As "trips" teóricas e lisérgicas no apartamento do filósofo, segundo seus amigos
RESUMO
No Brasil e na França, novas edições celebram vida e obra do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984): romance de Mathieu Lindon e ensaio de Paul Veyne fazem um retrato afetivo do amigo; ensaios refletem sobre seu pensamento independente e avesso a ideologias, que ainda mobiliza paixões em discípulos e detratores.
ALCINO LEITE NETO
O APARTAMENTO no qual Michel Foucault viveu seus últimos anos em Paris ficava no oitavo andar de um prédio da rue de Vaugirard. Na vasta e luminosa sala, o filósofo e seus amigos elegeram um lugar para tomarem LSD: o cantinho Mahler, próximo da vitrola e com sofás confortáveis. As viagens de ácido costumavam ser embaladas pela música do compositor, um dos preferidos do anfitrião, e pela projeção de filmes, de preferência, comédias dos irmãos Marx.
"LSD, cocaína, ópio, ele provou de tudo, menos, claro, heroína: mas não acabará cedendo, em sua vertigem atual?", escreveu, em 1975, o jornalista Claude Mauriac, amigo de Foucault, em seu titânico diário ("Le Temps Immobile", Grasset, em dez vols.). Na varanda de sua casa, o filósofo cultivava pés de maconha, conforme relata Didier Eribon na biografia "Michel Foucault". De lá, avista-se o apartamento do escritor Hervé Guibert, no prédio ao lado.
Guibert era 29 anos mais novo que Foucault, mas estabeleceu com ele, a partir de 1977, uma forte amizade, que seguiu até a morte do filósofo, provocada pela Aids, em 1984, aos 57. A mesma doença atingiu o escritor, que morreu pouco tempo depois, em 1991, aos 36.
Um ano antes de seu falecimento, Guibert publicou o romance autobiográfico "O Amigo Que Não Me Salvou a Vida", que tem como protagonista o professor homossexual Muzil, adepto de práticas sadomasoquistas -claramente inspirado em Foucault. Conta-se que, após a morte do filósofo, foram encontrados em sua casa vários instrumentos para as práticas SM.
FIGURA LITERÁRIA
Agora, Foucault faz novo retorno como figura literária no livro "Ce Qu'Aimer Veut Dire" (O Que Amar Quer Dizer), de Mathieu Lindon, lançado há pouco na França [ed. POL, 311 págs., 18,50 euros]. Ele é o personagem central desta obra autobiográfica, narrada com delicadeza e generosidade.
Mathieu Lindon é filho do lendário editor Jerôme Lindon (1925-2001), da Minuit, casa fundada em 1941 e responsável pela publicação de gigantes da literatura de vanguarda, como Samuel Beckett e Alain Robbe-Grillet, além de Georges Bataille, Gilles Deleuze e outros nomes cruciais da filosofia no século 20. Como Hervé Guibert, Mathieu nasceu em 1955.
Ele tinha 23 anos, trabalhava como jornalista e ainda não publicara nenhum livro quando se aproximou, em 1978, de Foucault, então o mais celebrado e polêmico pensador francês. Foi levado ao apartamento da rue de Vaugirard por amigos da mesma idade, que formavam em torno do autor de "Arqueologia do Saber", já cinquentão, um círculo de relações juvenis. O convívio era dedicado mais às conversas amenas sobre arte, aos passeios, aos jantares e às drogas do que aos densos debates filosóficos.
TRIO Foi Foucault quem insistiu na aproximação de Mathieu e Guibert. Juntos, acabaram formando um trio fidelíssimo de amigos. Quando viajava de férias ou para seus cursos no exterior, o filósofo entregava as chaves do apartamento para os jovens amigos, que faziam do local o seu ponto de encontro, de festas e de sexo. Para Mathieu, viver no apartamento era como "habitar a própria juventude". E, para Foucault, os jovens e o LSD significavam a oportunidade de poder "pensar diferente", nas palavras do escritor.
As situações vividas no apartamento ocupam boa parte da narrativa -uma festinha com um dançarino japonês nu, um jantar para William Burroughs, os encontros amorosos e, sobretudo, as viagens de ácido.
Numa das mais belas passagens do livro, ao tratar da morte do filósofo, Mathieu diz: "Eu fui o garoto do apartamento, aquele que, como num 'vaudeville', chega quando o outro parte, e parte quando o outro chega. Mas quando o outro partiu para sempre, que o 'vaudeville' deu errado, não havia mais como voltar. Nossos destinos estavam ligados. E quando eles se desligaram, eles permaneciam ligados. Eu persistia em querer ocupar ao menos um espaço imaginário, uma rue de Vaugirard que se tornara então um mundo tão desaparecido quanto Atlântida".
O livro se desenvolve como um discreto romance de formação e é também um balanço da relação de Mathieu com a forte figura de seu pai, cuja notoriedade e influência pesava sobre sua vida. "Meu pai era um fato, Michel havia sido um acaso". Em Foucault, ele encontra não um pai substituto, mas um amigo e um interlocutor que o conduzirá da adolescência à maturidade, das indecisões juvenis à carreira de escritor.
"Ele me educou", escreve. E completa: "É o amigo que me salvou a vida". Mathieu traça do filósofo um retrato amoroso, luminoso e alegre -nos antípodas do dilacerado protagonista do romance de Guibert, em "O Amigo Que Não Me Salvou a Vida".
HOMENAGENS
O lançamento de "Ce Qu'Aimer Veut Dire" coincide com as homenagens que estão sendo prestadas a Foucault, com uma série de livros sobre ele chegando às livrarias da França e do Brasil.
Seus raros escritos e entrevistas a respeito de filmes foram reunidos no livro "Foucault Va Au Cinéma" (Foucault Vai ao Cinema) [org. Patrice Maniglier e Dork Zabunyan, ed. Bayard, 168 págs., € 21]. O filósofo não tinha o cinema em alta conta -preferia a pintura e a música. Dizia se entediar com Bergman e se irritar com Godard, que por sua vez classificou Foucault como um dos "novos intelectuais inúteis".
Convocado, porém, pelos "Cahiers du Cinéma" e outras publicações entre meados dos anos 1970 e o início dos 1980, fez significativas intervenções no debate cinematográfico, analisando a representação da história e das classes populares nos filmes. Em 1976, um de seus livros ganhou adaptação para as telas, pelas mãos do diretor francês René Allio: "Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão".
Na França, foram lançados ainda uma edição revista da biografia "Michel Foucault", de Didier Eribon [Champs Flammarion, 646 págs., € 11], que teve edição brasileira pela Companhia das Letras, em 1990, e novo volume dos cursos no Collège de France. O filósofo também foi destacado no "Cahier Foucault" [416 págs., € 39], das prestigiosas Editions de l'Herne, com mais de 50 ensaios de pesquisadores, entre eles Judith Revel, Arlette Farge, Antonio Negri, Georges Didi-Huberman, Daniel Arasse e Bernd Stiegler. A edição traz inéditos e facsímiles de textos datilografados ou manuscritos, como as anotações para a conferência "O Negro e a Superfície", sobre a pintura de Manet.
CONTRADIÇÕES
É natural que, em comemorações assim, predomine um tom encomiástico e de consagração. Mas sempre aparece alguém para atrapalhar a festa. E, na França, foi o caso de José Luis Moreno Pestaña, com "Foucault, la Gauche et la Politique" (Foucault, a Esquerda e a Política) [Textuel, 144 págs., € 9,90]. Publicado em fevereiro, o pequeno livro pretende expor as contradições das posições políticas de Foucault. Curiosamente, neste caso, a investida não vem da ala conservadora, que costuma ter no filósofo um alvo de estimação. Professor da Universidade de Cádiz (Espanha) e autor de outros livros sobre o pensador francês, Pestaña é um discípulo de Pierre Bourdieu e um intelectual próximo da esquerda. No livro ele reclama, justamente, da "inconstância" política de Foucault e da impossibilidade de definir, a partir do seu trabalho, uma política de esquerda.
O autor resume assim a trajetória do filósofo: comunista na juventude, flerta com o gaullismo no início de sua carreira acadêmica, adere à extrema esquerda no pós-Maio de 68 e, por fim, sucumbe à visão antitotalitária dos novos filósofos (como André Glucksmann, do qual era amigo). Pestaña chega a dizer, com exagero, que Foucault se deixou seduzir no final da vida por um "neoliberalismo culturalmente radical".
A descrição há de espantar os críticos de Foucault situados à direita e que costumam ver nele um esquerdista radical. Mas não constitui novidade o filósofo ser objeto de ataques da esquerda e dos marxistas.
MARX
Didier Eribon recorda, na biografia "Michel Foucault", que à época do seu lançamento, em 1966, "As Palavras e as Coisas" foi com frequência considerado "de direita". O próprio Jean-Paul Sartre enxergou na obra uma afronta radical a Marx: "O marxismo é o alvo [do livro de Foucault]. Trata-se de constituir uma ideologia nova, a última barreira que a burguesia ainda possa levantar contra Marx", escreveu o autor de "O Ser e o Nada".
"As Palavras e as Coisas", livro que revolucionou as ciências humanas com sua proclamação da "morte do homem", será peça central na virulenta polêmica então travada entre marxistas e estruturalistas. "O livro de Foucault é excomungado nos círculos do Partido", escreve Eribon. "Não lhe perdoam ter afirmado que 'no pensamento do século 19 o marxismo é como um peixe na água, quer dizer, em qualquer outro lugar ele para de respirar'."
Na mesma época, meados dos anos 1960, o filósofo entretém agradáveis relações com o governo De Gaulle. Em 1965, chega a participar de um projeto de reforma universitária proposto pelo premiê gaullista Georges Pompidou. Não há consenso sobre sua simpatia ao gaullismo, mas é certo que Foucault -que pertencera na juventude ao PCF, como boa parte de sua geração- se tornaria, depois de uma experiência desagradável em Varsóvia, onde fora dar aulas, "violentamente anticomunista", nas palavras de Eribon.
O biógrafo também recorda como foi recebida com percalços a nomeação de Foucault para ocupar a coordenação do curso de filosofia da recém-criada Universidade de Vincennes, que se tornaria uma linha de frente da esquerda universitária no pós-Maio de 68. "Consideram-no [a Foucault] pouco engajado, pecado supremo aos olhos dos ativistas de todas as facções que afluem para erguer [em Vincennes] o que se tornará o 'bastião vermelho' de após 1968. Dizem que ele é 'gaullista', criticam- no muito por não ter 'feito nada' em Maio de 1968".
IRÃ A complexidade -para não dizer a independência- das suas posições políticas se acentua nos anos 1970, quando ele se aproxima da extrema esquerda, milita em diversas causas, ajuda a fundar o jornal "Libération", então radicalmente progressista, e engrossa com alarde o coro dos que defendem a revolução islâmica do Irã, em 1979, contra a monarquia do xá Reza Pahlevi.
Foi seu engajamento mais controverso e que lhe causou sério desgosto, em decorrência da subsequente ditadura religiosa que emergiu no país, sob as barbas do aiatólá Khomeini. O episódio é tema do recém-lançado "Foucault e a Revolução Iraniana", de Janet Afary e Kevin B. Anderson [É Realizações, trad. Fabio Monteiro de Barros Faria, 480 págs. R$ 89], ataque audacioso às posições do filósofo no episódio. Embora traga abundantes e relevantes explicações sobre a situação religiosa e política iranianas no período, o livro simplifica brutalmente o pensamento foucaltiano. Seu principal mérito é reunir as reportagens feitas pelo filósofo no Irã, à época, por encomenda do jornal italiano "Corriere della Sera".
Foucault foi seduzido pelos protestos populares contra a tirania de Reza Pahlevi e pela confluência de política e religiosidade em um movimento que se imaginava de libertação. Chegou a se reunir com Khomeini na França, onde o líder se encontrava exilado. Porém, segundo o historiador Paul Veyne, o filósofo não ficou com uma impressão muito favorável do aiatolá, sobre o qual teria dito: "Ele me falou de seu programa de governo; se tomasse o poder, seria de uma idiotice de fazer chorar".
Não foi menos conturbada a relação de Foucault com os socialistas, quando estes chegaram ao poder na França em maio de 1981, com a vitória de François Mitterrand. Veyne conta que o filósofo teria ficado, na verdade, "colérico" com a chegada dos socialistas ao poder. "Suponho, sem estar certo, que ele preferia [Michel] Rocard [socialista moderado] a Mitterrand. Na ocasião de sua morte [em 1984], Foucault estava preparando uma crítica do socialismo francês (havia uma pilha de livros sobre a questão em sua cabeceira); o partido socialista, segundo ele, nunca tinha tido política propriamente dita."
AMIGO As revelações de Veyne fazem parte de um livro extraordinário, "Foucault - Seu Pensamento, Sua Pessoa", publicado pelo historiador em 2008 e que ganha agora edição no Brasil [trad. Marcelo Jacques de Morais, Civilização Brasileira, 256 págs., R$ 39,90]. Como ocorre com Mathieu Lindon, a obra de Veyne é o testemunho de um amigo.
Especialista na Antiguidade greco-romana, o historiador foi aluno de Foucault na juventude e manteve com ele uma amizade e uma colaboração de 30 anos. Era também um frequentador do apartamento da rue de Vaugirard, mas para os debates filosóficos e políticos que ali eram travados. Heterossexual, Veyne conta que foi eleito por Foucault como o "homossexual honorário" da turma.
O livro, entretanto, é feito menos de revelações pessoais do que de um trabalho de apresentação, esclarecimento e defesa das ideias do filósofo contra seus inúmeros detratores, de esquerda e direita - entre eles o brasileiro José Guilherme Merquior, autor de "Michel Foucault ou o Niilismo de Cátedra", a mais severa, complexa e respeitada confrontação com as ideias foulcaltianas, livro fora de catálogo no país, mas que pode ser adquirido na edição em inglês "Foucault" [Fontana Press, US$ 13].
Em contraponto aos que acusam Foucault de niilista, Veyne o define como um pensador cético, que desconfia dos conceitos universais, mas não das singularidades empíricas nem da realidade dos fatos. "As singularidades empíricas lhe pareciam a bom direito dignas de fé. Elas são a oportunidade do historiador, do jornalista ou do investigador: seu questionamento incide precisamente sobre o desenrolar singular de um acontecimento", escreve o historiador.
Foucault tampouco seria um relativista, como alguns costumam tachá-lo, mas sim um "perspectivista", na linhagem nietzschiana, empenhado em libertar o pensamento de sua sujeição a estas quatro ilusões: "a adequação, o universal, o racional e o transcendental". Segundo Veyne, "Foucault sugeriu imprudentemente que em nossa época a humanidade estava começando a aprender que podia viver sem mitos, sem religião e sem filosofia, sem verdades gerais sobre si mesma. Era essa a revolução nietzschiana, da qual ele estimava ser um continuador."
DECISIONISMO INDIVIDUAL
O historiador descreve Foucault como um sujeito avesso às ideologias, inclusive à marxista, adepto de um "decisionismo individual", que lhe "dispensava de fundamentar suas ações militantes na verdade, na doutrina". Ele diz: "O foucaltianismo é uma crítica da atualidade que se esquiva de ditar prescrições para a ação, mas fornece-lhe conhecimentos." Misto de esgrimista e samurai, na definição do historiador, o filósofo também teria sido um "astuto", que preferiu ficar próximo dos militantes de esquerda sobretudo porque entre eles "podia encontrar companheiros para suas lutas pontuais".
Diz Veyne: "Esse pretenso esquerdista, que não era nem freudiano, nem marxista, nem socialista, nem progressista, nem terceiro-mundista, nem heideggeriano, que não lia nem Bourdieu, nem 'Le Figaro', que não era nem 'nietzschiano de esquerda', nem, aliás, de direita, foi o inatual, o intempestivo de sua época, para retomar com justiça um termo nietzschiano". Declaração polêmica, que deve incomodar -como outras de Veyne- foulcaultianos e antifoulcaultianos radicais, mas que ajuda a explicar por que é tão difícil obter a paz do consenso em relação a este filósofo que buscou construir seu pensamento além do bem e do mal.
Fonte: FSP
domingo, 22 de maio de 2011
Mestiçagens da língua (José de Souza Martins)
É falso que a 'classe dominante' use a norma culta, como é falso o contrário em relação aos 'dominados'
Quando em 1727 o rei de Portugal proibiu que no Brasil se falasse a língua brasileira, a chamada língua geral, o nheengatu, é que começou a disseminação forçada do português como língua do País, uma língua estrangeira. O português formal só lentamente foi se impondo ao falar e escrever dos brasileiros, como língua de domínio colonial, tendo sido até então apenas língua de repartição pública. A discrepância entre a língua escrita e a língua falada é entre nós consequência histórica dessa imposição, veto aos perigos políticos de uma língua potencialmente nacional, imenso risco para a dominação portuguesa.
Agregue-se a isso, a proibição, com o advento da Revolução de Outubro de 1930, das línguas e dialetos originais falados por milhões de descendentes de imigrantes estrangeiros, especialmente italianos e alemães, vindos para o Brasil, com passagem paga pelo governo daqui, para suprir a carência de mão de obra decorrente da proibição do tráfico negreiro e da abolição da escravatura. Proibição que teve em vista forçar a disseminação, também no cotidiano, de uma língua nacional. Ficou nas exigências linguísticas do ensino formal essa herança de um período de autoritarismo político. Reconheça-se, entretanto, que nosso bilinguismo cimentou nossa unidade nacional, a despeito dos sotaques de múltiplas e suaves resistências a imposições oriundas de várias épocas.
Da repressão linguística ficaram sotaques na fala em português, e mesmo erros de escrita, e até curiosos detalhes: entre descendentes de alemães no Sul é fácil perceber o desencontro entre a respiração e a fala. Os falantes ainda respiram em função dos requisitos respiratórios da língua alemã quando falam em português, o que impõe à fala uma notória dificuldade rítmica. A mesma coisa constatou um linguista e musicólogo austríaco, Gehard Kubik, um dos estudiosos da língua dos negros da comunidade do Cafundó, na região de Sorocaba. Identificando-os como bantos, Kubik comparou seus ritmos respiratórios e gestuais aos dessas populações na África, regulados pelo pilar dos cereais, as mulheres com as crianças atadas às costas, respirando no mesmo ritmo das mães mesmo antes de aprenderem a falar. Dos últimos trazidos ao Brasil, no fim do tráfico, em 1850, os negros do Cafundó conservam essa espécie de DNA da língua.
Uma decorrência da proibição do nheengatu, que aliás, ainda se fala em várias regiões do Brasil, é que quase todos nós escrevemos o português da norma culta, mas falamos português, cotidianamente, com sotaque nheengatu. É o que se nota no deleite em pronunciar as vogais, em oposição ao português de muitas regiões de Portugal, de verdadeira aversão às vogais. Lá se fala "flor", aqui se fala "fulô"; lá "orelha", aqui muitos ainda dizem "oreia". Aqui evitamos os infinitivos com os nossos "está", "falá", "cantá" ou com reduções como "tá", "tô", "né". Sem contar o caso emblemático do "você", incorporado à fala gramaticalmente correta, mas que é deturpação nheengatu do "Vossa Mercê", da sociedade colonial e estamental, os cativos e os ínfimos, ainda que livres, pondo-se de pé e tirando o chapéu para dirigir-se às pessoas socialmente superiores. Tratamento que teve duplo percurso: na cidade virou "você", na roça e nas regiões caipiras virou "mecê". Nas cidades o "você" tornou-se pronome substituto do "tu", da segunda pessoa do singular. Na roça, o "mecê" ainda é tratamento de terceira pessoa, resquício de hierarquias sociais antigas, ficando para a segunda pessoa a variante "ocê" ou o "vancê".
No livro questionado, porém, o reconhecimento da legitimidade da fala popular se baseia numa premissa completamente falsa: "A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros". É falso que a "classe dominante" use a norma culta. Frequentemente, empresários urbanos e rurais tropeçam nas normas da língua. Basta acompanhar falas e debates da Câmara e do Senado para testemunhar o reiterado atropelo de nossa língua nacional pela elite do poder. Sem contar que durante oito anos um presidente da República valeu-se de suas próprias regras linguísticas para falar à nação e ao mundo.
É falso, também, o contrário, em relação aos "dominados". Pesquisador em áreas sertanejas do país, durante muito tempo ouvi suas maravilhosas alocuções, sobretudo de analfabetos, no Maranhão, no interior de Minas e de São Paulo, no sertão do Nordeste, de Goiás, do Mato Grosso, do Pará, falando um português impecável, belo, rebuscado, barroco, a mesma língua dos sermões do padre Vieira. Ainda me lembro da resposta de um morador de povoado do sertão maranhense, um negro velho, de postura e viso patriarcais, a barba longa, mas rala, quando lhe perguntei se tinha chegado ali com toda sua família: "Não, meu senhor. Eu vim pr"aqui com toda minha linhagem".
JOSÉ DE SOUZA MARTINS, PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, É AUTOR DE A SOCIABILIDADE DO HOMEM SIMPLES (CONTEXTO)
Quando em 1727 o rei de Portugal proibiu que no Brasil se falasse a língua brasileira, a chamada língua geral, o nheengatu, é que começou a disseminação forçada do português como língua do País, uma língua estrangeira. O português formal só lentamente foi se impondo ao falar e escrever dos brasileiros, como língua de domínio colonial, tendo sido até então apenas língua de repartição pública. A discrepância entre a língua escrita e a língua falada é entre nós consequência histórica dessa imposição, veto aos perigos políticos de uma língua potencialmente nacional, imenso risco para a dominação portuguesa.
Agregue-se a isso, a proibição, com o advento da Revolução de Outubro de 1930, das línguas e dialetos originais falados por milhões de descendentes de imigrantes estrangeiros, especialmente italianos e alemães, vindos para o Brasil, com passagem paga pelo governo daqui, para suprir a carência de mão de obra decorrente da proibição do tráfico negreiro e da abolição da escravatura. Proibição que teve em vista forçar a disseminação, também no cotidiano, de uma língua nacional. Ficou nas exigências linguísticas do ensino formal essa herança de um período de autoritarismo político. Reconheça-se, entretanto, que nosso bilinguismo cimentou nossa unidade nacional, a despeito dos sotaques de múltiplas e suaves resistências a imposições oriundas de várias épocas.
Da repressão linguística ficaram sotaques na fala em português, e mesmo erros de escrita, e até curiosos detalhes: entre descendentes de alemães no Sul é fácil perceber o desencontro entre a respiração e a fala. Os falantes ainda respiram em função dos requisitos respiratórios da língua alemã quando falam em português, o que impõe à fala uma notória dificuldade rítmica. A mesma coisa constatou um linguista e musicólogo austríaco, Gehard Kubik, um dos estudiosos da língua dos negros da comunidade do Cafundó, na região de Sorocaba. Identificando-os como bantos, Kubik comparou seus ritmos respiratórios e gestuais aos dessas populações na África, regulados pelo pilar dos cereais, as mulheres com as crianças atadas às costas, respirando no mesmo ritmo das mães mesmo antes de aprenderem a falar. Dos últimos trazidos ao Brasil, no fim do tráfico, em 1850, os negros do Cafundó conservam essa espécie de DNA da língua.
Uma decorrência da proibição do nheengatu, que aliás, ainda se fala em várias regiões do Brasil, é que quase todos nós escrevemos o português da norma culta, mas falamos português, cotidianamente, com sotaque nheengatu. É o que se nota no deleite em pronunciar as vogais, em oposição ao português de muitas regiões de Portugal, de verdadeira aversão às vogais. Lá se fala "flor", aqui se fala "fulô"; lá "orelha", aqui muitos ainda dizem "oreia". Aqui evitamos os infinitivos com os nossos "está", "falá", "cantá" ou com reduções como "tá", "tô", "né". Sem contar o caso emblemático do "você", incorporado à fala gramaticalmente correta, mas que é deturpação nheengatu do "Vossa Mercê", da sociedade colonial e estamental, os cativos e os ínfimos, ainda que livres, pondo-se de pé e tirando o chapéu para dirigir-se às pessoas socialmente superiores. Tratamento que teve duplo percurso: na cidade virou "você", na roça e nas regiões caipiras virou "mecê". Nas cidades o "você" tornou-se pronome substituto do "tu", da segunda pessoa do singular. Na roça, o "mecê" ainda é tratamento de terceira pessoa, resquício de hierarquias sociais antigas, ficando para a segunda pessoa a variante "ocê" ou o "vancê".
No livro questionado, porém, o reconhecimento da legitimidade da fala popular se baseia numa premissa completamente falsa: "A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros". É falso que a "classe dominante" use a norma culta. Frequentemente, empresários urbanos e rurais tropeçam nas normas da língua. Basta acompanhar falas e debates da Câmara e do Senado para testemunhar o reiterado atropelo de nossa língua nacional pela elite do poder. Sem contar que durante oito anos um presidente da República valeu-se de suas próprias regras linguísticas para falar à nação e ao mundo.
É falso, também, o contrário, em relação aos "dominados". Pesquisador em áreas sertanejas do país, durante muito tempo ouvi suas maravilhosas alocuções, sobretudo de analfabetos, no Maranhão, no interior de Minas e de São Paulo, no sertão do Nordeste, de Goiás, do Mato Grosso, do Pará, falando um português impecável, belo, rebuscado, barroco, a mesma língua dos sermões do padre Vieira. Ainda me lembro da resposta de um morador de povoado do sertão maranhense, um negro velho, de postura e viso patriarcais, a barba longa, mas rala, quando lhe perguntei se tinha chegado ali com toda sua família: "Não, meu senhor. Eu vim pr"aqui com toda minha linhagem".
JOSÉ DE SOUZA MARTINS, PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, É AUTOR DE A SOCIABILIDADE DO HOMEM SIMPLES (CONTEXTO)
Um longo processo (Boris Fausto)
A decisão do Supremo Tribunal Federal, no corrente mês de maio, reconhecendo a união estável de casais do mesmo sexo constitui um salto no avanço dos direitos dos homossexuais e um indicador de amadurecimento de uma parte da sociedade brasileira.
São muitos os méritos da mais alta corte do País ao tomar essa decisão. Seria fácil a seus membros lavar as mãos e não conhecer as ações propostas pela Procuradoria da República e pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, sob a alegação de que a matéria dependia de lei de iniciativa do Congresso. Diante da inércia do Legislativo, neste e em outros casos de extrema relevância, o STF entendeu que a questão envolvia preceitos constitucionais básicos e deveria, assim, ser decidida em seu âmbito.
Outra razão que nos leva a enfatizar a importância do julgamento do STF reside no fato de que, para chegar à decisão, a nossa mais alta corte de Justiça seguiu uma linha de interpretação não literal da lei, harmonizando-a com as chamadas cláusulas pétreas da Constituição. Assentou o STF que o fato do Código Civil reconhecer como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher em nada impede a concessão do mesmo direito aos casais do mesmo sexo. Não é pouco, o que disseram os ministros, na votação da matéria. Exemplifico, com um pequeno trecho do voto do ministro Luiz Fux: "A união homoafetiva enquadra-se no conceito de família. A pretensão é que se confira juridicidade a essa união homoafetiva para que os homossexuais possam sair do segredo, sair do sigilo, vencer o ódio e a intolerância, em nome da lei".
Entretanto, não é possível afirmar que o julgado em exame veio referendar uma situação já admitida pela sociedade. É verdade que a aceitação de um comportamento afetivo diverso do padrão heterossexual vem ganhando certo grau de reconhecimento, pela via da ação das ONGs, por manifestações como as paradas gay que atraem milhões de pessoas, talvez pela ação educativa de certas escolas de ponta e ainda pela influência generalizada das novelas. Por exemplo, recentemente, um canal de televisão (SBT) projetou sem rodeios, numa de suas novelas, a imagem de um primeiro e longo beijo entre duas jovens lésbicas.
Admitido o avanço, é forçoso considerar que a decisão do STF não veio ao encontro de uma esmagadora maioria da opinião pública, como aconteceu com a lei do divórcio, aprovada curiosamente pelo Congresso, durante o regime militar, em dezembro de 1977. Em poucas palavras, naquele caso, a questão, que fora quente no passado, se tornara fria.
O reconhecimento da família homossexual divide as opiniões. Por um lado, para os setores mais conservadores da sociedade, para a Igreja Católica e outras igrejas, ela representa um terrível golpe na instituição da família, constituída por um homem e uma mulher, tal como se entendeu, ao longo dos séculos, no mundo ocidental.
Por outro lado, descartando-se o catastrofismo que acompanha as profundas transformações do comportamento, reconhecer a união de casais do mesmo sexo tem aspectos díspares. Ampliar o conceito tradicional de família constitui uma verdadeira revolução no plano dos fatos e do imaginário social. Ao mesmo tempo, estamos lidando com casais estáveis, cujo direitos devem ser reconhecidos, e não com "a marginalidade desviante". O vínculo estabelecido por esses casais é duradouro, embora ele possa romper-se, como ocorre com qualquer vínculo afetivo, mesmo sancionado pela lei e pelas bênçãos das igrejas.
A existência de um arraigado preconceito homofóbico em nossa sociedade é uma óbvia constatação. Lembremos a discriminação de que têm sido vítimas homossexuais praticantes de esportes coletivos, vaiados impiedosamente pelas torcidas adversárias, e as violentas agressões praticadas por grupos de jovens delinquentes nas ruas de nossas cidades. Num tom menor, porém mais generalizado, lembremos também as inúmeras piadas que tomam o homossexual (homem ou mulher) como personagem degradante.
Certamente, nem as decisões judiciais nem leis que vierem a ser aprovadas pelo Congresso, por mais importantes que sejam, farão desaparecer o preconceito. A questão é sabidamente complexa. Pensemos em certas situações extremas, que não são as de simples aceitação superficial dos homossexuais. Por exemplo, quantos pais e mães aceitam ou aceitariam, com tranquilidade, essa opção por parte de um de seus filhos?
Uma aceitação plena da diversidade sexual passa por um longo processo educativo que precisa encarar a questão, sem catastrofismo. A afirmação heterossexual da ampla maioria da sociedade decorre tanto de condições naturais como da construção de identidades. Afinal de contas, no terreno da afetividade, as fronteiras são menos nítidas do que muitos imaginam.
BORIS FAUSTO É HISTORIADOR, PROFESSOR APOSENTADO DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP E AUTOR DE A REVOLUÇÃO DE 30 - HISTORIOGRAFIA E HISTÓRIA (COMPANHIA DAS LETRAS)
Fonte: O Estado de São Paulo
São muitos os méritos da mais alta corte do País ao tomar essa decisão. Seria fácil a seus membros lavar as mãos e não conhecer as ações propostas pela Procuradoria da República e pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, sob a alegação de que a matéria dependia de lei de iniciativa do Congresso. Diante da inércia do Legislativo, neste e em outros casos de extrema relevância, o STF entendeu que a questão envolvia preceitos constitucionais básicos e deveria, assim, ser decidida em seu âmbito.
Outra razão que nos leva a enfatizar a importância do julgamento do STF reside no fato de que, para chegar à decisão, a nossa mais alta corte de Justiça seguiu uma linha de interpretação não literal da lei, harmonizando-a com as chamadas cláusulas pétreas da Constituição. Assentou o STF que o fato do Código Civil reconhecer como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher em nada impede a concessão do mesmo direito aos casais do mesmo sexo. Não é pouco, o que disseram os ministros, na votação da matéria. Exemplifico, com um pequeno trecho do voto do ministro Luiz Fux: "A união homoafetiva enquadra-se no conceito de família. A pretensão é que se confira juridicidade a essa união homoafetiva para que os homossexuais possam sair do segredo, sair do sigilo, vencer o ódio e a intolerância, em nome da lei".
Entretanto, não é possível afirmar que o julgado em exame veio referendar uma situação já admitida pela sociedade. É verdade que a aceitação de um comportamento afetivo diverso do padrão heterossexual vem ganhando certo grau de reconhecimento, pela via da ação das ONGs, por manifestações como as paradas gay que atraem milhões de pessoas, talvez pela ação educativa de certas escolas de ponta e ainda pela influência generalizada das novelas. Por exemplo, recentemente, um canal de televisão (SBT) projetou sem rodeios, numa de suas novelas, a imagem de um primeiro e longo beijo entre duas jovens lésbicas.
Admitido o avanço, é forçoso considerar que a decisão do STF não veio ao encontro de uma esmagadora maioria da opinião pública, como aconteceu com a lei do divórcio, aprovada curiosamente pelo Congresso, durante o regime militar, em dezembro de 1977. Em poucas palavras, naquele caso, a questão, que fora quente no passado, se tornara fria.
O reconhecimento da família homossexual divide as opiniões. Por um lado, para os setores mais conservadores da sociedade, para a Igreja Católica e outras igrejas, ela representa um terrível golpe na instituição da família, constituída por um homem e uma mulher, tal como se entendeu, ao longo dos séculos, no mundo ocidental.
Por outro lado, descartando-se o catastrofismo que acompanha as profundas transformações do comportamento, reconhecer a união de casais do mesmo sexo tem aspectos díspares. Ampliar o conceito tradicional de família constitui uma verdadeira revolução no plano dos fatos e do imaginário social. Ao mesmo tempo, estamos lidando com casais estáveis, cujo direitos devem ser reconhecidos, e não com "a marginalidade desviante". O vínculo estabelecido por esses casais é duradouro, embora ele possa romper-se, como ocorre com qualquer vínculo afetivo, mesmo sancionado pela lei e pelas bênçãos das igrejas.
A existência de um arraigado preconceito homofóbico em nossa sociedade é uma óbvia constatação. Lembremos a discriminação de que têm sido vítimas homossexuais praticantes de esportes coletivos, vaiados impiedosamente pelas torcidas adversárias, e as violentas agressões praticadas por grupos de jovens delinquentes nas ruas de nossas cidades. Num tom menor, porém mais generalizado, lembremos também as inúmeras piadas que tomam o homossexual (homem ou mulher) como personagem degradante.
Certamente, nem as decisões judiciais nem leis que vierem a ser aprovadas pelo Congresso, por mais importantes que sejam, farão desaparecer o preconceito. A questão é sabidamente complexa. Pensemos em certas situações extremas, que não são as de simples aceitação superficial dos homossexuais. Por exemplo, quantos pais e mães aceitam ou aceitariam, com tranquilidade, essa opção por parte de um de seus filhos?
Uma aceitação plena da diversidade sexual passa por um longo processo educativo que precisa encarar a questão, sem catastrofismo. A afirmação heterossexual da ampla maioria da sociedade decorre tanto de condições naturais como da construção de identidades. Afinal de contas, no terreno da afetividade, as fronteiras são menos nítidas do que muitos imaginam.
BORIS FAUSTO É HISTORIADOR, PROFESSOR APOSENTADO DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP E AUTOR DE A REVOLUÇÃO DE 30 - HISTORIOGRAFIA E HISTÓRIA (COMPANHIA DAS LETRAS)
Fonte: O Estado de São Paulo
Bin Laden e o martírio (Roberto Romano)
Morto Osama bin Laden, importa dissecar a lógica do martírio que orientou os seus atos. O termo vem do grego e significa "testemunho". Ele se liga às técnicas para encontrar a verdade em processos jurídicos.
O testemunho obrigatório e sob tortura surge na democrática Atenas, cujos cidadãos não poderiam ser maltratados fisicamente para confessar malfeitos. O tormento sobrava para os escravos e, em alguns casos, para os estrangeiros. O escravo que mentia não estava submetido, como o seu proprietário, às penalidades contra o perjúrio.
Tortura e testemunho ligam-se, por metáfora, à pedra usada pelos ourives para testar e aprimorar peças de ouro. As sevícias teriam a virtude de provar a fala verdadeira. Tratava-se, literalmente, de conseguir a justiça com a mão do gato: as partes, nos tribunais, eram demasiado nobres para serem estraçalhadas em processos polêmicos. A decisão judicial vinha com os martírios, que, não raro, conduziam os escravos à morte horripilante.
Na vida cristã foi preservada a significação de sofrimento no testemunho. Nos Atos dos Apóstolos (1, 8) os cristãos recebem o título de mártires que deveriam dizer a verdade trazida pelo Deus morto e ressuscitado. O testemunho, no caso, não requer necessariamente a morte e o sofrimento do fiel. Quando, no entanto, chegam o trespasso e a dor, eles evidenciam a verdade evangélica. Na Igreja primitiva o martírio, gerador de novos adeptos, recebeu sua fórmula em Tertuliano: "O sangue das testemunhas é semente de cristãos" (Apologético, 50).
No Islã, o martírio é entendido no contexto da guerra santa. Esta, por sua vez, se liga à doutrina que ensina a distinguir o bem e o mal segundo a luz divina, cuja mensagem foi transmitida pela profecia autorizada. O martírio deve ser percebido na submissão à vontade suprema de Alá. Quem morre para manter e ampliar a fé, com sofrimento na jihad, sobe ao paraíso.
No judaísmo não existe a busca do martírio como instrumento de propagação da fé. Nele, o povo de Israel deve buscar, sobretudo, a vida. E, no entanto, o valor dos mártires é imenso na História e na cultura judaicas.
Spinoza lembrou a Albert Burgh, jovem e fanático, convertido ao catolicismo, que não apenas na Igreja cristã os martírios chegam aos milhares. Mesmo os fariseus, diz o filósofo, contam em sua grei com miríades de testemunhas. Na carta em que se defende de ser aliado do demônio, Spinoza toca na essência das relações entre a fé e o saber científico. Burgh lhe perguntara, visto que nosso pensador não confiava nos mártires como caminho para chegar ao verdadeiro, como distinguir a péssima da melhor filosofia. Resposta: "Não encontrei a melhor, mas a verdadeira. E você me pergunta como o sei. De maneira igual à usada por você para saber que os três ângulos de um triângulo igualam dois retos. E ninguém dirá que isso não basta".
Quem acredita no martírio o faz por ouvir dizer, a maneira mais baixa de se atingir o conhecimento. Temos aí a diferença entre o martírio e a procura da verdade científica. Esta última não requer demônios, paraísos, recompensas, torturas, guerras. "A verdade é índice de si mesma, e do falso": tal é o núcleo spinozano do pensamento moderno, que recusa, como prova, o sangue derramado. No caso de Galileu, o martírio não foi o alvo, pois as suas provas são estranhas às formas geométricas e físicas. "Não preciso de tal hipótese", disse um dia Laplace a Napoleão, que lhe perguntou sobre o divino em seu sistema astronômico.
O marxismo, na sua origem, exacerbou o ideal científico. Mas seguiu rumo inverso ao criar mitologias e místicas cuja base principal se encontrava no martírio. A verdade emanaria das oniscientes direções, o Comitê Central. Este, por sua vez, tinha profetas e sacerdotes em Lenin e Stalin. A ciência foi abandonada em favor do "materialismo histórico e dialético". E Lyssenko acelerou a ruína da União Soviética com uma "genética" cujos fundamentos eram ideológicos, ou religiosos. Outra forma de martírio era praticada nos campos de concentração e nas celas da KGB. Tudo para testemunhar a glória do Estado proletário.
Divinizados os dirigentes - "O Sol é mais luminoso que as estrelas e a Lua, mas teu espírito, Stalin, é mais luminoso do que o Sol!", entoava Zozulia Tchachikov em 1937 -, os militantes transformaram-se em mártires da "causa". A história de Fan Chji Min é exemplar. Membro do Exército Vermelho chinês morto pelos nacionalistas, ele tornou possível que "nas posições de combate da frente de libertação milhares de Fan Chji Min legendários realizem milagres de valor e intrepidez". Tal hagiografia circulou na esquerda. O capitalismo de Estado que vigora hoje na China, e não hesita em transformar pessoas em escravas passíveis de serem torturadas, mostra o terrível delírio que gerou os Fan Chji Min.
O sangue dos mártires é semente. Nos partidos totalitários e terroristas do século 21, e até em Estados orgulhosos de sua democracia, o culto dos heróis justiceiros hipnotiza os incautos. O inimigo mais impiedoso é o educado para o martírio: ele decreta a morte alheia em nome da História ou do ser divino. O sangue, diz com a lucidez nele costumeira Friedrich Nietzsche, "é a pior testemunha da verdade, ele envenena a doutrina mais pura e a transforma em loucura, um ódio no fundo dos corações".
Enquanto existirem mártires, persistirão zonas de ódio nas sociedades. Em vez de caluniar a ciência, nela podemos reunir sinais de saúde espiritual, contra a loucura do fanatismo. O uso da tecnologia como arma vem mais das religiões, que a empregam para conquistar novos fiéis, novos mártires (agora mesmo, no Irã), ou das crenças ideológicas e políticas.
No Brasil, podemos escapar do martírio em massa. Mas o tempo está se esgotando.
FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP), É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ''O CALDEIRÃO DE MEDEIA'' (PERSPECTIVA)
Fonte: O Estado de São Paulo
O testemunho obrigatório e sob tortura surge na democrática Atenas, cujos cidadãos não poderiam ser maltratados fisicamente para confessar malfeitos. O tormento sobrava para os escravos e, em alguns casos, para os estrangeiros. O escravo que mentia não estava submetido, como o seu proprietário, às penalidades contra o perjúrio.
Tortura e testemunho ligam-se, por metáfora, à pedra usada pelos ourives para testar e aprimorar peças de ouro. As sevícias teriam a virtude de provar a fala verdadeira. Tratava-se, literalmente, de conseguir a justiça com a mão do gato: as partes, nos tribunais, eram demasiado nobres para serem estraçalhadas em processos polêmicos. A decisão judicial vinha com os martírios, que, não raro, conduziam os escravos à morte horripilante.
Na vida cristã foi preservada a significação de sofrimento no testemunho. Nos Atos dos Apóstolos (1, 8) os cristãos recebem o título de mártires que deveriam dizer a verdade trazida pelo Deus morto e ressuscitado. O testemunho, no caso, não requer necessariamente a morte e o sofrimento do fiel. Quando, no entanto, chegam o trespasso e a dor, eles evidenciam a verdade evangélica. Na Igreja primitiva o martírio, gerador de novos adeptos, recebeu sua fórmula em Tertuliano: "O sangue das testemunhas é semente de cristãos" (Apologético, 50).
No Islã, o martírio é entendido no contexto da guerra santa. Esta, por sua vez, se liga à doutrina que ensina a distinguir o bem e o mal segundo a luz divina, cuja mensagem foi transmitida pela profecia autorizada. O martírio deve ser percebido na submissão à vontade suprema de Alá. Quem morre para manter e ampliar a fé, com sofrimento na jihad, sobe ao paraíso.
No judaísmo não existe a busca do martírio como instrumento de propagação da fé. Nele, o povo de Israel deve buscar, sobretudo, a vida. E, no entanto, o valor dos mártires é imenso na História e na cultura judaicas.
Spinoza lembrou a Albert Burgh, jovem e fanático, convertido ao catolicismo, que não apenas na Igreja cristã os martírios chegam aos milhares. Mesmo os fariseus, diz o filósofo, contam em sua grei com miríades de testemunhas. Na carta em que se defende de ser aliado do demônio, Spinoza toca na essência das relações entre a fé e o saber científico. Burgh lhe perguntara, visto que nosso pensador não confiava nos mártires como caminho para chegar ao verdadeiro, como distinguir a péssima da melhor filosofia. Resposta: "Não encontrei a melhor, mas a verdadeira. E você me pergunta como o sei. De maneira igual à usada por você para saber que os três ângulos de um triângulo igualam dois retos. E ninguém dirá que isso não basta".
Quem acredita no martírio o faz por ouvir dizer, a maneira mais baixa de se atingir o conhecimento. Temos aí a diferença entre o martírio e a procura da verdade científica. Esta última não requer demônios, paraísos, recompensas, torturas, guerras. "A verdade é índice de si mesma, e do falso": tal é o núcleo spinozano do pensamento moderno, que recusa, como prova, o sangue derramado. No caso de Galileu, o martírio não foi o alvo, pois as suas provas são estranhas às formas geométricas e físicas. "Não preciso de tal hipótese", disse um dia Laplace a Napoleão, que lhe perguntou sobre o divino em seu sistema astronômico.
O marxismo, na sua origem, exacerbou o ideal científico. Mas seguiu rumo inverso ao criar mitologias e místicas cuja base principal se encontrava no martírio. A verdade emanaria das oniscientes direções, o Comitê Central. Este, por sua vez, tinha profetas e sacerdotes em Lenin e Stalin. A ciência foi abandonada em favor do "materialismo histórico e dialético". E Lyssenko acelerou a ruína da União Soviética com uma "genética" cujos fundamentos eram ideológicos, ou religiosos. Outra forma de martírio era praticada nos campos de concentração e nas celas da KGB. Tudo para testemunhar a glória do Estado proletário.
Divinizados os dirigentes - "O Sol é mais luminoso que as estrelas e a Lua, mas teu espírito, Stalin, é mais luminoso do que o Sol!", entoava Zozulia Tchachikov em 1937 -, os militantes transformaram-se em mártires da "causa". A história de Fan Chji Min é exemplar. Membro do Exército Vermelho chinês morto pelos nacionalistas, ele tornou possível que "nas posições de combate da frente de libertação milhares de Fan Chji Min legendários realizem milagres de valor e intrepidez". Tal hagiografia circulou na esquerda. O capitalismo de Estado que vigora hoje na China, e não hesita em transformar pessoas em escravas passíveis de serem torturadas, mostra o terrível delírio que gerou os Fan Chji Min.
O sangue dos mártires é semente. Nos partidos totalitários e terroristas do século 21, e até em Estados orgulhosos de sua democracia, o culto dos heróis justiceiros hipnotiza os incautos. O inimigo mais impiedoso é o educado para o martírio: ele decreta a morte alheia em nome da História ou do ser divino. O sangue, diz com a lucidez nele costumeira Friedrich Nietzsche, "é a pior testemunha da verdade, ele envenena a doutrina mais pura e a transforma em loucura, um ódio no fundo dos corações".
Enquanto existirem mártires, persistirão zonas de ódio nas sociedades. Em vez de caluniar a ciência, nela podemos reunir sinais de saúde espiritual, contra a loucura do fanatismo. O uso da tecnologia como arma vem mais das religiões, que a empregam para conquistar novos fiéis, novos mártires (agora mesmo, no Irã), ou das crenças ideológicas e políticas.
No Brasil, podemos escapar do martírio em massa. Mas o tempo está se esgotando.
FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP), É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ''O CALDEIRÃO DE MEDEIA'' (PERSPECTIVA)
Fonte: O Estado de São Paulo
Informação é preciosa para negócios (entrevista Carlos Lessa)
Ex-presidente do BNDES na primeira gestão Lula diz que empresas pagam pelas relações de um[br]ex-ministro ou diretor
Luciana Nunes Leal
ENTREVISTA - Carlos Lessa, Ex-presidente do BNDES
Presidente do BNDES entre janeiro de 2003 e novembro de 2004, no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o economista Carlos Lessa diz que ficou "muito irritado" ao tomar conhecimento do argumento de Antonio Palocci de que a passagem pelo Ministério da Fazenda, o BNDES ou o Banco Central "proporciona uma experiência única que dá enorme valor a estes profissionais no mercado".
Embora não tenha sido citado pelo ministro, Lessa diz que não aceita ser jogado "na vala comum". O economista conta que fez uma única palestra para uma empresa privada, pela qual cobrou R$ 4 mil, "para ajudar no armazém", brinca.
O sr. recebeu convites para atuar como consultor depois de deixar o BNDES?
Nunca fui convidado para ser membro de conselho de empresa privada, prestar consultoria etc. O setor privado sabe que eu jamais usaria minhas relações para facilitar negócios.
Geralmente é esse o objetivo?
É evidente que todo homem que teve função importante na máquina pública tem enormes contatos. Ele tem a possibilidade da inside information, que é a coisa mais preciosa que existe no mundo de negócios. Se você fizer uma lista dos milionários que surgiram a partir dessas presidências e diretorias (de bancos estatais e ministérios), é impressionante.
A nota da Casa Civil disse que isso era comum. É um caminho natural?
Fiquei muito irritado quando o Palocci disse que qualquer um cai nisso. Eu não caio. Fui colocado em uma vala comum. Não há nada mais precioso do que os cadernos de contatos que você tem. Isso faz com que o currículo de quem sai da máquina pública tenha muito valor. Não acho que o Palocci esteja dizendo qualquer mentira, não. Ele deve mesmo ter ganho muito dinheiro honestamente...
O sr. considera que o dinheiro foi ganho honestamente?
Não posso fazer julgamento moral. Em qualquer dessas coisas existe quem paga e quem recebe. A imoralidade é uma parceria. A empresa privada não paga pela competência, paga por tudo isso que eu falei.
Ex-ocupantes de cargos tão importantes são pessoas experientes. As empresas não podem estar interessadas nisso?
Experiência sim, mas não técnica e conceitual. É principalmente a capacidade que o cara tem de andar por dentro da máquina pública. O cliente está pagando US$ 100 mil por uma conferência para quê? É muito claro.
Sua tese vale também para ex-presidentes da República?
Não posso afirmar categoricamente. Em última instância, a empresa diz "sou amiga e conhecida do presidente, sou íntima do presidente". É complicado, mas é da regra do jogo. Não jogo isso, mas não vou condenar quem faz.
O senhor disse que cobrou por uma única palestra depois de deixar o BNDES. Como foi?
Fiz uma palestra sobre crise mundial, coisa de que eu entendo como economista. Normalmente, faço conferência de graça porque as instituições que me convidam são pobres. Como era uma instituição que tem caixa, cobrei R$ 4 mil. Para ajudar no armazém.
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO
Luciana Nunes Leal
ENTREVISTA - Carlos Lessa, Ex-presidente do BNDES
Presidente do BNDES entre janeiro de 2003 e novembro de 2004, no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o economista Carlos Lessa diz que ficou "muito irritado" ao tomar conhecimento do argumento de Antonio Palocci de que a passagem pelo Ministério da Fazenda, o BNDES ou o Banco Central "proporciona uma experiência única que dá enorme valor a estes profissionais no mercado".
Embora não tenha sido citado pelo ministro, Lessa diz que não aceita ser jogado "na vala comum". O economista conta que fez uma única palestra para uma empresa privada, pela qual cobrou R$ 4 mil, "para ajudar no armazém", brinca.
O sr. recebeu convites para atuar como consultor depois de deixar o BNDES?
Nunca fui convidado para ser membro de conselho de empresa privada, prestar consultoria etc. O setor privado sabe que eu jamais usaria minhas relações para facilitar negócios.
Geralmente é esse o objetivo?
É evidente que todo homem que teve função importante na máquina pública tem enormes contatos. Ele tem a possibilidade da inside information, que é a coisa mais preciosa que existe no mundo de negócios. Se você fizer uma lista dos milionários que surgiram a partir dessas presidências e diretorias (de bancos estatais e ministérios), é impressionante.
A nota da Casa Civil disse que isso era comum. É um caminho natural?
Fiquei muito irritado quando o Palocci disse que qualquer um cai nisso. Eu não caio. Fui colocado em uma vala comum. Não há nada mais precioso do que os cadernos de contatos que você tem. Isso faz com que o currículo de quem sai da máquina pública tenha muito valor. Não acho que o Palocci esteja dizendo qualquer mentira, não. Ele deve mesmo ter ganho muito dinheiro honestamente...
O sr. considera que o dinheiro foi ganho honestamente?
Não posso fazer julgamento moral. Em qualquer dessas coisas existe quem paga e quem recebe. A imoralidade é uma parceria. A empresa privada não paga pela competência, paga por tudo isso que eu falei.
Ex-ocupantes de cargos tão importantes são pessoas experientes. As empresas não podem estar interessadas nisso?
Experiência sim, mas não técnica e conceitual. É principalmente a capacidade que o cara tem de andar por dentro da máquina pública. O cliente está pagando US$ 100 mil por uma conferência para quê? É muito claro.
Sua tese vale também para ex-presidentes da República?
Não posso afirmar categoricamente. Em última instância, a empresa diz "sou amiga e conhecida do presidente, sou íntima do presidente". É complicado, mas é da regra do jogo. Não jogo isso, mas não vou condenar quem faz.
O senhor disse que cobrou por uma única palestra depois de deixar o BNDES. Como foi?
Fiz uma palestra sobre crise mundial, coisa de que eu entendo como economista. Normalmente, faço conferência de graça porque as instituições que me convidam são pobres. Como era uma instituição que tem caixa, cobrei R$ 4 mil. Para ajudar no armazém.
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO
Presidente, diga a que veio (Suely Caldas)
Uma boa notícia no front: o governo federal espera concluir e enviar ao Congresso, até junho, proposta para desonerar a folha de salários das empresas. A ideia é trocar um imposto (parte da contribuição previdenciária) por outro (sobre o faturamento da empresa). Não será mera troca de seis por meia dúzia, se tal exercício matemático for feito com inteligência e resultar em justiça tributária, distribuição mais equilibrada de encargos entre diferentes setores da economia e se o governo não aproveitar para enriquecer seu caixa.
A desoneração da folha é parte relevante das reformas trabalhista e tributária: ajuda a incluir trabalhadores hoje excluídos de direitos, reduz o custo das empresas de produzir no Brasil, atrai investimentos privados e expande o emprego. É tudo de bom, desde que feita com equilíbrio e cuidado para não piorar o déficit da Previdência e, ainda, não aumentar a já pesada carga tributária. É boa a ideia de diferenciar alíquotas do novo imposto por setores, desonerando exportadores e os que usam mão de obra intensiva e onerando os de capital intensivo que geram menos empregos. É algo na direção de melhor justiça tributária. Mas esperemos as regras. A ver.
A presidente Dilma Rousseff quer usar a estratégia de tocar as reformas em fatias, em vez de apresentar pacotes acabados. A primeira fatia é a da folha de salários. Trata-se de uma estratégia pragmática que tenta anular trapalhadas do passado do PT de demonizar as reformas. Mas não está nos planos de Dilma mudar regras - nem pontuais nem empacotadas - para desarmar a bomba que a cada ano multiplica o déficit previdenciário. A reforma da Previdência é difícil, é verdade, mas tocá-la é obrigação de um governante consciente e responsável, que não mira só sua popularidade. E, quanto mais demorar, pior será para um país como o Brasil, onde a população idosa (felizmente) tem crescido de forma acelerada. Os países europeus demoraram e hoje enfrentam oposição agressiva nas ruas e falta de dinheiro para pagar aposentadorias.
A decisão de reduzir o custo do trabalho deve ser festejada nem tanto pelo conteúdo das mudanças - ainda pouco conhecidas e não testadas -, e mais pela atitude de agir de olho no futuro, corrigindo estruturas que o tempo tornou ultrapassadas. Falta ao governo Dilma um programa, um rumo na direção de modernizar certas estruturas do País - o que FHC começou, mas não teve tempo de terminar, e Lula simplesmente ignorou, movido pelo interesse político de não abalar sua sagrada popularidade.
Dilma tem só cinco meses de governo. Mas já deveria ter apresentado aos brasileiros um plano de voo que seja - que pode até mudar de rota aqui e ali, mas é essencial para orientar decisões privadas que empurrem o País ao progresso. Seu anúncio era esperado na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), no final de abril, mas Dilma se limitou a divulgar os programas de erradicação da pobreza e capacitação profissional. Deixou de fora o saneamento básico, de que a população pobre é tão carente.
Seu governo deve ao País um programa de desenvolvimento focado, sobretudo, em remover os gargalos na infraestrutura, obstáculos ao tão proclamado desenvolvimento sustentado, sem riscos de recuos. Nesse setor a impressão é de que o governo age desorientado, a reboque dos acontecimentos, sempre correndo para apagar incêndio. É o caso dos aeroportos: Lula deixou rolar e nada fez, Dilma demorou a descobrir que a Infraero não dava conta, decidiu privatizar faltando três anos para a Copa e, agora, vive a encrenca de não conseguir concluir as obras a tempo. Em vez de reduzir, surpreende-se com um crescimento acelerado do desmatamento na Amazônia e corre para criar um gabinete de crise. Deixa a inflação prosperar e, diante da ameaça de descontrole, recorre a paliativos, não ataca o mal pela raiz.
Lula fez quase nada em infraestrutura. Politizou as agências reguladoras, transferiu poder para os ministérios e daí mesmo é que não saiu nada para melhorar a regulação e fomentar o investimento privado. Está na hora de Dilma dizer a que veio.
Jornalista, é professora da PUC-Rio
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO
A desoneração da folha é parte relevante das reformas trabalhista e tributária: ajuda a incluir trabalhadores hoje excluídos de direitos, reduz o custo das empresas de produzir no Brasil, atrai investimentos privados e expande o emprego. É tudo de bom, desde que feita com equilíbrio e cuidado para não piorar o déficit da Previdência e, ainda, não aumentar a já pesada carga tributária. É boa a ideia de diferenciar alíquotas do novo imposto por setores, desonerando exportadores e os que usam mão de obra intensiva e onerando os de capital intensivo que geram menos empregos. É algo na direção de melhor justiça tributária. Mas esperemos as regras. A ver.
A presidente Dilma Rousseff quer usar a estratégia de tocar as reformas em fatias, em vez de apresentar pacotes acabados. A primeira fatia é a da folha de salários. Trata-se de uma estratégia pragmática que tenta anular trapalhadas do passado do PT de demonizar as reformas. Mas não está nos planos de Dilma mudar regras - nem pontuais nem empacotadas - para desarmar a bomba que a cada ano multiplica o déficit previdenciário. A reforma da Previdência é difícil, é verdade, mas tocá-la é obrigação de um governante consciente e responsável, que não mira só sua popularidade. E, quanto mais demorar, pior será para um país como o Brasil, onde a população idosa (felizmente) tem crescido de forma acelerada. Os países europeus demoraram e hoje enfrentam oposição agressiva nas ruas e falta de dinheiro para pagar aposentadorias.
A decisão de reduzir o custo do trabalho deve ser festejada nem tanto pelo conteúdo das mudanças - ainda pouco conhecidas e não testadas -, e mais pela atitude de agir de olho no futuro, corrigindo estruturas que o tempo tornou ultrapassadas. Falta ao governo Dilma um programa, um rumo na direção de modernizar certas estruturas do País - o que FHC começou, mas não teve tempo de terminar, e Lula simplesmente ignorou, movido pelo interesse político de não abalar sua sagrada popularidade.
Dilma tem só cinco meses de governo. Mas já deveria ter apresentado aos brasileiros um plano de voo que seja - que pode até mudar de rota aqui e ali, mas é essencial para orientar decisões privadas que empurrem o País ao progresso. Seu anúncio era esperado na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), no final de abril, mas Dilma se limitou a divulgar os programas de erradicação da pobreza e capacitação profissional. Deixou de fora o saneamento básico, de que a população pobre é tão carente.
Seu governo deve ao País um programa de desenvolvimento focado, sobretudo, em remover os gargalos na infraestrutura, obstáculos ao tão proclamado desenvolvimento sustentado, sem riscos de recuos. Nesse setor a impressão é de que o governo age desorientado, a reboque dos acontecimentos, sempre correndo para apagar incêndio. É o caso dos aeroportos: Lula deixou rolar e nada fez, Dilma demorou a descobrir que a Infraero não dava conta, decidiu privatizar faltando três anos para a Copa e, agora, vive a encrenca de não conseguir concluir as obras a tempo. Em vez de reduzir, surpreende-se com um crescimento acelerado do desmatamento na Amazônia e corre para criar um gabinete de crise. Deixa a inflação prosperar e, diante da ameaça de descontrole, recorre a paliativos, não ataca o mal pela raiz.
Lula fez quase nada em infraestrutura. Politizou as agências reguladoras, transferiu poder para os ministérios e daí mesmo é que não saiu nada para melhorar a regulação e fomentar o investimento privado. Está na hora de Dilma dizer a que veio.
Jornalista, é professora da PUC-Rio
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO
Ministério da Desigualdade (Rolf Kuntz)
O nome oficial é Ministério da Educação, mas podem chamá-lo Ministério da Desigualdade. Ministério da Incompetência também serve: a palavra tanto se aplica à atuação de seus dirigentes quanto se aplicará à condição das vítimas do padrão educacional proposto no livro Por Uma Vida Melhor, comprado e distribuído pelo governo. A presidente Dilma Rousseff prometeu trabalhar pela redução da miséria. Se quiser fazê-lo, terá de cuidar da qualificação de milhões de brasileiros para o trabalho. Mais que isso, terá de promover sua preparação para trabalhar numa economia cada vez mais complexa e exposta à competição internacional. Tratar os pobres como coitadinhos e incapazes conduzirá ao resultado oposto. Se há preconceito, não é de quem considera errada a violação da gramática. Preconceituoso e elitista é quem condena o pobre a uma instrução de baixa qualidade e ainda o aconselha a contentar-se com isso.
Os problemas de formação profissional e o mau desempenho dos alunos brasileiros em testes de avaliação foram apontados com suficiente clareza em artigo de Carlos Alberto Sardenberg, publicado anteontem neste caderno. Concorrentes do Brasil, incluída a China, estão empenhados em oferecer uma educação muito melhor a seus estudantes. Em vez de tratar os pobres como inferiores, autoridades educacionais desses países cuidam de prepará-los para se igualar aos melhores do mundo.
Não é preciso insistir nesse ponto. Mas é indispensável chamar a atenção para a concorrência em outro nível. No Brasil, quem tem bom senso e condição econômica tenta oferecer aos filhos a melhor educação possível. Pais instruídos procuram boas escolas e valorizam aquelas conhecidas pelo alto padrão de exigência. Rejeitam a ideia do diploma conquistado pelo caminho fácil. Além disso, estimulam os filhos a frequentar cursos de línguas e a envolver-se em atividades intelectualmente estimulantes. Nas melhores escolas, crianças pré-adolescentes são treinadas para combinar criatividade e rigor. Assim como as autoridades dos países mais dinâmicos e competitivos, as famílias brasileiras mais atentas aos desafios do mundo real continuarão em busca dos padrões educacionais mais altos.
Famílias saídas há pouco tempo da pobreza também reconhecem a importância de oferecer uma boa formação a seus filhos e por isso procuram escolas particulares. "Meu filho só tem 5 aninhos e já está aprendendo a ler e a escrever. Nessa idade, na escola pública, ninguém sabe nada ainda", disse uma agente de saúde citada em reportagem publicada no Estado de domingo.
Outra personagem da história explicou: "Não é metideza, é necessidade. Eu trabalho como empregada doméstica o dia todo. Meu marido é coletor de lixo e também passa o dia fora. Pagar a escola para a Gecielle foi a melhor opção". Mas ela descobriu também outra vantagem: "Com meus outros dois filhos não pude (pagar). A situação era muito pior. Na escola pública onde eles estudam já teve tiroteio. Na da Gecielle não tem nada disso e ela ainda aprende mais, tem lição de casa e tudo". Pois é: ela aprende, tem lição de casa e a mãe se mostra convencida de ter feito um bom negócio. As duas entrevistadas apostam nos filhos, apertam o cinto para pagar a escola e têm uma clara visão dos problemas: crianças pobres aprendem, como quaisquer outras, quando têm oportunidade.
Tratar os pobres com paternalismo, como pessoas incapazes de aprender a língua oficial e de aguentar os padrões de uma escola séria, é condená-los a ficar para trás, marginalizados e limitados às piores escolhas. Apoiar essa política é agir como se o mundo fosse esperar os mais lentos. Em países com políticas sociais decentes a solução é dar um impulso extra às pessoas em posição inicial desvantajosa.
O paternalismo é muito mais vantajoso para quem concede benefícios do que para quem recebe. Massas protegidas por Pais ou Mães do Povo tendem a ser dominadas com facilidade e nunca exercem plenamente a cidadania. Tratá-las como pessoas irremediavelmente inferiores é condená-las a ser politicamente subdesenvolvidas. Ensiná-las a conformar-se com "nóis vai" e "os menino joga bola" é vedar-lhes o acesso a aprendizados mais complexos e à possibilidade de pensar livremente. As oportunidades serão cada vez mais limitadas para os monoglotas. Muito piores serão as condições dos semiglotas, embora alguns, muito raramente, possam até presidir um país.
A presidente Dilma Rousseff parece haver renunciado ao papel de Mãe do Brasil, planejado por seu antecessor e grande eleitor. Ao anunciar a intenção de oferecer aos pobres a porta de saída dos programas assistenciais, ela mostrou preferir um caminho mais democrático. Mas, para segui-lo, precisará livrar-se do entulho do paternalismo e da demagogia. Uma faxina no Ministério da Educação ajudaria muito.
Jornalista
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO (18/05/11)
Os problemas de formação profissional e o mau desempenho dos alunos brasileiros em testes de avaliação foram apontados com suficiente clareza em artigo de Carlos Alberto Sardenberg, publicado anteontem neste caderno. Concorrentes do Brasil, incluída a China, estão empenhados em oferecer uma educação muito melhor a seus estudantes. Em vez de tratar os pobres como inferiores, autoridades educacionais desses países cuidam de prepará-los para se igualar aos melhores do mundo.
Não é preciso insistir nesse ponto. Mas é indispensável chamar a atenção para a concorrência em outro nível. No Brasil, quem tem bom senso e condição econômica tenta oferecer aos filhos a melhor educação possível. Pais instruídos procuram boas escolas e valorizam aquelas conhecidas pelo alto padrão de exigência. Rejeitam a ideia do diploma conquistado pelo caminho fácil. Além disso, estimulam os filhos a frequentar cursos de línguas e a envolver-se em atividades intelectualmente estimulantes. Nas melhores escolas, crianças pré-adolescentes são treinadas para combinar criatividade e rigor. Assim como as autoridades dos países mais dinâmicos e competitivos, as famílias brasileiras mais atentas aos desafios do mundo real continuarão em busca dos padrões educacionais mais altos.
Famílias saídas há pouco tempo da pobreza também reconhecem a importância de oferecer uma boa formação a seus filhos e por isso procuram escolas particulares. "Meu filho só tem 5 aninhos e já está aprendendo a ler e a escrever. Nessa idade, na escola pública, ninguém sabe nada ainda", disse uma agente de saúde citada em reportagem publicada no Estado de domingo.
Outra personagem da história explicou: "Não é metideza, é necessidade. Eu trabalho como empregada doméstica o dia todo. Meu marido é coletor de lixo e também passa o dia fora. Pagar a escola para a Gecielle foi a melhor opção". Mas ela descobriu também outra vantagem: "Com meus outros dois filhos não pude (pagar). A situação era muito pior. Na escola pública onde eles estudam já teve tiroteio. Na da Gecielle não tem nada disso e ela ainda aprende mais, tem lição de casa e tudo". Pois é: ela aprende, tem lição de casa e a mãe se mostra convencida de ter feito um bom negócio. As duas entrevistadas apostam nos filhos, apertam o cinto para pagar a escola e têm uma clara visão dos problemas: crianças pobres aprendem, como quaisquer outras, quando têm oportunidade.
Tratar os pobres com paternalismo, como pessoas incapazes de aprender a língua oficial e de aguentar os padrões de uma escola séria, é condená-los a ficar para trás, marginalizados e limitados às piores escolhas. Apoiar essa política é agir como se o mundo fosse esperar os mais lentos. Em países com políticas sociais decentes a solução é dar um impulso extra às pessoas em posição inicial desvantajosa.
O paternalismo é muito mais vantajoso para quem concede benefícios do que para quem recebe. Massas protegidas por Pais ou Mães do Povo tendem a ser dominadas com facilidade e nunca exercem plenamente a cidadania. Tratá-las como pessoas irremediavelmente inferiores é condená-las a ser politicamente subdesenvolvidas. Ensiná-las a conformar-se com "nóis vai" e "os menino joga bola" é vedar-lhes o acesso a aprendizados mais complexos e à possibilidade de pensar livremente. As oportunidades serão cada vez mais limitadas para os monoglotas. Muito piores serão as condições dos semiglotas, embora alguns, muito raramente, possam até presidir um país.
A presidente Dilma Rousseff parece haver renunciado ao papel de Mãe do Brasil, planejado por seu antecessor e grande eleitor. Ao anunciar a intenção de oferecer aos pobres a porta de saída dos programas assistenciais, ela mostrou preferir um caminho mais democrático. Mas, para segui-lo, precisará livrar-se do entulho do paternalismo e da demagogia. Uma faxina no Ministério da Educação ajudaria muito.
Jornalista
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO (18/05/11)
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