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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Generais no labirinto ‘populista’ (Monica De Bolle)

Em coluna recente para o Financial Times, Gideon Rachman argumentou que a era “populista” pode durar trinta anos, ou seja, que os movimentos que levaram ao Brexit e à vitória de Donald Trump em 2016 não vão retroceder tão cedo. Em particular, Rachman afirma que o presidente norte-americano tem diversos admiradores mundo afora, incluindo Jair Bolsonaro no Brasil. Independentemente do que se acredite sobre a durabilidade dos “populismos”, é fato incontestável que o começo do fim da era da globalização triunfante começou em 2008. O que acontecerá daqui para frente é fruto de muitas especulações e de usos confusos de termos como “populismo”.
Há populismo no mundo? Se definirmos populismo como algo que não está necessariamente atrelado a alguma ideologia e que utiliza espécie de retórica particular e simplória para separar segmentos da população – o povo versus o resto, o povo “puro” em contraposição ao resto “corrupto” – o encontraremos por toda a parte e em todos os continentes. Em alguns casos, o populismo se confunde com visões nacionalistas, como exemplifica o discurso de Steve Bannon, ex-estrategista de Trump e espécie de encantador de serpentes nacionalista-populistas. Disse ele em uma entrevista ao final de 2018 para a BBC: “O nacionalismo econômico significa colocar o seu país em primeiro lugar no que diz respeito à economia, e maximizar o valor da cidadania”. Essa forma de definir o nacionalismo econômico leva, necessariamente, a um discurso contrário à imigração, contrário à atuação de empresas estrangeiras, inequivocamente excludente. O povo é o cidadão nascido e forjado na pátria amada. O resto é ameaça à sua sobrevivência, à sua identidade cultural, à sua grandeza, à grandeza da Nação.
Dessa visão nacionalista-populista surgem inevitavelmente as questões identitárias presentes mundo afora, e, desde a eleição de Bolsonaro, Brasil adentro. Frases como “temos de resgatar os valores judaico-cristãos”, “é preciso combater o marxismo cultural”, “é premente extirpar a ideologia de gênero” aludem aos espantalhos que criam o sentido de “nós” e “eles” que forma o núcleo da nova direita religiosa ultraconservadora do País. Com o discurso excludente e acusatório, essa nova direita religiosa e ultraconservadora é inequivocamente nacionalista-populista. Aqui nos Estados Unidos, ela compõe boa parte do eleitorado do Partido Republicano. Em alguns países europeus, versões dessa variante de direita estão presentes nos partidos que hoje representam aquilo que nos acostumamos a chamar de “extrema-direita”. O crescimento desse eleitorado e o fortalecimento desses partidos nas economias avançadas explicam porque Gideon Rachman acredita que a era populista-nacionalista pode perdurar por tanto tempo.
Mas, e no Brasil? Sabemos que parte do eleitorado de Bolsonaro é composto por essa direita religiosa ultraconservadora. Sabemos também que o próprio presidente já defendeu algumas dessas ideias – tanto assim que escolheu alguns ministros carregados dessa espécie de ideologia. Contudo, tem sido interessante observar, nesse primeiro mês de governo, a movimentação dos generais. Mais astutos do que parte do entorno de Bolsonaro, os generais parecem ter percebido que a maioria dos eleitores de Bolsonaro não têm qualquer afeição pela ideologia da direita ultraconservadora. Muitos são conservadores, mas não têm qualquer identificação com a agenda defendida pelas Damares, Ernestos e afins. Estão eles, portanto, em intensa atividade para criar clivagens entre os ideólogos e os conservadores com o intuito de preservar alguma racionalidade na política externa brasileira – sobretudo nesse momento complicado em que a Venezuela ameaça implodir. Além da racionalidade na política externa, estão também os generais empenhados em afastar familiares enroscados da presidência, reduzir os ruídos com a imprensa, abrir caminho para que as reformas econômicas sejam feitas sem a intromissão dos nacionalistas-populistas. Os generais, quem diria, são a maior esperança para que o Brasil retome algum senso de competência e disciplina para enfrentar os grandes desafios que tem pela frente.
Com os generais, o Brasil parece correr menos risco de ser tomado pelo nacionalismo populista que avança no mundo. O que isso quer dizer sobre o futuro do País caso tenham sucesso na consolidação do poder político pela via democrática é tema para muita reflexão.
(*) Economista, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns hopkins University
O Estado de São Paulo/06 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Paradoxos da globalização (Monica De Bolle)

“A culpa é do capitalismo global, financeirizado e desigual.” Frases de efeito como essa ressurgem sempre que o mundo é sacudido por evento inesperado. A crise financeira de 2008 foi evento inesperado. O voto britânico pela saída da União Europeia (UE) foi evento inesperado. Complexos, ambos suscitam perguntas e levantam teses. Mas, para todo problema complexo existe uma solução clara, simples, e errada. A solução não é acabar com o capitalismo ou reverter a globalização.
O que diz a literatura empírica e acadêmica sobre a globalização? É verdade que a globalização aumentou a desigualdade mundo afora? De onde vem o sentimento nacionalista que se alastra nas economias maduras? Seria hora de repensar o ritmo da integração global?
As evidências. Em livro recém-publicado, o economista Branko Milanovic, um dos maiores especialistas mundiais em desenvolvimento econômico e desigualdade, desvelou gráfico famoso, hoje conhecido como o “gráfico do elefante”. Ao analisar os aumentos da renda por habitante ajustados pela inflação em relação aos níveis globais de renda entre 1988 e 2008 – auge da globalização –, o autor descobriu que a parcela da população global que mais se beneficiou foi a classe média. Ou seja, ao contrário do que reza o senso comum, a classe média global passou por notável expansão durante o período de maior aceleração da globalização, entre a queda do muro de Berlim e a crise de 2008. Grande parte disso deve-se ao aumento considerável da classe média na China e no restante da Ásia. O gráfico impressiona pois, além de contradizer ideias preconcebidas, revela outro ponto interessante: a parcela que menos se beneficiou da globalização foi justamente a composta por pessoas pertencentes à classe média baixa dos países maduros.
O formato de tromba de elefante vem da constatação de que os ganhos dos rendimentos no meio da distribuição global de renda cai abruptamente quando se chega aos 20% mais ricos, apenas para subir novamente de modo súbito quando se alcança o topo do topo, isto é, o 1% mais rico.
Portanto, a globalização não aumentou a desigualdade de renda no mundo – na verdade, a globalização contribuiu para reduzi-la. Contudo, o que ocorreu foi que parte relevante da classe média mais vulnerável nos países desenvolvidos foi excluída desse processo. Sua renda não subiu, nem caiu – portanto, não houve piora absoluta. Porém, essas pessoas foram testemunhas de ganhos acelerados nas rendas dos mais ricos de seus países, e da renda de países mais pobres no mundo, criando um perigoso sentimento de exclusão relativa.
De certo modo, é esse sentimento que hoje se manifesta de maneira difusa em movimentos como o Brexit, a ascensão de Donald Trump nos EUA, a adesão aos discursos de políticos nacionalistas como Marine Le Pen na França. Digo de maneira difusa pois a sensação de terem sido privados de algo provoca reações diversas nessas pessoas – do resgate das velhas tradições à xenofobia, do nacionalismo cego à vontade de retomar a autonomia nacional, fora de grandes blocos e projetos como a UE, que naturalmente levam a que se ceda parte da soberania.
Seria a hora de reaver o ritmo da integração global? Em seu The Globalization Paradox, o economista e Professor de Economia Política da Universidade de Harvard Dani Rodrik descreve o trilema da globalização: a ideia de que não é possível ter, simultaneamente, um regime democrático, plena autonomia nacional, e globalização, sobretudo a globalização acelerada que marcou uma era. Há que se escolher duas dessas três premissas – a terceira, seja qual for, é sempre incompatível com as demais. O Brexit, por mais que pareça ser suicídio político e econômico para muitos, é expressão do trilema. A opção de retirar-se da UE foi exercida para que se pudesse recuperar autonomia nacional, já que sua relativa redução não mais servia à parcela da população que sente-se privada dos ganhos com a globalização.
Eis, portanto, o paradoxo: a globalização reduz desigualdade, mas o faz de modo demasiado desigual. O desafio não é revertê-la. O desafio é descobrir como atenuar a desigualdade da redução da desigualdade.
(*) Economista, pesquisadora do Peterson Institute For Internacional Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University
Fonte: O Estado de São Paulo (29/06/16)

sábado, 28 de maio de 2016

Tristeza não tem fim (Monica De Bolle)

Era esperado. Era esperado que um dos membros do “ministério pragmático” de Michel Temer, desse com os burros n’água, fosse pego com a boca na botija, não tivesse destreza para dar nó em pingo d’água. Afinal, para quem é bacalhau, basta. Não é assim que pensam nossos governantes? Não somos todos bacalhau em casa de ferreiro, espeto de pau?
O ministro do Planejamento escolhido por Temer, um dos principais integrantes da equipe econômica, pego em gravação comprometedora. O ministro do Planejamento, às vésperas da votação pelo Congresso Nacional da nova meta fiscal, meta metida no vermelho, enrubescida de vergonha, posto que é negativa, disse que queria “estancar a sangria”. Em entrevista para se explicar, disse o ministro que a sangria a que se referia era a da economia. É mesmo? Então, agora vai.
Não houve tempo. Ao perceber o “erro”, pediu licença. “Licença de ministro” e “quarentena com foro privilegiado” são tecnologias jurídicas únicas no mundo, esquisitices brasileiras para tipos peemedebísticos e petísticos. Aquilo que o povo chama de pouca vergonha. Acabou exonerado para voltar ao Senado.
O governo interino de Michel Temer completa duas semanas. Duas semanas em que, entre brados de golpe, alguns acertos nas nomeações para a equipe econômica, vários erros nas indicações políticas, houve sopro de esperança. Esperança de que torniquete na hemorragia à qual o ex-ministro falastrão não se referia fosse, finalmente, aplicado. Não falo dos mercados, sempre a oscilar ao sabor dos dissabores políticos e econômicos. Falo dos empresários, dos trabalhadores, das pessoas que sentem a dor do desemprego, o desamparo da falta de perspectivas para o investimento – empresários, grandes, médios, pequenos.
Depois de tantos desvarios, por fim se via possibilidade de começar o árduo processo de reconstrução do País. Destruído, como refletira a meta revisada para um déficit primário de R$ 170,5 bilhões. É bom que se saiba: o déficit bilionário é apenas a diferença entre as receitas e as despesas programadas – muitas já ocorridas – em 2016, excluindo-se da conta o pagamento dos juros que incidem sobre a dívida pública. Caso esses sejam somados à vermelhidão, o resultado chega perto dos R$ 600 bilhões. Seiscentos bilhões de reais, ou cerca de R$ 4.200 para cada indivíduo que trabalha no País. Pensem nisso. Quantos podem pagar cota extra de condomínio de R$ 4.200 para ajudar a fazer dos escombros novo prédio?
Contudo, criou-se a expectativa de que o governo interino pudesse, com confiança e determinação, trazer de volta ao País algum leve, levíssimo ar de esperança. A dura realidade de quem realmente nos governa, entretanto, nos deu aquilo que merecíamos. Ardeu a bochecha? Machucou a mandíbula? Pois é, é para que não nos esqueçamos de que Temer-Adão é costela de Dilma-Eva, que é costela de Lula-Adão.
E agora? Há dois possíveis cenários. No primeiro, Temer altera aos poucos seu ministério político por outro com perfil mais técnico e segue em frente com as reformas de que o País tanto necessita, aos trancos e barrancos, mas sem interrupções ameaçadoras. No segundo, Temer nada muda e é confrontado por sequência de escândalos dentro de seu partido, aquele que governou lado a lado com o PT ao longo dos últimos tantos anos, é atropelado pela crise política e pela crescente insatisfação da população brasileira. Nesse cenário, sinto dizer, a tristeza não terá fim. Crise fiscal haverá de se instalar no País, acompanhada de mais caos, mais incerteza, inflação, desemprego.
O que é mais provável? Como vimos no caso do ministro exonerado, antes nas estripulias de Waldir Maranhão, no Brasil de hoje tudo é possível. A volta de Dilma também é possível. Volta que levaria o País ao apogeu da tortura econômica e do tumulto político e social, que não se enganem aqueles que ainda a defendem.
A esperança. A esperança é aquela que voa leve, que tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar. No Brasil saqueado não há vento. Há torvelinho, há olho do furacão. Brasil que faz cair a alma aos pés...
(*) Economista, pesquisadora do Peterson Institute for Internacional Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University
O Estado de São Paulo (25/05/16)