sábado, 4 de junho de 2011

Elisa Lucinda em Vila Velha

Confirmado: Elisa Lucinda em Vila Velha dia 6 de junho.

Inicialmente marcado para o dia 20 de abril, quando foi cancelado devido às fortes chuvas que despencaram sobre Vila Velha que, como sempre, inviabilizou a participação das pessoas, o debate com a capixaba de projeção nacional, poetisa e atriz da rede globo Elisa Lucinda está confirmado para esta segunda feira dia 6 de junho no Cine Teatro do Centro Universitário Vila Velha as 19:30 horas.

Elisa vem a convite do Movimento Nova Vila Velha e retorna à cidade onde cresceu para participar de um debate sobre Educação e Cultura e de um outro modelo para a cidade, que permita o desenvolvimento de outros valores e casos de sucesso como o dela.

No Rio, Elisa fundou e coordena o projeto educacional "Casa da Poesia" que tem servido de portal para a apresentação de obras de artistas capixabas para aquele e outros mercados.

Convidado pelo Movimento o Deputado Estadual Cláudio Vereza será coordenador do debate, junto com o ex secretário de Educação de Vila Velha, Roberto Beling.

"O Efeito Marina" - Segredos de campanha no livro de Sirkis

Sirkis narra "reunião secreta" de PV e PSDB antes de eleição

Deputado conta, em livro, que Marina enviou emissários para discutir composição de chapa com Serra e FHC

BERNARDO MELLO FRANCO

Às vésperas da campanha de 2010, a presidenciável Marina Silva (PV) enviou aliados para um encontro sigiloso com o candidato José Serra (PSDB) no apartamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em Higienópolis, na capital paulista.
A "reunião secreta" (expressão do autor) é revelada no livro "O Efeito Marina", do deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ). A obra foi obtida em primeira mão pela Folha.
Mantida em segredo até hoje, a conversa na casa de FHC ocorreu em fevereiro de 2010, quando os tucanos ainda sonhavam com a possibilidade de Marina ocupar a vice na chapa de Serra.
Procurado, o tucano não quis se manifestar sobre o episódio.
Em seu relato, Sirkis diz que o encontro teve outro motivo: negociar o palanque duplo de Fernando Gabeira (PV), apoiado pelos dois presidenciáveis em sua candidatura ao governo do Rio.

SUSPEITA DE GRAMPO
O livro revela que Serra, ainda à frente do governo de São Paulo, acreditava estar grampeado em plena pré-campanha ao Planalto.
"Serra chegou à reunião muito desconfiado. Deixou seu celular em outro quarto, alegando que havia grampos capazes de monitorar conversas até por aparelhos desligados", conta Sirkis.
O deputado diz que o tucano começou a conversa "meio tenso", mas "relaxou" com ajuda da "contagiante simpatia" do anfitrião.
Ao fim da reunião, Serra levou Sirkis para jantar no Palácio dos Bandeirantes.
"Não falamos mais sobre a campanha eleitoral, mas sobre questões de gestão pública e lembranças dos tempos da ditadura e do exílio", conta o deputado no livro.
Coordenador da pré-campanha de Marina, o verde revela que também foi a Belo Horizonte para uma reunião com o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves.
Eles negociaram o lançamento de um candidato próprio do PV, que apoiava os tucanos no Estado. Em troca, os verdes apoiaram o tucano na corrida ao Senado.
O livro de Sirkis conta outros bastidores da candidatura de Marina.
Fonte: FSP (03/06/11)

Geléia geral brasileira

Opinião – Merval Pereira

“No Brasil atual, de amplo espectro partidário que abriga nada menos que 27 legendas com registro nacional, sendo que 22 delas com atuação no Congresso, não há partidos "de direita", muito menos de "extrema-direita", e nem partidos de "extrema-esquerda". Todo mundo quer ser "de esquerda" e, quando não dá, no máximo, "de centro".

Sem falar no 28º partido em gestação, o PSD, que não é "de centro, nem de direita, nem de esquerda", segundo a indefinição de seu criador, o prefeito paulistano, Gilberto Kassab.

Essa geleia geral de siglas - a maioria delas abrigada sob uma aliança governista, a mais ampla e diversificada já vista no país - esterilizou a prática política, retirando conteúdos programáticos ou ideológicos dos partidos, transformando-os em meros instrumentos a serviço do governo e de interesses pessoais.”

Merval Pereira, escritor, jornalista, eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Saco de Gatos. O Globo, 3/6/2011Opinião – Merval Pereira

“No Brasil atual, de amplo espectro partidário que abriga nada menos que 27 legendas com registro nacional, sendo que 22 delas com atuação no Congresso, não há partidos "de direita", muito menos de "extrema-direita", e nem partidos de "extrema-esquerda". Todo mundo quer ser "de esquerda" e, quando não dá, no máximo, "de centro".

Sem falar no 28º partido em gestação, o PSD, que não é "de centro, nem de direita, nem de esquerda", segundo a indefinição de seu criador, o prefeito paulistano, Gilberto Kassab.

Essa geleia geral de siglas - a maioria delas abrigada sob uma aliança governista, a mais ampla e diversificada já vista no país - esterilizou a prática política, retirando conteúdos programáticos ou ideológicos dos partidos, transformando-os em meros instrumentos a serviço do governo e de interesses pessoais.”

Merval Pereira, escritor, jornalista, eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Saco de Gatos. O Globo, 3/6/2011

folclore político: pequenas estórias.

É PERIGOSO PROVOCAR PESSOAS INTELIGENTES.

Pequenas estórias do folclore político. Não sei se verídicas, mas, como foram encaminhadas por José Roberto Bonifácio, publico-as.
* * * * *

Na Câmara, ainda no Rio, quando seu presidente Ranieri Mazzini deu a palavra a Carlos Lacerda, representante do Distrito Federal, o deputado Bocaiuva Cunha foi rápido e gritou ao microfone, sob os risos do plenário:
- Lá vem o purgante!...
Lacerda, num piscar de olhos, respondeu:
- Os senhores acabaram de ouvir o efeito!...
(Muito mais risos, até dos adversários...)

* * * * *

Certa vez, Einstein recebeu uma carta da miss New Orleans onde dizia a ele:
"- Prof. Einstein, gostaria de ter um filho com o senhor!... A minha justificativa se baseia no fato de que eu, como modelo de beleza, teria um filho com o senhor e, certamente, o garoto teria a minha beleza e a sua inteligência..."
Einstein respondeu:
"- Querida miss New Orleans, o meu receio é que o nosso filho tenha a sua inteligência e a minha beleza!..."


* * * * *

Quando Churchill fez 80 anos, um repórter de menos de 30 foi fotografá-lo e disse:
- Sir Winston, espero fotografá-lo novamente nos seus 90 anos!...
Resposta de Churchill:
- Por que não?... Você me parece bastante saudável...

* * * * *

Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto.
Convite de Bernard Shaw para Churchill:
"- Tenho o prazer e a honra de convidar digno primeiro-ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver!..."
Bernard Shaw.
Resposta de Churchill:
"- Agradeço ilustre escritor honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer primeira apresentação. Irei à segunda, se houver!..."
Winston Churchill.

* * * * *


O General Montgomery estava sendo homenageado, pois venceu Rommel na batalha da África, na 2ª Guerra Mundial.
Discurso do General Montgomery:
"- Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói!...
Churchill ouviu o discurso e com ciúme, retrucou:
"- Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele!..."

* * * * *

Bate-boca no Parlamento inglês.
Aconteceu num dos discursos de Churchill em que estava uma deputada oposicionista, Lady Astor, do tipo Heloisa Helena do PSOL, que pediu uma parte.
Todos sabiam que Churchill não gostava que interrompessem os seus discursos.
Mas, concedeu a palavra à deputada.
E ela disse em alto e bom tom:
- Sr. Ministro , se Vossa Excelência fosse o meu marido, eu colocava veneno em seu chá!...
Churchill, lentamente, tirou os óculos, seu olhar astuto percorreu toda a platéia e, naquele silêncio em que todos aguardavam, lascou:
- Nancy, se eu fosse o seu marido, eu tomaria esse chá com prazer!..

E PENSAR QUE PARA CÁ VIERAMOS DEGRADADOS (Juca Magalhães)

Amigos e amigas, como diriam os políticos mais desavisados, A Letra Elektrônica anda muito ocupada participando secretamente de passeatas pela cidade e quer com isso justificar a sua recente ausência internáutica. Segundo apuramos até o momento, o corpo a corpo com a PM não está sendo fácil, várias adolescentes de caras pintadas e excitada de indignação dizem em tom de revolta que "se um tiro de bala de borracha pegar no olho cega" e, apesar da miopia, preferimos continuar com os dois.

Enquanto isso, estão querendo mudar o nome de Fundão para "Fundão do Poço", numa alusão à Fundão dos Índios da qual falaremos a seguir. A população fez festa e aplaudiu quando foram presos seus representantes públicos e A Letra Elektrônica paga inteira para andar de ônibus. O prefeito de Fundão deu entrevista hoje cedo, logo depois seria afastado, o que, pelo jeitão cabrunco, deve ter-lhe sido um verdadeiro alívio. Negou tudo, mesmo afirmando não saber de nada. Nunca vi um senhorzinho tão apático e inoperante em face de uma situação tão periclitante. Se bobear eu vou pra lá...

Quero compartilhar um texto enviado por meu querido primo Felipe e escrito pelo amigo Marcus Machado que há tempo não vejo. Marquinhos tem uma onda parecida com a nossa de dar uma futucada no passado e invocar memórias de tempos em que as coisas pareciam mais bacanas. Nem sei, aliás, tenho dúvidas. Ganhei de Reinaldo Santos Neves o livro de Basílio Carvalho Daemon sobre a província do Espírito Santo.

Senhores (e senhoras) vocês sabiam que em 1810, os índios mataram a flechadas o comandante de uma força de milicianos nas cercanias de Vitória e no ano seguinte descobriram que muitas pessoas empregadas na Junta da Real Fazenda desfalcavam os cofres públicos? Por essas e por outras podemos ver o quanto avançamos de lá para cá... Segue o texto:

Fundão dos índios
Por Antonio Marcus Machado

02/06/2011 A Gazeta

Houve um tempo, no Espirito Santo, em que uma jornalista marcou sua época pela forma como escrevia e comentava o cotidiano capixaba. Polêmica, ela tingia com tons fortes a fotografia urbana, o cenário em que se inseriam os novos ricos e a dinâmica social movida pelos bailes esvoaçantes da cidade.

Pertenceu a uma era em que as mulheres ainda não tinham a personalidade empreendedora de hoje, e de modo geral era possível dizer que muitas realmente eram madames, boas esposas, filhas comportadas aguardando o baile de debutante e as mais requintadas, boas para casar.

Vitória, a capital, tinha no Teatro Carlos Gomes o som dos Mamíferos, no Mar e Terra as ironias de Carmélia e no Britz Bar a vida libertária da ilha. Os velhos canhões do Saldanha na verdade protegiam os namorados e frequentadores da boate Buteko. A vida corria assim. Os jornais locais eram de vanguarda. Bons jornalistas esquivavam-se dos golpes contundentes da ditadura e a Universidade Federal caminhava sem lenço e sem documento.

O centro da cidade abrigava seus trabalhadores com a mesma paixão que acalentava os boêmios, aspirantes a intelectuais, teatrólogos e cineastas potenciais. Esse era o palco em que Maria Nilce personificava sua coluna jornalística. Tinha uma grafia felina e provocante, muitas vezes. Creio que não tinha por preocupação agradar a todos. Nem a poucos.

Seu compromisso era com a sua percepção da realidade e das pessoas. Marcou época. Seja pela sua peculiar beleza, pela maneira ousada como se vestia e se portava ou pela expectativa matinal que os leitores carregavam até lerem seu texto, sempre imprevisível. Cultivou afetos e desafetos. Plantou sementes que lhe trouxeram tanto o bem quanto o mal. Como aquele definitivo, que lhe tirou covardemente a vida. A Vitória da Rua sete, do Miramar, do Praia tênis e do Álvares, do Caldo Lira, do Cine São Luís, do Jairo Maia e Golias, não mais a leria.

A leitura de jornais antigos permite perceber que ela tinha muito orgulho de onde nascera. Pode ser até uma percepção equivocada minha, mas vi alguns textos em que isso era cristalino como água de fonte límpida. Dizia com orgulho que nascera em Fundão. Fundão dos índios, acrescentava.

Não era comum àquela época pessoas emergentes valorizarem sua origem interiorana. Talvez fosse assim que ela gostava de provocar a elite emergente, as socialites de então. Mas o que é possível afirmar é que ela tinha muito orgulho de sua cidade natal. E tinha razão para isso.

Aquele município tem uma significativa história na formação da vida capixaba. O trem, ao chegar, passava solenemente pela alegria de seus moradores, trazendo e levando seus sonhos e esperanças. A estrada de ferro Vitória-Minas cortava uma cidade que já recebeu duas visitas importantes: o imperador Pedro II e o presidente Dutra.

Considerando todo o amor de Maria Nilce pelo seu município, certamente, se fosse viva ainda, hoje ela usaria seus tons mais contundentes para registrar sua indignação pelos indícios de corrupção e de formação de quadrilha. A expectativa dela certamente seria, caso os indiciados sejam julgados culpados, que seus crimes não fiquem impunes, como o dela parece que ficou.

Antonio Marcus Machado é economista e professor universitário

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Fim da lua de mel (kenneth Maxwell)

A lua de mel de Dilma Rousseff durou breves cinco meses. Quando assumiu a Presidência, em janeiro, muita coisa a favorecia. A mais importante era a popularidade de Lula.
Ela se tornou a primeira mulher a presidir o Brasil. Tinha um retrospecto de oposição ao regime militar. Herdou uma economia em boa situação.
Três questões, porém, causaram-lhe dificuldades. A primeira envolve o seu governo. Ela indicou Antonio Palocci como ministro-chefe da Casa Civil -na prática, como o seu principal ministro.
Ele foi ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula.
As políticas que adotou ajudaram a acalmar os mercados financeiros agitados. Mas Palocci também carrega uma bagagem negativa. Parte do problema envolve supostas irregularidades quando foi prefeito de Ribeirão Preto (SP).
Também há o "caso Francenildo", sobre o seu suposto envolvimento com lobistas e orgias, o que resultou em sua renúncia como ministro da Fazenda. Agora, a imprensa concentra suas atenções na expansão de seu patrimônio pessoal nos últimos quatro anos.
A segunda questão envolve a controvérsia sobre o projeto da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, na Amazônia, e o novo Código Florestal. Ambos são projetos de Dilma -ela foi ministra de Minas e Energia no governo Lula e era vista como forte defensora de projetos de infraestrutura.
O novo Código Florestal dá maior autonomia aos Estados, concede anistia por desflorestamento feito antes de abril de 2008, determina o relaxamento das regras de reserva legal e isenta os pequenos proprietários rurais -que tenham menos de 400 hectares- de suas disposições. Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e ex-candidata à Presidência, define o novo código como "o maior passo atrás".
Terceira, há preocupações quanto à saúde de Dilma, que a sua recuperação lenta de uma pneumonia, após a visita à China, só serviu para reviver. Antes da eleição, Dilma enfrentou um câncer linfático.
Os brasileiros prestam menos atenção do que deveriam aos candidatos a vice-presidente. Dois deles se tornaram presidentes nas últimas décadas: José Sarney, com a morte de Tancredo Neves, e Itamar Franco, após o impeachment de Collor. O atual vice-presidente é Michel Temer, 70, paulista de origem libanesa e líder do PMDB, mais conhecido por sua mulher, Marcela, 27, antiga "Miss Campinas".
Não existem razões sólidas para acreditar que seja provável o ressurgimento do câncer de Dilma. Mas Elio Gaspari voltou a colocar em destaque a questão da saúde dela.
É, de fato, verdade que, se ela voltar a adoecer e isso a incapacitar para o cargo, não resta dúvida de que a equação política brasileira seria completamente transformada. Esse é outro motivo para cautela.

A direita, o papagaio e o facão (Eugênio Bucci)

I
Uma aura folclórica, translúcida e radioativa, faz reluzir esse novo histrionismo de intolerância direitista que, de 10 ou 15 anos para cá, vem ganhando cargos políticos e espaço jornalístico no Brasil e no resto do mundo. Uma aura folclórica, é bom repetir. Esse discurso que mescla receitas anacrônicas de ultraliberalismo econômico e uma sanha persecutória contra os movimentos sociais em geral - uma repulsa ao Estado, quando o assunto é mercado, e uma ojeriza à diversidade, quando o assunto é sociedade civil - costuma vir embalado por arrogância bruta, dita politicamente incorreta, que, no mais das vezes, não se pode levar a sério. Jair Bolsonaro é um exemplo, mas há outros. Falam tanta barbaridade, tanto desaforo, que a gente dá de ombros. Melhor deixá-los onde estão. Cumprem lá o seu papel.

O novo histrionismo tem lá a sua representatividade. Ele externa ideias que a grande maioria dos mortais teria vergonha de pronunciar. Desbocado, fala em nome de padrões morais menos flexíveis, xingando os gays e abominando os militantes das causas ambientais, como se todos fossem comunistas escondidos em ONGs vendidas ao capital internacional. É um discurso absurdo? É, mas todos reconhecemos o seu direito de existir. Que as atrocidades sejam ditas em sua crua explicitude - se não fica mais elegante, pelo menos o debate fica mais franco. Assim, barulhenta como um papagaio doido, essa voz primitiva conquistou seu lugar ao sol. Como folclore.

Falando em folclore, temos aqui um dado pitoresco. Essa voz não pode ser confundida com a direita em sentido clássico. Ela não representa a defesa da livre-iniciativa ou da concorrência no mercado. Ela mal sabe o que são trustes, marcos regulatórios e fluxo de capitais. Confunde vícios privados com ética pública. Ela é de direita como caricatura, pelo conservadorismo nos costumes, por não suportar conviver com a diferença, pelo asco que emula contra tudo o que cheire a esquerda. Essa direita, enfim, é uma direita comportamental e obtusa; é mais uma seita fundamentalista, ainda que fragmentada, e menos uma corrente de pensamento.

Em parte, como já foi dito, ela cresce graças à corrupção que corroeu a esquerda, em vários países, gerando incompetência administrativa e frustração nos diversos eleitorados. Essa explicação, contudo, é insuficiente. É verdade que, além do esmero em se apropriar do alheio para abarrotar cofres pessoais ou partidários, setores expressivos da esquerda demonstraram notável talento para fazer desandar a máquina pública, mas isso, apenas isso, não explica o crescimento dos discursos prepotentes à direita. É preciso levar em conta, ainda, um fator que parece galvanizar os descontentamentos. O nome desse fator é moralismo.

Para que tenhamos uma ideia menos vaga do que é o moralismo político hoje, vejamos o que se passa na França. Marine Le Pen, candidata da extrema-direita às eleições presidenciais do ano que vem, prega abertamente o retrocesso. Ela fala contra os estrangeiros (xenofobia), contra a unificação europeia e contra os políticos. Para ela, a prisão de Dominique Strauss-Kahn - então diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), num hotel de luxo em Nova York, acusado de agredir sexualmente uma camareira - não é outra coisa senão um sintoma da imoralidade em que naufragou a elite política francesa.

Não há razão nesse discurso, é evidente. O fato de ser acusado de um crime sexual não transforma Strauss-Kahn no representante de uma elite estupradora (a propósito, Marine Le Pen também integra a elite política francesa). Mas o moralismo é assim: elege traços comportamentais como pilares da ética pública e solta seus cachorros na rua. Como não estamos no campo da lógica, o eleitorado vem gostando dos comícios de Marine Le Pen. À vontade, ela catalisa a fúria contra o diálogo: a fúria contra os estrangeiros, os outros políticos e os demais países europeus. No caso dela, a direita não é folclore: é facão.

E no Brasil? Bem, por aqui estamos às voltas com políticos ditos de esquerda que faltaram com a decência pública. Que sejam julgados e punidos. A conduta pessoal de cada um deles, entretanto, não quer dizer que todo o governo (de Lula ou de Dilma) seja uma desbragada bandalheira. Não é. Da mesma forma, não foram pura maldição os dois governos de Fernando Henrique Cardoso, por mais discutíveis que tenham sido os métodos pelos quais ele abriu atalho para o segundo mandato. Houve acertos na gestão de FHC, assim como houve acertos na gestão de Lula. A nossa única esperança está em separar, sem extremismos, os acertos dos erros - e fortalecer os primeiros e corrigir os segundos. Claro, segundo as regras da democracia.

A hora é delicada. No Congresso Nacional há um embrutecimento da perseguição religiosa contra homossexuais. No campo, líderes ambientalistas (todos ligados a movimentos de esquerda, registremos) são assassinados sem que os criminosos sejam sequer localizados. Em todo lugar despontam manifestações de impaciência e de recusa peremptória do argumento adversário, seja quando se fala de um livro de Português adotado em escolas públicas, seja quando se vota o novo Código Florestal. Há até mesmo gente afirmando que a ditadura militar não foi tão mal assim.

Sejamos serenos. A polarização não nos vai levar a bom termo. Ela é incapaz de promover a superação dos impasses que se apresentam. Ao contrário, vai somente fomentar o repúdio à política, às instituições e aos mecanismos democráticos, que são lentos e tortuosos, mas são os únicos eficazes.

Existe intolerância de esquerda? Claro que sim. Eu mesmo a apontei muitas vezes, neste mesmo espaço. Agora, porém, olhemos para esse facão que se insinua à direita. Ele é tão grave quanto. E fica aí, posando de folclore.
Fonte: O Estado de São Paulo