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quinta-feira, 9 de abril de 2020

“Os profetas do neoliberalismo viraram promotores da economia social. É preciso voltar aos imperativos sociais” (Bertrand Badie )

Um dos maiores especialistas em relações internacionais, Bertrand Badie afirma que a crise desatada pela Covid-19 está evidenciando de forma dolorosa a verdadeira face da globalização
Carla Mascia/El País
Que um vírus originado em um mercado de Wuhan tenha se espalhado pelos cinco continentes em apenas algumas semanas, causando uma das crises sanitárias mais graves da história da humanidade não surpreende Bertrand Badie, um dos maiores especialistas franceses da globalização. O cientista político de 69 anos, professor emérito no Science Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris) e pesquisador associado ao Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais (CERI), há décadas defende que a ação individual de um dos 6 bilhões de habitantes do planeta pode ser mais importante do que a decisão de qualquer Governo. Em um “mundo único” em que as fronteiras já não impedem que o que acontece em um país tenha efeitos imediatos nos outros, onde a interdependência entre os diferentes setores de atividade humana jamais havia sido tão importante e a mobilidade, tanto humana como de mercadorias, tão veloz, “um aperto de mãos em Wuhan” pode colocar em xeque toda a humanidade, afirma. Por isso, o autor do recente ensaio L’Hégémonie Contestée acha que a crise atual precisa abrir nossos olhos para a importância da dimensão social da mundialização, abandonando o dogma neoliberal que se limita a conceber o ser humano como um simples ator econômico para abraçar um multilateralismo inclusivo.
Pergunta. Acha que a pandemia do coronavírus revelou o verdadeiro rosto da globalização?
Resposta. Penso que, até essa crise, a opinião pública e, o que é ainda mais surpreendente, os dirigentes dos diferentes países do mundo ignoravam e pretendiam ignorar o que esse fenômeno realmente significa. A mundialização muda profundamente o próprio significado da alteridade. O outro, em nosso antigo sistema westfaliano, era o inimigo potencial; depois, com o livre comércio e a aceleração das trocas comerciais, o outro se transformou em um competidor, um rival, e não vimos que, no plano social, estava sendo criada outra definição de alteridade, em que o outro era um parceiro cujo destino está profundamente ligado ao nosso. Isso significa que entramos em mundo que já não é o da hostilidade e da competição, e sim necessariamente o da solidariedade, porque agora se quero sobreviver e, ainda mais, ganhar, preciso me assegurar de que o outro sobreviva e que o outro ganhe, e temos muita dificuldade em admitir isso. Essa dificuldade nos levou nesse contexto de crise a escutar idiotices como “é um vírus chinês” e “o vírus é um inimigo do povo americano”, como afirmou o presidente dos Estados Unidos. Donald Trump não entendeu que o verdadeiro significado da mundialização está na criação de necessidades de integração social que devemos satisfazer urgentemente, do contrário nos encaminharemos ao desastre.
P. O senhor defende que é a fraqueza, e não a força, que rege o mundo globalizado em que vivemos. A que se refere?
R. Em um mundo inclusivo, interdependente e móvel, é o fraco que decide enquanto o poderoso está perpetuamente em uma posição reativa e defensiva. Devemos levar muito a sério as novas necessidades de segurança humana já que dos segmentos de população mais inseguros, frágeis em termos de saúde, economia, alimentação e condições climáticas, vem necessariamente o risco mais agudo da crise. Não devemos nos esquecer que esse vírus nasceu em um mercado de Wuhan caracterizado por uma grande precariedade sanitária. A vulnerabilidade de nossas sociedades extraordinariamente sofisticadas é, em última instância, bem alta. Entramos em um mundo invertido em que a lógica da fraqueza é a lei. Isso se observa em outros conflitos que ameaçam o planeta como o Sahel, Oriente Médio, a bacia do Congo e o Chifre da África, que continuam sendo áreas de grande fraqueza e que, de certo modo, conformam a agenda internacional.
P. Por que os Estados continuam priorizando o investimento militar para garantir sua segurança, sem se preocupar com os focos de vulnerabilidade que o senhor menciona?
R. Vivemos durante séculos e séculos com a ideia de que o que nos ameaça e causa nossa insegurança é de natureza militar e interestatal. No mundo de hoje gasta-se por volta de dois trilhões de dólares (10 trilhões de reais) em orçamento militar. Precisamos admitir que essa competição só adula a arrogância dos Estados e não tem nenhuma eficácia em termos humanos. O Programa das Nações Unidas ao Desenvolvimento deixou claro em um relatório de 1994 que a principal ameaça ao mundo era a humana, a alimentar, a sanitária, a ambiental, entre outras, e ninguém, nenhum líder do planeta levou a sério essa advertência, seguindo os incertos caminhos do investimento militar. Se pelo menos essa crise servir para que os dirigentes que até agora não estavam à altura de sua responsabilidade, e que não quiseram ver o que estava diante de seus olhos, levem a sério, então terá servido para algo.
P. O que lhe inspira a guinada keynesiana que de repente impregna o discurso de alguns políticos mais conhecidos por sua orientação liberal como Donald Trump e Emmanuel Macron?
R. É preciso lembrar que o social foi assassinado pelo neoliberalismo e relegado a um mero efeito de goteira. A famosa fórmula tão elogiada pelo Banco Mundial de que “o crescimento é bom para os pobres” porque acabarão se beneficiando de seus efeitos, reflete a maneira como o social foi concebido nos últimos 30 anos. Se hoje os profetas do neoliberalismo estão se transformando em promotores da economia social é porque concebem, diante da catástrofe atual, que já não será possível fazer o mesmo que antes e que será necessário voltar aos imperativos sociais.
P. Acha que essa mudança social será duradoura?
R. É muito cedo para saber se irá se manter após a crise ou se as velhas práticas voltarão. Há um sinal de otimismo, entretanto, no fato de que o novo foco dessa direita que se confundia com o ultraliberalismo, responsável pelo desmantelamento dos serviços públicos, foi anterior à crise sanitária. O ano de 2019 foi extremamente turbulento com a proliferação de movimentos sociais em todo o mundo e isso teve consequências. A prova disso é, por exemplo, o tom social adotado por Boris Johnson no Reino Unido durante as últimas eleições legislativas. A ideia de investir em questões sociais praticamente se transformou no slogan do Partido Conservador Britânico. Acho que isso significa que essa redescoberta do social não depende totalmente do medo ao coronavírus, há algo mais, e isso me faz pensar que, aconteça o que acontecer, nunca voltará a ser o mesmo.
P. A União Europeia está sendo muito criticada por sua incapacidade de proporcionar uma solução comum contra a pandemia da Covid-19...
R. Essa é, de fato, a grande decepção dessa crise, e talvez o ponto mais obscuro. A Europa esteve até agora, e quero ser muito cuidadoso com minha formulação, em um nível zero de integração. Ou seja, uma incapacidade total, não digo parcial, para dar uma resposta integrada a uma crise que, comparada com todas as que enfrentamos, é exatamente a que precisa de mais solidariedade. Esse fracasso pôde ser observado tanto no plano sanitário, com a ausência de coordenação entre Estados membros —cada Estado faz do seu jeito e frequentemente de maneira contraditória—, como econômico, com um BCE (Banco Central Europeu) cuja primeira ação foi totalmente desastrosa e causou uma espécie de quebra nas Bolsas que poderia ter sido ainda mais considerável.
P. Christine Lagarde corrigiu isso ligeiramente depois, concorda?
R. É verdade que existiu uma pequena inflexão, em ritmo forçado, mas a verdade é que continuamos sem ter acordo sobre os Eurobônus (ou coronabônus), no meu entendimento, a maior expressão do que se pode fazer juntos para enfrentar a crise financeira que se aproxima no horizonte. O problema é que ainda que consigamos chegar a uma solução comum, o dano já está feito. Estamos vendo o verdadeiro rosto da União Europeia e suas lacunas no plano da solidariedade. Outro aspecto com o qual precisamos nos preocupar é por que não importa qual seja a questão na UE, encontramos essa distância entre o norte e o sul? E isso desde Maastricht. Acabará tendo efeitos catastróficos e podemos até nos perguntar se algum dia acabaremos por ter duas Europas.
P. O que resta da governança global diante da retomada soberanista que estamos vendo nos últimos anos?
R. A inoperância da Europa é um reflexo do fracasso da governança mundial. A ação da OMS se reduz a ler todas as noites um comunicado em um inglês aproximado para pedir aos Estados que façam alguma coisa, o que é verdadeiramente desastroso quando a OMS deveria ter sido a task force no assunto, o órgão que coordena as políticas de saúde, que organiza a ajuda técnica e médica e, principalmente, que produz normas. O grande perigo é justamente a falta de padrões comuns, e que cada país continue operando por sua conta e à sua maneira.
P. A solução para sair dessa crise está, de acordo com o senhor, em mais multilateralismo e decisões comuns. O mundo atual, entretanto, está cheio de líderes nacionalistas, de Trump, passando por Bolsonaro, a Johnson. É paradoxal, não acha?
R. Acho que podemos dizer que os planetas nunca estiveram tão mal alinhados. Há uma necessidade de governança local como nunca em nossa história, e ao mesmo tempo um auge de nacionalismo que não havia sido visto até agora. Ambos são inconciliáveis. De modo que a única razão à esperança é que o nacionalismo é uma ideologia vazia que não tem nada a oferecer. Todas as tentativas de gestão estritamente nacional da crise falharam. Líderes como Johnson, Trump e até Bolsonaro, que partiram de premissas nacionalistas, e negacionistas, precisaram mudar seu discurso, cada um a sua maneira. Além disso, o desprezo desses políticos liberais pelos desafios sanitários nos leva a outro ponto essencial que abordei no ensaio L´impuissance de la Puissance, que é a flagrante impotência de um país como os Estados Unidos diante dessa pandemia. A evolução da crise nos EUA é aterrorizante e em parte se deve a essa concepção herdada da Escola de Chicago de total cegueira diante das ameaças e dramas coletivos.
P. Há outras grandes ameaças, como a mudança climática, que requerem uma ação conjunta a curto prazo. Acha que o coronavírus mudará a mentalidade dos políticos mais céticos sobre a necessidade de investir recursos antes que não se possa mais voltar atrás?
R. Logicamente, esse raciocínio é imparável. Humanamente já é diferente e politicamente, ainda mais. Humanamente, é difícil olhar os dois objetivos ao mesmo tempo ainda que estejam muito ligados, mas politicamente, o fato de que a luta contra o aquecimento global signifique gastos, esforços, sacrifícios a curto prazo para se ter conquistas a longo prazo transforma esse investimento em algo politicamente suspeito. Após essa crise, os Estados terão que investir muito para reconstruir a economia global. Aceitaremos gastar e investir muito pelo clima, ou seja, acrescentar gastos aos gastos? Sou bem pessimista.
P. Sairá algo bom dessa crise?
R. Sempre há esperança. O próprio de uma crise, aumentar o medo, é o que permite o desenvolvimento da criatividade humana e social. A crise econômica de 1929 que levou os nacionalistas a vencer nas urnas, também inventou o keynesianismo e permitiu que a economia nacional se revitalizasse até a vingança do neoliberalismo nos anos oitenta. Também foram as grandes guerras, e as mais mortíferas, que trouxeram, pelo menos na Europa, invenções absolutamente extraordinárias e que por fim permitiram a resolução de problemas que não poderiam ser resolvidos em contextos de paz e mobilização. Quanto mais forte essa crise for, portanto, mais romperá os esquemas e os círculos viciosos e por isso acho que algo positivo pode sair dela. Quando, como e por quê, não sabemos.
08/04/2020

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A quarta onda do populismo ( Bertrand Badie/entrevista)

Os ex-alunos de Bertrand Badie são onipresentes no Quai d'Orsay, a maneira como os íntimos tratam o Ministério das Relações Exteriores da França. Alguns estão em postos com altas responsabilidades políticas e muitos foram parar nas redações de jornais ou em influentes "think tanks" da Europa. Especialista em relações internacionais, professor-estrela do Instituto de Estudos Políticos de Paris, a prestigiada Sciences Po, Badie tem uma dúzia de livros escritos e dirige há dez anos uma obra coletiva em que anualmente intelectuais fazem um diagnóstico sobre o estado do mundo. "A volta dos populismos" foi a capa de "L'Etat du Monde 2019", tema considerado por todos como o grande fenômeno político da atualidade.
"Pela primeira vez na história do mundo, tantos e tão diferentes países vivem um mesmo fenômeno político. É único, o populismo tornou-se quase universal", diz Badie, de 68 anos. Na análise do professor, são populistas o presidente dos EUA, Donald Trump, assim como o da Rússia, Vladimir Putin, e o brasileiro Jair Bolsonaro. Também o são os governos escandinavos, da Itália e das Filipinas. E ainda estão nessa lista, por exemplo, o partido de esquerda La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon, assim como o de extrema-direita Rassemblement National (ex- Front National), de Marine Le Pen.
O populismo, explica Badie, é uma onda que vai e volta desde o século XIX: estamos agora vivendo a quarta dessas vagas; a mais dramática foi entre as duas guerras mundiais, com o aparecimento do fascismo e do nazismo. "O populismo não descreve nem um regime nem uma doutrina, mas uma situação de crise profunda, de falta de confiança entre o povo e suas instituições", diz o professor.
Filho de imigrantes persas - ele se recusa a dizer Irã -, Badie jamais voltou ao país de seus pais depois da revolução dos aiatolás. Formado politicamente nos protestos de Maio de 68, ele agora vê aparecer nos protestos, pela primeira vez, a bandeira francesa, empunhada ao som da "La Marseillaise". "Esta é a marca dos protestos dos coletes amarelos. Para nós, é profundamente novo isso. Há um século, quando há contestação social, é sempre empunhada a bandeira vermelha, e não a tricolor [azul, vermelha e branco]. É sempre ao som da 'Internacional', e jamais ao da 'Marseillaise'. Isso mostra a ruptura muito profunda. É a direitização da contestação social", constata.
O movimento dos coletes amarelos, cuja base é a classe média baixa do interior da França, há três meses faz manifestações todos os sábados contra o governo Macron e as elites globalizadas.
Valor: A volta dos populismos é o fenômeno mais importante de 2019? Ou da próxima década?
Bertrand Badie: Pela primeira vez na história do mundo, um fenômeno político atinge ao mesmo tempo países tão diferentes quanto Estados Unidos, os da Europa Ocidental, o Brasil, a Turquia, muitos países do Norte, do Sul, do Leste e Oeste. É uma coisa única, um fenômeno quase universal. Estamos na quarta etapa do populismo: a história do mundo é ritmada por sequências populistas, a primeira no fim do século XIX, a segunda entre as duas guerras, a terceira em alguns países do Sul depois da Segunda Guerra Mundial [1939-1945], e agora estamos na quarta fase, ou seja, tem também um elemento histórico. O populismo traz uma contradição extremamente forte com a globalização - populismo e globalização são como a água e o fogo, uma contradição que pode prejudicar a globalização e levar o populismo a um impasse, ou seja, a uma incapacidade de gerir a política.
Valor: Os populismos trazem junto o crescimento do nacionalismo e da extrema-direita ao redor do mundo, certo?
Badie: Exato. A ligação é íntima. A esquerda não soube oferecer uma perspectiva moderna sobre a globalização. Então, todo o debate foi levado entre uma direita globalizada e liberal versus uma direita nacionalista e hostil à globalização. A esquerda, quase em todos os lugares do mundo, ficou fora da corrida
Valor: Quais são as características comuns a todos esses governos populistas? Eles são muito diferentes, não?
Badie: Sim, porque populismo não descreve nem um regime nem uma doutrina, mas uma situação de crise, de falta de confiança entre o povo e suas instituições. Essa situação leva a métodos de mobilização idênticos, tem sempre a personalização da liderança política, a mobilização da população e uma forte estratégia de comunicação de massa. Mas, depois disso, as fórmulas são enormemente diferentes. No mundo ocidental, vemos poucos populismos de esquerda, como por exemplo o France Insoumise e alguns partidos na Escandinávia. Mas a maioria deles é de direita, muito liberais, como o do presidente Jair Bolsonaro ou como o governo da Áustria, liderado por um partido populista que é ultraliberal. Ou Trump nos Estados Unidos. Além disso, vemos populismos que aceitam o jogo democrático e outros extremamente autoritários, como Vladimir Putin, na Rússia, e Erdogan, na Turquia. Mas todos eles têm em comum o fato de exagerar o peso da nação no contexto da globalização.
Valor: O senhor acha que o populismo é um risco para os valores democráticos?
Badie: Incontestavelmente. A raiz do populismo é uma desconfiança em relação às instituições, o que se traduz em uma marginalização das instituições da democracia a favor do que chamamos de democracia direta, uma ligação direta entre o povo e o líder. Efetivamente isso se traduz, em todos os lugares, por um desprezo pelo parlamento, uma hostilidade contra as mídias, acusadas sempre de complô. É só olhar os EUA, onde Trump está sempre em guerra com o Congresso e a CNN ou o "Washington Post". Essa atitude contra as instituições cria prejuízos à democracia, já que ela só existe por meio do respeito às instituições.
Valor: Além dos EUA, em que países o senhor está pensando ao dizer isso?
Badie: É preciso ser honesto. Muitos desses governos chegaram ao poder com eleições. Na Itália ninguém pode contestar o processo pelo qual [os vice-primeiros-ministros] Matteo Salvini e Luigi Di Maio chegaram ao poder, a partir de um respeito à democracia. Mas é próprio dos populismos considerar o povo e a nação como bens superiores; a democracia é vista como um valor secundário. Os populistas não respeitam a gramática democrática, isso é verdade em todos os lugares, seja na Rússia de Putin, seja no Brasil atualmente. Mas é preciso diferenciar entre os que chegaram ao poder democraticamente e os que usaram a força e a pressão para isso.
Valor: O senhor atribui essa virada populista à crise econômica de 2008 ou a algo mais profundo, como a uma crise de civilização?
Badie: Não gosto da expressão "crise de civilização", é imprecisa. O afastamento entre o povo e as instituições é causado pelo sentimento de que elas são ineficazes porque não funcionam democraticamente ou porque são incapazes de proteger o cidadão. É um fenômeno novo que se traduz numa crítica global às elites, às instituições e aos políticos. Na base de todo populismo existe sempre o mesmo fator essencial, o medo. Estamos com medo e achamos que as instituições não são mais capazes de nos proteger. O medo nessa quarta onda populista é o medo da globalização, que se traduz pelo medo da crise econômica, da insegurança econômica, mas também o medo de perder a soberania nacional, o medo do estrangeiro e da imigração, o medo das grandes empresas multinacionais. É a situação de medo do estrangeiro.
Valor: É uma espécie de nova utopia que está sendo criada? É possível conjugar um país fechado ao "estrangeiro" com as tecnologias digitais?
Badie: É pior que uma utopia. A força da utopia é a invenção de um modelo novo - as grandes utopias do século XIX permitiram a invenção do liberalismo, do socialismo e do comunismo. Agora não é uma utopia, é uma utopia regressiva, que não produz o futuro e tenta se proteger através de uma negação do real e de uma volta ao passado, o que é impossível. É mais uma patologia do que uma utopia. Essa tentativa de gerir o medo através de uma volta ao passado torna esses governos incapazes de gerir a atualidade e se inserir na globalização. Trata-se de uma patologia que agrava a crise em vez de resolvê-la. E vemos bem como a Itália está se afundando numa crise econômica perigosa e, como os EUA quando saem dos acordos multilaterais, se isola cada vez mais do mundo e perde sua capacidade hegemônica. Vemos como o Reino Unido está perdendo suas vantagens no plano mundial por causa do Brexit, outra demonstração de populismo.
Valor: A maioria desses governos populistas é bem recente. Como prevê os próximos movimentos?
Badie: Vejo uma década de muitas dificuldades, o mundo vai pagar caro por essa patologia populista. Mas, a meu ver, ao fim de dez anos, os populistas terão esgotado a sua capacidade política.
Valor: A Europa vive uma fase de grande instabilidade política. Na França, por exemplo, os coletes amarelos estão fazendo balançar o governo Macron. É uma repetição do Maio de 68 com sinais trocados?
Badie: É totalmente diferente, Maio de 68 era a entrada na globalização, era a primeira construção da globalização na França, na Itália, na Alemanha. Havia uma mobilização contra a Guerra do Vietnã, a favor da Palestina; os ídolos eram Mao Tsé-tung e Che Guevara. Era também um movimento progressista, o grande momento da liberação dos comportamentos, da condenação de todos os conservadorismos sobre o aborto, a homossexualidade. Os coletes amarelos são muito conservadores do ponto de vista social, hostis à globalização e à imigração, assim como ao casamento gay, hostis à liberação de costumes.
Valor: Vi um dos coletes amarelos dizer diante do ministro do Meio Ambiente que ele estava preocupado com o fim do mês e o ministro, com o fim do mundo. Como reconciliar esses mundos?
Badie: Esse é um outro aspecto: o pensamento e a política neoliberal deixaram de lado a questão social e favoreceram a questão econômica. Subestimamos a força da ideia de progresso social com que a sociedade europeia foi construída. E, de repente, tornou-se dominante a ideia de que o progresso social viria com o enriquecimento dos mais fortes e mais ricos. Isso criou uma crise social profunda que não se estava percebendo. É preciso repensar a economia de uma maneira social.
Valor: Que marca os coletes amarelos deixarão no governo Macron?
Badie: Ainda é cedo para saber. Eu vejo dois cenários: existe a possibilidade de esse movimento desaparecer e não deixar marcas - isso pode acontecer, já que o movimento é espontâneo, não tem organização nem líderes, e a cada semana são menos 10 mil nas ruas. A outra possibilidade é o governo ser mais atingido do que o previsto e uma crise de verdade instalar-se. A grande incógnita hoje é se o governo Macron conseguirá reagir e governar. Se não, vamos entrar em uma coisa ainda pior, em uma espécie de decomposição do sistema político francês - já não há partido ou líder político forte na França. Esse risco de decomposição política existe, pode vir a acontecer o mesmo que na Itália: com o desaparecimento da democracia cristã e do Partido Comunista, não sobrou nada, e esse vazio foi ocupado por formações extremistas.
Valor: Como Macron acabou com seu capital político em um ano e meio?
Badie: A aposta de Macron foi perigosa: tomar o poder na França sem apoio de um partido político e de um número razoável de homens e mulheres com peso e experiência política. Isso não é possível. Não se pode gerir a sexta economia do mundo a partir de um grupo de amigos e de pessoas que, na sua maioria, não tinha a menor experiência de poder. Nas democracias, quando há crise de autoridade, cabe aos partidos políticos reconstituírem essa autoridade. Macron, quando um ministro sai do governo, precisa de um mês para achar um sucessor. Jamais se viu isso na história francesa. Atualmente, ele está com dificuldades de mostrar que superou a contestação dos coletes amarelos, ele não tem com quem revezar o trabalho de reconectar o governo com a opinião pública. Os deputados que ele elegeu são desconhecidos. Eu, que há 40 anos sou professor de ciência política, não sou capaz de dizer o nome do deputado do meu "arrondissement". São desconhecidos, insignificantes…
Valor: O senhor compara o governo Macron com esse início de governo Bolsonaro?
Badie: Não é a mesma coisa. Bolsonaro é um populista verdadeiro. Macron teve um pequeno lado populista quando criticou os partidos e disse que ia mandar embora a velha classe política, mas ele não tem um projeto populista como Bolsonaro. Macron é a favor da globalização, liberal, muito pouco nacionalista. E, em relação aos costumes, ele não é homofóbico, não é racista, não é machista. Felizmente. O equivalente de Bolsonaro na França é Marine Le Pen.
Valor: Estava fazendo referência ã fragilidade do partido e à falta de experiência administrativa das equipes de Bolsonaro e Macron...
Badie: Desse ponto de vista sim, mas não chamaria de semelhança, porque essa espécie de marginalização de políticos experientes em favor de novatos está praticamente generalizada no mundo. Veja Trump nos EUA ou o governo italiano, totalmente inexperientes. Mesmo no Reino Unido, um país conservador, os vencedores do Brexit eram líderes inexperientes, como Nigel Farage [líder do Ukip na época do plebiscito]. Acontece um pouco em todos os lugares do mundo a chegada de gente sem experiência ao poder. É um fenômeno preocupante.
Valor: Todas as dificuldades enfrentadas pelo Reino Unido depois do Brexit, de alguma maneira, acabaram esvaziando o discurso de políticos contra a União Europeia?
Badie: É uma atitude paradoxal, ninguém mais fala em sair da União Europeia. Le Pen não fala, Salvini não fala, todos os eurocéticos pararam de falar em sair do bloco. Mas ninguém fala também na construção da Europa. A primeira foi a associação de Estados para construir a paz e a própria Europa, exangue após a Segunda Guerra Mundial. Tudo isso foi realizado com sucesso, mas aconteceu há 20 anos. A Europa agora precisa de solidariedade entre as sociedades e isso não avançou nada. A crise da imigração mostrou isso. Compreende-se, portanto, a decepção das pessoas. Não faz o menor sentido perguntar aos britânicos se eles querem ficar dentro ou fora da Europa.
(*) Helena Celestino/Valor Econômico/16 de fevereiro de 2019