O Globo - 19/12/2010
Presidente deixa o poder após oito anos como fenômeno político, apesar
de seu governo pouco ter avançado em áreas fundamentais da
administração, como educação, saúde, saneamento, infraestrutura,
reforma agrária e sem ter feito as reformas política, previdenciária,
trabalhista e sindical
A13 dias de deixar o Planalto, o presidente Lula exibe uma inédita
popularidade na História da República. Seu governo foi marcado por um
avanço sem precedentes na educação do país; na saúde, ele consolidou o
SUS, deixa serviços de qualidade para a população e uma gestão mais
eficiente dos recursos; como se esperava de um governo de esquerda,
Lula universalizou o saneamento básico; da mesma forma, cumpriu a
promessa histórica do PT e fez a reforma agrária; na área da
infraestrutura, deixa aeroportos novos, estradas duplicadas e portos
desburocratizados; além disso, usou a sua ampla maioria no Congresso
para avançar na reforma política e na atualização da legislação
previdenciária, das relações trabalhistas e sindicais.
Infelizmente, nenhuma das afirmações anteriores é
verdadeira — com exceção da estratosférica popularidade de Lula. Mas
como podem conviver um presidente bom e um governo ruim? Só a
estabilidade econômica (herdada do governo anterior) explica isso?
Seria o Bolsa Família? Ou é tudo fruto do carisma pessoal do
ex-operário, com quem o povo brasileiro se identifica? Para debater
essas e outras questões e contradições da riquíssima Era Lula, O GLOBO
publica este caderno especial. Míriam Leitão, Merval Pereira, Marco
Antonio Villa e Carlos Alberto Sardenberg analisam esses últimos anos,
em que “nunca antes na História deste país...” houve paradoxos tão
grandes. Articulistas que escreveram no primeiro caderno especial
sobre o governo Lula, ainda sobre as expectativas que o rondavam
naquele 2002, reexaminam seus textos e analisam o que foi feito e o
que ficou para depois. O presidente do Banco Central, Henrique
Meirelles, e o ex-ministro de Desenvolvimento Social Patrus Ananias,
responsáveis pelos resultados que mais ajudaram a alavancar a
popularidade do presidente, na economia e no social, falam de suas
experiências. Da mesma forma, o chanceler Celso Amorim, um dos poucos
ministros a atravessar os oito anos ao lado de Lula, fala sobre a
política externa do período. O jornalista José Casado revisitou as
promessas eleitorais de Lula e também faz um balanço do que foi
cumprido ou não. Um resumo de oito anos de um governo é trabalho para
a História. O presidente Lula já começou a fazer o seu: na
quarta-feira, fez um balanço cor-de-rosa de sua gestão numa solenidade
oficial. O GLOBO deixa a sua contribuição, ainda no calor do governo,
neste momento em que Lula deixa o Planalto e entra para a História.
domingo, 26 de dezembro de 2010
O LEGADO DO FENÔMENO LULA A CONSTRUÇÃO DO MITO LULA (I)
O Globo - 19/12/2010
A principal definição da Era Lula foi feita pelo próprio presidente
Lula. No meio do primeiro mandato, citando Raul Seixas, ele afirmou:
“Eu sou uma metamorfose ambulante”. Foi o momento em que as políticas
que o PT sempre condenara na economia começavam a mostrar resultado
sob Lula. Há 15 dias, traçando um retrato de seu governo, ele disse:
“O segredo do meu sucesso é ter feito apenas o óbvio”. Um balanço por
dentro da administração Lula mostra que isso é verdade. O que revela
um paradoxo: um presidente com uma popularidade recorde e um governo
com poucos avanços em áreas-chave para o país, como educação, saúde,
saneamento, infraestrutura e as reformas política, previdenciária,
trabalhista e sindical.
Presidente deixa o poder após oito anos como fenômeno político, apesar
de seu governo pouco ter avançado em áreas fundamentais da
administração, como educação, saúde, saneamento, infraestrutura,
reforma agrária e sem ter feito as reformas política, previdenciária,
trabalhista e sindical
A13 dias de deixar o Planalto, o presidente Lula exibe uma inédita
popularidade na História da República. Seu governo foi marcado por um
avanço sem precedentes na educação do país; na saúde, ele consolidou o
SUS, deixa serviços de qualidade para a população e uma gestão mais
eficiente dos recursos; como se esperava de um governo de esquerda,
Lula universalizou o saneamento básico; da mesma forma, cumpriu a
promessa histórica do PT e fez a reforma agrária; na área da
infraestrutura, deixa aeroportos novos, estradas duplicadas e portos
desburocratizados; além disso, usou a sua ampla maioria no Congresso
para avançar na reforma política e na atualização da legislação
previdenciária, das relações trabalhistas e sindicais.
Infelizmente, nenhuma das afirmações anteriores é verdadeira — com
exceção da estratosférica popularidade de Lula. Mas como podem
conviver um presidente bom e um governo ruim? Só a estabilidade
econômica (herdada do governo anterior) explica isso? Seria o Bolsa
Família? Ou é tudo fruto do carisma pessoal do ex-operário, com quem o
povo brasileiro se identifica? Para debater essas e outras questões e
contradições da riquíssima Era Lula, O GLOBO publica este caderno
especial. Míriam Leitão, Merval Pereira, Marco Antonio Villa e Carlos
Alberto Sardenberg analisam esses últimos anos, em que “nunca antes na
História deste país...” houve paradoxos tão grandes. Articulistas que
escreveram no primeiro caderno especial sobre o governo Lula, ainda
sobre as expectativas que o rondavam naquele 2002, reexaminam seus
textos e analisam o que foi feito e o que ficou para depois. O
presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ex-ministro de
Desenvolvimento Social Patrus Ananias, responsáveis pelos resultados
que mais ajudaram a alavancar a popularidade do presidente, na
economia e no social, falam de suas experiências. Da mesma forma, o
chanceler Celso Amorim, um dos poucos ministros a atravessar os oito
anos ao lado de Lula, fala sobre a política externa do período. O
jornalista José Casado revisitou as promessas eleitorais de Lula e
também faz um balanço do que foi cumprido ou não. Um resumo de oito
anos de um governo é trabalho para a História. O presidente Lula já
começou a fazer o seu: na quarta-feira, fez um balanço cor-de-rosa de
sua gestão numa solenidade oficial. O GLOBO deixa a sua contribuição,
ainda no calor do governo, neste momento em que Lula deixa o Planalto
e entra para a História.
A principal definição da Era Lula foi feita pelo próprio presidente
Lula. No meio do primeiro mandato, citando Raul Seixas, ele afirmou:
“Eu sou uma metamorfose ambulante”. Foi o momento em que as políticas
que o PT sempre condenara na economia começavam a mostrar resultado
sob Lula. Há 15 dias, traçando um retrato de seu governo, ele disse:
“O segredo do meu sucesso é ter feito apenas o óbvio”. Um balanço por
dentro da administração Lula mostra que isso é verdade. O que revela
um paradoxo: um presidente com uma popularidade recorde e um governo
com poucos avanços em áreas-chave para o país, como educação, saúde,
saneamento, infraestrutura e as reformas política, previdenciária,
trabalhista e sindical.
Presidente deixa o poder após oito anos como fenômeno político, apesar
de seu governo pouco ter avançado em áreas fundamentais da
administração, como educação, saúde, saneamento, infraestrutura,
reforma agrária e sem ter feito as reformas política, previdenciária,
trabalhista e sindical
A13 dias de deixar o Planalto, o presidente Lula exibe uma inédita
popularidade na História da República. Seu governo foi marcado por um
avanço sem precedentes na educação do país; na saúde, ele consolidou o
SUS, deixa serviços de qualidade para a população e uma gestão mais
eficiente dos recursos; como se esperava de um governo de esquerda,
Lula universalizou o saneamento básico; da mesma forma, cumpriu a
promessa histórica do PT e fez a reforma agrária; na área da
infraestrutura, deixa aeroportos novos, estradas duplicadas e portos
desburocratizados; além disso, usou a sua ampla maioria no Congresso
para avançar na reforma política e na atualização da legislação
previdenciária, das relações trabalhistas e sindicais.
Infelizmente, nenhuma das afirmações anteriores é verdadeira — com
exceção da estratosférica popularidade de Lula. Mas como podem
conviver um presidente bom e um governo ruim? Só a estabilidade
econômica (herdada do governo anterior) explica isso? Seria o Bolsa
Família? Ou é tudo fruto do carisma pessoal do ex-operário, com quem o
povo brasileiro se identifica? Para debater essas e outras questões e
contradições da riquíssima Era Lula, O GLOBO publica este caderno
especial. Míriam Leitão, Merval Pereira, Marco Antonio Villa e Carlos
Alberto Sardenberg analisam esses últimos anos, em que “nunca antes na
História deste país...” houve paradoxos tão grandes. Articulistas que
escreveram no primeiro caderno especial sobre o governo Lula, ainda
sobre as expectativas que o rondavam naquele 2002, reexaminam seus
textos e analisam o que foi feito e o que ficou para depois. O
presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ex-ministro de
Desenvolvimento Social Patrus Ananias, responsáveis pelos resultados
que mais ajudaram a alavancar a popularidade do presidente, na
economia e no social, falam de suas experiências. Da mesma forma, o
chanceler Celso Amorim, um dos poucos ministros a atravessar os oito
anos ao lado de Lula, fala sobre a política externa do período. O
jornalista José Casado revisitou as promessas eleitorais de Lula e
também faz um balanço do que foi cumprido ou não. Um resumo de oito
anos de um governo é trabalho para a História. O presidente Lula já
começou a fazer o seu: na quarta-feira, fez um balanço cor-de-rosa de
sua gestão numa solenidade oficial. O GLOBO deixa a sua contribuição,
ainda no calor do governo, neste momento em que Lula deixa o Planalto
e entra para a História.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
João de todo o Rio
Mais atual do que nunca, o jornalista e escritor que encantou e chocou o Brasil do início do século XX ganha nova versão de sua biografia e filme
Antônio Carlos Miguel – O GLOBO
Há casos em que o biógrafo pode virar uma espécie de parteiro do renascimento de seu personagem. Foi o que aconteceu com o jornalista e pesquisador João Carlos Rodrigues,... que lança “João do Rio: vida, paixão e obra” (Civilização Brasileira), nova versão do revelador livro “João do Rio: uma biografia”, que publicou em 1996 pela Topbooks. Na época, Rodrigues já tinha feito bastante pela recuperação da obra do jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo então quase esquecido, mas que, entre integrantes da sociedade carioca letrada do início do século XX, flanava com status de popstar.
— No fim dos anos 70, o jornal “Lampião”, de Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan, queria fazer uma editora e propus uma antologia de João do Rio, autor que eu era um dos poucos de minha geração a conhecer, e sabia sensacional — explica Rodrigues, de 61 anos, que, não tendo visto o projeto do “Lampião” avançar, resolveu aproveitar o centenário de nascimento de seu personagem, em 1981, e sondar outras opções. — Botei tudo num envelope e mandei pelo correio para três editoras importantes. Menos de uma semana depois, Ivan Cavalcanti Proença, então na José Olympio, me ligou. Fui lá, assinei o contrato, e o livro saiu com o título “Histórias da gente alegre”. Fácil assim. No entanto, despertou a ira de Josué Montello, mas recebi uma boa crítica de Silviano Santiago, e segui pesquisando.
No início dos anos 90, Rodrigues frequentou por dois anos, quase que diariamente, a Biblioteca Nacional atrás de textos inéditos de João do Rio para um novo trabalho. A coleta foi tão frutífera que rendeu um Catálogo Bibliográfico, editado pelo Arquivo da Cidade, hoje raríssimo. — Localizei cerca de 2.500 artigos e reportagens de jornal sobre variados assuntos, da crônica da cidade à política internacional. Poucos sabem, mas ele cobriu a Conferência de Versalhes, que definiu os rumos do mundo após a Primeira Guerra Mundial — relata Rodrigues, que também descobriu textos nos quais ele foi ghost writer, como as memórias do marinheiro João Cândido, ou o delicioso “Memórias de um rato de hotel”, ditado por um preso na cadeia. — Com tanta novidade, vi que havia material para uma biografia mais completa do que a existente, de Raimundo Magalhães Junior.
Com esse material nas mãos, Rodrigues concorreu à Bolsa Vitae, em 1993, e ganhou: — O livro foi editado em 1996 e despertou ódios e amores muito exacerbados, o que me espantou, pois se trata de um autor do tempo da Velha República! Uma famosa revista dedicou quatro páginas a falar mal de mim e dele. Um resenhista sugeriu que eu queimasse a edição.
Ou seja, foi a consagração. E assim virou uma espécie de clássico de referência, pois fala do autor, da obra e da época. Desde então, a redescoberta vem crescendo: o próprio Rodrigues preparou três reedições de textos de João do Rio, enquanto não param de surgir estudos acadêmicos — na Unicamp, na PUCRJ, na UFRJ, na Casa de Rui Barbosa.
......................................................................................................................................................
Pioneiro nesse movimento, Rodrigues comemora e quer mais: — João do Rio é tão complexo que dá para todos. Mulato, gordo, homossexual — um dândi, que escandalizava a sociedade da época com seu vestuário extravagante e suas falas e posturas afetadas —, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto veio de família pobre e, ainda adolescente, mostrou seus dotes literários. Talento que o levaria à Academia Brasileira de Letras, em 1910, aos 29 anos, na sua terceira tentativa,
sendo o primeiro a tomar posse usando o “fardão dos imortais”. Reconhecido em Portugal, que visitou pela primeira vez em 1908, quando também conheceu a França, cicerone e amigo de Isadora Duncan na passagem da bailarina pelo Rio, ele estava em todas. Mas, da mesma forma como rapidamente ascendeu socialmente, João do Rio (um de seus muitos pseudônimos, o mais famoso, criado em 1903) foi logo esquecido após sua morte precoce, vítima de um ataque cardíaco, em junho de 1921, a menos de dois meses de seus 40 anos. Além dos livros fora de catálogo, era apenas o nome da Rua Paulo Barreto, em Botafogo.
No mundo do início do século XX, homossexualidade, mais do que tabu, era crime. Daí, como Rodrigues comenta, João do Rio não assumir a sua orientação sexual: — Ele se aborrecia quando alguém tocava no assunto. Mas, por outro lado, provocava. Raspou a cara quando todo homem que se prezava, fora os padres, usava barba ou
bigode. Vestia um fraque todo branco, outro todo verde, e os homens respeitáveis só vestiam preto, marrom ou cinza. Falava de forma muito afetada, e Gilberto Amado conta que juntavam curiosos na porta dos jornais onde trabalhava apenas para vê-lo falar, cheio de caras e bocas. Isso provocou uma reação homofóbica dos jacobinos, como era conhecida a extrema direita da época. João do Rio foi espancado num restaurante do Largo da Carioca por oficiais da Marinha. Enquanto Humberto de Campos e Antonio Torres encabeçaram uma das campanhas mais sórdidas já feitas contra um jornalista por seus colegas de profissão. Típico bullying.
Apesar desses incidentes, Rodrigues não acredita que a homossexualidade tenha contribuído para o esquecimento de João do Rio. Em contrapartida, influiu decisivamente
nesse redescobrimento dos últimos anos. Detalhe pessoal que o aproximaria do escritor inglês Oscar Wilde, num paralelo que também é possível ao analisar sua obra literária. — A comparação é pertinente porque realmente há mais do que simples coincidências. O estilo camp, a ironia, as frases de efeito, os adornos de estilo que quase escondem a preocupação social e as simpatias libertárias. E ele traduziu Wilde, “Intenções”, “O retrato de Dorian Gray” e “Salomé” — lista Rodrigues.
— Susan Sontag afirmou serem o camp e o art nouveau formas de expressão da sensibilidade homossexual. Certíssima. Mas o paralelo com Wilde pode também ser redutor porque João do Rio foi bem mais que um pastiche da cultura estrangeira. É o cronista carioca por excelência, ao lado de Machado de Assis, Lima Barreto, Noel Rosa, Nelson Rodrigues. Boa parte da mitologia da cidade foi criada por ele. Se não tivesse existido, teria de ser inventado.
João do Rio era tão enfronhado na vida carioca que, ainda segundo Rodrigues, teria antecipado a ideia da “cidade partida” cunhada por Zuenir Ventura nos anos 90. Daí a permanência de sua obra, um século depois: — Bem, vivemos na “lesma lerda”, e a mesma maravilha. Injustiça social num belo cenário natural. Seres humanos interessantes e imprevisíveis na sua mistura de raças e cores e religiões. Bela cultura popular, interessante cultura decadente das elites. Em 1908, ele já acenava com o conceito de “uma cidade dentro da outra cidade”, falando de uma favela no morro de Santo Antonio.
Em seus textos, João do Rio também, de alguma forma, antecipa o novo jornalismo: — Na verdade, o jornalismo moderno nasceu em Paris e Londres no fim do século XIX e daí influenciou o mundo inteiro. Surgiram as manchetes, as fotografias, as charges, o lead, o subtexto, e principalmente a crônica e a reportagem. João do Rio foi um mestre nas duas. Visitou in loco centros de candomblé, subiu morros e favelas, frequentou casas de tias baianas na Saúde, fez crônica social entre grã-finos, entrou em todos os ambientes, escrevendo quase sempre na primeira pessoa. Ou seja, João de todo o Rio.
06/12/10)
Antônio Carlos Miguel – O GLOBO
Há casos em que o biógrafo pode virar uma espécie de parteiro do renascimento de seu personagem. Foi o que aconteceu com o jornalista e pesquisador João Carlos Rodrigues,... que lança “João do Rio: vida, paixão e obra” (Civilização Brasileira), nova versão do revelador livro “João do Rio: uma biografia”, que publicou em 1996 pela Topbooks. Na época, Rodrigues já tinha feito bastante pela recuperação da obra do jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo então quase esquecido, mas que, entre integrantes da sociedade carioca letrada do início do século XX, flanava com status de popstar.
— No fim dos anos 70, o jornal “Lampião”, de Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan, queria fazer uma editora e propus uma antologia de João do Rio, autor que eu era um dos poucos de minha geração a conhecer, e sabia sensacional — explica Rodrigues, de 61 anos, que, não tendo visto o projeto do “Lampião” avançar, resolveu aproveitar o centenário de nascimento de seu personagem, em 1981, e sondar outras opções. — Botei tudo num envelope e mandei pelo correio para três editoras importantes. Menos de uma semana depois, Ivan Cavalcanti Proença, então na José Olympio, me ligou. Fui lá, assinei o contrato, e o livro saiu com o título “Histórias da gente alegre”. Fácil assim. No entanto, despertou a ira de Josué Montello, mas recebi uma boa crítica de Silviano Santiago, e segui pesquisando.
No início dos anos 90, Rodrigues frequentou por dois anos, quase que diariamente, a Biblioteca Nacional atrás de textos inéditos de João do Rio para um novo trabalho. A coleta foi tão frutífera que rendeu um Catálogo Bibliográfico, editado pelo Arquivo da Cidade, hoje raríssimo. — Localizei cerca de 2.500 artigos e reportagens de jornal sobre variados assuntos, da crônica da cidade à política internacional. Poucos sabem, mas ele cobriu a Conferência de Versalhes, que definiu os rumos do mundo após a Primeira Guerra Mundial — relata Rodrigues, que também descobriu textos nos quais ele foi ghost writer, como as memórias do marinheiro João Cândido, ou o delicioso “Memórias de um rato de hotel”, ditado por um preso na cadeia. — Com tanta novidade, vi que havia material para uma biografia mais completa do que a existente, de Raimundo Magalhães Junior.
Com esse material nas mãos, Rodrigues concorreu à Bolsa Vitae, em 1993, e ganhou: — O livro foi editado em 1996 e despertou ódios e amores muito exacerbados, o que me espantou, pois se trata de um autor do tempo da Velha República! Uma famosa revista dedicou quatro páginas a falar mal de mim e dele. Um resenhista sugeriu que eu queimasse a edição.
Ou seja, foi a consagração. E assim virou uma espécie de clássico de referência, pois fala do autor, da obra e da época. Desde então, a redescoberta vem crescendo: o próprio Rodrigues preparou três reedições de textos de João do Rio, enquanto não param de surgir estudos acadêmicos — na Unicamp, na PUCRJ, na UFRJ, na Casa de Rui Barbosa.
......................................................................................................................................................
Pioneiro nesse movimento, Rodrigues comemora e quer mais: — João do Rio é tão complexo que dá para todos. Mulato, gordo, homossexual — um dândi, que escandalizava a sociedade da época com seu vestuário extravagante e suas falas e posturas afetadas —, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto veio de família pobre e, ainda adolescente, mostrou seus dotes literários. Talento que o levaria à Academia Brasileira de Letras, em 1910, aos 29 anos, na sua terceira tentativa,
sendo o primeiro a tomar posse usando o “fardão dos imortais”. Reconhecido em Portugal, que visitou pela primeira vez em 1908, quando também conheceu a França, cicerone e amigo de Isadora Duncan na passagem da bailarina pelo Rio, ele estava em todas. Mas, da mesma forma como rapidamente ascendeu socialmente, João do Rio (um de seus muitos pseudônimos, o mais famoso, criado em 1903) foi logo esquecido após sua morte precoce, vítima de um ataque cardíaco, em junho de 1921, a menos de dois meses de seus 40 anos. Além dos livros fora de catálogo, era apenas o nome da Rua Paulo Barreto, em Botafogo.
No mundo do início do século XX, homossexualidade, mais do que tabu, era crime. Daí, como Rodrigues comenta, João do Rio não assumir a sua orientação sexual: — Ele se aborrecia quando alguém tocava no assunto. Mas, por outro lado, provocava. Raspou a cara quando todo homem que se prezava, fora os padres, usava barba ou
bigode. Vestia um fraque todo branco, outro todo verde, e os homens respeitáveis só vestiam preto, marrom ou cinza. Falava de forma muito afetada, e Gilberto Amado conta que juntavam curiosos na porta dos jornais onde trabalhava apenas para vê-lo falar, cheio de caras e bocas. Isso provocou uma reação homofóbica dos jacobinos, como era conhecida a extrema direita da época. João do Rio foi espancado num restaurante do Largo da Carioca por oficiais da Marinha. Enquanto Humberto de Campos e Antonio Torres encabeçaram uma das campanhas mais sórdidas já feitas contra um jornalista por seus colegas de profissão. Típico bullying.
Apesar desses incidentes, Rodrigues não acredita que a homossexualidade tenha contribuído para o esquecimento de João do Rio. Em contrapartida, influiu decisivamente
nesse redescobrimento dos últimos anos. Detalhe pessoal que o aproximaria do escritor inglês Oscar Wilde, num paralelo que também é possível ao analisar sua obra literária. — A comparação é pertinente porque realmente há mais do que simples coincidências. O estilo camp, a ironia, as frases de efeito, os adornos de estilo que quase escondem a preocupação social e as simpatias libertárias. E ele traduziu Wilde, “Intenções”, “O retrato de Dorian Gray” e “Salomé” — lista Rodrigues.
— Susan Sontag afirmou serem o camp e o art nouveau formas de expressão da sensibilidade homossexual. Certíssima. Mas o paralelo com Wilde pode também ser redutor porque João do Rio foi bem mais que um pastiche da cultura estrangeira. É o cronista carioca por excelência, ao lado de Machado de Assis, Lima Barreto, Noel Rosa, Nelson Rodrigues. Boa parte da mitologia da cidade foi criada por ele. Se não tivesse existido, teria de ser inventado.
João do Rio era tão enfronhado na vida carioca que, ainda segundo Rodrigues, teria antecipado a ideia da “cidade partida” cunhada por Zuenir Ventura nos anos 90. Daí a permanência de sua obra, um século depois: — Bem, vivemos na “lesma lerda”, e a mesma maravilha. Injustiça social num belo cenário natural. Seres humanos interessantes e imprevisíveis na sua mistura de raças e cores e religiões. Bela cultura popular, interessante cultura decadente das elites. Em 1908, ele já acenava com o conceito de “uma cidade dentro da outra cidade”, falando de uma favela no morro de Santo Antonio.
Em seus textos, João do Rio também, de alguma forma, antecipa o novo jornalismo: — Na verdade, o jornalismo moderno nasceu em Paris e Londres no fim do século XIX e daí influenciou o mundo inteiro. Surgiram as manchetes, as fotografias, as charges, o lead, o subtexto, e principalmente a crônica e a reportagem. João do Rio foi um mestre nas duas. Visitou in loco centros de candomblé, subiu morros e favelas, frequentou casas de tias baianas na Saúde, fez crônica social entre grã-finos, entrou em todos os ambientes, escrevendo quase sempre na primeira pessoa. Ou seja, João de todo o Rio.
06/12/10)
Balanço do governo Lula (2) /// (Alberto Carlos Almeida)
No fim de semana, as diversas avaliações do governo Lula, em cadernos especiais publicados em jornais, chamaram a atenção para dois fatos: a melhora do padrão de vida da população (o lado positivo do governo) e a inexistência de legislação reformadora, o aspecto mais negativo da administração Lula.
Estou em busca aqui, como afirmei anteriormente, de uma avaliação não tradicional do governo. Assim, há duas semanas escrevi sobre o que julgo ser o lado positivo dos oito anos de governo Lula: o fato de o presidente ter assumido aquele que considero ser o mais importante papel do presidente, o de se comunicar com a sociedade. O presidente, eis uma lição importante que fica para Dilma, não deve se imiscuir nos detalhes diários da administração sob pena de induzir a sua equipe a não tomar decisões ou a tomar decisões erradas. O presidente é antes de mais nada e acima de tudo um comunicador. Essa foi a grande virtude de Lula como também foi de Ronald Reagan, Clinton, Bush filho e tem sido a de Obama.
O lado negativo do governo foi, sim, a inoperância legislativa, mas foi também a completa falta de empenho de Lula em associar os impostos ao bom uso do dinheiro público. Não cabe aqui questionar, a princípio, a predisposição de Lula em defender mais impostos. O presidente não para de lamentar aquela que foi, em sua avaliação, a grande derrota legislativa do governo: a abolição da CPMF. Como cidadão e pagador de impostos, afirmo que a principal derrota do governo Lula foi uma grande vitória da sociedade. Nós que pagamos impostos e vemos todos os dias o dinheiro público sendo desperdiçado achamos que a derrota do governo foi, não coincidentemente, a nossa vitória.
Foi-se o tempo em que Lula defendia apenas os interesses dos movimentos sociais. Hoje ele é um homem de Estado e, portanto, defende os interesses do governo. O governo quer mais impostos, quer botar mais a mão dentro de nossos bolsos.
Não defender a redução de impostos e ficar feliz toda vez que eles aumentam faz parte da ideologia de Lula. Lula é um líder de esquerda, Lula é um social-democrata e toda pessoa de esquerda gosta de impostos. Gosta de mais e melhores impostos. É legítimo que Lula seja um entusiasta do aumento de impostos e que esa propensão se manifeste em sua indignação contra a rejeição da CPMF. Cabe aqui um parêntese irresistível: onde está a oposição em relação a esse tema? Fecha parêntese.
O que não é compreensível é que durante oito anos o grande líder social que se tornou presidente não tenha feito, em suas declarações públicas, a ligação entre pagar impostos e utilizar bem o dinheiro público. No livro de Marcelo Tas, "Nunca antes na História Deste País", há o registro de uma declaração de Lula sobre os funcionários da Presidência da República: "Há centenas de empregados à minha volta que nem sei o que estão fazendo". A frase foi dita em setembro de 2009. Ao falar isso, ele estava fazendo pouco-caso do nosso dinheiro, que é utilizado pelo governo para pagar esses empregados.
Neste mês, foi aprovado na Câmara dos Deputados um aumento salarial de 130% para o presidente e 149% para os ministros. De quebra, os próprios deputados se deram um aumento de quase 62%. Diante desse fato, Lula fez uma brincadeira: "E o Lulinha aqui ó ..." Ele se referia jocosamente ao fato de o aumento ter sido aprovado quando ele está saindo do cargo de presidente. Que pena! Lula não foi beneficiado pela magnanimidade de nossos deputados com o uso do nosso dinheiro. Há estimativas de que esse reajuste, em razão do efeito que terá sobre o aumento de deputados estaduais e outros cargos públicos de grande relevância para o funcionamento do país, tenha um impacto de R$ 2 bilhões nos cofres públicos.
No dia 3, antes, portanto, do aumento desses salários, Lula afirmou que "a carga tributária no país é justa". É surpreendente que essa afirmação tenha sido feita por alguém que é percebido como defensor dos pobres. Quem mais paga imposto no Brasil, como proporção dos rendimentos, são os mais pobres. Isso não é justo. A cesta básica no Brasil é tributada em torno de 21%. Isso não é justo. A nossa carga como proporção do PIB é da ordem de 35%, o que é maior do que em muitos países desenvolvidos que fornecem para sua população ótimos serviços públicos. Isso não é justo.
O dinheiro público no Brasil deveria ser gasto com frugalidade e nada melhor do que um presidente que veio da pobreza para dar esse exemplo. Lula não fez isso em nenhum momento de seus oito anos de presidente. Nesse período, a nossa carga tributária aumentou e aumentaram também os salários e regalias de nossos funcionários públicos eleitos e não eleitos. Não bastasse o Aerolula, o presidente defendeu recentemente a compra de um novo avião, maior, mais moderno e mais caro para a Presidência da República. Seria o Aerodilma. O presidente argumentou que é vergonhoso para o líder máximo de um país como o Brasil ter que fazer escala para abastecer em voos mais longos.
O primeiro-ministro da Suécia tem direito a morar em um apartamento de vergonhosos 300 m2. O salário dos deputados dos Estados Unidos e da Alemanha é vergonhosamente mais baixo do que o de nossos deputados. A lista é longa e não por isso em nenhum desses países a vergonha foi corrigida enviando-se para a população o valor da conta.
Afirma-se em determinados meios que Lula é demagogo e populista. Pode até ser verdade. Todavia, como Max Weber vaticinou há mais de cem anos, não é possível que exista democracia sem que haja demagogia. O problema da democracia não é que exista um demagogo, é que não existam pelos menos dois demagogos, ambos em luta um contra o outro. O que controla um demagogo é a existência do outro. O admirado Barack Obama acabou de propor o congelamento do salário dos servidores civis americanos. Em um comunicado oficial do governo foi dito: "Esse congelamento não é para castigar os trabalhadores estatais nem uma falta de respeito com o trabalho que fazem. É a primeira de muitas medidas que tomaremos relacionada ao próximo orçamento, para dar ao país uma base fiscal sólida, que vai exigir sacrifícios de todos nós". Para muitos isso é demagogia.
Quem dera Lula tivesse sido demagogo para solicitar que nossos funcionários públicos (eleitos e não eleitos) fizessem o sacrifício de não ter aumento. Lula poderia afirmar que, se isso acontecesse, o povo pobre, que mais paga imposto, é quem sairia ganhando. Demagogia pura, mas muito educativa. Insisto que durante oito anos o presidente não se importou em educar a população para a conexão entre impostos e bom uso do dinheiro público. Ao menos Lula não fez isso intencionalmente.
A nossa elite política vem educando a população, de maneira completamente não intencional, para o mau uso de nosso dinheiro. Há uma crença muito disseminada na população brasileira de que mais ou menos imposto não significa nem melhora nem piora dos serviços públicos. A população pensa assim: a CPMF foi instituída e a saúde pública não melhorou, a CPMF caiu e a saúde pública não piorou, continuou ruim como sempre foi. Conclui-se, obviamente, que cobrar mais ou menos imposto não muda em nada os serviços públicos.
Lula poderia ter educado a nossa população nessa direção, poderia ter passado oito anos dizendo que o dinheiro público, que é dinheiro também do povo pobre do Brasil, deve ser utilizado de maneira eficiente. Lula não fez isso. Eis agora o Brasil assistindo ao espetáculo do aumento de salários de ministros, deputados, presidente e outros cargos públicos ao mesmo tempo em que não consegue diminuir a sua carga tributária.
Enganam-se os que acham que não há conexão entre aumento salarial de deputados e defesa da volta da CPMF. São duas faces da mesma moeda. Agradeço a Lula por ter mantido o Brasil na direção certa durante os últimos oito anos, mas agradeço, agora no fim do segundo mandato de Lula, a 35 deputados federais que (não importa se demagogicamente ou não) que votaram contra o aumento de salários para si próprios. Vocês deram um grande exemplo para o Brasil.
Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: menos Imposto, mais Consumo".
Fonte:VALOR ECONÔMICO (23/12/10)
Estou em busca aqui, como afirmei anteriormente, de uma avaliação não tradicional do governo. Assim, há duas semanas escrevi sobre o que julgo ser o lado positivo dos oito anos de governo Lula: o fato de o presidente ter assumido aquele que considero ser o mais importante papel do presidente, o de se comunicar com a sociedade. O presidente, eis uma lição importante que fica para Dilma, não deve se imiscuir nos detalhes diários da administração sob pena de induzir a sua equipe a não tomar decisões ou a tomar decisões erradas. O presidente é antes de mais nada e acima de tudo um comunicador. Essa foi a grande virtude de Lula como também foi de Ronald Reagan, Clinton, Bush filho e tem sido a de Obama.
O lado negativo do governo foi, sim, a inoperância legislativa, mas foi também a completa falta de empenho de Lula em associar os impostos ao bom uso do dinheiro público. Não cabe aqui questionar, a princípio, a predisposição de Lula em defender mais impostos. O presidente não para de lamentar aquela que foi, em sua avaliação, a grande derrota legislativa do governo: a abolição da CPMF. Como cidadão e pagador de impostos, afirmo que a principal derrota do governo Lula foi uma grande vitória da sociedade. Nós que pagamos impostos e vemos todos os dias o dinheiro público sendo desperdiçado achamos que a derrota do governo foi, não coincidentemente, a nossa vitória.
Foi-se o tempo em que Lula defendia apenas os interesses dos movimentos sociais. Hoje ele é um homem de Estado e, portanto, defende os interesses do governo. O governo quer mais impostos, quer botar mais a mão dentro de nossos bolsos.
Não defender a redução de impostos e ficar feliz toda vez que eles aumentam faz parte da ideologia de Lula. Lula é um líder de esquerda, Lula é um social-democrata e toda pessoa de esquerda gosta de impostos. Gosta de mais e melhores impostos. É legítimo que Lula seja um entusiasta do aumento de impostos e que esa propensão se manifeste em sua indignação contra a rejeição da CPMF. Cabe aqui um parêntese irresistível: onde está a oposição em relação a esse tema? Fecha parêntese.
O que não é compreensível é que durante oito anos o grande líder social que se tornou presidente não tenha feito, em suas declarações públicas, a ligação entre pagar impostos e utilizar bem o dinheiro público. No livro de Marcelo Tas, "Nunca antes na História Deste País", há o registro de uma declaração de Lula sobre os funcionários da Presidência da República: "Há centenas de empregados à minha volta que nem sei o que estão fazendo". A frase foi dita em setembro de 2009. Ao falar isso, ele estava fazendo pouco-caso do nosso dinheiro, que é utilizado pelo governo para pagar esses empregados.
Neste mês, foi aprovado na Câmara dos Deputados um aumento salarial de 130% para o presidente e 149% para os ministros. De quebra, os próprios deputados se deram um aumento de quase 62%. Diante desse fato, Lula fez uma brincadeira: "E o Lulinha aqui ó ..." Ele se referia jocosamente ao fato de o aumento ter sido aprovado quando ele está saindo do cargo de presidente. Que pena! Lula não foi beneficiado pela magnanimidade de nossos deputados com o uso do nosso dinheiro. Há estimativas de que esse reajuste, em razão do efeito que terá sobre o aumento de deputados estaduais e outros cargos públicos de grande relevância para o funcionamento do país, tenha um impacto de R$ 2 bilhões nos cofres públicos.
No dia 3, antes, portanto, do aumento desses salários, Lula afirmou que "a carga tributária no país é justa". É surpreendente que essa afirmação tenha sido feita por alguém que é percebido como defensor dos pobres. Quem mais paga imposto no Brasil, como proporção dos rendimentos, são os mais pobres. Isso não é justo. A cesta básica no Brasil é tributada em torno de 21%. Isso não é justo. A nossa carga como proporção do PIB é da ordem de 35%, o que é maior do que em muitos países desenvolvidos que fornecem para sua população ótimos serviços públicos. Isso não é justo.
O dinheiro público no Brasil deveria ser gasto com frugalidade e nada melhor do que um presidente que veio da pobreza para dar esse exemplo. Lula não fez isso em nenhum momento de seus oito anos de presidente. Nesse período, a nossa carga tributária aumentou e aumentaram também os salários e regalias de nossos funcionários públicos eleitos e não eleitos. Não bastasse o Aerolula, o presidente defendeu recentemente a compra de um novo avião, maior, mais moderno e mais caro para a Presidência da República. Seria o Aerodilma. O presidente argumentou que é vergonhoso para o líder máximo de um país como o Brasil ter que fazer escala para abastecer em voos mais longos.
O primeiro-ministro da Suécia tem direito a morar em um apartamento de vergonhosos 300 m2. O salário dos deputados dos Estados Unidos e da Alemanha é vergonhosamente mais baixo do que o de nossos deputados. A lista é longa e não por isso em nenhum desses países a vergonha foi corrigida enviando-se para a população o valor da conta.
Afirma-se em determinados meios que Lula é demagogo e populista. Pode até ser verdade. Todavia, como Max Weber vaticinou há mais de cem anos, não é possível que exista democracia sem que haja demagogia. O problema da democracia não é que exista um demagogo, é que não existam pelos menos dois demagogos, ambos em luta um contra o outro. O que controla um demagogo é a existência do outro. O admirado Barack Obama acabou de propor o congelamento do salário dos servidores civis americanos. Em um comunicado oficial do governo foi dito: "Esse congelamento não é para castigar os trabalhadores estatais nem uma falta de respeito com o trabalho que fazem. É a primeira de muitas medidas que tomaremos relacionada ao próximo orçamento, para dar ao país uma base fiscal sólida, que vai exigir sacrifícios de todos nós". Para muitos isso é demagogia.
Quem dera Lula tivesse sido demagogo para solicitar que nossos funcionários públicos (eleitos e não eleitos) fizessem o sacrifício de não ter aumento. Lula poderia afirmar que, se isso acontecesse, o povo pobre, que mais paga imposto, é quem sairia ganhando. Demagogia pura, mas muito educativa. Insisto que durante oito anos o presidente não se importou em educar a população para a conexão entre impostos e bom uso do dinheiro público. Ao menos Lula não fez isso intencionalmente.
A nossa elite política vem educando a população, de maneira completamente não intencional, para o mau uso de nosso dinheiro. Há uma crença muito disseminada na população brasileira de que mais ou menos imposto não significa nem melhora nem piora dos serviços públicos. A população pensa assim: a CPMF foi instituída e a saúde pública não melhorou, a CPMF caiu e a saúde pública não piorou, continuou ruim como sempre foi. Conclui-se, obviamente, que cobrar mais ou menos imposto não muda em nada os serviços públicos.
Lula poderia ter educado a nossa população nessa direção, poderia ter passado oito anos dizendo que o dinheiro público, que é dinheiro também do povo pobre do Brasil, deve ser utilizado de maneira eficiente. Lula não fez isso. Eis agora o Brasil assistindo ao espetáculo do aumento de salários de ministros, deputados, presidente e outros cargos públicos ao mesmo tempo em que não consegue diminuir a sua carga tributária.
Enganam-se os que acham que não há conexão entre aumento salarial de deputados e defesa da volta da CPMF. São duas faces da mesma moeda. Agradeço a Lula por ter mantido o Brasil na direção certa durante os últimos oito anos, mas agradeço, agora no fim do segundo mandato de Lula, a 35 deputados federais que (não importa se demagogicamente ou não) que votaram contra o aumento de salários para si próprios. Vocês deram um grande exemplo para o Brasil.
Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: menos Imposto, mais Consumo".
Fonte:VALOR ECONÔMICO (23/12/10)
O debate sobre a refundação do PSDB (Maria Inês Nassif)
Numa democracia, as crises políticas normalmente trazem o germe da renovação, sob pena de colocar em risco a própria democracia. A crise dos partidos oposicionistas, intensificada por mais uma eleição perdida, certamente resultará em uma rearrumação do quadro partidário ou "refundação" interna, conforme pregam setores do PSDB - até porque não existe democracia sem oposição.
Os partidários da "refundação" do PSDB, no debate que tentam travar internamente via imprensa, dão um diagnóstico preliminar das sucessivas derrotas. As críticas vão desde a guinada do PSDB à direita, num momento em que parte do eleitorado da classe média estava desesperançado do PT, mas uma massa maior ascendia à nova classe média graças ao governo petista, até a desvinculação histórica do partido com o movimento sindical e os movimentos sociais. Nesse debate, pode se depreender também uma crítica à hegemonia paulista do partido - mas, mais do que isso, uma crítica ao grupo hegemônico do PSDB paulista até as eleições deste ano.
Como o PSDB é um partido de quadros, no entanto, tende a individualizar culpas e transferir hegemonias não para grupos ideológicos internos, mas para líderes que, na opinião da maioria, possam substituir os anteriores com mais eficiência. Embora esteja claro o diagnóstico da pouca organicidade do partido, a falta de familiaridade com mecanismos internos de debate ideológico tende a valorizar mais as culpas individuais do que coletivas - embora a centralização de decisões nas mãos de determinados líderes, em especial paulistas, tenha sido efetivamente um dos problemas que levaram o partido a essa crise.
Crises políticas trazem o germe da renovação
A outra dificuldade de mudar uma estrutura inorgânica são os problemas de trânsito do debate na própria máquina partidária. O PSDB, ao que parece, tenta a "refundação" por linhas tortas, ao manter a discussão de fora para dentro. Nos últimos 20 anos, o partido tem terceirizado a ofensiva política para a mídia tradicional, que desempenhou um papel importante não só de ação oposicionista, mas até de estruturação ideológica. A guinada do PSDB para a direita foi uma opção de suas lideranças internas que tinham nas mãos as regras do jogo, mas foi também uma estratégia de tentativa de sensibilização da opinião pública via mídia tradicional, ou seja, "terceirizada" a outro intelectual orgânico. A mídia supriu as deficiências de organicidade do partido durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso e nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva. É certo que essa tática terá fôlego mais curto no governo Dilma Rousseff, pelos desgastes acumulados ao longo das últimas duas décadas e pela concorrência com novas mídias, que cumpriram também um papel político nessas eleições.
Internalizar o debate e tirá-lo do jogo de mediação entre os dois aparelhos privados de ideologia - partido e mídia - é um dos passos obrigatórios para a refundação do PSDB. A sedimentação de uma massa orgânica tem que acontecer internamente. A mídia pode reportar esse debate, trazer elementos para ele, mas é incapaz, pela sua própria natureza, de suprir deficiências organizacionais da legenda, nem substituir as relações de um partido com os setores sociais que ele representa. Embora essas duas militâncias sejam complementares em períodos eleitorais ou nos momentos de grande ofensiva oposicionista, elas não se misturam quando a questão é a formulação de consensos internos e consolidação de unidade partidária.
A outra razão para o PSDB voltar-se para si mesmo, sem terceirizar ação política, é que o resultado da eleição exigirá muita elaboração intelectual e orgânica interna para superar as contradições que trazem os resultados eleitorais. O PSDB elegeu um grande número de governadores - pela natureza do federalismo brasileiro, pouco propensos à ação oposicionista - e uma bancada reduzida na Câmara e no Senado. A ação parlamentar da oposição, nos governos Lula, foi alimentada pela mídia, mas esteve fundada nos poderes que a bancada oposicionista tinha para criar fatos dentro do parlamento. Com número reduzido de parlamentares, a oposição tem também um espaço reduzido para produzir fatos políticos.
O PSDB tem que sair da ofensiva tática, que marca o partido desde 2003, para a formulação de estratégias de sobrevivência como partido. A ofensiva udenista pura e simples não resolverá isso. Até agora, ela tem substituído as discussões de conteúdo e suprido as indefinições ideológicas do partido. Depois da terceira derrota, a agremiação terá que resolver claramente o que é, quem representa e qual a sua proposta para o país. Apenas assim conseguirá se constituir uma alternativa de poder de fato.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política
Fonte:VALOR ECONÔMICO (23/12/10)
Os partidários da "refundação" do PSDB, no debate que tentam travar internamente via imprensa, dão um diagnóstico preliminar das sucessivas derrotas. As críticas vão desde a guinada do PSDB à direita, num momento em que parte do eleitorado da classe média estava desesperançado do PT, mas uma massa maior ascendia à nova classe média graças ao governo petista, até a desvinculação histórica do partido com o movimento sindical e os movimentos sociais. Nesse debate, pode se depreender também uma crítica à hegemonia paulista do partido - mas, mais do que isso, uma crítica ao grupo hegemônico do PSDB paulista até as eleições deste ano.
Como o PSDB é um partido de quadros, no entanto, tende a individualizar culpas e transferir hegemonias não para grupos ideológicos internos, mas para líderes que, na opinião da maioria, possam substituir os anteriores com mais eficiência. Embora esteja claro o diagnóstico da pouca organicidade do partido, a falta de familiaridade com mecanismos internos de debate ideológico tende a valorizar mais as culpas individuais do que coletivas - embora a centralização de decisões nas mãos de determinados líderes, em especial paulistas, tenha sido efetivamente um dos problemas que levaram o partido a essa crise.
Crises políticas trazem o germe da renovação
A outra dificuldade de mudar uma estrutura inorgânica são os problemas de trânsito do debate na própria máquina partidária. O PSDB, ao que parece, tenta a "refundação" por linhas tortas, ao manter a discussão de fora para dentro. Nos últimos 20 anos, o partido tem terceirizado a ofensiva política para a mídia tradicional, que desempenhou um papel importante não só de ação oposicionista, mas até de estruturação ideológica. A guinada do PSDB para a direita foi uma opção de suas lideranças internas que tinham nas mãos as regras do jogo, mas foi também uma estratégia de tentativa de sensibilização da opinião pública via mídia tradicional, ou seja, "terceirizada" a outro intelectual orgânico. A mídia supriu as deficiências de organicidade do partido durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso e nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva. É certo que essa tática terá fôlego mais curto no governo Dilma Rousseff, pelos desgastes acumulados ao longo das últimas duas décadas e pela concorrência com novas mídias, que cumpriram também um papel político nessas eleições.
Internalizar o debate e tirá-lo do jogo de mediação entre os dois aparelhos privados de ideologia - partido e mídia - é um dos passos obrigatórios para a refundação do PSDB. A sedimentação de uma massa orgânica tem que acontecer internamente. A mídia pode reportar esse debate, trazer elementos para ele, mas é incapaz, pela sua própria natureza, de suprir deficiências organizacionais da legenda, nem substituir as relações de um partido com os setores sociais que ele representa. Embora essas duas militâncias sejam complementares em períodos eleitorais ou nos momentos de grande ofensiva oposicionista, elas não se misturam quando a questão é a formulação de consensos internos e consolidação de unidade partidária.
A outra razão para o PSDB voltar-se para si mesmo, sem terceirizar ação política, é que o resultado da eleição exigirá muita elaboração intelectual e orgânica interna para superar as contradições que trazem os resultados eleitorais. O PSDB elegeu um grande número de governadores - pela natureza do federalismo brasileiro, pouco propensos à ação oposicionista - e uma bancada reduzida na Câmara e no Senado. A ação parlamentar da oposição, nos governos Lula, foi alimentada pela mídia, mas esteve fundada nos poderes que a bancada oposicionista tinha para criar fatos dentro do parlamento. Com número reduzido de parlamentares, a oposição tem também um espaço reduzido para produzir fatos políticos.
O PSDB tem que sair da ofensiva tática, que marca o partido desde 2003, para a formulação de estratégias de sobrevivência como partido. A ofensiva udenista pura e simples não resolverá isso. Até agora, ela tem substituído as discussões de conteúdo e suprido as indefinições ideológicas do partido. Depois da terceira derrota, a agremiação terá que resolver claramente o que é, quem representa e qual a sua proposta para o país. Apenas assim conseguirá se constituir uma alternativa de poder de fato.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política
Fonte:VALOR ECONÔMICO (23/12/10)
Herói sem nenhum caráter (Demétrio Magnoli)
Lula jamais protestou contra o monopólio da imprensa pelo governo cubano e nunca deu um passo à frente para pedir pelo direito à expressão dos dissidentes no Irã. Ele sempre ofereceu respaldo aos arautos da ideia de cerceamento da liberdade de imprensa no Brasil. Mas é incondicional quando se trata de Julian Assange: "Vamos protestar contra aqueles que censuraram o WikiLeaks. Vamos fazer manifestação, porque liberdade de imprensa não tem meia cara, liberdade de imprensa é total e absoluta."
Assange é um estranho herói. No Brasil, o chefe do WikiLeaks converteu-se em ícone da turba de militantes fanáticos do "controle social da mídia" e de blogueiros chapa-branca, que operam como porta-vozes informais de Franklin Martins, o ministro da Verdade Oficial. Até mesmo os governos de Cuba e da Venezuela ensaiaram incensá-lo, antes de emergirem mensagens que os constrangem. Por que os inimigos da imprensa independente adotaram Assange como um dos seus?
A resposta tem duas partes. A primeira: o WikiLeaks não é imprensa - e, num sentido crucial, representa o avesso do jornalismo.
O WikiLeaks publica - ou ameaça publicar, o que dá no mesmo - tudo que cai nas suas mãos. Assange pretende atingir aquilo que julga serem "poderes malignos". No caso de tais alvos, selecionados segundo critérios ideológicos pessoais, não reconhece nenhum direito à confidencialidade. Cinco grandes jornais (The Guardian, El País, The New York Times, Le Monde e Der Spiegel) emprestaram suas etiquetas e sua credibilidade à mais recente série de vazamentos. Nesse episódio, que é diferente dos documentos sobre a guerra no Afeganistão, os cinco veículos rompem um princípio venerável do jornalismo.
A imprensa não publica tudo o que obtém. O jornalismo reconhece o direito à confidencialidade no intercâmbio normal de análises que circulam nas agências de Estado, nas instituições públicas e nas empresas.
A ruptura do princípio constitui exceção, regulada pelo critério do interesse público. Os "Papéis do Pentágono" só foram expostos, em 1971, porque evidenciavam que o governo americano ludibriava sistematicamente a opinião pública, ao fornecer informações falsas sobre o envolvimento militar na Indochina. A mentira, a violação da legalidade, a corrupção não estão cobertas pelo direito à confidencialidade.
Interesse público é um conceito irredutível à noção vulgar de curiosidade pública. Na imensa massa dos vazamentos mais recentes, não há novidades verdadeiras. De fato, não existem notícias - exceto, claro, o escândalo que é o próprio vazamento. A leitura de uma mensagem na qual um diplomata descreve traços do caráter de um estadista pode satisfazer a nossa curiosidade, mas não atende ao critério do interesse público. O jornalismo reconhece na confidencialidade um direito democrático - isto é, um interesse público. O WikiLeaks confunde o interesse público com a vontade de Assange porque não se enxerga como participante do jogo democrático. É apenas natural que tenha conquistado tantos admiradores entre os detratores da democracia.
Há, porém, algo mais que uma afinidade ideológica, de resto precária. A segunda parte da resposta: os inimigos da liberdade de imprensa torcem pelo esmagamento do WikiLeaks por uma ofensiva ilegal de Washington.
No Irã, na China ou em Cuba, um Assange sortudo passaria o resto de seus dias num cárcere. Nos EUA, não há leis que permitam condená-lo. As leis americanas sobre espionagem aplicam-se, talvez, ao soldado Bradley Manning, um técnico de informática, suposto agente original dos vazamentos. Não se aplicam ao veículo que decidiu publicá-los. A democracia é assim: na sua fragilidade aparente encontra-se a fonte de sua força.
O governo Obama estará traindo a democracia se sucumbir à tentação de perseguir Assange por meios ilegais. O WikiLeaks foi abandonado pelos parceiros que asseguravam suas operações na internet. Amazon, Visa, PayPal, Mastercard e American Express tomaram decisões empresariais legítimas ou cederam a pressões de Washington? A promotoria sueca solicita a extradição de Assange para responder a acusações de crimes sexuais. O sistema judiciário da Suécia age segundo as leis do país ou se rebaixa à condição de sucursal da vontade de Washington? Certo número de antiamericanos incorrigíveis asseguram que, nos dois casos, a segunda hipótese é verdadeira. Como de costume, eles não têm indícios materiais para sustentar a acusação. Se estiverem certos, um escândalo devastador, de largas implicações, deixará na sombra toda a coleção de insignificantes revelações do WikiLeaks.
A bandeira da liberdade nunca é desmoralizada pelos que a desprezam, mas apenas pelos que juraram respeitá-la. Assange não representa a liberdade de imprensa ou de expressão, mas unicamente uma heresia anárquica da pós-modernidade. Contudo, nenhuma democracia tem o direito de violar a lei para destruir tal heresia. A mesma ferramenta que hoje calaria uma figura sem princípios servirá, amanhã, para suprimir a liberdade de expor novos Guantánamos e Abu Ghraibs.
"Vamos fazer manifestação, porque liberdade de imprensa não tem meia cara, liberdade de imprensa é total e absoluta." Lula não teve essa ideia quando Hugo Chávez fechou a RCTV, nem quando os Castro negaram visto de viagem à blogueira Yoani Sánchez que lançaria seu livro no Brasil. Não a teve quando José Sarney usou suas conexões privilegiadas no Judiciário para intimidar Alcinéa Cavalcante, uma blogueira do Amapá, ou para obter uma ordem de censura contra O Estado de S. Paulo. Ele quase não disfarça o desejo de presenciar uma ofensiva ilegal dos EUA contra o WikiLeaks. Sob o seu ponto de vista, isso provaria que todos são iguais - e que os inimigos da liberdade de imprensa estão certos.
Alguém notou um sorriso furtivo, o tom de escárnio com que o presidente pronunciou as palavras "total e absoluta"?
Sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.
Fonte:O GLOBO (23/12/10)
Assange é um estranho herói. No Brasil, o chefe do WikiLeaks converteu-se em ícone da turba de militantes fanáticos do "controle social da mídia" e de blogueiros chapa-branca, que operam como porta-vozes informais de Franklin Martins, o ministro da Verdade Oficial. Até mesmo os governos de Cuba e da Venezuela ensaiaram incensá-lo, antes de emergirem mensagens que os constrangem. Por que os inimigos da imprensa independente adotaram Assange como um dos seus?
A resposta tem duas partes. A primeira: o WikiLeaks não é imprensa - e, num sentido crucial, representa o avesso do jornalismo.
O WikiLeaks publica - ou ameaça publicar, o que dá no mesmo - tudo que cai nas suas mãos. Assange pretende atingir aquilo que julga serem "poderes malignos". No caso de tais alvos, selecionados segundo critérios ideológicos pessoais, não reconhece nenhum direito à confidencialidade. Cinco grandes jornais (The Guardian, El País, The New York Times, Le Monde e Der Spiegel) emprestaram suas etiquetas e sua credibilidade à mais recente série de vazamentos. Nesse episódio, que é diferente dos documentos sobre a guerra no Afeganistão, os cinco veículos rompem um princípio venerável do jornalismo.
A imprensa não publica tudo o que obtém. O jornalismo reconhece o direito à confidencialidade no intercâmbio normal de análises que circulam nas agências de Estado, nas instituições públicas e nas empresas.
A ruptura do princípio constitui exceção, regulada pelo critério do interesse público. Os "Papéis do Pentágono" só foram expostos, em 1971, porque evidenciavam que o governo americano ludibriava sistematicamente a opinião pública, ao fornecer informações falsas sobre o envolvimento militar na Indochina. A mentira, a violação da legalidade, a corrupção não estão cobertas pelo direito à confidencialidade.
Interesse público é um conceito irredutível à noção vulgar de curiosidade pública. Na imensa massa dos vazamentos mais recentes, não há novidades verdadeiras. De fato, não existem notícias - exceto, claro, o escândalo que é o próprio vazamento. A leitura de uma mensagem na qual um diplomata descreve traços do caráter de um estadista pode satisfazer a nossa curiosidade, mas não atende ao critério do interesse público. O jornalismo reconhece na confidencialidade um direito democrático - isto é, um interesse público. O WikiLeaks confunde o interesse público com a vontade de Assange porque não se enxerga como participante do jogo democrático. É apenas natural que tenha conquistado tantos admiradores entre os detratores da democracia.
Há, porém, algo mais que uma afinidade ideológica, de resto precária. A segunda parte da resposta: os inimigos da liberdade de imprensa torcem pelo esmagamento do WikiLeaks por uma ofensiva ilegal de Washington.
No Irã, na China ou em Cuba, um Assange sortudo passaria o resto de seus dias num cárcere. Nos EUA, não há leis que permitam condená-lo. As leis americanas sobre espionagem aplicam-se, talvez, ao soldado Bradley Manning, um técnico de informática, suposto agente original dos vazamentos. Não se aplicam ao veículo que decidiu publicá-los. A democracia é assim: na sua fragilidade aparente encontra-se a fonte de sua força.
O governo Obama estará traindo a democracia se sucumbir à tentação de perseguir Assange por meios ilegais. O WikiLeaks foi abandonado pelos parceiros que asseguravam suas operações na internet. Amazon, Visa, PayPal, Mastercard e American Express tomaram decisões empresariais legítimas ou cederam a pressões de Washington? A promotoria sueca solicita a extradição de Assange para responder a acusações de crimes sexuais. O sistema judiciário da Suécia age segundo as leis do país ou se rebaixa à condição de sucursal da vontade de Washington? Certo número de antiamericanos incorrigíveis asseguram que, nos dois casos, a segunda hipótese é verdadeira. Como de costume, eles não têm indícios materiais para sustentar a acusação. Se estiverem certos, um escândalo devastador, de largas implicações, deixará na sombra toda a coleção de insignificantes revelações do WikiLeaks.
A bandeira da liberdade nunca é desmoralizada pelos que a desprezam, mas apenas pelos que juraram respeitá-la. Assange não representa a liberdade de imprensa ou de expressão, mas unicamente uma heresia anárquica da pós-modernidade. Contudo, nenhuma democracia tem o direito de violar a lei para destruir tal heresia. A mesma ferramenta que hoje calaria uma figura sem princípios servirá, amanhã, para suprimir a liberdade de expor novos Guantánamos e Abu Ghraibs.
"Vamos fazer manifestação, porque liberdade de imprensa não tem meia cara, liberdade de imprensa é total e absoluta." Lula não teve essa ideia quando Hugo Chávez fechou a RCTV, nem quando os Castro negaram visto de viagem à blogueira Yoani Sánchez que lançaria seu livro no Brasil. Não a teve quando José Sarney usou suas conexões privilegiadas no Judiciário para intimidar Alcinéa Cavalcante, uma blogueira do Amapá, ou para obter uma ordem de censura contra O Estado de S. Paulo. Ele quase não disfarça o desejo de presenciar uma ofensiva ilegal dos EUA contra o WikiLeaks. Sob o seu ponto de vista, isso provaria que todos são iguais - e que os inimigos da liberdade de imprensa estão certos.
Alguém notou um sorriso furtivo, o tom de escárnio com que o presidente pronunciou as palavras "total e absoluta"?
Sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.
Fonte:O GLOBO (23/12/10)
Quando a administração pública vira espetáculo (Marco Antonio Villa)
‘Pulo do gato’ foi buscar apoio eleitoral nos setores desorganizados, nos menos escolarizados e com renda inferior a um salário mínimo
Não é tarefa fácil fazer um balanço dos dois mandatos presidenciais de Lula. Como é sabido, ele elegeu a sucessora e sai do governo com alto índice de popularidade.
Remar contra a corrente não é tradição no Brasil. O “adesismo analítico” é uma característica nacional, infelizmente. E mais ainda agora, pela forma como o presidente se portou durante os últimos oito anos. Lula criou um novo estilo de comunicação presidencial. Na nossa história republicana não há paralelo. Substituiu a rotina administrativa com eventuais manifestações públicas, típicas dos presidentes anteriores, por aparições constantes, sempre em clima de comício, buscando incessantemente o contato com os eleitores. Nestes momentos — e foram centenas durante os últimos oito anos — discursava de improviso, tecia considerações sobre os mais variados temas, atacava seus opositores e estabelecia um vínculo direto com o povo.
Não era com o governo, com um programa, um partido. Não. Era com ele. Nestas cerimônias — a maioria delas, mero pretexto para discursar — o transformou no maior propagandista do seu próprio governo. Mas não só: o reforço constante deste tipo de elo — o presidente e os eleitores — despolitizou a política, empobreceu o debate e fortaleceu o personalismo, tão nocivo à democracia, especialmente em um país em que as instituições democráticas e a cultura política são ainda frágeis.
Com raro poder de convencimento e habilidade no trato com os grandes auditórios — herança advinda dos tempos do sindicalismo —, Lula transformou a administração pública em espetáculo. E obteve êxito. Todas as denúncias — e não foram poucas — de corrupção, filhotismo e tráfico de influência caíram no esquecimento ou, no máximo, atingiram alguns dos seus auxiliares.
Ele saiu ileso. A complacência do presidente banalizou a corrupção, desmoralizou as CPIs e legitimou o saque do Estado.
Lula deu nova vida às oligarquias.
Justamente ele que, durante tantos anos, dizia representar o novo. Fez alianças com o que havia de mais atrasado na vida política nacional.
E não só: obrigou o seu partido a estabelecer acordos locais com os velhos oligarcas, alguns deles — caso de Sarney, no Maranhão — adversários viscerais dos petistas.
Desta forma, desarquivou das estantes empoeiradas da História o mandão local, concedeu legitimidade ao seu perverso domínio e desarticulou os movimentos antioligárquicos. Esta é uma das mais pérfidas heranças deixadas por Lula.
Nestes oito anos, o processo de acumulação capitalista foi intensificado.
Seguindo o ritmo histórico brasileiro, o Estado continuou sendo o grande indutor da expansão econômica, assim como foi durante o Estado Novo, o populismo e a ditadura militar. E como o setor privado não consegue acumular e crescer com suas próprias pernas, mais uma vez o Estado esteve presente.
Porém, ocorreram modificações importantes.
O BNDES jogou um papel fundamental, assim como os fundos de pensão das empresas estatais. O governo Lula criou uma burguesia petista. Fabricou milionários instantâneos, forjou gênios empresariais e transformou empreendimentos regionais em empresas mundiais.
Nem durante a ditadura, a grande burguesia teve apoio tão amplo e duradouro do Estado.
Se para o grande capital foram transferidos recursos, quase que a fundo perdido, para a classe média (no sentido mais amplo) foi ampliado o crédito em escala nunca vista, criando, por exemplo, no setor imobiliário uma bolha que pode estourar nos próximos anos, dependendo do que ocorrer na instável economia internacional. O endividamento das famílias aumentou numa escala superior à do crescimento da renda. O consumismo associado a uma taxa de câmbio sobrevalorizada levou amplos setores das classes médias a “lular”. Numa escolha racional tupiniquim, optaram por fechar os olhos frente a crise ética e valorizar os ganhos econômicos, atitude parecida ao momento do milagre brasileiro (1968-1973), durante a ditadura.
Para os setores organizados, tanto urbanos como rurais, o governo obteve, através da cooptação das lideranças, a tão almejada “paz social”.
Foram anos de tranquilidade no campo da luta de classes. As centrais sindicais foram domadas sem muito esforço. Bastou repassar milhões de reais — que foram descontados dos salários dos trabalhadores, como contribuição obrigatória — para os seus dirigentes. Aos barões do sindicalismo foram reservados também centenas de nomeações no Ministério do Trabalho, no Sebrae e no Sesi. No campo, o MST recebeu generosas dotações oficiais e até esqueceu que o governo Lula distribuiu menos terras que o “neoliberal” FHC. As mutações ideológicas chegaram até aos partidos que estariam à esquerda do PT, como o PCdoB. O antigo partido do socialismo foi seduzido pelos recursos destinados ao Ministério dos Esportes e acabou se transformando no partido do lazer. Trocou como leitura de cabeceira Karl Marx por Paul Lafargue.
Mas o pulo do gato foi buscar apoio eleitoral nos setores desorganizados, onde o PT era muito frágil, entre os menos escolarizados e com renda inferior a um salário mínimo. Sem vontade própria ou poder de mobilização, os beneficiários do Bolsa Família transformaram- se naquilo que todo governo conservador almeja: são fiéis e obedientes eleitores do oficialismo.
Temeroso ao extremo, Lula fez uma pálida gestão econômica. Sem a mínima ousadia, buscou resultados seguros e imediatos, sem nenhuma visão estratégica. Não foi um estadista. Longe disso. Assemelhou- se a um presidente da República Velha. Priorizou o setor primário da economia e desindustrializou o país. Soldou uma estranha aliança econômica entre o capital financeiro e o setor exportador.
O conservadorismo político-econômico também esteve presente na política externa. As causas democráticas e humanistas foram abandonadas.
O Brasil alinhou-se com ditaduras stalinistas, caudilhos passadistas e teocracias. Nas disputas internacionais, o país perdeu todas.
Por paradoxal que pareça, Lula considerou uma vitória a sucessão de derrotas. No campo social, o avanço foi pequeno.
Na educação, continuamos com milhões de analfabetos adultos e com um ensino fundamental formando alunos que desconhecem a língua portuguesa e as quatro operações matemáticas. Contudo, para agradar a suas bases políticas, criou várias universidades públicas. Os programas de habitação popular nunca atingiram as metas previstas.
O saneamento básico apresenta um quadro dantesco. Os programas de erradicação da pobreza fracassaram.
Mesmo assim, foram nas regiões mais miseráveis que a popularidade de Lula atingiu os índices mais altos. Isto mostra a eficácia, por um lado, do Bolsa Família, e, por outro, da capacidade de comunicação e de construção de um discurso político por parte do presidente. E mais: demonstra a ausência nos últimos oito anos de uma oposição atuante, crítica e propositiva.
É provável que este quadro não se repita no próximo quadriênio presidencial.
Uma política de contemporização das contradições sociais e econômicas não permanece eficaz por longo tempo. Além do que, o gestor presidencial precisa ter legitimidade política, que é produto de uma história pessoal, e uma capacidade de equilibrar e conviver com tensões e pressões cotidianas. Mas não só: o cenário econômico internacional apresenta uma séria possibilidade de crises intermitentes, e, internamente, dado o conservadorismo, temos uma base econômica frágil.
■ Marco Antonio Villa é historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos.
Fonte: O GLOBO(20/12/10)
Não é tarefa fácil fazer um balanço dos dois mandatos presidenciais de Lula. Como é sabido, ele elegeu a sucessora e sai do governo com alto índice de popularidade.
Remar contra a corrente não é tradição no Brasil. O “adesismo analítico” é uma característica nacional, infelizmente. E mais ainda agora, pela forma como o presidente se portou durante os últimos oito anos. Lula criou um novo estilo de comunicação presidencial. Na nossa história republicana não há paralelo. Substituiu a rotina administrativa com eventuais manifestações públicas, típicas dos presidentes anteriores, por aparições constantes, sempre em clima de comício, buscando incessantemente o contato com os eleitores. Nestes momentos — e foram centenas durante os últimos oito anos — discursava de improviso, tecia considerações sobre os mais variados temas, atacava seus opositores e estabelecia um vínculo direto com o povo.
Não era com o governo, com um programa, um partido. Não. Era com ele. Nestas cerimônias — a maioria delas, mero pretexto para discursar — o transformou no maior propagandista do seu próprio governo. Mas não só: o reforço constante deste tipo de elo — o presidente e os eleitores — despolitizou a política, empobreceu o debate e fortaleceu o personalismo, tão nocivo à democracia, especialmente em um país em que as instituições democráticas e a cultura política são ainda frágeis.
Com raro poder de convencimento e habilidade no trato com os grandes auditórios — herança advinda dos tempos do sindicalismo —, Lula transformou a administração pública em espetáculo. E obteve êxito. Todas as denúncias — e não foram poucas — de corrupção, filhotismo e tráfico de influência caíram no esquecimento ou, no máximo, atingiram alguns dos seus auxiliares.
Ele saiu ileso. A complacência do presidente banalizou a corrupção, desmoralizou as CPIs e legitimou o saque do Estado.
Lula deu nova vida às oligarquias.
Justamente ele que, durante tantos anos, dizia representar o novo. Fez alianças com o que havia de mais atrasado na vida política nacional.
E não só: obrigou o seu partido a estabelecer acordos locais com os velhos oligarcas, alguns deles — caso de Sarney, no Maranhão — adversários viscerais dos petistas.
Desta forma, desarquivou das estantes empoeiradas da História o mandão local, concedeu legitimidade ao seu perverso domínio e desarticulou os movimentos antioligárquicos. Esta é uma das mais pérfidas heranças deixadas por Lula.
Nestes oito anos, o processo de acumulação capitalista foi intensificado.
Seguindo o ritmo histórico brasileiro, o Estado continuou sendo o grande indutor da expansão econômica, assim como foi durante o Estado Novo, o populismo e a ditadura militar. E como o setor privado não consegue acumular e crescer com suas próprias pernas, mais uma vez o Estado esteve presente.
Porém, ocorreram modificações importantes.
O BNDES jogou um papel fundamental, assim como os fundos de pensão das empresas estatais. O governo Lula criou uma burguesia petista. Fabricou milionários instantâneos, forjou gênios empresariais e transformou empreendimentos regionais em empresas mundiais.
Nem durante a ditadura, a grande burguesia teve apoio tão amplo e duradouro do Estado.
Se para o grande capital foram transferidos recursos, quase que a fundo perdido, para a classe média (no sentido mais amplo) foi ampliado o crédito em escala nunca vista, criando, por exemplo, no setor imobiliário uma bolha que pode estourar nos próximos anos, dependendo do que ocorrer na instável economia internacional. O endividamento das famílias aumentou numa escala superior à do crescimento da renda. O consumismo associado a uma taxa de câmbio sobrevalorizada levou amplos setores das classes médias a “lular”. Numa escolha racional tupiniquim, optaram por fechar os olhos frente a crise ética e valorizar os ganhos econômicos, atitude parecida ao momento do milagre brasileiro (1968-1973), durante a ditadura.
Para os setores organizados, tanto urbanos como rurais, o governo obteve, através da cooptação das lideranças, a tão almejada “paz social”.
Foram anos de tranquilidade no campo da luta de classes. As centrais sindicais foram domadas sem muito esforço. Bastou repassar milhões de reais — que foram descontados dos salários dos trabalhadores, como contribuição obrigatória — para os seus dirigentes. Aos barões do sindicalismo foram reservados também centenas de nomeações no Ministério do Trabalho, no Sebrae e no Sesi. No campo, o MST recebeu generosas dotações oficiais e até esqueceu que o governo Lula distribuiu menos terras que o “neoliberal” FHC. As mutações ideológicas chegaram até aos partidos que estariam à esquerda do PT, como o PCdoB. O antigo partido do socialismo foi seduzido pelos recursos destinados ao Ministério dos Esportes e acabou se transformando no partido do lazer. Trocou como leitura de cabeceira Karl Marx por Paul Lafargue.
Mas o pulo do gato foi buscar apoio eleitoral nos setores desorganizados, onde o PT era muito frágil, entre os menos escolarizados e com renda inferior a um salário mínimo. Sem vontade própria ou poder de mobilização, os beneficiários do Bolsa Família transformaram- se naquilo que todo governo conservador almeja: são fiéis e obedientes eleitores do oficialismo.
Temeroso ao extremo, Lula fez uma pálida gestão econômica. Sem a mínima ousadia, buscou resultados seguros e imediatos, sem nenhuma visão estratégica. Não foi um estadista. Longe disso. Assemelhou- se a um presidente da República Velha. Priorizou o setor primário da economia e desindustrializou o país. Soldou uma estranha aliança econômica entre o capital financeiro e o setor exportador.
O conservadorismo político-econômico também esteve presente na política externa. As causas democráticas e humanistas foram abandonadas.
O Brasil alinhou-se com ditaduras stalinistas, caudilhos passadistas e teocracias. Nas disputas internacionais, o país perdeu todas.
Por paradoxal que pareça, Lula considerou uma vitória a sucessão de derrotas. No campo social, o avanço foi pequeno.
Na educação, continuamos com milhões de analfabetos adultos e com um ensino fundamental formando alunos que desconhecem a língua portuguesa e as quatro operações matemáticas. Contudo, para agradar a suas bases políticas, criou várias universidades públicas. Os programas de habitação popular nunca atingiram as metas previstas.
O saneamento básico apresenta um quadro dantesco. Os programas de erradicação da pobreza fracassaram.
Mesmo assim, foram nas regiões mais miseráveis que a popularidade de Lula atingiu os índices mais altos. Isto mostra a eficácia, por um lado, do Bolsa Família, e, por outro, da capacidade de comunicação e de construção de um discurso político por parte do presidente. E mais: demonstra a ausência nos últimos oito anos de uma oposição atuante, crítica e propositiva.
É provável que este quadro não se repita no próximo quadriênio presidencial.
Uma política de contemporização das contradições sociais e econômicas não permanece eficaz por longo tempo. Além do que, o gestor presidencial precisa ter legitimidade política, que é produto de uma história pessoal, e uma capacidade de equilibrar e conviver com tensões e pressões cotidianas. Mas não só: o cenário econômico internacional apresenta uma séria possibilidade de crises intermitentes, e, internamente, dado o conservadorismo, temos uma base econômica frágil.
■ Marco Antonio Villa é historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos.
Fonte: O GLOBO(20/12/10)
Assinar:
Postagens (Atom)