Várias análises têm mostrado que a disputa partidária no Brasil, sobretudo a que gira em torno das eleições presidenciais, encontrar-se-ia bem estruturada em três blocos. Um primeiro segmento votaria no PT e na esquerda de uma maneira mais ampla. Um segundo segmento corresponderia ao eleitorado conservador, por isso rejeita o PT e tem optado pelos candidatos do PSDB em aliança ou não com o DEM, antigo PFL. O terceiro segmento seria o assim chamado eleitor "pivotal", mediano ou de centro. Mais volátil, decide seu voto ao longo da campanha, sopesando custos e benefícios esperados de cada opção. Sendo a tese correta teríamos, então, um eleitorado dividido em dois blocos, segundo o tipo de decisão de voto: aqueles que votam na esquerda e os que a rejeitam fariam parte de um mesmo grupo, a saber, dos que votam prospectivamente, de acordo com visões de mundo e em programas. O segundo grupo seria formado exclusivamente pelo eleitor de centro, o "pivotal", eleitor que decide seu voto retrospectivamente, com base no desempenho do governo e no que apreende ao longo de campanhas eleitorais.
Uma premissa importante dessa estória repousa no papel ocupado pelas forças que ofertam candidatos e políticas ao eleitor. Pela esquerda, de fato, o PT e partidos aliados de esquerda têm feito sua parte, administrando conflitos internos de maneira a não comprometer seus objetivos primordiais, quais sejam, manter a Presidência e ministérios sob seu comando, além de continuar aplicando políticas de resgate da dívida social brasileira. O problema mora no lado conservador, no bloco anti-esquerda. A disputa fratricida, com desdobramentos editoriais de estrondoso sucesso, além de propostas de CPI, não depõe a favor das lideranças de um projeto de oposição à altura das necessidades do país. Nem, ademais, das legítimas aspirações de sua clientela eleitoral cativa, na qual se inclui boa parte de nossas elites econômicas, além de "formadores de opinião".
Na democracia, tão importante quanto se ter um governo legitimado pelo voto e que tenta verter em políticas prioridades reveladas pela maioria da população é a existência de uma ou várias forças de oposição a este governo. Mais especificamente, é a existência de um partido ou coalizão de forças que se apresente como alternativa crível para o conjunto do eleitorado que distingue um regime político como democrático. Se a disputa entre lideranças é fator inarredável da vida dos partidos, é também verdadeiro que a partir de certo limite o conflito deixa de ser um dos componentes inevitáveis da convivência democrática e passa a comprometer a credibilidade dos atores que dele fazem parte. Passa a comprometer a capacidade destas lideranças em articular interesses e ideias alternativas às que preponderam no governo em torno de uma agenda consistente de políticas. Difícil precisar quando tal limite é ultrapassado; entretanto, há indícios importantes de que o processo vem ocorrendo no âmbito da oposição.
Um exemplo consiste na recente criação do PSD e seu posicionamento de neutralidade que assumiu vis-à-vis o governo. Ora, não é possível dissociar a decisão de políticos de orientação conservadora de criar um novo partido, cujo código de conduta é a possibilidade de vir a fazer parte de qualquer governo, da incapacidade dos tucanos de se manterem como alternativa viável de projeto de poder. Pois bem, se a estória de criação do PSD torna-se um padrão, então, claramente não estaremos mais diante de uma vida partidária estruturada em torno de dois blocos na disputa presidencial, convivendo com uma pluralidade de forças, de oposição e sustentação ao governo, no âmbito legislativo. A dinâmica da política brasileira estaria se aproximando mais dos processos de construção e ruptura de coalizões, tal como teorizada pelo cientista político norte-americano William Riker, em 1963.
Em sua obra clássica, "The Theory of Political Coalitions", Riker apresenta a política como um jogo de soma-zero sendo seu prêmio fundamental a conquista de posições no governo. Como estas posições são limitadas, ou "escassas", os parceiros de hoje podem tornar-se os inimigos de amanhã. Visões de mundo, conflitos em torno de interesses de atores sociais, sejam baseadas em classes ou identidades alternativas, nada mais seriam do que elementos secundários de um mesmo e mais fundamental objetivo, a saber, controlar a máquina governamental. Neste cenário, uma oposição não se torna governo porque vence eleições a partir da articulação de interesses e ideias alternativas as que ocupam o poder. Uma oposição "conquista" o governo por conta de um rearranjo de forças ocorrido no âmbito da coalizão predominante, que eventualmente se torna muito grande. Eleições teriam muito pouco a dizer neste processo, seriam uma espécie de epifenômeno de algo mais essencial - a luta intra-elites pela ocupação de espaço no poder do Estado.
Nenhuma teoria sobre a política representa aquilo que ocorre verdadeiramente no processo de disputa pelo poder. A política resulta das escolhas promovidas pelos atores que participam deste processo, escolhas que são feitas em circunstâncias históricas concretas. Se a política brasileira continuará bem estruturada em torno de dois blocos, que representam alternativas relativamente claras para os eleitores, não sabemos de antemão. Isso dependerá de decisões e cursos de ação adotados pelas lideranças dos partidos que têm protagonizado o conflito político desde meados dos anos 90 do século passado. Pelo lado do governo, não vejo indícios de que esta dinâmica possa vir a ser quebrada. Pelo lado da oposição, não obstante, observo caminho mais tortuoso, no qual personalidades têm se colocado acima das instituições. Isto não é bom para a democracia. Não é bom para o país.
Fabiano Santos é cientista político, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj)
FONTE: VALOR ECONÔMICO (03/01/2012)
sábado, 7 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Das Manchetes e o jogo de palavras
Em 2012, de novo, verba contra enchente privilegia Pernambuco (O GLOBO)
Em MG, temporais já mataram oito (O Globo)
Governo federal deixa de investir R$ 529 milhões contra chuvas (FSP)
Chuva afeta 2 milhões de pessoas no Rio e em Minas (CORREIO BRAZILIENSE)
Intervenção do Planalto em ministério gera crise com PSB (O ESTADO)
Acuado, ministro joga a crise para o governo (CORREIO BRAZILIENSE)
Clima destrói lavouras e encarece alimentos (CORREIO BRAZILIENSE)
Sobrou tempo. Faltou dinheiro (Estado de Minas)
Em MG, temporais já mataram oito (O Globo)
Governo federal deixa de investir R$ 529 milhões contra chuvas (FSP)
Chuva afeta 2 milhões de pessoas no Rio e em Minas (CORREIO BRAZILIENSE)
Intervenção do Planalto em ministério gera crise com PSB (O ESTADO)
Acuado, ministro joga a crise para o governo (CORREIO BRAZILIENSE)
Clima destrói lavouras e encarece alimentos (CORREIO BRAZILIENSE)
Sobrou tempo. Faltou dinheiro (Estado de Minas)
Presidencialismo de Coalização (para entender a dinâmica)
Visão Restrita (Merval pereira) - excerto
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Esse sistema de montagem de governo deve-se a uma "depravação do processo" de formação de um "presidencialismo de coalizão", segundo o cientista político Sérgio Abranches, que, em trabalho de 1988, cunhou essa definição para explicar nosso sistema de governo. Ele parte do princípio de que um país heterogêneo como o nosso vai ser sempre multipartidário, tornando inevitáveis os governos de coalizão. Essa fragmentação partidária reflete a federação e ocorreria do mesmo modo se tivéssemos sistema bipartidário como nos Estados Unidos, onde o Partido Republicano do Texas tem pouco a ver com o Partido Republicano de Nova York.
Com a formalização de uma estrutura multipartidária, a coalizão tem que incluir os partidos que apoiam o governo, e o processo de formação da coalizão é que tem que obedecer a critérios que, com o correr dos tempos, no Brasil foram se corrompendo.
Normalmente a coalizão eleitoral corresponde à coalizão governamental, e é mais raro no mundo do que aqui acontecer de partidos aderirem ao governo depois de apoiar outro candidato na eleição presidencial. Com isso, o eleitor sabe que aqueles partidos que apoiaram determinado candidato apoiam também o programa de governo que foi apresentado na campanha eleitoral.
Os partidos, para dar apoio a um determinado candidato, exigem dele que adote esse ou aquele tipo de política pública, ou até mesmo de posição internacional - menos comum no Brasil, embora a política externa venha se tornando um tema relevante nas campanhas eleitorais, com o progressivo aumento de prestígio internacional do país.
A partir do momento em que um partido vê incluído na plataforma eleitoral de determinado candidato um ponto de seu interesse - como a política de meio ambiente pelo Partido Verde, por exemplo -, ele terá condições de apoiar sua eleição e, mais adiante, ocupará esse ministério que representa sua melhor aptidão.
Da maneira como é feita hoje, a distribuição de ministérios corresponde a interesses eleitorais dos partidos políticos, e não aos seus programas de governo. É difícil entender qual é a especialização exigida para um determinado ministério, já que a troca de partidos obedece mais a interesses imediatos de alocação de aliados do que exatamente à vocação política.
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Esse sistema de montagem de governo deve-se a uma "depravação do processo" de formação de um "presidencialismo de coalizão", segundo o cientista político Sérgio Abranches, que, em trabalho de 1988, cunhou essa definição para explicar nosso sistema de governo. Ele parte do princípio de que um país heterogêneo como o nosso vai ser sempre multipartidário, tornando inevitáveis os governos de coalizão. Essa fragmentação partidária reflete a federação e ocorreria do mesmo modo se tivéssemos sistema bipartidário como nos Estados Unidos, onde o Partido Republicano do Texas tem pouco a ver com o Partido Republicano de Nova York.
Com a formalização de uma estrutura multipartidária, a coalizão tem que incluir os partidos que apoiam o governo, e o processo de formação da coalizão é que tem que obedecer a critérios que, com o correr dos tempos, no Brasil foram se corrompendo.
Normalmente a coalizão eleitoral corresponde à coalizão governamental, e é mais raro no mundo do que aqui acontecer de partidos aderirem ao governo depois de apoiar outro candidato na eleição presidencial. Com isso, o eleitor sabe que aqueles partidos que apoiaram determinado candidato apoiam também o programa de governo que foi apresentado na campanha eleitoral.
Os partidos, para dar apoio a um determinado candidato, exigem dele que adote esse ou aquele tipo de política pública, ou até mesmo de posição internacional - menos comum no Brasil, embora a política externa venha se tornando um tema relevante nas campanhas eleitorais, com o progressivo aumento de prestígio internacional do país.
A partir do momento em que um partido vê incluído na plataforma eleitoral de determinado candidato um ponto de seu interesse - como a política de meio ambiente pelo Partido Verde, por exemplo -, ele terá condições de apoiar sua eleição e, mais adiante, ocupará esse ministério que representa sua melhor aptidão.
Da maneira como é feita hoje, a distribuição de ministérios corresponde a interesses eleitorais dos partidos políticos, e não aos seus programas de governo. É difícil entender qual é a especialização exigida para um determinado ministério, já que a troca de partidos obedece mais a interesses imediatos de alocação de aliados do que exatamente à vocação política.
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A língua de Dilma (José Roberto de Toledo)
Contrariando o mito machista de que mulher fala muito, no seu primeiro ano de governo a presidente Dilma Rousseff pronunciou-se menos do que seus dois mais recentes antecessores. Foram 189 discursos em 2011 - praticamente uma fala a cada dois dias. Em relação ao primeiro ano de mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma usou a palavra em 25% menos ocasiões. Já na comparação com o primeiro ano de Fernando Henrique Cardoso, falou 13% menos vezes.
O começo do mandato, porém, não é um espelho fiel de uma gestão, pelo menos no discurso. Lula começou com 251 falas em 2003 e terminou seu governo, oito anos depois, com 353 pronunciamentos ao longo de 2010 - um recorde absoluto de verborragia entre seus pares. Na média, o petista falou 11% mais vezes no segundo mandato vis-a-vis os quatro primeiros anos no Palácio do Planalto.
Se a língua presidencial foi crescentemente acionada na gestão de Lula, sob FHC, tornou-se cada vez menos eloquente. O primeiro de seus oito anos de governo foi o mais palavroso do tucano, com 216 discursos. Ano a ano, Fernando Henrique economizou pronunciamentos e, mesmo tendo uma recaída verbal em 2002, falou em média 18% menos vezes no segundo mandato.
Nos casos de Lula e FHC, há uma semelhança entre as curvas de popularidade e de frequência dos pronunciamentos. Quanto maior a aprovação junto à opinião pública, mais discursos o presidente fazia - e vice-versa. Pode ser uma reação natural de exposição/preservação dos homens públicos, ou simples coincidência.
Na quantidade, Dilma se aproxima mais do tucano do que de seu mentor político. Na média dos oito anos de mandato, Lula discursou 33% mais vezes do que sua sucessora. Já a média anual dos dois governos FHC é praticamente igual à do primeiro ano de Dilma: 184 discursos a 189.
Na forma também, Dilma se aproxima mais de Fernando Henrique. Ambos privilegiaram a leitura à improvisação. Para FHC, por apreço à liturgia do cargo e pelo trauma dos dolorosos estragos que as blagues improvisadas provocaram em sua popularidade. A atual presidente ainda se ressente da pouca prática em pronunciamentos públicos. Lula, ao contrário, nasceu para a política em palanques e comícios, observando as reações do público e improvisando o discurso ao gosto da audiência.
Como consequência, o discurso ensaiado de Dilma é mais complexo (às vezes, mais complicado), elabora frases mais longas (25 vocábulos, em média) e usa um arsenal de palavras mais amplo do que o de Lula. Não que o do ex-presidente fosse simplório: seu léxico de mais de 12 mil palavras é típico de quem fez faculdade. O de Dilma é 3 mil palavras maior e, até por isso, mais difícil de ser compreendido. Se o meio é a mensagem, Dilma ainda tem muito a aprender com Lula.
Estilo. Eles têm diferenças óbvias de estilo. Recém-empossado, Lula iniciou seu discurso na vila Irmã Dulce, em Teresina, em 10 de janeiro de 2003, saudando "meus companheiros e minhas queridas companheiras do estado do Piauí". A fórmula companheirística se repetiria nos 2.264 discursos seguintes. Na boca de Dilma, os "companheiros" mal passaram da centena.
Sempre que a (falta de) solenidade permite, Dilma começa seus discursos com um "queria saudar/cumprimentar" quem estiver por perto. Podem ser "os presentes", "os baianos", "os uberabenses" ou a autoridade mais próxima. O "queria" foi um cacoete repetido mais de mil vezes em 2011. Já "gente", o vocábulo predileto de Lula, perdeu espaço com Dilma.
A presidente gosta de terminar seus discursos com um "muito obrigada", de vez em quando manda "um abraço". Muito diferente do "fiquem com Deus", recorrente nas despedidas de Lula. "Deus", por sinal, foi a ausência mais ilustre dos discursos de Dilma. Recebeu apenas 11 citações, e a maioria delas na forma de expressões idiomáticas ou nomes de instituições. Mal comparando, o vice Michel Temer e José Sarney foram citados três vezes mais pela presidente.
No conteúdo, Dilma segue fiel a quem possibilitou que ela chegasse à Presidência. Na "nuvem" que sintetiza as 293 mil palavras que ela disse ao longo de 2011, destacam-se "Brasil", "país" e "todos". Enfileiradas em ordem alfabética, formam o slogan marqueteiro de Lula: "Brasil, um país de todos". Seria coincidência, não tivesse a presidente citado o antecessor 214 vezes em seus discursos. Por comparação, Dilma citou FHC em apenas seis ocasiões - embora, em todas elas, respeitosamente.
Lula. As menções de Dilma a Lula são sintomáticas. Elas começaram intensas nos três primeiros meses de governo, quando ainda estava fresco na memória da presidente - e do eleitor - o esforço de Lula para elegê-la. As citações caíram abruptamente em abril e foram apenas duas em maio. Por essa época, pipocavam especulações sobre o afastamento de criador e criatura.
Lula voltou a aparecer com frequência redobrada nos discursos de Dilma em julho e agosto, justamente quando os ministros começaram a cair às pencas, a maioria acusada de corrupção. Em setembro, quando a ameaça de crise já havia virado "faxina" e estava claro que a presidente ganhava em popularidade com as demissões, Lula surgiu menos da boca de Dilma.
Depois de outubro, quando tornou-se público que o ex-presidente havia sido diagnosticado com um câncer na laringe, o nome de Lula voltou a aparecer com mais assiduidade nos discursos presidenciais. E assim, o "Lulômetro" de Dilma fechou 2011 no mesmo patamar de mais de duas dezenas de citações mensais com que havia começado o ano. A fidelidade se impõe.
PS: Seria simpático se os responsáveis pelo site da Biblioteca da Presidência da República revisassem os links para os discursos dos ex-presidentes. Entre 29 e 31 de dezembro, quando suas páginas foram pesquisadas para este texto, faltavam cerca de 150 discursos de Fernando Henrique Cardoso em 2000 e 2001 - o que era verificado pelo confronto com o acervo do site do Instituto FHC. Também faltavam discursos dos ex-presidentes Itamar Franco (1994), Fernando Collor (1991 e 1992) e José Sarney (1985). Já os de Lula, supõem-se que estejam todos lá: o site do Instituto Cidadania, que cuida da memória do ex-presidente petista, remete diretamente para o site do Planalto quando o assunto é discurso presidencial.
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO
O começo do mandato, porém, não é um espelho fiel de uma gestão, pelo menos no discurso. Lula começou com 251 falas em 2003 e terminou seu governo, oito anos depois, com 353 pronunciamentos ao longo de 2010 - um recorde absoluto de verborragia entre seus pares. Na média, o petista falou 11% mais vezes no segundo mandato vis-a-vis os quatro primeiros anos no Palácio do Planalto.
Se a língua presidencial foi crescentemente acionada na gestão de Lula, sob FHC, tornou-se cada vez menos eloquente. O primeiro de seus oito anos de governo foi o mais palavroso do tucano, com 216 discursos. Ano a ano, Fernando Henrique economizou pronunciamentos e, mesmo tendo uma recaída verbal em 2002, falou em média 18% menos vezes no segundo mandato.
Nos casos de Lula e FHC, há uma semelhança entre as curvas de popularidade e de frequência dos pronunciamentos. Quanto maior a aprovação junto à opinião pública, mais discursos o presidente fazia - e vice-versa. Pode ser uma reação natural de exposição/preservação dos homens públicos, ou simples coincidência.
Na quantidade, Dilma se aproxima mais do tucano do que de seu mentor político. Na média dos oito anos de mandato, Lula discursou 33% mais vezes do que sua sucessora. Já a média anual dos dois governos FHC é praticamente igual à do primeiro ano de Dilma: 184 discursos a 189.
Na forma também, Dilma se aproxima mais de Fernando Henrique. Ambos privilegiaram a leitura à improvisação. Para FHC, por apreço à liturgia do cargo e pelo trauma dos dolorosos estragos que as blagues improvisadas provocaram em sua popularidade. A atual presidente ainda se ressente da pouca prática em pronunciamentos públicos. Lula, ao contrário, nasceu para a política em palanques e comícios, observando as reações do público e improvisando o discurso ao gosto da audiência.
Como consequência, o discurso ensaiado de Dilma é mais complexo (às vezes, mais complicado), elabora frases mais longas (25 vocábulos, em média) e usa um arsenal de palavras mais amplo do que o de Lula. Não que o do ex-presidente fosse simplório: seu léxico de mais de 12 mil palavras é típico de quem fez faculdade. O de Dilma é 3 mil palavras maior e, até por isso, mais difícil de ser compreendido. Se o meio é a mensagem, Dilma ainda tem muito a aprender com Lula.
Estilo. Eles têm diferenças óbvias de estilo. Recém-empossado, Lula iniciou seu discurso na vila Irmã Dulce, em Teresina, em 10 de janeiro de 2003, saudando "meus companheiros e minhas queridas companheiras do estado do Piauí". A fórmula companheirística se repetiria nos 2.264 discursos seguintes. Na boca de Dilma, os "companheiros" mal passaram da centena.
Sempre que a (falta de) solenidade permite, Dilma começa seus discursos com um "queria saudar/cumprimentar" quem estiver por perto. Podem ser "os presentes", "os baianos", "os uberabenses" ou a autoridade mais próxima. O "queria" foi um cacoete repetido mais de mil vezes em 2011. Já "gente", o vocábulo predileto de Lula, perdeu espaço com Dilma.
A presidente gosta de terminar seus discursos com um "muito obrigada", de vez em quando manda "um abraço". Muito diferente do "fiquem com Deus", recorrente nas despedidas de Lula. "Deus", por sinal, foi a ausência mais ilustre dos discursos de Dilma. Recebeu apenas 11 citações, e a maioria delas na forma de expressões idiomáticas ou nomes de instituições. Mal comparando, o vice Michel Temer e José Sarney foram citados três vezes mais pela presidente.
No conteúdo, Dilma segue fiel a quem possibilitou que ela chegasse à Presidência. Na "nuvem" que sintetiza as 293 mil palavras que ela disse ao longo de 2011, destacam-se "Brasil", "país" e "todos". Enfileiradas em ordem alfabética, formam o slogan marqueteiro de Lula: "Brasil, um país de todos". Seria coincidência, não tivesse a presidente citado o antecessor 214 vezes em seus discursos. Por comparação, Dilma citou FHC em apenas seis ocasiões - embora, em todas elas, respeitosamente.
Lula. As menções de Dilma a Lula são sintomáticas. Elas começaram intensas nos três primeiros meses de governo, quando ainda estava fresco na memória da presidente - e do eleitor - o esforço de Lula para elegê-la. As citações caíram abruptamente em abril e foram apenas duas em maio. Por essa época, pipocavam especulações sobre o afastamento de criador e criatura.
Lula voltou a aparecer com frequência redobrada nos discursos de Dilma em julho e agosto, justamente quando os ministros começaram a cair às pencas, a maioria acusada de corrupção. Em setembro, quando a ameaça de crise já havia virado "faxina" e estava claro que a presidente ganhava em popularidade com as demissões, Lula surgiu menos da boca de Dilma.
Depois de outubro, quando tornou-se público que o ex-presidente havia sido diagnosticado com um câncer na laringe, o nome de Lula voltou a aparecer com mais assiduidade nos discursos presidenciais. E assim, o "Lulômetro" de Dilma fechou 2011 no mesmo patamar de mais de duas dezenas de citações mensais com que havia começado o ano. A fidelidade se impõe.
PS: Seria simpático se os responsáveis pelo site da Biblioteca da Presidência da República revisassem os links para os discursos dos ex-presidentes. Entre 29 e 31 de dezembro, quando suas páginas foram pesquisadas para este texto, faltavam cerca de 150 discursos de Fernando Henrique Cardoso em 2000 e 2001 - o que era verificado pelo confronto com o acervo do site do Instituto FHC. Também faltavam discursos dos ex-presidentes Itamar Franco (1994), Fernando Collor (1991 e 1992) e José Sarney (1985). Já os de Lula, supõem-se que estejam todos lá: o site do Instituto Cidadania, que cuida da memória do ex-presidente petista, remete diretamente para o site do Planalto quando o assunto é discurso presidencial.
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO
NÃO FALO MAL DO BBB / FALO MAL É DE VOCÊ! (Juca Magalhães)
Todo ano é a mesma coisa: mal a Rede Globo começa a anunciar o Big Brother, traçando o perfil de seus “heróicos” participantes, pipocam zilhões de críticas revoltadas em tudo quanto é “site de relacionamento” da Internet. Peço licença para discordar dessa peculiar tortura antecipada que aflige o povo brazuca: para início de conversa, o próprio fato de alguém se incomodar tanto já mostra o quanto está debaixo do pé gordinho do filho do Boni e do pobre Bial (pobre?). E outra, agora traçando um paralelo: faz uns meses assisti a uma longa entrevista do poeta Ferreira Goulart que se dizia incapaz de criticar a poesia de pessoas que vinham humildemente submeter seus esforços literários à opinião do consagrado mestre. Disse que preferia calar:
- Eu vou falar o quê? O sujeito não roubou, não matou ninguém. Fez lá sua poesia na maior boa vontade, como é que eu vou dizer que ele é um medíocre sem talento? –
Penso algo assim de toda essa porcaria transmitida às toneladas pelas redes abertas e fechadas de televisão. Ninguém é obrigado a assistir novela: ou será que é? Pegue um bom livro para se entreter, vá ao cinema, aprenda a tocar um instrumento... Ora! Tanta coisa boa ainda por fazer. Por isso não falo mal dos balofos apresentadores da televisão, eles e suas contas bancárias polpudas tão diferentes da minha e da maioria das pessoas. Eles não mataram ninguém de tédio ainda, não que eu saiba...
Na mesma balada, é bastante curiosa a pequena demanda por protestos causada pelos problemas reais da vida, essa ordinária, como as pessoas que morrem sem atendimento nos hospitais e inúmeros outros crimes hediondos cometidos contra o povo todos os dias, os sutis aumentos nos preços dos produtos e serviços que mantém a maioria das pessoas endividadas ou no limite de seus recursos financeiros. Vide o recente aumento dos pedágios ou a invenção esperta das sacolas ecológicas.
Curiosamente, as grandes sacanagens impostas diariamente ao povo brasileiro são encaradas (de frente) como coisa inevitável, nem sequer são questionadas. Enquanto isso, programas idiotas de televisão - que não são obrigatórios nem da conta de ninguém os exibir - são vistos como coisa altamente ultrajante. Nesse mesmo instante bombam protestos na Internet contra o BBB, curtidos e apoiados por inúmeras pessoas Uau! Isso realmente mostra como somos capazes de nos indignar, pena que é geralmente pela razão errada...
A Letra Elektrônica diretamente de sua redação na Rua Pamplona em São Paulo. Quem aí da Veneza Brasileira quiser encomendar um bote, uma canoa ou uma capa de chuva fale logo porque aqui está o maior sol, tem várias promoções. Hehehehe.
- Eu vou falar o quê? O sujeito não roubou, não matou ninguém. Fez lá sua poesia na maior boa vontade, como é que eu vou dizer que ele é um medíocre sem talento? –
Penso algo assim de toda essa porcaria transmitida às toneladas pelas redes abertas e fechadas de televisão. Ninguém é obrigado a assistir novela: ou será que é? Pegue um bom livro para se entreter, vá ao cinema, aprenda a tocar um instrumento... Ora! Tanta coisa boa ainda por fazer. Por isso não falo mal dos balofos apresentadores da televisão, eles e suas contas bancárias polpudas tão diferentes da minha e da maioria das pessoas. Eles não mataram ninguém de tédio ainda, não que eu saiba...
Na mesma balada, é bastante curiosa a pequena demanda por protestos causada pelos problemas reais da vida, essa ordinária, como as pessoas que morrem sem atendimento nos hospitais e inúmeros outros crimes hediondos cometidos contra o povo todos os dias, os sutis aumentos nos preços dos produtos e serviços que mantém a maioria das pessoas endividadas ou no limite de seus recursos financeiros. Vide o recente aumento dos pedágios ou a invenção esperta das sacolas ecológicas.
Curiosamente, as grandes sacanagens impostas diariamente ao povo brasileiro são encaradas (de frente) como coisa inevitável, nem sequer são questionadas. Enquanto isso, programas idiotas de televisão - que não são obrigatórios nem da conta de ninguém os exibir - são vistos como coisa altamente ultrajante. Nesse mesmo instante bombam protestos na Internet contra o BBB, curtidos e apoiados por inúmeras pessoas Uau! Isso realmente mostra como somos capazes de nos indignar, pena que é geralmente pela razão errada...
A Letra Elektrônica diretamente de sua redação na Rua Pamplona em São Paulo. Quem aí da Veneza Brasileira quiser encomendar um bote, uma canoa ou uma capa de chuva fale logo porque aqui está o maior sol, tem várias promoções. Hehehehe.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
A Presidência no feminino (Renato Janine Ribeiro)
Estamos completando um ano com uma mulher na Presidência da República, a primeira em nossa história. A data pede reflexão. Três importantes países da América Latina elegeram nos últimos anos mulheres para governá-los: na ordem cronológica, Michelle Bachelet, no Chile, Cristina Kirschner, na Argentina, e Dilma Rousseff. Todas tiveram ótima avaliação. Bachelet, que não fez seu sucessor, saiu do governo altamente popular. Cristina foi reeleita com ampla votação. As pesquisas de opinião são bem favoráveis a Dilma. Mas mal temos mulheres nos demais escalões do poder. São poucas as governadoras, prefeitas, deputadas, senadoras e vereadoras. Sentimos dificuldade até com a palavra para designar quem está na chefia de Estado. Embora Dilma Rousseff se diga "presidenta", quase toda a imprensa a chama de "presidente". O dicionário valida ambas as formas, mas já li no Facebook, depois que usei o "presidenta", que isso provaria meu suposto petismo... Uma dedução, obviamente, mal feita.
Porém, tudo isso é sintoma de uma grande dificuldade, não apenas dos brasileiros mas dos homens em geral - e aqui uso "homem" no sentido de varão e no de membro do gênero humano -, para assimilar a novidade que é ter mulheres no poder. Só no século XX elas adquiriram o direito de voto. No Brasil, votaram pela primeira vez em 1933. Antes disso, algumas mulheres exerceram o poder como rainhas, por direito próprio - isto é, não como meras esposas de homens que fossem reis. Mesmo isso não foi fácil. Ironicamente, a maior estadista inglesa, Elizabeth I, que reinou de 1558 a 1603, só nasceu devido à ansiedade do pai, Henrique VIII, por ter um filho varão. Como o primeiro casamento do rei lhe deu apenas uma filha, ele receava que uma sucessão feminina fosse contestada. Daí, a famosa série de divórcios de Henrique e sua ruptura com a Igreja Católica - para, afinal, ter como definitiva sucessora logo uma mulher... Mas, embora Elizabeth tivesse enorme poder em suas mãos, seus auxiliares a pressionavam para se casar. Ela deveria ceder o poder a um homem. No fim das contas, ela só governou porque decidiu conservar-se solteira. Contudo, a estabilidade de seu longo governo teve um preço: com ela, terminou sua dinastia. O trono inglês passou aos reis da Escócia.
A despeito de tudo, avançamos muito. Lembro que, em 1989, a antropóloga Mariza Corrêa foi a primeira diretora de uma faculdade na Unicamp. Já a USP demorou mais - o que é espantoso, levando-se em conta que tem unidades, como a enfermagem e a educação, predominantemente femininas - mas já teve uma reitora. A primeira senadora do Brasil foi Eunice Michilles, em 1979; ela era, porém, apenas uma suplente, que assumiu o cargo com a morte do titular. Só em 1990 tivemos mulheres eleitas para o Senado. Hoje, isso já não é exceção, mas está longe de ser a regra. Uns anos atrás, ouvi uma vereadora paranaense contar que - toda vez que falava na Câmara - os colegas homens riam dela. Isso tornou sua vida insuportável até que, participando em Curitiba de um encontro de mulheres detentoras de mandatos, percebeu que podia ter o apoio, mesmo a distância, de outras mulheres, e enfrentou a situação.
Ainda é difícil, porém, aceitar uma mulher chefiando o governo. Não falo do mundo islâmico; curiosamente, países muçulmanos - embora não árabes - já tiveram mulheres no poder, como Benazir Bhutto, no Paquistão (mas será que o fato de ser mulher contribuiu para ela ser assassinada?). Penso em nosso próprio país. Porque o preconceito é tenaz. Mesmo quando não é agressivo contra as mulheres, um resíduo importante dele aparece na quase-impossibilidade de conciliar o que se espera da mulher e o que se espera do governante.
De quem governa, esperamos que mande. Da mulher, esperamos que seja doce. É possível mandar docemente? Milhares de anos nos acostumaram a uma experiência em que o ato de mandar é duro, agressivo, viril. Também nos acostumaram à ideia de que a mulher é boa, compreensiva, receptiva. Daí que, quando uma mulher manda, entremos em curto-circuito. Talvez tenha sido isso o que levou à queda de Nelson Jobim, político hábil e capaz: quem sabe não aceitasse que uma mulher mandasse nele, que por sua vez dava ordens à cúpula das Forças Armadas. A sucessão de declarações aparentemente desastradas de Jobim, praticamente forçando Dilma a exonerá-lo, permite considerar essa explicação tão boa quanto qualquer outra.
A situação tampouco é fácil para as mulheres. Hillary Clinton, quando o marido concorreu à Presidência dos Estados Unidos, teve que reduzir seu perfil de profissional competente e se apresentar como dona de casa que fazia "cookies". Depois voltou a seu perfil mais verdadeiro, mas parece que nunca presidirá seu país.
Creio, porém, que é justamente esse problema que traz, no seu bojo, a solução. As mulheres assumirem o poder não significa elas se tornarem másculas - imagem que se insinua, às vezes, sobre a própria Dilma. Significa um novo estilo de poder. Não é fortuito que estes anos se fale tanto em "soft power". Aproveitando a palavra, mas dando-lhe novo sentido, o poder precisa se feminizar. Ele não pode, numa democracia, estar na dureza, na repressão, na ordem. Aliás, depois do hiper-masculino Collor, nossos três últimos presidentes foram mais de persuadir que de ordenar. Sua retórica era mais importante que suas ordens. Essa é uma das tarefas que teremos de cumprir, nós e o mundo, nos próximos anos ou décadas: compreender, definir, construir um poder com mais traços femininos. Isso pode demorar bem mais que o mandato de Dilma Rousseff, mas vai acontecer.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.
FONTE: VALOR ECONÔMICO
Porém, tudo isso é sintoma de uma grande dificuldade, não apenas dos brasileiros mas dos homens em geral - e aqui uso "homem" no sentido de varão e no de membro do gênero humano -, para assimilar a novidade que é ter mulheres no poder. Só no século XX elas adquiriram o direito de voto. No Brasil, votaram pela primeira vez em 1933. Antes disso, algumas mulheres exerceram o poder como rainhas, por direito próprio - isto é, não como meras esposas de homens que fossem reis. Mesmo isso não foi fácil. Ironicamente, a maior estadista inglesa, Elizabeth I, que reinou de 1558 a 1603, só nasceu devido à ansiedade do pai, Henrique VIII, por ter um filho varão. Como o primeiro casamento do rei lhe deu apenas uma filha, ele receava que uma sucessão feminina fosse contestada. Daí, a famosa série de divórcios de Henrique e sua ruptura com a Igreja Católica - para, afinal, ter como definitiva sucessora logo uma mulher... Mas, embora Elizabeth tivesse enorme poder em suas mãos, seus auxiliares a pressionavam para se casar. Ela deveria ceder o poder a um homem. No fim das contas, ela só governou porque decidiu conservar-se solteira. Contudo, a estabilidade de seu longo governo teve um preço: com ela, terminou sua dinastia. O trono inglês passou aos reis da Escócia.
A despeito de tudo, avançamos muito. Lembro que, em 1989, a antropóloga Mariza Corrêa foi a primeira diretora de uma faculdade na Unicamp. Já a USP demorou mais - o que é espantoso, levando-se em conta que tem unidades, como a enfermagem e a educação, predominantemente femininas - mas já teve uma reitora. A primeira senadora do Brasil foi Eunice Michilles, em 1979; ela era, porém, apenas uma suplente, que assumiu o cargo com a morte do titular. Só em 1990 tivemos mulheres eleitas para o Senado. Hoje, isso já não é exceção, mas está longe de ser a regra. Uns anos atrás, ouvi uma vereadora paranaense contar que - toda vez que falava na Câmara - os colegas homens riam dela. Isso tornou sua vida insuportável até que, participando em Curitiba de um encontro de mulheres detentoras de mandatos, percebeu que podia ter o apoio, mesmo a distância, de outras mulheres, e enfrentou a situação.
Ainda é difícil, porém, aceitar uma mulher chefiando o governo. Não falo do mundo islâmico; curiosamente, países muçulmanos - embora não árabes - já tiveram mulheres no poder, como Benazir Bhutto, no Paquistão (mas será que o fato de ser mulher contribuiu para ela ser assassinada?). Penso em nosso próprio país. Porque o preconceito é tenaz. Mesmo quando não é agressivo contra as mulheres, um resíduo importante dele aparece na quase-impossibilidade de conciliar o que se espera da mulher e o que se espera do governante.
De quem governa, esperamos que mande. Da mulher, esperamos que seja doce. É possível mandar docemente? Milhares de anos nos acostumaram a uma experiência em que o ato de mandar é duro, agressivo, viril. Também nos acostumaram à ideia de que a mulher é boa, compreensiva, receptiva. Daí que, quando uma mulher manda, entremos em curto-circuito. Talvez tenha sido isso o que levou à queda de Nelson Jobim, político hábil e capaz: quem sabe não aceitasse que uma mulher mandasse nele, que por sua vez dava ordens à cúpula das Forças Armadas. A sucessão de declarações aparentemente desastradas de Jobim, praticamente forçando Dilma a exonerá-lo, permite considerar essa explicação tão boa quanto qualquer outra.
A situação tampouco é fácil para as mulheres. Hillary Clinton, quando o marido concorreu à Presidência dos Estados Unidos, teve que reduzir seu perfil de profissional competente e se apresentar como dona de casa que fazia "cookies". Depois voltou a seu perfil mais verdadeiro, mas parece que nunca presidirá seu país.
Creio, porém, que é justamente esse problema que traz, no seu bojo, a solução. As mulheres assumirem o poder não significa elas se tornarem másculas - imagem que se insinua, às vezes, sobre a própria Dilma. Significa um novo estilo de poder. Não é fortuito que estes anos se fale tanto em "soft power". Aproveitando a palavra, mas dando-lhe novo sentido, o poder precisa se feminizar. Ele não pode, numa democracia, estar na dureza, na repressão, na ordem. Aliás, depois do hiper-masculino Collor, nossos três últimos presidentes foram mais de persuadir que de ordenar. Sua retórica era mais importante que suas ordens. Essa é uma das tarefas que teremos de cumprir, nós e o mundo, nos próximos anos ou décadas: compreender, definir, construir um poder com mais traços femininos. Isso pode demorar bem mais que o mandato de Dilma Rousseff, mas vai acontecer.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.
FONTE: VALOR ECONÔMICO
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Os governantes se promovem e a gente paga a conta (Eugênio Bucci)
Você acredita em propaganda oficial? Acredita naquelas campanhas publicitárias na TV, todas grandiloquentes, multicoloridas, açucaradas e heróicas, quase épicas, em que prefeitos, governadores ou ministros de Estado proclamam suas proezas colossais pelo bem do povo? Falando francamente, você acha que essa gente diz a verdade?
Quanto a isso, temos uma notícia boa e outra má. Começando pela boa: você dirá que não é tão crédulo assim e que olha toda essa política de promoção governista com uma ponta de desconfiança, ou mesmo com um total ceticismo. Tanto melhor. Desde sempre, duvidar do poder é o melhor antídoto contra os fanatismos, os autoritarismos e o culto da personalidade daquele que governa.
Agora, a má notícia: os governos acreditam que, se insistirem com propaganda caríssima e acachapante, no fim das contas você acabará acreditando neles, e nada, nenhuma lei, pode impedi-los de aumentar a gastança. Ato contínuo, eles torram dinheiro público no esporte que é a única unanimidade da política brasileira. Estamos falando do esporte da autopromoção consentida, pelo qual o ocupante de um cargo no Poder Executivo alardeia as suas próprias (supostas) virtudes com recursos que deveriam ser de todos. Todos os políticos, tanto faz o partido, são iguais na prática desse esporte. Uma vez no poder, gente que se diz de esquerda age do mesmo modo que a direita. Tudo com nosso dinheiro.
Recentemente, a prefeitura de São Paulo, que manda no maior orçamento municipal do país, começou a despejar na TV local seus filmetes de otimismo natalino. O slogan é "antes não tinha, agora tem". Já viu, né?
O pobre telespectador paulistano olha aquilo, sai na rua e acha que endoidou. Onde está a cidade que o prefeito promete na TV? Na megalópole publicitária, aparece uma jovem deslumbrante, feliz, que nos conduz a postos de saúde aprazíveis como o nirvana. Na metrópole-cenário em que ela faz deslizar seus encantos e seus sorrisos, fulguram escolas, a luz é farta e a água abundante. A musa kassabista passeia em ruas limpíssimas. É o céu na terra da garoa.
Nessa toada ficcional, quase insultuosa, o município paulistano saltou de um patamar de R$ 12 milhões gastos com publicidade governista, em 2005, para a estratosfera de R$ 110 milhões em 2010. Num intervalo de cinco anos, o volume foi multiplicado por quase dez. Com o chapéu alheio, por certo.
No Estado de São Paulo, o mais rico do Brasil, a progressão perdulária é igualmente geométrica. Em 2003, o Palácio dos Bandeirantes queimou R$ 33,3 milhões no esporte da autopromoção. Em 2010, a conta fechou em R$ 266,6 milhões (os números de 2011 ainda não são conhecidos, mas devem permanecer por aí).
Se os programas sociais de saúde, moradia e educação crescessem nas mesmas bases, a vida real seria a melhor propaganda do mundo. Mas ela não é. A publicidade dos governos é diretamente proporcional à taxa de infelicidade dos governados. Ela só precisa vender o céu, porque a vida é um inferno. A publicidade oficial – sob a desculpa de que está informando o cidadão, vê se pode... – existe apenas para engambelar, para fazer campanha eleitoral governista fora do período que a lei reserva para a campanha eleitoral. A propaganda governista é a campanha eleitoral ininterrupta. Graças a ela, os governantes têm muito mais exposição e chance de promover a si mesmos do que aqueles que militam na oposição. A propaganda governista é hoje uma forma de combate aberto contra o princípio democrático da alternância de poder.
Ah, sim, há ainda o governo federal. Aí, as cifras são mastodônticas. Para que o estimado leitor tenha uma ideia menos vaga do que a palavra mastodôntica está fazendo aqui, digamos o seguinte: no ano de 2009, apenas no ano de 2009, o governo federal jogou nada menos que R$ 1,67 bilhão nas campanhas dos ministérios, da Presidência da República e de suas estatais, segundo dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Naquele mesmo ano, o total do mercado anunciante no Brasil, segundo o Projeto Intermeios, ficou na casa dos R$ 22,3 bilhões. O governo federal, há tempos, é um dos maiores anunciantes do mercado brasileiro. E que mercadoria ele vende? A sua própria imagem.
Assim é o Brasil, um país em que os governantes usam o dinheiro de todos para promover as causas partidárias de uns poucos – quanto aos governados, eles até que não acreditam muito na lorota governista, mas dão de ombros, deixam pra lá.
Feliz 2012!
É jornalista e professor da ESPM e da ECA-USP (02/01/2012)
Quanto a isso, temos uma notícia boa e outra má. Começando pela boa: você dirá que não é tão crédulo assim e que olha toda essa política de promoção governista com uma ponta de desconfiança, ou mesmo com um total ceticismo. Tanto melhor. Desde sempre, duvidar do poder é o melhor antídoto contra os fanatismos, os autoritarismos e o culto da personalidade daquele que governa.
Agora, a má notícia: os governos acreditam que, se insistirem com propaganda caríssima e acachapante, no fim das contas você acabará acreditando neles, e nada, nenhuma lei, pode impedi-los de aumentar a gastança. Ato contínuo, eles torram dinheiro público no esporte que é a única unanimidade da política brasileira. Estamos falando do esporte da autopromoção consentida, pelo qual o ocupante de um cargo no Poder Executivo alardeia as suas próprias (supostas) virtudes com recursos que deveriam ser de todos. Todos os políticos, tanto faz o partido, são iguais na prática desse esporte. Uma vez no poder, gente que se diz de esquerda age do mesmo modo que a direita. Tudo com nosso dinheiro.
Recentemente, a prefeitura de São Paulo, que manda no maior orçamento municipal do país, começou a despejar na TV local seus filmetes de otimismo natalino. O slogan é "antes não tinha, agora tem". Já viu, né?
O pobre telespectador paulistano olha aquilo, sai na rua e acha que endoidou. Onde está a cidade que o prefeito promete na TV? Na megalópole publicitária, aparece uma jovem deslumbrante, feliz, que nos conduz a postos de saúde aprazíveis como o nirvana. Na metrópole-cenário em que ela faz deslizar seus encantos e seus sorrisos, fulguram escolas, a luz é farta e a água abundante. A musa kassabista passeia em ruas limpíssimas. É o céu na terra da garoa.
Nessa toada ficcional, quase insultuosa, o município paulistano saltou de um patamar de R$ 12 milhões gastos com publicidade governista, em 2005, para a estratosfera de R$ 110 milhões em 2010. Num intervalo de cinco anos, o volume foi multiplicado por quase dez. Com o chapéu alheio, por certo.
No Estado de São Paulo, o mais rico do Brasil, a progressão perdulária é igualmente geométrica. Em 2003, o Palácio dos Bandeirantes queimou R$ 33,3 milhões no esporte da autopromoção. Em 2010, a conta fechou em R$ 266,6 milhões (os números de 2011 ainda não são conhecidos, mas devem permanecer por aí).
Se os programas sociais de saúde, moradia e educação crescessem nas mesmas bases, a vida real seria a melhor propaganda do mundo. Mas ela não é. A publicidade dos governos é diretamente proporcional à taxa de infelicidade dos governados. Ela só precisa vender o céu, porque a vida é um inferno. A publicidade oficial – sob a desculpa de que está informando o cidadão, vê se pode... – existe apenas para engambelar, para fazer campanha eleitoral governista fora do período que a lei reserva para a campanha eleitoral. A propaganda governista é a campanha eleitoral ininterrupta. Graças a ela, os governantes têm muito mais exposição e chance de promover a si mesmos do que aqueles que militam na oposição. A propaganda governista é hoje uma forma de combate aberto contra o princípio democrático da alternância de poder.
Ah, sim, há ainda o governo federal. Aí, as cifras são mastodônticas. Para que o estimado leitor tenha uma ideia menos vaga do que a palavra mastodôntica está fazendo aqui, digamos o seguinte: no ano de 2009, apenas no ano de 2009, o governo federal jogou nada menos que R$ 1,67 bilhão nas campanhas dos ministérios, da Presidência da República e de suas estatais, segundo dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Naquele mesmo ano, o total do mercado anunciante no Brasil, segundo o Projeto Intermeios, ficou na casa dos R$ 22,3 bilhões. O governo federal, há tempos, é um dos maiores anunciantes do mercado brasileiro. E que mercadoria ele vende? A sua própria imagem.
Assim é o Brasil, um país em que os governantes usam o dinheiro de todos para promover as causas partidárias de uns poucos – quanto aos governados, eles até que não acreditam muito na lorota governista, mas dão de ombros, deixam pra lá.
Feliz 2012!
É jornalista e professor da ESPM e da ECA-USP (02/01/2012)
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