quinta-feira, 16 de agosto de 2012

IDEB/2011 - Naufraga a educação de Vila Velha?

O IDEB é o melhor indicador sobre a qualidade da gestão na área da educação. Foi por isso que no último encontro da Undime alguns secretários municipais pediram a não divulgação dos dados, nesse momento. Queriam esconder a lambança sob o tapete.
Afinal, esses números servem para desmascar muito discurso embromador.
Vejam os números de Vila Velha:

5º ano (séries iniciais do ensino fundamental)

2005 - 4.0
2007 - 4.4
2009 - 5.0
2011 - 4.9 (queda de um "ponto" em relação a 2009)
Obs: meta 5.1

9º ano (séries finais do ensino fundamental)

2005 - 3.6
2007 - 3.8
2009 - 4.0
2011 - 4.0
Obs: meta 4.1

É necessário observar que Vila Velha vinha em um consistente processo de crescimento na médias obtidas e superando as metas estabelecidas pelo MEC.

Nacionalmente, os melhores desempenhos e as maiores taxas de crescimento tem se dado nas séries iniciais e em Vila Velha não era diferente. De 2005 para 2007, um crescimento de 4 décimos. De 2007 para 2009, um crescimento de 6 décimos. Crescimento de um ponto de 2005 a 2009.

Nas séries finais,  um crescimento mais moderado, também acompanhando uma tendência nacional, dois décimos a cada Ideb.

O Ideb de 2009 é "híbrido", mede o trabalho do último ano da gestão Max Filho (2008)  e o primeiro ano de Neucimar que ainda usufrui dos resultados do trabalho do gestor anterior.

O Ideb de 2011 pega 2 anos de exclusiva responsabilidade da gestão de Neucimar Fraga, isto é, os anos de 2010 e 2011.  E 2011 representa uma inflexão nesse processo que se observava de 2005 a 2009.
Se  em nível nacional  permanece a tendência de melhores resultados, em Vila Velha caímos um décimo (de 5.0 para 4.9) e ficamos abaixo da meta de 5.1. Ou seja, é quadro preocupante: queda  nas séries iniciais (onde todo mundo cresceu)  e estagnação nas séries finais. Pior, ficamos aquém da meta nacional para o Ideb de 2011.

É, portanto, o retrato do sucateamento a que foi submetida a rede municipal, o desmonte dos projetos pedagógicos executados, o despreparo dos gestores (especialmente a passagem de Heliosandro pela Secretaria) e a descontinuidade administrativa marcada pela passagem de quatro secretários em quatro anos de mandato.
Para quem, em 2009, chamou uma coletiva de imprensa e anunciou que Vila Velha alcançaria 8.0 no Ideb ao final do mandato é um desastre e, mais que isso, um mico.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O legado de Altamiro Carrilho (Juca magalhães)

Esse agosto não está muito bom para a comunidade musical de qualidade não, já perdemos o Celso Blues Boy e o Magro do MPB4 e agora acabo de ver a dolorosa e triste notícia do falecimento do grande flautista Altamiro Carrilho. No fundo nem é tão triste assim, afinal, Altamiro viveu bem 87 anos de muita música e através dela conheceu a glória internacional. Tristeza me dá porque tão poucos são como ele, embora seu legado – e elegância - há de prosseguir nos lábios de um Zé Benedito, meu compadre, seu discípulo dileto no chorinho.

Por essas voltas inexplicáveis que a vida dá, faz quase dez anos eu fiquei por conta de ciceronear o Altamiro aqui em Vitória e Vila Velha, acabei sendo o apresentador de um concerto da OFES com sua participação tocando Mozart e tive a honra de segurar o seu flautim (no melhor sentido que vocês puderem imaginar) no inesquecível concerto de abertura da Festa da Penha de 2003, com a Orquestra Phylarmonia e regência de Modesto Flávio, salvo engano.


Como ficamos pra cima e pra baixo naquele dia 24 de abril acabamos conversando bastante, o Altamiro tinha já seus setenta e tantos na época, mas era um daqueles – hoje nem tão raros - sujeitos cheios de energia e disposição, me lembra o nosso maestro Adolfo Alves que dá banho de vitalidade na garotada. Lá pelas tantas descobrimos que fazíamos aniversário no mesmo dia e, sagitarianos apontando flechas para o espaço, vimos altas transcendências naquela coincidência trivial.

Eu fazia um programa de música clássica na pequena – inclusive de alcance - Radio Comunitária da Praia da Costa e como Altamiro era uma usina em movimento resolvi o levar pra dar entrevista no programa de meu amigo Clóvis Rosa. Foi um furdúncio do lado de fora da rádio. Logo apareceram alguns senhores do entorno que não acreditavam que o Altamiro estava naquela insignificante emissora. Pois o maior flautista do Brasil ficou lá umas duas horas. Contou um monte de histórias, deu discos de presentes, enfim, acima de tudo e de todos: deu uma aula de como uma lenda viva deve se comportar com dignidade, afeto e a simplicidade de um ser humano qualquer.

Conhecer Altamiro Carrilho definiu para mim a diferença que existe entre um astro e o estrelismo. A jóia rara e o falso brilhante. Sua música plainava soberana, não precisava “fazer tremer o chão”, tudo ao seu redor vibrava em consonância com sua alegria e seu alto astral. Cheguei a conclusão de que da musicalidade emana mais simplicidade do que alvoroço e que “a direção é mais importante do que a velocidade”. Sensação parecida tive quando encontrei Monarco e, bem recentemente, Dominguinhos em Domingos Martins. Como é bonita e grandiosa essa postura da tranqüilidade assentada de quem não precisa mais provar nada pra ninguém...

Portanto: Descanse em paz Altamiro Carrilho! E viva a música popular brasileira!!

terça-feira, 14 de agosto de 2012

As alianças políticas, absolutamente necessárias, e seus limites (Luiz Werneck Vianna)

Werneck Vianna defende que as alianças feitas no presidencialismo de coalizão não servem para que uma determinada orientação seja posta em prática, ou um determinado programa se viabilize, mas apenas para garantir maioria parlamentar para o governante

Por: Graziela Wolfart

Na visão do sociólogo Werneck Vianna, a ampla maioria que hoje o chefe do Executivo tem conseguido lograr no Legislativo tem dado estabilidade à política brasileira. “Mas é uma estabilidade que não faculta a aventura, o risco, a descoberta, a inovação. Certas reformas muito necessárias para que o país dê um avanço, um salto, esbarram nessa larguíssima coalizão que atinge várias dimensões, desde a economia e a política até a sociedade. Os ventos cruzados que se estabelecem no interior da coalizão governamental fazem com que haja um comportamento paquidérmico do governo, que é obrigado a respeitar os limites dados por essa amplíssima base governamental, onde todos cabem e onde tudo cabe”. Na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line Werneck afirma que o sistema partidário brasileiro “não foi feito para que a sociedade encontre formas expressivas de se incluir no mundo da política. Ele está feito para expressar interesses e diferenças regionais; não é um quadro que favoreça a limpeza e a firmeza de identidade. Ele está voltado para uma grande competição eleitoral. Isso certamente não oferece um bom cenário para a democracia política brasileira”. E constata: “estamos vivendo um momento em que os efeitos dessa política de presidencialismo de coalizão começam a se tornar cada vez mais complicados”.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012) (mais informações em http://bit.ly/IVmpmg).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que espécie de política se desenha em nosso país a partir das alianças que vêm sendo feitas em nome da busca pelo poder?

Werneck Vianna – Nossa forma não programática de alianças, que são feitas por meros interesses eleitorais – como o tempo de televisão –, já têm uma certa história. O presidencialismo de coalizão tem tido essa característica entre nós, porque não necessariamente ele deve ser tão arbitrário quanto à orientação programática. Mas o fato é que ele tomou essa característica desde o governo Fernando Henrique Cardoso, porque as alianças têm sido desencontradas. Ao longo dos mandatos do PT, especialmente a partir do segundo mandato do presidente Lula, isso tomou uma proporção imensa. Na verdade, essas alianças não são feitas para que uma determinada orientação seja posta em prática, ou um determinado programa se viabilize, mas apenas para garantir maioria parlamentar para o governante. Aliás, o tema da maioria parlamentar se tornou um espantalho desde o impeachment do governo Collor. Hoje a queda é atribuída, em boa parte de modo verdadeiro, ao fato de ele vir de um partido minoritário e não ter sabido compor uma base congressual. A partir daí, esse espantalho vem dominando o presidencialismo brasileiro. O fato é que, desde que essa política foi sendo vitoriosa, caíram todas as reservas, todas as prudências, formando-se um campo aberto de troca. Esse é o lado nefasto. No entanto, olhando de outro ângulo, essa base larga, essa ampla maioria que hoje o chefe do Executivo tem conseguido lograr no Legislativo tem dado estabilidade à política brasileira. Mas é uma estabilidade que não faculta a aventura, o risco, a descoberta, a inovação. Certas reformas muito necessárias para que o país dê um avanço, um salto, esbarram nessa larguíssima coalizão, que atinge várias dimensões, desde a economia e a política até a sociedade. Os ventos cruzados que se estabelecem no interior da coalizão governamental fazem com que haja um comportamento paquidérmico do governo, que é obrigado a respeitar os limites dados por essa amplíssima base governamental, onde todos cabem e onde tudo cabe. São empates que se sucedem e que têm um consenso muito difícil, e que não dão nenhum bônus, não dão agilidade e limitam a capacidade de uma nação em um momento em que inovar é fundamental. É preciso mudar o repertório da política que está anacrônico já há algum tempo. É evidente que essas alianças, por outro lado, afetam a identidade partidária. Os partidos já são naturalmente enfraquecidos por uma série de circunstâncias sociais que não são atuantes apenas aqui no Brasil, mas com essas acrobacias se tornam ainda mais vulneráveis. Por exemplo, em tese é aceitável, mas é difícil digerir o apoio de Paulo Maluf à candidatura do PT, por causa do histórico de oposição entre eles e pela história pessoal de Maluf, que não é muito recomendável.

IHU On-Line – É possível governar sem alianças políticas em um regime democrático?

Werneck Vianna – As alianças são absolutamente necessárias. Quanto a isso não resta nenhuma dúvida. Em uma sociedade plural, como a brasileira, pensar que uma tendência ou partido, ou apenas um sistema de orientação dará cabo dos problemas existentes é cair na ilusão, mesma ilusão que o Collor teve, de que a partir de um Executivo forte é possível reformar e reestruturar o país. Essa experiência foi feita também por Jânio Quadros antes de 1964, que governou sem uma base forte de sustentação e isso o levou à crise e à renúncia.

IHU On-Line – O problema está nos limites dessas alianças...

Werneck Vianna – Certamente. O limite deveria ser o programa. Mesmo que não fosse um programa explícito, mas um programa que tivesse certa abrangência, que pudesse admitir parceiros com identidades diversas e que pudesse ser revisado, e não essa “feira” ideológico-político-partidária em que nos encontramos, cujo efeito é o de estimular o decisionismo do Executivo, porque, dado esse empate entre as forças políticas que têm orientação desencontrada, esse poder se sente compelido a agir por sua própria orientação, tentando produzir resultados quase autocraticamente, através desse sistema decisionista, vertical. Este é um efeito muito negativo dessa construção.

IHU On-Line – O senhor poderia fazer uma breve análise do atual quadro partidário brasileiro?

Werneck Vianna – Não é fácil. Se formos tentar trabalhar a partir da clivagem mais ideológica, de velho tipo, teremos os partidos de orientação socialista e os partidos de orientação liberal-burguesa. Num campo teremos o PT, o PCdoB, o PSOL, o PPS de certo modo, que tem até o socialismo no nome, e teremos o PSB. E do outro lado teremos o DEM e outros que de memória não consigo recuperar. Não posso esquecer de mencionar o PDT, que entra no campo doutrinário do socialismo, isso se formos tomar o que é dito e não o que é praticado. Essa linha ideológica se mostra inoperante para recortar o quadro atual. O que temos é agregação de interesses. Temos partidos que agregam os evangélicos, os ruralistas e as corporações, que também se fazem presentes. Elas invadem a vida partidária. Esse sistema partidário não foi feito para que a sociedade encontre formas expressivas de se incluir no mundo da política. Ele está feito para expressar interesses e diferenças regionais; não é um quadro que favoreça a limpeza e a firmeza de identidade. Ele está voltado para uma grande competição eleitoral. Isso certamente não oferece um bom cenário para a democracia política brasileira. Por outro lado, tudo o que existe em nossa sociedade encontra formas de expressão na vida política partidária, o que é uma dimensão saudável. No entanto, isso cria um quebra-cabeça de enorme dificuldade. O presidencialismo de coalizão é uma resposta a isso: é criar certa unidade a partir deste mundo extremamente fragmentário. O problema é que só quem pode estabelecer essa unidade é o Executivo, o que faz com que esse quadro, que é aparentemente ameno e afável de expressão da diversidade existente na sociedade brasileira, contenha elementos autoritários, que favorecem a ação do Executivo, porque só ela é capaz de cimentar e soldar essa multiplicidade de identidades e interesses. Diga-se de passagem que o presidente Lula demonstrou um enorme tirocínio e habilidade em trabalhar diante desse cenário, tirando proveito desse quadro político e colocando-o a seu favor. Essa solda, esse cimento que ele soube instituir não é uma arte de fácil transferência. Essa era uma das características dele, pela sua capacidade de articulação que veio do seu treinamento no mundo sindical. Com a Dilma temos outro quadro na mesma política. Ela imprime outra administração, de alta burocracia do mundo da gestão, o que não quer dizer que ela seja indiferente à política. E não é. Mas ela não tem nem o mesmo gosto, nem o mesmo treino. Além do mais, “o Natal mudou”. O mundo já não é mais aquele de cinco anos atrás. A gravidade da crise econômica atesta isso. A necessidade de se fazer algumas reformas, como a reforma da legislação trabalhista, está se tornando cada vez mais imperativa. No entanto, a coalizão governamental que conhecemos é muito pouco permeável a uma reforma como essa. Basta pensar no PCdoB, que reage a essa reforma, ou no PDT, que é o partido do ex-governador Brizola. É um conjunto de forças que, dentro da coalizão governamental, reage a essa reforma, que parece ser cada vez mais inadiável. Outra questão é esse sistema altamente sensível da previdência. O fator previdenciário que o governo tenta extinguir por medidas de saneamento fiscal, em função da crise que já se abate sobre nós e que tende a se aprofundar, não encontra apoio na sua base governamental, inclusive no próprio PT. Estamos vivendo um momento em que os efeitos dessa política de presidencialismo de coalizão começam a se tornar cada vez mais complicados. Não só porque falta o Lula. Mesmo com ele esse quadro, que agora se exerce sobre a presidente Dilma, estaria presente.

IHU On-Line – Quais são os cenários possíveis de mudança nos próximos anos, levando em conta que, apesar de todas as fragilidades e incongruências, permitiu-se que vivamos o maior período de regime democrático?

Werneck Vianna – A democracia política tende a se aprofundar. Por exemplo, no julgamento do chamado processo do mensalão foram levados a tribunal líderes políticos do partido hegemônico da coalizão governamental. Não há registro na nossa história dessa autonomia das instituições, em que o judiciário, com independência do poder político, obedece aos procedimentos e leva a julgamento pessoas ligadas ao vértice do sistema de poder. Esse é um sinal. Não importa o resultado do julgamento, importa ver essas pessoas lá no tribunal, onde a questão é técnico-jurídica. Do ponto de vista político, importa que personalidades e figuras participantes do poder vão a julgamento e a sociedade participa desse processo apenas como observadora, como comentarista, sem que haja nenhuma comoção maior nas ruas. Não há nenhum assédio físico no Supremo Tribunal Federal. Isso é uma novidade, um avanço extraordinário das nossas instituições. Além disso, registre-se que, desde agora, com as eleições municipais, as fraturas desse sistema estão mais do que denunciadas. Basta ver o processo eleitoral em Fortaleza, no Ceará; em Recife, em Pernambuco; e em Belo Horizonte, Minas Gerais. Isso para mencionar apenas casos muito fortes, em que se observa que a coalizão governamental não consegue operar da mesma forma que estava acostumada, isto é, impondo ao local, ao municipal o seu programa de ação política. Isso mostra como a maturação da sociedade está pondo em xeque essa forma verticalizada de administração da política, que é o presidencialismo de coalizão. Tudo isso é muito favorável à vida democrática. O que se pode arguir é que é difícil construir um quadro político mais ordenado com essa pluralidade de partidos ou pelo menos com essa legislação que permite a partidos sem nenhuma expressividade terem acesso aos recursos do fundo partidário, ao tempo de televisão, dando a eles um poder de troca que, na verdade, favorece apenas às oligarquias que comandam as suas legendas. Estamos, por ora, condenados a fazer política num cenário em que as linhas de força vão todas no sentido da fragmentação e que a unificação disso depende de uma ação externa, que é o governo. Então fica essa marca autoritária, da dominação da dimensão vertical sobre a horizontal, que só uma reforma adicional pode dar conta. De modo que temos que aprender a trabalhar com esse quadro e superar as dificuldades que ele impõe à política. É um quadro caótico que só faz sentido no fim. Só o resultado da ação faz sentido, porque não faz sentido na articulação de cada parte, pois cada uma entra nisso pelo seu motivo particular. Isso dá um mapa desencontrado, que só pode fazer algum sentido por uma ação externa, de um outro, superposto a esses interesses desencontrados, que consegue estabelecer uma linha em que todos possam ser minimamente atendidos.

IHU On-Line – Na política brasileira hoje quem é antagonista de quem?

Werneck Vianna – Há antagonismos, mas nem sempre com a lógica do amigo e inimigo. Há uma lógica “adversarial”, mais do que de confronto, que vise levar à eliminação de um polo. Nós temos mais lutas agônicas do que lutas antagônicas. A política está se tornando, entre nós, mais um campo adversarial. Inclusive porque os dois principais partidos políticos brasileiros – PT e PSDB – têm muitas afinidades de fundo. Ambos estão com as raízes fincadas na social-democracia.

IHU On-Line – Em entrevista concedida a nossa revista em março deste ano, o senhor apostava no ressurgimento da política nos próximos anos com muita força, apontando que “não há mais possibilidade de segurar a sociedade com esse jogo de manter os contrários em permanente equilíbrio” . Como avalia essa declaração hoje, quatro meses depois?

Werneck Vianna – Confirmo-a inteiramente. Só que quando me refiro aos “contrários”, não falo das concepções antagônicas do mundo como, por exemplo, concepções socialistas e concepções liberal-capitalistas. Eu estava me referindo a interesses. O que eu estava dizendo é que o governo Lula foi capaz de trazer para o seu interior múltiplos interesses divergentes como a agricultura familiar e o agronegócio. Eu dizia que essa operação tinha um prazo de validade e que no governo Dilma tenderia a se derruir. E vejo que está se derruindo diante dos nossos olhos. Nós podemos dizer que a política volta agora de forma muito clara. As eleições municipais estão deixando isso manifesto. A pluralidade da sociedade está procurando formas expressivas como independência dessa forma política do presidencialismo de coalizão.

IHU On-Line – Qual é o balanço que o senhor faz do governo Dilma Rousseff? Algo ameaça uma possível reeleição da presidente?

Werneck Vianna – Essa é uma questão muito delicada e perturbadora para o cenário político atual. Nós estamos diante de um quadro em que há uma dualidade de representação. Quem detém, de fato, o poder: o governo ou o seu partido e a coalização que esse partido montou? Qual o papel aí do ex-presidente Lula como que representando o poder real, afastado por circunstâncias do calendário eleitoral, mas para o qual se espera uma volta triunfal em 2014? Esse é um quadro que cria muita instabilidade. Os movimentos e os partidos devem calcar a sua orientação pelo governo Dilma ou pela expectativa do retorno “sebastianista” do ex-presidente Lula? Isso tudo, essa dualidade, afeta o quadro atual, introduz nele elementos de instabilidade e tira força e capacidade de coesão dessa forma de presidencialismo de coalizão ao qual fomos acostumados nos dois governos de Lula. Essa é uma ambiguidade que atua de forma escondida na cena atual e não favorece o assentamento das forças políticas atuantes. O próprio partido hegemônico, o PT, se questiona a quem obedecer: ao governo ou ao seu líder maior, apenas contingentemente fora do governo, mas que logo voltará a ele? E Dilma poderá ou deverá se afirmar uma liderança nova, o que significa candidatar-se à reeleição desde agora? As incertezas quanto a isso favorecem a perda de controle que hoje está estabelecida por parte do centro do poder político sobre a sociedade e as forças políticas envolvidas.

IHU On-Line – O senhor acredita na volta de Lula à presidência em 2014? Dilma cederia espaço para ele?

Werneck Vianna – É difícil prever. O fato é que não faz bem ao governo dela, agora, abdicar da reeleição. Ela precisa do horizonte da reeleição para ter mais força hoje, especialmente em um momento em que o país está na iminência de viver perturbações derivadas da situação econômica. Nesse sentido, deverão existir forças orientadas a robustecer Dilma agora porque é preciso um presidente forte na hora da crise. E um presidente forte agora significa um presidente que vai lutar para a reeleição. Se isso viola o sistema de lealdades de Dilma com Lula é difícil de dizer, pois é uma questão subjetiva. No entanto, do ponto de vista da situação presente, o fato é que o país vive a necessidade de uma presidência forte por causa da crise.

FONTE: IHU On Line, nº 398. 13/8/2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Situação difícil (José Roberto de Toledo)

Prefeitos de capital mal avaliados não fazem sucessor. É um fato estatisticamente comprovável. Em 2008, nenhum prefeito com saldo negativo no Ibope conseguiu eleger seu candidato. O oposto também é verdade, mas, para garantir o sucesso eleitoral, não basta um saldo de popularidade qualquer. A nota de corte é 20 pontos. Acima disso, a vitória foi garantida em 2008. E quando o saldo superou 40 pontos, o êxito ainda no primeiro turno foi quase universal.

Às vésperas da eleição de 2008, 19 prefeitos de capitais tinham taxas de avaliação "ótimo" e "bom" que superavam em mais de 20 pontos porcentuais suas respectivas taxas de "ruim" e "péssimo". Desses 19, nada menos que 17 se recandidataram e se reelegeram. Os outros dois elegeram seu sucessor.

Dos sete prefeitos de capitais que tinham saldo de popularidade menor ou igual a 20 pontos a uma semana da eleição de 2008, um não conseguiu se reeleger e quatro não conseguiram emplacar seu candidato à sucessão. Os dois que conseguiram se reeleger tinham saldos de aprovação baixos, mas positivos.

Em 2008, o coeficiente de correlação entre boa avaliação e sucesso eleitoral do prefeito foi de 0,9 num máximo de 1 - mais alto até do que entre taxa de vitória e tempo de propaganda do candidato na TV. Será que a regra vale para 2012? É cedo para dizer. Por ora, nem todo prefeito bem avaliado lidera.

Em Porto Alegre, o prefeito José Fortunati (PDT) tem saldo positivo de 44 pontos no Ibope, mas não chega a 30% de intenção de voto e divide a liderança. Em Curitiba, Luciano Ducci (PSB) tem saldo positivo de 28 pontos na avaliação e, com apenas 16% de intenção de voto, está em terceiro lugar. Já no Rio de Janeiro, os mesmos 28 pontos de saldo dão a Eduardo Paes (PMDB) a liderança isolada na intenção de voto, com 49%.

Os números devem mudar após o horário eleitoral. A propaganda pode ajudar os prefeitos. Em 2008, Gilberto Kassab (então no DEM) melhorou muito sua avaliação em São Paulo graças ao palanque eletrônico e acabou reeleito. Quatro anos depois, José Serra (PSDB) tenta repetir a tática, ao se declarar o candidato do atual prefeito. Mas sua missão é mais dura: o saldo de Kassab é negativo em 22 pontos e não vem melhorando.
 
Fonte: O Estado de São Paulo

domingo, 12 de agosto de 2012

Ouro suburbano (José de Souza Martins)

À margem, o subúrbio é mais propício à criatividade, gerando no seu hibridismo desde os Mamonas ao medalhista olímpico

O ouro de Arthur Zanetti em Londres põe em evidência o subúrbio de que é originário e onde vive: nasceu em São Caetano, ali treina num clube comunitário, apoiado pela prefeitura, e mora em São Bernardo. Ninguém diria que por meio daquele atleta suburbano o País obteria nesta Olimpíada uma de suas escassas medalhas de ouro. Porque o subúrbio é o lugar de trabalhar e não o de brilhar, lugar da produção e não da ostentação.

Na metrópole paulistana, o subúrbio é um contraponto histórico em relação ao centro. Não é periferia, palavra do vocabulário político-ideológico que grita muito e diz pouco. Até porque, hoje, a periferia está no centro, na multidão de seus desamparados. Nos últimos 40 anos esse subúrbio ampliado vem protagonizando significativas mudanças políticas. Lula e Serra cresceram quase que à vista um do outro: Lula na Vila Carioca e Serra do outro lado do Rio Tamanduateí, na Mooca.

Em posições opostas, estão no centro do processo político brasileiro atual. O subúrbio também é lugar de sutil protagonismo nas mudanças sociais e culturais. Arthur Zanetti é filho da emergência tardia do Brasil do trabalho fabril, cujo eixo de referência é o oposto do eixo representado pelo centro da metrópole.A ética do subúrbio é a do trabalho; a do centro é a do consumo. O subúrbio tem uma cultura própria, que se manifesta no modo diferente de ser e de pensar dos moradores. De certo modo, essa cultura é produto e extensão dos hábitos da fábrica. Mas é também uma contracultura fundada na herança rural de sua população de imigrantes e de migrantes, que é uma cultura familista e comunitária e, não raro, religiosa.

Gente que há gerações veio para o trabalho das fábricas, mas que não renunciou aos valores da aldeia ou do sertão. Dessa duplicidade surgiu uma cultura híbrida, popular e identitária, conservadora, em que são socializadas as novas gerações. Isso pode ser observado tanto em Zanetti, em cujo êxito se destaca a família, quanto em casos como o do artista plástico João Suzuki, que veio do interior, mas viveu e ganhou fama em Santo André. Ou o do escultor Luiz Sacilotto, de Santo André, que faleceu em São Bernardo. Por estar à margem, o subúrbio é menos regulamentado e mais propício à criatividade. A alma japonesa do interiorano Suzuki desabrochou no imaginário oriental de sua pintura.

No subúrbio, as camadas profundas de sua consciência não encontraram travas para se manifestar esteticamente como expressão da duplicidade cultural tão própria dos filhos de imigrantes.A alma operária de Sacilotto, ex-aluno de escola industrial do Brás, ganhou forma em suas esculturas, artesania de oficina que se insurge para libertar o belo da retidão da linha de produção. Na medalha olímpica, Arthur e Arquimedes são um só. Filho atleta e pai serralheiro (e mãe esportista) se constroem reciprocamente: o pai, autônomo, faz os aparelhos dos ginastas, segundo a lógica das oficinas de fundo de quintal, contraponto poético da grande indústria, idílio de tantos operários suburbanos.

O mundo operário é um mundo em que as pessoas se completam, diverso do mundo do centro,em que as pessoas se repelem. Mãe, pai e filhos são um todo da concepção comunitária da vida. O subúrbio deu vida, também, a uma musicalidade popular que expressa peculiar rebeldia anticonvencional. Em Osasco e no ABC, a impensável ressurreição urbana do folclore rural das folias de reis, das folias do divino, do samba-lenço de Mauá e mesmo da Missa Caipira, de Marino Cafundó, celebrada no dia de Santo Antônio, em Osasco. O som da viola como memória. Resistência à música mercadoria sem sonho nem vida.

Emblemático foi o surgimento dos Mamonas Assassinas,em1995,em Guarulhos, grupo que morreu num acidente aéreo em 1996. Num desabafo, em janeiro de 1996, no Ginásio de Guarulhos lotado, onde haviam sido proibidos de se apresentar tempos antes, porque considerados ninguém, Dinho antecipava Barack Obama: "É possível, sim! Você pode, cara!" A música híbrida da banda juntou o rock e o sertanejo, retornou à ironia crítica e conservadora da música sertaneja de Cornélio Pires, nos anos 1920. Transformou o deboche e o falar errado numa linguagem. Como Lula, que agregou uma gestualidade de fábrica ao falar errado e criou uma nova linguagem política no Brasil, difícil de copiar justamente porque errada e não convencional. O Brasil pós-moderno e conservador está lentamente nascendo desses hibridismos insurgentes, dessas teimosias que ganham seu espaço no subúrbio.

José de Souza Martins - é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP e autor de Subúrbio (Unesp)

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Quanto a proibir a palavra mensalão (Eugênio Bucc)

No fim de semana circulou uma notícia escalafobética: um grupo de advogados vinculado ao Partido dos Trabalhadores (PT) teria a intenção de tentar impedir, por vias judiciais, o emprego da palavra mensalão nos órgãos de imprensa. Aqui, no Estado, a informação apareceu no sábado, dia 4, em reportagem de Débora Bergamasco. Outra nota, esta na Folha de S. Paulo, no domingo, trouxe um adendo providencial: a direção do PT afirmou que a iniciativa não foi adotada por nenhuma instância oficial da legenda. Melhor assim. Seria preocupante se um partido político acalentasse projetos de cercear o vocabulário das pessoas; agora, que um agrupamento de indivíduos invista nessa linha, bem, isso de vez em quando acontece. No futuro próximo, a prevalecer o bom senso nas instituições, o intento fará parte do anedotário político. No futuro distante, terá sumido da memória.

Mesmo assim, o episódio merece algumas linhas.

De saída, é preciso reconhecer: ninguém há de gostar de ser chamado de mensaleiro. Ninguém se orgulha disso. Mensalão é, indiscutivelmente, um termo que carrega um estigma pesado, corrosivo, impiedoso, maculando a imagem do PT e do governo Lula de modo cumulativo e perverso. Embora também exista o mensalão mineiro, que é tucano da gema, assim como o mensalão do DEM, foi ao PT que a palavra ficou mais associada. Portanto, é natural que aqueles que ainda guardam afeto pelo partido queiram livrá-lo desse carimbo que indica tenebrosas transações, além de caixa 2, corrupção e vergonha.

Reconheçamos, ainda, que os incomodados têm sido alvo de uma artilharia violenta de 2005 para cá. Andam machucados, o que é compreensível, e protestam. Falam como se fossem vítimas de uma forma agigantada de bullying, ainda que não usem o termo. Consideram injusta e descabida essa pecha que o PT passou a carregar e, na visão deles, a imprensa é a principal detratora do partido. Em suas manifestações, os queixosos costumam acusar a grande imprensa - entendida por eles como se fosse uma unidade, um organismo coeso - de se valer dessa alcunha diabólica, mensalão, com o fim teleológico de implodir a reputação dos ícones petistas e tornar inviável o futuro do próprio partido. Estão pelas tampas.

O interessante, aqui, é que, ao menos em parte, têm um pouco de razão. Embora a instituição da imprensa não seja esse todo uno e indivisível que supõem, os reclamantes não estão de todo errados em seu diagnóstico. De fato, foi na imprensa que a alcunha maldita fez sua carreira. Desde que foi sapecado por Roberto Jefferson na acusação que fez contra seus desafetos no governo Lula, o vocábulo mensalão pegou como carrapato, como um apelido de escola, desses que são capazes de marcar um adolescente pelo resto de sua vida. Nesse caso, porém, o estrago não se limitou aos muros da escola, mas se espalhou pelo mundo nas páginas dos jornais.

Fora isso, eles erram - e erram feio. Erram, para começar, na identificação dos culpados. Não foram os jornalistas que inventaram esse termo. Ele nasceu da luta sangrenta entre os partidos da base governista. Depois, o próprio ex-presidente Lula, quando terminou seu segundo mandato alardeando que iria provar que o mensalão tinha sido uma farsa, tomou a iniciativa de pôr mais lenha na fogueira. Passou recibo, como se diz. A briga prolongou-se e hoje o tema virou uma grande mania nacional, a ponto de, no início da semana, ter ultrapassado a novela Avenida Brasil no Google e no Twitter.

Em suma, se essa palavra, mensalão, ficou na pele do PT como tatuagem, não foi por obra de um conluio da assim chamada grande imprensa, mas em decorrência da guerra entre os protagonistas diretos ou indiretos desse grande escândalo, registrada por veículos jornalísticos os mais diversos, seja em textos que rechaçam o termo, seja em artigos que o reproduzem sem vacilar. Acima de tudo, a palavra mensalão ganhou sua validade linguística em razão dos fatos.

Iniciado o processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal, esses fatos estão evidentes. Mesmo nas falas de alguns dos advogados dos réus eles foram reconhecidos: algum tipo de ilícito houve nessa história toda, nem que tenha sido apenas a farta distribuição de dinheiros não contabilizados entre figurões e figurinhas que apoiavam o governo no Congresso Nacional. Pois foi a isso que se acabou chamando de mensalão. É verdade que talvez o mensalão não tenha sido precisamente mensal. Talvez tenha sido um "bimestralão", ou um "de-vez-em-quandão", se quisermos ser rigorosos nos intervalos temporais. Mas que houve um ilícito que resultou em desaguadouros sazonais de pequenas ou médias fortunas, cuja origem era e continua sendo suspeitíssima, isso houve.

Neste ponto, vale um aviso aos vigilantes de linguística: a supressão autoritária de uma palavra, se fosse possível, não eliminaria os fatos. Acontece que arrancar palavras do imaginário nacional é impraticável. Sonhar com isso é uma espécie de delírio totalitário justificado em boas intenções. Sonhar com isso é desejar para o Brasil uma ordem de trevas, vertebrada por aquelas truculências imaginadas por George Orwell em 1984, em que a tirania mudava o sentido dos termos1 e adulterava os acontecimentos históricos.

Para nossa sorte, a língua é algo que o poder não consegue controlar, não consegue sequer administrar, por mais que tente e siga tentando. O poder pode até inventar um idioma, sem dúvida, mas jamais poderá mandar nesse idioma depois que ele começar a ser falado pelo povo. "Quem cria uma língua a tem sob domínio enquanto ela não entra em circulação", ensinou Ferdinand de Saussure. "Mas desde o momento em que ela cumpre sua missão e se torna posse de todos, foge-lhe ao controle".

Ainda bem que é assim. Na língua que falamos mora a nossa chance de liberdade. E de acabar com todos os mensalões.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO
 
 Eugênio Bucci é filiado ao PT. Foi um dos criadores e o primeiro editor da revista Teoria e Debate, editada pela Fundação Perseu Abramo. Dirigiu a Radiobras (Empresa Brasileira de Comunicação S.A) no primeiro mandato de Lula. Professor da ECA/USP.

Representação e interesse nas eleições (Argelina Cheibub Figueiredo)

Na próxima eleição municipal, cerca de 4,5 milhões de eleitores votarão na cidade do Rio. As leis eleitorais brasileiras e o papel da Justiça eleitoral garantem grande peso às camadas mais pobres da população. O voto obrigatório e a Justiça eleitoral contribuem para que essas camadas tenham peso nas urnas proporcional ao seu tamanho. O acesso cada vez mais fácil ao voto, a maior lisura das eleições e, consequentemente, maior confiança nos resultados eleitorais incentivam a participação e diminuem os custos de votar, aumentando a influência desses segmentos nas políticas públicas. Não é por acaso a ênfase de partidos das mais diversas colorações ideológicas em políticas que os beneficiam.

O retorno eleitoral da população mais pobre é frequentemente visto como uma forma de clientelismo. A eleição para o Legislativo municipal seria campo fértil onde brota e prospera o paroquialismo. Vereadores com redutos eleitorais localizados seriam defensores de interesses espúrios de suas clientelas, distorcendo a representação. Não há lugar para representantes de correntes de opinião e ideologias ou mesmo para aqueles que visam ao interesse geral dos moradores da cidade. Mas não precisa ser assim e, na verdade, nem sempre é.

Vamos primeiro aos fatos. Na ciência política, um dos principais indicadores de paroquialismo é a concentração de votos, no caso das cidades, em um ou mais bairros contíguos. Vereadores com votação concentrada seriam paroquiais ou clientelistas, enquanto a votação dispersa caracterizaria o voto de opinião, ideológico. Os resultados das últimas eleições municipais mostram que partidos e/ou vereadores “ideológicos” foram campeões em votos localizados em um conjunto compacto de bairros, enquanto partidos e/ou vereadores sabidamente clientelistas ou fisiológicos obtiveram votação mais dispersa.

A representação política abarca tanto o interesse geral como o específico, especialmente quando as carências atingem amplas camadas. Como vimos em artigos anteriores desta série, o município é o principal responsável pela educação fundamental, a educação é fator determinante da qualidade do emprego que as crianças terão daqui a dez, 20 anos, e a concentração de negros se dá nos bairros mais pobres e, portanto, mais dependentes da educação pública. A prefeitura tem, sim, papel a desempenhar nas políticas raciais, de educação e de emprego. Vereadores têm muito a fazer para melhorar as escolas, criar programas de emprego, de qualificação de mão de obra e medidas para diminuir as desigualdades raciais. Podem fazer isso tanto por meio de legislação como de sua participação no Orçamento municipal. Ao representar os eleitores de seus redutos eleitorais, podem funcionar como um instrumento de informação sobre suas carências e de pressão para a implementação de políticas e recursos para combatê-las. Por que não deveriam buscar recursos para seus redutos eleitorais? Se as carências não existissem, não haveria por que fazer isso. Se fazem, e sua ação produz efeito, serão recompensados com votos. Cabe à disputa política e, em parte, à Justiça eleitoral continuar a agir para evitar que, por meio de “obras sociais” e outros recursos espúrios, candidatos tentem prover serviços precários para “comprar” voto. Apenas por meio da participação eleitoral, a população distinguirá o joio do trigo.

Argelina Cheibub Figueiredo, professora e pesquisadora do Iesp-Uerj

FONTE: O GLOBO