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quarta-feira, 19 de junho de 2019

Diferenças purgadas (José Arthur Giannotti)

A agência The Intercept revela que Sergio Moro e Deltan Dallagnol trocavam informações e armavam estratégias para montar processos contra os atores que caíram nas malhas da Operação Lava Jato. Os puros começam a sair às ruas armando fogueiras para fritar juízes, promotores, policiais que passaram dos limites de suas funções.
Espanta-me que até agora não tenham percebido que a Lava Jato foi e ainda é um processo essencialmente político que sempre esteve à beira dos limites de cada profissão. E só tem sentido porque a corrupção, inerente a qualquer política, se institucionalizou entre nós conforme se adensava nosso presidencialismo de coalizão. No entanto, se o movimento é político, não é por isso que se torna automaticamente partidário. Embora Moro e Dallagnol possam ter agido contra Lula e Haddad, a Lava Jato como um todo não poderia ter sido apenas antipetista, porquanto mobiliza centenas de pessoas que não podem ter a mesma escolha partidária. Como era de esperar, para não cometer os erros em que caiu, na Itália, a Operação Mãos Limpas, importava antes de tudo focar o centro do governo e chegar até as periferias. Não é à toa que os ex-governadores do Rio de Janeiro estão na cadeia.
Cabe, ainda, considerar que seguir uma regra jurídica não equivale a resolver uma equação matemática. O ministro Celso de Mello, um dos mais formalistas do Supremo Tribunal Federal (STF), explicou para a jornalista Andréia Sadi que, diante de um caso, primeiro, julga se ele é justo ou não para, depois, encontrar as leis e a jurisprudência que fundam seu julgamento. Se isso contraria os que imaginam que julgar se resolva tão só em peneirar os casos conforme a rede do Código Penal e da Constituição, não seria melhor refletir mais de perto no que significa o próprio julgar? As normas superiores também se ajustam aos casos e sempre entrelaçam momentos subjetivos e objetivos. Por isso a sentença de um juiz passa por várias instâncias, podendo retroceder à primeira se forem descobertos defeitos nos autos ou se novas provas forem apresentadas. Em resumo, o julgamento é um processo coletivo em busca de uma certeza, embora, a despeito de tudo, possa terminar incriminando inocentes.
Por certo existem leis que impedem que juízes conversem com promotores e policiais durante a investigação de casos que eles mesmos irão julgar. Quais são, porém, os limites de uma conversa entre pessoas que convivem no cotidiano e comungam posições políticas semelhantes? Uma coisa é trocar opiniões, outra é um juiz ter relações pessoais com o réu ou com o acusador. Por certo, também, existem leis que proíbem alianças entre juízes, promotores e policiais.
Por muitas vezes os atores da Lava Jato passaram o Rubicão e estrategicamente retrocederam. Não é o caso das prisões coercitivas para provocar delações premiadas? Mas, sem elas, a máfia das empreiteiras ainda não estaria funcionando? E, se os infratores da Lava Jato forem pegos, que também contra eles se apliquem os processos legais. E que sejam compreendidos, ao invés de serem queimados nas fogueiras armadas por inquisições tuiteiras.
Consistindo num movimento político, era inevitável que seus maiores astros fossem atraídos pela política partidária. Era o destino de Moro, era do interesse de qualquer candidato que participasse de seu eventual governo. Não sabemos até que ponto Moro se ajusta ao populismo de Jair (mais) Messias (do que) Bolsonaro. Não me parece que, a despeito de suas origens, seja um conservador empedernido. No entanto, provou que não tem jogo de cintura para enveredar pelos meandros de uma carreira política. Se Bolsonaro sofre do mesmo defeito, ele não tem o auxílio dos filhos articulados e perigosos. O teste definitivo da nova carreira é agora, que está no meio do furacão.
Lembremos que o populismo antidemocrático é um movimento mundial. Como já tem sido dito, de certo modo o povo está contra a democracia. Reforçar suas raízes implica sanear os Três Poderes que a tramam. Não vamos esperar, porém, que o Judiciário seja uma máquina apolítica de julgar. Se movimentos políticos o atravessam, creio ser melhor entendê-los sem esquecer as inovações e os perigos que os espreitam. Somos todos devedores da Operação Lava Jato e deste processo que tem desvendado operações criminosas e ajudado a punir malfeitores. Se um deles escapa de seus laços, não é por isso que vamos decretar uma anistia geral. Se alguém, há dez anos, dissesse que as cúpulas das empreiteiras do País iriam parar na cadeia, com ou sem tornozeleira eletrônica, seria tachado de maluco. Antes de tudo, cabe ajustar as leis para que sejam mais eficazes no combate ao crime institucionalizado.
Esse ajuste, porém, só pode ser eficaz se, aos poucos, superarmos a crise da política contemporânea. Quando predomina o dedo-duro até mesmo nas relações pessoais, amizades de décadas se desmancham. O outro deixa de ser adversário para virar traidor e inimigo. O pior é que neste clima de tiroteio, açulado ainda mais pelo atual governo, os reais problemas do País desaparecem no nevoeiro das provocações midiáticas. Ao grupo mais próximo do presidente Bolsonaro importa regenerar costumes do século 19 e educar patriotas bem comportados.
Cabe ao resto do Ministério configurar, de um ponto de vista conservador, os reais problemas do País, em particular aos dois “superministros”, um deles agora depenado. Em contrapartida, as esquerdas, em vez de tratar de reescrever a história e propalar como foram apeadas do poder por um golpe, que enfrentem cara a cara a crise econômica, social e cultural em que nos metemos.
Nota: agradeço a Lidia Goldenstein e a Marcio Sattin por terem colaborado neste artigo
(*) José Arthur Giannotti é professor emérito de filosofia da USP e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)
O Estado de S.Paulo/13 de junho de 2019

domingo, 21 de outubro de 2018

Forças ocultas vão ter de se moderar (José Arthur Giannotti/entrevista)

A eventual eleição de Jair Bolsonaro (PSL) vai jogar conspiradores e golpistas na dança política, afirma José Arthur Giannotti, 88, um dos mais influentes professores de filosofia do país, que já deu aulas na USP, da qual se aposentou, e na Universidade Columbia, em Nova York.
E essa é uma boa notícia, segundo ele. "A grande sorte dessas eleições foi trazer para a política as forças ocultas”, disse à Folha. "Com isso, elas vão se moderar. Você não governa com ameaças nem se mostra publicamente como bandido. Eles serão obrigados a se civilizar."
Um dos primeiros intelectuais a dizer que os tucanos caminhavam para a morte, em 2014, Giannotti afirma que não há chance de renascimento do PSDB, partido do qual já foi considerado um ideólogo informal. Mas defende que um partido de centro é essencial. "Para conter o discurso e a prática velha do PT. E para conter essa onda que acredita na violência pela violência."
Ele elogia o desmonte do sistema político provocado pela onda conservadora por achar que ela abrirá a estrutura extremamente fechada. Ele nem esperou o repórter perguntar para começar a falar.
Nós estávamos numa negação política. O Congresso fechado nele mesmo, armado para se reproduzir. O governo isolado, incapaz de enfrentar as crises econômicas e sociais. Estávamos num fechamento total. E a Lava Jato denunciando, num processo jurídico-político, na medida em que atua juridicamente mas com intenções políticas. Sua intenção é jogar uma bomba atômica no processo político.
• Por que a polaridade PT-PSDB foi varrida?
Foi varrida porque ao PSDB faltaram lideranças, faltou se renovar. Quando você chega ao [João] Doria, que é pura aparência, é o fim. Nós vivemos numa sociedade do espetáculo, mas com o Doria você só tem espetáculo, não tem conteúdo político. O PSDB ficou dividido entre o Alckmin e oDoria. Do outro lado, o PT levou o país a uma recessão brutal por causa de uma série de equívocos econômicos. Esta eleição recupera e amplia 2013 [movimento contra alta de tarifas de transporte que depois começou a questionar a agenda dos partidos e a eficiência do Estado].
• O que o sr. achou do resultado das eleições? 
Estou contente porque esse movimento antidemocrático, que é profundo e ocorre no mundo inteiro, representa o capitalismo atual, que é o capitalismo de conhecimento. Isso exige uma universidade que faça pesquisa, e o lulismo transformou a universidade num processo de ascensão social: você sai de secretária 3 para secretária 1. Os tucanos também fizeram isso em SP.
A eleição trouxe essa violência toda para o jogo político. Nós temos uma violência insustentável: morre mais gente aqui do que na guerra da Síria. A eleição foi um banho de soda cáustica revelando as nervuras da real luta política.
• Essa onda conservadora tem relação com a violência?
Evidente. Mas é também uma reação violenta. Não esqueça também que o PT achava todo mundo que não fosse petista um canalha, golpista. A violência na política não está apenas no lado fascista, mas está do lado do populismo. Ao trazer a violência para a disputa, você traz inclusive os milicos para a política. Em vez de ficarem conspirando entre eles, uma parte da conspiração vai para a política. Porque a conspiração vai continuar.
• Há perigo de golpe?
Esse perigo diminuiu. Agora tem menos risco de golpe porque as pessoas que eram golpistas encapuzadas passaram a ser golpistas dentro da dança política. Viraram parte da instituição. O golpe pode vir no impeachment do Bolsonaro. Em seis meses ele não vai ter essa aprovação que tem porque não vai resolver a crise econômica. Está todo mundo assustado, mas o resultado é bom.
• Não há razão para susto?
Pelo contrário. Temos que fincar as nossas razões democráticas e começar a combater as causas dessa violência toda. O país está se preparando para sair da crise com crescimento de 1,5%, como se estivéssemos no século 19. Quais são essas causas? O petismo imaginou que existia um capitalismo brasileiro com características diferentes do mundial. Isso não dá num capitalismo de conhecimento.
• O PSDB pode renascer?
Não. O fundamental é que renasça o centro. Porque não existe política sem centro. Para conter o discurso e a prática velha do PT. E, por outro lado, para conter essa onda que acredita na violência pela violência.
• Por que o voto nos extremos?
O eleitor foi para os extremos porque ele raivosamente se apegou às promessas do PT, que foram frustradas. Essa raiva faz parte da tradição política, mas ela piorou. Nunca vi tanta violência, nem em 1964. Porque agora há muito ódio. E a violência está dos dois lados. Muitas vezes os que são contra Bolsonaro têm uma violência bolsonarista.
• Há outras razões para o voto nos extremos?
Há. O eleitor vive num mundo violento e acha que só a violência resolve. Para acabar com a violência, ele acha que é bandido na cadeia ou morto. Isso não funciona no mundo real. Você só resolve isso criando instituições democráticas. Você tem de criar empregos, tem de esclarecer como será a reforma da Previdência e acabar com vantagens.
• Quais vantagens?
As vantagens do funcionalismo, como auxílio-moradia. Quando você tira as vantagens, dizem que estão tirando direitos. Desculpe, mas estão tirando vantagens. Sou beneficiário disso também. Todos nós tivemos aposentadoria integral na USP. Eu me lembro quando estava construindo esta casa, eu peguei o [o filósofo francês Michel] Foucault e ia levá-lo para a faculdade [de Filosofia], mas tive que passar na obra. O Foucault perguntou: “Você tem bens pessoais, herança? Porque um professor na França jamais faria uma casa desse tipo”. Todo mundo tinha esses privilégios na USP. Há benefícios para militares, professores e juízes que nenhum país do mundo tem. Isso tem de acabar.
• Dá para pacificar o país?
A grande sorte dessas eleições foi trazer para a política as forças ocultas. Com isso, elas vão se moderar. Você não governa com ameaças nem se mostra publicamente como um bandido. Eles serão obrigados a se civilizar. Não dá para ter também um país tão pobre. Isso não é mais tolerável.
• Bolsonaro ataca mulheres, negros, gays e indígenas. Isso significa um retrocesso comportamental ou ele fala por um Brasil que é conservador mesmo?
Uma parte do país é conservadora. Mas esse discurso é uma estratégia, uma forma de se mostrar como durão. Isso pode ter repercussões muito ruins. Uma coisa é um deputado dizer que não estupra uma deputada porque ela é feia. Se um presidente disser isso, sofre impeachment. Esse comportamento é inaceitável para um presidente. Ou ele muda ou cai. Na eleição tínhamos que escolher entre duas crises.
• Quais?
A crise que vem junto com Bolsonaro, com violência e não democracia, ou o impeachment por estelionato eleitoral do PT. Tudo indica que, pelo plano de governo que o Lula tinha montado, não daria para cumprir as promessas. O Brasil está encalacrado e só vai desatar quando o sistema político ficar mais moderno e democrático. Antes estava inteiramente fechado. Agora desarrumou tudo. Que bom!
Mario Cesar Carvalho/Folha de São Paulo
16 de outubro de 2018