liberal incentivou a evolução desses acordos, em processo que se intensificou com a evolução tecnológica, à medida que as fronteiras nacionais se tornaram menos relevantes e mais incômodas”, diz Zürn. “A globalização se intensificou a partir daí. Quando a União Soviética, pressionada e tentando responder com uma abertura controlada, entrou em colapso, os EUA e potências ocidentais viram a oportunidade de estabelecer um mundo realmente baseado no consenso liberal.”
Zürn aponta que, no geral, as instituições que organizam o mundo globalizado são as mesmas que surgiram ao fim da Segunda Guerra: Organização das Nações Unidas (ONU), Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial. A essas se somam instituições regionais, das quais a mais conhecida é a União Europeia (UE), que começou como mera união aduaneira. As atribuições dessas entidades se expandiram ao longo do tempo, tornando-se os alicerces da ordem global e promotoras do consenso liberal.
Monica e Zettelmeyer sublinham a importância da crise de 2008, conhecida como Grande Crise Financeira, como catalisadora da mudança nos programas dos partidos. “As mensagens de centro-direita e centro-esquerda ficaram pouco atraentes para os eleitores depois da crise”, diz Monica.
“Quando as mensagens mais extremadas começam a crescer no gosto da população, isso sempre inclui uma dose de nacionalismo econômico.”
Nos partidos já existentes, as siglas identificadas com a esquerda foram mais afetadas: sua reorientação para o nacionalismo econômico a partir de 2008 é mais radical do que a dos partidos considerados à direita.
Essa guinada reverte o processo que colocou os tradicionais partidos da esquerda, sobretudo na Europa, no coração do consenso liberal, ao longo da década de 90. Esse foi o momento da chamada Terceira Via, a era de Tony Blair (primeiro-ministro britânico de 1997 a 2007), Bill Clinton (presidente dos EUA entre 1993 e 2001) e o brasileiro Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Sob esse nome, a partir de um termo cunhado pelo sociólogo britânico Anthony Giddens, partidos de esquerda ao redor do mundo adotaram plataformas de defesa do livre-comércio e desregulação financeira, mas com maior preocupação social.
Essas são as agremiações que levaram o maior golpe após a crise financeira. A ala do partido Trabalhista britânico ligada a Tony Blair foi derrotada pelos seguidores mais radicais de Jeremy Corbyn. Na França, o presidente socialista François Hollande foi tão impopular que nem chegou a concorrer à reeleição. Na Alemanha, o tradicional Partido Social-Democrata (SPD) compõe o governo com seu antigo rival, os democrata-cristãos (CDU), mas vem tendo votações cada vez menores, ano após ano.
Algum movimento na direção de maior nacionalismo econômico e protecionismo é algo que se pode esperar após grave crise econômica. O exemplo clássico é a década de 30, em que a Grande Depressão levou os governos nacionais a enxergar o comércio e a finança internacionais não mais como uma arena de cooperação entre povos e países, mas como um espaço de disputa e rivalidade. Desvalorizações cambiais, barreiras tarifárias e outras medidas, que visavam à proteção da indústria doméstica e de empregos locais, deram o tom do período. Também foi o momento de ascensão de políticos populistas e nacionalistas, que resultou na Segunda Guerra.
Em 2015, os cientistas políticos alemães Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch publicaram um artigo demonstrando que esse não foi um caso isolado. Examinando eleições ao longo de 140 anos (entre 1870 e 2014), os autores apontam que cada período de crise financeira é seguido de um aumento da incerteza política e da fragmentação partidária. Este é o solo em que se assenta o crescimento das políticas nacionalistas e das lideranças populistas. “Na média, partidos da extrema-direita populista, que põem a culpa da crise em minorias e estrangeiros, aumentam sua votação em 30% depois de crises financeiras”, escrevem.
Para Stuenkel, a crise e a lenta retomada que se seguiu não são o fator preponderante, mas a ascensão da China como polo econômico, geopolítico e tecnológico. “A grande aposta dos EUA, ao fim da Guerra Fria, foi na capacidade de inserir a China no sistema global, o que deveria trazer uma liberalização política e econômica no país. Não foi assim que aconteceu”, diz.
O caso da Huawei é emblemático. A empresa domina uma tecnologia de ponta em telecomunicações: a 5G, fundamental para o desenvolvimento da internet das coisas. É a primeira vez que o avanço industrial chinês envereda por campos que os países do Ocidente não atingiram. Também é, segundo Stuenkel, o primeiro momento em que um país emerge no cenário econômico mundial de um jeito que os Estados Unidos não conseguem encontrar uma resposta, como foi quando o Japão parecia ameaçar a hegemonia americana, nos anos 80.
A reação dos tradicionais países desenvolvidos ao novo competidor transparece em detalhes contraintuitivos. Um deles é o item investimento direto estrangeiro, na pesquisa de Monica e Zettelmeyer. Nas economias mais ricas, as plataformas dos partidos apontam um aumento das restrições a esses investimentos. Mas quem restringiria o investimento produtivo?
“Em geral, essas restrições são a investimentos que de alguma maneira vêm da China”, afirma Monica. Na Europa, a principal preocupação é a perda da vantagem tecnológica, quando empresas de ponta são compradas por companhias chinesas. Nos EUA, soma-se a sensação de uma “perda da hegemonia americana no mundo”, diz a economista. “A questão é que o poder de influência dos chineses está cada vez maior, tomando o espaço do poder de influência dos americanos. Isso leva tanto os democratas quanto os republicanos a reagir.”
Um exemplo se encontra no projeto Estratégia Industrial Nacional 2030, que o ministro alemão da Economia, Peter Altmaier, anunciou em fevereiro. Um dos pontos do projeto é que o governo deverá intervir para evitar que empresas nacionais sejam compradas por companhias estrangeiras que sejam estatais ou “fortemente subsidiadas”.
De fato, o governo de Angela Merkel manifesta preocupação há anos com a possibilidade de perder para empresas chinesas a posição de ponta em maquinário industrial que a Alemanha possui. Em 2016, a fabricante de robôs Kuka foi comprada pela chinesa Midea. No ano passado, porém, o governo chinês, adiantando-se à promessa de intervenção de Berlim, impediu o grupo Yantai Taihai de comprar a fabricante de maquinário alemã Leifeld. A Leifeld produz equipamentos para indústrias nucleares.
“Essa estratégia alemã dificilmente vai ser bem-sucedida”, afirma Stuenkel. “Os alemães estão querendo vencer o jogo jogando como os chineses, mas estão muito em desvantagem.” Seria mais eficaz, para o cientista político, definir setores em que a Alemanha não vai cooperar com a China e, apenas para esses mercados, introduzir proteções.
Altmaier também tem defendido que a Europa desenvolva uma política conjunta para desenvolver a indústria, com um fundo para investir em novas tecnologias e a proteção do mercado continental. “Isso é muito surpreendente para um país que vive de exportação e depende de mercados abertos”, diz Stuenkel.
A versão final do documento foi apresentada no mês passado e ainda será analisada pelo governo da Alemanha, que poderá rejeitá-lo ou modificá-lo. Comentando as críticas que o projeto tem recebido, Altmaier chegou a dizer que a intenção era recolocar a indústria em seu lugar de direito: “Pela primeira vez em anos, o centro do debate político”. O ministro também disse que recebeu apoio de outros países da Europa.
Para conseguir jogar o jogo chinês com chance de vitória, seria necessário que a Europa estivesse em estágio de coordenação política que não existe. No caso das tecnologias 5G, Merkel deixou claro que não quer que o âmbito da decisão seja Bruxelas. Assim, são os parlamentos nacionais que vão escolher entre aceitar ou rejeitar a participação da Huawei.
A ascensão do nacionalismo econômico sugere que a globalização perdeu força e pode até mesmo estar refluindo. Desde 2008, a expansão do comércio internacional, que até então era duas vezes mais rápida do que a expansão da economia como um todo, arrefeceu, e não tem ultrapassado o ritmo do crescimento global. Desde o início de 2019, vem até mesmo recuando, em comparação com o ano passado.
O plebiscito do Brexit, em 2016, talvez tenha sido o primeiro grande sintoma de que o impulso globalizador se esgotava. Na ocasião, o diplomata chinês He Yafei, ex-vice-ministro de Relações Exteriores da China, se referiu à votação como “parte da primeira onda de desglobalização” e previu futuro “intenso e feroz, com forças pró e contra a globalização lutando batalhas acirradas em diversos campos”.
A ordem liberal, que emergiu na virada para a década de 90, já estava abalada desde 2001, afirma Zürn. Foi nesse ano que o ataque às Torres Gêmeas, nos EUA, demonstrou que haveria resistência ao avanço da ordem liberal; e também foi em 2001 que o economista britânico Jim O’Neill cunhou a expressão Brics para se referir a países emergentes com grandes territórios e tendência ao crescimento não só econômico, mas de influência global.
Ainda que se possa duvidar da coordenação efetiva entre Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul, o que O’Neill indicava, com o horizonte para 2050, era a perda relativa de influência e poder das potências ocidentais, Europa em particular. Significaria que os países em ascensão passariam a exigir mudanças nas regras da governança global, avançando seus interesses. Mas essas mudanças provocariam reações nos países estabelecidos, perante o risco de perder espaço.
Este é, de fato, o momento que o mundo atravessa hoje. As potências emergentes, China à frente, se ressentem do modelo de tomada de decisões dos organismos de governança global. As potências ocidentais têm pouco interesse em reformá-los. Certas lideranças, a começar por Trump, preferem se afastar e agir por conta própria. Zürn acrescenta que as antigas potências foram incapazes de se adaptar à emergência de novas potências, o que se reflete na crise das instituições de Bretton Woods e na criação de instituições paralelas, como o Banco de Investimento em Infraestrutura da Ásia e o Banco dos Brics. Mas a crise do consenso liberal conduz à pergunta: poderíamos, de fato, esperar que a transição ocorresse de maneira mais harmoniosa?
Stuenkel aponta tendência de que o comércio global esteja cada vez mais sujeito a tomadas de decisão geopolíticas. Esta é uma das maneiras como as esferas de influência tecnológica vão se manifestar. “Se, por exemplo, um país do tamanho do Brasil optar pela Huawei para a rede 5G, certamente os Estados Unidos vão reagir dificultando a entrada de produtos brasileiros em seu mercado”, diz. A interdependência entre comércio global e geopolítica vai necessariamente implicar a interferência política dos governos na circulação internacional de bens e serviços.
A comparação com a América Latina é esclarecedora por outros motivos. No ano passado, Trump implodiu o Nafta (Acordo de Livre-Comércio da América do Norte), e em seu lugar foi criado o USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá). “Não é um acordo de livre-comércio, mas um acordo de comércio administrado. Tem cotas de importação, restrições voluntárias de exportação, vários instrumentos de manejo do comércio que não estão em linha com o que se entende por livre-comércio", diz Monica. É um modelo mais próximo ao Mercosul.
Por outro lado, os países de governos mais liberais tampouco estão imunes à onda do nacionalismo econômico. A saída americana do TPP (Parceria Transpacífica), novamente por iniciativa de Trump, ensejou a criação de um substituto incluindo os demais membros do acordo abortado: trata-se do CPTPP (Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica). “Mas esse acordo, depois da saída dos EUA, embora tenha mantido muito do que estava no TPP, reintroduziu várias barreiras ao comércio”, afirma a economista.
A nova fase geopolítica é um “nivelamento”, segundo o economista irlandês Michael O’Sullivan, do banco Crédit Suisse. O’Sullivan lançou neste ano o livro “The Levelling: What’s Next After Globalization” (O nivelamento: o que vem depois da globalização), argumentando que o mundo caminha para uma estrutura multipolar. Isso significa que cada região do planeta se torna mais isolada das demais, com uma maior coesão interna a cada polo e com suas próprias instituições internas de governança.
O’Sullivan afirma que as estruturas de governança internacionais foram incapazes de acompanhar a velocidade com que a economia se globalizou, as empresas se tornaram transnacionais e as decisões políticas e econômicas saíram das mãos dos governos nacionais. O descompasso levou a uma rejeição da integração internacional, primeiro entre eleitores, que começam a se inclinar mais para mensagens populistas; depois no sistema político em geral, que adota programas cada vez mais nacionalistas. Por fim, nas atitudes concretas de quem detém o poder.
Para o economista, a ordem que se constituiu nos últimos 30 anos se desfaz, entre outras razões, porque “o contrato que as pessoas acreditavam ter com políticos, governos, instituições e possivelmente entre si está se desintegrando”. É um erro se referir ao desconforto dos eleitores como mera inclinação ao populismo, porque por trás existe uma genuína sensação de desconforto e confusão com o mundo, diz.
Essas disputas internacionais se refletem nas políticas domésticas indiretamente. Assim, alguns episódios pontuais revelam o processo pelo qual partidos estabelecidos, tradicionais e anteriormente adeptos do consenso liberal vão aos poucos sendo empurrados na direção de maior protecionismo e nacionalismo. Muitas vezes, esse movimento também passa pela xenofobia.
Em outubro, o presidente da França, Emmanuel Macron, sofreu críticas ao conceder entrevista para uma revista conservadora de pequena tiragem, “Valeurs Actuelles”. Na entrevista, os temas da laicidade e do islã tiveram posição central. Para os críticos, Macron estava sinalizando aproximação com a direita nacionalista que tem votado em candidatos como Marine Le Pen.
Na Alemanha, Angela Merkel adotou em 2015 uma política de recebimento livre de imigrantes, com a divisa “Wir schaffen es” (Nós vamos conseguir). A política foi usada por partidos de extrema-direita, como o Alternativa para a Alemanha (AfD), para agitar o sentimento nacionalista em eleições regionais, com sucesso. Desde então, a política imigratória de Merkel mudou. Neste ano, foi aprovada uma lei que, por um lado, facilita o acesso de imigrantes ao mercado de trabalho, mas, por outro, também reduz drasticamente as barreiras para deportações.
Nos Países Baixos, as eleições de 2017 marcaram aparente derrota do extremista Geert Wilders e de seu Partido da Liberdade (PVV). Wilders é conhecido por vociferar contra a “islamização” de seu país e da Europa. Segundo o sociólogo Dirk Witteveen, porém, o que ocorreu naquele ano não foi um refluxo da mensagem anti-imigração de Wilders, mas a progressiva adoção, ao longo da campanha eleitora, de algumas de suas propostas pelos partidos tradicionais - os Conservadores Liberais (VVD), os Democratas Cristãos (CDA) e os Democratas (D66).
Witteveen aponta que o VDD e o CDA, que compõem a coalizão de governo, passaram de favoráveis à integração europeia a contrários à expansão das prerrogativas da UE. Ambos os partidos adotaram projetos nacionalistas e protecionistas, sobretudo em relação à imigração. Ainda assim, o partido de Wilders cresceu, chegando a 20 deputados de um total de 150. Tornou-se o segundo maior partido do país, atrás apenas dos conservadores, com 33 deputados.
O sociólogo faz a ressalva de que a plataforma de Wilders também propõe um Estado mais ativo na economia, com a redução da idade de aposentadoria e a construção de moradias para idosos. Assim como no exemplo de Trump, cuja campanha eleitoral, em 2016, se apoiava tanto na retórica anti-imigração como na promessa de geração de empregos e recuperação da indústria, nem sempre é possível discernir o nacionalismo político do econômico.
O caso americano chama atenção porque ambos os grandes partidos, que dominam a política do país quase inteiramente, têm se afastado desde 2016 do consenso liberal. O Partido Republicano, mais conservador, se tornou sob a batuta de Donald Trump um bastião do nacionalismo, inclusive econômico. A partir de 2017, os EUA bloquearam a TPP, saíram do Acordo de Paris e começaram uma guerra de tarifas contra a China.
Os democratas, por sua vez, testemunham a ascensão de movimentos internos que questionam as regras que sustentaram a economia globalizada das últimas décadas. A pré-candidatura de Bernie Sanders à Presidência em 2016, que disputou a indicação democrata com Hillary Clinton, já apontava para um Estado mais presente na economia. O projeto do Green New Deal, encampado pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez, é fortemente baseado na capacidade estatal de fazer os investimentos necessários à transição energética, ainda que isso inclua a emissão de moeda e o endividamento público.
“Há um novo consenso surgindo na sociedade americana”, diz Stuenkel. “Se a China tem uma empresa como a Huawei, que domina a tecnologia 5G, e os Estados Unidos não têm nada parecido, a ideia é que isto é por falta de uma política econômica nacional.”
Valor Econômico/6 de dezembro de 2019

A grande batalha, agora, é entre autoritarismo e democracia (Juan Arias)

A linguística se tornou estreita para analisar as convulsões políticas que sacodem o mundo. Os velhos termos “esquerda” e “direita” não nos servem mais. Agora, o debate é entre autoritarismo e democracia. Essa é a grande batalha. Aqui no Brasil e em todo o planeta. Tanto não servem mais os velhos clichês da esquerda e da direita que criamos os termos “extrema esquerda” e “extrema direita”. Dizer que Bolsonaro, Putin ou Trump, por exemplo, são de direita significaria, na prática, fazer-lhes um elogio.
O mundo se dilacera hoje mais entre autoritarismo e democracia. Entre aqueles que lutam para cercear as liberdades individuais e coletivas e a democracia cada vez mais desprezada e ameaçada por nostalgias ditatoriais.
É de esquerda ou de direita o presidente Jair Bolsonaro, que em seus 28 anos como deputado federal quase sempre votou com o Partido dos Trabalhadores, o PT? É nacionalista ou ecumênico? E Lula é de esquerda? Era quando, em seu segundo mandato, quis impor o que chamou de "controle social" dos meios de comunicação com uma cartilha em que uma comissão de fora da mídia deveria atribuir pontos de boa ou má conduta aos jornalistas? É agora que, livre da prisão, busca de novo na sombra conexões com a direita e o centro enquanto o PT sangra?
Bolsonaro é de direita quando ataca o jornal Folha de S.Paulo, ao qual ameaça com sanções? Por que a direita tem que ser contra a liberdade de expressão? Não, Bolsonaro não é de direita ― se fosse, isso não seria um pecado. Ele é um autoritário com nostalgias de velhas ditaduras, paixão pela violência e a tortura e contrário a tudo o que cheire a direitos humanos e liberdades individuais.
Os termos direita e esquerda sempre foram ambíguos, até mesmo na religião. Na Bíblia se diz que Deus colocará "à sua direita" os justos e "à esquerda", os condenados. Deus é de direita ou de esquerda? Na linguagem popular, quando tudo dá errado dizemos que "levantamos com o pé esquerdo".
Não, os velhos rótulos do passado não nos servem mais. Hoje, a grande batalha mundial se dá entre o autoritarismo e o respeito à liberdade de expressão e à cultura. Entre o canibalismo político que se nutre de corrupções e privilégios vergonhosos, seja na direita ou na esquerda, e os valores da democracia cada vez mais ameaçada pelas velhas nostalgias nazifascistas.
O mundo hoje está dividido entre a fidelidade aos valores da liberdade, de todas as liberdades que nos permitam viver sem as correntes do autoritarismo que nos sufoca, e os valores que fizeram a humanidade viver em paz. A guerra e suas ditaduras são o autoritarismo em estado puro. É o ápice da tirania incensada no altar das falsas liberdades.
Que os termos direita e esquerda não nos servem mais para definir políticas concretas está cada vez mais evidente no mundo. Hoje, uma onda de autoritarismo, de negação dos direitos fundamentais, de obsessão contra as liberdades humanas que distinguem o ser racional, atravessa o planeta. Os analistas internacionais quebram a cabeça para tentar entender esse novo fenômeno que percorre o planeta e convulsiona até a velha e moderna Europa, sede dos esplendores do Renascimento.
Talvez seja preciso voltar a Freud, que analisou como poucos a necessidade que o ser humano, frágil e com medo de suas pulsões de morte, tem de segurança e de ordem. O pai da psicanálise nos explicou que a insegurança do ser humano e seus medos ancestrais fazem com que em tempos de turbulência e perda de identidade, como os que estamos vivendo, recorramos à figura paterna e autoritária, que nos oferece segurança.
Todas as grandes neuroses pessoais ou coletivas, as depressões em massa que sacodem todos os continentes, os medos da liberdade e dos diferentes derivam dessa insegurança inata do Homo sapiens, que se debate entre a nostalgia da liberdade perdida no paraíso e o medo da solidão radical, algo que projetamos diante de todos os diferentes, vistos como inimigos.
Mais que entre direita e esquerda, que já pouco significam, o mundo hoje se divide entre os anseios de liberdade, que são a essência da vida pessoal e coletiva, e os medos do autoritarismo castrador que nos corta as asas e nos impede de respirar o ar da liberdade.
Hoje o mundo está cada vez mais dividido de norte a sul e de leste a oeste entre os que, garroteados pelo medo, tentam erguer muros que nos separem, e os que, em nome da liberdade, que é o cerne da existência, preferem eliminar fronteiras.
Parece que estamos diante das velhas guerras ideológicas entre liberdade e escravidão, entre os que preferem viver em liberdade, embora ameaçados, do que em uma escravidão que nos oferece a miragem da segurança. Quem vencerá a batalha entre o autoritarismo que se impõe como um novo dogma e a democracia, que é o espelho dos anseios mais profundos do ser humano criado para cuidar do mundo e não para prostituí-lo?
El País/ 5 de dezembro de 2019

Cristovam Buarque propõe inventário de erros da esquerda e do centro que levaram Bolsonaro ao poder (Cristovam Buarque)

O site “Congresso em Foco” destaca o lançamento do 27º livro do ex-senador Cristovam Buarque (Cidadania-DF) “Por que falhamos” pela Tema Editorial (veja abaixo). Nas densas 54 páginas da nova obra, Cristovam “propõe um polêmico inventário dos erros dos governos que se sucederam entre 1992 e 2018”, de Itamar Franco a Michel Temer.
Cristovam escreve que a pergunta a fazer não é por que Jair Bolsonaro venceu às eleições, mas sim por que todo o campo político dito democrático e progressista foi punido pelos eleitores.
“Na verdade, ele não ganhou, nós perdemos, porque ficamos sem projetos que seduzissem os eleitores. Deixamos um país em crise e decadência, com a população descontente, milhões nas ruas contra nossa corrupção, incompetência e falta de inspiração para o futuro. Perdemos por nossos erros. Estamos errando de novo ao nos perguntarmos por que ele ganhou, quais foram seus acertos táticos, suas manipulações de slogans e fake news e não por que nós perdemos, quais foram nossos erros estratégicos”, escreve o ex-senador.
Polêmica. Cristovam faz inventário dos erros da esquerda e do centro que levaram Bolsonaro ao poder
Sylvio Costa – Congresso Em Foco
Poucos parlamentares pagaram um preço tão alto por terem votado sim ao impeachment de Dilma Rousseff quanto Cristovam Buarque. Em 2016, ano do impeachment, ele estava no PPS (atual Cidadania), mas foi pelo PT de Dilma e Lula que se elegeu governador do Distrito Federal, em 1994, e senador pela primeira vez, em 2002. Um dos efeitos daquele voto foi ser carimbado como “golpista” pela esquerda petista e psolista. O que obviamente incluiu muitos professores e estudantes da Universidade de Brasília, instituição da qual foi reitor, é professor emérito e que até então havia sido uma das suas principais bases de apoio político. A rigor, o voto pelo impeachment guardava coerência com o tom crescentemente crítico das análises de Cristovam, mas o massacre a que foi submetido foi tal que ele recebeu formalmente solidariedade de outros senadores.
Outra consequência foi o fracasso na tentativa de se reeleger em 2018, pleito em que derrotá-lo nas urnas era uma das tarefas prioritárias de grande parte de uma militância petista que começou a afrontar Cristovam antes mesmo de ele anunciar o voto pró-impeachment. Tais questões, de caráter mais pessoal, não aparecem no livro Por que falhamos, que será lançado na quinta-feira (5) e ao qual o Congresso em Foco teve acesso em primeira mão. Ali, esse pernambucano de Recife, hoje com 75 anos, faz as vezes de analista e pensador. Propõe um polêmico inventário dos erros dos governos que se sucederam entre 1992 e 2018, isto é, de Itamar Franco a Michel Temer. Governos, vale lembrar, ligados a partidos (sobretudo, MDB, PT e PSDB) e personalidades de alguma maneira comprometidas com os ideais de democracia e justiça social da Constituição de 1988, aquela mesma que Jair Bolsonaro e vários dos seus seguidores não cansam de desdenhar.
Muito severo consigo mesmo e com os governos dos últimos 26 anos, Cristovam escreve que a pergunta a fazer não é por que o capitão venceu, mas sim por que todo o campo político dito democrático e progressista foi punido pelos eleitores. “Na verdade, ele não ganhou, nós perdemos, porque ficamos sem projetos que seduzissem os eleitores. Deixamos um país em crise e decadência, com a população descontente, milhões nas ruas contra nossa corrupção, incompetência e falta de inspiração para o futuro. Perdemos por nossos erros. Estamos errando de novo ao nos perguntarmos por que ele ganhou, quais foram seus acertos táticos, suas manipulações de slogans e fake news e não por que nós perdemos, quais foram nossos erros estratégicos”, escreve ele.
Credenciais intelectuais não faltam a Cristovam, discorde-se ou não de suas reflexões. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Pernambuco, doutorou-se depois em Economia pela prestigiada Universidade de Sorbonne, em Paris. Além de governador, senador por dois mandatos e reitor da UnB, trabalhou durante seis anos no Banco Interamericano de Desenvolvimento e foi ministro da Educação de Lula, que o demitiu por telefone. Por que falhamos é o seu 27º livro. Lançado pela Tema Editorial, o livro será lançado inicialmente apenas em versão digital, e com uma novidade: a partir de quinta-feira (5) estará disponível gratuitamente no site da editora.
É livro denso, mas de meras 54 páginas, redigidas sempre na primeira pessoa do plural. O ex-senador se inclui entre os responsáveis pelos equívocos cometidos. Para Cristovam, a eleição de Bolsonaro sairá cara, dado o perfil do presidente eleito: “Não tinha programa nem partido e representava uma visão sectária e retrógada – posições que pareciam superadas desde a redemocratização –, além de não expressar qualquer experiência gerencial”. Mas o questionamento sobre os erros é a parte que lhe interessa e que explora. Numa referência indireta a Lula, um dos seus alvos é o “culto à personalidade”. Nas suas palavras: “A amarra aos líderes foi uma das principais causas de nossa derrota em 2018. Confundimos Estado com governo, governo com partido, partido com líder. Para proteger nossos líderes, subestimamos a corrupção diante da qual fomos omissos”.
Traremos um pouco de spoilers aqui listando os dez dos 24 erros apontados por Cristovam Buarque:
• Legamos um país sem coesão e sem rumo
“Não nos unimos por um programa que fosse além da democracia e que servisse para orientar o Brasil em novo rumo civilizatório. No lugar de reunirmos forças para fazer um país progressista, preferimos nos dividir em partidos, siglas, sindicatos, corporações – cada um querendo parte do butim que a nova democracia ofereceu aos que apresentavam mais força eleitoral ou capacidade de pressão. (…) Passamos 26 anos fazendo oposição entre nós, uns aos outros. Somente depois de retirados do poder, ministros de diversas pastas nos governos Itamar, FHC, Lula, Dilma e Temer se reuniram para manifestar posições contrárias ao adversário que nos derrotou”.
• Mantivemos o descompasso do Brasil com o progresso mundial
“Jogamos fora a chance de cortar as correntes que nos amarram ao passado como uma sina histórica. Fomos ‘democratizadores’, mantendo um país injusto, ineficiente e insustentável. Não estivemos à altura como promotores de uma nação progressista, eficiente, justa e sustentável. Desperdiçamos mais uma vez a chance de o Brasil ficar em sintonia com o futuro. (…) Nós tomamos o poder e durante 26 anos não entendemos a revolução em marcha no planeta”.
• Passamos ao largo da utopia educacionista
“Continuamos a falar no velho e relegado direito à educação, sem ver e sem defender que a educação com qualidade é mais do que um direito individual, é o vetor do progresso da eficiência econômica e da justiça social. (…) Passamos ao largo da percepção de que a globalização da economia e das informações simultâneas, os limites ecológicos ao crescimento, a robótica e automação, além do esgotamento do desenvolvimentismo econômico e do socialismo real, levaram ao fracasso das utopias que nos orientavam. Não percebemos que já não é mais possível manipular a economia pela política, sem levar em conta a realidade da globalização e da ecologia, nem é possível impor uma igualdade plena de renda e salário. Uma nova utopia, que não fomos capazes de visualizar, precisa despolitizar a economia para que ela seja eficiente, subordinar a produção e o consumo às restrições ecológicas, tolerar a desigualdade dentro de parâmetros e oferecer a mesma chance para que todos possam ascender socialmente, conforme o próprio talento”.
• Ficamos prisioneiros do populismo e do corporativismo
“Por falta de visão de uma utopia, caímos no corporativismo e no oportunismo, passando a organizar nossas bandeiras em busca de resultados eleitorais imediatos, mesmo que isso exigisse o aparelhamento e a tolerância com a corrupção na gestão da máquina do Estado e a irresponsabilidade nas contas públicas. Concentramos nossa função política em atender as reivindicações de sindicatos de categorias profissionais, os interesses e as propostas de segmentos identitários e de organizações não governamentais”.
• Desprezamos o ‘espírito do tempo’
“Não vimos que a globalização, as comunicações instantâneas, globais e manipuláveis, e as novas tecnologias fizeram da terra um planeta dividido em um Primeiro Mundo Internacional dos Ricos, com basicamente as mesmas características de renda e consumo, atendimento médico e escolaridade. Até mesmo com as mesmas ideias e gostos estéticos, seja qual for o país geográfico do habitante. No outro lado, temos um Arquipélago Mundial de Pobres com padrões culturais sociais e econômicos diferenciados, solidários apenas pela escassez de bens e serviços essenciais que caracteriza suas vidas, também independente do país geográfico onde vivam. Cada país é cortado socialmente por uma cortina de exclusão, a Cortina de Ouro”.
• Permitimos o domínio da corrupção
“Nosso erro mais visível para a opinião pública foi cair na corrupção, tanto no comportamento quanto nas prioridades. Abandonamos fins revolucionários e adotamos meios corruptos, trocando prioridades básicas, como escolas por estádios, para atender ao gosto imediatista e eleitoral da sociedade e também para receber propinas nessas construções”.
• Repudiamos reformas
“Contentamo-nos com o salto democrático representado pela Constituição, que alguns de nós nem assinamos, mas não fizemos as reformas que dariam o salto progressista que a sociedade espera e carece. Não enfrentamos a necessária reforma do Estado. Ficamos sem fazer a reforma política, sem a qual o Estado brasileiro mantém seus desperdícios, seus privilégios, suas brechas corruptivas. Mantém também seu distanciamento em relação ao povo, seu sistema eleitoral manipulável e mercantil, sua promiscuidade entre poderes – juízes, políticos, empresários, líderes sindicais –, sua justiça ineficiente e protetora dos ricos. Estado gigante, corrupto, ineficiente.
(…) Mesmo as tímidas, mas positivas, reformas do ensino médio durante o governo Temer foram criticadas e enfrentadas por movimentos conservadores de parte de nossos militantes, sem qualquer justificativa progressista. Por acomodamento e submissão às corporações universitárias, oferecemos recursos financeiros, mas não nos propusemos a reformar as estruturas acadêmicas, sem o que a universidade brasileira não participará da construção da sociedade do conhecimento no século 21. A consequência é que até os grandes feitos educacionais, como o aumento no número de vagas no ensino superior e em cursos profissionalizantes, foram anulados por falta de avanços no número e na qualidade dos que terminam o ensino fundamental e o ensino médio.
(…) Apesar da positiva reforma da responsabilidade fiscal no segundo mandato de FHC, não enfrentamos a necessidade de fazer as reformas que garantiriam o equilíbrio das contas públicas, devastadas pelo descontrolado aumento do custo da máquina do Estado determinado pela Constituição”.
• Valorizamos mais o estatal do que o público
“Confundimos estatal com público e até hoje temos que explicar por que muitos de nós fomos contra a privatização nas telecomunicações, que permitiu a disseminação do direito a um telefone, antes um privilégio de pouquíssimos brasileiros ricos. (…) Ignoramos o fato de que a estatização não criou a oferta de serviços com qualidade que a sociedade precisava, especialmente para os pobres, nem implantou a infraestrutura econômica nas dimensões e eficiências desejadas. Assistimos passivamente ao Estado ser apropriado por empreiteiras, políticos, sindicatos e servidores que o usam para usufruírem poder e vantagens patrimonialistas. Há quase 100 anos o Brasil mantém custosas empresas estatais de saneamento, e mais da metade de nossa população continua a viver no meio de lixo, urina e fezes. Mesmo assim, resistimos à alternativa de usar empresas privadas para executarem e administrar projetos sanitários em nossas cidades, ainda que sob regulação pública”.
• Ignoramos que justiça social depende de economia sólida
“Os nossos governos Itamar, FHC e Lula fizeram esforços para assegurar uma economia eficiente, mas sofreram pressões desestabilizadoras de parte de nossos partidos e sindicatos, que mantinham a antiga visão de que os gastos públicos seriam o caminho para atender aos interesses dos trabalhadores do setor moderno e oferecer assistência aos pobres, mesmo que isso fosse feito às custas do endividamento público e privado. Aceitamos a ilusão de que o Tesouro Nacional seria como um chapéu de mágico, com disponibilidade ilimitada de recursos financeiros. (…) Por não entendermos a realidade, não fazermos as contas, não acreditarmos na aritmética ou simplesmente por oportunismo eleitoral, muitos de nós continuamos a cometer esses erros, agora na oposição.”
• Adotamos o culto à personalidade
“A amarra aos líderes foi uma das principais causas de nossa derrota em 2018. A recusa da realidade e o culto à personalidade terminaram por aprisionar nossa linguagem, nossas análises, táticas e estratégias, sem metas e propostas para o longo prazo. Confundimos Estado com governo, governo com partido, partido com líder. Para proteger nossos líderes, subestimamos a corrupção diante da qual fomos omissos, sem acusar, julgar, punir nem ao menos criticar os responsáveis pela cobrança de propinas, depredação de estatais e de fundos de pensões. Não combatemos as prioridades equivocadas. Continuamos a defender que prisões de empresários aliados eram o resultado de manipulação política contra nós, os democratas-progressistas, ignorando que a Justiça julgou e prendeu dezenas de políticos e homens de negócio das mais diversas vertentes políticas.”
5 de dezembro de 2019