domingo, 17 de julho de 2011

SALINGER - UMA VIDA

Pesquisa retrata aspectos sombrios da vida de Salinger

JOCA REINERS TERRON
ESPECIAL PARA A FOLHA

A vida de J.D. Salinger (1919-2010) após seu isolamento em Cornish, cidadezinha de New Hampshire, foi uma incógnita.
A não ser pelas revelações magoadas (e portanto pouco fiáveis) de sua ex-amante Joyce Maynard (em "Abandonada no Campo de Centeio", Geração Editorial) ou das memórias de sua filha Margaret ("Dream Catcher: a Memoir", inédito no Brasil), pouco se sabia do ermitão.
A biografia "Salinger -Uma Vida", de Kenneth Slawenski, ilumina aspectos antes sombrios da existência de um dos maiores heróis literários do século 20.
As motivações que levam uma figura pública como Salinger a se isolar e a deixar de produzir (ou ao menos de publicar) podem ser comparadas às de um suicida que não deixa bilhete de despedida.
Diante desse enigma, Slawenski (que se tornou conhecido por seu site www.deadcaulfields.com) explorou o desenvolvimento da obra para desvendar a vida, num movimento contrário ao de biografias tradicionais. O recurso seria questionável, não fosse Salinger o biografado.
A partir da análise dos contos iniciais, publicados em populares revistas como "Collier's" e "Esquire", entre outras, e nunca reeditados, Slawenski relata as causas do retraimento futuro do escritor, como o malfadado final de relacionamento com sua paixão de juventude, Oona O'Neill, e a mágoa por tê-la perdido para Charles Chaplin (36 anos mais velho que ela, com quem foi casado até a morte).
Também aponta as frustrações de Salinger em seu relacionamento com mentores como Whit Burnett, seu descobridor, além das rusgas com editores.
Principalmente, comenta a participação dele como sargento do 12º Regimento de Infantaria na Segunda Guerra Mundial.
Salinger esteve presente no Dia D e em algumas das piores batalhas da invasão da Alemanha. O fato de que o regimento do qual fazia parte perdeu cerca de 70% de seu contingente em junho de 1944 dá uma ideia dos horrores pelos quais o escritor passou.
Mesmo assim, em meio à lama da trincheira, ele não deixou de escrever e de negociar a publicação de suas histórias. O célebre suicídio de Seymour Glass -alter ego de Salinger- após retornar da guerra, no conto "Um Dia Ideal para os Peixes-Banana", apenas antecipou seu sumiço da agenda inóspita do mundo a partir de 1965, data do último texto conhecido do autor.
JOCA REINERS TERRON é autor de "Do Fundo do Poço se Vê a Lua" (Companhia das Letras).

Glauco Mattoso e o "Tripé do Tripúdio",

Aos 60, Glauco ainda quer escandalizar
Escritor lança "Tripé do Tripúdio", reunião de contos inspirados nos sonetos que escreveu depois de ficar cego

Selo Demônio Negro também comemora aniversário do autor, com caixa reunindo dez livros de poesia

MARCO RODRIGO ALMEIDA
DE SÃO PAULO

Aos 60 anos, completados em 29 de junho, Glauco Mattoso parece ter entrado, enfim, para o chamado "panteão literário".
O iconoclasta da poesia marginal dos anos 1970 é tema de tese, conferências e homenagens. Pela primeira vez, lança um livro de ficção, "Tripé do Tripúdio - E Outros Contos Hediondos", por uma editora de destaque no mercado, a Tordesilhas.
O selo Demônio Negro acaba de lançar a "Biblioteca Mattosiana", caixa de luxo com dez livros que reúnem sonetos que Glauco fez nos últimos anos.
Estaria enganado, contudo, quem pensasse que a idade e o prestígio apaziguaram o antigo furor do poeta.
"Fiquei mais disciplinado formalmente, mas não na temática. Acho que até radicalizo ainda mais hoje os meus temas 'negros'", conta.
Basta uma rápida passada de olho pelos contos de "Tripé do Tripúdio" para concordar com ele. Estão lá perversões sexuais, torturas, obsessões por pés e chulé.
As 25 histórias que compõem o livro são inspiradas nos próprios sonetos de Glauco, que é também personagem de muitas delas.
A passagem dos versos livres e iconoclastas do início da carreira para a forma rígida do soneto foi consequência da cegueira.
Glauco apresentou desde pequeno um quadro congênito de glaucoma.
Nascido Pedro José Ferreira da Silva, ele adota, desde 1974, o pseudônimo Glauco Mattoso, trocadilho com a doença. A cegueira completa veio em 1995.
Foi quando pensou que nunca mais poderia escrever.
A salvação veio quando descobriu um programa de computador que reproduz em som o que ele digita.
"Minha poesia era muito visual. Depois que perdi a visão, me sentia preso numa jaula. Minha saída foi a memória. Foi aí que descobri as formas clássicas do soneto."
Numa das contradições que tanto agradam ao poeta, a fase mais produtiva da carreira dele começou depois da cegueira. Glauco já escreveu mais de 4.500 sonetos desde o final dos anos 1990.
Considerado recordista mundial em número de sonetos, lançou o "Tratado de Versificação" (2010), referência no estudo de poesia.
"Estarei, espero, numa espécie de panteão, mesmo.
Mas, digamos assim, num panteão mais porco e iconoclasta", brinca ele.
TRIPÉ DO TRIPÚDIO
AUTOR Glauco Mattoso
EDITORA Tordesilhas
QUANTO R$ 42,50 (218 págs.)

BIBLIOTECA MATTOSIANA (DEZ VOLUMES)
AUTOR Glauco Mattoso
EDITORA Demônio Negro/Annablume
QUANTO R$ 350 (1.992 págs.)

Redescoberta de Oswald de Andrade (Ferreira Gullar)

Além do humor, o que percebi de melhor em Oswald de Andrade foi frescor da linguagem

CREIO QUE foi em 1953 que eu, ao entrar na livraria da editora José Olympio, então na rua do Ouvidor, deparei-me, sobre um balcão, com vários exemplares do livro "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade, a preço de liquidação.
Eu, que o conhecia de nome de uns raros poemas, comprei um exemplar e, naquele mesmo dia, o li dando gargalhadas. É certo que sempre tive simpatia pelos irreverentes, talvez porque da irreverência resulte uma ruptura com a mesmice.
Essa releitura foi para mim uma revelação. Oswald ainda estava vivo, mas quase ninguém tomava conhecimento de sua literatura. Agora ele acaba de ser homenageado pela Festa Literária de Paraty.
Naquela semana mesmo, na casa de Mário Pedrosa, falei de Oswald, da boa surpresa que tive ao lê-lo. Mário sorria satisfeito, admirador que era da literatura de Oswald e de seu espírito irreverente.
Contou-me algumas histórias engraçadas que sabia dele. Pegou da estante um exemplar de "Pau Brasil". Era a primeira edição, com a bandeira brasileira desenhada na capa. "Você vai gostar", disse-me ele, ao me entregar o livro. E na verdade o li com prazer e surpresa, encantado com a maneira jovem que ele tinha de dizer as coisas.
Além do humor, o que percebi de melhor em sua literatura foi o frescor da linguagem, diferente da de outros poetas brasileiros modernos, mesmo os que vieram depois dele:
"Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados."
Falei do livro com Oliveira Bastos, então jovem crítico literário, que também decidiu voltar-se para Oswald de Andrade. E se tornou seu amigo. Naquele mesmo ano, estava eu em casa de Amelinha, minha namorada na época, no dia em que completava 23 anos de idade, quando toca a campainha da porta e surge um homem grande, de olhos verdes enormes, em mangas de camisa. Não acreditei no que via: ali estava Oswald de Andrade, que me abraçou e disse que vinha me cumprimentar pelo meu aniversário.
Com ele, rindo de meu espanto, entrou Bastos, que tramara tudo e lhe tinha levado uma cópia de "A Luta Corporal", ainda inédito. Isso ouvi do próprio Oswald, que afirmou, exagerado como era: "Com você, renasce a poesia brasileira".
E, como se não bastasse, acrescentou que ia dar um curso de literatura brasileira na Itália e a última aula seria sobre minha poesia. Melhor presente de aniversário não podia haver. Ele me deu então um livro com suas peças "A Morta" e "O Rei da Vela", editado já havia algum tempo, que guardo comigo até hoje.
O Réveillon daquele ano passamos os três -Bastos, Amelinha e eu- na sua casa em São Paulo, em companhia dele e Maria Antonieta d'Alkmin, sua mulher e musa. Já estava doente e trazia uma pequena medalha de Nossa Senhora, presa à blusa do pijama. Mas ele não é ateu?, perguntei a mim mesmo, achando graça. Em outubro daquele ano, morreria. Escrevi, então, um poema, que terminava assim: "Fez sol o dia todo em Ipanema. / Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo, hoje, dia 24 de outubro de 1954".
Naquele ano, eu havia publicado "A Luta Corporal", em cujos poemas finais desintegrava a linguagem, o que chamou a atenção de três jovens poetas paulistas -Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari-, que me procuraram.
Augusto veio encontrar-me, no Rio, quando conversamos sobre as questões que ele levantou acerca da poesia brasileira. Foi num almoço na Spaghettilândia, na Cinelândia.
Falou-me do propósito do grupo deles de renovar a poesia brasileira e foi por essa razão que me procuraram, já que meu livro rompia com "a poesia sentada", na expressão deles. E então citou os poetas brasileiros que, no seu entender, representavam um caminho para a renovação: Mário, Drummond, Cabral. Oswald de Andrade estava fora.
Estranhei e ele então respondeu que não se podia levá-lo a sério, por considerá-lo um irresponsável. Respondi que, irresponsável ou não, sua poesia era inovadora, sua linguagem tinha um gosto de folha verde. Ele ficou de relê-lo e da releitura que fizeram resultou a redescoberta de Oswald de Andrade. Por tudo isso, fiquei feliz ao vê-lo homenageado agora pela Flip 2011.

A volta de Lula ao palanque (João Bosco Rabello)

Começa com cara de filme velho a campanha pelas eleições municipais do ano que vem. O ex-presidente Lula a abriu oficialmente anteontem, no Congresso da UNE, em que enfiou goela abaixo do PT a candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, à Prefeitura paulistana. Como fez com Dilma para a Presidência da República.

Quase simultaneamente, Lula abriu um site com uma primeira gravação em que deixa claro que voltou ao palanque depois de um breve intervalo de seis meses - ele, que governou oito anos sem jamais abandoná-lo. Tudo precedido de três manifestações da presidente Dilma, a última resumindo o espírito da coisa: "Recebi uma herança bendita".

O filme fica velho quando a ele se junta uma oposição sem rumo, dividida, como na eleição de 2010 - e, por último, amansada com o resgate de sua principal referência, Fernando Henrique Cardoso, pela presidente Dilma.

É nesse cenário que Lula explora um eficiente discurso em que críticas aos erros de hoje e de ontem são vendidas como preconceito da elite e da mídia. Fala às mulheres, aos estudantes e aos emergentes das classes C e D, beneficiados pela sua política assistencialista.

Tudo isso como passageiro de um avião do PR, protagonista do escândalo do Ministério dos Transportes, cuja intervenção mereceu seus elogios, como se os demitidos pelo esquema de corrupção não tivessem nada a ver com seu governo. "Quem erra tem que sair", diz, com cara de paisagem.

Se a economia não conspirar contra Dilma, bem nas pesquisas, esse discurso continuará eficiente, pelo menos, para a campanha municipal de 2012.


De terno...

Em São Paulo, a obsessão de Lula é quebrar a hegemonia do PSDB, o que tenta apostando em um nome novo, desvinculado das disputas anteriores. E, principalmente, de perfil mais tucano que petista, caso de Fernando Haddad, cuja formação acadêmica e atividade professoral seria mais palatável ao eleitor médio paulistano. A face petista que lhe falta para a adesão dos segmentos mais populares, Lula espera suprir como seu cabo eleitoral. No resto do País, a disputa é, de forma geral, com o PMDB, cuja capilaridade lhe confere cerca de 1.250 prefeituras contra pouco mais de 500 do PT.

...e de macacão

E o PSDB, enquanto isso, intensifica a sua estratégia de aproximação com os movimentos sindicais. O partido já conversa com cinco centrais sindicais (a exceção é a CUT), e estuda a criação de um núcleo sindical ligado ao Diretório Nacional. Em São Paulo, costura uma aliança com a Força Sindical, na contramão do diagnóstico de Fernando Henrique Cardoso, de que disputar com o PT os movimentos sociais é perder tempo... Sem janela

São bastante reduzidas, a esta altura, as chances de aprovação de uma "janela" para mudança de partido até setembro. Por ora, o PSD é a única opção para quem quer mudar. Sua mais recente façanha é no Rio, onde o próprio PMDB, maior força no Estado, estimula a migração de filiados para enfraquecer o ex-governador Anthony Garotinho (PR). "O PMDB no Rio está com overbooking", diz um parlamentar, que prevê um PSD carioca com nove deputados estaduais e oito federais.

África que une

Nizan Guanaes é o "novo melhor amigo" do ex-presidente Lula. O interesse comum pela África os reconciliou. Em 2002, quando comandava as campanhas do PFL - inclusive a de Roseana Sarney à Presidência -, o publicitário comparou o PT ao Taleban: "Só falta o turbante, a barba já tem".

Probabilidade nula (Alon Feuerwerker)

Lula está procurando no canto errado do salão por algo que perdeu. Mesmo sendo o canto mais iluminado pelo holofotes, a chance de recuperar assim o que foi perdido é zero

A historinha é velha. O sujeito procura cuidadosamente algo no canto iluminado do salão escuro. O outro observa e pergunta, curioso.

- Você perdeu alguma coisa?

- Sim.

- Perdeu aí nesse canto?

- Não, naquele.

- E por que você está procurando aí? Não seria melhor procurar ali?

- Porque aqui está iluminado.

Qual é a chance de o sujeito encontrar o que procura? Zero.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi ao Congresso da UNE e discursou reclamando da imprensa. Mais uma vez. Lula está no pleno direito dele. Ninguém anda acima do bem e do mal. Muito menos o jornalismo.

Se qualquer jornalista tem a prerrogativa de escrever ou falar livremente o que pensa sobre o ex-presidente, o caminho inverso é igualmente legítimo. A democracia oferece as duas mãos. Ou deveria oferecer.

Aliás, Lula e a imprensa têm pelo menos um ponto em comum. Ambos odeiam ser criticados. Ambos adorariam só receber elogios. Talvez a característica seja universal, mas na política e no jornalismo fica mais exacerbada. Aqui vaidade é poder.

Não ser criticado nunca é uma impossibilidade prática, mas atravessar a vida com o desejo limitado pelo realismo seria chato demais, convenhamos.

Lula faz questão de expressar o desconforto com a imprensa sempre quando pode. E lhe é útil, pois não se frita omelete sem quebrar os ovos, não se faz política sem definir os adversários, sem piorá-los ao ponto de poder neutralizá-los.

O ex-presidente acaba de lançar um site para falar bem de uns e mal de outros. Ele mesmo disse isso. Não corre o risco de perder dinheiro quem apostar nos jornalistas como um alvo preferencial da crítica.

A realidade, infelizmente porém, é mais complicada. Talvez o ex-presidente esteja a repetir o nonsense da historinha no alto da coluna. Se está mesmo em busca de alvos, talvez devesse procurar no outro canto do salão.

Por uma razão singela. Nos dias recentes, o que mais o governo Dilma Rousseff tem feito é reagir positivamente a revelações trazidas pela imprensa. A cada revelação, uma demissão. Ou mais de uma. É a dança sincronizada das manchetes e das cabeças cortadas.

Quem vem escrevendo o roteiro do expurgo na Esplanada dos Ministérios não são a Polícia Federal, a Controladoria-Geral da União (CGU) ou o Ministério Público. É o trabalho dos profissionais de jornais, revistas, tevês, rádios e sites.

Eis um fato. E contra fatos os argumentos precisam ser excepcionalmente bons. Não foi o caso do discurso de Lula em Goiânia.

Em resumo, enquanto Lula fala mal da imprensa, a parceria entre o jornalismo e o governo Dilma vai servindo para a presidente ocupar espaço no governo dela.

E essa ocupação se dá - não há outra maneira - à custa da arquitetura que herdou do antecessor. Lula está procurando no canto errado do salão por algo que perdeu. Mesmo sendo o canto mais iluminado pelo holofotes, a chance de recuperar assim o que foi perdido é zero.

O custo das prisões (Julita Lemgruber)

Este Blog
A Lei 12.403 não vai escancarar as portas dos presídios, soltando milhares de detentos, nem vai abrir caminho para a impunidade


Um amigo inglês sempre me dizia ser difícil entender por que no Brasil era comum a afirmação de que há leis que "pegam" e leis que "não pegam". Lei é lei, sustentava ele, e deve ser respeitada, quer se goste ou não. Pois bem, corremos sério risco de que a Lei 12.403, que entrou em vigor no dia 4, acabe desacreditada, e o Conselho Nacional de Justiça(CNJ), criado para supervisionar a atuação dos juízes, vai precisar redobrar sua atenção para evitar que prisões indevidas continuem a ser impostas, principalmente quando o réu é pobre e não tem meios de contratar um bom advogado.

Em primeiríssimo lugar, é preciso esclarecer que a Lei 12.403 não vai escancarar as portas das prisões do País soltando milhares de presos - fala-se na libertação de 100 mil a 200 mil deles - nem vai abrir caminho para a impunidade. Embora o Brasil tenha aproximadamente 200 mil pessoas presas provisoriamente, ou 44% de toda a população carcerária, isso não quer dizer que todos os presos provisórios vão para as ruas, simplesmente porque a maior parte desse contingente não se enquadra no perfil estabelecido pelo recente diploma legal. Na verdade, quem vai ser libertado não deveria estar preso.

A maior virtude da Lei 12.403 é criar um rol de medidas substitutivas à prisão preventiva (entre elas a fiança e o monitoramento eletrônico) e determinar que não sejam privados da liberdade, aguardando julgamento, os réus primários, acusados de praticar crimes sem violência ou grave ameaça à pessoa, cuja pena máxima prevista para o crime praticado seja de até 4 anos de prisão. Aliás, é bom enfatizar que tal possibilidade já estava prevista, antes da edição da Lei 12.403, mas muitos juízes teimavam em ignorá-la.

Com a nova lei, está mais claro que nunca: não se pode mais manter na cadeia, aguardando julgamento, homens e mulheres que, se condenados, receberão uma pena diferente da pena de prisão, como a prestação gratuita de serviços à comunidade.

Cadeias fétidas e desumanas são a regra no Brasil para presos provisórios. Locais superlotados guardam presos que cometeram crimes sem gravidade e sem violência, pessoas que amargam meses, às vezes anos de prisão, como já detectado pelo CNJ, para, ao fim e ao cabo, receberem como punição uma pena diferente da privação da liberdade.

O Brasil tinha, em dezembro de 2010, segundo o Ministério da Justiça, 496.251 presos para 298.275 vagas. Falta lugar para mais da metade dos presos. Investiram-se milhões para aumentar a capacidade do sistema penitenciário, mas o crescimento do número de presos superou qualquer tentativa de resolver a superlotação. Nos últimos 15 anos a população prisional mais que triplicou - passamos de 148.760 presos, em 1995, para os 496.251 de 2010. O Brasil tem a quarta maior população prisional no mundo.

Para dar conta de um crescimento tão vertiginoso, não basta criar vagas. Há que se adotar a racionalidade. Manter na prisão quem comete infrações sem violência, não é perigoso nem se constitui em ameaça concreta ao convívio social é uma insensatez e desperdício dos recursos gerados com o pagamento de nossos impostos.

Os EUA, que apostaram no encarceramento em massa como estratégia de controle da criminalidade, estão revendo sua posição. A Suprema Corte determinou que o Estado da Califórnia reduza, nos próximos dois anos, em 33 mil seu número de presos. Ali as condições de encarceramento foram julgadas degradantes e cruéis. Outros Estados trabalham na revisão de suas leis penais.

Douglas Hurd, antigo ministro da Justiça inglês, dizia que a prisão é uma forma cara de tornar as pessoas piores. Muitos concordam com ele. Bruce Western, professor de Harvard e autor de livros e artigos sobre os resultados nefastos do encarceramento em massa, sustenta que o extraordinário aumento do número de presos nos EUA (hoje o maior encarcerador do planeta) só explica de 2% a 5% da queda dos índices de criminalidade no país. E isso, lembra ele, custou ao contribuinte apenas entre 1993 e 2000, cerca de US$ 60 bilhões em gastos adicionais com os milhares de novos presos. A pergunta que os formuladores de políticas públicas nos EUA deveriam estar se fazendo, afirma Western, é a seguinte: poderíamos ter gastado esses bilhões de dólares de forma mais positiva, investindo em programas de apoio às famílias pobres, em redução dos danos do uso de drogas, criando empregos, melhorando a assistência à saúde e à educação e conseguindo os mesmos resultados? Western acredita que os resultados seriam ainda melhores. Eu também. E não estamos sozinhos.

JULITA LEMGRUBER É SOCIÓLOGA, COORDENADORA DO CENTRO DE ESTUDOS DE SEGURANÇA E CIDADANIA DA UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES E AUTORA DE A DONA DAS CHAVES (RECORD). FOI DIRETORA GERAL DO SISTEMA
PENITENCIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A insatisfação cruza o oceano (César Felício)

Em meio às tormentas de Brasília, uma boa notícia da semana passou quase despercebida: a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, por doze votos a nove, decidiu mandar para o esquecimento a proposta de se instituir o voto em lista fechada para eleições proporcionais, aquele em que o eleitor escolhe uma sigla e o eleito provém de uma lista preordenada pelas direções partidárias. O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), afirmou que vai apresentar um recurso para a proposta ser examinada pelo plenário da Casa, mas a decisão é um indicativo do ponto de vista que deve prevalecer.

A tese da substituição do sistema de eleição no Brasil é recorrente a cada legislatura, mas ganha força à medida que o quadro de legendas se torna mais complexo: o conjunto de cinco partidos que compunha o Congresso eleito em 1982, do qual o maior controlava 49% da Câmara, transformou-se em uma constelação de 22 siglas, sendo a maior com 17% dos deputados. É uma pulverização que obriga o governo a ter sete partidos na Esplanada.

No mundo inteiro sistemas partidários têm se enfraquecido, mas no Brasil a fraqueza é crônica. Desde a independência: os partidos derivaram de divisões de uma elite que disputa o comando, como no Império e na República Velha, ou foram siglas em um sistema ordenado pelo poder central, voltados para o parlamento e para a ocupação de espaços nos governos.

Antes de dar força, é preciso mudar os partidos políticos

O PT foi e ainda é a exceção mais notável a esta falta de organicidade e por isto, e não apenas pelo carisma de Lula, é a única sigla à qual uma minoria relevante do eleitorado espontaneamente se diz identificada em pesquisas de opinião. Mas mesmo dentro do PT partem um rosário de queixas sobre o desvirtuamento dos processos democráticos internos. Em outras siglas, o caciquismo faz antever uma lista fechada traçada na ponta do bacamarte.

No PR, o senador Alfredo Nascimento (AM) volta à presidência do partido com o poder de assumir todas as funções da Executiva, entre elas a de dissolver diretórios, revogar resoluções, cancelar candidaturas e anular convenções. Só não é possível classificar o recém-demitido ministro dos Transportes de déspota porque o mando no partido é sabidamente concentrado no secretário-geral da sigla, Valdemar da Costa Neto, que não está na presidência formal para melhor trabalhar à sombra.

No PV, que expeliu os 20 milhões de votos da ex-senadora Marina Silva, o estatuto deixa a critério da executiva preencher um quinto dos cargos de gabinete dos parlamentares e determinar quem ocupa e de que maneira o horário gratuito nas campanhas eleitorais. As seções locais só ganham autonomia se conseguirem pelo menos 5% dos votos para deputado. No PTB do ex-deputado Roberto Jefferson, compete ao presidente reunir, quando quiser, o Diretório Nacional e a própria executiva. Obedecem a ele as comissões provisórias que podem ser prorrogadas a qualquer tempo. Em 12 dos 27 Estados o PTB está sendo administrados por estas comissões.

Este domínio das cúpulas não é fenômeno brasileiro e a reação contra ele enfraquece uma das premissas da linha argumentativa de que os sistemas adotados além-mar, como o distrital puro, o misto ou o sistema de lista fechada são em si mais virtuosos. Trata-se de um mito.

As crises de representatividade não respeitam fronteiras e não é a forma de eleger que muda este quadro. A última pesquisa Eurobarômetro, divulgada em fevereiro, mostra que a confiança nos parlamentos na Europa é baixa tanto em países onde a percepção de crise econômica é menor, como no Reino Unido, quanto nos que estão prestes a explodir, como Portugal. Nestes dois países, o índice de apoio ao Congresso é 27%. Os ingleses usam sistema distrital. Os portugueses, lista fechada. Apenas 14% dos portugueses confiavam nos partidos. No Reino Unido, o percentual era 13%. Abstraindo o fato de ser uma pesquisa diferente, em dezembro o Ibope divulgou a sua pesquisa que mede o índice de confiança em instituições no Brasil, apontando um percentual de 38% de apoio para o Congresso e 33% para os partidos.

A Espanha é um caso modelar. Um dos focos da revolta de maio que levou jovens a ocuparem a Puerta Del Sol em Madrid e a Praça Catalunya em Barcelona é a crítica à chamada "partidocracia", ou seja, ao domínio das cúpulas partidárias do Partido Popular e do partido socialista (PSOE) que se revezam no poder há 29 anos. Uma das propostas dos que ocuparam a praça é justamente acabar com a lista fechada e permitir que o eleitor possa escolher seu candidato dentro das listas.

"A lista aberta não debilita a estrutura dos partidos. Pelo contrário, a fortalece, ao obrigar os membros de cada lista a serem capazes de ter seu próprio eleitorado", comentou nada menos que o ex-primeiro- ministro Felipe Gonzalez no mês passado,em entrevista reproduzida na página do jornal "La Voz Libre".

Na outra ponta do espectro partidário, Esperanza Aguirre, a presidente da Comunidade de Madrid, instância equivalente a um governo estadual, apresentou uma proposta formal que redivide a comuna em circunscrições que estimulariam o voto majoritário. "A proposta é que o eleitor possa expressar suas preferências dentro das listas apresentadas pelas formações políticas" resumiu a governante, que é o do PP, o partido da direita na Espanha.

Os protestos de maio não tiraram as pessoas das filas de votação da eleição municipal que ocorreu a seguir.

A abstenção até caiu na Espanha em relação à disputa anterior. Mas são claros os sinais de exaustão contra o sistema eleitoral indutor de partidos políticos fortes, que permitiu aos espanhóis migrarem de maneira relativamente pacífica de uma ditadura que perdurava há 40 anos.Como é impossível a existência de uma democracia representativa sem partidos, talvez o que esteja na hora de mudar, tanto lá como cá, seja o modo como estes partidos se organizam e funcionam.

FONTE: VALOR ECONÔMICO