quinta-feira, 12 de março de 2020

A esquerda perdida (Guilherme Amado )

Semanas depois de deixar a cadeia, Lula marcou uma conversa com um cientista político, alguém que durante anos aconselhou não só o PT, mas também boa parte dos quadros da política tradicional. Aturdido pelo cenário adverso para seu partido, Lula perguntou ao interlocutor: “Onde foi que erramos?”. Incrédulo, o cientista político não levou o papo muito além. O episódio é mais um a mostrar como Lula, o PT e a esquerda estão perdidos.
Quando estava preso, o comentário no partido era que todos estavam de certa maneira presos com o ex-presidente. Solto, tem demorado a entender o que se passa no país, o que se passa no PT e, o mais importante, como dar a volta por cima. Principal partido de oposição, a sigla completou 40 anos com sinais de cansaço.
Não conseguiu até hoje sair do fosso da Lava Jato, erra no Congresso e não consegue colocar candidaturas competitivas de pé para outubro. O barata-voa tem sido uma constante também em outras legendas da esquerda — a retroescavadeira de Cid Gomes (PDT) foi o símbolo mais forte —, que parecem incapazes de formular uma proposta alternativa e sólida a ponto de voltar a inspirar confiança. Na corrida para 2022, a esquerda já larga algumas posições atrás.
Perto de completar quatro meses solto, Lula mostra a cada manifestação pública que não aprendeu a ser humilde nem na cadeia. Diz que fazer uma autocrítica seria dar munição ao inimigo, como se os processos contra ele, os números da economia e sua surpreendente inabilidade política não tenham sido por si só mais eficazes que qualquer disparo adversário. Suas entrevistas são uma mistura de rancor com pitadas de populismo à esquerda, que desanimam quem esperava ver nele a mesma postura do líder que em 2002 uniu classes e conseguiu fazer um pacto contra a desigualdade social.
Não aceita que outras siglas, a exemplo do PDT e do PSB, não se engajem na causa. Perguntado outro dia se toparia fazer como Cristina Kirchner e disputar a Presidência como vice de outro candidato, em nome de uma vitória, só riu.
Enquanto o partido segue centrado em seu líder máximo, a condução da escolha dos candidatos a prefeito vai mal. Apesar dos esforços de Lula, Fernando Haddad não quer ser candidato em São Paulo, porque sabe que, ganhando ou perdendo, deixaria a corrida presidencial. As outras opções para a cidade perigam relegar ao partido um quarto ou quinto lugar na disputa.
A capital — única das regiões Sul e Sudeste em que o PT, se o candidato for Haddad, tem força para ir para o segundo turno — ou não terá candidato ou terá somente para ocupar espaço, sem chance concreta. Nas demais praças expressivas, o quadro não é muito diferente. Em Recife, por exemplo, Lula segue usando a possibilidade de uma candidatura de Marília Arraes, prima de Eduardo Campos, para pressionar o PSB. Em troca de o PT apoiar a candidatura de João Campos, filho de Eduardo, a prefeito da capital pernambucana, o PSB teria de fazer o paulista Márcio França apoiar o partido na disputa pela prefeitura de São Paulo. Mas o diretório de Pernambuco não tem essa força, e há o risco de o PSB ir sem o PT, que ficaria isolado em uma das principais capitais nordestinas.
No Congresso, o partido também segue errando. Está prestes a passar a perna no PDT para tentar manter o domínio da liderança da minoria na Câmara, como foi em 2019, quando Jandira Feghali foi a líder e manteve boa parte dos nomeados do PT. Pelo acordo feito no ano passado, desta vez seria o PDT. O mais grave, entretanto, vem ocorrendo na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News.
O partido não tem se concentrado na investigação sobre os disparos maciços e ilegais de mensagens na campanha de 2018, mas sim no jogo político. Tentam convocar, por exemplo, o secretário de Comunicação de Bolsonaro, Fabio Wajngarten, por causa de outro escândalo que nada tem a ver com o objeto da CPMI. Em depoimentos importantes, seus parlamentares não têm tido o preparo mínimo. Quando as sessões são deliberativas e há o risco de que sejam votados requerimentos convocando Lula e Dilma Rousseff — o que, de fato, não tem cabimento diante do tema da CPMI — eles simplesmente faltam, para que não haja quorum. E assim nada avança.
O uso de desinformação e a incitação ao ódio, aliás, têm sido uma estratégia que só faz igualar parte da esquerda à direita extremista. Recentemente, ao falar para o UOL, Lula concordou com os ataques de Jair Bolsonaro a jornalistas, deturpando fatos da cobertura política e, bem ao gosto dos populistas, evocando o nazismo para se referir ao trabalho de um veículo jornalístico.
Em outro partido, o PCdoB, Orlando Silva, deputado federal e pré-candidato à prefeitura de São Paulo, compartilhou no domingo 16 um vídeo de 2017, em que Bolsonaro era vaiado, como se fosse daquele dia, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Alertado sobre as imagens serem antigas, ignorou e só foi apagá-las uma semana depois, sem retratação. Já havia centenas de compartilhamentos.
Não é só nessa seara que outras siglas da esquerda têm tido movimentos erráticos. No ano em que completa 15 anos de registro definitivo na Justiça Eleitoral, o PSOL, nascido de uma costela do PT, parece estar voltando ao corpo original. Colou sua atuação na do partido que lhe deu origem e perdeu a criticidade sobre os erros do governo petista, que combateu durante todos os anos de Lula e Dilma Rousseff. O ex-presidente se tornou vítima e a Lava Jato não passou de um arroubo jurídico para dizimar a legenda. No Rio de Janeiro, Benedita da Silva, descrita até outro dia por psolistas como uma das maiores entusiastas do “Partido da Boquinha”, como a legenda é chamada por seus críticos no estado, será vice de Marcelo Freixo.
O PSB vai tentando construir um caminho próprio para 2022, ainda na expectativa de que Joaquim Barbosa ou outro outsider tope disputar pelo partido. Entretanto, à medida que não consegue, a legenda de Miguel Arraes vem aos poucos perdendo densidade e voltando ao tamanho que tinha antes de Eduardo Campos, um conjunto de agremiações regionais, sem alavancagem nacional.
Na semana que começa no domingo 1º, os partidos de esquerda vão se reunir em Brasília para debater um eventual caminho que possa punir ou ao menos constranger Jair Bolsonaro por ter compartilhado um vídeo convocando protestos contra o Congresso. Vai ser difícil conseguir algo mais forte além de mais alguns repúdios públicos. Quatro anos depois de o PT deixar o poder, a esquerda, tragada pelos erros do partido, ainda não fez o dever de casa para voltar a ter a voz de outros tempos.
Revista Época/28 de fevereiro de 2020

Samba da cartilha (Fernando Schüler)

O Cacique de Ramos teve que se explicar. O bloco desfila com fantasias de índio desde 1960, mas agora a coisa complicou. “Os pioneiros do bloco tinham nomes indígenas e eram ligados à umbanda.” Não entendi a relação com a umbanda. Possivelmente era um salvo-conduto.
Alessandra Negrini também não escapou. Teve que se explicar e se saiu bastante bem. “A luta indígena é de todos nós, por isso tive a ousadia de me vestir assim.” Bingo. Em vez de pedir desculpas, um pouco de retórica política. Contra-ataque perfeito.
Curiosa essa invasão da retórica politica sobre a indisciplina e a irreverência que sempre marcou (ao menos é isso que imaginávamos), nosso Carnaval. Não se trata da sátira política (sempre bem-vinda, aliás), mas o seu contrário: o disciplinamento da sátira pela correção política.
O melhor disso foi a cartilha editada por um conselho da Prefeitura de Belo Horizonte com orientações sobre o que os foliões deveriam evitar. Fantasias de índio, enfermeira sexy, a marchinha clássica de Lamartine Babo, touca com tranças, homem vestido de mulher. Esse último item com um requinte: nem de “noiva”.
Talvez tenha sido nosso primeiro Carnaval de cartilha, mas presumo que seja o primeiro de muitos.
Nessas coisas todas, o que me surpreende é o excesso de convicção. A certeza de que alguém tem o direito de mandar na vida dos outros. Antônio Risério chamou isso de “fascismo identitário” em seu livro recente. Fascismo, aqui, é o culto do dogma, a negação do diálogo, a sede de controle. Se o termo é adequado cada um pode julgar.
Vai aí uma marca do nosso tempo: a hiperpolitização do cotidiano. Jonathan Haidt trata do tema em seu “The Coddling of the American Mind”. A vigilância coletiva nos campi universitários, os safe spaces, a supressão da divergência e proteção a qualquer coisa que caiba sob o rótulo de ofensivo.
Parece evidente que as redes sociais têm muito a ver com isso. A conexão digital fez com que, subitamente, passássemos a viver juntos. Da multiplicidade que marca as grandes sociedades abertas, passamos a funcionar como uma comunidade. Comunidade de bisbilhoteiros e “reguladores da vida dos outros”, como escutei de um amigo professor tempos atrás.
Sobre a atual histeria identitária, Risério toca na questão central: como é possível que movimentos que iniciaram “como luta pelo reconhecimento do outro tenham terminado como uma luta que rejeita o outro, a diferença, a outridade”?
Não vejo resposta simples a essa pergunta. Mas ela deve ser feita. De um movimento múltiplo e generoso, afirmativo de direitos, migramos a uma guerra mesquinha pelo disciplinamento do humor, pela correção da literatura, supressão de marchinhas, regulação de fantasias e festas populares.
Talvez tudo tenha saído um pouco de controle quando as guerras culturais invadiram o mundo da política e qualquer alegação de fragilidade tenha se tornado um caminho fácil para a virtude. Tudo feito à moda banal da radicalização e do exagero que marca a democracia atual.
Há muitos riscos aí. Um deles é a descredibilização dos temas de fato pertinentes à exclusão e o preconceito. Submeter a luta antirracista ao julgamento seletivo e à politização barata é perder de vista a seriedade dos temas que ela de fato envolve no dia a dia.
Há um elemento político: só quem tem ganhado, com a histeria identitária, é um certo direitismo conservador que declara guerra ao politicamente correto e passa a ser visto, por irônico que pareça, como libertador. Há muitos bons trabalhos de sociologia mostrando isso, infelizmente não aqui pelos trópicos.
No mais, arriscamos terminar convertendo o país da transgressão e da antropofagia em uma nação puritana. Depois do ódio político, a chatice cultural. Acabaríamos cantando hinos gospel no Carnaval.
Nesse dia bateria uma saudade, não tenho dúvidas, de algumas velhas marchinhas que deixamos para trás.
Folha de S. Paulo/27 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 4 de março de 2020

O gabinete fardado (Marco Aurélio Nogueira)

E eis que, sem maior alvoroço, os militares voltaram a ter importante peso político no Brasil. Passaram a dominar o Palácio do Planalto, onde fica o presidente, ele também um ex-militar. Vários generais e um almirante ocupam da Casa Civil à Vice-Presidência da República.
O gabinete fardado está sendo analisado como um freio ao extremismo histriônico da ala ideológica do governo, formatada pelo olavismo. O fato poderia ser visto como uma oportunidade para que se imprima um novo estilo de atuação ao governo, reduzindo seu sectarismo e sua visão obnubilada da realidade. Um estilo mais frio não daria trela às baixarias dos ideólogos.
Nessa avaliação, o novo gabinete poderia funcionar como um freio de arrumação, que acomodaria as melancias que o governo deixa chacoalhar na carroceria. Ajudaria a reduzir o destempero presidencial. Formar-se-ia um colegiado decisório que, apoiado na hierarquia militar e na cultura da caserna, faria um contraponto às manifestações bélicas do bolsonarismo. Afinal, em tempos de paz é mais importante saber guardar e reforçar posições do que atacar, sobretudo se os inimigos são imaginários.
Tudo isso a se ver. Antes de tudo será preciso descobrir se os oficiais têm um plano para recuperar a imagem do governo, se atuarão como fator de equilíbrio ou se darão um cheque em branco ao presidente Jair Bolsonaro, estimulando suas intervenções desqualificadas. Aconteceu algo assim com o general Heleno, no início visto como “moderador”, mas que logo se revelou um ativista do bolsonarismo, um “incendiário”.
A Casa Civil está com o general Braga Netto, militar experiente. Órgão estratégico, dele depende a coordenação governamental e a organização de um ambiente favorável no Congresso. Militares são, como todos os cidadãos, seres políticos qualificados para pensar o Estado, a comunidade política. Fazem isso, porém, com uma sólida ideia de lealdade e uma forte carga corporativa, que os impulsiona a verem a si próprios como diferentes dos demais e com interesses que precisariam ser defendidos a ferro e fogo. São treinados para “desconfiar” dos políticos, não para fazer política.
Se não tiver jogo de cintura, um general na Casa Civil pode dificultar ainda mais as relações entre o Executivo e o Legislativo. Pode, também, aprofundar a inserção das Forças Armadas no governo, com o risco de que terminem por trocar o perfil técnico e a missão institucional de proteger o Estado pela gestão dos negócios governamentais e pelos conflitos políticos a eles inerentes. Militares num governo autoritário, como é o de Bolsonaro, não beneficiam a imagem de isenção democrática das Forças Armadas. É algo que as lança no olho do furacão, ainda que sejam apenas alguns oficiais a assumir o encargo.
Um governo com uma ala militar ativa pode transitar em campo minado. Como observou o sociólogo Rodrigo Prando, em caso de rompimento com os militares o governo poderia ver-se numa crise de desfecho imprevisível. Militares sabem ocupar territórios, mas não necessariamente estão preparados para dialogar, mover-se entre ideias plurais e pressões típicas do mundo político.
No Brasil as Forças Armadas são vistas como patrióticas, disciplinadas e “desinteressadas”. Mas carregam o fardo do golpismo e do autoritarismo. Acreditam que os militares existem para salvar o País. É provável que os oficiais mais jovens não compartilhem esse fardo. A caserna, porém, é mais ampla. Seja como for, já estão dadas as condições para que as Forças Armadas contenham os seus impulsos históricos e atuem democraticamente.
A presença militar tenderá a incentivar uma postura focada em resultados estruturais, alheios ao jogo eleitoral. É onde repousa o risco de atrito com a política. Também terá de se haver com as resistências do núcleo civil do governo. A “militarização” coincide com o comportamento autoritário e debochado do presidente, com seu familismo exacerbado. É difícil imaginar que Bolsonaro adote uma conduta mais digna e educada, mais criteriosa com as políticas estratégicas e os interesses nacionais. A questão não é de espaço e poder de pressão, mas de biografia, estilo e modo de pensar.
Deveria ser constrangedor, para a ética militar, que as grosserias, ofensas e aberrações do presidente estejam a ser cometidas nas barbas dos oficiais que integram o núcleo principal do governo. Militares costumam ser discretos, falam pouco, cuidam da linguagem. Não deveriam lavar as mãos diante dos descalabros que jogam a Presidência da República num poço sujo e sem fundo.
O gabinete fardado dará força à tecnocracia? Vai depender, também, da capacidade que tiverem os políticos de equilibrar a balança. O Congresso tem contrastado a falta de iniciativa do Executivo no que tange às reformas e à formulação de políticas públicas. Se calibrar bem a sua atuação e reunir as forças democráticas de oposição, o Congresso poderá ajudar a que se organize uma agenda nacional e se modifique a orientação de uma população que acredita que a saída está fora da política e longe do Parlamento.
O Estado de S.Paulo/ 22 de fevereiro de 2020

A esquerda ficou pra trás (Cristovam Buarque)

Na véspera dos 40 anos do PT, alguns analistas, inclusive militantes e simpatizantes, afirmaram que o partido está obsoleto. Mas cometeram dois erros: não é só o PT, toda a esquerda tradicional ficou obsoleta; e eles usaram argumentos superficiais para justificar a ideia de obsolescência. O obsoletismo tem razões mais profundas.
Alguns ficaram indecentes pela corrupção, mas tornaram-se obsoletos pelo apego a ideias e propostas do passado. Não viram a história avançar. Não acompanharam as transformações tecnológicas e seus impactos sociais e políticos no mundo contemporâneo. Não entenderam que as novas tecnologias modificaram as relações entre trabalho, capital e consumidor; ficaram no tempo em que o progresso criava emprego formal e permanente, sem ver que o progresso atual cria apenas certos empregos, quase sempre qualificados, informais e provisórios.
Não enxergaram que a classe trabalhadora está dividida entre categorias com privilégios, sem interesses comuns com as massas excluídas. Que a “mais-valia” foi substituída pela “desvalia” sobre os pobres e uma “pactuada-valia” entre capitalistas e trabalhadores especializados. Por isso, os sindicatos representam trabalhadores do setor moderno, não ao povo.
Não viram que a globalização não permite políticas econômicas nacionais voluntariosas, que terminam populistas e irresponsáveis. Não aceitaram que a construção de justiça social exige economia eficiente. Não entenderam a gravidade do desequilíbrio ecológico, e continuam prometendo aumentar o consumo de tudo para todos, no lugar de apresentar propostas para elevar o bem-estar social e a qualidade de vida. Elevaram o salário mínimo, mas não melhoram a qualidade de vida dos pobres, nem da escola de seus filhos.
Não perceberam que o vetor do progresso não está mais no chão da fábrica, mas nas bancas das escolas; que a distribuição estrutural da renda não se dá por bolsas, mas pela garantia de qualidade na educação de base para todos. Não viram que o Estado se esgotou, ficou ineficiente, injusto e corrupto; continuam insistindo no equívoco de que estatal é sinônimo de público. Tampouco entenderam que devemos respeitar as restrições técnicas da economia e garantir acesso universal aos bens e serviços públicos — meio ambiente, saúde, educação, estabilidade monetária — deixando para o mercado a produção e distribuição dos bens e serviços privados. Perderam as velhas utopias do socialismo, e não construíram outra proposta para todos. Ficaram sem bandeiras transformadoras para o país, que foi dividido em corporações e segmentos sociais, sem a defesa de reformas estruturais.
Os partidos progressistas foram rejeitados porque abandonaram os valores morais que apresentavam, mas ficaram obsoletos porque abandonaram a lógica com a qual deveriam observar a realidade do mundo em transformação. A perda da vergonha levou à desmoralização, mas o obsoletismo veio da perda de vigor transformador e de bandeiras para o futuro.
Os partidos ficaram prisioneiros do imediatismo eleitoreiro de seus políticos e sem contar com pensamento modernizador em relação ao mundo, aos riscos de sua marcha e aos sonhos do que será possível construir. Ficaram com políticos ruins e sem bons filósofos. Porque cooptaram e silenciaram nossos intelectuais, prisioneiros das siglas e dos líderes que reverenciam. Como nas religiões, passaram a acreditar nas suas narrativas e em seus santos. Pior do que não ver a banda passar foi fechar as janelas que dão para a rua e transformar os salões de debate em templos reverenciando crenças do passado.
Nestes últimos anos, o PT sobreviveu como um partido parecido a uma religião, por isso sobreviverá preso a doutrinas do passado mais do que a políticas para o futuro. No seu 40º aniversário, deveria lançar um movimento “Lula Livre e PT Livre, um do outro e os dois do passado” — Lula, usando sua liderança para falar ao Brasil, não apenas aos seus militantes, e estes pensando livremente, com esperança para 2060 e não com nostalgia de 1980.
O Globo/21 de fevereiro de 2020

A dupla face do reacionarismo brasileiro (Fernando Schüler)

Há um duplo reacionarismo no debate brasileiro. O primeiro deles é de base cultural. Poderia chamá-lo de “conservadorismo de costumes”, mas sempre que faço isso alguém lembra que o termo conservadorismo é mais amplo, que há a grande tradição de Burke a John Kekes.
Não é disso que estamos falando. É algo bem mais caseiro. Não se trata de Oakeshott, mas de Marcelo Crivella. O “militante de sua nostalgia”, na frase de Mark Lilla. Aqui pelos trópicos, seu grande momento foi a censura à revista com o beijo gay, na Bienal do Livro.
Luc Ferry criticou essa visão dizendo ser um absurdo supor que a natureza deva definir a ética. Perfeito. Hayek, em seu clássico “Porque Não Sou Um Conservador”, ironizou a posição que aplaude a gradual evolução dos costumes no tempo, mas decide que o raciocínio só vale para o passado. Em algum momento tudo deveria ser congelado.
São críticas elegantes, que vão muito além do que merece o nosso conservadorismo de programa de auditório. Ele é legítimo e expressa a visão de uma parcela relevante do eleitorado, mas é um tigre sem dentes no mundo real da política. Rodrigo Maia nem sequer coloca seus temas em pauta no Congresso.
O segundo reacionarismo brasileiro diz respeito ao Estado e à economia. Ele tem apoios na academia, nos sindicatos e na intelectualidade bacana. Faz menos barulho, mas é mais efetivo.
Seu mote é a defesa do Estado. Sua paixão são as autarquias e repartições públicas. O status quo de nossas escolas e hospitais estatais quebrados, dos quais todos que têm recursos, incluindo-se aí a elite pensante, fogem como o diabo da cruz.
Sua pedra de toque é a rejeição de qualquer ideia de reforma do Estado. Foi assim nos anos 1990, à época da emenda 19 à Constituição e da criação das organizações sociais; foi assim com a Lei de Responsabilidade Fiscal; foi assim mesmo quando Lula, em 2003, fez a mini reforma da Previdência com o apoio da oposição, do DEM e do PSDB.
Mais recentemente foi assim com as reformas que o país fez a partir de 2016. A ridícula negação do déficit previdenciário, a defesa do velho imposto sindical. A lista é grande e conhecida. Sua última façanha é cruel: a recusa de que os estudantes possam fazer sua carteirinha pela internet, sem custos. Tudo para alimentar, ainda que pareça risível, os cartórios do movimento estudantil oficial.
Ninguém percebeu, entretidos que andamos com bobagens do dia, mas um episódio na última semana reuniu os dois reacionarismos brasileiros. O prefeito Crivella resolveu reestatizar os servidos de atenção à saúde no Rio de Janeiro, extinguindo os contratos de gestão com as organizações sociais.
A medida foi elogiada pelo PSOL. Encontro do bispo com Marcelo Freixo, com tudo que tem direito. Engorda a máquina, abre concurso, põe o sistema sob o mando político. Tudo que soa “progressista” em dia de comício, mas inferniza a vida das pessoas comuns na segunda-feira pela manhã, na fila do posto de saúde.
O próximo teste para a modernização brasileira é a reforma administrativa. As hesitações de Bolsonaro são previsíveis. Bolsonaro foi, no passado, uma síntese do reacionarismo brasileiro: conservador nos costumes, estatizante na economia. De uns anos para cá se aproximou de posições liberais, ainda que pareça sem sentido chamá-lo de um político liberal.
A reforma começou mal. Ela deveria ter sido apresentada logo após a aprovação da reforma da Previdência. Não foi. Deveria abranger não apenas os futuros servidores, mas também os atuais; deveria abranger todos os Poderes, sem distinção, para ter força moral e capturar o apoio da sociedade.
De qualquer modo, é uma reforma a ser feita. O debate nem sequer iniciou mas já milita no Congresso a Frente Parlamentar em Defesa do Serviço Público, com o velho discurso do “desmonte do Estado.” A nostalgia no Brasil não tem lá grande criatividade, mas não duvido que possa ganhar o jogo.
Folha de S. Paulo/20 de fevereiro de 2020

“identitários lidam com caricaturas de pessoas” ( Antonio Risério/entrevista)

No Brasil é raro pensadores de esquerda criticarem abertamente as próprias bandeiras. Não é o caso, sem dúvida, do antropólogo Antonio Risério, quem vem assiduamente chamando a atenção para os excessos dos chamados identitários. “Lugar de fala”, conceito da moda, vem perdendo a eficiência em nosso cada vez mais acuado campo democrático tornando-se por sua vez perigosa arma autoritária. É quando chega, hoje, à literatura. Mais especificamente ao modus operandi dos escritores, ditando regras sobre quem pode ou não escrever o quê. Com exclusividade para a FAUSTO, o também poeta que atuou como redator das campanhas presidenciais de Lula, autor de Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia identitária, convida a razão para ocupar o devido lugar neste debate.
• FAUSTO – Em primeiríssimo lugar, reconhece como importante o conceito “lugar de fala”?
Antonio Risério: No sentido “clássico” da sociologia e da filosofia, sim – na perspectiva autoritária e rasa do “identitarismo”, não. O que quero dizer, quando falo em sentido “clássico”, é simples. A sociologia, a antropologia, etc., sempre nos mostraram que, ao refletir sobre as ideias e os discursos que ouvimos, temos que investigar o lugar do emissor dessas mensagens tanto na estrutura social quando no seu universo de cultura. Agora, há várias formas de você examinar isso.
• Qual é o problema do identitarismo?
O problema do identitarismo é que ele faz de conta que classes e grupos sociais não existem. O que conta, para essa turma multiculral-identitária pós-moderna, é, fundamentalmente, a realidade física da pessoa, sua situação étnica ou sexual. Nesse sentido, o identitarismo é um retrocesso, um “retorno” ao cientificismo oitocentista de um Destutt de Tracy, por exemplo, que interpretava as atividades mentais como produtos de causas fisiológicas. O identitarismo é uma volta a isso, no sentido de que fecha os olhos ao movimento real da vida social e só vê a situação física do indivíduo, seja a pigmentação da pele ou o que é mesmo que a pessoa tem nas entrepernas – e isso “explica” tudo, num mundo mecânica e drasticamente dividido entre “opressores” e “oprimidos”, onde não há lugar para posições e desempenhos individuais com relação ao conjunto da sociedade, já que tudo está dado de antemão. A diferença, portanto, é que o identitarismo é ainda mais estreito, em consequência de suas obsessões cromáticas e genitais.
Então, ao abolir as classes sociais, eles não têm como analisar uma situação em que se defrontam um senhor negro e um escravo negro. Ou o caso de uma mulher que possui escravas mulheres, todas da mesma cor, todas pretas, como se viu na África com Ginga, a rainha de Matamba, por exemplo. E eu ainda prefiro pensar com Marx, Durkheim e Lévi-Strauss do que a partir da patafísica racialista dos seguidores de Abdias do Nascimento, digamos.
• A interferência do “lugar de fala” no modus operandi da escrita literária não é exatamente o oposto de um dos mais poderosos efeitos da literatura, que é o aprender a ser outros?
Sim – e ainda podemos ir adiante. Não foi Rimbaud quem disse “je suis um autre”? Os “beatmiks” também diziam isso. Jerome Rothenberg – o autor de Symposium of the Whole e Shaking the Pumpkin, entre outros – fala categoricamente: o poeta é o outro. Nós somos os “ethnoi”, os bárbaros. Mas essa coisa do “lugar de fala”, levada a extremos no neofeminismo norte-americano e no racialismo neonegro, aponta para o fim de boa parte da criação verbal da humanidade. Sei que Robinson Crusoe – naquela ilha deserta onde ele naufraga depois de sair da Bahia – Sim: pouca gente lê, de fato: sempre que falo que Defoe fez de Robinson um senhor escravista no Recôncavo Baiano, as pessoas ficam completamente surpresas, mas está lá no romance, é só ler – se queixa de não ter um escravo, até achar o pobre do Friday, mas nunca se queixa de não ter uma mulher.
Mas isso não é bem a regra. Vamos agora, em obediência ao esquerdismo identitário, ter romances que se passem apenas entre homens, se o romancista for homem, ou exclusivamente entre mulheres, se a romancista for mulher? Vamos jogar Madame Bovary no lixo? Jogar no lixo a esplendorosa fala final de Molly Bloom no Ulysses de Joyce? Acho que é mais ou menos para essa direção que acabam apontando. E não é só literatura, claro. Um historiador do sexo masculino, que for escrever a história do sul da França entre os séculos XII e XIII, a história da Occitânia ou Languedócio, não pode dissertar sobre a realidade das mulheres naquela região, quando elas tinham autonomia econômica, algumas eram ricas e poderosas e chegavam a financiar trovadores? Não vai poder falar de Eleonora de Aquitânia ou da Condessa de Dia? Isso é absurdo, puro e simples absurdo.
• Se vinga essa interferência, o primeiro a perder o pescoço seria Chico Buarque? Quem melhor escreve sobre os sentimentos de uma mulher?
Veja só: quem está dizendo isso sobre Chico é você – e você é uma mulher… Vamos viajar em algumas direções? Veja que criação maravilhosa é a Dulcineia de Cervantes. A gente fala dela com familiaridade até. Mas a gente não tem ideia do que ela pensa, nunca ouviu uma sílaba dita por ela. Em momento algum de Dom Quixote ela dá o ar de sua graça. No livro, a gente ouve a pastora Marcela, por exemplo. Mas Dulcineia não se materializa nunca, não aparece em nenhuma cena, nada. No entanto, todos a conhecemos. É o poder encantador, enfeitiçador mesmo, de Cervantes.
Mas vejamos ainda outra coisa. Quando Jorge Amado morreu, o jornalista William Waack fez um programa de televisão sobre ele. Fomos convidados eu, Renato Ortiz e uma professora universitária paulista cujo nome já não lembro. E esta senhora contou uma coisa que certamente deixaria Jorge fascinado e comovido. Ela disse que, em inícios de sua juventude, vivendo num meio social muito repressivo, “vitoriano”, onde não se falava de sexo, etc., ela e umas amigas liam Jorge Amado escondido. E foram personagens femininas de Jorge Amado que mostraram muitas coisas a elas, que serviram de modelos para elas com relação a certos aspectos da vida. Então, ela disse uma coisa esplêndida: “foi com Jorge Amado que aprendemos a ser mulheres”. Por essas e outras, acho maravilhoso que mulheres escrevam sobre mulheres, que relatem suas vivências femininas do mundo, etc. E que escrevam também sobre os homens, claro. Sempre aprendi muito sobre os homens ouvindo as mulheres, a começar por minha mãe – e continuando ainda hoje com Sara Victoria, minha mulher.
Agora, não queiram nos proibir de escrever sobre mulheres. De escrever sobre o que amamos. Aliás, Roland Barthes dizia isso: “só estudamos o que desejamos ou o que tememos”. E pode ficar certa de que não é por temor que falo de mulheres. É apenas pitoresco que algumas feministas radicais não suportem que nós homens escrevamos sobre mulheres, embora citem Foucault e Derrida – que, até onde eu saiba, não são mulheres – em defesa de suas posições. Mas é impossível não fazer isso. O planeta em que vivo não é habitado exclusivamente por homens. E eu posso muito bem me sentir levado a recriações estéticas da vida feminina. Nessas conversas, o filósofo Spinoza é meu guru. Ele, que conheceu o “herem” (a excomunhão rabínica), disse tudo:
“É preciso conceder a cada um o poder de pensar o que quiser e de dizer o que pensa”.
• Uma de suas queixas é que identitários não condenam crimes de identitários?
Não se trata de queixa, mas de constatação. É como no caso dos maoistas que evitavam falar das orgias sexuais de Mao Zedong com jovenzinhas virgens chinesas, que eram levadas de bandeja para ele… Com relação aos identitários, o caso paradigmático, a que sempre me refiro, é o do “pantera preta” Eldridge Cleaver, relatado por ele mesmo, em seu livro Soul on Ice.
• O que relata?
Cleaver conta que estuprou mulheres brancas como um ato de vingança, de revanche, de “reparação” histórica. Diz que sentia um prazer imenso em “sujar” as fêmeas do homem branco. E nunca nenhuma neofeminista, nenhuma “radfem” norte-americana, abriu a boca para protestar, condenar isso. Mais ainda: Cleaver conta muito tranquilamente que, antes de currar brancas, treinou no gueto currando pretinhas. E então? Cadê Angela Davis? Onde estão as feministas neonegras, que não falam sequer uma sílaba sobre o assunto? Ora, isso significa que, por ser um preto, um “oprimido”, Cleaver tem todo o direito de ser um criminoso sexual, estuprador de pretas e brancas? Sinto muito, mas se este é o sentido de justiça do identitarismo – vale dizer, identitários têm o direito de cometer crimes –, aviso que não tenho nem quero ter nada a ver com esse mundo. Se existem coisas que não arquivei – e espero nunca arquivar – são o meu senso de justiça e a minha capacidade de indignação.
• Em que momento o caráter representativo do conceito “lugar de fala” se tornou um truque de autoritarismo? A meu ver, o “lugar de fala” faz muito sentido no que tange a dar voz para quem vive na pele certas dores, pessoas que nunca puderam falar, escrever, encenar, o que for, mas me parece que esse conceito se perdeu em algum momento…
Em que momento, exatamente, não sei, mas é fato que se perdeu. As coisas, como sempre, partem de uma base justa. O problema são as perversões que vêm nos desdobramentos, nas radicalizações malucas. Dar voz a quem não tinha voz não implica cassar a voz de quem a tem. E foi isso que passou a significar. Um problema, também, é que os identitários lidam com caricaturas de pessoas – e não com pessoas reais, complexas, contraditórias, etc. Somos todos múltiplos e diversos. Além disso, o mundo mudou muito e muda o tempo todo. Os identitários não suportam a ideia de transformação, seja ela política, social ou cultural. Precisam de um mundo parado no tempo. As feministas, por exemplo, falam de um Ocidente “patriarcal” que há muito não existe mais. A grande opressão machista, hoje, está no mundo islâmico – e contra isso as neofeministas não dizem nada, porque os muçulmanos são também “oprimidos”. Não dá para levar a sério. O Brasil também mudou muito.
A sociedade brasileira em que viveram Ana Nery e Nísia Floresta Brasileira Augusta não é a sociedade brasileira em que vivem Bia Lessa, Tabata Amaral ou Fernanda Torres, que não só têm voz, como se manifestam com frequência, e podem curtir livremente a vida sexual que escolherem, sem que ninguém tenha nada a ver com isso.
Do mesmo modo, o Brasil em que viveu José do Patrocínio não é o Brasil em que viveram Donga e Hilário Jovino Ferreira, nem o Brasil em que vivem Vagner Love e Ronaldinho Gaúcho. Temos problemas, sim, mas muita coisa mudou. Nosso esquerdismo identitário não admite mudanças, tem uma visão estática do mundo, estática e maniqueísta, como um truque barato para não enfraquecer seus discursos. Mas, feliz ou infelizmente, a história não para. E o que enfraquece os movimentos não são as mudanças – é a visão estática, que vai ficando para trás, enquanto a roda gira.
• O “lugar de fala” tende a simplificar as formas de pertencimento? Como se toda experiência de racismo, de sexismo, de homofobia, entre outros, fossem iguais, envolvendo algozes parecidos, e, principalmente, como se fosse fácil identificar porque numa relação de afeto tudo é muito mais complexo, o algoz pode ser o pai, a mãe, o filho…
Entendo perfeitamente o que você quer dizer e concordo, mas vou dar uma variada. Existem algumas leituras do tema, mas uma em particular me atrai. Quem a sugeriu, anos atrás, foi o sociólogo Jessé Souza – hoje, infelizmente, convertido em “intelectual orgânico” do PT. A sociologia weberiana dá forte ressalte, em sua leitura do protestantismo ascético triunfante nos Estados Unidos, ao espírito de seita. À “capacidade protestante sectária de associação para fins de interesse comum”. É um associativismo sectário que se funda não em base afetiva, mas em relações “horizontais” de interesse, logo, relações entre iguais – indivíduos da mesma classe social ou do mesmo grupo profissional, por exemplo.
“Para Max Weber, a confiança intersubjetiva é produto do espírito de seita, por oposição ao espírito da Igreja católica”. É a diferença fundamental entre o espírito sectário e o princípio da fraternidade universal do catolicismo. E Weber vai ver nos Estados Unidos, país do protestantismo sectário, o reino por excelência desse espírito de seita, com seu típico associativismo exclusivista – que se expande em todas as direções, para além da esfera religiosa. Vale dizer, ocorre a secularização do espírito sectário, com “a filiação religiosa acrescida ou substituída pela filiação às mais diversas associações, sociedades, clubes e universidades”.
Mas o importante, de momento, é que Jessé situa o multiculturalismo identitário justamente nesse contexto. É a exacerbação do associativismo sectário exclusivista – e excludente – que vai gerar sua vocação, disposição ou ânsia para estabelecer compartimentações. Fixar divisórias. Instaurar apartheids. Concordo plenamente: em última análise, o fragmentarismo identitário-multicultural é produto do puritanismo anglo-saxão, do protestantismo ascético calvinista, correndo extremado e esbaforido nas baias do associativismo sectário.
• Pode haver superioridade moral em um ambiente como a literatura, que é exatamente o encontro com outros indivíduos?
Ser ético é uma coisa, considerar-se moralmente superior aos demais, pela simples circunstância de se ter nascido mulher ou preto, por exemplo, é outra. Podemos falar do ambiente artístico, de modo geral. O fato de uma pessoa ter uma conduta moralmente condenável não faz dela um artista maior ou menor. Tudo indica que Cacilda Becker, por exemplo, podia ter às vezes um comportamento algo canalha, como relata Paulo Lima em Anjo Bom, Gênio do Mal, mas isso não tira dela o título de grande atriz. E o mesmo pode ser dito a propósito de crenças religiosas, ideológicas, etc. Muita gente já escreveu que a Divina Comédia, de Dante Alighieri é uma “tradução” estética da teologia de Santo Tomás de Aquino, mas não conheço ninguém que tome isso como critério de julgamento de Dante. E ainda há todo tipo de contradição por aqui. Ezra Pound, que chegou a aderir ao fascismo italiano, escreveu versos violentamente anticapitalistas.
• Sim…
Aqui mais perto, entre nós, Nelson Rodrigues era aplaudido pelos militares quando criticava Dom Hélder Câmara, a “teologia da libertação”, os “padres de passeata”. Ao mesmo tempo, ele foi um dos escritores brasileiros que mais sofreram com a censura, durante a vigência do regime militar. Então, não existe isso. Um grande poeta racista ou homofóbico pode e deve ser condenado enquanto racista ou homofóbico, mas não vai deixar de ser um grande poeta por causa disso.
George Orwell dizia que podia dar exemplos e mais exemplos de antissemitismo nas obras dos maiores nomes da literatura universal. E é verdade. Mas isso não diminui em nada a grandeza dessas obras, como forma de conhecimento da vida, do mundo e da humanidade. Aliás, no Evangelho segundo Mateus, Jesus designa os povos não-judaicos como “cães”, mas isso em nada tira a beleza e a força do texto. Oscar Wilde, de resto, ficou encantado com a passagem. Enfim, não é a ética que faz o poeta. Nem a ideologia. Roman Jakobson disse certa vez que se o que fosse importante, na arte verbal, fosse o conteúdo, a Declaração dos Direitos do Homem seria certamente o maior de todos os poemas, em todos os tempos. E é isso.
• Qual deve ser o lugar do escritor em sua própria obra?
O lugar ou a clareira que ele conseguir desenhar.
Eliana de Castro/19 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

'Cancelamento' é falta de caráter (Joel Pinheiro da Fonseca)

Desde que o mundo é mundo, um dos passatempos favoritos da espécie humana é se juntar em pequenas multidões e agredir algum indivíduo que tenha cometido algum delito (real ou imaginário) que o torne impuro e indigno de viver na sociedade. Hoje em dia, com as redes sociais, é possível participar desse prazer sem de fato apedrejar e matar a pessoa, restringindo-se aos possíveis danos psicológicos do ostracismo social. É o linchamento virtual.
Quando feito por pessoas que se consideram progressistas, o linchamento recebe o nome de "cancelamento". Como quase tudo no meio progressista brasileiro, isso é cópia de uma moda da cultura pop norte-americana. Uma pessoa famosa ou semifamosa é pega falando algo que fere a moral vigente —por exemplo, alguma atitude que possa ser interpretada como preconceituosa—; uma multidão de seguidores decide que aquele deslize a desqualifica como formadora de opinião/artista pop, e passam a atacá-la nas redes, sugerindo que todos deixem de segui-la.
Do ponto de vista de um usuário qualquer, apenas deixar uma ofensa ou deboche na página alheia é um ato pontual e de pouca importância. Do ponto de vista do alvo do ataque, que recebe dezenas de milhares de mensagens parecidas —com variado grau de falta de educação— pode ser uma experiência traumatizante.
Hoje em dia, julgamos uma pessoa pela pureza ideológica de suas crenças. Desviar um milímetro da ortodoxia aceita no pensamento ou no modo de falar é visto como revelando uma séria falha de caráter. É uma superstição. Acreditar-se um pessoa melhor por acreditar em A ou B e defender esse valor em brigas de ego nas redes sociais é equivalente às pessoas que, no passado ou no presente, se julgam superiores às outras por seguirem uma religião qualquer.
Na verdade, o que distingue as pessoas em termos éticos não é a opinião que cada um traz em sua cabeça; é a maneira como como tratam o seu semelhante, sua capacidade de controlar seus desejos imediatos em nome do bem-estar alheio, a generosidade para com aqueles de quem não se espera favores, a honestidade e boa-fé em suas relações, a profundidade e franqueza com que pensam e discutem.
Claro que, por esses critérios, um jovem adulto que xinga outro nas redes sociais por algum deslize de fala ou de opinião ocupa os degraus inferiores da escala moral. Não é o amor pela justiça, e sim a hipocrisia (afinal, todo mundo comete deslizes o tempo todo) e talvez uma certa inveja que leva alguém a se juntar a uma multidão de linchadores.
Ainda bem que a tal "cultura do cancelamento" também parece não ser muito eficaz. Há riscos reais: uma empresa pode ser intimidada a demitir um funcionário injustamente, ou familiares e entes queridos podem ser importunados.
Mas, conforme as ondas de indignação vão se tornando mais frequentes, mudando cada vez mais rápido de foco para cada novo "absurdo" dito na rede social, e conforme a sociedade vai entendendo melhor seu comportamento injusto e seletivo, o "cancelamento" fica mais impotente. Três dias depois, o alvo da patrulha —se é que conseguiu preservar sua dignidade e não se dobrou perante a turba— em geral tem mais seguidores do que originalmente, e o ódio já passou. A cultura do cancelamento mostra-se um exercício de vaidade de uma geração que acredita que a militância em redes sociais lhe confere algum tipo de traço admirável.
Folha de S. Paulo/18 de fevereiro de 2020