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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Bolsonaro, seu partido, suas razões (Celso Rocha de Barros)

Na coluna passada, escrevi que o resultado da briga de Bolsonaro com o PSL sinalizaria como seria seu governo de agora em diante.
Se Bolsonaro tentasse sair para um partido tradicional (como o DEM), sinalizaria que pretende governar mais ou menos dentro da democracia até o final. Se tentasse criar um novo partido só com os bolsonaristas “puros”, sinalizaria que governabilidade não lhe interessa, e que seu negócio é apostar em mobilização permanente e ataque às instituições.
É bom lembrar: a ideia de formar um partido de bolsonaristas fiéis não começou com o escândalo dos laranjas. Começou quando deputados do PSL foram aproveitar uma boca-livre na China e foram chamados de traidores por Olavo de Carvalho. Desde então Eduardo Bolsonaro pensa em uma nova agremiação.
E uma das principais diferenças entre Bolsonaro e outros líderes de extrema-direita mundo afora é a falta de um partido bolsonarista disciplinado, como o Fidész húngaro ou o Front National francês. Os bolsonaristas notaram o problema e têm tentado consertá-lo.
Pois bem. Na semana passada, Bolsonaro sinalizou radicalização com sua tentativa de sair do PSL. Parecia disposto a investir em um partido-movimento bolsonarista.
Mas a verdade é que nem todo maluco rasga dinheiro, e cruzada em favor da civilização ocidental sem dinheiro do fundo partidário e sem mandato ninguém quis fazer não.
O PSL, que graças a Bolsonaro se tornou uma máquina poderosa, resolveu aceitar a briga, e deixou claro que, se o presidente e seus malucos quiserem sair, que saiam. Bolsonaro dobrou a aposta e pediu uma auditoria nas contas de campanha do PSL. A ideia é gerar um escândalo que possa ser usado, na Justiça Eleitoral, como “justa causa” para que deputados possam sair do partido sem perder seus mandatos. O PSL não cedeu e pediu uma auditoria nas contas da campanha de Bolsonaro. Depois da Lava Jato aderir ao “Lula Livre”, o PSL começou a se perguntar onde está o Queiroz, e, enfim, Brasil de 2019.
O que nos leva à ótima coluna de Hélio Schwartsman da última sexta-feira, que propôs a pergunta: Bolsonaro é “um sujeito inteligente”, ou “só um valentão”?
De fato, se você acha que Bolsonaro é um democrata, você precisa concluir que ele é um jumento sem defeito. Nada do que ele faz ajuda a governabilidade. Qual presidente de democracia estável saiu do próprio partido com nove meses de governo?
Há, entretanto, uma outra explicação: Bolsonaro pode não estar interessado em governabilidade, mas sim em um projeto de corrosão da democracia brasileira semelhante ao que aconteceu na Hungria ou na Turquia.
Eu não acho que Bolsonaro seja burro, de jeito nenhum. É notavelmente impermeável ao conhecimento, mas não é burro.
Fui treinado metodologicamente para ao menos começar a pesquisa supondo racionalidade nos atores. Não acho difícil tratar Bolsonaro assim, desde que não se suponha que ele aceita valores democráticos. Se aceita ou não é algo que não se resolve com pressupostos, mas observando o que ele diz e faz. E aqui o diagnóstico é ainda mais claro.
A crise com o PSL é gravíssima e tem potencial para piorar muito. Mas ainda não sabemos a intensidade do fracasso que pode forçar Bolsonaro a se conformar com a democracia.
Folha de S. Paulo/14 de outubro de 2019

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Movimento bolsonarista reflui e radicaliza (Celso Rocha de Barros)

O bolsonarismo como movimento político está refluindo, e Bolsonaro tenta compensar isso com golpe de Estado e uso da máquina.
Os bolsonaristas inteligentes sabem que a eleição de 2018 foi uma mistura de contingências que não devem se repetir: a facada, a desistência de outsiders como Joaquim Barbosa e Luciano Huck, a prisão de Lula, o casamento entre bolsonarismo e lavajatismo, o naufrágio das candidaturas ligadas a Temer. Essa onda atraiu as elites econômica e política para Bolsonaro nas últimas semanas do primeiro turno. Agora a onda refluiu e o sistema busca alternativas.
O voto puramente antipetista parece ter abandonado Jair. Sua taxa de aprovação é semelhante à proporção do eleitorado que o apoiava antes da disparada no primeiro turno.
É cada vez menos claro o que, exatamente, Bolsonaro tem a oferecer como programa econômico que seus concorrentes na direita não tenham. Suas únicas propostas que não estavam nos programas de Alckmin e Meirelles —a capitalização da Previdência e a CPMF— foram fracassos constrangedores. Se você gosta de ortodoxia econômica, é pouco provável que Bolsonaro seja sua única alternativa de voto em 2022.
A propósito, os dois principais governadores eleitos na onda bolsonarista —Doria e Witzel— já tentam se afastar de Bolsonaro.
E já não é mais possível para a centro-direita repetir o argumento de que Bolsonaro seria moderado pelas instituições, ou que o PT traria o mesmo risco à democracia. Não há nenhum outro político ou partido brasileiro que, se tivesse vencido, teria criado o mesmo risco permanente de golpe de Estado instaurado por Bolsonaro. Se o empresariado apoiar Bolsonaro de novo, sua ruptura com a democracia será consciente e final.
Mas mesmo os 25% de aprovação de Bolsonaro não são estáveis. A chance de Bolsonaro representar a Lava Jato de novo na eleição é zero. Já está claro que Bolsonaro está tendo muito mais sucesso em destruir as instituições de combate à corrupção do que seus antecessores.
Os procuradores da Lava Jato já denunciaram Bolsonaro como adversário. A permanência de Moro no ministério é cada vez mais constrangedora. Essa percepção mal começou a chegar à opinião pública.
Sobram os fanáticos de Olavo de Carvalho e Eduardo Bolsonaro, mas seu extremismo sobreviveu muito mal à atenção do público. Quando o Brasil parou para ler Olavo e escutar Eduardo, só sobrou vergonha. O olavismo só sobrevive como senha para conseguir cargos de segundo escalão nas áreas do governo controladas pelos extremistas.
Resta a máquina. O aparelhamento bolsonarista das instituições segue acelerado, e o uso da máquina contra os adversários do governo —em especial os de direita— mal começou. O esforço para cooptar mídia amigável é aberto e desavergonhado. É usando a máquina que o PSL espera conquistar mil prefeituras no ano que vem.
E é justamente porque o movimento está refluindo que Bolsonaro acelerou o golpismo. Em menos de dez dias tivemos o "levantar a borduna", os ataques à imprensa e o tuíte de Carlos Bolsonaro. Querem isolar seus militantes do noticiário e mantê-los radicalizados.
Não é o primeiro caso em que um movimento autoritário radicaliza quando começa a perder. O risco pode ter aumentado.
Folha de S. Paulo/16 de setembro de 2019

sexta-feira, 26 de julho de 2019

‘O bolsonarismo é uma ideologia do porão da ditadura’ (Celso Rocha de Barros/entrevista)

Cientista político identificado com a esquerda, ele defende o diálogo com economistas liberais, critica a postura do PT em relação às contas públicas e vê a questão ambiental como a “maior tragédia” do início de governo
18 perguntas para Barros
1. Como o senhor vê as relações entre o bolsonarismo e o lavajatismo antes e depois dos vazamentos dos diálogos entre o ex-juiz Sergio Moro e procuradores?
Sempre houve alguma intercessão entre lavajatismo e bolsonarismo, e essa confusão certamente ajudou Bolsonaro, um deputado medíocre do baixo clero, sem qualquer histórico de combate à corrupção, a se eleger. Mas sempre houve diferenças importantes. O lavajatismo tem origens em aspirações inteiramente legítimas de combate à corrupção, e o apoio popular à operação reflete os resultados obtidos no desvendamento dos escândalos. Sempre houve algo de messiânico e alguns abusos eram conhecidos, mas isso não quer dizer que os lavajatistas apoiassem Ustra, ou a ditadura militar, ou a tortura. O partido mais claramente identificado com a Lava Jato era a Rede Sustentabilidade, que não tinha nada de extremista, muito pelo contrário.
Moro sempre foi maior que Bolsonaro diante da opinião pública, o que claramente incomoda o presidente da República. Depois da Vaza Jato, Moro é que passou a precisar do apoio de Bolsonaro. Bolsonaro apoia Moro, mas faz questão de que esse apoio se dê em termos bolsonaristas: com ofensas à sexualidade de ( Glenn ) Greenwald, fake news etc. A ideia é queimar Moro com os moderados e trancá-lo no campo bolsonarista, levando a Lava Jato junto.
2. Como o senhor define o bolsonarismo ? “Populismo” dá conta desse fenômeno político e cultural?
A impressão é que talvez Bolsonaro seja um autoritário old school demais para ser um populista eficiente. Não me parece claro que o público tenha noção de quanto Jair Bolsonaro é radical: ele é muito mais parecido com o fascista francês Jean-Marie Le Pen do que com sua filha, a populista de direita Marine.
3. O senhor já se referiu ao governo Bolsonaro como um “regime de mobilização permanente”. Por quê?
Bolsonaro continua buscando a mobilização de sua base contra as instituições. É importante diferenciar o tipo de mobilização do bolsonarismo do ativismo social saudável. Uma sociedade civil forte impõe limites ao poder. A mobilização em favor do Poder Executivo contra o Legislativo e o Judiciário tenta retirar esses limites.
4. Quais os antecedentes históricos brasileiros do bolsonarismo?
Bolsonaro pertence à linhagem dos militares que não aceitaram a abertura democrática iniciada por Geisel. Por isso o culto a Brilhante Ustra: o bolsonarismo é uma ideologia do porão da ditadura, não é do general, não é do presidente militar. É a visão de mundo do sujeito que torturava comunistas e depois entrou para o esquadrão da morte, para garimpo ilegal, para jogo do bicho. Daí, também, o elogio às milícias. É sempre bom lembrar que Bolsonaro tentou colocar bomba no quartel por aumento salarial já nos anos 80, e que Geisel teve tempo de referir-se a ele como “mau militar”. Acho que a maior parte do público brasileiro não tem coragem de admitir quão radical é o presidente que elegemos.
5. Como o senhor analisa a tensão entre a base mais orgânica do bolsonarismo e a estrutura partidária do PSL?
Acho que é a luta entre quem quer fazer um partido de direita populista “normal” — que vence eleições, disputa cargos etc. — e quem quer construir um movimento autoritário. Boa parte dos deputados do PSL quer seguir uma carreira política normal, mas a ala olavista comandada por Eduardo Bolsonaro quer um movimento contra as instituições, contra a democracia.
6. Como o senhor vê a correlação de forças dentro dos maiores partidos do Congresso, o PT e o PSL?
O PT sempre teve uma divisão interna entre moderados e radicais, mas acho que a principal cisão atual é entre governadores e parlamentares, entre quem precisa de voto de fora dos 30% de esquerda para se eleger e quem não precisa. Não acho que a ênfase no “Lula Livre” seja o problema. Acho que o pessoal foca no “Lula Livre” justamente porque não consegue fechar uma posição do partido sobre outras questões, e “Lula Livre” é algo com que toda a militância concorda.
O PSL se tornou tão disfuncional que é até difícil de analisar. Quando a legenda saiu das urnas com uma bancada daquele tamanho, todo mundo achou que atrairia adesões e se tornaria um partido muito grande. Mas pouca gente quis entrar em uma legenda tão cheia de fanáticos ideológicos, que o próprio Bolsonaro parece disposto a abandonar.
7. O senhor é um intelectual associado à esquerda política, mas sempre adotou um registro moderado em suas colunas na Folha. Há alguém, entre os liberais e os conservadores que estão se opondo ao atual governo, com quem o senhor acha possível construir pontes e coalizões, ainda que circunstanciais?
É muito possível, e é obrigatório. Acho que há amplo espaço para conversar com os liberais, e muitos dos grandes economistas liberais brasileiros têm evidente aversão a Bolsonaro. Mesmo que não se chegue a um acordo com eles sobre todas as reformas, e não custa nada conversar sobre isso também, é inteiramente viável estabelecer uma convivência razoável em que todos se unam quando a liberdade brasileira estiver sob ataque. E não, não tem problema se cada um apoiar seu próprio candidato em 2022. No campo conservador é mais difícil, embora seja possível pensar em alguns nomes — o Reinaldo ( Azevedo ), o ( Carlos ) Andreazza. Mas a verdade é que a crise mostrou que falta conservadorismo político no Brasil, no sentido preciso do termo: durante toda a crise, faltou a visão de que quebrar os partidos e o sistema político era fácil, difícil era construir outra coisa no lugar. O que sobra é conservadorismo moral e extremismo populista.
8. O senhor acha que houve omissão da esquerda com relação a temas como reforma da Previdência e segurança pública e que isso acabou jogando esses temas no colo da direita?
Acho que sim. Não se deve transigir em nada na defesa dos direitos humanos, mas é preciso discutir policiamento, repressão ao crime. O trabalhador brasileiro cujo celular é roubado na Central do Brasil e vai ter de continuar pagando as prestações do aparelho vai acabar votando na extrema-direita se a esquerda não tiver uma proposta para impedir que isso ocorra de novo.
9. O senhor tem sido muito crítico em relação aos programas econômicos do PT. O que um programa progressista e responsável deveria defender?
Partidos de esquerda têm de ser ambientes em que os economistas se sintam seguros para dizer, de vez em quando, “não tem dinheiro para isso”. Pegue o exemplo do Nelson Barbosa: nos últimos anos, ele vem propondo reformas que procurem conciliar equilíbrio fiscal com preocupação com os pobres. Você pode gostar ou não das propostas dele, mas é algo que ele vem tentando. Aí, quando sai o programa do PT para a eleição de 2018, não tem quase nada das propostas do Nelson.
À exceção de um trecho bem tímido sobre Previdência, não havia quase nada que demonstrasse preocupação com o estado das contas públicas. Isso era contrário, inclusive, ao que fizeram as boas administrações petistas. A gestão Haddad na prefeitura de São Paulo foi fiscalmente responsável, como a de Erundina já havia sido. É possível que isso seja efeito um pouco das ideias de esquerda dos anos 60, que, para se distanciar do marxismo ortodoxo, que era ultraeconomicista, acabou falando mais de política e cultura do que de economia.
10. Há alguma hipótese plausível de uma força da esquerda brasileira se mostrar uma alternativa viável ao eleitorado evangélico a médio ou longo prazo?
Sem dúvida. Em primeiro lugar, porque os evangélicos não são só evangélicos. São trabalhadores brasileiros que têm seus próprios interesses e desejam políticas públicas que a esquerda sempre defendeu, como saúde e educação públicas. Mas também é possível que os fiéis se tornem mais tolerantes à medida que fique claro, por exemplo, que o casamento gay é uma afirmação da família, não o contrário. Agora, é claro que o respeito à fé de todos os fiéis deve ser absoluto.
11. Quais lições de sua formação de esquerda lhe parecem úteis na interpretação da política contemporânea? E quais lhe soam descartáveis ou pelo menos datadas e inadequadas?
Houve debates que a esquerda ganhou, como o da desigualdade: é difícil encontrar um sujeito sóbrio que não reconheça que o Estado deve evitar que o fosso entre pobres e ricos se torne imenso e intransponível. Na última eleição, quase todos os candidatos defendiam taxar juros e dividendos. Não era assim, foi a esquerda que levou essa briga adiante. Por outro lado, a esquerda precisa deixar de considerar que toda solução estatista é melhor que a solução pró-mercado. Em política econômica, ou na discussão sobre privatização, vale o que funcionar. Às vezes vai ser o Estado, às vezes vai ser o mercado, e o que interessa é que os objetivos da sociedade sejam mais bem atingidos.
12. Como o senhor enxerga a, por falta de nome melhor, “virada identitária” de parte significativa da esquerda nacional?
Acho ótima. Conquistas como o casamento igualitário e os direitos das mulheres estão entre as grandes realizações humanas das últimas décadas. Feminismo, movimento LGBT, movimentos antirracistas, tudo isso é parte da grande luta pela liberdade. Todos esses movimentos têm realizações imensas. Eu sou muito menos machista, racista e homofóbico do que já fui graças a eles, e só tenho a agradecer. Eu gosto de ficar mais inteligente. Talvez falte um pouco de prudência na hora de criticar o cidadão comum que comete um deslize, e às vezes há excessos de patrulha. Ninguém é perfeito, cuidado sempre é necessário. Mas o saldo da coisa toda é amplamente, esmagadoramente positivo. E, claro, não há por que desistir das pautas tradicionais do combate à desigualdade econômica.
13. Como o senhor avalia a atuação política dos intelectuais de esquerda ligados a universidades e think tanks ao longo dos anos Lula e Dilma?
Acho que faltou criticar e revisar programas enquanto dava tempo. Se intelectuais de esquerda tivessem criticado a Nova Matriz Econômica, por exemplo, isso teria tido muito mais peso do que as críticas dos economistas tucanos. E mesmo nas ideias de esquerda já havia muita coisa que tinha de ter sido revisada antes mesmo da chegada à Presidência.
Houve exceções, é claro, mas não conseguiram se fazer ouvir.
14. Existe algum “ponto cego” na produção científica atual sobre a situação política brasileira?
Sem sombra de dúvida, a crise de 2008. Foi o fato mais importante do mundo na última década: a economia piorou, a esquerda perdeu a fé no liberalismo, a direita se tornou antiglobalista. E aqui no Brasil a gente discute as coisas como se a crise não tivesse tido impacto nenhum sobre nós, mesmo a economia tendo piorado, a esquerda tendo perdido a fé no liberalismo e a direita tendo se tornado antiglobalista.
15. Quais os principais obstáculos de longo prazo para as principais forças políticas brasileiras?
São o mesmo problema, mas visto de ângulos diferentes. Para a esquerda, o desafio é pensar um programa de redistribuição de renda que seja compatível com um Estado falido e um país que não cresce direito há 40 anos. Para a direita liberal, o desafio é como implementar reformas liberais que podem produzir mais desigualdade em um país que já de saída é um dos mais desiguais do mundo.
16. Como o senhor analisa o papel da imprensa no atual cenário político nacional?
Acho que boa parte da imprensa tem viés de centro-direita porque o público que paga por notícia tem esse perfil. Isso explica a ênfase nos escândalos petistas, mas a verdade é que as denúncias não pararam depois que o PT caiu. Os escândalos de Temer e Bolsonaro foram denunciados, e continuam sendo. Por isso a guerra de Bolsonaro contra a imprensa: os jornalistas sérios, inclusive os de direita, continuam denunciando seus escândalos.
17. Há alguns anos o STF não era uma instância muito permeável ao escrutínio da sociedade civil e se mantinha razoavelmente distante das discussões públicas mais imediatas. Como foi o processo de mudança desse quadro e como o senhor descreveria a atual correlação de forças no Supremo?
Sob um certo aspecto, é ótimo que o STF tenha se tornado mais transparente. Mas parece claro que, em mais de um momento nos últimos anos, a Corte decidiu exclusivamente por pressão da opinião pública, o que é ruim. Quando as democracias instituem Supremas Cortes, é justamente para que as flutuações da opinião pública não comprometam a sobrevivência de longo prazo do estado de direito.
18. Qual a mudança mais drástica feita pelo atual governo na estrutura da burocracia federal brasileira? Quais são as implicações?
De longe, a maior tragédia é a preservação ambiental. Não foi sequer necessário mudar lei, foi só deixar claro que o Ministério do Meio Ambiente não fiscalizaria mais nada. Nessas áreas regulatórias em que Bolsonaro não depende de aprovação do Congresso, os danos vão ser enormes.
Gabriel Trigueiro/Revista Época/13 de julho de 2019

domingo, 21 de outubro de 2018

O que é isso, companheiro?! (Celso Rocha de Barros)

A República brasileira hoje enfrenta o maior inimigo que já teve: Jair Bolsonaro. O candidato do PSL não representa só a herança da ditadura militar: representa o porão, a facção que se opunha à abertura de Geisel — que, a propósito, chamou Bolsonaro de “mau militar”. Os cinco generais que Bolsonaro pretende colocar no ministério não estarão lá para administrar suas pastas, mas para manter a ameaça de golpe permanente. Chegamos a um ponto em que Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita francesa, declarou que as coisas que Bolsonaro diz seriam inaceitáveis na França. E a questão é esta: somos uma sociedade como a França, em que mesmo a extrema-direita recusaria Bolsonaro? Ou somos um daqueles negócios exóticos e atrasados para quem o mundo olha e pensa “Eles são assim mesmo, não tem jeito”?
Só Fernando Haddad e o Partido dos Trabalhadores podem defender a República brasileira da ameaça Bolsonaro.
Não, não é a situação ideal.
Mas é o que temos para hoje. A República exige que os brasileiros tenham em quem votar contra Bolsonaro. Para se tornar essa opção, o PT precisa deixar claro que, se Fernando Haddad for eleito presidente, não repetirá os erros que causaram a queda de Dilma Rousseff em 2016.
O partido deveria ter feito uma autocrítica nos últimos anos. Se tivesse falado abertamente sobre os casos de corrupção envolvendo petistas ou sobre o desastre da política econômica do primeiro mandato de Dilma, seria muito mais fácil prometer que nada disso aconteceria de novo.
Não se deve esperar que o PT passe o segundo turno pedindo desculpas, nem eu defendo que o faça. Campanhas eleitorais são sobre o futuro, e, se formos falar de autocrítica, a turma de Bolsonaro ainda nos deve explicações sobre o assassinato de Vlado Herzog, a explosão da dívida externa nos anos 70, a recessão de 1981, o Maluf e o próprio Bolsonaro.
Mas é importante que as propostas do PT neste segundo turno deixem claro que o partido entendeu o que fez de errado quando foi governo.
Aqui vão alguns pontos que deveriam ter constado em uma autocrítica do PT e minhas sugestões de propostas que deixariam claro que o partido aprendeu com seus erros.
Em primeiro lugar, o PT deveria ter reconhecido que desviou bastante dinheiro da Petrobras. Depois do que a Lava Jato revelou, sabemos que os esquemas que abasteceram o PT já existiam havia décadas; mas garanto que não foi o presidencialismo de coalizão ou a cultura política brasileira que obrigaram os petistas a aceitar subornos milionários do cartel das empreiteiras. Como disse Jaques Wagner, o partido lambuzou-se.
O PT se defende dizendo que nenhum partido fortaleceu mais as instituições de controle, que os ministros que condenaram os petistas foram nomeados por Lula e Dilma e que foram presidentes petistas que assinaram a Lei da Ficha Limpa e a Lei das Delações Premiadas.
Isso é tudo verdade, e o partido tem todo o direito de reivindicar essa herança na campanha eleitoral de 2018. Em especial contra Bolsonaro, cuja turma teria pendurado Sergio Moro no pau de arara se o juiz se metesse a investigar, digamos, o Costa e Silva.
O problema é que, como disse o filósofo Ruy Fausto, o PT fez a autocrítica errada. Os fatos eram: o PT tomou iniciativas importantes contra a corrupção, mas também cometeu grandes crimes. A autocrítica certa era: cometemos muitos crimes. A autocrítica feita depois do impeachment foi: as instituições de controle estão descontroladas.
Para corrigir seu surto de estupidez pós-impeachment, o PT tem de se comprometer a respeitar a Lava Jato. O PT não pode propor nada que enfraqueça o Ministério Público ou possa ser interpretado como ameaça à imprensa. Tem de propor, enfim, o mesmo respeito às instituições que demonstrou quando foi governo.
Da mesma forma, o PT tem todo o direito de discordar da decisão que condenou Lula, mas um novo governo do PT deve deixar claro que Lula se defenderá dentro das regras da Justiça brasileira, sem interferência do novo presidente da República.
Defender a Lava Jato, aliás, traz vantagens para o PT em 2018. Em 2016, a operação realmente deu a impressão de que só o partido era corrupto. De lá para cá, os adversários do PT caíram na rede da operação, um a um, mesmo que depois tenham escapado da prisão por manobras que a direita sabe fazer melhor que a esquerda.
O PT também deve desculpas ao público pela política econômica implementada por Dilma Rousseff em seu primeiro mandato, a chamada Nova Matriz Econômica (NME).
A NME começou como um programa mais ou menos ideológico reivindicado pelo setor industrial — o que a economista Laura Carvalho chamou de “Agenda Fiesp” —, com redução forçada de juros e intervenções no setor elétrico. Deu errado e, conforme a eleição se aproximava, virou um negócio meio avacalhado, com desonerações de impostos para o empresariado. No fim das contas, o crescimento não veio, e o governo quebrou, processo bem descrito no livro Como matar a borboleta azul, da economista e colunista de ÉPOCA Monica de Bolle.
Já houve esboços tímidos de autocrítica petista na área econômica. O partido — e a própria Dilma — já reconheceu que as desonerações da folha de pagamentos foram um erro, um negócio tão imbecil que o Paulo Guedes resolveu copiar e incluir no programa do Bolsonaro.
Mas, para que o partido recupere a reputação de responsabilidade, o PT precisa enfatizar muito mais a necessidade de enfrentar nosso problema fiscal, a situação terrível em que se encontram as contas públicas.
O programa do PT defende unificar os regimes da Previdência, o que seria um avanço, mas não é suficiente. O programa de compromisso proposto por Samuel Pessôa na Folha de S.Paulo do último domingo — com alguma flexibilização do teto de gastos para facilitar os investimentos, impostos sobre ricos e reforma da Previdência — é um bom ponto de partida para a conversa.
E é importante lembrar: o PT já geriu a economia brasileira com grande competência. A gestão de Palocci no primeiro governo Lula é reconhecida por todos os economistas como exemplar. Sim, ter chamado o Meirelles ajudou muito. A política de combate à crise econômica de 2008 foi bastante eficiente.
Há, portanto, uma herança de competência macroeconômica petista, mas para reivindica-la o PT precisa reconhecer que o que deu certo em seus governos não foi o que seus documentos internos defenderam. Esses documentos deveriam enfatizar o que o partido fez de certo, não o que faz sucesso nos departamentos universitários em que os petistas dão aula. E, finalmente, a Venezuela.
Esse talvez seja o erro mais estúpido do PT, porque, nesse caso, não há qualquer fator atenuante. Não há crise do euro, não há política do Fed, não há necessidade de montar alianças no Congresso, não há nada que tenha obrigado o PT a apoiar Nicolás Maduro.
Em 13 anos de governo, o PT não deu um único passo em direção à venezuelização. A imprensa investigativa, os tribunais, o Congresso, todos viveram uma era de ouro durante os governos petistas — e, no fim das contas, derrubaram Dilma em 2016. Não conseguiram a mesma coisa contra Temer, que muito mais o merecia. E ninguém investiga, condena ou derruba general.
Por que, então, defender Maduro? Os parentes ideológicos do PT são Mujica e Bachelet. Esses, sim, governaram no espírito da social-democracia que Haddad invocou em sua entrevista ao Jornal Nacional.
Haddad, aliás, vem fazendo progressos em todas essas frentes. Já abandonou a proposta petista de nova Constituição, defende — ainda sem a ênfase necessária — reformar a Previdência, reconheceu que a Venezuela não é mais uma democracia. Seu encontro recente com Joaquim Barbosa foi um passo na direção certa que superou as expectativas.
Uma autocrítica nos últimos anos teria sido mais suave, mais gradual. Mas, se for necessário fazê-la na marra, sob golpes da opinião pública, nos próximos dias, que o PT a faça assim.
E nada, nada do que defendi até agora impediria o PT de fazer o que sempre fez bem: trazer os pobres brasileiros para dentro da democracia e do mercado. Isso é a civilização. Bolsonaro é outra coisa.
(*) Celso Rocha de Barros é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, Inglaterra
Época/19 de outubro de 2018