domingo, 24 de agosto de 2014

Política e História (Marco Aurélio Nogueira)




Os que viveram ou estudaram o fato hão de se lembrar. Quando Tancredo Neves, poucas horas antes de tomar posse como primeiro presidente civil após o ciclo ditatorial, em março de 1985, deu entrada no hospital para dele sair morto 30 dias depois, o cenário político turvou-se. O que aconteceria, naquele país habituado a golpes e expedientes autoritários? A ampla articulação política empreendida por Tancredo, costurando apoios complexos e minando resistências, parecia estar em jogo, e com ele a própria transição democrática. Nos primeiros dias nem sequer se sabia se José Sarney poderia ou deveria substituí-lo, até porque se tratava de um vice com função acessória, destinado a facilitar a aliança com os dissidentes da ditadura.

Aos poucos a situação se esclareceu e a crise foi debelada. A Virtù dos políticos soube enfrentar e vencer a armadilha da Fortuna. Naqueles dias, decidiu-se a sorte de um país que lutava para chegar à democracia. Tancredo, Ulysses Guimarães e o PMDB estavam, sem o saber, escrevendo a História.

Eduardo Campos não era Tancredo Neves e não estava, antes de sua trágica morte, a desempenhar o mesmo papel épico do político mineiro. Arava chão mais localizado, ainda que importante. Tancredo construía uma saída para um impasse que rebaixava toda uma sociedade. Eduardo agia num cenário desprovido de impasses e sem a dramaticidade dos idos de 1984. Buscava protagonizar disputas presentes e futuras: desdobrava-se para que se chegasse a uma situação política polarizada de outro modo, sem a rotina vazia da contraposição PT x PSDB, que inflama o País há duas décadas, mas não possibilita avanços mais rápidos e contundentes.

Se Tancredo frequentava a História, Eduardo Campos estava todo na política.

Sua morte prematura, porém, converteu a disputa presidencial num drama e num recomeço. Deslocou forças e expectativas, lançando incógnitas para o processo eleitoral. Que será feito de seu "capital político", que tinha tudo para encorpar? Que acontecerá com sua coligação, que reúne partidos pequenos, empresários modernos, ambientalistas e descontentes com os rumos da política no País? Conseguirá Marina Silva desempenhar o mesmo papel catalisador e traduzir, em linguagem política, o projeto original, tornando-o vencedor?

Eduardo Campo era um articulador político competente, função que escasseia hoje. Conversava e falava bem, tinha domínio técnico dos assuntos, era simpático e sabia dosar projeto pessoal, interesses partidários, vida familiar e interesse público. Tinha suas falhas e limitações, é evidente.

Mas não ia com sede excessiva ao pote. Preparava-se para 2018, compondo aliados para atuar como um desbravador de novas possibilidades políticas, administrando conflitos e diferenças. Forjou assim sua identidade. Marina tem outra trajetória e outro estilo, mas conviveu com ele e com ele misturou águas e ideias.

O projeto a que se dedicou era maior do que ele, precisamente porque respondia a uma exigência da realidade. Teria de ser encarnado e cedo ou tarde surgiria um personagem disposto a romper com o "script desgastado e sem vida" (Luiz Werneck Vianna) que vem organizando a disputa política no País há duas décadas. Os blocos de forças que têm dado sustentação ao PT e ao PSDB ficaram porosos demais, não podem fornecer base para avanços rápidos e consistentes.

Esta condição objetiva repele a santificação de Eduardo Campos. Sua morte não estava prevista nem poderia ter sido controlada. Superpôs-se a planos e cálculos. Um desígnio da Fortuna. Seus desdobramentos e efeitos, sua eventual positividade, não cairão do céu. Para que colem na vida prática terão de contar com a Virtù dos que abraçarem o próprio projeto.

Virtù significa muitas coisas, mas neste caso se confunde, sobretudo, com valorização da unidade política, eliminação de personalismos e construção de consensos. Trata-se da formação de um novo bloco de forças sociais. Exige disposição e sacrifício, boa dose de pragmatismo e uma pitada de fantasia. Pode encontrar personificação tanto no PSB quanto em Marina Silva, tanto nos socialistas quanto nos "sonháticos", pois depende essencialmente de boa vontade e ponderação.

Marina tem uma boa base de onde arrancar, os votos obtidos em 2010. Sua biografia fascina. Sabe se posicionar. Tem pontes sólidas com setores importantes da população e muitas possibilidades de interagir com outros. Há os indecisos e os predispostos a anular o voto, que podem mudar de posição.

Há os evangélicos que, por fidelidade religiosa, poderão apoiá-la. Há os que vêm nela - como faziam com Eduardo - uma alternativa à polarização PT x PSDB. E há os marinistas de primeira viagem, que a entendem como uma opção antissistêmica e de renovação política pela via do ambientalismo.

Nesse universo estão tanto os seguidores mais dogmáticos, a quem não incomoda o tom por vezes messiânico de Marina, quanto os que se sentem abandonados pelos partidos e querem algo diferente. Ou seja, os jovens, boa parte dos quais amadureceu nas ruas de junho de 2013. São eles que podem fornecer a Marina o principal combustível de campanha, potencializando o que ela já tem e o que lhe será concedido pela máquina do PSB, se esta a acompanhar com dedicação.

Como Marina e o PSB administrarão esse compósito de forças, interesses e expectativas é algo a ser visto nas próximas semanas. A política é sempre uma sucessão de teoremas, que somente podem ser demonstrados mediante o discernimento e o empenho dos protagonistas.

Chances consistentes de consolidação e crescimento de seu nome há. Estão aí, soltas, prontas para ser processadas. Para isso a campanha de Marina terá de se unificar e de esclarecer o que há de substantivo e factível em seu programa de governo, seja no que diz respeito ao desenvolvimento sustentável, seja no plano dos direitos e das políticas de igualdade e bem-estar.

*Marco Aurélio Nogueira é professor titular de teoria política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp.
Fonte: O Estado de S. Paulo (23/08/14)

Estado laico e campanha (Cláudio Couto)



A candidatura presidencial do Pastor Everaldo já suscitara discussões acerca da presença de temas religiosos na disputa eleitoral e eu mesmo tratei do tema neste espaço ("Partido de Nicho", Estado, em 2 de agosto). O assunto ganhou nova força com a ascensão de Marina Silva à cabeça de chapa do PSB, após a morte de Eduardo Campos. Reacenderam-se discussões de quatro anos atrás sobre a importância do voto evangélico (motivadas pela polpuda votação da candidata, em parte advinda desse segmento) e questionamentos ao suposto caráter não laico de sua postulação. São problemas importantes, seja para a discussão mais geral sobre a laicidade do Estado, seja para a reflexão mais específica sobre plataformas de governo rivais.

O secularismo é inerente ao Estado liberal e, portanto, indispensável às democracias de massas - impossíveis sem o liberalismo político, embora não subsumíveis a ele. Isso não torna o secularismo exclusivo de democracias liberais. Estados seculares foram construídos historicamente em contextos autoritários, como a Turquia, sob Mustafá Kemal Atatürk. Ainda hoje no Oriente Médio há ditaduras seculares, como a Síria e o Egito - embora este tenha na lei islâmica uma das fontes da Constituição.

Todavia, espera-se que autoritarismos confessionais - como o Irã e a Arábia Saudita - sejam ainda piores, pois até mesmo a liberdade religiosa será perdida. Enfim, embora ditaduras laicas sejam possíveis, democracias confessionais não o são.

No Ocidente, a preocupação com o estabelecimento de um Estado laico remonta ao século 17, tendo sido o filósofo inglês John Locke seu mais célebre defensor, na Carta sobre a Tolerância de 1689. De lá para cá, passando pela Revolução Francesa e pela constitucionalização de vários outros Estados mundo afora, a secularização da política seguiu avançando. Isto não impediu a democracias sólidas abrigarem partidos e grupos de interesse de orientação aberta ou veladamente religiosa. É o caso dos tradicionais partidos democratas-cristãos ou sociais-cristãos europeus, como o alemão, o belga e o italiano (colapsado pela corrupção) e das facções cristãs dentro dos dois grandes partidos norte-americanos. Na França, a religião é banida por completo da esfera pública; na Alemanha, as religiões dotadas de organizações centralizadas recebem recursos públicos mediante a taxação de seus seguidores, mas os que se declaram sem religião não são obrigados a pagar nenhum tributo.

No Brasil, apesar da contradição dos feriados religiosos e da ostentação de crucifixos em prédios públicos, a separação entre igrejas e Estado é um preceito constitucional, já que a nenhuma esfera de governo é facultado "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança" (art. 19). Portanto, o Estado não deve promover, perturbar ou misturar-se com as religiões.

Isso não quer dizer que valores religiosos não possam influenciar a formulação de leis e políticas públicas, da mesma forma que diversos outros tipos de valores o fazem. É aí que surge o questionamento a Marina Silva, tendo em vista ser ela uma pessoa assumidamente religiosa. Em parte talvez por isso mesmo, ela tem tido o cuidado de, em declarações públicas, separar as coisas. Ao afirmar a necessidade de distinguir suas convicções pessoais dos assuntos com os quais precisa lidar como política, Marina propõe uma solução que é a essência do secularismo: a circunscrição da religião à esfera privada, sem invadir a política e a esfera pública.

Entrementes, Dilma faz média com os evangélicos, declarando que "feliz é a nação cujo Deus é o Senhor". Já Aécio diz ter "fé inabalável em Deus". Ironicamente, é Marina quem menos instrumentaliza a religião com fins eleitorais.
Fonte: O Estado de S. Paulo (23/08/14)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Sem noção (Roberto Beling)



Falta de tino desses apresentadores do ESTV 2º Edição na entrevista com Camila Valadão. Insistindo na questão da falta de experiência em gestão, como se essa questão fosse importante em uma candidatura, que, para usar uma expressão de outras jornadas, é uma anticandidatura, isto é, uma candidatura denúncia, protesto e que ocupa o espaço para marcar uma posição. 
Álias, se conhecessem um pouco do processo, saberiam que esse discurso é batido e nunca funcionou. Vou ficar em dois exemplos ou histórias recentes, Na eleição de 1992, para a prefeitura de Vitória, a então marqueteira de Coser, atacava Paulo Hartung no horário eleitoral do PT mostrando uma carteira de trabalho em branco, como a insinuar que o candidato nunca havia trabalhado na vida e, portanto, não estava apto a governar Vitória. PH, não apenas foi eleito, como realizou uma excelente gstão e emplacou como resultado o sucessor.
Durante não sei quantos eleições, o mantra da crítica e desqualificação a candidatura de Lula era o fato de nunca ter exercido um cargo executivo, seja como prefeito ou governador, como a dizer que, por falta de experiência em gestão, não estava apto ou preparado para exercer o governo. Lula não apenas foi eleito e governou, como está aí, por força de seu carisma, a eleger postes e mais postes.
Não quero dizer com isso, que Camila seja um nome viável e eleitoralmente competitivo, mas que tem que ser discutida a partir da condição de uma candidatura que busca representar um discurso ideológico, cada vez mais raro entre partidos que se proclamam de esquerda, e as vozes daqueles que recusam o sistema político, ou dito de outra formas, as vozes que se fizeram presentes nos protestos e nas jornadas de junho e não encontram ou não se consideram representados pelas forças que hegemonizam o processo político.
E por falar em tarifa zero, já que perguntado foi, ela saiu das ruas e virou proposta de um presidenciável que acabou de nos deixar. Saiu das pautas dos movimentos de transporte que, em anos outros, abalaram Florianópolis e Salvador e entrou na agenda nacional. Sonhar é possível.

Sobrenatural de Almeida e a sucessão presidencial (Luiz Werneck Vianna)



O inesperado bateu à nossa porta com a morte do candidato à sucessão presidencial Eduardo Campos, que, pela qualidade política de seus movimentos iniciais, já se fazia reconhecer como uma promissora liderança nacional. O enredo de uma competição eleitoral até então fria e acompanhada com distância quase irônica pela população, com os principais candidatos atentos a uma agenda em boa parte comum, se complica ao se perder uma parte importante do script. Atores serão substituídos e papéis principais, no desenho original do seu texto previstos para serem desempenhados por quem se ajustava a eles, por história pessoal e physique du rôle, correm o risco de se tornar postiços e inverossímeis com novo elenco.

Mas - outra complicação - quem escolhe o novo elenco e quem detém poder de veto nessa escolha? A família de Eduardo Campos, por meio do seu irmão e também dirigente do seu partido, o PSB, Antonio Campos, já se pronunciou publicamente a favor de Marina Silva, indicada como candidata a vice na chapa partidária. A coligação que abrigava Eduardo fará o mesmo? E o PSB, com alas refratárias a Marina, que a aceitaram por persuasão do seu líder partidário, estarão propensas, de corpo e alma - como a circunstância exige -, a caminhar nessa direção? As respostas, a esta altura, certamente já devem ser conhecidas pelo leitor.

A decisão, mesmo que positiva, como é de esperar, não virá sem problemas porque, como se sabe, a pretensão de Marina é formar seu próprio partido, com a designação pós-moderna de Rede Sustentabilidade. Nos cálculos do PSB, por sua vez, a campanha eleitoral em curso deveria prestar-se aos objetivos de expansão dos seus quadros e da sua projeção política no cenário nacional, e certamente não se prestará ao papel de barriga de aluguel. A aliança com Marina, sem estar guarnecida pela presença de Eduardo, do seu prestígio e da sua candidatura presidencial, pode ser vista como de alto risco para sua identidade partidária. Risco ainda maior, porém, seria não apresentar candidato algum, ou um nome que discrepe abertamente das linhas estratégicas traçadas por quem foi sua maior liderança.

Somente na aparência tais questões afetam apenas o PSB e as expectativas políticas de Marina quanto à formação do partido Rede. Elas incidem decisivamente sobre os rumos da sucessão presidencial e nos remetem ao reino metafísico do Sobrenatural de Almeida, expressão com que o dramaturgo e bissexto cronista esportivo Nelson Rodrigues caracterizava resultados imprevistos, pela ação imponderável do destino, nas disputas futebolísticas. O enredo conhecido em que ela se travaria era o de uma competição eleitoral entre três forças, Dilma Rousseff, candidata favorita à reeleição, Aécio Neves, como segunda força, e Eduardo Campos, que, embora turbinado pela aliança com a Rede de Marina, mantinha seu foco no horizonte de 2018 e no fortalecimento do seu partido, com remotas possibilidades de vitória por falta de raízes nos maiores colégios eleitorais do País. Eduardo Campos era o fiador da possibilidade de o desenlace da sucessão não transcorrer no primeiro turno, insondáveis as inclinações do seu partido num eventual segundo turno.

No cenário que se esboça com tintas fortes à nossa frente, com Marina Silva à testa da candidatura do PSB, com a sucessão dramatizada pela tragédia que vitimou Eduardo Campos, linhas de campanha e estratégias eleitorais foram condenadas ao anacronismo, com a Nação na expectativa, diante da dramaturgia levada a público na missa campal em frente ao Palácio do Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco, com a reunião dos chefes de fila da classe política brasileira. Nesse dia, de fato, com os sinos a rebate se precipitou, em meio ao luto, o começo da disputa presidencial, quando, para todos os efeitos e independentemente das intenções de muitos, Marina foi tacitamente ungida como a candidata da terceira via do projeto de Eduardo.

Se houver o chamado recall, mesmo que parcial, da votação de Marina em 2010 - quase 20 milhões de votos - e se a parcela do eleitorado até então propensa a anular o voto como forma de protesto se deixar seduzir pelo estilo não convencional da candidata, o tabuleiro muda radicalmente de figura: Aécio, nessa hipótese, poderia ceder seu lugar a ela no segundo turno e, reviravolta ainda mais rocambolesca, a própria situação de favorita de Dilma pode vir a ser ameaçada. O PT, se esse rumo se afirmar, persistirá fiel à sua candidatura, assumindo os riscos letais de perder o poder, especialmente nas circunstâncias adversas em que seus vínculos com os movimentos sociais se esgarçam, tal como demonstrado nas grandes manifestações de junho de 2013, ou, em última instância, reage a ele, desembainhando, afinal, o nome de Lula?

Tantas vezes se disse, o Brasil não é para principiantes - mudanças podem vir quando ninguém espera mais por elas. Está aí: a agenda da campanha presidencial, tal como foi concebida originalmente, caso vingue a candidatura Marina, não poderá escapar de mutações que abriguem temas como "uma nova sociedade" e "uma nova política", ao lado da pauta arquiconhecida da inflação e da gestão administrativa. O imaterial cobra por reconhecimento do seu espaço e isso, numa sociedade que vive ciclos ininterruptos de modernização econômica desde os anos 1930 - e se viciou nas controvérsias sobre ela -, pode, sem favor, ser considerado como uma ruptura com um script desgastado e sem vida.

Pela ação do fortuito, uma eleição que parecia condenada à mesmice e ao desalento quanto à política pode, agora, começar uma nova história e, quem sabe, sob a bandeira inspirada que nos ficou de um dos temas de Eduardo: "Não vamos desistir do Brasil".
Fonte: O Estado de S. Paulo (19/08/14)

A anticampanha (Luiz Carlos Azedo)




Um dos problemas de qualquer candidato que pleiteia a reeleição é administrar a agenda negativa do próprio governo. Esse é o calcanhar de Aquiles que pode apeá-lo do poder. No maioria dos casos, trata-se de blindar os pontos fracos e trombetear as ações bem avaliadas nas pesquisas de intenção de voto. No caso da presidente Dilma Rousseff, há dois “issues” dos quais ela não consegue se desvencilhar: os petistas enrolados com malfeitos e os escândalos da Petrobras. Ontem, foi mais um dia em que ambos roubaram a cena.

Por unanimidade, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados aprovou o pedido de cassação do mandato do ex-petista André Vargas (sem partido-PR). O deputado Júlio Delgado (PSB-MG), relator do caso, recomendou a punição do parlamentar, que é investigado por manter relações com o doleiro Alberto Youssef. Ele suspeito de intermediar contratos com o Ministério da Saúde em favor do laboratório Labogen, de Youssef. O doleiro foi preso em março pela Polícia Federal, na Operação Lava-Jato, por participação em esquema de lavagem de dinheiro.

Vargas é um casca-grossa petista, ocupava a vice-presidência da Câmara quando o escândalo estourou. Muito influente na bancada do partido, era um dos líderes do movimento “Volta, Lula!”. Havia se notabilizado por afrontar o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro aposentado Joaquim Barbosa, durante solenidade na Câmara, na qual posou de punho cerrado ao lado do magistrado, em solidariedade aos petistas condenados no processo do mensalão.

Ao contrário de outros parlamentares alvejados por denúncias, que preferiram renunciar ao mandato, Vargas manobra nos bastidores da Câmara para evitar uma cassação. Não renuncia porque teme ter a prisão decretada. Considera-se abandonado pela cúpula do PT, que o obrigou a se desfiliar da legenda.

Cada vez que Vargas põe os pés na Câmara, joga mais lama na imagem do PT, cujo desgaste já foi grande no caso do julgamento do mensalão, o que acaba na conta da presidente Dilma. Com a decisão de ontem, o parlamentar pode recorrer à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com efeitos suspensivos. O ex-deputado alega que não quebrou o decoro e denuncia a Comissão de Ética. Segundo ele, o processo foi conduzido com açodamento e politização excessiva. Ou seja, Vargas continuará produzindo notícias negativas.

Petrobras
Apesar da maciça propaganda nos meios de comunicação, a Petrobras é outro problema para Dilma Rousseff, que pretende transformar a exploração do pré-sal numa das bandeira de seu novo mandato. A compra superfaturada da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), aprovada quando Dilma era presidente do Conselho de Administração da empresa, porém, continua sendo uma dor de cabeça para a campanha da presidente da República.

O Tribunal de Contas da União (TCU) adiou novamente a análise sobre o bloqueio dos bens da presidente da Petrobras, Graça Foster, amiga do peito de Dilma. O ministro José Jorge, entretanto, decidiu manter o voto que pede a indisponibilidade dos bens de Graça Foster. Retirou o processo da pauta porque, segundo o site do jornal O Globo, ela e o ex-diretor da Área Internacional da empresa Nestor Cerveró doaram imóveis a parentes após o escândalo sobre a compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), para evitar o bloqueio judicial desses bens. No mês passado, o TCU determinou a devolução de US$ 792,3 milhões aos cofres da Petrobras pelos prejuízos causados ao patrimônio da empresa.

Para José Jorge, o fato somente confirma a necessidade de aprovar a indisponibilidade dos bens. “Se isso for verdade, e dependendo da sua extensão, configura uma burla ao processo de apuração da irregularidade. É gravíssimo”, disse. Qualquer outro presidente da Petrobras já teria sido demitido do cargo para estancar a crise política na qual a empresa mergulhou. Ao contrário, em situação inédita, o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, foi encarregado pela Presidência da República de defendê-la pessoalmente. Dilma e Graça são parceiras de longa data e têm personalidades semelhantes: são duronas e mandonas.
Correio Braziliense

domingo, 17 de agosto de 2014

Marina terá de encarnar Campos (Luiz Werneck Vianna/entrevista)




• Professor da PUC do Rio diz que ex-senadora deve assumir compromissos de ex-governador para alavancar candidatura

• Segundo Vianna, presidenciável do PSB pode atrair votos dos indecisos e descrentes com a classe política

Italo Nogueira - Folha de S. Paulo

RIO - Escolhida pelo PSB para disputar a Presidência, Marina Silva terá de "encarnar" compromissos de Eduardo Campos, candidato da sigla morto na quarta-feira (13) num acidente aéreo.

A avaliação é do sociólogo Luiz Werneck Vianna. Para ele, Marina precisa manter os compromissos do ex-governador de Pernambuco para ter apoio dos empresários.

"[Ela pode] dizer que a candidatura original era dele, que eles conceberam a candidatura juntos e agora tem que se fiar mais às convicções dele do que particularmente às dela", afirmou na sexta (15).


Folha - Que impacto essa tragédia pode ter na eleição?

Luiz Werneck Vianna - Mudou tudo. Para onde, não se sabe.

Com o nome de Marina confirmado, que cenário o sr. vê?

Ela tem problemas no PSB, tem problemas em setores empresariais, é bem aceita nas camadas médias, como ficou provado em 2010.

Campos era bem aceito pelo empresariado. Acha que ela pode herdar essa aceitação?

Ela vai ter que encarnar o Campos. Tem inclusive uma saída honesta para essa encarnação: dizer que a candidatura original era dele, que eles conceberam a candidatura juntos e agora ela tem que se fiar mais às convicções dele do que particularmente às dela. Esse é o maior desafio.

Que outros desafios ela tem?

Mostrar à população que [a encarnação] é verdadeira.

Em 2010 o vice dela era o empresário Guilherme Leal. Não é suficiente para ter aceitação?

Era um nicho empresarial. Não há como imaginar nesta altura que o agronegócio vá escolher o nome dela.

O sr. vê possibilidade de Marina compor com o agronegócio, como fez Campos?

Se ela se convencer e convencer o grande público de que ela é o legado de Campos, aí é possível.

A comoção pelo episódio tem impacto [nas pesquisas]?

Vai ter, mas o problema é saber para que direção. O maior impacto de morte que já ocorreu foi o suicídio de Vargas: em 24h mudou o país. Para saber para qual direção haverá impacto, é melhor procurar um mago.

A candidatura de Marina tira mais votos de quem?

Ela pode provocar uma atração forte sobre os indecisos, o pessoal do "não me representa".

Do movimento das ruas?

Não digo o movimento das ruas, mas algo dessa cultura que vicejou ali pode encontrar expressividade nela, algo que Campos não conseguiu. Eduardo era muito terno e gravata, a pauta dele era responsável: economia, desenvolvimento... A pauta da Marina, como ela mesma diz, é "sonhática".

Qual é o impacto da morte de Campos sobre a política?

É ruim. Uma liderança jovem. O regime militar não favoreceu o surgimento de lideranças novas. Mas PT e PSDB também não favoreceram. Os quadros diretivos dos dois partidos são homens para além da meia idade. Eles se comportaram como uma oligarquia. Principalmente o PT.

Campos conseguiu se descolar desse problema?

De certo modo sim, mas ele tinha o aval do avô [Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco], que abriu a política para ele.

E a Marina?

Ela tem uma trajetória de aventura singular, história de vida particular.

Essa falta de nomes novos preocupa para 2018?

Sim, porque o nome falado para 2018 pelo PT qual é? É o Lula. Não tem quadro novo.

O PT tenta renovar com Haddad, Padilha, Lindbergh...

A emergência de quadros novos é a partir de luz própria, e não vinda de um poste. O PT tem vida orgânica? Não tem. Sem isso os quadros não são selecionados. O PSDB também não tem vida orgânica.

Comentários sobre os comentários de um "papo de repórter" (Roberto Beling)





Os comentários que postei ao "papo de repórter" (Eleição

estadual dependerá ....) do Século Diário:

1. "Concordo com a observação de que a a trágica morte do

 presidenciável Eduardo Campos (PSB) vai promover uma

 reviravolta no processo eleitoral. Em 54, havia um golpe em

 andamento e Getúlio era um homem derrotado

 politicamente, faltando apenas o ato final de renúncia ou

então deposição. Com sua morte derrotou os golpistas e 

reverteu o jogo (conforme Francisco Weffort, o suicídio deu

uma sobrevida de 10 anos ao projeto "populista"). Se 64 

realizou o abortado em 54, foi muito mais consequência dos

erros e equívocos dos herdeiros do legado Getulista.

 Guardadas as devidas diferenças, a morte de Getúlio pode

 servir como um paralelo para o atual momento político: 

morre o homem, nasce o mito. E Marina, como herdeira 

natural desse legado, será naturalmente beneficiada e abre 

um novo campo de incertezas e de imponderável no

processo eleitoral.

2. Marina não transfere votos. Não é uma opinião, mas um

 dado empiricamente mensurável. No ES, em 2010, muitos 

colaram sua imagem a dela, mas nenhum voto ou eleição

 resultou dessa associação. Em nível nacional, o PV, em 

termos de bancada federal, saiu do processo do tamanho

 que entrou. Acho que tinha 15 federais e elegeu 16. 

Embora a excelente votação em Vitória e Vila Velha. e no ES

como um todo, nada indica que a associação de qualquer 

candidatura ao nome de Marina vá resultar em processo de 

transferência de voto. Quem amarrar o seu projeto a essa 

perspectiva, vai dar com os burros n´água

.
3.Quanto a Rede, infelizmente, tenho que concordar com a

 conclusão do comentário: "eu vou passar batido nesse povo

 da Rede porque eles são aglomerados de figuras que já passaram por vá
rios partidos, buscando um processo de acomodação. Acho 

que eles não têm influência nenhuma em um processo

eleitoral no Espírito Santo. Quem sabe no futuro". Mas não

 porque "se trata de um aglomerado de figuras que

passaram por vários partidos", embora isso tenha sido

 negativo. Tentando explicar: o PT, na sua formação no ES, 

agregou basicamente uma massa de militantes que não 

tinha passagem ou trouxessem heranças dos partidos 

tradicionais (embora parte desses tenham passado por 

organizações políticas da esquerda clandestina, como os

que vieram do MEP - Movimento de Emancipação do

Proletariado). Já a Rede agrega efetivamente pessoas

que vem de diferentes formações partidárias da política 

tradicional, gente que vem do PSOL, do PPS, do PT e 

outros menos votados. 

Se a Rede chega ao final desse processo sem nenhuma 

"influência eleitoral no Espírito Santo" (no dizer de Rogério),

isso se deve ao fato de ter apostado desde o inicio em uma 

luta interna fraticida pelo controle do partido e tenha 

chegado a esse final dilacerada internamente, dividida e 

fragilizada, o que a condena, se isso persistir, a irrelevância 

política no ES. E esse fato não é resultado de ser um

 "aglomerado", mas pelo fato de suas lideranças, embora 

afirmem o discurso da "nova política", terem apostado na

 política hegemonista e de aparelhamento partidário, 

herança essa da velha política da velha esquerda, estalinista

 e autoritária, nos moldes dos comunistas dos anos 50."