- Cientista político e brasilianista francês fala sobre a atual tensão política que assola o país -
Stéphane Monclaire - professor de Ciência Política - Nascido em Paris e professor de Ciência Política na Sorbonne desde 1984, Stéphane Monclaire é também um especialista em Brasil, e já escreveu sobre o período de transição do país da ditadura militar para a democracia e sobre o processo de elaboração da Constituição de 1988. Ele esteve em Porto Alegre esta semana para participar do 1º Seminário Internacional de Ciência Política promovido pela UFRGS. Na qualidade de um estrangeiro com olhar de especialista, Monclaire fala, na entrevista a seguir, sobre as atuais turbulências que assolam o cenário político do país. Leia abaixo os principais trechos:
Como o senhor avalia a atuação da oposição diante da crise política?
- O jogo da oposição é bater forte, e poderia bater ainda mais forte se fosse unida. Veja o PSDB. É um partido que disputou todos os últimos segundos turnos das eleições presidenciais desde 2002, e que antes disso estava no Planalto. Este partido é dividido entre correntes e chefes bem conhecidos: Alckmin, Aécio Neves e José Serra. E Fernando Henrique como o velho cacique. Esse partido precisa falar de uma maneira mais unívoca e fazer proposta. Porque dizer que a economia vai mal é simples, e além de tudo é verdade. Agora, é outra coisa dizer: “Para corrigir, vamos fazer isso, veja nossa agenda de reformas, teremos sangue, suor e lágrimas, mas o Brasil vai melhorar”. Até hoje não vi proposta concreta para a economia. Armínio Fraga, ex-chefe do BC na época de FHC, fez algumas indicações, mas não é um programa geral. E o PMDB é um partido dividido desde a Nova República, também composto de grupos, liderados por Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Michel Temer, Eduardo Paes e outras figuras locais. A briga que existe hoje entre o Congresso e o Planalto tem muito a ver com uma tentativa dessas personalidades peemedebistas de exercer um controle mais forte sobre o partido quando a eleição presidencial se aproximar, e assim ter a maior parte da bancada ao seu lado, prefeitos, senadores, governadores, aumentando a probabilidade de vencer uma eleição presidencial. Tem aqueles que esperam controlar o partido, e tem o Temer, que age de outra maneira: ele já é vice-presidente, se virar presidente interino, assume o controle.
Algumas das grandes crises e enfrentamentos que a presidente teve recentemente foram com políticos e partidos que fazem parte de sua base aliada, como o próprio PMDB. Por que os aliados vêm se rebelando?
- Temos de ser prudentes quando fazemos comparações no tempo. Porque, apesar de os partidos terem os mesmos nomes, a realidade das relações intrapartidárias não é a mesma. O PT dos anos 2000 e dos anos 2010 é bem diferente do PT dos anos 1990, sem falar do dos anos 1980. Do ponto de vista do discurso, da democracia interna, da renovação das lideranças, do recrutamento e do financiamento. É o mesmo partido, mas mudou. A mesma coisa aconteceu no PMDB. Temos a permanência de alguns caciques: Michel Temer já era deputado constituinte, Renan Calheiros já era presidente do Senado há 10 anos. Mas, apesar de os nomes serem os mesmos, os recursos que têm essas pessoas não são necessariamente os mesmos. O savoir-faire deles não é necessariamente o mesmo. E tem o baixo clero, que também tem de ser analisado dentro do PMDB. Agora é o momento dos pastores, dos evangélicos, de políticos radicais – não do ponto de vista de político, mas de uma certa concepção da moral – e isso permitiu a Eduardo Cunha ganhar a presidência da Câmara. Por isso essa coisa estranha: esse PMDB que era aliado agora está em grande parte oposto.
A reação da presidente também contribui para a tensão?
- A Dilma não é o Lula. Os brasileiros estão tão acostumados a ver Dilma na TV que talvez não tenham capacidade para avaliar. Há poucos chefes de Estado carismáticos hoje em dia. Podemos fazer a lista das grandes democracias: Roosevelt nos EUA, Churchill na Inglaterra, De Gaulle na França e Adenauer na Alemanha. Vamos ficar com esses. Quem se lembra de quem foi presidente depois do Roosevelt? Do De Gaulle? Quando um chefe tem capacidade de mudar um país, de se impor à opinião pública e ser respeitado fora, o sucessor parece nanico. E no caso da Dilma, embora ela tenha herdado um país com crescimento significativo de 7%, o déficit de carisma dela em comparação com Lula é flagrante. Lula tinha uma capacidade excepcional de negociação e um grande senso de pragmatismo, enquanto Dilma vem de outro universo. Assim como lutou bravamente durante a ditadura, ela agora está em uma estratégia de confronto, não tem jogo de cintura. Além disso, quando ela foi chefe da Casa Civil depois da saída de Dirceu, o Lula falou: “Você vai tocar as políticas públicas, mas tudo o que concerne à política partidária da Casa Civil eu mesmo faço”.Então, Dilma passou anos na Casa Civil sem participar realmente das negociações para costurar uma maioria, acordos entre o Planalto e o Congresso. Desse ponto de vista, ela era pouco experimentada ao chegar ao Planalto, mas no início a coisa era administrável porque havia crescimento e a economia estava bem. Mas nos últimos meses é visível que ela ainda não entendeu como criar condições de estabilidade entre Congresso e Planalto.
De que modo esse confronto se reflete na crise econômica?
- O Brasil está em uma situação complicada, tem uma interação forte entre a crise econômica e a crise política. Quando, por exemplo, para incomodar a presidente e o governo, Eduardo Cunha faz aprovar pela Câmara um novo aporte de despesas orçamentárias, o mercado internacional não gosta, é aplicada sanção imediata e o dólar sobe em relação ao real. Ou quando a Dilma diz que vai ressuscitar a CPMF e depois diz: não vamos mais. Ela está um pouco perdida, tenta reagir e não consegue, tenta coisas que não funcionam, o que também é outro sintoma da crise, e os mercados não gostam disso. Mercados gostam de previsibilidade, não de improvisação.
O Congresso é hostil. Mas recentemente, medidas cogitadas pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy prometeram atingir o próprio coração das administrações petistas, como os programas sociais.
A presidente nomeou Joaquim Levy por ser uma figura respeitada, para acalmar os mercados internacionais e dar margem de manobra para aplicar uma austeridade que não fosse forte demais. Mas Dilma não se entende muito bem com ele e tem o ouvido mais sensível ao que diz o ministro do Planejamento. E é difícil para Dilma, que quer encarnar uma figura voltada para o social, aguentar os cortes dentro dos orçamentos sociais, como o Minha Casa, Minha Vida. A falta de solidariedade dentro do governo agrava a situação e tem a ver com o fato de que, de maneira paradoxal, a presidente é autoritária demais quando manda e não é autoritária o suficiente para fixar diretrizes. Um dos resultados é que há um conflito entre a Fazenda e o Planejamento. Deve-se apontar também a falta de savoir-faire da presidente e do Mercadante. A última foi este decreto para tirar poder das Forças Armadas, o que não é ruim do ponto de vista da democracia, mas não era urgente, poderia ter sido feito daqui a uns meses. Por que agora? Foi erro emitir o decreto e foi um erro retirá-lo, porque dá de novo a impressão de que o governo não sabe o que fazer, e isso não é bom para ninguém.
* Por:
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Problemas econômicos do Brasil têm origem na tensão política (Paulo Peres)
- Professor da UFRGS analisa os equívocos e os conflitos que levaram Dilma a um cabo de guerra com o parlamento -
Na eleição presidencial de 1992, nos Estados Unidos, James Carville, consultor da campanha de Bill Clinton, cunhou uma frase que se tornaria célebre no debate político durante muitos anos: “É a economia, estúpido”. Àquela altura, Carville queria dizer que o ponto mais sensível da sociedade americana era a economia, pois o país enfrentava uma grave recessão, com consequentes efeitos sobre a renda, o consumo e o emprego. Assim, os democratas deveriam bater na tecla da crise econômica para conquistar os corações e mentes dos eleitores, de modo a derrotar George Bush, o pai, na sua tentativa de reeleição. De fato, a economia daquele período era a maior preocupação do eleitorado, e a estratégia de comunicação do Partido Democrata tirou Bush da Casa Branca.
Anos depois, em 2012, diante dos impactos da crise econômica mundial que eclodiu em 2008, Carville publicou um livro, em coautoria com o especialista em pesquisas de opinião Stan Greenberg, apontando que, agora, o alvo das políticas e do discurso partidário nos EUA deveria ser a classe média. Os efeitos da crise e a concomitante reação do governo levaram a uma redução desse estrato social, o grande motor da economia do país. De lá pra cá, o governo Obama tem tentado se equilibrar entre as demandas do “mercado” e as pressões políticas da sociedade, principalmente dos cidadãos da classe média. Transportando essa situação, em analogia, para a atual situação de crise brasileira, podemos dizer: é a política!
O Brasil enfrenta hoje, simultaneamente, adversidades na economia e na política. Contudo, o maior ponto de tensão e de potencial crise está no processo político, o qual acaba contaminando a esfera econômica. É claro que estamos diante de sérias dificuldades na economia e estas podem nos conduzir a uma situação de maior gravidade; porém, já vivemos crises piores nesse setor e temos uma série de indicadores que ainda dão capacidade de reação ao governo e aos agentes econômicos. Inclusive, se nosso habitat político estivesse mais equilibrado, mais facilmente enfrentaríamos os atuais problemas econômicos. No entanto, estamos diante de uma conjunção de fatores que convergem para um cenário de baixa cooperação entre os principais atores políticos, o que cria uma atmosfera de incerteza muito grande e de provável incremento do conflito entre os partidos e os grupos sociais.
No delicado ambiente da política, onde impera uma feroz e incontornável competição, há duas estratégias que os indivíduos e grupos sociais podem seguir – cooperação ou conflito. A competição pode ser cooperativa, tornando-se vantajosa para todos ou a maioria dos atores. Isso significa que eles podem fazer alianças; o que, no caso da política partidária brasileira, manifesta-se na forma de coligações eleitorais e coalizões de governo. Quando essa cooperação por alianças não é possível, seja pela distância programática ou por qualquer outro tipo de interesse, os partidos fazem oposição àqueles que se aliaram na ocupação do governo. Essa oposição, não obstante invista em certo grau de conflito, deve ser leal às “regras do jogo” e seguir à risca toda liturgia institucional que legitima o regime democrático. Nesse sentido, a oposição atua de forma não cooperativa e investe no conflito com o governo, mas num grau moderado, pois qualquer radicalização que inviabilize completamente a governabilidade ou que provoque a desestabilização institucional poderá resultar em ameaça ao regime democrático e, no limite, à perda de legitimidade de todo o sistema representativo. Ou seja, todos perdem.
O governo, por sua vez, deve ser capaz de sinalizar para a população que políticas pretende fazer e aonde pretende chegar. O governo deve mostrar serenidade, estabilidade, segurança e consistência. Deve garantir a governabilidade fiscal, administrativa e política. Deve ser hábil para assegurar a implementação de sua agenda, deve saber negociar e, ao mesmo tempo, mostrar liderança. O governo tem que ter a capacidade de se comunicar de forma clara e direta com os cidadãos; deve ser protagonista na construção da “narrativa” do cotidiano político. Deve ter uma mensagem de esperança. Se não tiver essas destrezas, será incapaz de coordenar a ação coletiva de seus aliados, de modo que tal inépcia resultará no aumento do conflito tanto interno como externo ao governo, com inevitável perda de popularidade.
Estamos avançando rapidamente para essa situação. O modelo de governação brasileiro, denominado “presidencialismo de coalizão”, é baseado na formação de coalizões partidárias majoritárias e coesas que cooperam com o Executivo. A Presidência da República dispõe de recursos e prerrogativas constitucionais que facilitam a atração de partidos para sua base de apoio. Todos sabemos que o governismo é uma força gravitacional muito forte para os partidos. Porém, sem uma liderança política com a disposição e o talento para operar esse mecanismo institucional, o governismo se transforma em “cerco” ao governo, seja por parte dos “aliados”, que quererão cada vez mais recursos para si, seja por parte da oposição, que procurará enfraquecer o governo para conquistar o poder na próxima eleição ou, conforme o caso, para retirá-lo do poder de algum modo antes mesmo do término do mandato.
A atual crise política não é resultado do esgotamento desse modelo, mas sim da inabilidade do governo Dilma para operar o “presidencialismo de coalizão”; mais do que isto, pela atabalhoada tentativa de governar sem recorrer a esse modelo de governação. No início do seu segundo mandato, ao tentar se distanciar do PMDB, seu governo abriu espaço para o fortalecimento de Eduardo Cunha e seu grupo parlamentar, além de ter descontentado todo o resto dos peemedebistas. O governo Dilma rompeu unilateralmente o acordo cooperativo com o PMDB, gerando um problema de quebra de confiança necessária a todas as cooperações. Desde então, a presidenta não conseguiu recompor de fato sua coalizão legislativa e vive num permanente clima de insegurança. Diante disso, alas do PMDB perceberam que podiam jogar o jogo da ameaça crível: pressionam o governo para obter mais recursos, sob pena de retirar de vez seu apoio ou de permitir que cheguem a algum termo processos de CPIs e até mesmo de impeachment.
Contribuindo ainda mais para agravar esse quadro – aliás, o governo comete erros estratégicos inacreditáveis –, a presidenta e seu núcleo de assessores, na tentativa de obter maior apoio de sua base legislativa e reduzir o poder do presidente da Câmara dos Deputados, deram mais poder ainda ao PMDB, nas figuras do vice-presidente Michel Temer e de Renan Calheiros, presidente do Senado. Alimentaram disputas internas dos peemedebistas e deram ao vice-presidente a oportunidade se tornar um pivô dos movimentos pelo impeachment. Acima de tudo, ter tentado se distanciar do PMDB foi um equívoco político crucial. Desde a retomada da eleição direta para presidente da República, apenas um governo não contou com o PMDB em sua coalizão legislativa, o governo Collor. Sabemos no que resultou.
* Doutor em Ciência Política pela USP. Professor da UFRGS
fonte: Zero Hora
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Nó de marinheiro (Luiz Werneck Vianna)
Deram um nó de marinheiro na política e na economia brasileiras e, ao que parece, ninguém se mostra capaz de desatá-lo. Quem se tem arriscado na empresa, longe de afrouxar o aperto excruciante que ele exerce, logo é obrigado a reconhecer a vanidade dos seus esforços, ao constatar que, malgrado seu empenho, ele o deixou ainda mais ajustado. O vice-presidente da República, Michel Temer, é o caso mais recente, e pelo andar da carruagem, não será o ultimo.
Amarrada por esse nó que compromete as esperanças de dias melhores que vinha acalentando desde a democratização do País, a sociedade, em movimentos contraditórios, recorre às ruas em manifestações de protesto, quando clama pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff – solução que depende da ação de um Parlamento a que quase todos dão as costas –, sem que faltem atos de massa em defesa do mandato presidencial, que, por sua vez, são críticos das políticas governamentais.
Há de tudo nessa barafunda em que fomos envolvidos por nossos atuais governantes. Persiste entre eles a influência da social-democracia, embora ninguém a defenda abertamente, assim como a do neoliberalismo – o programa Bolsa Família tem aí sua inspiração – e a do nacional-desenvolvimentismo do regime militar com seu capitalismo politicamente orientado, em certas versões sob maquiagem chinesa.
Nas ruas, quando ocupadas por movimentos sociais externos ao mundo do trabalho, designados pelo prefixo sem – sem-terra, sem-teto –, medra em surdina um pasticho do nacional-popular no estilo dos anos finais do regime de 1946, cujo cerne, como notório, foi ocupado pelo sindicalismo operário – hoje, a uma boa distância dele. Suas vozes são acolhidas nos palácios apenas pelo motivo de que provêm de um alegado exército de reserva, mesmo que dissonantes do discurso e das práticas dos dirigentes do partido hegemônico no governo, como se faz exemplar nas políticas oficiais reinantes no agronegócio e na construção civil, joias da coroa de suas administrações. Embora marginais, seu ruído ainda mais extrema a barafunda.
O pragmatismo sem princípios, característico da era Lula em seus momentos de fastígio, que flertou com todos esses sistemas de orientação, encontrou seu limite neste começo do segundo mandato da presidente Dilma. Sem as escoras dessa referência, antes considerada como obra de talento do seu fundador, e na ausência de qualquer outra, o espírito tateia entre as trevas. Em meio a ruínas do nosso sistema político, devastado pela Operação Lava Jato, ainda em curso, vive-se um cotidiano de sobressaltos à sombra de uma guilhotina que ameaça as chefias dos nossos Poderes republicanos, sem que se possa prever como nascerá o dia de amanhã.
Antes que se diga que mais vale um fim com terror do que um terror sem fim, com as esperanças ao chão, uma economia em recessão e que nos alcance a ameaça de uma crise com a gravidade da grega, em nome da defesa da democracia política, que tanto nos custou, a política e os políticos não podem mais retardar uma intervenção saneadora que somente pode vir deles. Não é à toa que em lugares obscuros da nossa sociedade, à direita e à esquerda, já se fale a linguagem das armas e no recurso a exércitos.
Não caminhamos até aqui, que foi muito, para morrer na praia. O sistema judiciário, em particular nas suas bases, mais do que investigar e punir crimes contra a administração pública tem exercido, ao longo destes meses, uma ação pedagógica no sentido de valorizar a República e suas instituições, cujos resultados já são tangíveis e sem retorno. Mas estaremos perdidos se acreditarmos que juízes são portadores de uma missão messiânica de salvação dos nossos males nacionais e não procurarmos na política os remédios que permitam que a sociedade se anime a buscar novos rumos.
Inclusive porque, como advertia o bardo, a vida não para, os indicadores econômicos disparam estridentes sinais de alarme e, no próximo ano, estão agendadas eleições municipais, terreno fértil para os cavaleiros da fortuna que ambicionem se aproveitar desse deserto de ideias e de homens de valia a que se tem reduzido nossa vida política. O nó que nos ata, na emergência em que nos encontramos, desaconselha a atitude daqueles lavradores que, sem amanhar a terra, mantêm o olhar fito no céu esperando pelas chuvas, como temos ficado com as notícias que nos vêm dos tribunais. O obituário desse presidencialismo de coalizão bastardo que temos praticado não pode mais demorar a ser lavrado, e com ele essa parafernália de partidos políticos sem vida própria, cartórios, a maior parte deles, de interesses particularistas.
Sem uma prévia remoção do entulho que trava o processo de formação de uma vontade democrática, em vez de cortar o nó que nos imobiliza, pode-se livrar o caminho para que velhos e mal resolvidos antagonismos, equilibrados secularmente por elites políticas treinadas, mesmo sem o saber, como Monsieur Jordan fazia prosa, nas artes conservadoras de uma clássica revolução passiva – o ex-presidente Lula incluído –, entrem em desequilíbrio. Foi-se o tempo, de infausta memória, de “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Para o relógio da política democrática a hora é a da Carta de 88, pois é a partir dela e do aperfeiçoamento de suas instituições que se pode divisar uma saída para a gravidade da crise atual, não apenas política, mas também econômica, ético-moral e de rumos para o País. Fernando Gabeira, em recente e brilhante artigo neste jornal, utilizou-se da metáfora do ciclista que, para não cair, precisa manter seu veículo em movimento. Sem movimento não se escapa desse nó que nos constrange, e o mais seguro é o que ganhar impulso no campo da política. Pedalar é preciso, mas pedaladas em falso podem desequilibrar não apenas o ciclista, como também o País.
Fonte: O Estado de São Paulo (06/09/15)
Boneco inflado, país quebrado (Fernando Gabeira)
Um boneco inflado chamado Pixuleco tornou-se um ator da política nacional. Ele representa Lula com uniforme de presidiário. A prefeitura petista de São Paulo pensa em proibi-lo por ser “uma poluição visual”. Nem todos pensam assim. Como muitos símbolos vitoriosos, o Pixuleco ganhou contornos múltiplos, desempenha outros papéis além dos projetados por seus criadores. Nas redes sociais, o Pixuleco tornou-se um brinquedo fofo. Aparece ao lado das princesas da Disney e no jogo Onde Está Wally.
O Pixuleco, como tantos outros símbolos fortes, sofreu um atentado. Foi algo bem suave, comparado com a ação dos radicais muçulmanos. Uma jovem o furou com um estilete, em São Paulo. O boneco foi para a mesa de operações, de onde já saiu para reaparecer no dia 7 de setembro.
Nos atentados para valer nem sempre se atacam os símbolos, mas seus criadores. Os assassinatos no “Charlie Hebdo” foram o episódio mais trágico dessa tradição.
Felizmente, no Brasil, a jovem atacou a caricatura, e seu Maomelula desinflou na calçada.
É divertido as pessoas brigarem com um boneco inflado, tentando proibi-lo, ou mesmo apunhalar seu ventre macio. E ver o PT atacar o Pixuleco.
Entre as muitas perdas do PT ao longo de sua trajetória está a do senso de humor. Parece que isso é meio inevitável: ao virar governo, a pessoa sempre leva muito a sério as bobagens que nos reservam diariamente. O Pixuleco vai flutuar nos ares de um país oficialmente quebrado. O desgoverno de Dilma é o seu combustível.
Ela anuncia que vamos ter um rombo de R$ 30 bilhões em 2016. E os amigos do governo dizem: “vocês deviam reconhecer que, dessa vez, estamos falando a verdade”. Como se reconhecer a própria incompetência a absolvesse dos problemas que criou na vida real. O pior é que fala mentira mesmo quando afirma ter aderido à verdade. O rombo não será apenas de R$ 30 bilhões. Seu projeto orçamentário prevê crescimento em 2016 contra todas as previsões. Só esse detalhe significa alguns bilhões a mais no rombo de R$ 30 bilhões que ela já admite.
Na semana passada, Rodrigo Janot tirou a máscara: resolveu blindar Dilma. Recusou investigar suas contas de campanha. Disse que o pedido era choro de perdedores. E que a sociedade não se interessa mais por esse tema eleitoral. Simultaneamente, ironizou a oposição e disse que deu lições ao TSE sobre como conduzir o exame das contas.
Janot é um homem de coragem. Jogou a reputação num só lance, comprometeu sua imparcialidade blindando um governo moribundo. Será mais um rubro boneco inflado, com o número 13 no peito.
A tática de deixar Dilma sangrar até 2018 tem prevalecido até agora. Se durar até o Natal, como dizer “Feliz ano novo”? Acordaremos em 2016 saudando a mandioca, com um rombo bilionário no orçamento. Nem todos percebem a ação corrosiva da crise na nossa vida cotidiana. Muita gente perdendo o emprego. Das janelas do Planalto, voam passaralhos em todas as direções. Claro que alguns se adaptam, inventam seus trabalhos. Vi um filme sobre a crise americana, e nele as pessoas ganhavam a vida em maratonas dançantes. Viravam a noite dançando.
Dilma ainda pensou em lançar um novo imposto, a velha CPMF. Desistiu em 48 horas porque anteviu uma derrota por 7 a 1. Mas ela tentará de novo. Num esforço desesperado para sobreviver no cargo, vive o dilema de um Hamlet de shopping center: gastar ou não gastar. Como todos os dilemas não resolvidos, será transformado em não gastar, gastando. Se admitiu um rombo de R$ 30 bilhões, sabendo que será muito maior, o que lhe resta senão encenar o teatro da austeridade?
Dilma quer o apoio do Congresso para cortar despesas. Antes, liberou R$ 500 milhões de verbas parlamentares. “O de vocês está garantido, agora vamos cortar o dos outros”. Toda essa farsa vai acabar desmoronando. Os que querem apenas sangrar Dilma comemoram: ela continua. Sem nenhum horizonte. O próprio Michel Temer reconheceu que o governo não tem estratégia.
A cada dia alguém tem razões para celebrar ou lamentar a presença de Dilma. Mas a continuidade a partir de um grande acordo que envolva procuradores, juízes do STF, políticos, empresários e banqueiros é um caminho perigoso. Sérgio Moro levantou a questão da dignidade nacional, um pouco perdida com os escândalos de corrupção. Um país em crise tem tudo para se rebelar com um destino medíocre que se desenha para ele.
Uma jovem prefeita do Maranhão foi estrela na imprensa internacional. Ela está foragida depois de desvios de verba da merenda escolar. Era ativa nas redes sociais e aparece numa foto diante do espelho, muito maquiada, com o rosto esculpido pela cirurgia plástica, lábios pintados de um intenso vermelho. Foi a cara do Brasil esta semana. Um Brasil de pequenos e grandes cafajestes, um Brasil apodrecido, prestes a ser mandado para os ares, inclusive na forma de centenas de bonecos inflados.
fonte: O Globo/Segundo Caderno (06/09/15)
O sonho do golpe civil (O sonho do golpe civil)
"Tem que juntar o Temer, o Fernando Henrique, o Lula, trancar dentro de uma sala e jogar a chave fora, para encontrar a solução". Há 51 anos, o golpe militar surgiu como "solução" dos impasses da precária democracia brasileira. Hoje, segundo Abilio Diniz, a solução demanda um golpe civil. As repercussões positivas da sugestão do empresário, tanto entre seus pares como na imprensa –onde foi celebrada, por exemplo, por Clóvis Rossi– evidenciam a natureza de nossa crise. O Brasil gosta do auto-engano.
"O povo não sabe votar." No seu cerne, a ideia do golpe é substituir a vontade imperfeita dos cidadãos, essa massa ignara conduzida no turbilhão das emoções, pela deliberação fria de um ente de razão que assume o papel de representação nacional: o Caudilho, o Partido, as Forças Armadas. O golpe civil, tal como proposto por Diniz, troca o ato de força pela encenação da conciliação: os "pais da pátria" correm em defesa de um valor maior, que é o bem comum, subordinando a ele seus interesses particulares. O acordo por cima, o conchavo sublime, cancela o conflito, refaz a ordem perdida e propicia um novo começo. Seu pressuposto implícito é que inexistia um conflito verdadeiro, uma legítima disputa política sobre a sociedade, a economia e o Estado.
Os três homens na sala fechada são os caciques das principais forças partidárias do país. O interlocutor ausente é a presidente eleita pelo povo. Na formulação de Diniz, compartilhada por tantos incautos, Dilma é o nome do problema –e sua ausência é a chave da solução. A presidente é, certamente, um problema: o cânone definitivo da união entre a arrogância e a incompetência. Contudo, atrás de sua figura patética, avulta o problema real: a crise do lulopetismo. Fiel à sua alma profunda, por quatro vezes consecutivas o Brasil escolheu nas urnas a estrada sedutora do capitalismo de Estado. Hoje, já no meio da jornada de uma década perdida, a nação confronta-se com as consequências de suas opções. O golpe civil proposto por Diniz é um truque para encerrar o debate nacional, evitando sua conclusão. Sai Dilma, ficam as ilusões.
A sentença do empresário contém um trecho oculto, que deve vir à luz. Na sala de três, só um pode tomar a cadeira de Dilma. Diniz está conclamando FHC e Lula a demitirem a presidente, forçando sua renúncia e substituindo-a por Temer. O projeto envolveria um contrato informal entre o PSDB e o PT: na sala lacrada, os dois partidos congelariam suas divergências, entregando a gerência da crise nacional a um fiel depositário e adiando o desfecho do conflito até a batalha eleitoral de 2018. No mito da conciliação, a democracia é posta entre parêntesis pelo tempo suficiente à restauração da ordem. De fato, porém, o golpe civil não significaria mais que a perenização da desordem.
Inexistem cenários virtuosos no horizonte. Nada, porém, seria tão deplorável quanto um governo de "união nacional" fecundado na alcova de um conchavo tripartidário. Na planilha de custos do golpe civil, sonegada por Diniz, encontra-se a manutenção da aliança PT-PMDB, acrescida da eliminação da oposição parlamentar. A união dos três partidos ergueria uma paliçada de proteção de um sistema político consagrado à pilhagem do Estado. O dilema econômico pendente, expresso pelo fracasso do ajuste fiscal, continuaria sem solução. Mas a sociedade pagaria a transação da saída de Dilma pela renúncia ao aprofundamento da nossa Operação Mãos Limpas.
Diniz sustentou por quase três anos um rumoroso conflito empresarial sem nunca fechar-se numa sala para conciliar com o Casino. Mas acha que a crise nacional gerada pelo estatismo, pelo neopopulismo e pela privatização partidária do Estado é assunto menos complexo –e ainda tem quem o aplauda. O "Financial Times" descreveu o Brasil como "um filme de terror". Vai ver, é por isso.
Fonte: Folha de São Paulo (05/09/15)
Sem povo e sem as oposições, solução da crise fica distante (Marco Aurélio Nogueira)
A especulação é uma só: o que estaria por trás das declarações bombásticas e nada cautelosas do vice-presidente Michel Temer, feitas ontem (3/9) a um grupo de empresários e ativistas de oposição?
Temer não poupou palavras ao dizer que acha difícil Dilma “resistir três anos com popularidade tão baixa” e que seu mandato estará ameaçado caso a situação política e econômica não melhore até meados de 2016. Reiterou que alguém precisa surgir para “reunificar o País”, mas não apontou quem poderia desempenhar este papel e nem se ofereceu, por não querer parecer “oportunista”.
No dia seguinte, o ministro da Comunicação, Edinho Silva, veio a público esclarecer que as palavras do vice-presidente foram descontextualizadas, que ele não disse o que acharam que disse e que sua lealdade ao governo é inquestionável. “Mais que uma frase ou outra que geralmente é utilizada e que gera polêmica, para nós o fundamental tem sido a postura do vice-presidente Michel Temer. E, nesse sentido, ele tem sido extremamente leal, correto, não só com o governo da presidenta Dilma, mas leal e correto com os interesses do país”, afirmou.
Seja como for, a impressão generalizada é que o vice-presidente tentou ciscar para dentro e para fora: mostrar lealdade a Dilma sem deixar de cortejar a oposição e de acenar para ela com um esboço de solução. Quis fixar com clareza que é do governo mas tem voo próprio.
A questão é saber se sua manobra é factível e se angariará apoio e seguidores. A polarização atual torna difícil que se cisque para os dois lados ou se fique em cima do muro. Temer, além disso, não é propriamente um estadista, um político de gestos simbólicos fortes, com uma biografia mítica, imagem consolidada e discurso emblemático. Não é Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. Também não é Lula, que quando em boa forma conseguia levantar multidões.
Temer é tão-somente vice-presidente de um governo sem rumo e um dos principais próceres do PMDB, partido que não mais tem vocação unificadora ou pegada “nacional-popular”. Não é pouco, mas não parece suficiente para impulsionar uma operação complexa como a de encontrar um modo de desatar o nó da crise nacional.
Resta a Temer fazer o mais decisivo: convencer a população de que é uma boa opção e trazer para seu lado as oposições, antes de tudo o PSDB.
No primeiro caso, precisará pensar em cidadãos que esteja além dos ativistas que vem enchendo a Av Paulista para protestar contra o governo. Terá de fazer como Joaquim Nabuco na campanha abolicionista: “ter resolução ou vontade de romper as ficções de um parlamentarismo fraudulento, como é o nosso, para procurar o povo nas suas senzalas ou nos seus mocambos e visitar a nação no seu leito de paralítica”. Em suma, falar com os milhões de brasileiros, para o que lhe faltam instrumentos associativos, pontes de acesso e projeto.
No caso das oposições, precisará antes de tudo unificá-las e dar-lhes um discurso claro e coeso, que é o que mais falta. Entre tucanos “radicais” pró-impeachment e tucanos “moderados” há um mar a ser atravessado. Se Temer conseguir caminhar sobre as ondas, poderá despontar como um estadista que ajudou a encontrar uma solução e “salvar” o País. Se fracassar, terá de se conformar com a posição de vice de um governo a que aderiu por erro de cálculo e que, ao soçobrar, o arrastará consigo para as águas do oceano profundo.
Fonte: O Estado de São Paulo (05/09/15)
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
"O Peemedebismo na era post-lulista: entre silêncios, hesitações, incertezas e rumos" (José Roberto bonifácio)
Os spots televisivos do PMDB foram ao ar antes dos do PSOL, mas não foram tão reiterada e extensamente comentados como os deste ultimo.
"O Brasil fez apostas que não deram certo", "Aceitar a verdade" e "O Brasil é maior" foram alguns dos motes recitados pelos politicos e lideres partidarios convidados a participar da peça publicitária.
A tonalidade e o direcionamento é claro, firme e bem premeditado.
A sinalização, como todos devem saber, é a de ruptura elusiva com o governo federal petista e de recepção à tese impedimentista, seja ela de qualquer origem ou motivação possivel - como a mais recente hoje impetrada pelo jurista Helio Bicudo, ex-simpatizante do PT e atualmente um ativo critico da legenda e do lulismo.
O rompimento qualifica-se como "elusivo" por não oferecer maiores detalhes e pormenores acerca do rumo a ser seguido ou dos procedimentos a serem mobilizados. Aqui a diferença com relação à propaganda do PSOL, por mais setorialista e direcionada às minorias etnicas e de genero que esta seja, fica muito marcada.
Nada se diz, p.ex., sobre a politica macroecnomica, topico sobre o qual repousam dimensões tão criticas e prementes para o país como: a (i) sustentabilidade financeira e orçamentária do setor publico, (ii) a coerência e a habilidade das decisões coletivas do Presidencialismo de Coalizão e (iii) o bem estar de algumas dezenas de milhões de pessoas recentemente (temporariamente?) subtraidas à condição da pobreza (a chamada "classe C" ou "nova classe média") e da exclusão social.
Nada se diz acerca dos desdobramentos institucionais e politicos da Operação Lava Jato, sobre as operações da PF e os indiciamentos do MPF, embora alguns dos maiores proceres da legenda (Cunha, Renan, Temer) sejam os potencialmente mais afetados. A elusividade aqui, para não dizer ironica, não poderia ser a mais propositada, como pareceu, para muitos, o ilusionismo do PSOL em agir como agente "terceirizado" de "blindagem" ao governo petista, ataque a seus adversários (Cunha o mais notorio, e o Peemedebismo, secundariamente) e defesa de sua agenda.
Como é de sua mesma natureza e história o Peemedebismo se comporta de maneira reposicionar-se no centro do sistema político, levando consigo toda a constelação de forças (nanolegendas, grupos de interesses, oligarquias regionais e, mais recentemente, grupos religiosos... etc) que o orbita. As consequencias, como de habito, serão avassaladoras.
O que nos leva à terceira ordem de ausencias ou lacunas no discurso: nada se mencionou sobre a presidente Dilma Roussef e seu mandato, suas políticas e seu gabinete. Ao menos não diretamente. Contudo, a sinalização que foi deixada pairando no ar (o silêncio eloquente) é inequivoca apartação prática, como antes meramente discursiva, entre o PMDB e o PT.
Caminhos separados, apos um relacionamento forçado, desconfortavel e tempestuoso entre duas subculturas politicas bastante singulares e opostas entre si, ainda que não tão dispares pelo prisma ético-moral.
Aliás atualmente nenhum analista ou observador da cena politica se arriscaria a diagnosticar diferenças notaveis neste quesito. O que aumenta ainda mais a incerteza e a imprevisibilidade decorrente dos silêncios e da elusividade peemedebista.
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