quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cuspiu no prato que comeu (Roberto Beling)




"Quem joga os amigos ao mar não contará com eles na tempestade"
Roberto Beling

1. O  PT,  depois da acachapante derrota eleitoral de 1982, quando descobriu que os slogans "trabalhador vota em trabalhador" e/ou  "vote no 13, o resto é burguês", só funcionavam na cabeça dos intelectuais, redirecionou o seu discurso em direção a classe média, ainda apenas lida e compreendida nos canones dos escritos de Marx/Engels.
Descoberta dura da realidade. Descoberta daquilo que havia sido escrito e reescritos por diferentes intelectuais: a classe média era o centro de gravidade da política brasileira.
Sem ler Helio Jaguaribe chegava a realidade pelo choque da verdade das urnas.

2. Não apenas direcionava o discurso, como se tornou fundamentalmente um partido de classe média, nos seus quadros dirigentes e bases eleitorais. 
Nos estratos de maior renda e escolaridade, especialmente no segmento universitário, a preferência eleitoral por Lula, a militância pelo PT chegou a seus índices mais elevados.
Nós, que vivemos a política na Universidade nos anos 80 e 90, sabemos o que isso significou e como impactou a opinião pública brasileira

3. O Lulismo produziu uma inflexão na base social do governo. André Singer mostrou bem esse processo, sociologicamente importante e dado novo novo na realidade, mas lido equivocadamente do ponto de vista político pelos ideólogos e pensadores do sistema, como Franklin Martins e os marqueteiros governamentais.
Nova base social, nova legitimidade baseada nos emergentes.


4 O problema é que PT e o Governo acabaram prisioneiros de seu próprio discurso. A chave ou pedra filosofal do novo entendimento social estava na proclamação do fim da chamada opinião pública. A chave do processo estava na distinção entre a opinião publicada (que até então era entendida como opinião pública) e a verdadeira opinião da legião de não escolarizados, desorganizados, etc, mas incorporados pelo processo de inclusão social desencadeado pelo governo. 

5. A essa nova realidade só havia um intérprete e apenas uma liderança com capacidade de traduzir e falar dos anseios dessa nova massa.
O problema é que essa relação carismática e quase messiânica dependia da locução diária do líder, de um palanque permanente para Lula. 
Palanque, esse, que deixa de existir quando encerra seu mandato, mesmo fazendo a sucessão com sucesso, inaugurando o que depois se tornaria uma espécie de certeza: a capacidade de eleger postes. 

6. Ao conceito antigo de “opinião pública” , entendido e traduzido  agora apenas como opinião publicada pela grande mídia, ficou reservado a redução e qualificação ou desqualificação de PIG (partido da imprensa golpista). 
Repercutido pelos chamados blogueiros "progressistas" da Petrobrás e da Caixa, toda e qualquer crítica era associado a movimentos golpistas e conspirações das elites. 

7. O governo e o Lulismo criaram a própria viseira que não lhe permitiu enxergar o movimento de insatisfação/desencanto que tomava conta de vários setores da sociedade, especialmente o cansaço/desencanto e insatisfação da desqualificada classe média.
Essa, agora, entendida apenas como mera repercutidora do discurso moralista, com vezo da antiga UDN (esquecendo-se que quando o PT se reivindicava o monopólio da ética e da moralidade pública também era tachada - remember Brizola - pejorativamente de "UDN de macacão").

8. Desdenhando aqui e ali, Marcos Coimbra, guru das pesquisas do governo, no seu último artigo, elencava 10 razões porque a sucessão e reeleição era coisa definida e no horizonte do Governo só se vislumbrava um céu de brigadeiro.
A oposição só era percebida no fragilizado trio PSDB/DEM/PPS. O resto comia tranquilo nas mãos do Governo.

9. O que Marcos Coimbra desdenhou era a alteração radical na curva de preferências e satisfação com o governo.
Invertia-se a curva de aprovação/desaprovação  entre setores de maior renda e escolaridade, exatamente os segmentos que haviam catapultado o crescimento do PT, a partir do final dos anos 80.

10. As pesquisas confirmavam o que as urnas já estavam indicando. Como exercício, compare-se a votação de Lula no DF em 1989 e a de Marina em 2010.

11. Suprema ingratidão. No lançamento do livro "10 anos de governos posliberais no Brasil", Marilena Chauí, teórica petista de priscas eras e justificadora do mensalão e congeneres, resolveu desancar as classes médias como direitistas, fascistas, atrasadas, etc. Esqueceu que o PT chocou, enquanto formulação, no berço da Universidade, berço esplendido da classe média.
E aí, de repente, os filhos dessa classe média tomaram as ruas, e trouxeram, na sequência, os pais, os amigos,papagaios e piratas (não há uma boa foto política sem um papagaio de pirata). 

12. Só para lembrar o comentário que José Roberto Bonifácio, postou por aqui: a esquerda se comporta diante da classe média do mesmo modo como a direita se posicionava em face das massas atendidas pelo bolsa-família e outros programas sociais: expressando intensa animosidade, quando não ojeriza ou hostilidade explicitas. As consequências politicas disso não tardarão.

E continua JR: não creio que seja uma boa rotular assim a juventude de classe media refrataria ao complexo UNE/CUT/PT como "protofascista". Essa coisa de usar categorias dum discurso politico habitual para descrever coisas novas, especialmente numa conjuntura em que se questiona violentamente uma hegemonia longamente estabelecida na sociedade civil, já se provou perigosa e ineficaz. Trata-los como "fascistas" em potencial ou reais vem a ser uma confissão de inépcia e uma recusa em ressocializa-los politicamente, em compreender adequadamente suas aspirações, desejos e necessidades. É jogar a toalha antes que o jogo termine.
Em verdade aquilo ecoa por toda a internet e "fascismo" virou mantra recorrente, sistemático e obsessivo da esquerda - enquanto reação atávica e irrefletida ao questionamento de sua hegemonia na sociedade civil. Basta ver os blogs, o twitter, o próprio facebook.

13. E para lembrar: Os jovens que hoje estão nas ruas se formaram em um contexto em que os partidos e políticos se desmoralizavam a cada dia. A política movida por uma lógica própria,  alienada da sociedade e seus sentimentos. Lógica dominada pela única e exclusiva busca da reprodução do poder, da conquista e manutenção do poder pelo poder.
Nessa lógica do poder como fim e dos interesses corporativos como objetivo o pragmatismo espúrio dominando todo e qualquer universo de valores possível. 
Cansaço e desencanto com essa política, políticos e partidos que estão aí.
E paro essa reflexões no número 13 em homenagem ao PT e, na certeza, que acima das práticas espúrias, haverá uma massa de  militantes na sua base que saberá reconstruí-lo.

PS: Texto elaborado coligindo notas postadas no facebook.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

José Murilo de Carvalho: povo brasileiro despertou da letargia



José Murilo de Carvalho. Foto: Divulgação/Companhia das Letras
José Murilo de Carvalho.
Foto: Divulgação/Companhia das Letras
Para o historiador e cientista político José Murilo de Carvalho, o povo brasileiro despertou de uma letargia que durava desde o impeachment de Collor e, sobretudo, desde o início do governo do PT. Diante do levante, políticos e governo estão perplexos.
Ele deu entrevista ao blog da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos sobre as manifestações que estão ocorrendo pelo Brasil.
Quais as principais diferenças entre os protestos de agora e os de décadas atrás?
Em relação às diretas e impeachment, imprevisibilidade e multiplicidade de motivos.
Um “movimento” difuso, descentralizado, caracterizado por múltiplas causas e com diferentes formas de manifestação (pacífica X violenta) pode ser considerado um movimento ou está mais perto de uma catarse social?
Se quisermos precisão conceitual, seria uma manifestação popular, ou da classe média imprensada entre os grandes favorecidos da políticas econômica e social, os MUITO ricos e os MUITOS pobres.
Como o senhor avalia as reações dos governantes e das lideranças partidárias à emergência inesperada deste movimento, especialmente aqueles ligados ao PT que foi, no passado, vanguarda de muitas manifestações populares de rua?
Todos perplexos, como o resto do país. Governo e petistas constrangidos e desorientados, como seus acólitos, CUT, UNE etc. Presidente, orientada pelo marqueteiro, oportunista. Prefeitos e governadores acuados. Políticos em geral, com orelhas quentes, esperando a onda passar. Oposição em silêncio prudente e medroso.
É possível dimensionar a importância deste momento/movimento para a história do Brasil? O que deve mudar daqui para frente?
Pergunta para profeta. Qualquer avaliação agora será temerária.
O senhor acredita que o povo brasileiro esteja despertando para a cidadania? 
Despertou de uma letargia que durava desde o impeachment de Collor e, sobretudo, desde o início do governo do PT.
O que espera dos protestos?Resultados imediatos, só a revogação dos aumentos das passagens, mas já com ameaça de cortes não sabe onde  (certamente não nas gorduras, isto é,  mordomias, publicidade, excesso de cargos comissionados, altos salários), e talvez a derrota da PEC 37, a tal da impunidade. A queda de prestígio da presidente pode levá-la, com olho na eleição, a rever sua  política econômica para maior controle da inflação. O desprestígio de partidos e políticos em geral (e agora também de organizações operárias e estudantis) continuará a ser combustível para próximas explosões
.

Pierre Lévy comenta os protestos no Brasil: ‘Uma consciência surgiu. Seus frutos virão a longo prazo’

Filósofo francês, uma das maiores autoridades do mundo nos estudos da cibercultura, fala sobre mobilização em redes sociais



Para Pierre Lévy, é impossível controlar a mídia social
Foto: Divulgação
Para Pierre Lévy, é impossível controlar a mídia socialDIVULGAÇÃO

RIO - A resposta ao pedido de entrevista é direta:
“O único jeito é via Twitter”, disse o filósofo francês Pierre Lévy, uma das maiores autoridades do mundo nos estudos da cibercultura. E assim foi feito. Lévy conversou com O GLOBO na tarde de segunda, via Twitter, sobre os protestos que vêm ocorrendo no Brasil nas últimas semanas e que surgiram das redes sociais.

Nos últimos anos, muitos protestos emergiram da internet para as ruas. Como o senhor os compararia com manifestações do passado, como Maio de 1968?
Há uma nova geração de pessoas bem educadas, trabalhadores com conhecimento, usando a internet e que querem suas vozes ouvidas. A identificação com 68 está no fenômeno geracional e na revolução cultural. A diferença é que não são as mesmas ideologias.
Mas qual é a nova ideologia? No Brasil, críticos falam da dificuldade em identificar uma ideologia única nas ruas.
Uma comunicação sem fronteiras, não controlada pela mídia. Uma identidade em rede. Mais inteligência coletiva e transparência. Outro aspecto dessa nova ideologia é o “desenvolvimento humano”: educação, saúde, direitos humanos etc.
E qual seria a solução? Como os governos devem lidar com os protestos?
Lutar com mais força contra a corrupção, ser mais transparente, investir mais em saúde, educação e infraestrutura. Porém, a “solução” não está apenas nas mãos dos governos. Há uma mudança cultural e social “autônoma” em jogo.
No Brasil, um dos problemas é que não há líderes para dialogar. Qual seria a melhor forma de se comunicar com movimentos sem lideranças?
A falta de líderes é um sinal de uma nova maneira de coordenar, em rede. Talvez nós não necessitemos de um líder. Você não deve esperar resultados diretos e imediatos a partir dos protestos. Nem mudanças políticas importantes. O que é importante é uma nova consciência, um choque cultural que terá efeitos a longo prazo na sociedade brasileira.
E as instituições? Elas não são mais necessárias? É possível ter democracia sem instituições?
É claro que precisamos de instituições. A democracia é uma instituição. Mas talvez uma nova Constituição seja uma coisa boa. Porém, sua discussão deve ser ainda mais importante do que o resultado. A revolta brasileira está acima de qualquer evento emocional, social e cultural. É o experimento de uma nova forma de comunicação.
Então, o senhor vê os protestos como o início de um tipo de revolução?
Sim, é claro. Ultrapassou-se uma espécie de limite. Uma consciência surgiu. Mas seus frutos virão a longo prazo.
O que separa a democracia nas comunicações da anarquia? Pode-se desconfiar do que é publicado na mídia, mas o que aparece nas redes sociais é ainda menos confiável.
Você não confia na mídia em geral, você confia em pessoas ou em instituições organizadas. Comunicação autônoma significa que sou eu que decido em quem confiar, e ninguém mais. Eu consigo distinguir a honestidade da manipulação, a opacidade da transparência. Esse é o ponto da nova comunicação na mídia social.
O senhor teme que os governos tentem controlar as redes sociais por causa de protestos como os que ocorrem no Brasil e na Turquia?
Eu não temo nada. É normal que qualquer força social e política tente tirar vantagem da mídia social. Mas é impossível “controlar” a mídia social como se faz com a mídia tradicional. Você só pode “tentar” influenciar tendências de opiniões.
E e o risco de regimes ou ideias totalitaristas ganharem força por conta dos protestos, como já ocorreu no passado na América Latina?
Isso é pouco provável no Brasil, por conta de sua alta taxa de pessoas com educação. A chave é, como sempre, manter a liberdade de expressão, como ela é garantida pela lei. Não é preciso ter essa paranoia com o fascismo.


Revolta do vintém (José de Souza Martins)




A ilusória prioridade aos pobres deixou de lado a classe média e suas demandas cidadãs

Propor uma Constituinte neste momento é propor um golpe contra a Constituição, que é boa, abrangente e inovadora. O povo não foi às ruas pedir um golpe de Estado. Foi à rua pedir o cumprimento da lei. Convocar um plebiscito para votar as políticas a serem adotadas em relação aos problemas levantados agora pelas multidões pode ser um sinal de fraqueza e insegurança. O plebiscito já foi feito, nas ruas.

O que está acontecendo nestes dias não tem dimensão partidária, a não ser por implicação. Desenrola-se no plano da indignação moral acumulada em anos de abusos contra o interesse público, desdém pelas carências populares e pouco caso pela inteligência da população em obter, processar e compreender a informação cada vez mais acessível a todos. No plano moral, os manifestantes antepuseram a nação aos partidos. O Brasil foi às ruas exigir do governo um projeto de nação e não um projeto de classe social; e políticas para todos, não para facções.

Cartazes,palavras de ordem, monumentos e edifícios visados, símbolos atingidos, mostram que o Brasil das ruas exige que a política se sujeite à moral e aos bons costumes; que os valores sociais e éticos sejam antepostos aos interesses antissociais da economia escusa e do poder corrupto.

O povo foi às ruas para dizer ao governo e à sociedade o que devevir antes e o que deve vir depois, que a educação, a saúde, os direitos sociais, a vida e o bem-estar de todos, são mais importantes que o futebol monumental, das despesas bilionárias, do espetáculo para inglês ver, mais importantes do que as obras faraônicas e inacabáveis. Tudo indica que a era das esperanças messiânicas e do silêncio cúmplice esteja chegando ao fim.

Os manifestantes questionaram a política de pão e circo. Fizeram a crítica ruidosa da política de coalizão e cumplicidade, do Estado fragmentado e loteado, dos favorecimentos, do toma lá dá cá, do poder pelo poder. A rua disse aos poderosos que o poder é do povo, que o mandato é representação política e não privilégio de casta, é temporário e precário.

Eleição, no Brasil, tem sido uma renúncia, a vontade política do povo sequestrada pelos eleitos e pelos partidos, que raramente representam o eleitor de vontades e carências, representando muito mais os grupos de interesse que o instrumentaliza. O poder do lobismo junto aos parlamentares e ao governo confirma essa distorção. O sistema político brasileiro tornou-se um sistema de silenciamentos e cumplicidades. A crítica social foi inviabilizada pelos donos oficiais da verdade, seja a crítica popular, seja a crítica profissional dos especialistas. O cala-boca virou instrumento de dominação. Partidos e movimentos sociais organizados ignoram ou desqualificam as interpretações que não venham de seus próprios quadros. Não há debate. Criou-se no Brasil o mero teatro da participação política e a real exclusão da diversidade e das demandas sociais emergentes, as que não foram capturadas pelo sistema de conivências, cumplicidades e temores. Um extenso silêncio acumula, na verdade, um elenco extenso de demandas sociais não reconhecidas nem pelo governo, nem pelos partidos, nem pelos grupos de mediação que fecharam os canais de comunicação entre o povo e o poder.

Esse sistema político deteriorado está claramente presente na crítica contida nos descontentamentos destes dias.Uma grande massa de silenciados no cotidiano encontrou uma brecha para gritar suas diversificadas e desencontradas demandas e manifestar sua crítica do poder e dos governos. Num regime político baseado em pautas de negociação de grandes quantias e grandes porcentagens, foi uma simples demanda de redução de 20 centavos na tarifa dos ônibus que disseminou a revolta, aglutinou o elenco das pequenas demandas sociais e fez emergir um novo sujeito político, que é o das demandas residuais tratadas como irrelevantes.

A nova revolta do vintém colocou no centro do processo político brasileiro a fome de palavra e a fome de direitos sociais. Trata-se de uma nova pobreza, a pobreza de direitos, nos abusos que reduziram o transporte público a uma punição, a educação a uma condenação à falta de destino e de futuro, a saúde pública a uma doença. Henri Lefebvre, eminente sociólogo francês, estudioso da revolta estudantil de 1968, foi quem trabalhou teoricamente a revolta dos subterrâneos, a insubmissão das demandas que não foram capturadas pelo poder, a coalização dos resíduos do que não encontrou canal de expressão nos meios políticos e institucionais. Aqui, também, o fato de que as manifestações não se enquadrem em nenhum dos esquemas convencionais de interpretação sugere que estamos em face da irrupção do descontentamento dos que não foram contemplados pelas políticas sociais dos governos. A demagógica e ilusória prioridade aos pobres deixou de lado a classe média e suas demandas justas e cidadãs. Os órfãos de políticas sociais foram às ruas, cercaram os palácios e querem já uma revisão do poder e da concepção de poder.

* José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e autor, entre outros, de a Sociabilidade do homem simples (Contexto)

Fonte: Aliás / O Estado de S. Paulo (30/06/13)

"O povo não vai se cansar de protestar" (Manuel Castells/entrevista)


Por Maurício Meireles

Para o sociólogo catalão Manuel Castells, boa parte dos políticos é de "burocratas preguiçosos". Ele é um dos pensadores mais influentes do mundo, com suas análises sobre os efeitos da tecnologia na economia, na cultura e, principalmente, no ativismo. Conhecido por sua língua afiada, o espanhol falou ao GLOBO por e-mail sobre os protestos.

Os protestos no Brasil não tinham líderes. Isso é uma qualidade ou um defeito?

Claro que é uma qualidade. Não há cabeças para serem cortadas. Assim, as redes se espalham e alcançam novos espaços na internet e nas ruas. Não se trata, apenas, de redes na internet, mas redes presenciais.

Como conseguir interlocução com as instituições sem líderes?

Eles apresentam suas demandas no espaço público, e cabe às instituições estabelecer o diálogo. Uma comissão pode até ser eleita para encontrar o presidente, mas não líderes.

Como explicar os protestos?

É um movimento contra a corrupção e a arrogância dos políticos, em defesa da dignidade e dos direitos humanos - aí incluído o transporte. Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes.

Por que o senhor disse que os protestos brasileiros são um "ponto de inflexão"?

É a primeira vez que os brasileiros se manifestam fora dos canais tradicionais, como partidos e sindicatos. As pessoas cobram soberania política. É um movimento contra o monopólio do poder por parte de partidos altamente burocratizados. É, ainda, uma manifestação contra o crescimento econômico que não cuida da qualidade de vida nas cidades. No caso, o tema foi o transporte. Eles são contra a ideia do crescimento pelo crescimento, o mantra do neodesenvolvimentismo da América Latina, seja de direita, seja de esquerda. Como o Brasil costuma criar tendências, estamos em um ponto de inflexão não só para ele e o continente. A ideologia do crescimento, como solução para os problemas sociais, foi desmistificada.

O que costuma mover esses protestos?

O ultraje, causado pela desatenção dos políticos e burocratas do governo pelos problemas e desejos de seus cidadãos, que os elegem e pagam seus salários. O principal é que milhares de cidadãos se sentem fortalecidos agora.

O senhor acha que eles podem ter sucesso sem uma pauta bem definida de pedidos?

Acho inacreditável. Além de passarem por uma série de problemas urbanos, ainda se exige que eles façam o trabalho de profissional que deveria ser dos burocratas preguiçosos responsáveis pela bagunça nos serviços. Os cidadãos só apontam os problemas. Resolvê-los é trabalho para os políticos e técnicos pagos por eles para fazê-lo.

Com organização horizontal, esse movimento pode durar?

Vai durar para sempre na internet e na mente da população. E continuará nas ruas até que exigências sejam satisfeitas, enquanto os políticos tentarem ignorar o movimento, na esperança que o povo se canse. Ele não vai se cansar. No máximo, vai mudar a forma de protestar.

Outra característica dos protestos eram bandeiras à esquerda e à direita do espectro político. Como isso é possível?

O espaço público reúne a sociedade em sua diversidade. A direita, a esquerda, os malucos, os sonhadores, os realistas, os ativistas, os piadistas, os revoltados - todo mundo. Anormal seriam legiões em ordem, organizadas por uma única bandeira e lideradas por burocratas partidários. É o caos criativo, não a ordem preestabelecida.

Há uma crise da democracia representativa?

Claro que há. A maior parte dos cidadãos do mundo não se sente representada por seu governo e parlamento. Partidos são universalmente desprezados pela maioria das pessoas. A culpa é dos políticos. Eles acreditam que seus cargos lhes pertencem, esquecendo que são pagos pelo povo. Boa parte, ainda que não a maioria, é corrupta, e as campanhas costumam ser financiadas ilegalmente no mundo inteiro. Democracia não é só votar de quatro em quatro anos nas bases de uma lei eleitoral trapaceira. As eleições viraram um mercado político, e o espaço público só é usado para debate nelas. O desejo de participação não é bem-vindo, e as redes sociais são vistas com desconfiança pelo establishment político.

O senhor vê algo em comum entre os protestos no Brasil e na Turquia?

Sim, a deterioração da qualidade de vida urbana sob o crescimento econômico irrestrito, que não dá atenção à vida dos cidadãos. Especuladores imobiliários e burocratas, normalmente corruptos, são os inimigos nos dois casos.

Protestos convocados pela internet nunca tinham reunido tantas pessoas no Brasil. Qual a diferença entre a convocação que funciona e a que não tem sucesso?

O meio não é a mensagem. Tudo depende do impacto que uma mensagem tem na consciência de muitas pessoas. As mídias sociais só permitem a distribuição viral de qualquer mensagem e o acompanhamento da ação coletiva.

Fonte: O Globo (30/06/13)

Indignação furiosa (Luiz Eduardo Soares)



A classe média descobriu a brutalidade policial, que os pobres e negros nunca ignoraram. Polícia tornou-se um dos temas chave nas ruas

A sociedade brasileira tomou as ruas e sequestrou para si o título que lhe custara bilhões de reais e, por decisões autocráticas, a excluíra: o grande evento. Centenas de milhares de pessoas deslocaram o campo de futebol para o meio da rua e vestiram a camisa do país, assumindo inaudito protagonismo histórico. Resta ao intérprete calçar as sandálias da humildade e admitir sua ignorância e perplexidade ante o fenômeno radicalmente novo. O interesse público fora confiscado pela tecnocracia, aliada a empreiteiras e subserviente à tutela arrogante (e voraz) da Fifa. Os chamados "grandes eventos" serviram de justificativa para lucros extraordinários e para a festa da especulação imobiliária, sob a retórica do legado social, enquanto a mobilidade urbana tornava-se, crescentemente, uma contradição em termos. A massa rompeu expectativas e a tradição de apatia, inventando um movimento que será, por suas lições e efeitos, o verdadeiro legado às gerações futuras. A narrativa passou a ser escrita, nas ruas e nas redes virtuais, por milhões de mãos e vozes, desejos e protestos, inscrevendo seus autores na cena global, em diálogo com outras praças, outras multidões, outras lutas. A sociedade virou o jogo.

Aplicar velhos esquemas cognitivos serve apenas para exorcizar o novo, domesticar a diferença e mascarar a insegurança intelectual, confirmando velhas crenças e categorias. O momento exige humildade do intérprete e o reconhecimento de que também as categorias tradicionais com que opera estão em xeque, desestabilizadas pela potência disruptiva e criadora do movimento social. Além disso, é necessário reconhecer que a disputa central agora é pelos significados do que está acontecendo, porque do consenso que se construir sobre o sentido dependerá o desdobramento do processo político. Projetando-se os modelos cognitivos convencionais sobre o que é radicalmente diferente, só se vê o que o movimento não é: "não organizado, sem liderança ou centro, desprovido de ideologia e de objetivos, irracional etc." Entretanto, ele existe. Como descrever sua positividade? Comecemos por ecoar sua polifonia.

A terra treme porque o país avançou, e as desigualdades, embora ainda imensas, reduziram-se significativamente. As manifestações não são sintoma de declínio, mas afirmação de força e fé no futuro, ainda que pelo avesso, isto é, sob a forma de protesto indignado contra o que, contrastando com os avanços – e mesmo tendo sido por décadas naturalizado – agora tornou-se inaceitável. O pensador francês do século 19 Tocqueville nos ensinou que a miséria e a vulnerabilidade social só conduzem à reiteração da impotência. Rebelam-se os que têm a perder, conquistaram avanços, sentem-se potentes e sob ameaça. A sociedade brasileira aprendeu a valorizar a cidadania e despertou da inércia.

Os atores reunidos nas ruas, na maioria jovens, são os mais diversos, têm diferentes origens sociais, falam todas as línguas ideológicas e vocalizam as mais variadas denúncias e reivindicações. Seria artificial e contrário ao espírito das manifestações submeter o coro de contrários a uma univocidade ortopédica.

Entretanto, uma certeza é consensual: a representação política ruiu. Não é de hoje, mas somente agora o escárnio das esquinas, a repulsa ao mundo político que se limitava às conversas cotidianas ganhou corpo e visibilidade, tanto quanto ganharam visibilidade e reconhecimento milhões de cidadãos antes unidos pelo ressentimento, sentindo-se diariamente desrespeitados pelas autoridades, pelas instituições, pelo transporte público, pelas condições da saúde e da educação. 

O colapso da representação vinha sendo coberto pela competência do executivo federal, por políticas públicas exitosas, pelo carisma de Lula. Na atual conjuntura, o executivo não é mais escudo protetor para a ilegitimidade do Parlamento, em razão de inúmeros tropeços: repique inflacionário, retrocesso na proteção ao meio ambiente, passividade ante assassinato de indígenas, alianças com impostores venais que tornaram "governabilidade" sinônimo de vale tudo, passividade ante chantagens obscurantistas e regressivas de religiosos fundamentalistas, e tantas hesitações e contradições de um governo claudicante, que recorre ao BNDES para selecionar vencedores, não tem capacidade de investimento, convive com uma infraestrutura sucateada, é insensível ao desafio da competitividade industrial e mantém-se fiel a um modelo econômico insustentável, voltado para o consumo e a proliferação epidêmica de automóveis. Observe-se que nesta lista de problemas há munição ampla o suficiente para atingir a todos, à direita e à esquerda. O colapso da representação política significa o divórcio entre o Estado e a sociedade.

Um fator determinante foi a cooptação do PT e de um grande número de sindicatos e movimentos sociais por parte do governo federal. A história é pródiga em exemplos de desastres provocados pela superposição entre Estado, governo e partido. Resultado: o PT perdeu a rua, e a UNE, devorada pelo aparelhismo do PCdoB, foi a grande ausente. Erro dramático do PT e do governo federal: no começo, um mar de rosas, ruas vazias, aplausos das categorias, paz para governar. Agora, o vazio, a impotência, a impossibilidade para liderar, dirigir e até mesmo disputar. E o país diante da necessidade de reinventar a política.

E a violência nas ruas?

Imaginemos a seguinte descrição do despertar da sociedade brasileira:

O paciente coletivo respirava por instrumentos na UTI. Graças às melhorias socioeconômicas das últimas duas décadas, recuperou a consciência e os movimentos do corpo, ergueu-se, descobriu que sua casa fora ocupada por políticos venais interessados na reprodução de seus mandatos, cúmplices de empreiteiras e do capital financeiro vinculado à especulação imobiliária, vândalos oficiais a serviço do modelo automotivo de desenvolvimento insustentável, arruaceiros do interesse público, baderneiros bem-comportados de paletó e gravata, desordeiros de colarinho branco. Furioso, o paciente, agora impaciente, espana os parasitas com o vigor redescoberto.

Creio que esse relato traduza o sentimento que flui nas manifestações. O que parecia ser ordem, antes da onda de protestos, correspondia a transgressões continuadas à Constituição e aos princípios mais elementares da moralidade pública.

Consultemos, agora, imaginariamente, os sentimentos e as percepções difusas dos jovens mais pobres que têm convivido, diariamente, com a brutalidade policial. Tomo como exemplo acontecimentos desta semana, no complexo de favelas cariocas da Maré: policiais do Bope invadiram residências (derrubando portas e sem mandado judicial), quebraram utensílios domésticos, humilharam, agrediram e ameaçaram moradores dentro de suas casas. Na operação, morreram 10 pessoas: um policial, sete considerados suspeitos de participação no tráfico de drogas e dois oficialmente tidos por inocentes. Contemplemos por um instante outros fatos recorrentes no Rio e em vários outros Estados: chacinas são perpetradas por policiais, milicianos tiranizam comunidades, armas e drogas são apreendidas a ferro e fogo, em incursões bélicas que ferem e matam inocentes, mas são devolvidas em seguida, mediante negociações com traficantes locais ou facções rivais, à luz do dia, diante da comunidade. As autoridades prometem investigar com rigor – e não alteram os protocolos da ação policial. O Ministério Público é responsável pelo controle externo da atividade policial, mas tem sido omisso, com plena anuência da Justiça – ressalvadas as honrosas exceções, entre elas a saudosa juíza Patrícia Acioli, assassinada com 21 tiros por policiais. Quantos profissionais das polícias, envolvidos em chacinas, no rastro dos ataques do PCC em São Paulo, em 2006, foram punidos? 

Quantos foram investigados e punidos no Rio, onde 9.231 mortes foram provocadas por ações policiais entre 2003 e 2012? Esses dados deveriam levar-nos a compreender a fonte da indignação furiosa de quem depreda – deixo de lado, evidentemente, os criminosos que se aproveitam da situação. Não se trata de justificar a violência, mas de entender suas raízes e, sobretudo, de explicar por que a massa considera hipócrita o foco da mídia na ação dos assim chamados "vândalos". Antes das manifestações, não havia ordem e normalidade, mas vandalismo continuado, praticado por aparelhos do Estado contra muitos, nas periferias, Brasil afora. Falta equidade no tratamento por parte do Estado e da mídia. A ordem tida como natural antes da eclosão das manifestações não era menos destrutiva do que a desordem promovida por alguns manifestantes. Esse é o ponto – o qual, insisto, não justifica a violência, mas a torna inteligível.

A violência cometida nas ruas por grupos sempre atuantes, embora francamente minoritários, têm sido o maior obstáculo ao sucesso do movimento. Quem pratica saques e quebra-quebras põe-se como inimigo da massa que se manifesta nas ruas e contribui para a estigmatização do movimento e seu esvaziamento. Essa prática coloca para qualquer polícia, mesmo a melhor do mundo e a mais democrática, um desafio trágico, um problema insolúvel. Uma polícia para a democracia tem o dever de garantir direitos. É este seu mandato constitucional. Há os direitos dos cidadãos à livre manifestação e também aqueles que estão sendo violados por quem age com violência destrutiva. Está em jogo o interesse público seja na plena liberdade do movimento, seja na proteção ao patrimônio público. Quando manifestantes depredam, criam um dilema incontornável para o poder público e a polícia – e por isso o fazem: projetam seu ódio e buscam um cadáver, geram as condições para o surgimento do mártir, diante do qual as manifestações seriam empurradas para o abismo das retaliações recíprocas intermináveis. O que deve fazer uma polícia comprometida com a legalidade constitucional? Reduzir danos, atuar no limite superior da tolerância e inferior do uso da força, buscar o diálogo, apostar na compreensão da imensa maioria sobre os impasses. O que uma polícia que serve à cidadania, cumprindo o mandato constitucional democrático, não deve fazer? 

Aquilo que tem sido a rotina no Rio e tem ocorrido em outras cidades e Estados: investir na vingança, provocar manifestantes, prender discricionariamente, agredir indivíduos desarmados e isolados, acuar grupos em vez de suscitar condições para que dispersem, atacar arbitrariamente, ostentar o sorriso de escárnio como bandeira de seu ressentimento, reafirmando pela prepotência a profundidade de sua própria insegurança e de seu descompromisso com a legalidade. Tampouco deve usar armas menos letais como se fossem não letais. Pior: como se fossem brinquedos inofensivos de uso ilimitado. De sua parte, cabe ao movimento, mesmo mantendo-se descentralizado e apartidário, organizar-se minimamente para inibir as práticas que, de fato, tentam desqualificá-lo, politicamente.

Duas questões me parecem decisivas:

(1) A classe média descobriu a brutalidade policial, que os pobres e negros nunca ignoraram. Polícia tornou-se um dos temas chave, nas ruas. Por que a presidente omitiu o debate em torno da mudança do modelo policial, que envolve a desmilitarização, e que vem sendo adiada desde a transição democrática? É urgente estender a transição à segurança pública. O silêncio oficial tem sido cúmplice de milhares de execuções extrajudiciais, de torturas, violações cotidianas, inclusive contra os próprios policiais. Até quando reinará a negligência? Nada mais desconectado das ruas e da realidade do que a proposta patética das oposições: "mais verbas para a segurança pública". Como alimentar essa máquina de morte, essa fonte de violações? Nenhum centavo deveria ser concedido antes que se refundassem as polícias.

(2) A proposta presidencial sobre reforma política sem dúvida dialoga com o eixo dos protestos, isto é, focaliza o colapso da representação. Entretanto, só fará sentido se mostrar-se capaz de quebrar os mecanismos em curso. Isso não guarda relação clara para a maioria dos manifestantes com sistema eleitoral – distrital, simples ou misto, ou proporcional –, voto em lista, financiamento de campanha etc. O que poderia conversar com as ruas seria uma proposição radical, que sepultasse a representação política como carreira e negócio. 

Eis um exemplo: para o parlamento, eleições a cada dois anos com apenas uma reeleição, candidaturas avulsas da sociedade seriam possíveis, salários dos deputados seriam iguais aos dos professores, cada um teria três assessores, nada de carro oficial, verba de gabinete ou aposentadoria por oito anos de trabalho, dinheiro para campanha apenas aquele doado por cidadãos (tendo 500 reais como teto – sobre os recursos deveria haver plena transparência com informação em tempo real via internet), nada de tempo na TV, que virou moeda (utilize a internet quem quiser e puder mobilizar sua rede). Eleitos seriam os mais votados, sem os coeficientes partidários e as coligações. Para o Senado, não haveria suplente, os mandatos seriam de quatro anos sem reeleição e as condições seriam as mesmas dos deputados. Para o executivo, apenas um mandato de cinco anos e regras específicas. Enfim, uma transformação realmente profunda poderia sensibilizar a maioria da sociedade e reconectá-la à representação.

Luiz Eduardo Soares, sociólogo e professor da Uerj

Fonte: Zero Hora (RS)

Primavera ou Outono? (R. Penna)


Alguns pensamentos aleatórios sobre as revoltas da atualidade e sobre seus elementos em comum.



Tedd Gurr escreveu, em 1970, um livro que rapidamente tornar-se-ia um clássico das ciências sociais: ”Why Men Rebel”. Ao tentar explicar por que os homens se rebelam em determinados contextos, Gurr desdobrou o conceito de Privação Relativa aplicado às revoltas, levantes e revoluções ao longo da história.

Em resumo, tal conceito pressupõe que a revolta do ser humano — pelo menos no que diz respeito à sua condição material — não advém da simples tensão entre o “ter” e o “não ter”. Pelo contrário, a explicação seria mais sutil e subjetiva. A verdadeira revolta advém da tensão gerada entre o “ter” e a expectativa do que se “pode ter”, isto é, de uma noção relativa sobre o suposto “direito de ter”. A palavra-chave é EXPECTATIVA e ela existe, essencialmente, na mente humana e na comparação que esta faz vis-à-vis o seu meio.  

Obviamente, Privação Relativa não foi nenhuma descoberta em si por parte de Ted Gurr. Marx, Trotsky e outros pensadores também percebiam a dimensão psicosocial como a chave para explicar a insatisfação endêmica de uma coletividade humana até o limiar de sua decisão pela violência aberta. Marx, por exemplo, escreveu em “Trabalho Assalariado e Capital”:

“Seja a casa pequena ou grande, desde que as casas dos arredores não sejam maiores, ninguém reclama das novas construções. Mas, se entre as casinhas, um palácio vem a se erigir, não haverá mais nos arredores senão miseráveis choupanas”. 

Toda essa introdução, de tom mais acadêmico, vem em boa hora à medida que a multiplicação de revoltas pelo mundo — de Tunis a Damasco, de Madrid a Londres — desafiam as análises dos mais rigorosos cientistas sociais. E, antes que me atirem pedras por pronunciar alguns palpites sobre essa questão, saibam que eu sou a primeira pessoa a não querer pasteurizar realidades tão complexas, em países tão distintos e com pressupostos históricos tão divergentes entre si. Afinal, uma ”Teoria do Tudo” sempre tende a superficializar o campo de análise e a nos tornar míopes em nossa observação.

No entanto, ao invés de concluir que os vários sintomas ao redor do mundo são equivalentes (o que definitivamente não são!), seria melhor propor que todos os sintomas partem de uma patologia semelhante ou, até mesmo, de ”mínimo denominador comum”. Seria a partir de um mesmo fenômeno sistêmico que, daí sim, ocorreriam desdobramentos particulares à luz dos contextos sociais de cada país.  À primeira vista, parece inocência intelectual o esforço de conectar as manifestações do Cairo às manifestações de Londres. Afinal, os contextos políticos inglês e egípcio são muito distintos, bem como o perfil especifico dos participantes nas revoltas. Como ligar a aclamada Primavera Árabe aos crimes oportunísticos em Tottenham? Apesar dos contrastes visíveis entre os fenômenos, proponho que ambas sejam ligadas entre si pelo problema da EXPECTATIVA gerada pela atual geração e do seu sentimento de Privação Relativa.  

A promessa feita à geração nascida nos anos 80 e 90 foi de que a educação seria a chave miraculosa para alcançar empregos de alta-qualificação e, ainda mais importante, para satisfazer hábitos de consumo cada vez mais virtiginosos. O veículo para tanto seria o esforço de estudar em uma boa escola, de cursar e conseguir pagar uma faculdade (muitas vezes pela primeira vez na história de toda uma família) e, para uma parcela crescente dos jovens dessa geração, de ainda se submeter a uma pós-graduação ou além para tornar-se realmente competitivo no mercado.

Para essa geração, não há dúvidas de que a vida é, de fato, uma dura e longa maratona. No entanto, diante do império dos valores igualitaristas de nossa época, a ilusão é de que haveria prêmios para todos os colocados. Bastaria o esforço, a conquista individual. No entanto, ao passo em que essa geração superou esses obstáculos educacionais, o objetivo profissional e de vida que tinham em mente não se concretizou para todos. Se segmentarmos o nível de desemprego juvenil na maioria desses países (do Maghreb aos EUA, da Espanha ao Reino Unido), podemos ver índices espetaculares que chegam à casa dos 40-50%. Já entre os que estão empregados, muitos estão em condições de emprego precárias, altamente voláteis e com ganhos pífios diante de um inflação galopante. A sensação é a de que o futuro prometido lhes foi ‘roubado’, uma vez que a expectativa do que poderiam “ter” superou a capacidade de absorção do mercado de trabalho, da qualidade dos empregos e, sobretudo, da satisfação de um perfil de consumo hipertrofiado.

Um exemplo peculiar foi a revolta na Tunísia, ponto de partida da suposta Primavera Árabe. Uma análise brilhante de Amir Tahiri, publicada no jornal The Times em janeiro deste ano (Clique Aqui! para acessar o artigo), explorou a tensão problemática entre expectativas e realidade. A Tunísia tinha a maior quantidade de graduados entre os 21 países do mundo árabe, com uma economia que crescia a taxas próximas a 10% na década de 1990. No entanto, uma conjunção de forças tais como a competição manufatureira com outros países, declínio do emprego qualificado e limitações na alternativa migratória, relegou a geração dos anos 80 a 90 à margem da economia formal. Acrescente a essa equação social alguns fatores tais quais corrupção endêmica, falta de liberdade de expressão e representatividade política pífia. O resultado é a sensação de se ter chegado a um beco sem saída em suas perspectivas profissionais e pessoais, a partir do qual somente a radicalização pela violência aberta parece ser a válvula para uma mudança de realidade.

Não há dúvida de que o papel da internet, dos celulares e das redes sociais é cada vez mais importante nessa conjuntura. No entanto, a tecnologia não deve ser vista como um fator causal e, sim, como um catalizador que coagula indivíduos entre si para gerar uma massa significativa, móvel e articulada (mesmo quando não há uma orientação política clara e unificada entre os seus membros).

A diferença de outras eras está na metodologia usada para mobilizar um grupo social e, sobretudo, em sua dimensão tática. Afinal, não é mais necessário que o fluxo de informação passe pelos nódulos tradicionais monopolizados pelo Estado ou por corporações privadas (isto é, agências de notícia, imprensa, televisão, rádio etc). O fato deste blog existir e servir de plataforma de comunicação direta entre indivíduos, sem intermediários, prova precisamente essa nova realidade. A informação pós-moderna se tornou efetivamente celularizada em cada indivíduo que, por sua vez, é distribuído em um campo hiperconectado de imagens e mensagens intercambiadas em tempo-real. Símbolos, idéias e expectativas são difundidas com essa mesma velocidade. Justamente isso que surpreende e aterrorisa as autoridades públicas tradicionais que precisam encontrar táticas mais flexíveis para fazer face à fluidez das informações pelas redes sociais. Essa novidade em termos táticos é a que tem tornado tão difícil o combate às revoltas nos subúrbios ingleses (os grupos juvenis se mobilizam, se dispersam e se realocam com uma velocidade vastamente superior à velocidade das tropas de choque).

Em meio ao ambiente de expectativas crescentes, de condições decrescentes e da uma impressão de que o apocalipse financeiro está cada vez mais próximo, a atmosfera torna-se cada vez mais inflamável. Basta um Mohamed Bouazizi para a juventude insatisfeita da Tunísia, ou um assassinato para a ‘racaille’ encapuzada de Londres, para que o tecido social e as instituições políticas entrem em rápida combustão. Na base de tudo estaria a tensão insustentável entre expectativas e condições de toda uma geração, isto é, o sentimento relativo de privação e de falta de acesso ao futuro prometido e idealizado.

Diante dessas condições, o retrato otimista e primaveril do começo de 2011 à luz das revoltas no mundo árabe ganha tons mais sombrios ao nos depararmos com o que a história poderá chamar, quiçá no futuro, de um melancólico e decadente Outono Europeu.