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terça-feira, 28 de maio de 2019

A democracia e a nossa conjuntura (Celso Lafer)

Ao longo dos anos 1980, um abrangente consenso em torno da democracia uniu todas as vertentes da oposição ao regime autoritário-militar, favorecendo a redemocratização por meio de uma ação política que se valeu de brechas institucionais existentes. A Constituição de 1988 é expressão do consenso em torno da democracia, e a Constituinte, da qual emanou, traduziu em normas a imaginação e os sentimentos que impulsionaram o esforço coletivo abrangente de uma cidadania, que se tornou ativa no seu empenho em prol da redemocratização.
A Constituição de 1988 foi a moldura e o parâmetro no âmbito do qual transcorreu a vida política do país da Presidência Sarney à de Temer. Teve resiliência institucional para permitir que o País lidasse, em consonância com as regras da democracia, com uma complexa pauta e muitas tensões políticas.
Nesse contexto é importante realçar que a democracia é um método de convivência civil e pacífica, uma prática de aprendizagem permanente. Por isso pressupõe, como ensina Bobbio, confiança – “a confiança recíproca entre os cidadãos e dos cidadãos nas instituições”, que postula também a confiança no diálogo democrático, ou seja, o reconhecimento do Outro como adversário, e não como inimigo a ser dizimado, o que a convulsão dos sectarismos não favorece. Sectarismos excludentes e populismos de vários tipos são um dos dados que, em vários países, vêm levando à degeneração do poder democrático e à autocracias eletivas.
Os laços de confiança entre governos e governados foram se esgarçando em nosso país. Para isso contribuiu a revelação da corrupção. A corrupção, como dizia Políbio, é um tenaz agente da cupinização das instituições políticas. Daí a percepção de que a gestão da res publica estava se transformando na administração dos particularismos da res privata. No início, isso alcançou o PT e suas redes, porém nos desdobramentos impactou todo o espectro dos atores políticos.
A semente da desconfiança permeou as eleições de 2018. Todos os partidos que atuaram no pós-redemocratização foram derrotados. Padeceram a erosão de sua capacidade de vincular o indivíduo ao coletivo, PT incluído. Na dinâmica eleitoral, Bolsonaro soube valer-se das novas mídias da era digital, que diminuíram a prévia relevância da mídia tradicional no processo eleitoral. Catalisou um forte e significativo sentimento anti-PT existente na sociedade, para o qual contribuiu a inépcia da gestão do segundo mandato de Dilma. A isso se somaram no ano eleitoral a preocupação com a segurança e a violência, o desemprego e a falta de oportunidades.
Foi nesse caldo de sensibilidades que Bolsonaro, até então figura periférica e solitária na vida política, se viu catapultado para o âmago bem-sucedido das eleições. No Congresso, como deputado em várias legislaturas, não se destacou. Manifestou em suas intervenções grande simpatia pelo regime militar, foi muito crítico dos direitos humanos, altamente conservador em matéria de costumes, no que se viu respaldado pela visão e força política dos evangélicos, encontrando eco na sociedade.
Na campanha e nas constantes manifestações na Presidência, na qual se vale, como Trump, da preferência pelo sintético-não-argumentado do Twitter, tem arguido que ele e seu governo representam uma nova política. Esta, no seu tom e estridência, é uma contestação, para me valer de formulação de Fernando Henrique Cardoso, “ao terreno comum, público e privado, no qual o interesse das pessoas se encontram e em nome do qual um país cria um destino nacional”.
Esse terreno comum foi dado pela moldura da Constituição de 1988 e seus adquiridos axiológicos. A “nova política” questiona esse terreno comum e a respeitabilidade dos seus valores. É um deslocamento de paradigma do funcionamento da vida política brasileira, que, com todas as dificuldades e todos os conflitos, sustentou a democracia em nosso país.
A “nova política” poderá assegurar o bom governo? A dicotomia bom governo/mau governo é um dos temas clássicos da teoria política. Passa pelo “governo das leis” e pelo exercício do poder em prol de um ideal e de uma prática voltada para o bem comum. Um dos ingredientes que desde os gregos e de toda a literatura subsequente leva à desagregação do bom governo, como lembra Bobbio, é a prevalência da formação de facções e o estímulo à discórdia.
Uma das características da presidência de Bolsonaro é a formação de facções dentro de seu próprio governo, que nas suas discórdias fragmentam a nitidez dos rumos governamentais.
O espírito de facção inspira o cerne ideológico do governo, que, alinhado com o perfil do presidente, anima a sua comunicação com o País. Esta alimenta o núcleo duro dos seus seguidores, que é minoritário, mas afasta a maioria remanescente dos seus eleitores e também o vasto grupo de brasileiros que tiveram, no início, uma certa boa vontade com o “novo” que encarnava. Em síntese, o forte facciosismo do governo no trato da sua inserção com a sociedade divide o País e não contribui para a reconstituição dos laços de confiança entre governo e governados. Sustenta-se na ideia de que existem inimigos e conspirações no Brasil e no mundo que cabe combater com vocação de cruzados, que desconhecem a distinção entre fatos e ficção e os critérios do pensamento na lida com o verdadeiro e o falso.
Hobbes, no De Cive (XII, 13), analisa os riscos da multiplicação de facções dentro do Estado e da sociedade para a boa governança. Ilustra a questão com uma narrativa mítica. As filhas de Peleu, rei de Tessália, inspiradas pelo conselho de Medeia, cortaram o velho rei em pedacinhos, cozinharam-no no fogo, esperando, inutilmente, que ressuscitasse com o pleno vigor da juventude. Assim também, continua Hobbes, é a estultice das facções, que na sua conduta querem renovar o velho abrasando o governo, em vez de reformulá-lo. Esta cozinha do abrasar generalizado da “nova política” é um dos riscos da degeneração do poder democrático.
O Estado de S.Paulo/19 de maio de 2019

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A vitória da razão (Celso Lafer)



O filósofo italiano Norberto Bobbio (1909-2004) é, atualmente, uma referência para a ciência política e social, embora no Brasil, assim como na Itália, tenha ficado inicialmente conhecido por suas reflexões sobre Teoria Geral do Direito.

Foi um autor prolífico, atento ao funcionamento dos sistemas políticos democráticos e à dinâmica das relações internacionais, e um defensor obstinado dos Direitos Humanos e da paz.

Celso Lafer, professor emérito do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da FAPESP, autor do livro Norberto Bobbio: trajetória e obra, recentemente lançado, destaca à Agência FAPESP aspectos que considera centrais no pensamento do autor.

Leiam a entrevista:

Agência FAPESP – Norberto Bobbio tornou-se conhecido no Brasil, inicialmente entre juristas. Foi só a partir da década de 1970 que sua obra passou a interessar um público mais abrangente. Por quê?

Celso Lafer – Bobbio formou-se em Direito e Filosofia e foi, durante parte significativa de sua vida, professor de Filosofia e de Teoria Geral do Direito. Este, aliás, foi o tema de sua livre-docência, nos anos 1930. A irradiação inicial de seu pensamento, inclusive na Itália, foi no âmbito da Teoria Geral do Direito. Aqui no Brasil, o professor Miguel Reale, de quem fui aluno na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, conhecia e apreciava a sua obra. O meu primeiro contato com a obra de Bobbio se deu nas aulas de Filosofia do Direito do professor Reale. Bobbio sempre refletiu sobre os problemas do Direito. Em um de seus livros, diz que convinha fazer a diferença entre a Filosofia do Direito dos filósofos e a Filosofia do Direito dos juristas, que dizia respeito aos interesses e às inquietações filosóficas daqueles que se dedicam a procurar soluções para os problemas do Direito que não encontram encaminhamento apropriado apenas no Direito Positivo. Nesse sentido, suas reflexões sempre tiveram impacto muito grande entre os juristas. Até hoje é muito frequente encontrar referência a Bobbio na bibliografia dos estudos do Direito. Os cursos de Direito que ministrava eram sobre Teoria do Direito, como teoria da norma jurídica ou teoria do ordenamento, ou sobre grandes pensadores, como Locke e Kant, para citar dois exemplos de figuras importantes para o Direito e para a Teoria Política. Em Norberto Bobbio: trajetória e obra, comento dois importantes livros dele sobre Teoria Jurídica. O primeiro, Teoria do Ordenamento Jurídico, trata de um tema que, como ele sublinha, é a grande contribuição do Positivismo jurídico para a Teoria Geral do Direito. Para Bobbio, o Direito, que é identificado pelas regras de reconhecimento, está em mudança permanente e, portanto, só pode ser diferenciado pelas formas pelas quais é criado e aplicado. No segundo livro, Da Estrutura e Função, ele reflete sobre o papel do Direito como instrumento de mudança da sociedade. Afirma que, no mundo contemporâneo, o Direito não se limita a proibir ou a permitir, mas também a estimular ou desestimular – é o caso dos incentivos, por exemplo, ou de um Direito Econômico e Social que atua como componente de mudança. Temas da política ou da teoria política sempre existiram em sua reflexão, mas ele acabou desenvolvendo mais circunstanciadamente só mais adiante. No final de sua vida acadêmica, passou da disciplina de Filosofia do Direito para a disciplina da Filosofia e Teoria Política, no âmbito da Universidade de Turim, mas já dava aulas de Teoria Política e Filosofia Política desde a década de 1960. No ensaio Filosofia do Direito e Filosofia Política: Notas sobre a Defesa da Liberdade no Percurso Intelectual de Norberto Bobbio, publicado no livro, procuro mostrar como sua reflexão sobre o Direito se relaciona com a reflexão sobre a política.

Agência FAPESP – O senhor conta no livro que, dois meses antes da morte de Bobbio, teve a oportunidade de lhe dizer pessoalmente que suas lições o ajudaram na elaboração das razões que, na condição de amicus curiae, o senhor apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF), no caso Ellwanger. Quais foram os argumentos de Bobbio que o inspiraram?

Lafer – Bobbio tem grande reflexão sobre os Direitos Humanos em seu livro A Era dos Direitos. Uma das coisas que ele diz é que, no plano da afirmação dos Direitos Humanos, você tem uma primeira fase que é a da generalização, que postula a igualdade e a não discriminação. Há ainda componentes de internacionalização e de especificação, ou seja, do ser em situação: velhos, deficientes, vítimas do racismo, entre outros. Em meu argumento sobre o caso ao STF expus alguns desses aspectos. O tema era o caso de um editor de Porto Alegre, Siegfried Ellwanger, que se dedicava a publicar obras notoriamente antissemitas e também a denegar o holocausto. Ele foi condenado pelo crime da prática de racismo, de acordo com o que estabelece a legislação brasileira, especificando o texto constitucional. Ele entrou com pedido de habeas corpus argumentando que, como os judeus não são uma raça, o crime não era de prática do racismo e, com isso, afastava o problema da imprescritibilidade. O meu argumento foi o de que os judeus não são uma raça, pois não existem raças, mas só uma raça, a raça humana: os brancos, os ciganos, os negros, os índios, todos podem ser vítimas do racismo. O racismo, eu argumentava, é uma prática social e cultural e como tal deve ser interpretado. No meu argumento me vali do princípio da especificação proposto por Bobbio. A Constituição brasileira parte da ideia de igualdade e não da discriminação, especificada no artigo que trata dos direitos e das garantias. Uma das especificações é a do crime da prática do racismo, no qual se enquadrava o crime de Ellwanger. Também afirmei que o Brasil incorporou textos de Direito Internacional e entre os mais importantes está a Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 1965, onde a tipificação do crime da prática do racismo está perfeitamente compatível com a condenação de Ellwanger. Portanto, haveria aí um ingrediente adicional para a interpretação do texto brasileiro. Terminava mencionando um discurso que Bobbio fizera em 1960, na sinagoga de Turim, perante a comunidade judaica e na condição de não judeu, em que discute o significado do holocausto e do racismo antissemita. Afirmava que o racismo era lamentável e que sua pior forma tinha sido o antissemitismo comandado pelos nazistas. Caberia aos homens de boa vontade, independentemente de suas divergências, fazer um pacto para evitar que essas coisas se repetissem. Esse discurso está mencionado na parte três do livro, nos artigos Bobbio e o Holocausto: um capítulo de sua reflexão sobre os direitos humanos e Bobbio e o Holocausto – uma aproximação com Hannah Arendt, publicado na Revista USP. Como os ministros do STF são juristas qualificados e conhecem a obra de Bobbio no âmbito jurídico, o impacto da clareza do argumento dele teve ressonância. Ellwanger foi condenado por racismo por maioria de sete a três e a maior parte dos juízes citou Bobbio nos votos.

Agência FAPESP – Bobbio se dizia socialista-liberal. Para um ouvido leigo, socialismo e liberalismo são antagônicos. Como ele fazia essa conciliação?

Lafer – Bobbio segue uma tradição italiana importante, começando por estudiosos italianos, assassinados pelo fascismo, os irmãos Rosselli. Carlo Rosselli – fundador do movimento Giustizia e Libertá, assassinado em 1937 –, em seu livro Socialismo Liberal, argumentava que a soma das aspirações de igualdade do socialismo com o empenho na liberdade do liberalismo apontavam um caminho, uma orientação. Bobbio se sentiu próximo dessa visão. A edição italiana do Socialismo Liberal traz um prefácio do Bobbio, reproduzido na edição brasileira, e é muito interessante.

Agência FAPESP – Como foi a relação dele com as ideias de Palmiro Togliatti, Antonio Gramsci e Enrico Berlinguer, líderes históricos do Partido Comunista Italiano?

Lafer – Bobbio era um bom estudioso da obra do Gramsci e dialogou muito com os comunistas. Fez de sua relação com o Partido Comunista Italiano um diálogo com, e não uma prédica contra. Entendia que o PCI não estava levando em conta os valores da liberdade. No livro Política e Cultura, dos anos 1950, debate com os comunistas italianos e acaba terminando num diálogo com Togliatti. Isso mostra como os comunistas italianos sempre foram mais abertos para a discussão desses grandes temas. Creio que Bobbio brigou com os comunistas porque entendia que a defesa da liberdade não era levada em conta na experiência do comunismo na URSS [União das Repúblicas Socialistas Soviéticas]. Quale Socialismo? Discussione di um´alternativa, dos anos 1970, também é um livro de polêmica. Bobbio diz que há duas perguntas que vêm dos clássicos, mais precisamente de Aristóteles: quem governa? – um, poucos e muitos – e como governa? – bem ou mal, distinção que Aristóteles faz entre monarquia e tirania e entre oligarquia e aristocracia. Para ele, a reflexão da esquerda comunista parte do princípio de que, se o proletariado e o partido – que seriam o “muitos” – governarem, automaticamente governarão bem porque são a classe universal. O argumento central de Bobbio é que não se resolve o como se governa com o quem governa. É preciso levar em conta as instituições. A contribuição que a esquerda deu à Teoria Política é a Teoria do Partido: o partido de massas, que provém da 2ª Internacional [Internacional Socialista, 1889-1916], e o partido de vanguarda, de inspiração leninista. Mas não há nada em matéria de reflexão sobre o Estado e instituições. Quando caiu o Muro de Berlim e desapareceu a URSS, Bobbio escreveu L´utopia capovolta e Esquerda e Direita, dois livros com imensa repercussão. Dizia que, só porque o fim do socialismo real aconteceu, os problemas da igualdade e da pobreza não estavam resolvidos. Não dava, portanto, para eliminar a preocupação com a igualdade.

Agência FAPESP – Bobbio acompanhou atentamente o Movimento de 1968. O que o preocupava?

Lafer – Ele olhou para 1968 com muito interesse porque aquilo representou uma mudança na sociedade italiana e em suas aspirações. O que o impressionou naquele momento foi o capítulo da violência. Na experiência italiana, a violência era a prática do fascismo. Bobbio preocupou-se ao ver como a violência – o maoísmo e as brigadas vermelhas, por exemplo – estava ocupando um espaço crescente na esquerda. Dizia que o único salto qualitativo possível – mas não necessário – da convivência coletiva é a passagem do reino da violência para o reino da não violência, para um mundo regido por normas e pelo Direito. Não foi crítico de formas mais intensas de participação como parte da organização das vozes da vida democrática, mas ele não via a democracia direta substituindo, nas sociedades modernas de massa, o potencial de contribuição da democracia representativa. Ou seja, ele vê nos mecanismos da democracia direta uma forma de aprimorar a democracia representativa e não de substituí-la.

Agência FAPESP – Na defesa da não violência ele também faz um elogio à tolerância, não é?
Lafer – Bobbio dá diversas razões para a tolerância. A questão da tolerância surgiu na Europa e no mundo ocidental com o problema da divisão do mundo cristão entre católicos e protestantes. Aparece, primeiro, como liberdade religiosa, o que não era um problema simples, já que conciliava verdades tidas como contrapostas pelos seguidores. Desenvolveu-se mais adiante com as liberdades políticas, que são a base da democracia. A questão era: como se convive com visões e verdades políticas distintas? Bobbio diz que há várias razões para a tolerância, para a afirmação do valor da tolerância, e uma delas é o respeito pelo outro. E, finalmente, há também um problema prático: ou se tolera e assim se convive, ou se persegue. Não há um terceiro caminho. Ele complementa dizendo que há uma razão mais profunda: a realidade é ontologicamente complexa e a tolerância é a expressão, no plano do conhecimento e da vida política, de que o mundo é complexo e de que é preciso lidar com isso. Diz ainda: a tolerância surgiu no mundo como uma maneira de lidar com opiniões e verdades diferentes e, hoje, o grande desafio é como conviver com os diferentes, com as minorias, com o outro que é diferente, e esse é o tema da xenofobia, do preconceito racial ou sexual, é o tema desse mundo multicultural e multidiverso.

Agência FAPESP – Em seu último livro, O Tempo da Memória, Bobbio fala do significado da velhice no mundo contemporâneo. Como ele trata esse tema?

Lafer – Nesse ensaio ele trata da experiência de ser velho. Diz que a velhice passou a ser um problema para o mundo moderno, o que não acontecia quando Cícero escreveu De Senectute. As pessoas vivem mais e vivem mais como velhos. E o que é viver como velho? Bobbio tem imagens muito límpidas: o velho desce a escada e sabe que não há volta, e sabe também que o número de degraus é cada vez menor. Uma coisa é o movimento solene dos cardeais na procissão, mas o velho anda devagar porque não consegue andar de outra forma. São reflexões muito interessantes.

Agência FAPESP – O senhor é considerado padrinho de um “casamento” muito desejado pela comunidade acadêmica: o de Hannah Arendt com Norberto Bobbio, ao articular o Centro de Estudos Hannah Arendt, recentemente inaugurado, com o Instituto Norberto Bobbio. Os dois filósofos algum dia se encontraram de fato?

Lafer – Nunca se conheceram nem se encontraram. Acho que Hannah nunca leu nada de Bobbio. Creio que Bobbio tinha bem mais informações sobre ela, mas nunca escreveu sobre Arendt. Em A Era dos Direitos, ele cita meu livro sobre Hannah Arendt, em que trato da questão dos Direitos Humanos em sua obra. A mesma sensibilidade de geração os aproxima: ambos lidaram com a era dos extremos e se preocuparam com o que ela significou. Têm temas em comum e, no ensaio sobre Bobbio e o Holocausto, faço uma aproximação entre a noção do mal em Hannah Arendt e em Bobbio. Os meus alunos brincavam que eu gostaria de ter casado os dois e que, agora que eles morreram, estou fazendo essa aproximação. Eles pensam de maneira diferente, mas leram os autores fundamentais – Hobbes, Marx, entre outros – e se relacionam com eles, o que cria vários potenciais de aproximação.

Fonte: Agência FAPESP

sábado, 24 de agosto de 2013

Em nome da razão tolerante (Celso Lafer)




Celso Lafer: "Ao fazer a defesa da permanência da dicotomia liberdade e igualdade, Bobbio mostra que a diferença entre esquerda e direita continua sendo um tema da agenda política"

Por Adauri Antunes

"Não conheço ninguém que tenha escrito com tanta clareza sobre temas complexos e sem fazer nenhum tipo de simplificação." Bastariam essas poucas palavras para definir a admiração de Celso Lafer pela obra de Norberto Bobbio (1909-2004), objeto antigo de sua atenção e estudo, ela mesma e nas interseções com os campos de sua própria vivência intelectual, no direito, na ciência política e nas relações internacionais. No livro que agora chega às livrarias - "Norberto Bobbio: Trajetória e Obra" -, o ex-ministro de Relações Exteriores e da Indústria e do Comércio e atual presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo explica e interpreta as ideias de Bobbio em 16 textos, publicados entre 1980 e 2011. São ensaios que aproximam o leitor daquela competência única do filósofo e pensador político italiano, e que mostram a atualidade de suas análises, nas quais faz uma homenagem permanente ao uso da razão e da tolerância - religiosa e de opinião, particularmente. Preso por manifestar inconformismo com o regime de Mussolini, negação de toda a essência de suas convicções, Bobbio experimentou, e incorporou aos seus escritos, o significado da "fúria dos extremos", nos quais identificava a glorificação da violência - "que é, infelizmente, um dado que permeia a realidade contemporânea", como disse Lafer em entrevista ao Valor.

Valor: Temos um governo que se diz de esquerda, com alianças à direita, enquanto muitos defendem que esquerda e direita não existem mais. Como interpretar esse fato à luz de Bobbio?

Celso Lafer: Bobbio escreveu um livro muito importante chamado "Esquerda e Direita". Ele polemizou com os comunistas na década de 1950, com o livro "Política e Cultura", para fazer a defesa das liberdades, contra sua dissolução diante das aspirações maiores da igualdade. Depois, polemizou novamente com a esquerda no livro "Qual Socialismo?", inclusive com a esquerda extraparlamentar e violenta da Itália, das Brigadas Vermelhas. O "Esquerda e Direita" é um livro de polêmica com aquilo que foi a onda e a maré montante da visão das coisas depois da queda do Muro de Berlim.

Valor: Bobbio era de esquerda ou de direita?

Lafer: Bobbio sempre se dizia um socialista liberal, o que às vezes parece uma contradição. Ao fazer a defesa da permanência da dicotomia liberdade e igualdade, ele mostra que a diferença entre esquerda e direita continua sendo um tema da agenda política. E diz: uma perspectiva de direita é aquela que realça a diferença entre as pessoas; uma perspectiva de esquerda realça aquilo que as pessoas têm em comum. Não devo ignorar o fato de as pessoas terem diferenças, mas não posso fazer com que isso suprima a estrela polar, como ele diz, sobre o valor da igualdade.

Valor: E no Brasil?

Lafer: O Brasil não tem nenhuma direita assumida. Ao contrário, por exemplo, da França, onde Le Pen é uma expressão clara disso. Ou na Itália, onde o horror de Bobbio, e uma das últimas batalhas dele, foi contra Berlusconi e o que representava o 'berlusconismo'. O que caracteriza, talvez, a situação brasileira, é um pouco o que diz o presidente Fernando Henrique: é o conservadorismo e o atraso, que é como a direita se configura no Brasil.

Valor: Seria essa então - conservadorismo e atraso - a grande diferença da direita brasileira?

Lafer: Como diz Fernando Henrique, isso perpassa a sociedade como um todo. Inclusive, aqueles que se consideram de esquerda. É um pouco o capítulo da identidade. Você tem um tipo de identidade coletiva e um tipo de identidade individual. A identidade coletiva se faz pela semelhança, uma visão comum de como se chegar a alguma coisa em torno do bem comum. Em tese, um partido representa uma identidade coletiva. E a identidade individual se faz pela diferença, o que há de específico. Apliquei essa reflexão para a trajetória de Bobbio, dizendo que, do ponto de vista de sua presença no cenário político italiano e internacional, ele é um homem de esquerda. Dentro das diversas correntes de esquerda, e ele advoga a ideia de pluralismo, cabe-lhe essa identidade socialista liberal que, se é indutora de contradições pela própria formulação, tem uma lógica de complementaridade que leva a enxergar melhor as coisas.

Valor: Como integrante da resistência contra o fascismo, Bobbio discutiu a "fúria dos extremos". Pode-se dizer isso também da violência contemporânea?

Lafer: Um dos componentes desses extremos é a glorificação da violência. "O sangue regenerador dos povos" é uma frase que aparece nos textos dos fascistas italianos e que está presente hoje na violência. A violência é um dado que permeia a realidade contemporânea. Um segundo componente dessa fúria dos extremos é a ideia de que você dissolve o indivíduo no todo. O lema do nazismo era "você não é nada, seu povo é tudo". Essa era a desqualificação totalitária do papel do ser humano e da sua dignidade própria. Se você olha hoje para o fundamentalismo religioso, um dado do mundo contemporâneo, você também dissolve o indivíduo no todo desses movimentos.

Valor: É possível ver hoje quem são os "fanáticos" que Bobbio apontava na "fúria dos extremos"?

Lafer: Esse é um ponto forte de Bobbio, no ensaio "As Razões da Tolerância", no qual discute porque devo tolerar. Portanto, o que faço com os fanáticos, os intolerantes? O capítulo das razões da tolerância começa com o tema religioso. Como um homem de convicções profundas de natureza religiosa aceita uma verdade religiosa diferente daquela na qual ele acredita? A primeira dimensão da noção de tolerância, que é importante para um Estado laico, um Estado de direito, para os direitos humanos, é a ideia da liberdade religiosa. A ideia de que está na esfera da pessoa a sua escolha religiosa. A segunda dimensão da tolerância é a liberdade de pensamento, de opinião. Você aceitar que o outro tenha algo a dizer e que devo escutar o que essa pessoa tem a dizer, é uma ideia que está ligada à construção das regras do jogo democrático. Depois, diz Bobbio, há uma outra razão para a tolerância, de ordem prática: ou perseguição ou tolerância. A terceira alternativa não existe. Há, kantianamente, uma razão de ordem prática de convivência, que me leva à tolerância e a me opor aos fanatismos. Finalmente, a razão mais profunda, que permeia as convicções de Bobbio, é a de que a realidade é ontologicamente complexa, essencialmente complexa, e é plural. Portanto, a tolerância é uma maneira de eu lidar com essa diversidade plural da realidade.

Valor: Bobbio também fala sobre aqueles que se opõem a essa tolerância.

Lafer: Ele diz que tolerância pode também significar falta de rigor. Você tolera porque não tem rigor moral. Casa de tolerância, para usar uma linguagem antiga, também exprime essa noção de laxismo moral. Bobbio defende, enfim, o rigor de uma ética laica que permita afastar da noção que ele defende de tolerância qualquer flexibilidade de falta de princípios, ou uma flexibilidade oriunda de uma falta de princípios.

Valor: Há uma qualidade, na obra de Bobbio, para a qual o senhor chama a atenção, que é a clareza diante das complexidades.

Lafer: Há em Bobbio uma clareza inexcedível. Não conheço ninguém que tenha escrito com tanta clareza sobre temas complexos, e sem fazer nenhum tipo de simplificação. Uma das razões pelas quais acho que a obra de Bobbio é de impacto é essa clareza e a maneira pela qual ele elucida problemas complicados. E uma das maneiras pelas quais ele elucida é uma espécie de grande arte combinatória. Ele vai combinando: esquerda, direita; liberdade, igualdade; governo das leis, governo dos homens; governo visível, governo invisível; estrutura, função; público, privado; guerra, paz. Ele se vale dessas dicotomias para lidar com essa realidade ontologicamente complexa. E com isso vai iluminando e esclarecendo as coisas.

Valor: O mundo contemporâneo parece não admirar muito uma qualidade como a "clareza".

Lafer: Você tem toda razão. Alguns querem as trevas. Bobbio é um grande escritor. Você lê sua obra e sente a força de uma grande clareza. Bobbio diz: "As luzes da razão podem ser mais fracas, mas são as únicas das quais dispomos". É nisso que ele se empenha, é a aposta dele. E a minha também.

Fonte: Valor – EU&FIM DE SEMANA