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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Saudades de Zé Dirceu (Rosângela Bittar)

Na reta final do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, as forças políticas, tanto as prováveis vencedoras, como as derrotadas certas, começam a dar espaço à inquietude difusa. Por isso, talvez, deixem aflorar sentimentos menores que, de uma maneira não surpreendente, porém constrangedora, se expressam nos dois lados da luta.
Destacaram-se os condutores do processo, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Acertaram uma data para o julgamento final que entra pelo mês de setembro e isso não tem outra explicação racional a não ser atrapalhar a viagem do presidente Michel Temer ao exterior, para estrear no G20. Ontem ensaiaram um recuo, e não se conhece ainda o calendário prevalente.
Além do referendo internacional que o novo presidente do Brasil poderia ganhar nesse encontro (aqui leia-se a obrigatória ressalva da confirmação das previsões na votação do impeachment) Renan e Lewandowski, com sua decisão, impediram também o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de estrear a cadeira de presidente da República em exercício, em substituição a Temer que não tem vice.
As pressões e contrapressões no Congresso, para aproveitar os estertores do poder de barganha máximo que já tiveram com um governo, revelam desde o exibicionismo tonitroante de alguns relatores de projetos de interesse do governo à arrogância brega de velhos fregueses da fisiologia enraizada.
Mas o máximo da disfunção ainda deve está por vir, correndo ao seu encontro o ex-presidente Lula, a presidente Dilma e os petistas da linha de frente contra o impeachment no Congresso. Esses fazem jus à dramática situação do partido-perdido, o PT, cujo desgaste se torna superlativo nesse fim de jornada. Também estão à deriva, e quem não parou de falar, prefere a inconsequência.
Resolveram retomar as derrotadas teses de golpe na defesa final da presidente e nos votos em separado, além de abraçar a proposta de degola geral e irrestrita que Dilma pretende fazer em carta à Nação, na qual proporá um plebiscito convocando eleições gerais para que deputados, senadores, governadores, presidente interino e quem mais tiver mandato venham ao seu encontro no abismo.
Não se suportam mais sequer as piadas, O advogado da presidente foi levar as alegações finais ao protocolo e soube que, no registro sequencial, a última documentação tinha o número 170. Preferiu não esperar dois minutinhos para entrar alguém com um documento qualquer. Apôs à defesa de Dilma o 171.
Dilma tenta mostrar uma força que não tem, está esticando a corda ao máximo, e o país, suas instituições estáveis, todos, estão tendo uma paciência imensa com a presidente. Ela até parece querer, às vezes, uma reação mais truculenta, talvez para justificar a pirraça e os argumentos do golpismo. Ainda dá tempo?
Dilma resolveu, também, liquidar seu único defensor, o PT, e diante da delação da Andrade Gutierrez que revelou ter sido cobrada por tesoureiros de sua campanha em 2014, a presidente ateou o fogo ao amigo. Ela não sabia, pergunte ao PT.
Mas as empresas não temem quem está fora do poder, e delação é mesmo para dizer a verdade. Assim, nominaram dois de seus braços direitos, Edinho Silva e Giles Azevedo, como os pedintes, tirando-lhe o direito à negação.
No comportamento do ex-presidente Lula, a palavra mais adequada para definir este momento do salve-se se puder é choque. Foi estarrecedor, não só para juristas, acadêmicos, políticos, diplomatas mas, sobretudo para os ainda fiéis e esperançosos no resgate do PT, seu recurso à Organização das Nações Unidas, contra o Brasil.
Lula não está afastado da vida política, como pensam muitos. Foi durante um discurso político que se defendeu, semana passada, do processo por obstrução da justiça, aberto em Brasília. Ao saber do fato, pediu que provassem que o apartamento do Guarujá e o Sítio de Atibaia são dele. Desinformado até sobre o teor da acusação daquele momento, deixou seguir o baile.
Ele pode até não ser candidato em 2018 - ontem assegurou que será - mas tem andado por aí falando ao PT e a quem mais quiser ouvi-lo. Se não for, apoiará algum outro que possa dar nova vida ao partido. Para Lula não tem outra solução, é a política. Ou alguém o imagina em casa, em tempo integral, ou voltando a ser metalúrgico? Continuará político.
Mas passava pela cabeça de um adversário ou mesmo de um aliado que o presidente da República do Brasil por oito anos, que fez a sucessora que governou plenamente por seis anos, portanto 14 longos anos com as rédeas institucionais, tivesse a inacreditável ideia de denunciar o Brasil à ONU por ser um Estado que não garante seus direitos?
Seria esdrúxulo se não fosse muito sério. O que salva a Nação do ridículo maior é que a linguagem da diplomacia filtra tudo. No máximo do máximo, se a ONU julgar procedente a representação de Lula e seus advogados e políticos amigos conselheiros, dirá o quê? "Brasil, envide esforços para...."
Os assessores de Lula e os assessores de Dilma acham que ainda podem enfrentar um cenário desses só no gogó. Quantos petistas têm repetido nas últimas semanas a frase inacreditável: "Ah, que saudades do Zé Dirceu". Está na cadeia, é verdade, mas tinha senso, inteligência, organização, estratégia política, eixo, responsabilidade partidária. Um reconhecimento tardio, no contraste da adversidade.
Michel Temer, o presidente interino, não passou incólume pela tormenta, mas foi quem mais escapou do ridículo. O auge de sua baixa performance, por enquanto, foi ter ido buscar o filho na escola. Francamente, para um garoto de 7 anos, recém-chegado a uma cidade estranha, numa escola bilíngue no meio do cerrado, no primeiro dia de aula, em onde não conhece ninguém e não tem um só amigo, o mínimo era ser buscado pelo pai e pela mãe. Sendo ele presidente interino, deputado distrital ou jovem professor de relações humanas.
Depois, a imprensa não foi convocada, ou obrigada a registrar a cena. Foi porque quis, os personagens não mandam na pauta da imprensa que os registras, é ela que escolhe reportar o que acha que é notícia.
Se Temer ficasse só nisso, então, viva!
Fonte: Valor Econômico (03/08/16)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Quarto movimento de sinfonia dissonante (Rosângela Bittar)




Primeiro, foi o terceiro mandato, a re-reeleição que seria pedida a um Congresso de base ampla e sob controle, com emenda constitucional a tramitar sob o comando dos petistas amigos. Depois, a desistência do projeto por inviável e a formulação de outro, a escolha da candidata do partido à sucessão, Dilma Rousseff, como um poste fácil de levantar por ser mulher, ter fama de gestora e, à época, de lealdade reconhecida ao líder. O partido não queria, mas acabou engolindo. O terceiro movimento foi o 'Volta, Lula', uma campanha intensa, duradoura, levada adiante com o beneplácito do sujeito da oração, participação da sociedade, ajuda do empresariado insatisfeito com o governo, e por um contingente expressivo do comando petista. Quase todos. Nessa fase houve o vale tudo das críticas e reclamações contra tudo e todos.

O ex-presidente passou a justificá-la, depois a tentar mudá-la, no fim a pedir paciência aos seus queixosos. Lula registra, hoje: nenhum de seus conselhos foi aceito pela presidente, e boa parte deles a teria livrado dos percalços desnecessários em que tropeça agora.

Conselho número um, que ainda valeria atualmente como antes: dar sinais claros sobre o que vai mudar na economia e com quem. Outro exemplo, sair da toca, relacionar-se com todos; um terceiro, fazer alguma relação com os partidos, deputados e senadores.

Superadas as três fases distintas, inicia-se a quarta fase, agora, e as principais notas dessa partitura foram dadas pelo próprio presidente do partido, Rui Falcão.

Em entrevista ao Valor, publicada segunda-feira, ele resumiu os sentimentos dos seus comandados e apontou ao eleitorado e aos financiadores de campanha como o PT vê o cenário político e sua relação com Dilma. As declarações compõem um roteiro de cinema. É como se recomendasse aos doadores a volta segura ao projeto petista, e dissesse aos eleitores que, na verdade, Lula não é uma miragem este ano: vai influir muito mais no segundo mandato da Dilma e, logo em seguida, em 2018, será ele mesmo o candidato a presidente.

O ex-presidente comporta-se, em conversa com todos, como quem já jogou a toalha, não espera mais mudar o comportamento da presidente, fazê-la ver os equívocos políticos e as opções erradas que vem fazendo, do seu ponto de vista. Lula diz a banqueiros e bancários que já cansou de falar, mas está convencido que ela precisa ser eleita, é melhor o cenário com ela para ele assumir de volta em 2018. Lula desistiu de terminar de criar a criatura.

A saída do ex-presidente é dizer que a perspectiva do futuro poder abre-se, com ele à frente, no primeiro dia do segundo mandato de Dilma. Além de dar garantias aos financiadores, que estão verdadeiramente relutando e, quando comparecem, repartem igualmente as verbas de campanha entre os candidatos, o ex-presidente quer acender a militância que, na avaliação interna, ainda está fazendo corpo mole. Sem os petistas, acredita, será difícil eleger Dilma, e é preciso retomar o apoio do eleitorado o quanto antes para vencer no primeiro turno. Lula e o PT temem o segundo turno com uma candidata tão resistente à política como tem sido Dilma.

Dilma é João Santana, João Santana é Dilma: a simbiose entre candidata e seu marqueteiro é destacada no partido como um dos maiores problemas da campanha. Uma só confia no outro e está certa de que, começando o horário eleitoral gratuito pela TV, com um tempo que é três vezes o de seu adversário do segundo lugar, voltará a subir na preferência do eleitorado e vencerá.

A Santana, porém, são atribuídos problemas políticos graves da campanha, como a recusa do candidato do PMDB ao governo de São Paulo, Paulo Skaf, a abrigar na sua a campanha de Dilma. O marqueteiro de Skaf, Duda Mendonça, acha que todo o barulho é feito por João Santana. Os dois vivem uma espécie de revanche recíproca. Santana é também o marqueteiro de Alexandre Padilha, o candidato do PT ao governo de São Paulo que não sai do lugar nas intenções de voto. O PT culpa João Santana, por se dedicar só a Dilma.

O PT, por sinal, já vinha às turras com João Santana desde o primeiro semestre, por ter cobrado do partido a conta do programa partidário antes de mostrar a obra concluída. Primeiro, deu cópias a outras pessoas de sua convivência, só depois ao partido pagante.

Agora, para o horário eleitoral obrigatório, o PT, já decidido a elevar o papel do ex-presidente, avisou a Santana que Lula gostaria de ancorar o programa. Consultada, Dilma negou provimento ao pedido. Mandou dizer ao ex-presidente que tem muito a mostrar de seu governo e gostaria de ser ela mesma a âncora. Mostrou-se convicta que, ao começar o programa de TV, estará dando o passo decisivo para vencer a eleição no primeiro turno. Lula recolheu-se e avisou que ficaria em SP para trabalhar por ela, por Alexandre Padilha e para cuidar do Fernando Haddad, os três cuja situação está mais para perder votos do que para ganhar. A rejeição é generalizada e alta.

Lula não a acompanhou em duas performances no Estado, mas não está confortável, ainda, com a situação. O ex-presidente está sob intensa pressão. De um lado, os fregueses do governo ainda reclamam, com irritação e desejo irrefreável de sonegar apoio financeiro à reeleição; de outro, o PT está exigindo que o ex-presidente embale mais o mateus que produziu. A constatação é que Lula a elegeu mas deixou o governo correr solto demais e agora precisa retomar a influência no segundo mandato para tutelar o governo até a sua hora, em 2018.

Tudo isto não tem figurino constitucional, formal ou oficial. Não se perceberá mudança institucional na ação do ex-presidente ou do seu partido. Lula sabe que Dilma vai reagir, pois quer fazer o segundo mandato a seu gosto, já que não precisa mais pleitear o apoio para o futuro.

Será uma reforma da atitude política. Lula é quem precisa, agora, de um governo eficiente e condições políticas para voltar na disputa seguinte. É um jogo de sobrevivência mais para ele e seu partido do que para ela. A presidente não terá mais nada a perder, já foi mais longe do que poderia imaginar.
Fonte: Valor Econômico

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A Última chance (Rosângela Bittar)



O governo mal avaliado na totalidade dos seus programas, sem capacidade para administrar relações com o Congresso, vivendo uma sucessão de atitudes reativas desastradas, frustrado na sua comunicação com a sociedade a quem pensa estar agradando e perplexo quando vê que não está, começou, ontem, a rodar a roleta de sua última chance. Ela está nas mãos da dupla de ministros Aloizio Mercadante, da Casa Civil, e Ricardo Berzoini, das Relações Institucionais. Mercadante, hoje o principal político na coordenação administrativa do governo e na ponte com o comitê da reeleição da presidente Dilma Rousseff; Berzoini, o ontem empossado ministro da Secretaria de Relações Institucionais, com a missão de estabelecer alguma relação entre Dilma e a base aliada de 18 partidos políticos que sustentam o governo. Têm o desafio de começar tudo do zero - governo e campanha - e fazer tudo dar certo.

A última vez em que estiveram próximos, Mercadante como candidato ao governo de São Paulo, Berzoini como presidente do PT e coordenador das ações eleitorais do partido, foi para viver as consequências de uma trapalhada, da qual Mercadante seria o beneficiário, provocadas pela montagem de falso dossiê para atingir seu adversário naquele pleito. Uma atuação em campanha estadual liderada por grupo muito próximo do ex-presidente Lula e de sua mulher, fechou o círculo dessa ciranda que, faltando-lhe palavras para dar o nome certo aos bois, o ex-presidente denominou-os carinhosamente de "aloprados".

Agora, com a nova parceria de poder no Planalto, inicia-se uma etapa a que o PT atribui ser a última com esta configuração. Seria a oportunidade derradeira para que a presidente retome política e administrativamente seu governo, criando substância a apresentar ao eleitorado a quem pede votos para sua reeleição. E se nada acontecer? Bem, acreditam políticos do partido, que embora já seja tarde, Lula será impelido a assumir a liderança dos destinos do PT.

O novo desenho é uma intervenção de Lula e do PT no governo para tentar mudar as coisas antes do desenlace. O ex-presidente não se furta a ouvir o conselho de fazer logo o que tem que fazer, recebe com paciência os alertas de que pode perder o momento certo, até porque sabe que é grande o risco de não mais conseguir tomar pé da situação. Mas já não resiste à pressão, critica o governo embora acredite que, com o adiamento da decisão, está fazendo um gesto em deferência e na esperança de que branca nuvem faça um raio. Seja no plano do governo, seja no plano da política.

Ou funciona a política, ou funciona o governo. E o governo e a política conduzidos por Dilma estão três linhas abaixo da crítica, até mesmo para o PT.

Os desastres envolvem não só o desmoronamento dos pilares presidenciais, da faxineira ética e da competente gestora, como, sobretudo, as reações sempre equivocadas às dificuldades que se apresentam no seu caminho. Por exemplo, diz-se que pior do que o rebaixamento do grau de investimento do Brasil, foram as explicações do governo e as críticas à competência da agência de rating, a mesma que havia elevado o nível no governo Lula. Depois, jactou-se o governo de ter o Brasil recebido investimento recorde apesar do rebaixamento, numa ignorância técnica que só piorou a má avaliação da equipe.

A crise da Petrobras foi criada pela presidente, que reagiu mal à descoberta de que aprovara o mau negócio da compra da refinaria de Pasadena levando a controvérsia e as denúncias para dentro do Palácio do Planalto. A reação à CPI da Petrobras também foi outro tumulto, com a distribuição de missões atabalhoadas, confusas e conflitantes aos líderes. Não se está considerando nem a explosão de temperamento da presidente, segundo relato feito ao seu partido, mas as ordens dali emanadas, tais como, para envolver o adversário Eduardo Campos, não se importar de levantar a lebre das negociações do próprio Lula com governos estrangeiros, entre eles o da Venezuela.

O governo tumultuou o ambiente e perdeu tempo para convencer aliados a retirar assinatura do requerimento de CPI, o que, afinal, era seu objetivo. O preço do controle da situação só aumenta, e a margem para evitar pedido de providências ao judiciário fica a cada dia mais estreita.

Com Mercadante e Berzoini será diferente? Há quem diga que Berzoini chegou atrasado. Há um ano o partido tentava emplacá-lo, mas não conseguiu, exatamente por causa dos problemas pregressos. Agora, os parlamentares já estão cuidando de sua própria campanha da reeleição, precisam das verbas de emendas, ajudas e parcerias, têm a investigação da Petrobras no seu cacife e vários projetos de interesse do governo a manipular. Berzoini ainda tem o que fazer.

O governo não tinha problema no Senado, agora tem; não tinha uma crise na economia, agora tem; e o PT teve sua candidata à reeleição atingida no que seria a sua vantagem construída com esmero, a mais completa funcionária na área de energia e petróleo, a eficiente gestora.

Não se pode dizer, neste momento, que a presidente caminha para sair da crise, mas pelo menos aceitou armar-se para viver sua última chance. Dilma tem 43% de intenção de voto (nas pesquisas da semana passada), quando precisaria ter muito mais para ir queimando ao longo da campanha. A oposição tem, nas análises prospectivas, 35% do eleitorado, sempre. Há outros candidatos, alguns até com chances de ter 5%, como o do evangélico PSC.

O sonho de vitória no primeiro turno já se esfumou. O que algumas avaliações feitas para o governo indicam é que, hoje, Dilma tem 40% de chance de reeleger, contra 60% de perder a eleição.

O nervosismo e a aflição é para que haja tempo de, seduzindo o partido e os mais próximos, a presidente tenha condições de seduzir as ruas. Com muita simpatia.

O que teme o PT? É simples: a perda do poder.

Para acalmar aliados, Lula já aventou a possibilidade real da perda da disputa e o que faria nesse caso. Diz que partiria para quatro anos de campanha permanente e voltaria na eleição de 2018. O PT já lhe mostrou que precisa agir agora, pois quatro anos são muito tempo para o imponderável.

quarta-feira, 12 de março de 2014

O dono do mundo (Rosângela Bittar)



O Executivo vai mal na gestão da saúde, da educação, da segurança pública, da mobilidade urbana, da execução de obras de infraestrutura, da energia, principalmente da energia, e tudo o mais que interessa aos normais cidadãos. Algo disso é culpa do PMDB? Não, todas essas questões, como outras duas dezenas de outras grandes áreas do governo, estão sob a administração do PT.

O governo vai mal na sua articulação com o Congresso, pratica um diálogo de surdos com líderes e presidentes dos partidos de sua aliança política, humilha e exige. É o PMDB que lidera essa relação? Não, são tarefas sob a administração do PT, sediado no Palácio do Planalto.

O governo vai mal nas relações internacionais, rompe fácil e unilateralmente quando contrariado, desdenha de atitudes profissionais da diplomacia mundial, adula ditadores ao sul e ao norte do Equador. É do PMDB a iniciativa? Não, é do PT, que comanda a política externa do Palácio do Planalto, onde se encontra o alter ego diplomático da presidente e do partido, deixando os profissionais numa situação subalterna.

O governo vai mal na economia, na relação com os empresários, não conseguiu um mínimo de empatia para um trabalho conjunto a favor do país. Desastre à revelia do PMDB. É o PT quem conduz a política econômica e as relações no mundo dos negócios.

Está claro quem domina o Executivo.

O PT não tinha o controle das decisões da justiça suprema até o ano passado, agora já as tem, com a transmutação promovida, por tentativas de erros e acertos para atingir suas metas, dos ocupantes das cadeiras da Corte Maior. O conceito de estabilidade institucional do PT, digamos assim, passou a ser compreendido pela maioria do Supremo Tribunal Federal. Esse poder demorou um pouco a ser sintonizado porque o grupo do partido indicado à forca reagiu, esperneou, foi para a rua, para o blog, para a imprensa, e o partido perdeu um pouco de tempo, já em recuperação.

Em um ano eleitoral por definição complexo, é o PT que tem o domínio da Justiça Eleitoral. Além de Antonio Dias Toffoli, o ministro do Supremo que vai presidir as eleições, e que já foi funcionário do partido, três outros ministros tiveram ligações fortes com o PT por causa de suas carreiras de advogados, situação esdrúxula já criticada como absurda pelo presidente do STF por causa dos "interesses entrecortados". O advogado, em tese, defende o cliente durante o dia, e vestirá a toga de ministro que o julgará à noite.

Está claro quem domina o Judiciário.

Por uma circunstância e acordo político, o PMDB tem a presidência da Câmara e do Senado neste momento, mas é o PT quem domina os partidos da maior base de apoio já formada no Congresso para dar sustentação ao seu governo. Faz ali o que quer preservando a marca do exercício de voluntarismo à deriva do Executivo nos seus interesses legislativos. Mas lhe será muito melhor se, conquistando a maioria das cadeiras nas duas Casas com o exercício do poder já conquistado, por intermédio da definição das disputas estaduais, o PT passar a ter por direito e segurança o que já tem hoje por aliança.

O partido não perde votações, a presidente veta o que lhe escapa na barganha do Congresso, e se dá ao luxo de manter-se distante, alheia, e com a ojeriza à política partidária em dia. A presidente age como guerrilheira nessa relação.

Ficou claro quem controla o Legislativo?

Os chamados movimentos sociais, ONGs e sindicatos afinados com o PT são seduzidos e abduzidos de suas missões, facilmente, pelos instrumentos de atração reservados ao partido no poder. No caso, nos poderes. A resistência se torna uma atitude mais que heroica, praticamente suicida.

Que nome tem isso? Hegemonia. Vigorosa. O PT já colocou em pé uma engenharia completa de poder.

As aparências do momento são só isso, aparências, água mole na pedra dura, propaganda negativa como peça do jogo político. O PT está por cima. Não é Eduardo Cunha o inimigo público que se pretende pintar nem o autor solitário dos males que afligem a humanidade. O PMDB está onde sempre esteve, buscando migalhas em redor do poder real. Os partidos que engrossam a aliança de governo ciscam também e tentam manter-se respirando.

Ainda que parcialmente, mas por enquanto fora desse domínio, está a mídia, apesar das investidas de controle que o partido hegemônico não se cansa de tentar.

O PT atingiu o ápice, o poder amplo, a maturidade. A questão em discussões mais teóricas da academia é se, assim, já deu o partido um passo definitivo para virar história. É como se, ao estabilizar-se nos três poderes, desse por concluído seu projeto, envelhecesse.

Nada há contra nada disso como exposto, essa é a política brasileira. Mas não se deve crer, nem fazer crer, que o eleitorado do campo de observação seja de uma tolice amazônica.

Em Brasília, bastam as nuvens escurecerem para faltar energia. Caindo a chuva, então, é apagão na certa. Com dois raios, o que vinha voltando desaparece de vez. Agora, porém, surgem fenômenos novos.

As principais avenidas da cidade têm ficado no breu mesmo em dias secos. Os bairros têm recebido avisos (incomuns) de interrupção da energia "na sua unidade consumidora" para "construções, reformas e outros serviços na rede de distribuição". No caso em tela, das 9h às 15h de uma plena quarta-feira.

Aviso que tem todos os ingredientes para ser chamado de racionamento.

Eduardo Campos, candidato do PSB à Presidência, está conquistando os auditórios onde se apresenta pela excelência do discurso de oposição que vem construindo: "Linear, inteligível, contemporâneo", qualificam. Na Firjan, chamou a atenção dos empresários a ênfase ao caos energético do Brasil, área onde, ressaltou, a sua adversária presidente Dilma mandou e desmandou nos últimos 12 anos. Na Associação Comercial, em São Paulo, impressionou pelo conteúdo e, sobretudo, pelo modelo: foi moderado em particular e muito duro na conferência em público. Uma escola diferente de sua adversária do PT, anotou-se.

Fonte: Valor Econômico

quarta-feira, 5 de março de 2014

Com o que Dilma deve se preocupar (Rosângela Bittar)



Propaganda, sozinha, não resolve os ralos dos votos

As pesquisas de todos os institutos, tanto os que trabalham para candidatos e partidos quanto os que atuam para o mercado e órgãos de comunicação, convergiram mais cedo este ano. No fim de fevereiro todos eles fizeram uma rodada que apontou o que geralmente apontam às vésperas da votação. Chegaram a um consenso quanto à situação de Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), os principais candidatos ao pleito presidencial já lançados, com pequenas nuances entre um instituto e outro quanto aos índices de intenção de voto de cada um.

Esse dado, contudo, não é o mais importante agora, notadamente para a presidente Dilma, candidata à reeleição. A intenção de voto é relevante para atrair financiamento de campanha, alianças, consolidar a base política, conquistar tempo de propaganda na TV, impressionar uns e outros, dar discurso.

Mas a informação fundamental das pesquisas para os especialistas, agora, do ponto de vista estratégico da campanha, são os índices de avaliação da administração da presidente candidata à reeleição, seu desempenho no cargo. É isso o que vale para que, inclusive, consiga reverter algumas tendências negativas. Tempo há, de sobra.

Até junho, época das convenções e arrancada da campanha, qualquer candidato à reeleição precisa se preocupar com a avaliação que o eleitorado faz de sua gestão. Obsessivamente. Cobrar respostas de seus ministros ou secretários, municiar o marqueteiro, que vai tratar de manipular "as realizações", reais ou fictícias, na propaganda, para que o eleitor seja conquistado para a ideia da continuidade daquela maravilha e não da interrupção, da mudança, ou da descontinuidade, como se define no jargão dos especialistas.

Nenhuma das pesquisas divulgadas em fevereiro mostrou felicidade do eleitor com o governo Dilma. Comprovou-se, nas manifestações de junho do ano passado, quando ainda foi, para alguns, surpreendente a reação da sociedade, saturada da baixa qualidade dos serviços públicos, o que ainda está em evidência hoje: uma insatisfação generalizada com o desempenho em todas as áreas do governo, da Educação à Saúde, da Segurança à Economia.

Nem os programas formulados para servirem ao marketing político de Dilma e Alexandre Padilha, dois supercandidatos inventados por Lula, o rei Midas eleitoral, estão sobrevivendo. O Mais Médicos, por exemplo, sofreu reformulação radical na última sexta-feira, pois mostrava que o tiro, longe de certeiro, estava mesmo saindo pela culatra. Por pura arrogância do governo que, desde o início, alertado para os furos no programa, resistiu a alterar sua configuração, deixando que ficasse parecendo o que acabou sendo de verdade, um projeto de ajuda financeira a Cuba.

Não se sabe se foi mera coincidência a alteração essencial do programa, no sentido de melhorar o salário pago aos médicos, reduzindo um pouco o repasse a Cuba, para evitar deserções que arruinariam a campanha eleitoral, com a visita que a presidente Dilma, primeiro, e o ex-presidente Lula, depois, fizeram à ilha, para encontros amigáveis com Raul Castro. O fato é que ele aceitou perder um pedacinho da benesse que tinha do Brasil em nome do sucesso de seus padrinhos do governo brasileiro.

E assim são todos os outros programas de áreas escolhidos para serem utilizados no portfólio eleitoral. Na Educação, outro exemplo, que era para ser a área por excelência do marketing da campanha de reeleição, os números da performance brasileira no primeiro grau, no ensino médio, no ensino técnico, no Pisa, em qualquer avaliação que se consulte, dão marcha à ré. Na segurança nem se fala, e na Saúde, se tirar o Mais Médicos fora, mesmo mal ajambrado, não sobra absolutamente nada. Alexandre Padilha terá que centrar seu discurso no ataque aos adversários, não tem o que mostrar.

A avaliação do desempenho de Dilma no governo está perto do limite que os analistas dizem ser o mínimo para que um governante consiga se reeleger: 40% para quem está no cargo. Dilma, portanto, precisa se convencer que urge uma alavancada na avaliação positiva.

Além de melhorar a avaliação do governo, a presidente candidata à reeleição precisa urgentemente determinar aos marqueteiros que trabalhem para reduzir o percentual do eleitorado que quer "mais mudança", invertendo a posição com quem quer "mais continuidade".

Uma necessidade está diretamente relacionada à outra. Se conseguir melhorar a avaliação, tenderá a ver melhorados os índices dos que querem mais continuidade. Aí é dar um passo largo para o abraço.

O placar, hoje, arredondando-se os índices, é de 60 (mais mudança), a 40 (mais continuidade). Um grave alerta, parecido com o que o governo Fernando Henrique Cardoso tinha em 2002, exatamente quando foi interrompida a administração do PSDB.

Nos casos de sucesso da reeleição, seja de governador seja de presidente, o índice dos que queriam continuar sempre ultrapassou bastante o quantitativo da mudança.

São duas questões de fundo, necessidades prementes na campanha da reeleição, e as duas têm a ver uma com a outra: Dilma tem que melhorar sua avaliação da gestão porque, melhorando, ela vai conseguir mexer na relação entre o desejo de mais continuidade e o desejo de mais mudança.

Os marqueteiros da campanha, especialmente o experiente João Santana, o chefe da propaganda de Dilma, sabem que a intenção de voto agora é secundária. Até porque conhecem bem as tecnicalidades e sabem que estão comparando alhos com bugalhos, pelo desnível do conhecimento de cada candidato. Temos no quadro eleitoral uma candidata, Dilma, com 90% de conhecimento; um candidato, Aécio, com 42%; e um terceiro, Eduardo, com 23%. É impossível comparar intenção de voto.

Quando, em fevereiro de 2010, Dilma perdia longe nas intenções de voto para José Serra, ela tinha só 50% de conhecimento.

Fonte: Valor Econômico

quarta-feira, 20 de março de 2013

A chave eleitoral do segundo turno (Rosângela Bittar)






Em 2014, seja na disputa da Presidência, seja de governos estaduais, a ordem nos partidos é apresentar candidatos. Até quem não tem chance nenhuma, sendo médio ou nanico, estruturado ou não, quer tomar o seu lugar na chave. O histórico de campanhas recentes tem mostrado aos políticos que é moderno e eficiente jogar com o segundo turno, seja para disputá-lo, seja para negociar aliança na campanha ou composição de governo com o vencedor. Muitos - a maioria -não querem esperar a eleição seguinte para ter sua vez. É o aproveitamento máximo do momento.

Por exemplo: A candidatura de Gilberto Kassab ao governo de São Paulo, já posta, é uma busca de resultados para já ou para o futuro? É claro que é para o futuro. Assim, são várias as candidaturas a presidente, no momento, que já ficaram irreversíveis, mesmo com as dificuldades quase invencíveis de uma disputa com uma presidente no cargo fazendo um governo popular.

Faltam detalhes, alguns mesmo fundamentais, mas no plano geral da antecipação de campanha existem três candidaturas presidenciais adversárias à da presidente Dilma Rousseff praticamente irreversíveis, hoje: Eduardo Campos, Marina Silva e Aécio Neves. Outras podem surgir, mas essas já são.

A favorita absoluta é Dilma. Está no cargo, faz um governo popular com um lançamento de pacote de benefícios por semana, e tem uma aliança partidária ampla que lhe permite um espaço de propaganda inigualável. Mas ninguém quer desistir de véspera, pois há, no sistema eleitoral, o bendito segundo turno, para reduzir o número de perdedores. Até a oposição conta com ele para manter as esperanças caso seja ela a passar à nova rodada.

Entre todas, a candidatura menos construída é a de Aécio Neves. A Marina falta o partido, a Eduardo ser conhecido, a Dilma - a pesquisa Ibope mostrou, ontem -, falta um governo que lhe dê discurso para além da propaganda. A Aécio falta tudo.

O que menos falta é o que os adversários mais cobram: o discurso. Para começar, entre todos, Aécio é o único candidato realmente de oposição, por isso pode ter um discurso definido e confortável quando chegar o momento.

Depois, para enfrentar a propaganda das campanhas políticas, um discurso temático importa pouco. A disputa, na reeleição, se dá entre continuidade e mudança. É muito difícil fazer a mudança quando a maioria quer a continuidade, e vice-versa. A não ser que sobrevenha uma hecatombe.

No caso, uma crise econômica grave com reflexos no emprego, uma divisão profunda na base de sustentação política do candidato no governo, o surgimento de vários candidatos quando antes havia apenas um, o sucesso na exploração de temas nos quais o governo visivelmente fracassou (Saúde, Segurança, Impostos, mostrou a pesquisa de ontem). Mas é muito difícil.

De qualquer forma, ninguém quer, por causa dos obstáculos, desistir, deixar de disputar, e sempre há flancos na candidatura favorita, como em qualquer uma. Por isso, apesar da popularidade da presidente e da aceitação do seu governo, os partidos seguem na construção de alternativas.

No PSDB, tem-se uma ideia sobre como construí-la, qual é o passo a passo. O primeiro é formar uma direção partidária sólida, com disposição de trabalho e prestígio, capaz de agir em várias direções, principalmente nas preliminares eleitorais mas também quando chegar o momento das decisões sobre a condução da campanha.

O senador Aloysio Nunes Ferreira, do PSDB paulista, que assiste seu partido, mais uma vez, se digladiar para formar essa direção, costuma definir o comando partidário como uma banda de música. A harmonia é fundamental para unificar a linguagem, mapear locais onde é preciso vencer resistências, suscitar candidaturas onde o presidenciável não tem palanque, comprar as brigas, fazer o discurso mais contundente. O candidato deve se preservar, o presidente do partido não.

Em Pernambuco, onde haverá um candidato a presidente na disputa, o PSDB terá que apresentar um candidato ao governo. No Paraná, no Rio de Janeiro, são problemas à espera da solução do comando partidário.

A Executiva precisa funcionar. Sergio Guerra, senador e presidente do PSDB há vários anos, é considerado talentoso, um bom analista do quadro eleitoral, um político corajoso, mas não faz a Executiva funcionar.

Muito há a ser feito até chegar o momento de criar a equipe de campanha, que se sobrepõe à direção do partido. É a Executiva que conduz toda a fase que começa agora e vai até o período de propaganda. As alianças políticas são por ela negociadas, tem toda uma lição de casa a cumprir. Afinar o discurso, fazer pesquisas, preparar a casa.

Em que estágio dessas preliminares está a candidatura do PSDB? Absolutamente inicial. Na fase de sondagens para organização da Executiva Nacional, a ser definida em maio; na fase de ter Aécio como pré-candidato para que apareça mais, tenha maior protagonismo na política.

Até isso o PSDB demorou a conseguir, enquanto a candidatura favorita foi se tornando mais favorita ainda com os pacotes de benefícios para diferentes grupos do eleitorado.

Aécio é o candidato do PSDB, aceito por todos, José Serra inclusive. O ex-governador de São Paulo quer ser ouvido, já teve dois encontros a sós com Aécio, um no começo do ano, outro anteontem, e depois disso não há ninguém no PSDB que consiga ver Serra fora do partido, como se propagou.

Não iria para o partido do Kassab, cuja criação foi contra, um partido que nasceu na órbita da presidente Dilma, ou seja, do PT. O PPS, um partido pequeno, sem estrutura, que o enfrentou na última eleição lançando uma candidatura errática na cidade de São Paulo, também não parece ser um bom destino. O senador Aécio Neves saiu do encontro desta semana com a impressão que Serra é PSDB e será sempre PSDB. Com vocação política visceral, Serra não vai sair e ficar sem partido. Faltando qualquer sentido para sua migração, e uma vez aceita a candidatura Aécio, deve ficar e atuar.

Fonte: Valor Econômico

sábado, 19 de maio de 2012

Dilma consolida autoridade presidencial (Rosângela Bittar)


Dilma, a presidente, está mais à vontade no cargo este ano do que esteve em todo o ano passado, e seu avanço sobre o próprio governo foi possibilitado por dois fatos inesperados e circunstanciais que acabaram lhe dando maior autonomia: o afastamento temporário do ex-presidente Lula da cena política, por razões de doença, e o afastamento definitivo do ex-ministro Antonio Palocci, uma figura muito forte que acabava impondo seu ritmo e seu estilo no Palácio do Planalto.

Até pouco tempo antes de deixar a cena governamental, Lula já era ouvido mais nos assuntos da política e dos políticos do que de governo, e a sua volta, agora, depois de concluído o tratamento de saúde, já encontra uma outra dinâmica instalada. Não que deixará de ser o mais influente e importante dos mentores, mas inclusive pelo afastamento de vários ministros que havia imposto à sucessora, sua ascendência sobre o governo será naturalmente menor.

No que se pode definir como uma nova abordagem do comando, quase do tipo começar de novo, a presidente radicalizou: passou a fazer só o que quer, a desautorizar quem age em seu nome, a resistir a imposições e timings alheios. Por isso a frequência com que se ouve o dito pelo não dito, as esperas prolongadas no tempo para a tomada de decisões. Dilma vai fazendo ao seu modo, nomeando os seus próximos, restabelecendo a rede de confiança e mandando todo mundo se calar. Eles se calam.

Segundo comentários na aliança governista, onde também se vai desistindo de empurrar a ferro e fogo as demandas goela abaixo da presidente, do jeito que está montado o governo, agora, Dilma terá condições de chegar a julho de 2014, no início efetivo da campanha da reeleição ou da hipótese, menos provável, da eleição de um sucessor, "tendo o que dizer à população".
Além dos programas de promoção social e econômica, a agenda de governo da presidente Dilma está, com uma ou outra exceção - de que o exemplo mais citado é o programa Sem Fronteiras, de formação pós-graduada no exterior - voltada para a economia.

Nos discursos dos primeiros meses deste segundo ano Dilma tem reafirmado os problemas que se transformaram em objeto de sua obsessão, todos no trilátero da economia: juros, câmbio e impostos. O enfrentamento dos juros altos se dá às claras e, segundo um intérprete das intenções presidenciais, ela vai até o limite para não ver mais, no Brasil, lucros bancários de um bilhão por mês. Os bancos terão que trabalhar mais para ganhar a dinheirama com que estão acostumados, em resumo. Embora já se admita, depois do primeiro tranco, concessões para que resolvam os problemas que alegam na sua estrutura, não haverá abertura de guarda, será pressão integral. Quanto ao câmbio, o mundo se encarregou de sacudir, e os impostos, Dilma começa a tratar deles agora. A presidente quer não apenas reduzir a carga tributária, mas simplificá-la. Pretende começar negociando com Estados - por exemplo, a renegociação da dívida em troca de uma alíquota única de ICMS - é uma ideia.

O governo se vangloria de ter obtido, até agora, sucesso em 6 das 7 questões que discutiu com empresários em duas reuniões de grupo de representantes com a presidente. O único que não avançou, reconhece, foi o barateamento da energia, por isso escolhido para ser o seu próximo passo. A economia, para crescer, precisa de condições internas e externas, diz-se o axioma no Palácio do Planalto, e as internas serão construídas, como já estão.

Para realizar seu plano e poder chegar a julho de 2014 na situação ideal que deseja, a presidente acredita que não precisará de embates políticos radicais. Ao contrário, pretende evitá-los. Há dois conceitos muito lembrados nos gabinetes do governo. Um, é que "não somos a Argentina, trabalhamos em paz", e suas variações, como a que evita comparações entre Dilma e Cristina Kirchner.

Que ela irá brigar lá na frente com a oposição, não há dúvida, mas agora sua prioridade é governar. "Ninguém governa na guerra", é um dos preferidos lemas no Palácio do Planalto.

Nessa linha de raciocínio o governo gosta de exemplificar a partir da relação da presidente com os principais políticos da oposição, notadamente filiados ao PSDB. Recebeu os sábios do mundo, grupo de que faz parte o ex-presidente Fernando Henrique, para jantar no Palácio da Alvorada; trata o ex-presidente do partido adversário com educação, até com deferência; aprovou a entrega da relatoria da Comissão da Verdade no Senado, assunto delicado e seu grande interesse, ao senador do PSDB de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira; sua conversa com o governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, flui. Enfim, um rosário de exemplos para provar que sua ação, toda, é intencional e formulada com esmero. Ou seja, Dilma também não é Lula.

Por isso, o desgosto com a CPI do Cachoeira, criada com o incentivo do ex-presidente para atender a demandas do PT e do PMDB (Renan Calheiros renasceu com o poder na comissão), além do ex-presidente Fernando Collor. Esse tipo de ocorrência, a CPI, pode levar, ao segundo ano de mandato, o risco que as demissões sucessivas de ministros levaram ao primeiro. Principalmente, o da paralisia do governo.

E o que cria mais tensão para Dilma, hoje, na CPI, é a já histórica ideia fixa, do PT e de Collor, de aproveitar a oportunidade para uma vingança e criminalizar o trabalho da imprensa. "A agenda do PT não é a agenda do governo", diz um interlocutor da presidente. O que se conta, em Brasília, é que a sanha tem dias contados: "Quem mandou começar já mandou parar com essa história da imprensa".

Mas embora não tenha levado adiante ainda o projeto de controle da mídia, deixado a este pelo governo anterior e atualmente revitalizado pelo PT no contexto da CPI, Dilma não o engavetou. Acredita que a lei em vigor é da era pré-Internet e é necessário uma atualização, mas não pode ser algo escrito com o fígado, logo depois da disputa eleitoral, eivada de idiossincrasias e de fissura por controle, como o texto em causa. O projeto será podado de tudo o que ferir a democracia para, um dia, ser lançado adiante. Não será no clima de desvios do foco da CPI do Cachoeira, muito menos num contexto de vinganças, que esse marco regulatório se realizará.

FONTE: VALOR ECONÔMICO (16/05/12)