segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O Brasil contra si mesmo (Zander Navarro)

Neste ensaio submeto argumentos sobre a armadilha histórica que os brasileiros armaram para si mesmos e exponho uma tese geral a respeito de nossos comportamentos sociais.
Enfatize-se que “brasileiros” talvez não seja a categoria adequada para iluminar a identidade nacional, exceto pelos contornos do território. É imprecisa classificação, em função da vastidão do país, de suas gigantescas diferenças regionais e da escandalosa desigualdade socialque sempre mantivemos, além de outras facetas (ou vilanias) típicas de nosso curso histórico. Como brasileiros, nunca fomos um todo, mas sempre múltiplos, sugerindo fragmentação e apenas o embrião de uma sociedade.
Nem sequer o registro de nossas guerras e conflitos principais contribuiu para o adensamento de uma identidade. Guerras totais e dilacerantes são demarcadoras, alicerçando a autonomeação de um povo que se mobiliza para a defesa do território, de uma religião ou das formas culturais ameaçadas. Um de seus resultados é a coesão social, ancorada em valores que fundamentariam uma classificação comum. Apenas a linguagem comum e a delimitação de fronteiras seriam suficientes para a designação de “brasileiros”?
Todos nós, contudo, compartilhamos um ingrediente cultural irremovível, embora variável em suas manifestações concretas. Trata-se de uma entranhada tessitura que une todos os indivíduos, a despeito de diferenças de classe, diversidades regionais, inserção econômica ou outros indicadores que segmentam os grupos sociais.
É o elo que realmente nos aproxima —uma atitude permanente de complacência, a marca comportamental mais distintiva de todos nós. Uma atitude imanente à subjetividade do “ser brasileiro”. Nela encontra-se o farol do cotidiano e o determinante principal que nos permite, como membros da sociedade, atribuir significado às nossas ações.
Esse atributo orientador produz desastroso impacto na estruturação da nação, pois impõe, entre muitas outras, duas marcas profundamente negativas: a superficialidade de tudo o que se faz e, sobretudo, o escancarado desprezo social por qualquer reclamo de rigor e precisão. Afeta até mesmo a nossa noção de tempo e a esperança de futuro, pois tudo que puder ser adiado assim será.
A formulação e as modalidades de complacência, em sua concretude, combinam três grandes processos históricos, os quais, associados e convergentes, materializaram ao longo do tempo uma força cultural impositiva, formal ou tácita. E esse é nosso principal bloqueio para impulsionar voos de transformação mais ousados em direção a uma sociedade melhor, qualquer que seja esta última.
O que é complacência? Significa atitude passiva de subordinação acrítica e frouxidão valorativa dos indivíduos, em contextos variados e em todos os estratos sociais. É qualificação adequada, devido a sua ambiguidade, situando-se entre extremos, um deles negativo, sugerindo indolência, lassidão, preguiça e até adulação, incorporando igualmente o seu significado de tibieza. Sobretudo, demonstrando subserviência.
Complacência, porém, é também uma palavra que encerra outro extremo, benigno e virtuoso, pois pode sugerir comportamentos sociais que demonstrariam suavidade, ampliando a tolerância. Isso explicaria o estereótipo do “povo alegre e cordial”. Por esse ângulo, os brasileiros seriam mais receptivos à diversidade, ao pluralismo e às diferenças sociais.
Entre esses extremos, que variáveis seriam predominantes para determinar a concretude de nossos comportamentos complacentes? Seriam as circunstâncias do cotidiano ou os diferenciados contextos socioeconômicos e espaciais da sociedade brasileira? Ou o “peso da história”, sobretudo a escravidão?
Nas classes sociais mais pobres, a complacência revela um aspecto inesperado. Poderia ser ethos comparado aos grupos sociais mais abonados? Obviamente que não: nos segmentos pauperizados, a complacência concretiza práticas enraizadas ao longo dos tempos, um padrão, sobretudo, derivado da subordinação social e política. Todavia, é preciso explicar: por que os mais pobres submetem-se, cordatos?
Entre os mais ricos, por outro lado, incluindo a maior parte dos segmentos médios da sociedade, são formas de ação e, em especial, de linguagem e de controle social que atendem ao propósito de ocultar a dominação. Estas seriam destinadas a manter as posições de classe (e o padrão de desigualdade existente), assegurando que o exército de pobres “fique onde está”.
Trata-se de um “cul-de-sac” político, pois nem mesmo os agrupamentos partidários autointitulados de “esquerda”, uma vez no poder, se preocuparam em promover mudanças substantivas na estrutura social.
Assoma assim um agudo desafio analítico ainda não enfrentado: como interpretar as inúmeras formas comportamentais tipicamente complacentes entre os brasileiros, revelando seus verdadeiros significados? De modo concreto, não há práticas sociais e suas linguagens que sejam “de todos os brasileiros”. Existem, porém, variantes e manifestações complacentes particulares, conforme classes sociais, regiões, cidades ou campo, provavelmente entre sexos, religiões e outras classificações.
Por isso, talvez movido por esse ambíguo comportamento, consolidou-se a imagem externa de um “povo folgaz e comunicativo” que habitaria um hedonista “paraíso tropical” —Carnaval, futebol, calor humano, mulheres sensuais e sexo à larga.
Seríamos um povo infantilizado, despreocupado quanto ao futuro, sempre voltado ao imediato prazer e às sensações. Ante os desafios vindouros, manteríamos pueril esperança, manifesta na expressão ubíqua de todos os momentos, transferindo para o intangível supranatural a responsabilidade —“se Deus quiser!”.
Essa ambivalência de significados, portanto, ajusta-se à defesa do argumento: nossa marca cultural mais destacada (e estrutural) é aquela enraizada em um forte componente geral de complacência, definindo o rosto mais nítido dos comportamentos sociais. Se aceita esta proposição, tão evidente em si mesma, será preciso responder: entre seus extremos benignos e aqueles mais deformadores, se esta é a esteira que dirige a sociabilidade determinante dos cidadãos, como explicá-la?
Seriam três os processos históricos que devem ser considerados. O primeiro deles se refere à natureza e aos efeitos do catolicismo nas práticas cotidianas dos indivíduos, em sua visão de mundo e em suas subjetividades relacionais no âmbito da família. Ou, mais amplamente, no que diz respeito às posturas de uma classe em relação às outras e às formas de interação humana em geral.
O catolicismo difundido pelos colonizadores desenvolveu mentalidades de subordinação e modos de subserviência entre os brasileiros que, nos tempos modernos, naturalizaram posturas complacentes.
Até porque o catolicismo no Brasil, privilegiando o comunitarismo e o coletivo em detrimento do individualismo, foi cúmplice central dos arranjos políticos que concretizaram os formatos da dominação social, legitimando-os ao longo do tempo.
Sem espaço para as conclusões da sociologia das religiões, recorro à minha história de pesquisador, durante a qual lidei quase diuturnamente com instituições católicas e seus mediadores. Especializado em sociologia rural, trabalhei intensamente como pesquisador de movimentos rurais, sendo conhecida a origem católica dos protestos no campo, nascidos no final da década de 1970, quando entardecia o regime militar. O MST, por exemplo, surgiu de uma pequena reunião de bispos, em Goiânia.
Naqueles anos, com militantes e suas bases sociais quase totalmente católicos (neopentecostais apenas emergiam), a influência desse tipo de catolicismo reforçou as posturas típicas de mediadores religiosos e cidadãos.
Destacam-se quatro características: o anti-intelectualismo, o estímulo à vida comunitária (ou, o que é o mesmo, o anti-individualismo), a exaltação doutrinária da pobreza e da vida simples (aqui nasce a cultura anticapitalista que nos caracteriza) e, como em qualquer religião, rigidez dogmática transformada em autoritária ação institucional. Primeiro no tocante a seus preceitos fundadores, mas, depois, também a ideários partidários, quando setores “progressistas” da Igreja Católica vincularam sua ação ao Partido dos Trabalhadores.
Por isso a pergunta: seriam essas evidências decisivas para esculpir as mentalidades de um povo profundamente católico, acentuando as dimensões de complacência e a subserviente aceitação de uma ordem espantosamente iníqua?
Talvez sejam, mas precisamos concordar: ainda inexiste o abrangente estudo, profundo e rigoroso, que analise criticamente a história da Igreja Católica no Brasil em todos os seus aspectos, revelando a ação da instituição e, sobretudo, suas implicações na formação social brasileira.
O segundo processo histórico a ser mencionado, que também fertiliza esse generalizado comportamento complacente, nos remete às consequências sociais e culturais da vida rural brasileira. Neste ensaio breve, é possível apenas esboçar três dimensões decisivas e consequentes sobre o tema.
Em face da presença temporalmente tão estendida do mundo agrário, a sociedade brasileira, os comportamentos sociais e a maioria dos costumes são ainda caudatários do imaginário rural, pois os processos de urbanização se aceleraram apenas a partir do final dos anos 1950. Se a cidade hoje comanda o rural pela economia, o inverso ainda é forte, pelos vetores culturais.
O primeiro desses processos é a longa trajetória agrária que desenhou gradualmente um espaço social hegemonizado por grandes proprietários, fincando com raízes profundas o mundo do atraso e a subordinação das maiorias ao mando absoluto exercido pelos senhores da terra.
O fato seguinte é aquele que registra que a vida rural quase sempre foi um espaço sem justiça e sem direitos. É recentíssima a chegada a essas regiões de uma parte da estrutura formal das instituições da Justiça. Ante tais contextos, como não se desenvolver uma complacência defensiva, reiterando-se que até duas gerações passadas a maioria da população ainda vivia no campo?
A terceira dimensão intrínseca à história rural tem sido a radical transformação produtiva observada nos polos dinâmicos da agropecuária, surgindo um setor econômico na iminência de se transformar no mais importante produtor de alimentos do mundo, acumulando, cada vez mais, impressionantes montantes de riqueza.
Assim, uma silenciosa mudança vai alterando profundamente o interior, gerando empregos, oferecendo receitas a pequenas prefeituras, multiplicando o setor de serviços e modernizando a vida econômica e social de inúmeras cidades. São situações que transformam a antiga vida parasitária e seu correspondente primitivismo social. Se o capitalismo é seletivo, instável e concentrador, carrega, entretanto, outra face dentro de si, quando exige segurança jurídica e um conjunto de regras impessoais.
Ante essas dimensões, ainda somos uma sociedade que mantém em suas entranhas “muletas do passado”, transplantadas para a vida das cidades. O mesmo espaço social e econômico, contudo, pode anunciar as sementes da mudança. O crescimento da economia agropecuária tem sido prenúncio de uma sociedade em que a complacência social não terá lugar, porque frearia a resiliência desse padrão de expansão econômica.
Finalmente, o terceiro grande processo histórico que carimba como ferro quente os comportamentos sociais é o de maior consequência e escopo e, por isso mesmo, aquele de extrema dificuldade analítica. Será aqui apenas anunciado, na expectativa de poder ser esmiuçado por estudiosos mais capazes.
Trata-se da oposição formada em nossa história em torno das formas de poder e sua correspondente espacialidade (ou territorialidade), gerando uma disputa de um polo estatal, o poder político —que depois se tornou também um eixo de poder cultural— contra um polo econômico, geograficamente à parte, estimulando entre ambos uma rivalidade pela hegemonia da nação.
A batalha é quase sempre “vencida” pelo primeiro, por controlar o Estado —e, em consequência, as regras do jogo, inclusive a distribuição da riqueza. Em termos diretos: a oposição entre o aparato estatal e o poder político (associado à dominação cultural) e o espaço dominante da economia. Essa polaridade, em quase toda a história pós-independência, significou uma oposição entre o Rio de Janeiro, como locus do Estado, da política e da produção cultural, e a economia de São Paulo.
A antinomia firmou-se apenas a partir da segunda metade do século 19, com a expansão da cafeicultura. Durante cerca de um século (1870 a 1980), tornou-se crescentemente aguda, gerando conflitos, crises políticas e perturbações diversas. Com o nascimento de Brasília e a expansão econômica verificada na década de 1970, contudo, é que esse contexto dicotômico começou a mudar, configurando-se multipolar com o aparecimento de novas regiões econômicas.
Seria caricatural insistir que tenha existido durante a maior parte de nossa história uma rivalidade simplória do poder estatal concentrado no Rio contra o poder econômico que passou a fixar-se em São Paulo.
Trata-se, sim, de insistir que nosso desenvolvimento social observou a hegemonização da política através da captura do Estado (e seu poder normativo, suas legislações, mas também os empregos públicos) naquela antiga capital, criando formas comportamentais mais soltas, descomprometidas e complacentes, pois não apenas não seguiam imperativos econômicos como também porque aqueles vinculados ao Estado garantiam sua subsistência, poder e meios de reprodução social.
Em um teorema simplificado: uma vez garantidos os recursos recolhidos dos impostos, uma larga população direta ou indiretamente articulada ao Estado pode desenvolver uma visão complacente sobre a vida em geral, perspectiva reforçada pela hegemonia cultural e por uma visão de mundo (e seus respectivos comportamentos sociais) difundida pela via de uma percolação cultural para o restante da sociedade.
Lembrando, como mera hipótese de trabalho, que essa hegemonia do Rio se construiu através das formas mais populares (música, por exemplo), enquanto os esforços culturais paulistas (ou paulistanos) se concentraram em iniciativas de menor alcance social (ciência e universidade).
Se esta distinção realmente existiu, os impactos no restante da sociedade brasileira estariam explicados a partir do comando cultural, cujo vértice foi o Rio. Já os desafiadores processos da esfera econômica aglutinaram-se em São Paulo, desenvolvendo novas racionalidades comportamentais, em função da competição, da concorrência intercapitalista e da mercantilização da vida.
A complacência social que nos domina, por esta razão, foi promovida e concretizada, sobretudo, no polo político-estatal e cultural, daí se espalhando pelo restante do Brasil.
Há ainda um processo sociopolítico a ser citado aqui apenas de passagem, não obstante sua importância. A existência do polo estatal em combinação com a dominação cultural também agregou, sobretudo a partir dos anos 1950, a pressão política do campo da esquerda.
A presença desse campo político (socialista, reformista ou de outros matizes), concentrada inicialmente no Rio, reforçou uma visão geral do Estado provedor, autossuficiente e capaz de a todos sustentar por algum mecanismo mágico —aos poucos desenvolvendo uma perspectiva política que não passa de autoengano.
A expansão de um novo campo de esquerda em São Paulo, em torno do PT, parece ter sido substantivamente distinta, pois menos ideológica do que a anterior. O ideário de esquerda agregou um ingrediente que tem permanecido no imaginário político da maioria da população: “O Estado tudo pode!”. É visão romântica, acrítica e despolitizada (além de desinformada), que ainda orienta os comportamentos sociais, surgindo com mais força em processos eleitorais, tendo fundamentado, por exemplo, as promessas da Constituição de 1988.
Somos assim porque somos todos complacentes —em relação a nós mesmos, aos demais e no tocante à configuração da sociedade, seu funcionamento e suas instituições. Sendo uma complacência mais negativa que positiva, entre os extremos já referidos, aceitamos práticas sociais que seriam inimagináveis, até absurdas, em outras sociedades.
Mansos e, no geral, pacíficos, tudo aceitamos em nosso inacreditável conformismo, remoendo, quase em silêncio, o rol de tragédias que nos atormenta. A vida social brasileira, em consequência, tornou-se frouxa, porosa e desfigurada, sem contornos de maior rigidez normativa, permitindo a aceitação envergonhada da impunidade generalizada, em todos os escaninhos da sociedade.
A população se conforma e fecha os olhos às atitudes não razoáveis, sob qualquer parâmetro de racionalidade mínima, não reagindo a praticamente nada. Não debatemos os fatos como são na realidade, mas sim como desejamos que fossem, uma vez que nem sequer problematizamos a dominante mentalidade mágica e os persistentes autoenganos que nos orientam, desconhecendo o que possa ser o pensamento crítico.
Rechaçamos a diversidade de opiniões e mantemos uma postura próxima a comportamentos sectários. Falamos em democracia sem conhecermos o roteiro político do “ideal democrático”. Fingimos todo o tempo, seja em relação à trágica desigualdade social sob a qual sempre vivemos, seja em face dos pequenos, mas reveladores, eventos do cotidiano.
Sempre falamos em direitos, mas a palavra dever não existe no dicionário dos brasileiros. E nem a palavra compaixão —e, por isso, não há nenhuma forma substantiva de solidariedade social entre os cidadãos.
Somos assim porque uma proporção dos brasileiros, ecoando os processos históricos, é cínica, profundamente cínica, incluindo os segmentos sociais burgueses, mas também —o que é crucial para manter estável e intacta a ordem social existente— quase toda a classe média.
E somos assim porque a vasta maioria (os cidadãos restantes, a classe média baixa e a multidão mais pobre) é infantilizada e incapaz de perceber seu papel descartável no jogo de poder e dominação estabelecido, não só em seus fundamentos econômicos mas também culturalmente, nos cinco séculos de história, aceitando de modo complacente a sujeição que lhe foi imposta.
Uma encenação permanente enrijece as chances políticas de transformação social. Por isso está distante a “boa sociedade” a que aspiramos, pois os brasileiros agem, sobretudo, contra si mesmos.
(*) Zander Navarro, Sociólogo e pesquisador em ciências sociais, é coautor de "Novo Mundo Rural" (ed. Unesp), com Xico Graziano, e um dos organizadores do livro "Brazil: Agricultural Development in the New Century. The Rise of a Global Agro-Food Power", a ser publicado pela editora Routledge em 2019. A versão completa do artigo nesta página encontra-se no livro "Brasil, Brasileiros: Por que Somos Assim?" (Verbena Editora).
Folha de São Paulo/17 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Mourão não é útil e é desagradável (Steve Bannon/entrevista)

Formulador da retórica nacionalista que elegeu Donald Trump e estrategista-chefe do presidente nos primeiros oito meses na Casa Branca, o americano Steve Bannon tem voltado suas atenções para fora dos EUA, em particular ao Brasil.
Na semana passada, apontou o deputado federal Eduardo Bolsonaro(PSL-SP) representante de seu O Movimento, uma rede de partidos e políticos que pregam ideais de direita radical, populistas e nacionalistas. O filho do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o próprio capitão, como Bannon o chama, são extraordinários, disse Bannon em entrevista por telefone à Folha no domingo (3).
Mas o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) é reprovado pelo estrategista. "Ele é desagradável, pisa fora da sua linha", criticou. "Até onde sei, o presidente Bolsonaro não lhe atribuiu responsabilidades e parece que foi uma decisão sábia."
A opinião de Bannon é compartilhada por ala do governo ligada aos filhos do presidente. O primogênito, o senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), é defendido pelo americano. As investigações de corrupção que o envolvem são parte da guerra do marxismo cultural contra a família no poder, afirmou.
Para o controverso estrategista, acusado de ligação com grupos racistas em seu país, será muito difícil Trump se reeleger caso não consiga construir o muro nos Estados Unidos na fronteira com o México.
• Quais suas expectativas com Eduardo Bolsonaro? Quais são as prioridades para O Movimento no Brasil, na América do Sul?
Eduardo veio aos EUA em dezembro e tive a sorte de recebê-lo. Em Washington, havia líderes políticos, agentes de inteligência e segurança nacional. Na noite seguinte, em Nova York, foi bem diferente, gente das finanças. Nunca vi um político com esse potencial para lidar com públicos diferentes, em inglês.
A afiliação a O Movimento visa atingir outros conservadores populistas nacionalistas em países no continente e reforçar aspectos-chave, trazer o poder das elites globais de volta ao homem comum, à pessoa comum. Não há ninguém melhor que Eduardo para isso.
• Em relação ao Brasil, a associação de Eduardo Bolsonaro com o Movimento pode influenciar de que forma na sua atuação no Congresso e no governo de seu pai?
Como na Itália, na Hungria, ou mesmo com Trump, a ideia é expor as pessoas ao que eles estão fazendo e também conseguir agregar apoiadores, expandir nossas ideias, reunir pessoas. Colocar gente influente das finanças, pessoas interessadas em investir, agentes de start-ups, ações públicas e privadas em companhias brasileiras. É construir relações e intercambiar ideias.
• Como pessoas comuns e empresários podem se engajar no Movimento? O sr. aceita doações?
Agora somos uma rede de partidos políticos e líderes. Não queremos competir com partidos políticos. Falamos às pessoas para se afiliarem aos partidos em seus países e trazer informações de volta ao Movimento.
O que pretendemos fazer são workshops, conferências, encontros. Em dezembro, Eduardo participou da Cúpula Conservadora das Américas, no Sul do Brasil [Foz do Iguaçu (PR)]. Vamos começar a fazer isso no Movimento. O mesmo estamos fazendo na Europa, reunindo pessoas na Hungria, Itália, França e preparando para as eleições.
• Poderia definir populismo? No Brasil, muitas vezes o termo tem uma conotação pejorativa.
É um entendimento errado do establishment global. Populismo significa tomar decisão o mais perto das pessoas possível e com a influência das pessoas. Fazer políticas sociais, econômicas ou de segurança nacional, mas sem atender aos interesses da elite.
Nos EUA, na última década, as elites cuidaram de si mesmas às custas das classes trabalhadoras e médias. Populismo é basicamente garantir que a classe média e a classe trabalhadora terão um lugar à mesa.
Temos uma situação globalmente que eu chamo de "real-feelism" [sentimento de vida real]. É muito difícil comprar uma casa, ter ações. Os empregos são sempre temporários, não há pensões, não há benefícios.
O governo Bolsonaro tem como ministro da Economia um egresso da Universidade de Chicago, muito consistente [Paulo Guedes]. O Brasil tem tremendos recursos, tremendo capital humano, só precisa ser bem gerido, por um populista que acredite em soberania. O capitão Bolsonaro e Eduardo são os líderes perfeitos para o momento.
• O sr. recebeu Olavo de Carvalho para jantar algumas semanas atrás. Quais foram as suas impressões?
Eu o acompanhava por anos e ele vive na minha cidade, Richmond, Virgínia. Quando me contaram, pensei, é impossível! Não pode ser! Fui à casa dele, tem uma biblioteca gigante, onde dá aulas. Foi uma visita incrível.
No dia seguinte, ele iria ao Departamento de Estado americano e eu disse que queria recebê-lo para jantar na minha casa, com gente variada, da mídia, das finanças, da política. Ele falou de todas as grandes ideias, abordou o marxismo cultural, que está destruindo a política sul-americana. Fez de forma formidável.
O que estou tentando fazer agora é agendar, se o capitão Bolsonaro visitar Washington, uma exibição do documentário sobre ele ["O Jardim das Aflições"]. Olavo é um herói, até mesmo global, da direita. Um autodidata, com entendimento profundo do pensamento conservador, populista, nacionalista.
• Olavo indicou o chanceler Ernesto Araújo. Seu perfil é diferente do tradicional no Itamaraty, ele fala muito de Deus. Como avalia sua condução?
Tento acompanhar o máximo possível, mas eu só falo inglês. Vejo que ele é muito alinhado ao pensamento do capitão Bolsonaro. Bolsonaro dá importância aos valores cristãos ocidentais, bases próximas aos princípios liberais de autodeterminação. Araújo está alinhado. Às vezes parece que o vice-presidente não está.
A escolha do vice-presidente foi ruim?
Disse isso ao pessoal do capitão Bolsonaro. Não é muito útil. Pela minha experiência com Trump, quando você chega [ao poder], tem que ser o mais unificado possível. Como se pronuncia? 'Mouraro'? Ele é desagradável, pisa fora da sua linha. Bolsonaro vai fazer uma grande diferença no Brasil e devolver o país ao palco mundial, onde deve estar. Ele fala sobre Japão, Coreia, Taiwan, dá destaque à China. Está aberto aos investimentos chineses, sem deixá-los serem donos do Brasil.
Como um observador de fora, me parece que o vice-presidente Mourão gosta de falar muito sobre política externa. Mas, até onde sei, o presidente Bolsonaro não lhe atribuiu responsabilidades e parece que foi uma decisão sábia.
Acho que a visão de Washington é que o general Mourão não é um ator. Meu palpite é que chineses e europeus estão entendendo isso também. A boa notícia é que a equipe do presidente Bolsonaro está começando de forma poderosa.
• O que, na sua opinião, Brasil, Estados Unidos e aliados devem fazer em relação à Venezuela?
O Brasil tem problemas na economia e Bolsonaro vai atacá-los de forma bem diferente do socialismo do passado. Você vê a tragédia na Venezuela. De forma esperta, o presidente Bolsonaro e Eduardo estão preparados para ajudar, mas não querem ter uma responsabilidade que o Brasil não deve ter.
Não somos intervencionistas. Em outras palavras, não achamos que seja papel dos EUA rodar o mundo se metendo na vida das pessoas. Tentamos impingir os ideais cristãos, democráticos, ocidentais nas sociedades. Não tentamos forçar eleições democráticas. Quando sociedades civis estiverem prontas, estarão prontas.
A Venezuela é uma tragédia de proporções bíblicas. Com seus recursos do petróleo, não há motivo para isso. Claramente é o modelo cubano, que não funciona.
Na América do Sul, demandará gente esperta como o capitão Bolsonaro e o presidente da Colômbia para trabalhar com os EUA e outros para não haver um colapso total da sociedade venezuelana.
• Há investigações de corrupção envolvendo outro filho de Bolsonaro, o senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ). Essa situação compromete o discurso de ética do presidente?
Vejo isso no Brasil como vi com Trump. Eles vêm atrás de você pelas menores coisas. O Capitão Bolsonaro e Eduardo são líderes dinâmicos no palco mundial. Por isso eles são alvos. A luta deles é contra o marxismo cultural que restou. O socialismo econômico faliu claramente.
Faliu no Brasil, na Venezuela, em Cuba, é um modelo falido. Mas há ainda um marxismo cultural muito poderoso. Eles vão tentar atacar e destruir. Capitão Bolsonaro e Eduardo e a família ficarão sob intensa pressão.
Quando Eduardo me visitou [na campanha], o único conselho que dei foi, por favor, cuide do seu pai. Estava preocupado com uma tentativa de assassinato. A razão eram os vídeos da campanha, em aeroportos, com multidões.
Sei pelo Trump que isso pode ser muito perigoso. Disse 'Vocês parecem não ter muita segurança, mas só é preciso um cara mau'. O capitão Bolsonaro estará sob intensa, intensa pressão pelo marxismo cultural.
• O caso envolvendo Flavio prejudica a imagem de Bolsonaro?
Não, não acho. Acho que tentam criar escândalos. Disse a eles que precisam estar preparados, porque serão atacados. Acho que as pessoas esperam ótimas coisas do Brasil e da família Bolsonaro.
• A reeleição de Trump depende da construção do muro?
Sim, disse a ele. Se não construir o muro, será muito, muito difícil se reeleger. De todas as promessas, essa foi a mais impactante, de construir o muro e a nossa soberania. Cada voto fará diferença, ele não pode perder nenhum. Se não construir o muro, vai afetar o espírito de parte significativa de sua base.
• O sr. vai ajudar Trump na próxima campanha?
Não. Estou trabalhando no Movimento, trabalho com grupos que o apoiam, sou um apoiador. Mas não me vejo mais em campanha e jamais voltaria à Casa Branca.
Thais Bilenky/Folha de São Paulo/07 de fevereiro de 2019

A hora dos profissionais (William Waack)

Pode-se gostar ou não do governo Bolsonaro, mas é difícil negar que ao se iniciar, de fato, na segunda-feira passada, pretendeu ir de frente à questão. Ela se chama crime e dívida – separadas de maneira artificial, pois são, na verdade, uma coisa só. Crise fiscal e crise social são duas expressões distintas para o mesmo fenômeno: a incapacidade do poder público de controlar a si mesmo (gastos, mas não só) e de dirigir-se a uma pavorosa taxa de criminalidade.
Os detalhes do pacote anticrime já foram esmiuçados no noticiário enquanto os da reforma da Previdência ainda são confusos, e os dados da realidade impõe que ambas iniciativas sejam tratadas do ponto de vista político simultaneamente, e com urgência. Nesse sentido, é relevante a advertência feita pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, segundo o qual “a pauta de costumes vem depois da Previdência”.
O que Maia está dizendo enfurece os entusiasmados bolsonaristas: atuação política não pode ser apenas função de atender à ideologia, cujas propostas ou utopias mais amplas por definição (se os bolsonaristas não aprenderam com o PT está mais do que na hora) nunca são realizadas, nunca se chega à terra do amanhã. No plano dos fatos na instância legislativa o momento é favorável se o governo agir depressa, enquanto a gravidade da crise de segurança empurra os governadores (e seus chefes de polícia) para algum tipo de entendimento, cientes de que não dá para protelar.
Este é visivelmente o conflito estratégico mais difícil para o governo no momento, e que está escancarado para o público nas trocas de farpas entre as várias alas concorrendo pelas atenções do presidente. Em resumo, o problema consiste em deixar para depois uma “revolução dos costumes” que, na interpretação do círculo íntimo do presidente, e alguns de seus expoentes intelectuais, é o que explicaria em primeiro lugar a vitória eleitoral. E concentrar-se com foco total nas articulações necessárias para a aprovação de pacotes de mudanças de legislação que terão, aos olhos dos ideólogos próximos de Bolsonaro, um indisfarçável ranço da “velha política” que pretendem já ter eliminado – uma perigosa ilusão.
Há sempre lições interessantes na História para agentes políticos que acham que ninguém contém seu ímpeto, como são os bolsonaristas. Os bolchevistas descobriram já em 1917 que nenhuma máquina militar (da qual precisavam para sobreviver) funcionaria sem os oficiais czaristas, ou seja, necessitavam dos profissionais para levar adiante sua agenda de transformação política. O vice-presidente Mourão anda empolgado com a série Trotsky da Netflix, que retrata bem esse episódio (os revolucionários islâmicos de Khomeini libertaram da cadeia os pilotos de F-4 que eles mesmos haviam encarcerado quando Saddam Hussein atacou o Irã, e precisavam rapidamente de uma força aérea).
Sem a tal “velha política”, entendida como a atuação de operadores no Congresso (Câmara e Senado) dificilmente o governo leva adiante esse prometido ataque frontal ao crime e à dívida, sob os quais o País está esmagado. São as questões cujo maior ou menor capacidade do governo em tratá-las de forma consequente (dada da gravidade dessa grande crise, é difícil usar o verbo “resolver”) será a verdadeira medida do sucesso. E de sua própria sobrevivência, palavra aqui entendida como a de um governo que mereça esse nome.
O Estado de São Paulo/07 de fevereiro de 2019

Generais no labirinto ‘populista’ (Monica De Bolle)

Em coluna recente para o Financial Times, Gideon Rachman argumentou que a era “populista” pode durar trinta anos, ou seja, que os movimentos que levaram ao Brexit e à vitória de Donald Trump em 2016 não vão retroceder tão cedo. Em particular, Rachman afirma que o presidente norte-americano tem diversos admiradores mundo afora, incluindo Jair Bolsonaro no Brasil. Independentemente do que se acredite sobre a durabilidade dos “populismos”, é fato incontestável que o começo do fim da era da globalização triunfante começou em 2008. O que acontecerá daqui para frente é fruto de muitas especulações e de usos confusos de termos como “populismo”.
Há populismo no mundo? Se definirmos populismo como algo que não está necessariamente atrelado a alguma ideologia e que utiliza espécie de retórica particular e simplória para separar segmentos da população – o povo versus o resto, o povo “puro” em contraposição ao resto “corrupto” – o encontraremos por toda a parte e em todos os continentes. Em alguns casos, o populismo se confunde com visões nacionalistas, como exemplifica o discurso de Steve Bannon, ex-estrategista de Trump e espécie de encantador de serpentes nacionalista-populistas. Disse ele em uma entrevista ao final de 2018 para a BBC: “O nacionalismo econômico significa colocar o seu país em primeiro lugar no que diz respeito à economia, e maximizar o valor da cidadania”. Essa forma de definir o nacionalismo econômico leva, necessariamente, a um discurso contrário à imigração, contrário à atuação de empresas estrangeiras, inequivocamente excludente. O povo é o cidadão nascido e forjado na pátria amada. O resto é ameaça à sua sobrevivência, à sua identidade cultural, à sua grandeza, à grandeza da Nação.
Dessa visão nacionalista-populista surgem inevitavelmente as questões identitárias presentes mundo afora, e, desde a eleição de Bolsonaro, Brasil adentro. Frases como “temos de resgatar os valores judaico-cristãos”, “é preciso combater o marxismo cultural”, “é premente extirpar a ideologia de gênero” aludem aos espantalhos que criam o sentido de “nós” e “eles” que forma o núcleo da nova direita religiosa ultraconservadora do País. Com o discurso excludente e acusatório, essa nova direita religiosa e ultraconservadora é inequivocamente nacionalista-populista. Aqui nos Estados Unidos, ela compõe boa parte do eleitorado do Partido Republicano. Em alguns países europeus, versões dessa variante de direita estão presentes nos partidos que hoje representam aquilo que nos acostumamos a chamar de “extrema-direita”. O crescimento desse eleitorado e o fortalecimento desses partidos nas economias avançadas explicam porque Gideon Rachman acredita que a era populista-nacionalista pode perdurar por tanto tempo.
Mas, e no Brasil? Sabemos que parte do eleitorado de Bolsonaro é composto por essa direita religiosa ultraconservadora. Sabemos também que o próprio presidente já defendeu algumas dessas ideias – tanto assim que escolheu alguns ministros carregados dessa espécie de ideologia. Contudo, tem sido interessante observar, nesse primeiro mês de governo, a movimentação dos generais. Mais astutos do que parte do entorno de Bolsonaro, os generais parecem ter percebido que a maioria dos eleitores de Bolsonaro não têm qualquer afeição pela ideologia da direita ultraconservadora. Muitos são conservadores, mas não têm qualquer identificação com a agenda defendida pelas Damares, Ernestos e afins. Estão eles, portanto, em intensa atividade para criar clivagens entre os ideólogos e os conservadores com o intuito de preservar alguma racionalidade na política externa brasileira – sobretudo nesse momento complicado em que a Venezuela ameaça implodir. Além da racionalidade na política externa, estão também os generais empenhados em afastar familiares enroscados da presidência, reduzir os ruídos com a imprensa, abrir caminho para que as reformas econômicas sejam feitas sem a intromissão dos nacionalistas-populistas. Os generais, quem diria, são a maior esperança para que o Brasil retome algum senso de competência e disciplina para enfrentar os grandes desafios que tem pela frente.
Com os generais, o Brasil parece correr menos risco de ser tomado pelo nacionalismo populista que avança no mundo. O que isso quer dizer sobre o futuro do País caso tenham sucesso na consolidação do poder político pela via democrática é tema para muita reflexão.
(*) Economista, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns hopkins University
O Estado de São Paulo/06 de fevereiro de 2019

A velha ‘esquerda’ e a nova ‘direita’ (Nelson Paes Leme)

Pela primeira vez, em muitos anos, está exposta uma polarização entre conceitos científico-políticos ultrapassados na história mas que no Brasil de hoje têm grande atualidade. Aliás, a mídia e até alguns setores da academia têm insistido nesse falso dilema: o confronto entre “esquerda” e “direita” mundo afora. O capitalismo globalizado de blocos econômicos e as perplexidades ambientais decisivas de sobrevivência da espécie e da biosfera não comportam mais esse tipo de dicotomia jurássica e já tornaram esses conceitos totalmente ultrapassados e sem qualquer sentido científico. Principalmente com o fim da Guerra Fria no apagar das luzes do século passado e a entrada da China no ranking dos players mais agressivos da nova economia globalizada de mercado. Portanto, falar em venezuelização ou cubanização do Brasil é totalmente descabido.
O Brasil esteve dividido intrinsecamente nesse segundo turno eleitoral, mas por motivos completamente diversos: um Estado gigantesco, continental, tributária e federativamente inadministrável, que tem resultado numa péssima distribuição de renda e serviços essenciais à população e na rapinagem que tomou conta desse verdadeiro butim gigante, saqueado permanentemente por uma classe política, constituída, em sua imensa maioria, de vorazes marginais despreparados e despudorados, sem qualquer compromisso ideológico, ainda que com doutrinas e lutas de séculos passados, salvo, naturalmente, as exceções de praxe. Esse é o verdadeiro problema brasileiro.
Nada tem a ver com “esquerda” e “direita”. O que houve foi a saturação com o modelo de democracia que viemos praticando desde a edição da Constituição congressual de 1988. Ledo e perigoso equívoco de quem desavisadamente envereda por essas sendas dúbias de “esquerda” e “direita”. Muitos “progressistas” votaram no candidato soi-disant de “direita”. Basta verificar como seu índice de rejeição despencou na reta final.
Quem venceu estas eleições plebiscitárias, especialmente para o Executivo central do país, não foi a “direita” ou a “esquerda”, mas o voto de protesto de uma população exausta de tanta ignomínia na política. O voto revoltado. O voto indignado a exigir mudanças estruturais profundas. O candidato vencedor representa predominantemente esse voto, em que pese o decisivo apoio dos “anticomunistas”.
Ora, só existe uma visão política mais atrasada do que ser “comunista” a essa altura do desaparecimento da luta de classes e da revolução proletária a nível global: é ser “anticomunista”. Como ser contra ou a favor de algo que a História Universal já enterrou de vez desde o século passado? Com o avanço da Revolução Técnico-Científica e as ferramentas de pesquisa que a internet nos proporciona, qualquer criança hoje pode identificar na Assembleia Francesa dos jacobinos e girondinos a origem dos termos “esquerda” e “direita”, transportados para a Rússia revolucionária de 1917 dos mencheviques e bolcheviques.
Hoje, com a globalização dos mercados e a substituição das ideologias pelas hegemonias de blocos, perderam totalmente o sentido. Até porque a China dita “comunista” já se tornou o maior capitalismo globalizado do planeta, segundo estudo sério do FMI reproduzido na revista “Exame” em 2017. Enquanto isso, o ainda candidato, hoje eleito, fazia uma visita ao Extremo Oriente e ignorava solenemente a existência da China Continental, visitando apenas Taiwan. Um equívoco histórico certamente.
Não é muito diferente dessa “direita” a mentalidade de certa “esquerda” bolivarianista, representada pelo candidato do PT derrotado. Ainda crê em inserir o Brasil —que o mesmo estudo do FMI coloca em quinto lugar no ranking dos maiores capitalismos até meados deste século, atrás da própria China, da Índia, dos EUA e da Indonésia, nessa ordem —como líder de um suposto movimento “socialista” na América Latina. E falam sério, em calorosos debates no Fórum de São Paulo, uma das maiores asneiras intelectuais da atualidade. Pois o candidato do lulopetismo de cooptação e favores antirrepublicanos crê piamente que o Brasil possa vir a se tornar uma grande Venezuela.
É a nova “direita” versus a velha “esquerda”. E la nave va...
O Globo/05 de fevereiro de 2019

Janelas para o futuro estão fechadas (Carlos Melo)

A política brasileira quase nunca surpreende, e qualquer absurdo tem precedente. Ainda assim, mesmo quem acompanha sua dinâmica há tempos ficou perdido com os episódios do Senado, logo na abertura da atual legislatura. É dispensável repetir o que se passou e talvez impossível explicar o que ocorreu; no Brasil, a realidade bate, de longe, a ficção. Mas curiosas são as semelhanças entre aquela eleição e a da Presidência da República, ano passado --além das coincidências com o que ocorre pelo mundo.
Como o eleitor comum, os senadores votaram "contra", não "a favor"; o gesto foi, antes, de desamor. Quando é assim, perdem-se rigor e critérios; faz-se opção emocional, pressionada por sentimentos e circunstâncias, sem pesar consequências.
As qualidades do escolhido deixam de ser importantes, desde que seja capaz de derrotar o mal maior -- seja ele o PT ou Renan Calheiros. Os símbolos da tragédia passada precisam ser removidos e não há possibilidade de diálogo, menos ainda de conciliação.
Claro que erros do passado precisam ser cobrados. Mas há exageros, perdendo-se o sentido de complexidade sistêmica que envolve a crise. Culpa-se o status quo pelos males do mundo moderno, sem perceber o status perdido diante de ondas de comunicação e novos processos políticos derivados da transformação tecnológica. Como se fosse possível negar a realidade e a modernidade incômodas, demoniza-se o adversário e substituem-se "ideologias" --o termo voltou à moda-- por outras ainda mais ultrapassadas.
São utopias regressivas, sobretudo, nos costumes; uma fuga para a nostalgia de um passado que retornará apenas como farsa. Um novo tipo de bonapartismo tende a piorar o que já era péssimo. Um otimismo forçado precisa ser sustentado, mas no íntimo suspeita-se que foi um tiro no pé.
Enfim, a despeito de qualquer alerta, a derrota do inimigo é mais comemorada que a vitória de quem ficará responsável pelo Executivo ou Legislativo --o Judiciário parece mais protegido, pelo menos por quanto tempo.
Do novo dirigente não importam o estofo cultural, o entendimento que tenha do mundo, sua biografia e conexões, nem a qualificação para o cargo; suas habilidades políticas mais amplas são ignoradas; não interessam.
Sem liderança, coordenação e condução políticas adequadas, a passagem para o que se imagina ser o futuro eleva muito mais os custos do que processos moderados de transição gradual e negociada --peremptoriamente descartada.
São períodos que geram impasses, o que ocorre agora em vários quadrantes do planeta, como atestam os resultados da Primavera Árabes, do brexit, no Reino Unido, ou da eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos. Não é um muro que se ergue, mas um beco que se forma. Lá estão tanto semelhanças quanto os fantasmas de consequências que parecem não tardar a surgir por aqui.
O fato é que uma massa disforme que representa a parte mais mobilizada e furiosa da opinião pública --sem representar toda a opinião pública-- se arroga como "o povo", num jacobinismo pueril que toma a frente do processo, sem assumir qualquer coordenação da ação coletiva. As lideranças não apenas são atropeladas, como se apequenam e desaparecem. Há pavor em se contrapor ao radicalismo confortável das redes sociais.
O resultado até aqui parece ser a destruição do passado e de seus personagens, como também da política. Não se abrem janelas para o futuro. E, depois de tudo, elas ainda estarão fechadas.
Com pretensos ares de renovação, o "novo" patina em antigos problemas, seja porque a suposta ruptura não traz novidade ou porque sobram inexperiência e inaptidão aos novos agentes.
E quase nunca há saída fácil para esses impasses a não ser purgar erros ao longo dos mandatos, torcendo para que instituições e o tecido social não se esgarcem completamente. Fica-se à espera de que no longo prazo essa destruição possa produzir algo de realmente criativo, antes que estejamos todos mortos de verdade.
Folha de São Paulo/06 de fevereiro de 2019

“O Brasil é um país muito conservador, que não muda fácil, nem rápido e nem sem reação” (Angela Alonso)

A direita veio para ficar. Independente do que ocorrer com o Governo de Jair Bolsonaro. "Nada aponta que se houver um fracasso desse Governo, ele será substituído por um governo de esquerda", diz a socióloga e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Angela Alonso. Para ela, a ascensão da direita ao poder não é um fenômeno que começou recentemente, e sim algo construído ao longo de muitos anos. "As mudanças que tivemos no país desde a Constituinte de 1988 levaram as instituições numa direção mais progressista, e isso não é um consenso", diz. Agora é a vez da "reação" a estes avanços. Em conversa com o EL PAÍS em sua casa na zona oeste de São Paulo a professora da Universidade de São Paulo falou sobre a relação entre os protestos de junho de 2013 e a chegada de Bolsonaro ao poder, bem como sobre as falhas da esquerda no processo: "A rua não é mais da esquerda. Quem mais leva gente para rua é a Marcha para Jesus".
Pergunta. Você disse que esta onda conservadora “não é uma marola”. Por quê?
Resposta. Na nossa história recente, desde Fernando Henrique Cardoso, o país vem caminhando em direção a pautas de centro e centro-esquerda. E vamos tendo reações do outro lado. Este é um país muito conservador. Escrevi um livro sobre a abolição da escravidão: demoramos quatro séculos para fazer isso. Não é um país que muda fácil, nem rápido e nem sem reação. As mudanças que tivemos no país desde a constituinte de 1988 levaram as instituições numa direção mais de centro esquerda. Temos uma Constituição muito progressista, instituímos políticas de inclusão social, e isso não é um consenso. Então existem na sociedade brasileira vários polos de insatisfação contra essa direção progressista e que foram se acumulando ao longo do tempo. A história não é progressiva num sentido evolutivo. Há movimentos em uma direção e reações do outro lado.
P. Mas você acha que este ciclo da direita no Brasil se encerraria com Bolsonaro?
R. Uma coisa é Bolsonaro, outra coisa é a direita sair do poder. Novas lideranças estão aparecendo, com um perfil liberal e conservador. O João Doria está claramente indo no vácuo. O general Mourão durante e ausência do Bolsonaro está mostrando grande desenvoltura. Existem outros candidatos para ocupar esse posto. Até aqui nada aponta que se houver um fracasso desse Governo, ele será substituído por um governo de esquerda.
P. Os grupos que apoiam o Governo Bolsonaro parecem um pouco impermeáveis a denúncias de corrupção envolvendo o capitão e seus familiares. Como avalia esse fenômeno?
R. Existem três grandes tendências dentro deste eleitorado. Uma são os bolsonaristas de coração, que realmente têm uma adesão de natureza moral, compartilham um conjunto de valores que o Bolsonaro representa. Para essas pessoas ele de fato é o mito, uma figura que representa tudo o que elas veem como positivo e que elas gostariam de corrigir. Para este universo, amparado em uma ideia de família, discurso religioso moralizante, nacionalista, de salvação da pátria e militarista, nenhuma noticia contrária ao Bolsonaro cola. Porque é uma adesão de natureza emotiva ao líder. Então tudo que vem contra o líder vem como se fosse o inimigo tentando deslegitimar. Logo, não é faturado como informação.
Mas essa é uma parte relativamente pequena das pessoas que votaram nele. Existe outro grupo que votou nele seguindo a linha de antipetismo radical, do tipo "precisamos salvar o país de um grande mal que é o PT, e então vamos votar em qualquer candidato". Para eles era importante votar em um candidato que fosse a antítese do PT. Nesse grupo existe um elemento emocional, mas também um descrédito muito grande provocado pela narrativa que veio desde o mensalão, de que os partidos existentes não eram capazes de mudar a natureza do jogo político.
E existe um terceiro grupo que foi um pouco ou ingênuo ou leviano, porque pensou que Bolsonaro e seu círculo íntimo, apesar do discurso feito durante a campanha, fossem menos convictos do que são. Lembro-me de ter ouvido durante a campanha “isso é conversa de campanha, a gestão do Governo é outra, não serão loucos de indicar ministros assim”. Essas pessoas devem estar muito surpresas, arrependidas. Porque parte do Governo é montada com base nos bolsonaristas de coração, como na Educação, nas relações internacionais e no ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.
P. Estes dois últimos grupos seriam mais permeáveis aos fatos e denúncias envolvendo o Governo?
R. Acho que sim. Já existem grupos de ex-bolsonaristas e bolsonaristas arrependidos nas redes sociais.
P. A oposição pode conquistar este eleitor bolsonarista que não é puro sangue?
R. As pessoas respondem a lideranças que falam da vida delas e de seus problemas. Parte dessa conversa que temos nesses foros mais elitistas, sobre se é liberal, conservador, de esquerda, para a maioria das pessoas não é o principal. E não tem a ver com o nível de educação delas, tem a ver com o modo como elas organizam sua vida. O que elas querem: que a política não atrapalhe, e, de preferência, que ajude. Se as pautas do Governo não tiverem conexão com a vida real das pessoas, não funciona.Tem havido uma dificuldade grande da esquerda nos últimos anos de encontrar essa comunicação. O Lula, nesse quesito, tinha uma capacidade de comunicação muito grande, mas também um grande pragmatismo e capacidade de ouvir, de saber o que as pessoas realmente precisavam e o que era relevante para a vida delas. Isso faz um líder.
P. Em entrevista ao EL PAÍS Fernando Haddad afirmou que faltou à esquerda entender e dialogar com o eleitor evangélico. Você concorda?
R. Sem dúvida. Nos anos de 1980 havia uma afinidade eletiva entre as práticas de esquerda e o que estava acontecendo na Igreja católica, com a teologia da libertação. A esquerda foi à periferia fazer justamente este trabalho de ver como é a vida das pessoas. Então o PT cresceu muito junto com as comunidades eclesiais de base e outros movimentos locais, com gente que era capaz de entender o que acontecia lá. Essa entrada na política miúda, do cotidiano, quem faz agora são as igrejas neopentecostais. São eles que estão falando com as pessoas e ajudando-as no seu cotidiano. Qual o papel do discurso da teologia da prosperidade, usado por estas igrejas? Ele ajuda as pessoas a organizar sua vida financeira, entrar para o mercado de trabalho, empreender... É natural que estes pastores se tornem lideranças. O PT, depois de virar Governo, perdeu em vários lugares essa vocação, esse enraizamento.
P. Como você avalia a derrota sofrida por Renan Calheiros (MDB-AL) na disputa para a presidência do Senado?
R. Essa derrota do Renan mostra que o Governo tem força, claro, mas o modo pela qual aconteceu mostra que a nova política de nova não tem nada. O processo eleitoral no Senado teve lances da velha política, nada que mostre que temos uma condição nova da casa, no sentido de mudanças. O vencedor [Davi Alcolumbre, DEM-AP] é um político de carreira, e sem grande estatura ou experiência política. Difícil saber se será capaz de conduzir, acho que o Renan continuará tendo protagonismo, além de ser um péssimo inimigo para se ter. Apesar da derrota, ele não deixará de ser um problema para o Governo. Já o Maia [reeleito para a presidência da Câmara] sai muito fortalecido, e aparece agora como a maior liderança do Legislativo. A Câmara passa a ter mais capacidade de negociação e de liderar processos do que o Senado.
P. Você vê espaço para protestos de massas de oposição ao Governo?
R. Teremos mobilizações, sem dúvidas. Existem muitas agendas sendo trazidas à baila que afetam direitos ou identidades de grupos com capacidade de mobilização. Mas não sei se teremos mobilizações massivas. Durante a campanha do impeachmenthouve uma clara separação entre as manifestações da direita e da esquerda. Nesse período, de 2014 ao impeachment, a esquerda conseguiu colocar bastante gente na rua, mas sempre em volume menor do que os grupos liberais e conservadores. Essa mobilização tende a ser menor se seguida essa tendência.
E temos que levar em consideração a natureza moderna de alguns grupos de direita. Eles não são homogêneos, especialmente no que diz respeito às pautas morais. Alguns são conservadores puro sangue, na economia e nos costumes, outros não. O próprio MBL e o Vem Pra Rua são formados por pessoas liberais com relação a costumes, não necessariamente vão apoiar pautas conservadoras neste setor. Podemos ter combinações de protestos extravagantes. Por exemplo, manifestações com relação a costumes podem agregar grupos liberais e grupos socialistas e autonomistas, mesmo que não se manifestem em um mesmo ato. Agendas liberais do ponto de vista econômico podem juntar grupos autoritários, a favor de um Estado intervencionista, e grupos socialistas, que também são estatistas.
P. Quais pautas podem mobilizar mais a oposição ao Governo?
R. Existem pautas que têm potencial mobilizador maior porque afetam mais gente. As pautas identitárias, no fim das contas, são restritas. Por mais que as pessoas de índole democrática achem essas pautas inegociáveis, nem todo mundo pensa assim. Agora uma pauta como a previdenciária realmente afeta a todos, dependendo de como for desenhada a reforma. Isso tem capacidade de afetar, por diferentes razões, grupos diversos. Vale lembrar, nem sempre mobilização significa mobilização de rua. Existem várias formas pelas quais se faz política. A mobilização de rua tem eficiência em momentos de crise das instituições. Um governo fechado e forte tem instrumentos, nem sempre democráticos, para conter a rua. E grupos mais organizados são capazes de operar por outras vias, inclusive mais eficientes, seja pela mídia ou lobistas. Então podemos ter uma reação compartilhada, de ir para rua, ou reações setoriais, em que diferentes grupos usam caminhos mais eficientes para seus interesses.
P. A esquerda perdeu as ruas?
R. A rua não é mais da esquerda. Se pensarmos nos anos 60 a rua era meio a meio. Depois veio a ditadura e ficou todo mundo em casa, porque ninguém vai para a rua em ditadura. Com a redemocratização a esquerda foi para a rua porque o regime que estava vindo abaixo era de direita. E aí ficou disseminada a ideia de que todo mundo que vai pra rua é de esquerda, porque foi isso que vimos na redemocratização e no impeachment do Collor. Mas sabe quem vem ocupando a rua há muitos anos, com muita gente, só que a gente não dá esse nome de mobilização? É a Marcha por Jesus. Este governo pode e deve sofrer protestos da esquerda, mas ele deve sofrer do outro lado também se não entregar as pautas morais que prometeu.
P. Como você avalia as articulações da esquerda nos últimos anos?
R. Ao longo dos últimos anos, enquanto a esquerda ficou brigando entre si, a direita foi muito pragmática e capaz de definir objetivos de curto e longo prazo, agindo estrategicamente. Enquanto a esquerda não tiver esse pragmatismo, se organizar e se modernizar, vai continuar perdendo. E digo se modernizar tanto do ponto de vista de suas tecnologias quanto do discurso. Todo mundo fala que a vitória do Bolsonaro e do Trump se deu graças à maneira eficiente como eles utilizaram novas tecnologias de comunicação. Mas não se trata só do WhatsApp, e sim uma nova maneira de falar com as pessoas. Eles entenderam que agora se fala muito por imagem e falas curtas, não longos discursos explicativos. A lógica é rápida. Claro que isso também dá problemas em outros foros, como a gente viu em Davos [onde Bolsonaro falou pro seis minutos e não pelos 40 previstos], porque também não dá pra falar lá como se fosse no Twitter.
P. Qual a relação entre o que ocorreu em junho de 2013 e a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência?
R. São fenômenos que dialogam bastante. Desde 2013 já dava para ver que havia três campos nas ruas. Um que ficou visível mais rapidamente foram os grupos autonomistas, como o Movimento Passe Livre, que tem formas de ação de esquerda mas diferente das formas tradicionais. Fazem jogral [uma pessoa fala palavras de ordem repetidas pelos presentes], não têm carro de som... Estas formas mais horizontais de organização chamaram muita atenção. E junto a eles vem a tática black bloc, que vários desses grupos usam e que visa chamar a atenção das autoridades e da mídia pelo uso da violência contra símbolos do capitalismo e do Estado. Todo mundo prestou muita atenção nisso. Mas ao mesmo tempo havia nas ruas grupos tradicionais que estamos acostumados a ver nas ruas desde a redemocratização, de base socialista: sindicatos, movimentos de trabalhadores... Havia mais esquerda tradicional do que os autonomistas.
Mas ninguém prestou atenção na hora, na presença de grupos que a gente pode classificar em um espectro que vai de liberal a autoritário. Não eram tão volumosos no começo, mas vários destes grupos já vinham se mobilizando desde antes. Alguns já tinham se formado ainda em 2011, tinham feito manifestações contra impostos, organizado o Dia do Basta Contra a Corrupção, e alguns grupos já haviam feito mobilizações em torno de pautas de natureza moral. Então estas coisas todas apareceram nas ruas em 2013 desde o começo, mas, sobretudo este campo de liberal a autoritário é que levou a multidão para as ruas.
P. Estes grupos liberais ou autoritários se articularam graças à Internet e WhatasApp?
R. Não só. É importante destacar que temos uma mudança dos meios de comunicação com o WhatsApp, mas as formas tradicionais de organização não desapareceram, e as relações presenciais continuam definindo a vida das pessoas. Várias organizações são instituições físicas mesmo. Você tem o Instituto Millenium e outros think tanks deste gênero como o Instituto Mises. Eles organizam eventos e funcionam como formadores e disseminadores de ideais. Trabalham pautas como redução da carga tributaria, do Estado e combate à corrupção. Esses fóruns formaram uma nova geração de ativistas. Se você olhar figuras como o Kim Kataguiri [eleito deputado federal pelo DEM-SP], eles passaram por um processo de formação em institutos. Existem mobilizações de rede, mas também físicas, cara a cara.
P. Você acha que se não fosse houvesse a mobilização destes grupos de direita não estaríamos vivendo este momento político?
R. Eles são relevantes, mas não definem os rumos do processo político sozinhos. Sem uma crise dentro das instituições e do sistema partidário, com conflitos entre poderes, a rua não faria nada. Uma das consequências desta conjuntura foi o fortalecimento do antipetismo. Construiu-se uma narrativa de que o principal problema do país é a corrupção. O debate público ao longo dos anos de Lula e Dilma era marcado pela ideia de que o grande problema do país era a desigualdade e a pobreza. Este era o foco. A partir do mensalão se construiu outra narrativa de que o maior dos problemas é a corrupção. Este é um discurso que não acaba em um partido, como está ficando claro agora com os Bolsonaro [envolvidos no caso Queiroz]. É uma lógica de funcionamento do sistema político. Isso criou a ideia para a população de que políticos profissionais não eram mais confiáveis. E aí surgiram essas lideranças alternativas se apresentando como vindas de outras elites. Do Judiciário com o Moro, o empresário, que é o Doria, e o militar, que é Bolsonaro. Apesar dos dois últimos serem políticos profissionais. Então não é só a rua: existe uma fratura no interior das instituições políticas que faz com que essas manifestações reverberem e ponham fogo na crise.
Gil Alessi/El Pais
7 de fevereiro de 2019