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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Depois do segundo turno: a terceira margem (Giuseppe Cocco)

"O primeiro desafio, portanto, para analisar o fenômeno denominado 'nova direita' é inseri-lo nessa série real de acontecimentos, e não o tratar como uma simples entidade abstrata que emergiria do conservadorismo profundo existente no Brasil ou de uma manipulação em massa organizada por empresários mal-intencionados"
O artigo é de Giuseppe Cocco, professor titular da UFRJ, doutor pela Sorbonne (Paris I), autor de Glob (AL) com Antonio Negri (2005), MundoBraz (2009) e KorpoBraz (2015), entre outros livros, participa da rede Universidade Nômade.
Eis o artigo.
Apenas constatar o tamanho do desastre é constatar o óbvio
É limitar-se ao desalento. Comecemos então pelo fim. A organização de um campo de resistência democrática tem por condição número um reconhecer não somente as ameaças, como também a ambivalência do resultado eleitoral. Particularmente, é preciso apreender a recusa em conferir uma quinta vitória ao PT e a Lula. Esta recusa nos indica que o desafio é estar no campo de lutas democráticas para além do petismo. A incapacidade de afirmar esse campo de lutas dissociado do PT e capaz de emergir como alternativa democrática à candidatura de Bolsonaro foi o que levou o antipetismo a reagrupar-se à direita do espectro político-partidário. Uma direita de novo tipo, permeada de elementos de extrema-direita, que fermentou ao longo dos últimos quatro anos.
O sucesso do antipetismo não é somente eleitoral. A heterogeneidade do antipetismo encontrou na figura de Jair Bolsonaro a representação de um movimento realmente capaz de derrotar o PT e com enorme força na sociedade brasileira. Diante dessa constatação, não adianta condenar esse movimento, esperando que ele se esfume pela força do argumento racional e moral. Em vez disso, precisamos entender como pôde se tornar majoritário nos últimos anos, como ele funciona, o que lhe dá vitalidade, e então como lutar para desviá-lo de suas características autoritárias.
Temos, assim, duas tarefas complementares: 1. Apreender as resistências difusas, evitando as tentativas de mistificá-las através de caricaturas pseudo-heróicas inseridas no lugar das lutas. 2. Realizar uma reflexão de fôlego sobre a derrota de praticamente todas as tentativas de construir uma terceira via potente. A resistência que nos falta precisa estar em outro lugar, numa terceira margem que só as lutas e as políticas por um novo marco de proteção social podem constituir.
Depois de mim, o dilúvio
Entrever e criar possibilidades de resistência passa pela análise crítica dos últimos anos. Foi o sucesso da estratégia petista nesse período que, paradoxalmente, nos levou ao abismo. O nefasto resultado eleitoral é o desfecho do turno que começou em 2014, depois da pacificação do levante de junho de 2013. Ao longo dos últimos 5 anos, grande parte do campo da esquerda negou-se a fazer a crítica ao PT e ficou no conforto aparente das soluções que o Lulismo lhe oferecia. Lula e o PT foram assim montando uma política de chantagem sistemática. Defender o PT deixou de ser uma opção, e sim uma obrigação política, moral e civilizatória. Essa estratégia é organizada a partir de um duplo dispositivo: por um lado, toda força alternativa ao lulismo é inviabilizada; por outro, o pior é produzido incessantemente, numa piora interminável. Inicialmente, a operação foi pacificar o ativismo que ocupou as brechas do levante de junho de 2013. Se o verde amarelo passou a ser obrigatório na “Copa das Copas” (julho de 2014), a partir do ano seguinte se tornaria imoral: o estigma de “coxinha” colou na pele de todo contestador do “bom governo do PT”.
E graças ao marketing baseado em fake news de outubro de 2014, destruiu-se a candidatura de Marina Silva, por ela, eventualmente, representar uma alternativa, impondo Aécio Neves como o candidato ideal ao qual se opor. Em seguida, transformou-se o teatro da negociata do impeachment em “Golpe”. Depois de diluir a mobilização crítica em um oportuno e instrumental frentismo de refundação (Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, sempre com Lula à frente) e acompanhar com condescendência a emergência de candidaturas que deveriam “unificar” a esquerda, Lula e o PT passaram a rasteira na única delas que tinha que tinha chances de ter algum peso eleitoral: Ciro Gomes.
Nas eleições de 2014 era compulsório votar, mesmo que sob a boa consciência do voto crítico, contra a “volta do neoliberalismo”. Durante o impeachment de 2016, a mobilização passou a ser contra nada menos que um golpe. Em 2018, o voto obrigatório no PT virou um voto da “civilização contra a barbárie“. Esse mecanismo irresponsável permitiu que a urgente crítica ao PT fosse sempre adiada pelas “urgências” que o próprio PT produziu em série. Nunca é “momento de criticar o PT”.
Até que o lobo chegou
De um estelionato a outro, a esquerda foi relativizando a corrupção, operando com cinismo as fake news e tratando como normal se aliar a candidatos “golpistas” (como Eunício Oliveira e Renan Calheiros) para conquistar votos no sertão nordestino, e assim “levar” a quinta eleição nacional seguida (sem sequer uma aliança ou coalizão). Desta vez, o Lulismo viu-se diante do reflexo de si mesmo. Não a transparência desarmada de Marina Silva, e nem a malandragem de Aécio Neves, e sim um movimento real, capaz de dar voz à recusa popular ao PT e de mobilizar eficazmente o mesmo volume de deturpações: o feitiço virou contra o feiticeiro. Para não ser responsabilizado pelos erros e por seus crimes, o PT continuamente denunciava a chegada do lobo. Finalmente, o Lobo apareceu e a maioria escolheu o próprio lobo: Haddad e o PT sequer conseguiram aparecer para a maioria dos eleitores como uma verdadeira alternativa diante de um adversário assustador. A novidade que parecia ter sido exorcizada em 2013, ressurgiu e se impôs. No entanto, não é o PT que corre o risco de ser devorado pelo Lobo, mas a multidão dos pobres e minorias, a começar pelo Nordeste que se manteve fiel ao PT.
Do mundo das lutas para a luta de mundos: as guerras culturais
A auto-vitimização que permite ao PT “julgar os outros e não ser julgado” tem outra consequência: a mobilização em defesa da “Vítima” feita por um grande número de intelectuais progressistas (professores, agentes culturais, artistas), através de uma perspectiva distorcida: não são mais as lutas para entender o mundo, mas a perspectiva do PT que define as lutas. Essa inversão falsifica a materialidade das lutas em guerras culturais que a nova extrema direita mostrou saber conduzir melhor do que ninguém. Desta perspectiva, a introdução da política de cotas para negros e pobres nas universidades públicas deixou de ser o produto do movimento autônomo dos pré-vestibulares e passou a ser uma gentil concessão do lulismo; o Bolsa Família deixou de ser visto como embrião de reconhecimento da potência produtiva e subjetiva da multidão dos pobres, e passou a ser uma dívida infinita que os pobres teriam com o paternalismo de Lula; o financiamento dos pontos de cultura tampouco deixou de ser apreendido como uma ruptura do clientelismo que permite reconhecer a autonomia criativa difusa no território e passou a ser um subsídio petista ao qual é preciso reiterar lealdade. Na esteira dessas inversões, chegamos ao paroxismo de mobilizar questões de garantismo jurídico e do abolicionismo penal para criticar as operações de repressão à corrupção e para defender os dirigentes de um conglomerado partidário que durante 13 anos deixou multiplicar, de maneira exponencial, a população carcerária em condições inaceitáveis.
O resultado é evidente: ao passo que a hegemonia da esquerda esvaziava a autonomia dos movimentos o campo das lutas foi paulatinamente sendo capturado pela direita. Essa tendência foi evidenciada pela greve autônoma dos caminhoneiros em maio de 2018, já denotando o descolamento total das redes capilarizadas de politização em relação aos aparelhos de esquerda. Pior, as lutas dos movimentos negro, indígena, LGBT passaram a ser qualificadas pelas normas abstratas que definem esses direitos e não o contrário; isto é, passaram a ser definidas antes pelo guarda-chuva partidário do que pelo protagonismo social que elas exprimem e pela capacidade de auto-organização de que são capazes.
A onda global e o Brasil
A vitória de Jair Bolsonaro não significa que todos os votos sejam de extrema direita. O pior dos erros seria qualificar todos os seus eleitores de fascistas. Precisamos entender com cuidados suas componentes. Esse trabalho será fundamental nas lutas por vir em defesa da democracia. A nova direita, no nível global, aparece hoje como um movimento antiglobalização que promete proteção por meio da construção de novos muros e se organiza em torno da produção de bodes expiatórios: os imigrantes, as diferenças e até a China. Para isso, a nova direita usa as contradições e limites da globalização (como a perda de estatuto das classes médias e dos trabalhadores industriais) por meio de uma polarização sistemática e criação de falsos conflitos. As guerras culturais são, pois, dispositivos fundamentais de mobilização social e eleitoral da nova direita. Quando olhamos para a situação no Brasil, podemos constatar elementos comuns e ao mesmo tempo algumas especificidades. Em comum, temos a prática das guerras culturais e as propostas em termos de segurança. Ao mesmo tempo, a polarização aqui não precisou ser inventada pela nova direita, mas foi fornecida de graça pela lógica irresponsável e demagógica da esquerda em defender o indefensável: sua corrupção generalizada, por um lado, e a gravíssima crise econômica, por outro.
O primeiro desafio, portanto, para analisar o fenômeno denominado “nova direita” é inseri-lo nessa série real de acontecimentos, e não o tratar como uma simples entidade abstrata que emergiria do conservadorismo profundo existente no Brasil ou de uma manipulação em massa organizada por empresários mal-intencionados. Esse fenômeno também deve ser explicado por uma mútua implicação destrutiva advinda da polarização. Enquanto a esquerda passou a se caracterizar cada vez mais por seus símbolos e bandeiras (a trincheira vermelha), grupos conservadores como o MBL passaram a pautar uma cruzada moral que identificava na própria esquerda os elementos de degeneração social, familiar, cultural, etc. Um dos resultados danosos dessa operação, alimentada pelos dois lados foi a identificação de todas as lutas minoritárias com o desgaste profundo do lulismo, armadilha na qual estamos presos ainda hoje. Outra dimensão foi o crescimento de tendências militaristas e autoritárias que passaram a representar esse ideal de moralização do Brasil a partir da erradicação de tudo aquilo que se identifica com a esquerda, incluindo os modos de vida minoritários.
O fenômeno Bolsonaro, inexpressivo em 2015, pode ser identificado, no entanto, a partir de quatro vetores que surgiram nesse ciclo: 1. à tendência do impeachment de se apresentar como uma grande estratégia de “salvação” de todas as elites políticas e partidárias, com respaldo de uma parte do STF; 2. à busca de uma nova ordem e um novo pacto diante do aprofundamento das dimensões econômico-sociais da crise, mesmo por meio da constituição de uma nova autoridade feita “por cima”; 3. à resposta e veto às campanhas exasperadas e falsas protagonizadas pelo lulismo em sua tentativa de sobrevivência, e ao cinismo constitutivo do governo Temer e seus aliados; 4. ao sucesso do front moralizador que identificou as lutas das minorias à esquerda. Precisamos avançar nessas reflexões e pretendemos apresentar logo alguns desdobramentos de análise.
Resistências
Retomando o início do texto, afirmamos que a constituição de um campo de resistência democrática carece, em primeiro lugar, de perscrutar, participar e investir em lutas que incluem também a recusa à hegemonia do PT e que possam desconstruir a falsa polarização. Assim, trata-se não apenas de aceitar, mas de acelerar o processo de esvaziamento dos signos e tendências gregárias e autocomplacentes da esquerda, para mergulhar nas cartografias das lutas, na atenção aos desejos que compõem as nascentes subjetivas deste momento.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O levante de Junho de 2013 atacou o “hard power” brasileiro (Giuseppe Cocco/entrevista)

A novidade no cenário político não é nem a existência de uma crise moral, nem o desvelamento da corrupção. A “única novidade”, diz o cientista político Giuseppe Cocco, “é que por uma vez algum setor da magistratura decidiu fazer o trabalho que deveria fazer se o Brasil tivesse alguma democracia”.
A segunda novidade na conjuntura brasileira, especialmente no âmbito da Lava Jato, afirma, “parece estar mesmo no fato de que o Palocci parece ter decidido colaborar”. Depois da delação do ex-ministro, avalia, “ao PT sobram poucos recursos para desacreditar Palocci”. Entretanto, adverte, “duas argumentações estão sendo usadas: uma, pasmem, que tenta explorar a sua origem política trotskista e outra é a crítica da Lava Jato, que ‘torturaria’ os presos para obrigá-los a colaborar. A primeira seria apenas desprezível, mas o marketing do PT nos mostrou uma rara eficácia em veicular qualquer coisa. A segunda é algo que tem mais a ver com o discurso dos advogados e é muito fraca: quando observamos as condições infernais de tratamento judiciário e prisional reservado aos pobres (inclusive nesses mais de treze anos de governo federal petista e nos governos estaduais do PT), esse garantismo da geometria variável aparece claramente pelo que é: mero cinismo”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Cocco comenta o desdobramento da Lava Jato no país, aponta três elementos que foram fundamentais para sua sustentação ao longo dos últimos dois anos e reflete sobre as implicações de junho de 2013 nesse processo. “O levante de junho de 2013 conseguiu, pela primeira vez, atacar o hard power, a estrutura fundamental do poder no Brasil, aqueles que mandam mesmo, independentemente de governos e coalizões. Os regimes e os governos passam, e esse hard power resta: reproduzindo-se e negociando seu (ab)uso do Estado: com a ditadura, a oligarquia baiana, os tucanos, o PMDB e o PT de Lula. Pior, com Lula e Dilma, a retórica neodesenvolvimentista, o marketing eleitoral e o tal do ‘pré-sal’ permitiram uma renovação ampliada desse pacto predatório e neocolonial do qual vive esse tipo de capital parasitário que se nutre das veias abertas não apenas do Brasil, mas da América Latina e mesmo da África. A tragédia do Rio de Janeiro é emblemática disso”.
Cocco também comenta a Carta de Palocci endereçada ao PT. Sobre ela, é enfático: "A Carta do Paloccci confirma que ele está abrindo uma outra fase política da relação do PT com a questão da corrupção, algo que me fez logo pensar ao que aconteceu na Itália, quando as colaborações judiciárias (na esquerda armada) viraram também arrependimentos políticos. As cartas de " dissociação" que muito intelectuais italianos assinaram desde as prisões são parte disso e foram ainda mais eficazes no desmonte - para o bem e para o mal - da esquerda radical daquela época. Palocci, pelo visto, decidiu fazer as duas coisas e mostrou que tem "bambus", não apenas porque pode revelar os bastidores da escolha que Lula e o PT fizeram de usar a vitória política e eleitoral diante do escândalo do mensalão não para enfraquecer a política patrimonialista e predatória contra a qual o PT nasceu, mas para generaliza-la: não re-industrilizaram o país, mas a corrupção".
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O que o depoimento de Antonio Palocci trouxe de novidade ao cenário da Lava Jato? Há alguma surpresa na decisão de Palocci, diferente de José Dirceu, de colocar as cartas na mesa?
Giuseppe Cocco - A "delação premiada" é um mecanismo jurídico que, uma vez que abre uma brecha, tende a virar uma "bola de neve" e vira uma avalanche cada vez maior, até que o poder consegue se reorganizar e colocar a máquina judiciária de volta ao seu lugar: a criminalização dos pobres e de qualquer instância realmente democrática. Fala-se muito de “crise moral” no Brasil, como se a novidade fosse a própria “corrupção”. Oras, a única novidade é que por uma vez algum setor da magistratura decidiu fazer o trabalho que deveria fazer se o Brasil tivesse alguma democracia. Na Itália, onde a delação premiada (chamada lei dos “pentiti”, dos arrependidos) foi implementada no final da década de 1970 para combater as organizações da esquerda armada, o dispositivo foi extremamente eficaz: em três anos, entre o 7 de abril de 1979 (quando o Negri foi preso) e 1982, a magistratura e as polícias acabaram de vez com todas essas organizações. Os sucessos técnicos da repressão foram multiplicados politicamente pela desmoralização ética que a difusão dos acordos de delação premiada criou.
A partir do momento que começou a funcionar, o dispositivo da colaboração se desdobrou ao longo de duas linhas: por um lado, houve uma modulação dos níveis de colaboração e das penas, por exemplo, com a figura do "dissociado" (que não colaborava, mas passava a condenar politicamente e publicamente as organizações da luta armada e recebia um abrandamento das condições carcerárias e da pena); pelo outro, a tecnologia jurídico-repressiva passou a ser usada contra a máfia e, depois da queda do muro de Berlim, contra o sistema dos partidos políticos. A operação "mani pulite" [Mãos Limpas] (o ancestral da Lava Jato) foi, portanto, a terceira onda do dispositivo.
Aqui no Brasil, em um contexto totalmente diferente, a delação premiada começou sendo aplicada a partir da parte mais “madura” da experiência italiana, atacando diretamente a corrupção sistêmica, quer dizer, setores do dispositivo predatório do estado neoescravagista que liga as grandes empresas (estatais e privadas) ao sistema dos partidos. A Lava Jato teve três "condições" ou três caraterísticas para "pegar":
(1) a grande legitimação que veio do levante cidadão de junho de 2013 (como não ver que os "inimigos" de junho - aqui no Rio - estão quase todos presos e/ou investigados: Cabral, a Fetranspor, o secretário de Saúde, o pessoal envolvido com Copa e Olimpíadas etc.);
(2) a explicitação do estelionato eleitoral e do fracasso econômico do governo Dilma-Lula-Temer (que teve como consequências os panelaços e as grandes manifestações pelo impeachment);
(3) a decisão dos juízes de Curitiba de inicialmente focarem no setor empresarial: diretores da Petrobras, empreiteiros, doleiros.
Se o "PT realmente existente" é eticamente corrupto, a esquerda do PT se corrompeu politicamente
Esse foi um detalhe muito importante, porque evitou o "fórum privilegiado" que teria funcionado (e ainda funciona) como uma barragem para que a bola de neve não vire avalanche no ambiente político, com a multiplicação das delações entre os grandes caciques do sistema partidário.
A Lava Jato só “pegou” nos políticos que não tinham mais essa proteção ou a perderam pontualmente (como no caso do Cunha ou do Delcídio do Amaral, antes dele). Como funcionam com os políticos, as últimas delações mostraram (JBS e Funaro): por um lado, Aécio conseguiu ser solto pelo STF; pelo outro, Temer e companhia fizeram até da própria delação um negócio de compra e venda do “silêncio” — fala quem não recebe o dinheiro necessário para “segurar isso”. Talvez essa seja uma das explicações para o Palocci também, pois o PT foi totalmente homologado e roubou do mesmo modo e para fazer as mesmas coisas que os outros.
Contudo, a novidade parece estar mesmo no fato de que o Palocci parece ter decidido colaborar. Seria o segundo dirigente político do PT a fazê-lo. O primeiro foi o senador Delcídio do Amaral. Ao PT, sobram poucos recursos para desacreditar o Palocci. Duas argumentações estão sendo usadas: uma, pasmem, que tenta explorar a sua origem política trotskista e outra é a crítica da Lava Jato, que "torturaria" os presos para obrigá-los a colaborar. A primeira seria apenas desprezível, mas o marketing do PT nos mostrou uma rara eficácia em veicular qualquer coisa. A segunda é algo que tem mais a ver com o discurso dos advogados e é muito fraca: quando observamos as condições infernais de tratamento judiciário e prisional reservado aos pobres (inclusive nesses mais de treze anos de governo federal petista e nos governos estaduais do PT), esse garantismo da geometria variável aparece claramente pelo que é: mero cinismo.
IHU On-Line - Em termos políticos, o que significa o depoimento de Palocci à Lava Jato?
Giuseppe Cocco - Os significados políticos são muitos. Em geral, me parece avassalador para o PT e o "lulismo" em geral. Contudo, a candidatura do Lula para 2018 já se tornou definitivamente algo parecido a todas as outras, com dinâmicas de marketing totalmente independentes do debate político e de qualquer preocupação ético-política. Aqui, sim, temos uma diferença entre Palocci e Amaral. Ao passo que o senador era um operador parlamentar, Palocci foi a cabeça do primeiro governo Lula e da montagem da campanha eleitoral que elegeu Dilma em 2010, sem esquecer que ele é algo como um “sobrevivente” da geração de prefeitos que o PT tinha em São Paulo na segunda metade da década de 1990 (dois dos quais foram assassinados misteriosamente). Aliás, o tom de voz, o tipo de raciocínio que ele usou no Tribunal poderiam ter sido os mesmos que usava em uma conferência de imprensa quando era o todo-poderoso ministro da Fazenda de Lula, ou o ministro da Casa Civil de Dilma.
Palocci sabe — porque o construiu — perfeitamente qual foi o modo de funcionamento do governo e do PT. Quando ele fala de "pacto de sangue", usando um termo que nos faz pensar nos filmes de Coppola sobre a máfia norte-americana, ele explicita as dimensões de uma coalizão de governo que não era entre partidos, mas entre o PT e grupos muito poderosos de grandes empresas e lobistas que aproveitaram o governo e a gestão do PT para amplificar ainda mais o nível de controle oligopolista e predatório do Estado. Naquela que deveria ter sido uma oposição de esquerda aos governos Lula e Dilma (e isso fora do PT e no próprio PT), diz-se que Palocci deveria ter sido criticado sempre, ainda quando era ministro, por ter sido o defensor e articulador das políticas neoliberais dentro do governo Lula. Ora, o que o depoimento confirma é que, ao contrário, não há nenhuma nuance, nenhuma diferença entre o governo Lula (liderado por Palocci e Henrique Meirelles), o governo Dilma (liderado por Mantega e Barbosa) e o governo Temer (liderado por... Henrique Meirelles): quem manda são sempre os mesmos interesses das grandes empresas e de seus lobistas — empreiteiras, montadoras, produtoras de commodities e os bancos.
Em junho de 2013, não era mais o dispositivo de assemblar fragmentos que funcionava, mas aquele do agenciamento de resistência das singularidades irredutíveis
O levante de junho de 2013 conseguiu, pela primeira vez, atacar o hard power, a estrutura fundamental do poder no Brasil, aqueles que mandam mesmo, independentemente de governos e coalizões. Os regimes e os governos passam, e esse hard power resta: reproduzindo-se e negociando seu (ab)uso do Estado: com a ditadura, a oligarquia baiana, os tucanos, o PMDB e o PT de Lula. Pior, com Lula e Dilma, a retórica neodesenvolvimentista, o marketing eleitoral e o tal do "pré-sal" permitiram uma renovação ampliada desse pacto predatório e neocolonial do qual vive esse tipo de capital parasitário que se nutre das veias abertas não apenas do Brasil, mas da América Latina e mesmo da África. A tragédia do Rio de Janeiro é emblemática disso.
IHU On-Line - Como o senhor avalia a iniciativa do PT de dar início ao processo de expulsão de Palocci do partido?
Giuseppe Cocco - Me parece algo irônico, diante da ausência de qualquer tipo de autocrítica e mudança no PT. Isso se aproxima mais de um “acerto de contas”, algo que acaba reforçando a ideia de que há um pacto de sangue.
IHU On-Line - Como o depoimento dele impacta politicamente o PT e Lula?
Intelectuais como Francisco de Oliveira e Paulo Arantes tinham razão e anteciparam um apodrecimento que agora tem consequências nefastas não apenas para toda a esquerda, mas também para a própria ideia de esquerda
Giuseppe Cocco - Para discutir como impacta politicamente o PT precisamos saber do que estamos falando. Podemos dizer que há “3” PT: o “PT que manda”, a chamada “esquerda do PT” e a nebulosa das Frentes (Brasil Popular e Brasil sem Medo) que congrega esse fenômeno chamado também de “voto crítico”. O que eu chamo “o PT que manda” nos mostrou que tem donos e por isso é imutável. Nesse PT, os generais que perdem as batalhas são promovidos e são sempre os mesmos. A nova presidente nacional é a exata expressão dessa inexpressividade do “PT que manda”, onde tudo depende da figura carismática do Lula. O Partido que deveria ser instrumento de progresso é estruturalmente conservador, sem nenhuma democracia interna, sem nenhuma vida: mais um cadáver político, como o PMDB, o PSDB, o DEM. Esse é e sempre foi (desde que o PT virou uma realidade eleitoral nacional) o único PT: "O PT realmente existente". Podemos então fazer uma crítica e uma autocrítica: não termos suficientemente levado em conta essa realidade. Pessoalmente, penso nas críticas justas que intelectuais como Francisco de Oliveira ou Paulo Arantes faziam desde o início da década de 2000, ou mesmo antes. Precisamos reconhecer que eles tinham razão e anteciparam um apodrecimento que agora tem consequências nefastas não apenas para toda a esquerda, mas também para a própria ideia de esquerda.
Em seguida, temos a tal de "esquerda do PT": a paralisia da esquerda do PT é realmente um fenômeno interessante e inquietante. Ela poderia agora cobrar, dizer que a crise do partido e esse desastre foram antecipados por ela, lembrar a tentativa abortada de renovação que o Tarso Genro fez em 2005. Que nada! Pelo contrário, a esquerda do PT não emite (e não admite) nenhuma crítica e se tornou um disciplinado auxiliar dos "donos" do partido. Se o "PT realmente existente" é eticamente corrupto, a esquerda do PT se corrompeu politicamente. O que aconteceu?
Podemos avançar três hipóteses:
(1) Quando chegou a hora de voltar ao deserto, as tradicionais críticas foram "pra gaveta" e todo o mundo enfileirou em defesa do... emprego, do cargo, do espaço institucional etc. Isso é bem irônico: a DS continua chamando a nomenclatura dos intelectuais antiglobalização para defender Lula e Dilma, mas os caciques lulistas, logo que enxergam uma possibilidade, abandonam o barco com malas e cuias, como foi o caso do prefeito de Canoas [Jairo Jorge] (no RS, que foi para o PDT) ou aquele de Niterói [Rodrigo Neves] (no RJ, que foi para o PV).
(2) A esquerda do PT não tem mesmo nada a propor. Para além de genéricas críticas às reformas "de Temer", a esquerda do PT não sabe que reformas propor. Pior, não sabem o que dizer sobre o desastre macro e microeconômico da Nova Matriz Econômica implementada por Dilma e Mantega, a não ser dar espaço retórico à doxa neokeynesiana dos velhos economistas da Unicamp ou de alguns jovens uspeanos.
(3) Enfim, se tornou explícito que a esquerda do PT estava totalmente refém daquela síndrome que, desde Esopo até La Fontaine, passando por Fedro, a sabedoria popular chama de "a mosca do coche": a esquerda do PT era apenas a mosca no coche do Lula: sem ele, está perdida.
Talvez seja essa silenciosa realidade de sua própria inexpressividade que reproduz a inexplicável lealdade da esquerda do PT ao aparelho corrupto do “PT realmente existente”, assim como muitos faziam com o socialismo realmente existente. Aliás, tudo aparece claramente no apoio que o PT realmente existente e a esquerda do PT manifestam à ditadura do Maduro na Venezuela, se lixando totalmente pela fome imposta aos pobres venezuelanos por um regime autoritário e inepto (há sempre uma CIA da vida para explicar). Enfim, como sempre, deve ser um mix das três explicações.
Não é o lulismo remanescente que bloqueia a retomada das lutas, mas esse dispositivo frentista que torna a crítica impotente
Isso nos leva à terceira dimensão do "governismo", a nebulosa das Frentes, oriundas do "voto crítico". Essa nebulosa é paradoxal, pois junta posições que teoricamente deveriam ser opostas. Mas o paradoxo é apenas aparente. Nessa nebulosa — que nos era próxima, parte dela eram (ou são) amigos e amigas — se encontram aqueles que desde junho de 2013 insistem dizendo que o levante foi fascista (por exemplo, Tarso Genro ou Fernando Haddad) e aqueles que dizem que junho foi, sim, algo novo, mas sistematicamente fecham com o PT e o governismo... diante das ameaças "conservadoras" às "conquistas" dos governos petistas.
As duas posições são contraditórias, porém complementares. Uma complementariedade totalmente paradoxal que mostra que a nebulosa frentista é um movimento político natimorto. Aqueles que diziam que junho era fascista (Tarso) e que o MPL era terrorista (Haddad) nos mostram que, mesmo tendo mantido distância do cinismo lulista, perderam totalmente a capacidade de apreender os processos de produção da subjetividade, ou seja, das lutas e dos movimentos sociais. De tanto tempo que passaram nos palácios e nos ministérios, acabaram acreditando que o Brasil virou mesmo uma Suíça, onde seria muito estranho que uma indignação generalizada se manifeste pelo país.
Aqueles que reconhecem que junho era um movimento autêntico e ao mesmo tempo sistematicamente aderiram a todas as narrativas falsas do marketing governista (desde a campanha eleitoral criminosa de 2014 até a mentira do "golpe") se colocam na posição de "querer explicar" à esquerda o que a subjetividade seria. Esses entendem que no Brasil a questão não é "por que manifestam?", mas "por que não manifestam?" e ao mesmo tempo ficam com medo diante da radicalidade do protesto e precisam do cercadinho da "esquerda" para dar seus "conselhos".
Assim, a Frente, que seja aquela do Brasil Popular e ou o Brasil Sem Medo, não tem e não vai ter dinâmica nenhuma: não porque é contraditória, mas porque o paradoxo que a constitui é na realidade um tremendo dispositivo de destruição política: a subjetividade que Tarso e Haddad não entendem é realmente destruída pelos que dizem que a entendem e a levaram (e continuam a levar) para o rebanho governista. Para construirmos algo novo, precisamos desconstruir esse dispositivo. Não é o lulismo remanescente que bloqueia a retomada das lutas, mas esse dispositivo frentista que torna a crítica impotente.
IHU On-Line - Como o senhor reagiu à carta de Palocci ao PT?
Giuseppe Cocco - A Carta do Palocci confirma que ele está abrindo uma outra fase política da relação do PT com a questão da corrupção, algo que me fez logo pensar o que aconteceu na Itália, quando as colaborações judiciárias (na esquerda armada) viraram também arrependimentos políticos. As cartas de "dissociação" que muitos intelectuais italianos assinaram desde as prisões são parte disso e foram ainda mais eficazes no desmonte - para o bem e para o mal - da esquerda radical daquela época. Palocci, pelo visto, decidiu fazer as duas coisas e mostrou que tem "bambus", porque pode revelar os bastidores da escolha que Lula e o PT fizeram de usar a vitória política e eleitoral diante do escândalo do mensalão não para enfraquecer a política patrimonialista e predatória contra a qual o PT nasceu, mas para generalizá-la: não reindustrilizaram o país, mas a corrupção. Usaram o apoio que muita gente lhes deu em 2005 (eu em particular, com um manifesto pela radicalização democrática), se lixando totalmente para o que dizíamos do ponto de vista da democracia e do programa: a incompetência e o autoritarismo da Dilma foram a cara do "Lula realmente existente". O apoio que muitos amigos e amigas que assinaram o manifesto que eu escrevi em 2005 (quando eu escrevia com Negri na Folha de São Paulo: "Lula é muitos") continuaram a dar ao Lula e ao PT é, na melhor das hipóteses, "naïf" e transformou o que era um erro de análise política (dizer que Lula era muitos foi errado, pois Lula trabalhava pelos poucos, os Eikes, os Temer, os Odebrecht e irmãos Batista) em cumplicidade política com a falência da esquerda (com consequências potencialmente nefastas, entre as quais a emergência eleitoral do fascismo).
IHU On-Line - Como entender a total falta de autocrítica do PT? E da esquerda?
O levante de junho permitiu ver como funciona hoje a sociedade de controle, entre poder e resistência
Giuseppe Cocco - O problema do PT não é o de não fazer autocrítica ou se seu marketing é cínico e falso, mas de funcionar. O mecanismo fundamental que o faz funcionar continua sendo o do voto crítico, dessa destruição da subjetividade produzida pelos “professores da diferença”. Quem destruiu (e destrói) a subjetividade foram e são eles. O PT não sabia fazer isso. Antes de junho, de maneira errada ou correta, podia-se dizer que o PT no governo permitia (ou não era um obstáculo) a produção de subjetividade da diferença: votar ou não no PT era relativamente indiferente às lutas (embora no Rio de Janeiro já desde a posse de Eduardo Paes em 2009 fosse claro que o PT era um agente fundamental de um projeto de destruição da potência dos pobres).
Depois de junho, ficou claro que o PT era inimigo dessa diferença e que a reeleição da Dilma era explícita e efetivamente uma derrota de todas as singularidades de luta que junho havia unificado. Os “professores da diferença” — uma parte por nunca ter tido uma real experiência de movimento, outros por transformar suas paranoias em análise política — aderiram ao processo de totalização autoritária turbinado pela grana do marketing do PT. Quem deu conteúdo a essa totalização desastrosa, aquela que se reuniu no TUCA para aplaudir a Dilma no segundo turno, e circulava nas ruas mistificada sob as tocas Ninja, do Fora do Eixo, foram os professores que se dizem da diferença e que, na hora “h”, esqueceram tudo que escreveram sobre Foucault, Deleuze, Guattari, Agamben e até o Comitê Invisível e se foram de volta ao cercadinho protetor da totalidade petista, uma totalidade miserável.
O levante de junho permitiu ver (e todo o ciclo que vem das primaveras árabes, mas que poderíamos fazer remontar até 1989, ao “occupy” Tiananmen) como funciona hoje a sociedade de controle, entre poder e resistência. O capitalismo e o controle hoje conseguem organizar a produção dentro da circulação, não mais unificando nas fábricas e outras instituições disciplinares o que foi “partido” (proletarizado), mas modulando continuamente os fragmentos: a precariedade do proletariado se mantém. Mesmo quando esse é mobilizado, ele vira um “precariado”. Diante disso, a esquerda — marxista e não (lacaniana por exemplo), desde Harvey até Zizek, passando por vários Boaventuras, depois do flerte com Habermas — ficou achando (desde os anos 1970) que tudo isso era um produto da ideologia da pós-modernidade, que era preciso defender o moderno e sua produção (dialética) de totalidades: o Estado contra a Globalização, a Classe Operária contra o Capital, a economia real contra as finanças fictícias.
O capitalismo contemporâneo funciona como um grande dispositivo de “assemblar” os fragmentos produzidos pelo jogo das novas e velhas totalizações: assemblages sempre efêmeras, just in time, e flexíveis, enxutas como a lean production
Mais de 40 anos depois e após a China Comunista ter virado a última megafábrica do mundo, temos algumas evidências: a pós-modernidade (e o neoliberalismo) não é uma ideologia, mas a condição material de um capitalismo que não precisa mais homogeneizar os fragmentos (os pobres, os precários, os migrantes, os índios, os “excluídos”) dentro da disciplina para organizar a produção. A sociedade de controle é organizada por modulações contínuas dos fragmentos: o proletariado passa a trabalhar sem perder sua precariedade, o pobre é mobilizado continuando a morar na favela, o índio é valorizado nas suas reservas, o excluído é incluído continuando a ser excluído.
O capitalismo contemporâneo funciona como um grande dispositivo de “assemblar” os fragmentos produzidos pelo jogo das novas e velhas totalizações: assemblages sempre efêmeras, just in time, e flexíveis, enxutas como a lean production. Isso não significa que o poder não produza mais totalidades. Pelo contrário, as antigas totalidades (“modernas”) continuam vigorando para produzir aquelas pós-industriais: assim, a permanência do “direito do trabalho” foi (e é) funcional ao não reconhecimento do trabalho que acontece fora dessa “totalidade”: é a permanência desse horizonte do direito do trabalho (sindicalismo pelego, sistema corporativo, proteção social excludente) que acaba destruindo as capacidades de luta dos novos sujeitos; a reforma trabalhista só vem para ratificar o que já aconteceu. Diante disso, a esquerda, na sua grandíssima maioria, ficou defendendo a construção de suas próprias totalidades: a Classe Operária (o esquerdismo), o Estado Neodesenvolvimentista (o pragmatismo). Esquerdismo e pragmatismo se encontram justamente sempre nisto: um querendo organizar como classe o que o outro quer organizar como trabalho mesmo: a mobilização operária que transforme os fragmentos em classe. Por isso são sempre as duas faces da mesma moeda.
Agora, esses 40 anos de implementação da globalização neoliberal foram também 40 anos de lutas e resistências em que os pobres, os índios, as mulheres, os negros, os homossexuais, os sem teto e os sem terra mostraram que a fragmentação é apenas a outra face, aquela das singularidades que, justamente, lutam e resistem enquanto tais, sem se deixar homologar nem como fragmento, nem como totalidade. Essas singularidades que resistem e às vezes chegam a constituir Zonas Autônomas em alguma floresta Lacandona ou numa Vila Autódromo, em uma Aldeia Maracanã ou num Norte Comum, querem e precisam virar de temporárias a permanentes, ou seja, produzir as instituições de sua singularidade, algo que nas redes de internet passou a ser chamado de Common (e foi injustamente apropriado por uma nostalgia generalizada pelo Comunismo e agora por algo como um neoleninismo).
Todas essas microrresistências, para conseguir enfrentar os dispositivos de controle, precisam mesmo se unificar e, nessa unificação, se perdem, viram “macro”: como se perdem sistematicamente no sindicalismo, como se perderam no PT, como se perdem no sem número de ONGs mercenárias produzidas pelo duplo mecanismo estatal e privado do mecenato social (a mais cínica das quais tem a ironia de definir como “fora” seu projeto de estar “dentro” do eixo do poder), ou no aparelho de movimentos identitários que só acontecem nos gabinetes dos palácios.
O milagre de junho de 2013 foi que essas microrresistências se juntaram e conseguiram enfrentar essas totalizações. Porque se juntaram contra as totalizações da representação que as microrresistências conseguiram enfrentar a fragmentação e constituir-se como singularidades
O poder homologa as microrresistências construindo-se como “plataforma” de funcionamento dos fragmentos. As microrresistências esbarram nessas plataformas, que podem ser o Uber ou a Copa da Fifa, o Airbnb ou as Olimpíadas, as Rede Sociais ou as ONGs proprietárias. O milagre de junho de 2013 foi que — por um momento que durou muito tempo — essas microrresistências se juntaram e conseguiram enfrentar essas totalizações. Foi porque se juntaram contra as totalizações da representação que as microrresistências conseguiram enfrentar a fragmentação e constituir-se como singularidades. O PT e a esquerda em geral — menos no Rio onde a cumplicidade com o esquema do Cabral e do Paes já era explícito e constrangedor — não eram visados, mas ainda assim se sentiram ameaçados pela clareza que tinham de ser aparelhos de totalização.
Em junho, não era mais o dispositivo de assemblar fragmentos que funcionava, mas aquele do agenciamento de resistência das singularidades irredutíveis. O que o governismo conseguiu fazer, a começar pela repressão do movimento contra a Copa e depois com a multiplicação das narrativas paranoicas (voto crítico, golpe e fora Temer), foi restaurar o processo de totalização, a construção do “povo de esquerda”: todos juntos contra a Marina e o Aécio (para na realidade eleger o Temer), todos juntos contra o Golpe (para na realidade manter o Temer!).
Foi isso que exaltou as dinâmicas de fragmentação e tornou as mobilizações incompreensíveis, a não ser por parte da nova direita: a restauração de junho foi mesmo o fato de que cada singularidade, cada microrresistência voltou a ser um fragmento em luta contra outro fragmento: todo mundo brigando com todo mundo.
As redes sociais, que tinham funcionado como incrível mecanismo de participação, passaram a rodar pelo avesso: o regime Fake do casal Santana e os linchamentos poluíram as dinâmicas do compartilhamento, e o empoderamento de um monte de gente sem nenhuma experiência real de luta alimentou a máquina paranoica de binarização, jogando no lixo as capacidades de luta. O “lugar de fala” virou o passe-partout, a pedra virtual de um sem número de linchamentos reais.
Aqui estamos!
(*) Giuseppe Cocco é graduado em Ciência Política pela Université de Paris VIII e pela Università degli Studi di Padova, mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Métiers e em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne), doutor em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e editor das revistas Global Brasil, Lugar Comum e Multitudes. Coordena a coleção A Política no Império (Civilização Brasileira).
REVISTA IHU ON-LINE (Patricia Fachin e Ricardo Machado/27 Setembro 2017)

terça-feira, 24 de março de 2015

As manifestações de Março de 2015 são o avesso de Junho de 2013 (Giuseppe Cocco/entrevista)


 

“(Junho de 2013)... ecoa nas manifestações dos dias 13 e 15 de março: apesar dessas manifestações serem o junho de 2013 pelo avesso, elas confirmam sua potência e atualidade”, sinaliza Giuseppe Cocco, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “No dia 13, como já apontamos, vimos exatamente o contrário da multidão: um rebanho uniformizado e manipulado e até pago por uma operação instrumental. No dia 15, a mobilização de uma verdadeira indignação, espontânea e horizontal, mas atravessada por um viés conservador. Paradoxalmente, é o 15 de março que é mais parecido com junho e ao mesmo tempo os setores mais jovens e criativos não se mobilizaram ainda”, complementa.
Na opinião do entrevistado, os efeitos do posicionamento muito duro do PT com relação a Marina, no primeiro turno das eleições de 2014, ainda são sentidos na política atual, conforme podemos evidenciar na falsa dicotomização que movimentou o espectro político à direita. “O preço imediato (e de longo prazo) dessa falsa polarização organizada em torno do suposto ‘menos pior’ foi o deslocamento de todo o eixo eleitoral para a direita. Alguém pode se perguntar qual seria o interesse do governismo de deslocar o eixo político para a direita. A resposta é contudo muito simples: se trata de uma estratégia cínica e irresponsável de tentar desesperadamente manter sua imagem retórica de esquerda. Parece boçal, mas funciona!”, provoca Cocco.

Frente ao cenário nacional, Cocco admite que o “binarismo do poder pode ter derrotado a multidão de junho, mas nunca vai conseguir cooptá-la”. No entanto, ressalta: “O discurso do ódio, a negação do outro, a procura da homogeneidade são o terreno da identidade, do uno, da exclusão. O contrário da multidão, ou seja, das diferentes singularidades que interagem entre elas se mantendo tais. Junho de 2013 nos mostrou que isso não é uma figura utópica, mas uma realidade potente. Ainda não sabemos como essa potência se realiza em instituições adequadas”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Após as manifestações de 2013, o senhor dizia temer que militantes de esquerda caíssem na armadilha das “bandeiras”, o que entregaria o movimento para a direita. Foi isso que aconteceu? Existem ecos das manifestações na política de hoje?

Giuseppe Cocco - Vamos começar pela parte final da pergunta: o movimento de junho de 2013 ecoa hoje no Brasil e continuará ecoando, como ainda discorremos sobre a revolução parisiense de junho de 1848 e aquela mundial de 1968. Junho ecoa nas ruas do Paraná, nas manifestações do Movimento Passe Livre - MPL e também dos caminhoneiros, nas greves e no movimento dos garis do Rio de Janeiro, na ocupação do Parque Augusta em São Paulo, nas iniciativas do Bloco de Lutas em Porto Alegre. E também ecoa nas manifestações dos dias 13 e 15 de março: apesar dessas manifestações serem o junho de 2013 pelo avesso, elas confirmam sua potência e atualidade. No dia 13, como já apontamos, vimos exatamente o contrário da multidão: um rebanho uniformizado e manipulado e até pago por uma operação instrumental.

No dia 15, a mobilização de uma verdadeira indignação, espontânea e horizontal, mas atravessada por um viés conservador, ou seja por um viés (que não acho que seja tão majoritário como o governismo tenta dizer) que se preocupa mais com a corrupção como desvio da regra do que como funcionamento mesmo de um sistema desigual. Mas que seja dito de maneira clara: a responsabilidade dessa situação é mesmo do governo e do PT e quanto menos teremos determinação de dizer isso, mais as conseqüências nefastas desse desmando se generalização a toda a esquerda. Será que podemos chamar isso de uma multidão? Eliane Brum encontrou uma reposta dizendo que a “multidão (que poderia ter defendido o PT) ficou em casa”, não foram as ruas nem no dia 13, nem do dia 15 . Mas, paradoxalmente, é o 15 de março que é mais parecido com junho e ao mesmo tempo os setores mais jovens e criativos não se mobilizaram ainda. Mas isso não significa que não o façam. Por exemplo, num belo artigo de Alexandre Mendes, podemos ler que os moradores da favela do Morro dos Cabritos em Copacabana participaram massivamente ao panelaço que houve durante a coletiva dos ministros (em 15-03-2015) . Com efeito, a multidão não é uma manifestação em si, mas o fazer-se de uma subjetividade que se mantém múltipla. Como disse o Bruno Cava, hoje é muito mais difícil que em junho de 2013 de “fazer multidão”. Mas é isso que é preciso fazer.

Apesar dos esforços realizados pela esquerda de poder (o PT e seus aliados) para que isso acontecesse, o movimento de junho não foi à direita. Nesse sentido, acho particularmente acertada a pergunta que lembra as polêmicas ligadas a esse episódio “das bandeiras”. Trata-se do que ocorreu nas grandes manifestações do 20 de junho, em particular no Rio de Janeiro, na Avenida Presidente Vargas, quando os portadores de bandeiras partidárias (vermelhas) foram impedidos de participar (no caso do governismo eram da Central Única dos Trabalhadores - CUT e do PT) ou violentamente expulsos (no caso dos pequenos partidos de oposição que tinham formado um “bloco” dentro da manifestação oceânica: PSTU, PSOL e PCB). Naquele momento escrevi exatamente isso (aliás, publicado em uma revista bastante “governista”): "Depois das agressões às bandeiras de partidos, no último dia 20 de junho, toda a esquerda entrou em uma postura reativa: “se as manifestações não gostam de nossas bandeiras, elas são de direita ou são massa manipulada pela direita¹" e sequer por simbologias abstratas produzidas pelo marketing milionário. A luta é material: por 20 centavos, pelo passe livre, contra as remoções, pelo Amarildo . O problema não é do movimento, mas das bandeiras que não correspondem mais à materialidade das lutas ou, pelo contrário, se tornaram os determinantes da dominação e da exploração. No caso do PT e da CUT elas coincidem com as políticas de megaeventos e remoções de pobres, com as megaobras que devastam as reservas indígenas, com o agronegócio que devasta a floresta e, pois, com o Poder. Pior, a CUT mostrou uma cegueira corporativa incrível diante da loucura dos subsídios bilionários que o governo repassou à indústria multinacional do setor automotivo: foi uma verdadeira “bolsa empresário”! No caso da esquerda de “oposição”, as bandeiras apenas apareceram como tentativas de colocar um “chapéu” em cima de um levante que suas micro-organizações sequer tinham previsto em termos de composição social (de classe) e que devia sua potência à sua radical espontaneidade e horizontalidade. Claro, a mobilização do dia 20 de junho, depois da reviravolta da grande mídia que passou da condenação das manifestações ao apoio, estava cheia de ambiguidades e talvez a agressão foi planejada por algum grupo manipulado. O fato é que, quando aconteceu, o sentimento geral da multidão era de hostilidade a toda tentativa de “representar” um movimento que “valia a pena” exatamente por ser irrepresentável.

Agora, é particularmente interessante lembrar o debate daquele momento porque havia ali algo que ia bem além da questão das bandeiras, uma verdadeira estratégia de mistificação que o “governismo” estava apenas começando a tocar. Peço desculpa de recorrer a mais uma autocitação, mas me parece ainda produtiva. Naquele mesmo artigo eu escrevi também: "A mobilização deve ser, agora, multitudinária, sua polifonia, espontânea e auto-organizada, bem como a ausência de linha, organicidade e liderança; estas são as maiores bandeiras que um militante pode carregar! Insistir em impor a 'Luta das Bandeiras' a um movimento que tem a luta como bandeira foi um erro político até aquele recente 20 de junho. Hoje, pode ser uma grave irresponsabilidade: deixar esse espaço aberto justamente àquela direta, que avança usando apenas o verde e o amarelo". Tudo isso também continua atual, urgente e até dramático: o que até o 20 de junho de 2013 podia parecer um “erro” político era na realidade uma escolha que o PT e o Governo (daqui para frente falarei apenas de “governismo” em geral) tinham feito e iriam aprimorando, aprofundando e potencializando: a determinação firme do “governismo” de desqualificar o movimento de junho e a polêmica das bandeiras foi apenas um pretexto para criar um embate que pudesse funcionar — pela construção de alguma forma de identidade abstrata — como um mecanismo de mistificação política contra o movimento e contra a própria democracia. O episódio das bandeiras foi apenas um primeiro ensaio. O segundo foi o do patriotismo — uma “ideia” fora de época e fora do lugar — da “Copa das Copas” e nos mostrou mais um grau de cinismo governista: ao passo que o “verde e amarelo” era suspeito nas manifestações de junho (e naquelas de março de 2015!), ele se tornava obrigatório para a pátria da chuteira (antecipação vergonhosa da não menos vergonhosa “pátria educadora”): a histórica goleada da seleção pela Alemanha impediu que a operação fosse bem-sucedida, apesar de o movimento contra a copa ter sido bem fraco e submetido a um forte esquema repressivo planejado desde o Planalto (com a colaboração do know how de tudo que existe no mundo em termos de segurança e vigilância). Mas foi nas eleições de outubro de 2014 que a mistificação das “bandeiras” voltou “com tudo” e, depois do “susto” pelo acidente que matou Eduardo Campos, quando Marina parecia arrasadora, foi totalmente — e tristemente — bem-sucedido. O marketing eleitoral do governismo foi implacável, destruindo a própria figura da Marina e não a candidatura, usando as manipulações mais cínicas e as mentiras mais deslavadas (sem que movimento feminista nenhum se comovesse) para impedir uma triangulação que impediria o funcionamento desembestado da demagogia bipolarizadora. É conversando com amigos no exterior que se tem uma dimensão do que foi feito: para quem sequer conhece o Brasil e o fato de que Marina foi companheira do Chico Mendes, militante do Partido Comunista Revolucionário - PCR, fundadora do PT, duas vezes ministra de Lula, ela era uma candidata não apenas de “direita”, mas até de “extrema” direita. Vejam bem, o governismo petista se permite fazer esse tipo de desinformação que deixaria a Pravda stalinista vermelha de vergonha pelo nível de boçalidade e o PT tem hoje um governador (da Bahia) que não apenas manda sua PM matar a esmo, mas também comemora a matança e ainda debocha do governador (tucano!) de São Paulo por não ter a mesma determinação assassina.

Com Marina eliminada, a máquina da mistificação pôde enfim fazer funcionar a pleno regime a “binarização” do debate e chegou ao seu maior sucesso no segundo turno, criando uma verdadeira mobilização social em torno do... nada: uma simbologia de “esquerda” totalmente vazia e logo preenchida por um governo de direita. O preço imediato (e de longo prazo) dessa falsa polarização organizada em torno do suposto “menos pior” foi o deslocamento de todo o eixo eleitoral para a direita. Alguém pode se perguntar qual seria o interesse do governismo de deslocar o eixo político para a direita. A resposta é, contudo, muito simples: trata-se de uma estratégia cínica e irresponsável de tentar desesperadamente manter sua imagem retórica de esquerda. Parece boçal, mas funciona! Ninguém hoje se pergunta mais onde está o tal “legado da Copa”! E no Rio de Janeiro, no meio de cortes e recortes de orçamento, está se preparando mais uma obra no Maracanã (a terceira em menos de 10 anos).

Como sabíamos, tratava-se de uma grosseira mistificação e sequer precisamos esperar muito tempo para saber que Dilma e o PT iriam fazer exatamente aquilo que acusavam o Aécio de querer fazer. O menos pior apareceu imediatamente como sendo o mesmo pior. Apesar da forte presença de setores de classe média (como em junho), a manifestação do 15 — sobretudo em São Paulo — vai muito além disso. E o governismo, acuado e chantageado pelos compromissos que agora desabam na cabeça dele, insiste em transformar a indignação em um desenho golpista e direitista, ajudando a cavar seu túmulo, mas querendo colocar toda a esquerda dentro dele. O vídeo que o Viomundo² publicou mostra que não é bem assim. Dessa vez, o governismo conseguiu fazer valer a chantagem. No 20 de junho de 2013, estávamos todos lá, fazendo multidão! No dia 15, quando valia a pena, deixamos a indignação popular generalizada (que apenas está começando) a um viés liberal.

IHU On-Line - As manifestações daquele período ocorreram em ressonância com outras em nível mundial (Espanha, Grécia, Turquia, Egito, etc.) que tiveram resultados bastante diversos. Como as manifestações do Brasil dialogam com estas experiências internacionais?

Giuseppe Cocco - O Brasil e as manifestações no Brasil dialogaram e continuam dialogando, de várias maneiras, com as primaveras árabes e seus desdobramentos: os positivos e os negativos se inspiraram do levante de Istambul e receberam as balas de chumbo (no dia 24 de junho de 2013) na Maré da repressão egípcia.

Por um lado, cabe lembrar como “junho de 2013” foi um momento de um ciclo global. Pelo outro, as lutas e o movimento no Brasil são atravessados pela diversidade contrastada dos “resultados” dos diferentes levantes.

Contudo, eu acho que não se deve falar em “resultados”, mas em processos e apreender os diferentes levantes do ponto de vista dos níveis de abertura ou fechamento dos processos constituinte e de transformação que eles determinaram (e os determinaram). O “processo” foi totalmente fechado no Egito e parece totalmente aberto na Espanha. No Brasil, estamos numa fase onde a brecha democrática parece ter sido fechada definitivamente. Mas ainda é cedo para tirar uma conclusão definitiva, pois ela foi fechada pela irresponsabilidade do governismo e até pelas incríveis posições governistas da esquerda de oposição.

Lembremos, o levante brasileiro de junho de 2013 ecoou sobretudo o levante de Istambul, da mesma maneira que ele reverberou, quando ainda estava vivo com ocupações de Assembleias e Câmaras (no Rio de Janeiro com manifestações diárias), em Kiev na Ucrânia, com a revolução da praça Maidan . Hoje temos os tanques na Maré e a guerra que a Rússia trava nas regiões fronteiriças da Ucrânia. Aliás, é muito curioso (e emblemático) ver como a revolução de Kiev acaba sendo objeto de uma censura: uma censura ativa por parte de setores da esquerda (muitos deles “governistas”) e algo ainda pior, uma autocensura, todo o mundo ficando constrangido, sem saber direito se é bom falar da Ucrânia e preferindo não mencionar esse belíssimo momento democrático que foi a multidão de Maidan. Se você nasce na Ucrânia, não pode lutar por liberdade, pois assim você seria instrumento do imperialismo.

A cultura e a identidade de “esquerda” continuam mantendo um viés stalinista, que, aliás, nos mostra muito bem o que escondia o episódio das bandeiras: se você critica o PT e o governismo, você é com certeza um instrumento do “inimigo”, dos banqueiros, do “imperialismo”... pouco importa que o PT e o governismo estejam faz 13 anos governando com a direita e pela direita, ou seja, com os banqueiros, a demagogia funciona. É exatamente o stalinismo assim como nos contou o grande escritor Vasily Grossman, o maior correspondente de guerra do jornal Estrela Vermelha: ao mesmo tempo que Molotov (pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas URSS de Stalin) negociava um acordo com Ribbentrop (pela Alemanha de Hitler), milhares de comunistas eram assassinados nos expurgos, tendo que confessar serem agentes do inimigo, “quintas colunas”. Por isso, o governismo chegou à exaltação na desqualificação de Maidan, os ucranianos não tem o direito de lutar, por definição eles são de direita e, sendo supostamente antirrussos, são instrumento do “imperialismo” norte-americano. Boaventura Santos, num artigo de comemoração da vitória de Dilma nas eleições, chegou a escrever algo inquietante: defendeu que “o Brasil é hoje o exemplo internacionalmente mais importante e consolidado da possibilidade de regular o capitalismo para garantir um mínimo de justiça social” e isso na medida que, juntamente com China, Índia, e Rússia (!), ele promoveria não apenas um “capitalismo social” mas também “uma nova guerra fria” .

Em seguida, podemos dizer que encontramos no Brasil de hoje vários dos desdobramentos (contraditórios) dos diferentes levantes. Em primeiro lugar, encontramos o fechamento da brecha democrática e a guerra como terreno de restauração do poder: isso que acontece entre a Síria e a Líbia, com o golpe no Egito e a intervenção russa na Ucrânia, mas também com a militarização das favelas do Haiti e do Brasil e a banalização pela esquerda (vide a atuação do PT no governo da Bahia) dos genocídios dos jovens negros e pobres. Estamos diante de um novo tipo de guerra, que se parece com uma guerra civil generalizada dentro da crise das bases biopolíticas da democracia. O que torna esses levantes ainda mais fundamentais para construir a democracia. Em segundo lugar, encontramos a crise em níveis gregos ou venezuelanos, aliás, uma tentação irresponsável do governismo de levar o enfrentamento nesse patamar apenas para poder negociar sua “salvação”. Em terceiro lugar, os movimentos no Brasil estão num grande impasse e olhando com muita atenção para como na Grécia e na Espanha estão nascendo novas experiências no terreno institucional e de novas formas de representação.

IHU On-Line - Como os modelos de Esquerda emergente — Syriza (Grécia) ou Podemos (Espanha) — podem contribuir para a construção de modelos políticos alternativos para o Brasil frente a atual conjuntura? 

Giuseppe Cocco -Syriza e Podemos estão mostrando que os levantes não são efêmeros e que a crítica da representação oriunda do período industrial e moderno não significa renuncia à representação tout court. Pelo contrário, na esteira dessas lutas multiplicam-se as experimentações de todos os tipos, inclusive no terreno institucional e com o surgimento de novas propostas e/ou de novos partidos.

Na Grécia, o Syriza mostra que é possível, sim, um programa reformista de esquerda ganhar as eleições e tentar aplicá-lo. Seu sucesso eleitoral, que tornou reduziu o histórico PASOK uma legenda secundária, é uma pedrada para os partidos de esquerda que se escondem atrás dos constrangimentos macroeconômicos e globais. O PT já é o PASOK, mas ganhou as eleições e o impasse atual é mesmo a consequência disso.

Na Espanha, o Podemos ainda não ganhou, mas já é um terremoto político e eleitoral e mostra que o 15M é base de uma inovação duradoura e radical. Trata-se de mais um desmentido sensacional do discurso que atribuía aos movimentos a volta da direita ao poder (discurso que o governismo fez sistematicamente no momento da campanha eleitoral de 2014).

Então, Syriza e Podemos já são para o Brasil um balão de oxigênio para pensar e fazer política numa perspectiva democrática, para além dos impasses do movimento e do desmoronamento vergonhoso do sistema dos partidos. Acredito que não se trata de modelos, ainda menos de expressões linearmente positivas e puras de uma nova horizontalidade. Por isso, precisamos mapear com cuidado essas experiências, apreender a potência e os limites para fazer outra coisa! Talvez, a força deles é mesmo de não serem modelos. Com certeza, Syriza e Podemos contribuem para acelerar a urgente renovação das forças políticas no Brasil e isso por uma série de razões: por serem uma resposta à política de austeridade imposta pelo Banco Central Europeu (o Syriza), por ter conseguido afirmar a possibilidade de ganhar (Podemos) passando por fora das formas atuais de organização partidária. Isso já tem um impacto no Brasil e mundo afora.

Então, mais do que modelos, trata-se de expressões da vitalidade das lutas, e os limites dessas expressões estão e estarão na capacidade que terão ou não de ser um momento de abertura dessa vitalidade e não de seu fechamento.

Desde já temos condições de indicar pelo menos alguns dos desafios pelos quais tais experiências passam e passarão:

- Syriza depende do nível de apoio que encontrará nos movimentos europeus (no dia 18 de março houve uma mobilização europeia para protestar contra o BCE, em Frankfurt) e do próprio sucesso do Podemos na Espanha; sem isso, dificilmente vai conseguir manter a prova de força com a Troika. Se o movimento europeu não conseguir reforçar a brecha aberta pela vitória do Syriza, podemos prever o pior em dois cenários bastante inquietantes: a homologação do Syriza dentro de acordos impostos que fariam de sua experiência mais um caso da incapacidade da esquerda partidária de lutar por uma saída do neoliberalismo (isto é, o Syriza viraria mais um PASOK); uma virada antieuropeísta na tentativa de balancear as imposições da UE por meio de alianças com Rússia e China. Nos dois casos, a Grécia se tornaria o teatro da ascensão do fascismo neo-soberanista, aquele que gosta do fascismo de Putin, que cultiva o ódio pelos imigrantes na França (Marine Le Pen) e na Itália (Matteo Salvini ).

- Um segundo desafio, que diz respeito sobretudo ao Podemos que se constituiu como uma nova força, é de conseguir articular de maneira virtuosa duas dimensões de sua constituição que são potencialmente contraditórias: por um lado, trata-se da dimensão midiática da figura do Pablo Iglesias, que desempenhou e desempenha um papel fundamental na proposta do Podemos (e que faltou à proposta do Partido X articulada no âmbito do DRY ); pelo outro, a potência social das redes e das ruas oriundas do 15M ao longo desses anos. Juntando-se a Iñigo Errejón e Monedero para fundar o Podemos, Pablo Iglesias conseguiu uma proeza: propor ao 15M uma perspectiva majoritária ocupando ao mesmo tempo a “terra de ninguém” liberada pela crise vertical do sistema representativo oriundo do período industrial. O Podemos ocupou o vazio que em outros países é ocupado por experiências bem mais ambíguas: na Itália foi a Lega Nord e hoje é o 5 Stelle ; na França é o inquietante Front National de Marine Le Pen (filha do Jean Marie Le Pen ). O grande fato do Podemos é que por uma vez são ativistas oriundo da esquerda horizontal, crítica da forma partido (conheço Pablo Iglesias que era da Universidad Nómada espanhola, o conheci em particular numa Universidad del Verano que organizamos com o saudoso professor Joaquin Herrera Flores, da UPO de Sevilla, em Carmona, em 2007) apreenderam o kayros, ou seja, souberam propor uma linguagem adequada no momento oportuno: oferecer uma resposta política radical, mas ao mesmo tempo com a ambição de poder ganhar e, para isso, se libertando das amarras ideológicas do discurso de “esquerda” em todas suas variantes.

- O terceiro desafio é a existência de certo nível de autonomia do político bem representado pelo papel central e vertical de Pablo Iglesias e das duas outras figuras da direção, Inigo Errejon e Juan Carlos Monedero. O sucesso eleitoral do Podemos contém essa ambiguidade. Por um lado, a “autonomia” do político dessa “cúpula” foi um acelerador na definição discursiva e no processo decisório que está na base da própria proposta. Pelo outro se apresenta como um perigo de que o Podemos não consiga realmente inovar na forma de organização e acabe sendo apenas mais um “novo” partido velho.

- O quarto desafio é talvez o mais paradoxal e diz respeito ao referencial que inspirou Podemos, a saber, a experiência dos “novos” governos sul-americanos. Bruno Cava já escreveu um artigo magistral sobre as alternativas teóricas e políticas entre a abordagem que o Podemos privilegia (aquela populista inspirada em Ernesto Laclau) e a abordagem que — até hoje pelo menos — me pareceu mais produtiva, aquela de Antonio Negri e Michael Hardt em termos de Multidão (Rio de Janeiro: Record, 2014). As trajetórias do chavismo na Venezuela, aquela neoperonista do Kirchnerismo na Argentina, bem como aquela boliviana de Evo e aquela “lulista” do Brasil são fontes preciosas de inspiração do Podemos e de seus líderes que trabalharam diretamente com Chavez e Evo Morales. Creio que aqui entenderam como se faz para ganhar as eleições e como isso implica em mudanças radicais do regime discursivo oriundo da tradição ideológica da esquerda. Aqui também aprenderam a centralidade do “Estado” do ponto de vista de qualquer proposta de transformação social. Pois bem, aqui também vão ter que urgentemente entender, em primeiro lugar, que tudo isso (o ciclo dos governos progressistas) acabou e, em segundo lugar, que essas experiências que chamávamos de “progressistas” na Venezuela, na Argentina e agora também no Brasil fracassaram. Trata-se de um duplo fracasso: por um lado, da tentativa neodesenvolvimentista que se resolveu num total fiasco econômico e social; pelo outro, da relação com o Estado: ao invés dos governos progressistas se manterem como brechas para que os movimentos estejam dentro e contra o Estado numa dinâmica de radicalização democrática, eles rumaram — em graus diferentes — para um tipo de governabilidade autoritária que faz do controle do Estado seu horizonte fundamental e total. Que Maduro — graças ao apoio das forças armadas — por enquanto controle o Estado (e reprima a sociedade) e o governismo petista seja engolido pelo Estado (entre o Lava Jato e a guerra em que se transformou a coalizão com o PMDB) não muda muita coisa do ponto de vista da democracia.


IHU On-Line - Em 2013, a população saiu às ruas contra um modelo político. Em 2014 foi eleito o Congresso mais conservador desde 1964. Como entender esta contraditória relação?

Giuseppe Cocco - Acho que já respondi acima. Esse resultado é fruto da crise do lulismo, da qual junho foi um sintoma e um determinante. A derrota de junho (pelo governismo) abriu o caminho para que o mal-estar fosse procurar outras formas de representação. Há mais duas reflexões que cabe fazer: para derrotar junho, o governismo lançou mão de uma violenta campanha destinada a dizer que a sociedade é conservadora, que as redes sociais espalham o ódio e que esse ódio é “um ódio pelo PT”. Foi um sem fim de pesquisas, artigos e colunas lamentando “oh quanto o Brasil é conservador” (aliás é um fluxo que continua). Oras, essa campanha tem algo estarrecedor. Num plano geral, é evidente que o Brasil tem o “conservadorismo que merece”! Como poderia ser diferente diante da violência da desigualdade e da guerra civil endêmica que o caracteriza? O que interessa não é a choradeira sobre o óbvio, mas o que está sendo feito e o que estamos fazendo para mudar isso. Mais uma vez, o governismo consegue se fazer passar de vítima como se os 13 anos de governo do PT não tivessem nenhum papel nesse impasse! Como se a retórica da nova classe média tivesse sido imposta desde fora do governo, como se a total ausência de uma política de segurança pública (ou seja, a continuidade do extermínio dos jovens negros e pobres nas favelas) e de qualquer projeto de desconstrução da guerra às drogas (pela legalização e regulamentação) não fosse de responsabilidade do lulismo; como se a política de megaobras e megaeventos sem reforma agrária e de desrespeito dos direitos indígenas não fosse o resultado do colonialismo interno, para não falar enfim do escândalo dos escândalos: a total ausência de um debate institucional sobre a legalização do aborto, cuja ilegalidade tolhe a liberdade e a vida das mulheres, sobretudo das mais pobres.

Há uma segunda dimensão, mais histórica: podemos pensar o período seguinte à revolução de junho de 1848 ou aquele que veio depois do maio de 1968 na França. As vitórias eleitorais da restauração ou dos conservadores são mais um sinal de esgotamento do sistema do que de sua saúde.

IHU On-Line - Alguns pensadores vislumbram nas lutas autônomas, que têm eclodido desde 2013, uma alternativa à polarização política. O que pode emergir destes movimentos?

Giuseppe Cocco - Desses movimentos podem surgir outros movimentos, como está acontecendo com os Garis no Rio de Janeiro, com as diferentes assembleias que estão discutindo Brasil afora os aumentos das tarifas dos transportes, os megaeventos, as reservas indígenas, etc. Não sei quando, mas no Brasil também estão postas as condições para uma nova institucionalidade e até para uma nova forma-partido, como aquela que o Podemos está experimentando na Espanha.

IHU On-Line - Os movimentos sociais do século XXI tendem a recusar lideranças, justamente porque são organizações políticas da Multidão na metrópole. Diante deste cenário, como fazer com que tais movimentos integrem a política nacional? Qual a importância da escolha de um líder nesse modelo?

Giuseppe Cocco - Do ponto de vista do fazer-se da multidão metropolitana, me parece que o terreno de experimentação é mesmo aquele de uma democracia produtiva. Do mesmo jeito que as metrópoles precisam do trabalho de uma multidão de singularidades entre as redes e as ruas, a multidão metropolitana é capaz de autonomia. Suas formas de organização são e deverão ser cada vez mais territoriais e categoriais, organizando círculos de cidadania e até bolsas do trabalho metropolitano. As metrópoles hoje são gigantescas jazidas de produção de valor: de um outro tipo de valor. Por exemplo, uma metrópole sem carros, cheia de trens, bikes e também cheia de árvores de frutos e hortas! Auto-organização e autoprodução são hoje um terreno possível e imediato.

Mas isso vai precisar também de formas de representação e com relação a isso acho que respondi um pouco quando discuti o caso do Podemos, acima. Só insistiria: hoje, a forma de organização da produção e da vida é cada vez mais colaborativa e horizontal. Toda forma de verticalização tende a ser improdutiva e os atalhos neodesenvolvimentistas da América do Sul foram um fiasco exatamente por serem menos colaborativos, apesar das tentativas de distribuição de renda que podem ter acontecido. Hoje é possível uma tecnopolítica que evite a verticalização sem ao mesmo tempo ficar paralisadas num horizontalismo das assembleias, incapaz de decisão. O líder é sempre uma tentação, porque acelera o processo, mas ele sempre carrega uma enorme carga de autonomia do político e, pois, de uma verticalização antidemocrática e improdutiva. Chega um dia que ele apresenta a conta, e é sempre salgada (estamos vendo aquela do lulismo, sendo que o Maduro está apresentando aquela do Chávez).

IHU On-Line - Dentro da ideia da Multidão como superar um comportamento de ódio mútuo gerado a partir da polarização política, típica da sociedade de massa? Quais os riscos do projeto político da Multidão deixar emergir racionalidades/ideologias que possam representar riscos ao avanço democrático e do bem-estar comum das sociedades?

Giuseppe Cocco - O conceito de “multidão” não é aquele de um projeto político, mas a definição ontológica da nova condição do trabalho e da luta (da política) no capitalismo contemporâneo. Política e economia nunca se separam no fazer-se da multidão como nova realidade ontológica do social.

A luta hoje não passa mais por nenhuma ambiguidade em termos de construção do “uno”, de uma identidade exclusiva, seja aquela de povo ou de classe. Dentro e contra a nova condição, a proposta é de apostar numa política da diferença, de um “uno” (uma colaboração) que não passa por nenhuma redução e — continuando a ser múltiplo — não se deixa capturar pelo Estado e sequer pelo Capital. O binarismo do poder pode ter derrotado a multidão de junho, mas nunca vai conseguir cooptá-la. O discurso do ódio, a negação do outro, a procura da homogeneidade são o terreno da identidade, do uno, da exclusão. O contrário da multidão, ou seja, das diferentes singularidades que interagem entre elas se mantendo tais. Junho de 2013 nos mostrou que isso não é uma figura utópica, mas uma realidade potente. Ainda não sabemos como essa potência se realiza em instituições adequadas.

IHU On-Line - De que maneira as políticas públicas atuais estão relacionadas a uma espécie de capitalismo cognitivo de onde a construção da cidadania está diretamente relacionada à ideia de consumo? Até que ponto a financeirização das políticas públicas não acaba convertendo a sociedade a uma economia da exclusão?

Giuseppe Cocco - O capitalismo nunca organizou a exclusão a não ser para melhor incluir, ou seja, explorar. Só que o faz segundo modalidades diferentes ao longo da história, em função da resistência que ele encontra, por um lado, por parte das populações que ainda não foram incorporadas (incluídas) e, pelo outro, do próprio trabalho assalariado. É também preciso ver que o capitalismo se caracteriza pelas crises e é preciso fazer a distinção entre os mecanismos de inclusão e exclusão estruturais de um determinado regime de acumulação com relação ao que determina o ciclo de uma crise. Hoje em dia estamos num capitalismo que se organiza pela inclusão dos excluídos como tais e ao mesmo tempo esse capitalismo está em crise. O que isso significa? Que o capitalismo cognitivo se caracteriza por mobilizar o trabalho por fora da relação salarial, diretamente nas redes de reprodução e que os transportes não são mais apenas esteiras de circulação, mas linhas de produção. Da mesma maneira o consumo se torna produtivo. Assim o trabalhador empregado se torna cada vez mais um empregável que trabalha: com um estatuto precário, numa crescente fragmentação: os pobres passam a ser explorados como pobres e a relação de crédito e débito substitui e qualifica aquela de assalariamento, fazendo das finanças o modo de governança do capitalismo cognitivo. Junho nos mostrou que ao mesmo tempo as lutas passam a acontecer nas metrópoles: nos transportes ou nos rolezinhos, com os professores e os garis. Estamos em uma sociedade de inclusão, mas de uma inclusão por modulação da precariedade. Ao mesmo tempo, esse capitalismo está numa crise estrutural desde 2007 e 2008 no nível global com relação à qual não se vislumbram formas de regulação. As tentativas no eixo Syriza-Podemos poderão ser inovadoras desse ponto de vista.

Enfim, queria dizer que o desafio que temos é romper a chantagem governista e voltar a fazer multidão dentro da justa indignação, reabrindo a brecha democrática. Não há outras escolhas e não sei quando e como o evento dessa retomada vai acontecer. Embora seja muito difícil, há vários sinais que precisamos lembrar: o panelaço no Morro dos Cabritos em Copacabana, no dia 15; no mesmo dia, a manifestação em memória de Claudia, a mulher negra assassinada e arrastada faz um ano pela PM do Rio, a greve autônoma dos garis que se articulam também com os “círculos de cidadania”.

Assim, concluiria lembrando o que escrevi em junho de 2013 e que continua atual: "A questão é inventar uma nova antropofagia política, um novo 'pau-Brasil', como Oswald de Andrade soube fazer nos anos 1920". Precisamos, pois, ir para a terceira margem do rio.

Notas do Entrevistado:

1.- Giuseppe Cocco, “Ser de esquerda é ter a coragem de mergulhar no levante da multidão”, Revista Brasileiros,http://brasileiros.com.br/2013/06/ser-de-esquerda-e-ter-a-coragem-de-mergulhar-no-levante-da-multidao

2.- Para assistir o vídeo acesse http://www.viomundo.com.br/politica/caio-castor-protesto-contra-dilma-na-paulista-foi-muito-alem-da-classe-media.html

(*)  Giuseppe Cocco é graduado em Ciência Política pela Université de Paris VIII e pela Università degli Studi di Padova. É mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Métiers e em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). É doutor em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e editor das revistas Global Brasil, Lugar Comum e Multitudes. O último livro publicado é KorpoBraz: por uma Política dos Corpos (Mauad, 2014).

Por Patricia Fachin e Ricardo Machado