Os detentores de maior capital simbólico não estão no palco, mas nos bastidores: Lula, Marina e Fernando Henrique
Os roteiros da sucessão presidencial estão sendo elaborados desde já. Diante das mudanças recentes de circunstâncias, a economia não deverá ocupar sozinha o foco dos roteiros. As campanhas e as narrativas vão ter que operar também no plano simbólico da política: poder simbólico de fazer ver e fazer crer. Estão e estarão em jogo visões de mundo. Produzindo novos discursos políticos. Ao fim e ao cabo, o teor do novo discurso que vai emergir dependerá de lutas simbólicas pelo poder simbólico.
Na economia, a disputa pelas melhores propostas para conservar e ampliar a sensação de bem-estar dos brasileiros e para reconquistar a confiança do empresariado e dos investidores estrangeiros, contendo a piora de percepção do Brasil. No discurso político, a luta simbólica por novas visões de mundo e a disputa pelo poder simbólico de fazer ver e fazer crer para transformar a visão de mundo e a ação sobre o mundo.
Trata-se de ter e conquistar capital simbólico: prestígio acumulado pela representação legítima das aspirações predominantes da sociedade. Os detentores de maior capital simbólico não estão no palco, mas nos bastidores: Lula, Marina e Fernando Henrique. Poderão eles “transferir” capital simbólico para os seus respectivos candidatos?
Para além das propostas racionais no campo da economia, a disputa pelas visões de mundo deverá trazer emoções e subjetividades. Falar para as mentes, mas também para as almas e para o imaginário social dos brasileiros. Reconstituir as narrativas e as mensagens. E demonstrar capacidade de convencimento, ter atitudes críveis, comunicar coragem de mudar, mostrar capacidade de concertação e apontar caminhos para a melhoria da governança do Brasil.
O país chega ao fim de um ciclo de estabilidade e inclusão. Agora é tempo histórico de construir nova Agenda. Qual vai ser? O ano de 2015 já está contratado: ajuste fiscal, qualidade dos serviços públicos, direção do desenvolvimento. Tudo isto resulta em geração de conflitos distributivos, em atingir fortes interesses estabelecidos. Exige muita coragem e, principalmente, muita legitimidade, vale dizer, muito capital simbólico e muito capital social.
Cuidar do pão com manteiga e, ao mesmo tempo, dos sonhos e projetos de vida e de país. No processo político-eleitoral, este ano; e depois, em 2015, na inauguração de novo governo. Novo governo que vai precisar produzir condições de concertação, condições de harmonização de grandes mudanças, muitas delas a serem pactuadas no Congresso, no Executivo, no Pacto Federativo e nos espaços de representação corporativa dos trabalhadores e dos empresários brasileiros.
Novo governo, também, que vai ter o desafio de repactuar e reorganizar as condições objetivas de governança, para possibilitar a melhoria da capacidade de entrega do governo e superar os sérios entraves e “gargalos” do processo decisório e do arcabouço institucional — inclusive a proliferação de órgãos de controle e fiscalização que não conversam entre si e que produzem um cipoal de mecanismos concorrentes e paralelos de controle. Para controlar o Leviatã, produziu-se no Brasil um novo Leviatã.
Os roteiros da sucessão presidencial precisam fazer o Brasil recuperar a confiança em si mesmo. Esta é a luta simbólica que está para ser feita, agora e depois.
Antônio Carlos de Medeiros é cientista político
Fonte: O Globo
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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Sinais de outros tempos (Antônio Medeiros)
(1)
Em Vitória, o mundo político e os meios de comunicação revolvem-se em torno do fim do drama Sheakspeariano que rondava o destino do ex-governador Paulo Hartung. Entre "to be" e "not to be", ele decidiu: "not to be".
Sao sinais de outros tempos. Abatido pela supremacia de novas circunstâncias históricas, alvejado pelas tintas fortes da caneta do presidente do Tribunal de Justiça do estado do Espírito Santo, e enfrentado pela coragem de lideranças políticas como as de Iriny Lopes (PT), Rose de Freitas (PMDB) e, até, o seu aliado histórico Luiz Paulo Vellozo Lucas, Paulo Hartung resolveu não entrar na disputa pela prefeitura de Vitória. Assim como em 2010, quando resolveu não disputar as eleições de 2010 para o Senado da República, no meio das denúncias internacionais sobre o problema das chamadas "masmorras capixabas", em alusão aos problemas de direitos humanos nos presídios do Espírito Santo, agora também, em 2012, o ex-governador parece optar pela defesa da sua biografia.
Sinais de outros tempos. Fim da Era Paulo Hartung. Fim da chamada geopolítica. Emerge o contraditório. Florescem novas lideranças. Ressurgem velhas lideranças. Novo jogo político. Não só em Vitória. "Here, there and everywhere", como na bela canção dos Beatles. E, também, novo jogo eleitoral. No caso de Vitória, jogo com cara de segundo turno.
(2)
No Espírito Santo, os sinais de novos tempos parecem vir da possibilidade de busca do ideal de Montesquieu da independência dos Poderes. O Poder Judiciário já dá mostras de exercício independente das suas prerrogativas e obrigações constitucionais, a julgar pelos atos e atitudes assertivas do Tribunal de Justiça, através do seu novo presidente, desembargador Feu Rosa. O Poder Legislativo também ensaia passos de independência, a julgar pela movimentação do seu novo presidente, deputado estadual Theodorico Ferraço. Ao mesmo tempo, o Poder Executivo estadual assume, através do governador Renato Casagrande, perfil mais democrático e menos imperial.
Sinais de outros tempo. Mas esta possível e (um pouco) inédita independência dos três poderes institucionais regionais parece não estar sendo bem compreendida e, até, não bem aceita em parcelas dos meios de comunicação e da opinião publicada regional. Ora ela (a possível independência) é vista como "fragilidade política" do governador Casagrande, ora é vista como "ambição política" do presidente Feu Rosa e, ora ainda, é vista como "arroubos" do presidente Theodorico Ferraço.
Só o próprio tempo dirá, aqui neste caso, se realmente os sinais de novos tempos se transformarão em marcas de novos tempos de prática dos ideais de Montesquieu no Espírito Santo. Mas só de haver sinais, já é uma novidade histórica. Pará além de velhos arroubos oligárquicos que já se vislumbram "destronados" com a possibilidade da independência (mesmo que tênue e relativa) e, também, para além de leituras equivocadas da mídia local.
Quem sabe estejamos vivendo no Espírito Santo mais um exemplo histórico da pertinência do aforismo Gramsciano: "entre o novo que está nascendo e o velho que não quer morrer" (citação livre).
Sao sinais de outros tempos. Abatido pela supremacia de novas circunstâncias históricas, alvejado pelas tintas fortes da caneta do presidente do Tribunal de Justiça do estado do Espírito Santo, e enfrentado pela coragem de lideranças políticas como as de Iriny Lopes (PT), Rose de Freitas (PMDB) e, até, o seu aliado histórico Luiz Paulo Vellozo Lucas, Paulo Hartung resolveu não entrar na disputa pela prefeitura de Vitória. Assim como em 2010, quando resolveu não disputar as eleições de 2010 para o Senado da República, no meio das denúncias internacionais sobre o problema das chamadas "masmorras capixabas", em alusão aos problemas de direitos humanos nos presídios do Espírito Santo, agora também, em 2012, o ex-governador parece optar pela defesa da sua biografia.
Sinais de outros tempos. Fim da Era Paulo Hartung. Fim da chamada geopolítica. Emerge o contraditório. Florescem novas lideranças. Ressurgem velhas lideranças. Novo jogo político. Não só em Vitória. "Here, there and everywhere", como na bela canção dos Beatles. E, também, novo jogo eleitoral. No caso de Vitória, jogo com cara de segundo turno.
(2)
No Espírito Santo, os sinais de novos tempos parecem vir da possibilidade de busca do ideal de Montesquieu da independência dos Poderes. O Poder Judiciário já dá mostras de exercício independente das suas prerrogativas e obrigações constitucionais, a julgar pelos atos e atitudes assertivas do Tribunal de Justiça, através do seu novo presidente, desembargador Feu Rosa. O Poder Legislativo também ensaia passos de independência, a julgar pela movimentação do seu novo presidente, deputado estadual Theodorico Ferraço. Ao mesmo tempo, o Poder Executivo estadual assume, através do governador Renato Casagrande, perfil mais democrático e menos imperial.
Sinais de outros tempo. Mas esta possível e (um pouco) inédita independência dos três poderes institucionais regionais parece não estar sendo bem compreendida e, até, não bem aceita em parcelas dos meios de comunicação e da opinião publicada regional. Ora ela (a possível independência) é vista como "fragilidade política" do governador Casagrande, ora é vista como "ambição política" do presidente Feu Rosa e, ora ainda, é vista como "arroubos" do presidente Theodorico Ferraço.
Só o próprio tempo dirá, aqui neste caso, se realmente os sinais de novos tempos se transformarão em marcas de novos tempos de prática dos ideais de Montesquieu no Espírito Santo. Mas só de haver sinais, já é uma novidade histórica. Pará além de velhos arroubos oligárquicos que já se vislumbram "destronados" com a possibilidade da independência (mesmo que tênue e relativa) e, também, para além de leituras equivocadas da mídia local.
Quem sabe estejamos vivendo no Espírito Santo mais um exemplo histórico da pertinência do aforismo Gramsciano: "entre o novo que está nascendo e o velho que não quer morrer" (citação livre).
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Fonte: Século Diário
domingo, 20 de maio de 2012
Vitória, terra de ninguém (Antônio C. Medeiros)
É majoritária hoje nos meios políticos e nos meios de comunicação capixabas a percepção de que, pelo menos em Vitória, qualquer tentativa de reeditar agora nas eleições de 2012 a chamada geopolítica – como é chamado o acordo de cúpula para “impor” uma candidatura digamos quase única – está destinada a dar com os burros n’água. Na reeleição de João Coser (PT), em 2008, a geopolítica de cúpula foi, por assim dizer, um ponto fora da curva.
Pelo menos desde as eleições de 1985, e mais recentemente as pesquisas quantitativas e qualitativas continuam apontando para este padrão, Vitória é “terra de ninguém” do ponto de vista político-eleitoral. Com um eleitorado de perfil marcante de classe(s) média(s), a capital não produziu, e provavelmente não produzirá tão cedo, líderes políticos com supremacia político-eleitoral incontestável e duradoura.
Existiram, e existem, é claro, lideranças com grande penetração em cada momento histórico específico – Setembrino Pelissari, Chrisógono Cruz, Hermes Laranja, Vitor Buaiz, Paulo Hartung, Luiz Paulo Vellozo Lucas, João Coser -, mas não existe o “político de Vitória”, seja um cacique ou coronel à moda antiga, seja uma liderança de massa, seja uma liderança de corte racional-legal, estilo gestor.
Vitória não é, para usar uma expressão em desuso, reduto eleitoral de ninguém. A cidade até projeta governadores – por exemplo Vitor Buaiz e Paulo Hartung. Afinal, ela é capital e tradicionalmente tem uma dimensão política maior do que a sua dimensão eleitoral. Mas ela não é um distrito eleitoral com marcante predominância regular deste ou daquele outro político (a não ser no caso da Câmara de vereadores de Vitória, que tem muitos vereadores, historicamente, que costumam colecionar mandatos). Esta característica de “terra de ninguém” acentuou-se ainda mais depois das mudanças demográficas mais recentes, que promoveram novas chegadas de pessoas de outros municípios capixabas e de outros estados, sem lealdades políticas enraizadas com este ou aquele outro líder político da capital.
Paulo Hartung (PMDB), por exemplo, tem base estadual e local, mas não é um político predominante em Vitória, com “corte” local. Iriny Lopes (PT) também não tem “corte” local de Vitória. Lelo Coimbra(PMDB) também não. Luciano Rezende (PPS) tem bom “recall” em Vitória, mas ainda com dimensão de político para disputa proporcional (isso não quer dizer que ele não possa ganhar uma eleição para prefeito, mas quer dizer que ele não é um líder com supremacia em Vitória). Mesmo Luiz Paulo Vellozo Lucas(PSDB), que foi oito anos prefeito de Vitória, com um grande “recall”, não é um político “puro sangue” de Vitória. Perdeu, naturalmente, densidade política e eleitoral em Vitória nos últimos oito anos.
É mistificação e ilusionismo político pensar que o ex-governador Paulo Hartung já ganhou as eleições em Vitória por antecipação. Só se for por WO. Assim como é um equívoco colossal pensar que, só porque a gestão de João Coser padece hoje do fenômeno da “fadiga de material”, Iriny Lopes já perdeu por antecipação as eleições em Vitória. Só se ela jogar a toalha e se render. Ou se o PT de Vitória perder o juízo político. Isto para citar apenas estes dois exemplos.
Paulo Hartung tem preferência nas intenções de votos sobre apenas um terço dos eleitores que se dizem já decididos hoje na capital. Mas existem dois terços que se dizem indecisos. Ou seja, não há supremacia eleitoral, hoje, do ex-governador. Não enxergar isto é de uma ingenuidade política assustadora. Iriny, por sua vez, tem de saída o “piso” eleitoral do PT na capital, que é em torno de 20% dos votos. Isto é pouca coisa?
Ora, pois pois. Para completar o quadro político de hoje em Vitória, Luciano Rezende afirma, respaldado pela direção nacional do seu PPS, que não vai recuar da intenção e decisão de ir para a disputa pela prefeitura. Luiz Paulo Vellozo Lucas também parece seguir na mesma direção de não recuar. Já está até construindo programa de governo para a cidade e para a prefeitura, colocando-se como contraponto ao PT.
Nestas condições políticas e eleitorais, tudo indica que as eleições de 2012 na capital caminham para um saudável e muito esperado ambiente de disputa, com várias candidaturas colocadas. Sem geopolítica. O que aponta para uma probabilidade de segundo turno. Com ou sem a presença da candidatura do ex-governador Paulo Hartung.
Diante deste contexto e desta tendência, o PT de Vitória poderá cometer um equívoco político histórico se detonar a candidatura de Iriny Lopes, ou se caminhar dividido para as eleições. Equívoco, aliás, que ele já cometeu em 1992, quando detonou a candidatura do então vice-prefeito Rogério Medeiros (que surfava no enorme prestígio do então prefeito Vitor Buaiz e na grande aprovação da gestão na qual ele era o vice-prefeito), oficializou a candidatura de então menor densidade eleitoral de João Coser, foi dividido para a disputa e entregou a prefeitura para Paulo Hartung...
Ainda, diante deste contexto também será um grande equívoco se tanto Luciano Rezende quanto Luiz Paulo Vellozo Lucas vierem a recuar das suas respectivas candidaturas. Luciano Rezende tem grande “recall” e grande potencial para crescer na disputa e ser competitivo. Já mostrou isto recentemente. E Luiz Paulo também tem grande “recall” e grande capacidade para recuperar a sua densidade político-eleitoral e retornar à prefeitura. O jogo não está jogado e o quadro eleitoral está, literalmente, em aberto. Mesmo, vale repetir, com a presença de Paulo Hartung na disputa.
Até o início de junho, quando Paulo Hartung poderá decidir se vai ser candidato ou não, e quando o PT de Vitória reúne-se para decidir se vai ou não com Iriny, muita água ainda vai rolar. Por enquanto, o que é necessário é afastar possibilidades de mistificações e ilusionismos políticos. E, principalmente, não esquecer que Vitória é “terra de ninguém”.
Fonte: Século Diário (17/05/2012)
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