terça-feira, 15 de novembro de 2016

O preço da perversidade (José de Souza Martins)

• Tanto nos EUA do presidente eleito Trump como no Brasil das últimas eleições, as urnas têm rechaçado o capitalismo da caridade iníqua e da pobreza conveniente, diz sociólogo
Um conjunto relativamente extenso de questões está vinculado à inesperada eleição do republicano Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, derrotando no colégio eleitoral Hillary Clinton, democrata, que teve a maioria dos votos populares. Questões relativas ao fato de que estas eleições americanas representaram o ápice de um processo político mundial de redefinição da própria política, de anulação dos sujeitos tradicionais e típicos da concepção de política inaugurada com a Revolução Francesa, da própria concepção de povo. As transformações neste episódio não dizem respeito apenas à sociedade americana e ao capitalismo que ela representa e centraliza.
Na campanha, Trump não falou em nome de uma doutrina política nem mesmo em nome de seu partido. Falou em nome da multidão que não se identifica com os canais históricos de expressão da vontade política. Falou em nome da antipolítica, de um capitalismo que não é o capitalismo da Bolsa, de quem especula e ganha sem trabalhar, mas sim o capitalismo do bolso, de quem só pode ganhar se tiver trabalho. Ainda assim, esses eleitores são os que pensam o trabalho no marco da possibilidade de ascensão social, de negar-se sendo o outro que a sociedade de consumo promete. Trump falava sério. Não é estranho que seu primeiro discurso tenha sido um discurso de teor keynesiano, o trabalho gerador de emprego e renda para reincluir os esquecidos. Um plausível discurso rooseveltiano. Mas há um milenarismo bufo em sua fala populista e nacionalista, que não houve em outros atores bufos da política contemporânea, como Bóris Yeltsin, que demoliu a União Soviética sem propiciar sua superação. Ou como Berlusconi, melancólica expressão da decadência da Itália culta e civilizada.
O voto desta eleição americana foi contra o que representa Wall Street, mas não foi contra o que representa o Tio Patinhas. A personagem decisiva no eleitor decisivo foi, mesmo, a classe média do Pato Donald, com sua frustração e sua ira acumuladas nas várias décadas da globalização que em vários lugares anulou identidades nacionais, aniquilou regras históricas de integração social e de atuação política, que aplainou as fantasias da igualdade jurídica na competição com base na desigualdade econômica. Não há aí nenhuma novidade: sob a máscara da cidadania perfeita a sociedade moderna tem sido a sociedade da iniquidade perfeita, a dos ardis que dizem a cada um o que é não sendo.
As pesquisas eleitorais enganaram os analistas costumeiros munidos de elaboradas técnicas de adivinhação do que vai acontecer. Só o Los Angeles Times, pró-Clinton, associado à Universidade do Sul da Califórnia, acertou, fazendo suas previsões com base em minúcias de mentalidade e de comportamento eleitoral e político, supostamente irrelevantes, que acabariam decisivas no resultado final das eleições. Mais antropologia e sociologia do que ciência política.
Nesse assunto, as ciências sociais se equivocaram ao deixar de lado o que é próprio do homem comum e cotidiano dos tempos atuais. E, ao deixarem de lado em suas análises a extensa categoria de pessoas que nem são ricas nem são pobres, motivadas por carências próprias, abandonadas pelo classificacionismo pseudo-sociológico que conhece por imputação e não por investigação, mais dedutivo do que indutivo, mais para confirmar o supostamente sabido do que para descobrir o não sabido. Deixaram de lado as multidões tolhidas e silenciadas, as vítimas da manipulação política e ideológica para as quais não há lugar no catálogo de anomalias relevantes da sociedade atual. Caso do desemprego, dos favorecimentos falsamente corretivos da pobreza, os recursos de maquiagem dos defeitos e feiuras do mundo contemporâneo. Caíram nas ilusões que inventaram.
Isso tem acontecido também aqui no Brasil, os analistas perdidos mais entre acusar do que explicar, aprisionados pela estreiteza de considerações pouco convincentes sobre direita e neodireita. Não será por aí que proporão a compreensão do que vem acontecendo no País, especialmente desde as manifestações de rua de 2013, até a cassação de Dilma Rousseff e ainda o que virá pela frente. Criaram o artifício do neo-isto, neo-aquilo, que acaba sendo neo-coisa-nenhuma: neoliberalismo, neodireitismo, neoesquerdismo; neopentecostalismo político.
Na verdade, lá e cá, os eleitores destas manifestações eleitorais recentes opuseram-se ao capitalismo da ordem social regulada pelos auxílios, benefícios e favorecimentos aos desvalidos e marginalizados, os sobrantes, desempregados e subempregados, os estrangeiros clandestinos e baratos, à pobreza conveniente e lucrativa.
Ao capitalismo de remendos e curativos, de caridades compreensíveis mas iníquas do ponto de vista dos que sucumbem sob o peso de taxações, de tributações que mantêm bolsas e cotas, à violação do princípio da igualdade e da competição, a isso reage eleitoralmente a vítima. Mandaram o recado: não se corrige perversidades econômicas com injustiças.
(*) José de Souza Martins, sociólogo (USP).
Fonte: O Estado de São Paulo/Aliás (13/11/16)

Isolados de grupos, eleitores se atraem por populistas (Philippe Schmitter)

No período de distensão latino-americana, o livro "Transições do Regime Autoritário", escrito pelo cientista político Philippe Schmitter com Guillermo O'Donnel, foi bastante lido por políticos que tiveram papéis relevantes nas novas democracias da região.
A tese era que o movimento teria sucesso se fosse feito um pacto no qual membros das ditaduras se sentissem incluídos. Deu certo.
Hoje, os países da região têm democracias consolidadas, mas elas –e as do resto do mundo– enfrentam dilemas de uma dificuldade de representatividade e, principalmente, suas implicações.
O americano, que foi professor em Stanford e é emérito do Instituto Universitário Europeu, esteve no Brasil para dar palestras a outros cientistas políticos.
• Folha - O sr. empregou a palavra "dissed", que é um tipo de rap de ridicularização, para falar sobre a democracia. O que quer dizer com isso?
Philippe Schmitter - Tirei mesmo do rap. Nem sei se é palavra dicionarizada.
A ideia é que, em períodos de mudanças na divisão de trabalho, os novos conceitos torpedeiam os antigos e, nesse processo, as pessoas perdem a noção de pertencimento a um grupo estabelecido.
Hoje, ninguém ousaria falar no papel do proletariado. Isso aparta pessoas de círculos sociais e identidades que antes tinham. Elas se sentem isoladas e manipuladas. É uma combinação de isolamento com ressentimento.
• Quais as implicações disso?
Ressentidos não votam, e há um declínio na presença em eleições que permeia todas as democracias. Há também um avanço populista e um colapso dos partidos tradicionais centristas.
A consequência mais documentada é a desconfiança das instituições políticas.
Isso é independente da corrupção –a corrupção faz parte da equação em alguns países, mas em outros, como o Chile, pouco corrupto, os sintomas são os mesmos.
• No Brasil, partidos pequenos venceram em cidades importantes. Isso é um sintoma?
Outra característica deste momento da democracia é o surgimento de partidos de margens. O Brasil, no entanto, sempre teve muitos partidos em função –ou disfunção– do federalismo.
• Mas eles só compunham governos, agora assumiram.
Não surpreende. É a mesma coisa que acontece na França ou na Itália. Às vezes é à esquerda, como o Podemos.
• O sr. escreveu sobre uma volatilidade de eleitores. Isso muda os governos, também?
Se eleitores são mais voláteis, governos também o serão. O "turnover" [alternância de poder], Deus do Céu! A média na Europa era de oito a dez anos. Hoje, a rotação é muito mais frequente.
• Há algum problema inerente ao "turnover" alto?
Na teoria, não. Historicamente, é pouco usual. O ponto é ver se as políticas terão continuidade. Isso vai depender de saber se os partidos vão lutar pelo centro do espectro político. Depois da Segunda Guerra, esquerda e a direita centristas dominaram eleições e a rotatividade não teve consequências.
• No Brasil se fala sobre um aventureiro chegar ao poder. A chance de isso acontecer é maior neste momento?
Sim. Esses partidos de margens ganharam força e os de centro precisam se preocupar com a perda de eleitores. Estão menos centrípetos e mais centrífugos ao tentar ter apelo.
Algo mais sobre eleições. Vocês, jornalistas, tendem a culpar os políticos pela abstenção, pela força dos populistas e pela desconfiança das pessoas nas instituições.
É o contrário. O problema real são os cidadãos. Os políticos se esforçam para se comunicar com os eleitores e têm fracassado.
Para dialogar, é preciso fazer isso por meio de categorias, e geralmente isso significava grupos de trabalhadores, de bairros, associações empresariais etc.
Essas organizações perderam sua capacidade de ser um espaço de identificação e solidariedade interna.
Hoje há um número muito grande de circunstâncias e não há maneira de falar com elas todas. A sociedade civil é que está em declínio.
• Permita-me discordar. Em 2013, tivemos manifestações que, ainda que não fossem de uma categoria, eram de pessoas que compartilhavam ideais ou projetos. E isso aconteceu novamente durante"¦
O impeachment de Dilma, eu sei. Passeatas são um produto da sensação de anomia. As pessoas estão ressentidas.
O problema é que essas megamanifestações não deixam organização com a qual se possa lidar ou negociar, que são elementos importantes das democracias liberais –elas têm poder para influenciar o comportamento dos membros, por exemplo, na decisão de entrar em greve.
Eu dava aulas no Egito pouco antes da revolução. É o exemplo dos protestos gigantescos que a internet potencializa. Quando acabou, as pessoas não deixaram traço. Elas foram importantíssimas e derrubaram o Mubarak, mas depois sumiram e foi fácil para os militares tomar o poder novamente.
• Qual a orientação aos políticos agora?
Historicamente, a resposta seria reformar os partidos. Acho que eles estão mortos, no entanto. São um instrumento de representação ineficaz. Há uma pulverização de candidatos em mais partidos ou então os políticos fingem que não são de partido nenhum –Donald Trump é o exemplo perfeito.
O populismo agarra os indivíduos: as pessoas não sentem solidariedade dentro de grupos, mas se identificam com uma pessoa. O populismo é justamente centrado em uma pessoa que diz ser capaz de resolver os problemas.
Partidos podem persistir por serem importantes para eleições ou para formar um parlamento, mas não vão ter a importância que tiveram.
• Há alternativas a eles?
Uma é a ideia de dar ênfase à participação dos cidadãos. Um dos casos mais estudados é [do orçamento participativo criado inicialmente em] Porto Alegre. A ideia é a de democracia participativa.
A outra direção é a oposta: fortalecer as instituições guardiãs. Distribuir poder a órgãos deliberadamente não democráticos, gerenciados por tecnocratas. Nessa direção, aumentam o número de agências regulatórias e o papel das cortes. A ideia é que o futuro da democracia está na despolitização. Isso tem apelo.
• O que o senhor prevê é que as eleições serão "pro forma"...
Não prevejo nada. Apresentei os dois modelos e, para ser sincero, não gosto de nenhum. Sou um democrata.
Fonte: Felipe Gutierrez – Folha de São Paulo (12/11/16)

Neopopulismo (Sérgio C. Buarque)

O nacional-populismo envelheceu e mudou de endereço. Durante grande parte do século passado, o nacionalismo foi a energia que mobilizou milhões de pessoas na luta contra o colonialismo e a dominação imperialista na África, na Ásia e na América Latina.
O nacionalismo transformou o mundo, acabando com o sistema de exploração das colonias e neutralizando os mecanismos nem sempre sutis de submissão econômica e cultural das nações pobres. E o populismo surgiu como uma alternativa política mobilizadora do nacionalismo conduzida por líderes carismáticos em países com frágeis instituições e limitada organização da sociedade.
Assim, é possível dizer, sem exageros, que o nacional-populismo foi um dos mais importantes movimentos do século XX pela sua amplitude e pela mudança radical das relações entre as nações e a formação de centenas de novos Estados nacionais independentes.
O nacional-populismo emerge agora, em pleno século XXI, em alguns dos países altamente desenvolvidos, como Estados Unidos e Europa, numa estranha e descabida reação ao processo de globalização que tem beneficiado, precisamente, as nações líderes em capacidade de inovação e tecnologia.
O nacionalismo e o populismo se deslocaram dos antigos países do Terceiro Mundo para as nações ricas e os antigos impérios coloniais. Neste caso, vão ganhando formas retrógradas e violentas de xenofobia e isolacionismo. Foi este novo populismo com ranço nacionalista e isolacionista que levou à vitória do inominável Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e à aprovação do Brexit no plebiscito no Reino Unido e que alimenta a direita da França e outros países da Europa.
O neo-populismo reacionário e anacrônico explora a insegurança e o medo de segmentos da sociedade e da economia destes países que não conseguiram acompanhar as mudanças geradas pela globalização ou ficaram presos aos velhos paradigmas.
Como sempre, no discurso populista a culpa das mazelas e fragilidades internas é dos outros, fatores e atores externos, como a concorrência dos países emergentes, especialmente a China, os imigrantes, e a entrada de mercadorias e de trabalhadores estrangeiros. E, no entanto, estes países, especialmente os Estados Unidos, lideraram e se beneficiaram amplamente da globalização, tanto pela abertura comercial quanto pela imigração de talentos de diferentes países e culturas que fertilizam a inovação e o desenvolvimento.
Alimentado pela descarada e arrogante xenofobia, criando inimigos internos e externos e agredindo as outras nações e povos, o neo-populismo dos países desenvolvidos é uma ameaça grave à paz mundial e à própria tranquilidade interna. Foi um fenômeno semelhante de paixões nacionalistas carregadas de ódio e intolerância e exploradas por líderes carismáticos que gerou o nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália.
Como naqueles trágicos anos do século passado, os neo-populistas acendem o ressentimento dos segmentos mais atrasados da sociedade que viveram anos de glória no passado e não aceitam as mudanças decorrentes da revolução tecnológica e da globalização. Claro que o mundo hoje é muito diferente, nos valores, nas instituições e nas regras internacionais. Mas quando o neo-populismo se instala com toda pompa na maior potência econômica e militar do planeta, tremem os alicerces da ordem mundial.
Fonte: Revista Será?


domingo, 13 de novembro de 2016

A urgente reforma do Ensino Médio (Roberto Freire)

Uma das questões mais graves que afligem o país e sobre a qual a sociedade brasileira deve se debruçar é a falência do nosso sistema educacional, sobretudo quando observamos o modelo do Ensino Médio nas escolas. Diante de tal desmantelo após 13 anos de gestões lulopetistas, o governo do presidente Michel Temer não fugiu à sua responsabilidade e teve a coragem de apresentar uma Medida Provisória que propõe a reforma desse importante segmento escolar, levando em consideração a urgência e a relevância da matéria. Não podemos mais perder tempo e cruzar os braços enquanto o futuro do Brasil fica seriamente comprometido.
Não faltam indicadores que apontam, de forma categórica, o quanto nossos jovens sofrem com a falta de qualidade e o descalabro da educação em geral. Dados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2015 mostram que nada menos de 91% das 8.732 escolas públicas do país com notas divulgadas obtiveram um desempenho abaixo da média na avaliação nacional. Já o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) teve sua meta para o ano passado cumprida apenas nos anos iniciais do Ensino Fundamental (etapa que vai do 1º ao 5º ano), enquanto o Ensino Médio não alcança o índice mínimo estipulado desde 2013 e, para piorar, apresenta uma estagnação desde 2011.
Como já afirmou a secretária-executiva do Ministério da Educação (MEC), Maria Helena Guimarães, o retumbante fracasso do Ensino Médio revela a absoluta falência do sistema atual e reforça a necessidade de um novo modelo para o país. Ao contrário do que apontam, equivocadamente, os críticos da Medida Provisória, haverá tempo mais do que suficiente para um amplo debate envolvendo a sociedade, especialmente as escolas, os professores e até os alunos. Entretanto, essa discussão não se dará indefinidamente e terá um prazo para que as novas regras sejam postas em prática – para que um assunto tão sério não se transforme em uma negociação prolongada e infrutífera, a tônica desses últimos anos.
Outra falácia propagada pelos críticos da MP sugere que disciplinas como artes e educação física poderiam ser excluídas da lista de conteúdo obrigatório. Na verdade, será a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio, que já começou a ser discutida em seminários e debates com as secretarias estaduais de Educação, professores e especialistas na área, que vai determinar os conteúdos obrigatórios de 50% da carga horária. A partir daí, o MEC irá elaborar uma proposta final da BNCC, o que deve acontecer até o fim do primeiro semestre do próximo ano. Em seguida, o texto será encaminhado para avaliação do Conselho Nacional de Educação (CNE) e só será implantado quando a BNCC for aprovada. Grosso modo, trata-se de um necessário processo de descentralização a partir da discussão com os estados – que serão, afinal, os responsáveis pela aplicação das mudanças.
Enquanto aqueles que foram apeados do poder pelo impeachment e pelas urnas se voltam contra a reforma, notórios especialistas como o senador Cristovam Buarque, do PPS, que dedica sua vida pública à educação, é um dos grandes entusiastas das mudanças propostas pelo governo. Ele destaca, sobretudo, a importância de seguirmos modelos bem sucedidos adotados em países como Japão e Coreia do Sul, que oferecem mais disciplinas optativas aos alunos. É evidente que haverá um conteúdo obrigatório, mas também uma flexibilização que permitirá aos estudantes escolherem as matérias que mais se adequam ao seu futuro perfil profissional e objetivos de vida.
Em mais de 13 anos de governo, Lula e Dilma não só fizeram pouco pela educação brasileira como, o que é pior, alcançaram a inacreditável façanha de aumentar o índice de analfabetismo no país em pleno século XXI. Depois de experimentar tamanho retrocesso, o Brasil exige mudanças substantivas em um modelo que, comprovadamente, não funciona mais. O legado perverso deixado pelo PT nessa área crucial é tão ou ainda mais nefasto do que a chaga da corrupção e compromete o futuro de milhões de jovens em todo o país. A reforma do Ensino Médio, urgente e necessária, é o primeiro passo para construirmos uma nação mais digna.
11/11/16




O pós-PT (José Roberto Toledo)

• Em 2016, ao longo da novela do impeachment coadjuvada pela recessão, o petismo perdeu mais dez pontos e voltou ao século passado
- O fim da era petista decretado pelas eleições municipais de 2016 é mais do que um fato histórico. Ao quebrar o modelo das disputas políticas no País nas últimas décadas, diz tanto sobre o passado quanto sobre o futuro da política brasileira. Sua resultante tem muitos nomes: vitória da antipolítica, guinada à direita, ressurreição do PSDB, ressaca da Lava Jato. Em maior ou menor grau, todos nomeiam partes do fenômeno. Para tentar compreendê-lo no todo, convém repassar a história.
A exuberância do consumo popular nos anos Lula produziu um inchaço do petismo. Em média, a preferência pelo PT cresceu oito pontos (um PSDB de novos simpatizantes) no período de 2002 a 2010 em comparação aos oito anos anteriores. Inchaço porque não foi um crescimento sustentável. Durante a era Dilma, a simpatia pelo partido recuou tudo o que crescera e mais um pouco: nove pontos, na média 2011-2015 da preferência partidária do Ibope.
Em 2016, ao longo da novela do impeachment coadjuvada pela recessão, o petismo perdeu mais dez pontos e voltou ao século passado. Essa fotografia da crise foi tirada após a maior derrota eleitoral do PT em sua história. Ainda não se sabe se plasmou o fim do partido como o conhecemos ou se registrou um momento de exceção. Por isso, é melhor analisar as médias.
Mesmo terraplanando os picos de euforia e depressão petista, o governo Lula inflou em 50% a preferência pelo PT. Encheu-a pelo bolso, muito mais de pragmatismo do que de ideologia. Mais gente passou a frequentar o supermercado e abrir crediário na Casas Bahia. Menos gente fez greves e promoveu invasões de terra.
Em paralelo à desmobilização da militância partidária e ao torpor sindical, as prefeituras, as câmaras, as assembleias e a Esplanada dos Ministérios se encheram de petistas. Novos e velhos, convertidos e históricos, aos milhares. A ocupação do poder institucional somada ao inchaço da preferência pelo PT mudou o comportamento do eleitorado brasileiro como um todo, inclusive o das outras forças políticas. Por reação.
Se antes de o PT ganhar eleições federais sucessivas e desalojar outros partidos já existia um antipetismo, depois disso ele ganhou dimensão muito maior, proporcional ao protagonismo do partido e de seu líder, Lula. A partir de 2004 e, em especial, de 2006, as eleições se organizaram em um eixo PT versus anti-PT. A polarização passou a ter fronteiras no mapa.
Era possível ver as forças antagônicas de luneta (nas grandes regiões, o Nordeste versus o Sul-Sudeste antipetista) e no microscópio (dentro das cidades, a periferia pobre pró-PT versus centro rico anti-PT). O engajamento cresceu de ambos os lados. Houve um aquecimento global do clima político.
Mais cabeças foram feitas. Em 2010, os “engajados convictos” eram 49% do eleitorado, segundo estudo do Ibope Inteligência. Ou seja, metade definiu seu voto logo no começo da campanha, assim que descobriu quem era a candidata do PT e quem era seu principal opositor. Em 2016, diminuiu muito o engajamento. Houve um terço a menos de cabeças-feitas, na maioria ex-petistas.
Esses 15% do eleitorado viraram um “isentão decisivo” (de 17% para 23%) ou um desinteressado por política que “só vota obrigado” (de 27% para 33%). Ambos deixaram para definir seu voto e prefeito na última hora. Os 3% restantes simplesmente não votaram, elevando os ausentes do processo eleitoral para 10%.
O desinchaço do petismo não apenas levou à derrocada do partido, como contribuiu para diminuir o engajamento médio do eleitorado como um todo. Junto com as mídias sociais, estimulou o voto volúvel e improvisado, produzindo mudanças de última hora nas corridas eleitorais. Por tabela, ajudou a viabilizar azarões, inflou os votos nulos e favoreceu aqueles que se apresentam como antipolíticos. E isso é só o começo.
Fonte: O Estado de São Paulo (07/11/16)

‘Podemos ter explosão de votos em branco e nulos’ ( Jairo Marconi Nicolau)

• Diante do aumento das abstenções e de votos em branco e nulos na eleição deste ano, o cientista político Jairo Nicolau é pessimista. O professor da UFRJ prevê para 2018 uma “explosão de insatisfeitos”
Jairo Nicolau, que lança em breve seu novo livro, “Representantes de quem?”, (editora Zahar) frisa que este é, por enquanto, um fenômeno só das grandes cidades de Sul e Sudeste derivado, principalmente, dos protestos de junho de 2013, dos escândalos de corrupção envolvendo a elite política, da crise do PT e das novidades impostas pela mudança na legislação eleitoral. Diz que, no horizonte, não há candidatos nem partidos capazes de motivar esse eleitor.
• O que explica o crescimento da abstenção pelo país?
A abstenção não é exclusivamente uma manifestação política. É claro que uma parte dos eleitores, e é quase impossível saber quanto, expressa isso. Outra parte também tem a ver com o problema do próprio cadastro. Cidades, como o Rio, fizeram o último recadastramento em 1986. Tem muita gente que mudou de cidade ou mora em outro bairro distante da sua seção eleitoral. Há também aqueles para quem o voto é facultativo, com mais de 70 anos. Além disso, o que é residual —e é um problema também— é que as pessoas morrem. Há uma demora para a retirada dos mortos do cadastro eleitoral. Mas a abstenção política está crescendo marginalmente, particularmente nas grandes cidades.
• O aumento de votos em branco e nulos preocupa?
Trata-se de um fenômeno concentrado nas cidades maiores. Tem quatro cidades para as quais chamaria atenção nesta eleição: Rio, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Nelas, tanto o voto em branco e nulo para prefeito quanto para vereador estão subindo eleição a eleição. Desta vez, bateu recorde. Em cidades médias do Brasil, com mais de 200 mil habitantes, esse fenômeno também cresceu, particularmente para as Câmaras municipais. No interior do Brasil, nada disso aconteceu: a taxa de brancos e nulos praticamente não se mexeu. O fenômeno está concentrado nas grandes cidades, no Sul e no Sudeste, não é ainda nacional. Claro que é preocupante. É inequívoco que a gente está diante de uma manifestação de desencanto e protesto.
• O que explica essa concentração nas grandes cidades?
Essa visão difusa contra os políticos é maior nas grandes cidades por conta das manifestações de junho de 2013, por conta dos canais em que essas informações circulam mais. No interior também tem Facebook, redes sociais, mas a impressão é que essa onda se iniciou entre as pessoas mais escolarizadas dos grandes centros e começou a se espalhar entre os mais pobres. Eleição no interior é outra coisa. Todo mundo conhece o candidato a prefeito, encontra na rua. Todo mundo tem alguém na família que é candidato a vereador.
• O sentimento antipolítica está mais forte no país desde junho de 2013?
Junho de 2013 é uma virada. A maior parte da opinião pública sempre criticou os partidos, o Congresso. Basta ver as pesquisas de opinião dos anos 1980. O que se passou de 2013 para cá? Pela primeira vez, tivemos manifestações agressivas e tendo os políticos como alvo. Isso contribuiu para reforçar uma ideia negativa da política. Depois, com tudo o que se passou no país, a desconfiança em relação à nossa elite política cresceu, por razões óbvias, pelos escândalos todos. Teve mais um fator que não pode ser desconsiderado: a crise do PT. O PT sempre foi visto como um patrimônio. Quando entrou na ciranda, isso aumentou o pessimismo. Lamentavelmente, a crise do PT não é a crise de um partido. Quando lideranças importantes são envolvidas nesses escândalos, isso sinaliza para a sociedade o seguinte: não dá, é tudo igual, política não presta. Desde que a urna eletrônica foi adotada, as taxas de branco e nulo reduziram muito. Achava que tínhamos chegado em um patamar entre 5% e 10%, esperado para uma democracia que tem o voto obrigatório. Só que a gente voltou a estourar a barreira dos 20%. Voltamos para os brancos e nulos da era da cédula de papel, em que tinha muito branco e nulo por erro, por dificuldade de preenchimento. É uma notícia ruim para a democracia.
• A nova legislação eleitoral pode ter contribuído para esse fenômeno?
As campanhas ficaram muito cerceadas. As motivações da lei são boas, as cidades estão mais limpas. Tive oportunidade de andar no interior do estado e vi a eleição muito animada, gente na rua, carreatas. As pessoas conhecem os vereadores. A televisão não tem tanta importância. No Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte, a campanha não apareceu na rua, porque foi muito curta e cerceada. Não estou criticando o cerceamento, ele é legítimo, mas bem ou mal o eleitor conhecia os candidatos. Os candidatos das grandes cidades não tiveram nem tempo fixo na televisão. Eram aquelas inserções que pingavam. Tanto que os candidatos de reduto e com uma certa máquina foram mais bem sucedidos. Você precisa ter formas de fazer com que a campanha chegue (aos eleitores). Uma parte desses votos brancos e nulos atribuo a esta nova legislação eleitoral.
• E na disputa pela prefeitura?
A eleição ficou curta demais. A lei passou (as campanhas) de 90 para 45 dias, tentando reduzir os custos. Talvez devesse ser de 90 para 60 ou 70 dias. No Rio, particularmente, por conta das Olimpíadas e Paralimpíadas, a energia do carioca ficou muito concentrada em outros temas. De repente, o tempo na TV foi muito curto. Na TV também passou de 45 para 35. No horário eleitoral, o tempo de dez minutos ficou pouco. Houve um erro, o debate foi rápido. Talvez a gente tenha que se adequar a este modelo. Não achava ruim três meses de campanha. Principalmente os candidatos que fazem campanhas mais artesanais, reuniões nas casas, precisam de tempo.
• A reforma política ajudaria a fortalecer a participação do eleitor?
Claro que mudar um pouco a legislação e aspectos eleitorais poderia deixar o sistema mais simples, com uma disputa com menos concorrentes. Isso contribuiria para um sistema eleitoral mais eficiente. Mas a questão é que esse debate nutriu muitas esperanças falsas de que você pode mudar a qualidade da elite política mudando o sistema eleitoral. Há uma onda de crítica à elite política. No lugar de se buscar melhores candidatos e partidos, se entrou em um movimento de recusa para bem ou para mal, e acho que para o mal. Na próxima eleição, em 2018, não tenho dúvida, os políticos vão continuar encontrando um território árido, um eleitor desconfiado. Isso dificulta ainda mais a campanha dos candidatos. Se nada mudar, podemos chegar à eleição de 2018 com uma explosão de votos em branco e nulos, chegando entre 20% e 30%. Não vejo nada no horizonte a curto prazo capaz de inverter esse padrão, um candidato ou um partido que encante ou retome a confiança. O que vemos na prática com esse comportamento é que uma parte dos eleitores está começando a incorporar a ideia da abstenção e voto em branco e nulo como práticas. Em 2018, vai ser pior. Porque é uma eleição nacional.
(Marlen Couto - O Globo/06/11/16)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Nove ‘verdades’ que esta eleição desmente.. (Fernão Lara Mesquita)

- Nove ‘verdades’ que esta eleição desmente...brasileiro não sabe votar, Lula ainda é força para 2018,o Brasil é uma democracia...
1 – “Identificação biométrica e rapidez de apuração são provas do avanço da democracia brasileira.” É exatamente o contrário. Aqui o eleitor só entra em campo depois do jogo jogado para dizer sim ou não aos escolhidos dos “caciques” dos partidos. Em democracias de verdade, como a americana, a suíça e outras, aproveita-se toda e qualquer eleição para que o eleitor decida literalmente tudo. Junto com presidentes, legisladores ou prefeitos ele elege diretamente os funcionários públicos sem função exclusivamente política, tais como xerifes, policiais, promotores, diretores de escolas públicas, etc.; vota leis de iniciativa popular; referenda ou derruba leis do Legislativo; autoriza ou não impostos novos ou aumentados; aprova ou não a contratação de dívida; confirma ou não o mandato do juiz da sua comarca; vota o “recall” ou não de funcionários eleitos na eleição anterior. Para a eleição da semana que vem, 162 temas adicionais, 71 propostos por abaixo-assinados de cidadãos comuns, foram certificados em 35 Estados para constar das cédulas pedindo decisão dos eleitores de Trump ou Hillary. Por isso 30 milhões deles já receberam suas cédulas com um mês de antecedência e as vão enviando preenchidas pelo correio. Por isso demora para apurar eleições em democracias de verdade.
2 – “A política não se renova porque brasileiro não sabe votar.” Essa afirmação toma o efeito por causa. O povo elege o de sempre porque só consegue autorização para se apresentar como candidato quem se compõe com os donos dos partidos. Por isso reforma política pra valer inclui necessariamente um ponto-chave da que os americanos fizeram lá atrás. Tornar as eleições municipais apartidárias para quebrar as pernas dos “caciques” (cujo poder passaria do controle dos 5.570 potenciais “currais” municipais de hoje para apenas 27 estruturas estaduais) e abrir as portas da política à entrada de sangue novo. Qualquer um pode candidatar-se a prefeito ou vereador sem pedir licença a ninguém.
3 – “Há partidos vitoriosos nesta eleição.” Esta foi a eleição do “não”. “Eu não voto mais”, “eu não voto no PT”, “eu não voto em ladrão”, “eu não voto em político”, etc... O mais foi consequência do controle da portaria do “Sistema”. Votou-se no que sobrou dos “nãos”, já era conhecido ou pôde botar a cara na TV pra mostrar que existia, o que vale dizer estar num partido grande e velho. Ponho a mão no fogo como 99% dos eleitores não sabem em que partido votaram, ou, se lembram, não sabem nem a tradução da sigla daquele em que acabaram votando, mesmo dos tradicionais.
4 – “A ideologia move a polarização esquerda x direita.” Nem os presidentes dos partidos conseguem definir esquerda e direita. Mas um grande divisor de águas aparece nítido no Brasil, como no resto do mundo, especialmente o latino: ser contra ou a favor da austeridade fiscal. Só que não é uma fronteira ideológica, é fisiológica: de um lado pena a massa que paga a conta, trabalhando dobrado e ganhando a metade; do outro se entrincheira a “casta” que é paga pela conta, trabalhando a metade e ganhando dobrado. É essa que, sentindo-se agora ameaçada, quebra-quebra e queima pneus por aí porque as TVs lhe deram a dica de que esse é o jeito de o seu “dane-se a miséria nacional, ninguém toca no meu!” alcançar mais do que as esquinas que já não consegue encher de gente e soar como o contrário do que é.
5 – “É impopular encarar de frente os problemas mais velhos e óbvios do Brasil.” Se há algo que ficou bem definido nesta eleição, é que quanto mais assertivo foi o candidato em relação a eles – necessidade de ajuste, privatização, desmonte da corrupção de sindicatos e partidos com dinheiro de imposto, fim da chantagem trabalhista e dos “marajalatos” –, mais fulminante foi sua eleição e a distância aberta em relação ao oponente, não importando as “tradições” das praças envolvidas. João Doria e Nelson Marchezan são os exemplos mais visíveis, mas não os únicos.
6 – “Existe um preconceito de gênero.” O número de prefeitas e vereadoras eleitas caiu, apesar da “cota” de 30% de candidatas imposta por aquele mesmo pessoal que, conforme a hora, nos diz que “não existe gênero” senão o que cada um escolhe para si. Quem escolheu não eleger seu prefeito ou vereador só por esse atributo foi a metade feminina do eleitorado brasileiro, ou, se quiserem, os 100% “sem gênero definido pela natureza” que acabam de aprender, com Lula e Dilma, que pôr alguém para cuidar da coisa pública só por ser mulher é um tipo de oportunismo para enganar trouxa que em geral acaba em desastre.
7 – “Lula ainda é uma força para 2018.” Nesta campanha, “ter apoio de Lula” passou a ser a “denúncia” atirada por candidatos “de esquerda” contra candidatos “de esquerda”. Em quem colou não sobrou nada...
8 – “Basta melhorar a gestão pro Brasil ir pra frente.” Foi-se o tempo! Agora o setor público está que não tem nem pra lavar o chão do IML, como no Rio, e a economia privada, em choque hemorrágico, não tem mais com que se reerguer, mas a reforma da Previdência de que se fala não toca nos “marajás”, só põe dinheiro no caixa no futuro distante, e a PEC 241 nem menciona o rombo de Estados e municípios. A briga em torno de quem vai pagar essa conta (na qual as denúncias da Lava Jato serão as armas nos bastidores) nem começou ainda.
9 – “O Brasil é uma democracia.” Da democracia não temos nem o elemento definidor, que é o império da lei igual para todos. Na raiz do presente desastre estão os privilégios legalizados e direitos “adquiridos” que “foros especiais” podem tornar até hereditários, como na Idade Média. Sem um direito só pra todo mundo não tem saída. E pra chegar lá tem de pôr o povo no poder, o que se faz submetendo os eleitos aos eleitores antes e depois da eleição, com prévias transparentes para escolha dos candidatos e “recall” para a troca dos que, eleitos, “apresentarem defeito”. Sem isso “O Sistema” continuará para sempre indomesticável, cavalgando impunemente o lombo do povo.
*Jornalista, escreve em www.vespeiro.com
04 Novembro 2016