Ressaca. As nutricionistas recomendam muita alface. Alguém já viu um folião comendo alface?
A FESTA de rua mais típica do Brasil foi crescendo, foi crescendo até que saiu das nossas mãos e caiu na avenida. Ficou rica, mas muito sem graça. Onde foram parar os concursos de fantasia, Clóvis Bornay e Evandro Castro Lima fantasiados de "glória, glória, aleluia a um imperador bizantino" ou "perua pavoneante bailando em Versalhes"?
Imaginamos, ao ver o Carnaval dos clubes se acabar, que estávamos, os velhos e os moços, amadurecidos, que vergonha aquela história de ficar pulando no meio do salão com dois dedinhos para cima, cantando "ala-la-ô, ô, ô, mas que calor, ô, ô, ô...".
Tudo bem, se era maturidade, sempre é bom alcançá-la um dia. Acontece que num piscar de olhos começaram todos a dançar muito. Então, vergonha de dançar não é. Nas baladas dança-se num dia mais do que se dançava no ano inteiro.
Estão articulando a volta dos velhos Carnavais. Aquele bem brasileiro, de marchinhas, de blocos, de bailes, será que com confete, lança-perfume Rodometálico e serpentina? Com essa onda turística prometida é capaz que se recupere tudo, até a laranja do entrudo e o talco.
Bunda sempre teve, é que eram bundas inconscientes, lindas, rebolando para se divertir e não para aparecer na TV. Vejam a primeira Luma de Oliveira, dionisíaca, pulando para ela própria, um esplendor, e a Luma que se seguiu, exibida.
Seria assim tão alienante o Carnaval? Nunca foi. Hora de cantar alto as desgraças e, quem sabe, exorcizar as repressões, no calor, no suor e na cerveja. Ah, quantas regras ficavam suspensas, o armário se abria inteiro. O síndico perturbador se vestia de mulher, a tímida pulava de biquíni. O menino de óculos virava Tarzan e o musculoso inventava um tutu de bailarina.
As marchas imploram: "Daqui não saio, daqui ninguém me tira, onde é que eu vou morar?"; "Ai, barracão, pendurado no morro pedindo socorro..."; "Bota o retrato do Velho outra vez, bota no mesmo lugar". Letra politicamente correta e burra não emplacava. "Branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal!" "Será que ele é, será que ele é?"
E o horror dos cronistas de comida no Carnaval é a falta de assunto. Um ano se escreve sobre o barreado que era cozinhado e cozinhado no fogão de lenha durante os três dias e depois comido na quarta-feira de cinzas até a apoplexia.
No outro, se fala que Carnaval não tem comida típica. Dizem os sociólogos que é aí que se vê a separação entre a casa e a rua. Carnaval é festa de rua, o arroz e o feijão ficam de lado, não dá nem fome, dias de dormir tarde e acordar tarde, dias irresponsáveis. Porque "as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar...". Ressaca. As nutricionistas recomendam muita alface. Alguém já viu um folião comendo alface?
Suados, exauridos, ou melhor, exorcizados, quando se ouvia "as pastorinhas..." era a hora de sentar no degrau, passar as mãos pelos cabelos cheios de confete, tomar o último gole de guaraná quente, morder o pedaço de sanduíche de presunto com pão branco ressecado já se enroscando e se mandar para casa de olhos iluminados, recendendo o lança-perfume, esperando o próximo. Mas água de coco é bom. É que não usava.
ninahorta@uol.com.br
quinta-feira, 3 de março de 2011
Terra caminha para nova extinção em massa
Fração das espécies sumidas ainda não é catastrófica: fica entre 1% e 2%
Novo estudo confirma, porém, que taxas de desaparecimento estão bem acima do que é considerado natural
REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA (FSP)
A boa notícia é que os seres vivos da Terra ainda não estão enfrentando uma extinção tão catastrófica quanto a que deu cabo dos dinossauros. A má é que eles estão caminhando a passos largos rumo a essa hecatombe.
Por enquanto, indica uma pesquisa na edição de hoje da revista científica "Nature", a chamada Sexta Extinção ainda não pegou embalo. O apelido faz referência às "Big Five", como são conhecidas as cinco grandes extinções da história do planeta.
Cada uma das "Big Five" (veja infográfico para a relação completa delas) exterminou ao menos três quartos das espécies do globo. O novo estudo, coordenado por Anthony Barnosky, da Universidade da Califórnia em Berkeley, calcula que, nos últimos 500 anos, perderam-se "apenas" entre 1% e 2% dos seres vivos modernos.
É, porém, bem cedo para suspirar de alívio. Considere-se, por exemplo, o caso dos mamíferos: a análise de fósseis sugere que, no máximo, duas espécies do grupo sumiam a cada milhão de anos -isso antes de a civilização humana entrar em cena.
Contagem de corpos -ou melhor, de espécies abatidas- de mamíferos do ano de 1500 para cá: 80. É uma aceleração brutal da taxa em que os bichos estão sumindo.
CONTA DIFÍCIL
A pesquisa, que também tem como coautor o brasileiro Tiago Quental, da USP, deixa claro que há um enorme componente de incerteza nesse tipo de conta.
Os problemas se acumulam nas duas pontas do fenômeno, a do passado e a do presente. Para começar, estima-se que, para cada espécie conhecida hoje, há pelo menos duas que ainda precisam ser descobertas.
E, entre a minoria já batizada pelos cientistas, menos de 3% passaram por uma avaliação formal de seu "status de conservação" -ou seja, não se sabe se estão em boas condições, ameaçadas de sumir ou mesmo extintas.
Do lado dos fósseis, sabe-se que nem todas as espécies têm a boa sorte de ser preservadas dessa maneira. Além disso, é difícil diagnosticar com precisão a presença de espécies separadas com base em fósseis; é possível que um leão e um tigre, por exemplo, parecessem idênticos se vistos via restos fossilizados.
É preciso se contentar em contar gêneros (grupo mais abrangente, logo "acima" do nível de espécie; tanto leões quanto tigres e onças são do gênero Panthera).
Finalmente, como extinções acontecem de forma irregular, olhar apenas um período mais curto (como os últimos 500 anos) pode dar uma ideia errada das tendências a longo prazo.
Barnosky e companhia usaram métodos estatísticos para contornar isso e dizem que, de qualquer jeito que se olhe, as taxas atuais parecem fora de qualquer escala normal. Mas uma catástrofe do nível das "Big Five" não deve acontecer até o fim deste século, como muitos temiam.
Se todas as espécies hoje ameaçadas de extinção sumirem no próximo século e se a tendência continuasse, esse nível seria alcançado em uns 300 anos, diz a pesquisa.
Do ponto de vista da história da Terra, é um piscar de olhos. Entre as "Big Five", só não seria mais rápida que a extinção dos dinossauros.
Novo estudo confirma, porém, que taxas de desaparecimento estão bem acima do que é considerado natural
REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA (FSP)
A boa notícia é que os seres vivos da Terra ainda não estão enfrentando uma extinção tão catastrófica quanto a que deu cabo dos dinossauros. A má é que eles estão caminhando a passos largos rumo a essa hecatombe.
Por enquanto, indica uma pesquisa na edição de hoje da revista científica "Nature", a chamada Sexta Extinção ainda não pegou embalo. O apelido faz referência às "Big Five", como são conhecidas as cinco grandes extinções da história do planeta.
Cada uma das "Big Five" (veja infográfico para a relação completa delas) exterminou ao menos três quartos das espécies do globo. O novo estudo, coordenado por Anthony Barnosky, da Universidade da Califórnia em Berkeley, calcula que, nos últimos 500 anos, perderam-se "apenas" entre 1% e 2% dos seres vivos modernos.
É, porém, bem cedo para suspirar de alívio. Considere-se, por exemplo, o caso dos mamíferos: a análise de fósseis sugere que, no máximo, duas espécies do grupo sumiam a cada milhão de anos -isso antes de a civilização humana entrar em cena.
Contagem de corpos -ou melhor, de espécies abatidas- de mamíferos do ano de 1500 para cá: 80. É uma aceleração brutal da taxa em que os bichos estão sumindo.
CONTA DIFÍCIL
A pesquisa, que também tem como coautor o brasileiro Tiago Quental, da USP, deixa claro que há um enorme componente de incerteza nesse tipo de conta.
Os problemas se acumulam nas duas pontas do fenômeno, a do passado e a do presente. Para começar, estima-se que, para cada espécie conhecida hoje, há pelo menos duas que ainda precisam ser descobertas.
E, entre a minoria já batizada pelos cientistas, menos de 3% passaram por uma avaliação formal de seu "status de conservação" -ou seja, não se sabe se estão em boas condições, ameaçadas de sumir ou mesmo extintas.
Do lado dos fósseis, sabe-se que nem todas as espécies têm a boa sorte de ser preservadas dessa maneira. Além disso, é difícil diagnosticar com precisão a presença de espécies separadas com base em fósseis; é possível que um leão e um tigre, por exemplo, parecessem idênticos se vistos via restos fossilizados.
É preciso se contentar em contar gêneros (grupo mais abrangente, logo "acima" do nível de espécie; tanto leões quanto tigres e onças são do gênero Panthera).
Finalmente, como extinções acontecem de forma irregular, olhar apenas um período mais curto (como os últimos 500 anos) pode dar uma ideia errada das tendências a longo prazo.
Barnosky e companhia usaram métodos estatísticos para contornar isso e dizem que, de qualquer jeito que se olhe, as taxas atuais parecem fora de qualquer escala normal. Mas uma catástrofe do nível das "Big Five" não deve acontecer até o fim deste século, como muitos temiam.
Se todas as espécies hoje ameaçadas de extinção sumirem no próximo século e se a tendência continuasse, esse nível seria alcançado em uns 300 anos, diz a pesquisa.
Do ponto de vista da história da Terra, é um piscar de olhos. Entre as "Big Five", só não seria mais rápida que a extinção dos dinossauros.
Cultura e ímpeto pessoal (Paulo Werneck)
O episódio da nomeação e da subsequente queda de Emir Sader na presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa pode inaugurar um novo momento na reflexão sobre as políticas culturais no país.
Não é novidade que o Ministério da Cultura tornou-se palco de conchavos e cobiça partidária desmedida. Também não é de hoje que, no campo cultural, enfrentam-se os marxistas "old fashioned" (ou "marxistas parnasianos", na expressão do crítico literário Luiz Costa Lima) e os defensores de uma visão mais abrangente da atividade cultural.
O que é novo na disputa pela Casa de Rui Barbosa é a "transcendência" -para usar uma palavra que se consagrou na polêmica- do clima partidário-paroquial para uma discussão mais madura sobre as políticas culturais no país.
Com a "desnomeação" de Emir Sader afirmou-se a singularidade, o caráter público e a história de uma instituição que, pela perenidade inerente a suas atividades, não pode ficar ao sabor de ventos ideológicos personalistas.
O episódio poderá ajudar a afastar o mal da descontinuidade nas instituições culturais, especialmente pernicioso em atividades que só rendem frutos no médio e no longo prazo, como a catalogação e o estudo de acervos de intelectuais. É de esperar que, a partir de agora, partidos e governantes pensem duas vezes antes de indicar gestores culturais que desconheçam as instituições de que vão cuidar.
O episódio mostra que dos gestores públicos não se espera apenas decoro administrativo, mas também verbal. Se alguém derrubou Sader, foi o próprio sociólogo e suas infelizes palavras, inaceitáveis na boca de qualquer dirigente, de esquerda ou de direita.
A falta de tato de Sader ao lidar com o público por meio da imprensa deixou solitário um homem que, há poucos anos, viu pipocarem manifestos e mobilizações em seu favor.
Ontem, não se via uma única personalidade pública se manifestando pela permanência de Emir Sader na Fundação Casa de Rui Barbosa.
Embora política cultural não se faça com personalismos, ela depende de uma boa dose de ímpeto pessoal, o que é muito diferente. Paris não estaria tombada como patrimônio histórico se não fosse a atuação de um indivíduo, André Malraux, à cabeça do Ministério da Cultura francês. O mesmo se poderia dizer do parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, fruto da obstinação pessoal de Lota de Macedo Soares, ou do sistema de bibliotecas públicas em São Paulo, criado por Mário de Andrade nos anos 1930.
Superado o episódio, a "Casa Rui" tem, na gestão Dilma/ Ana de Hollanda, o desafio de se modernizar -e, por que não, de ganhar boa dose de ímpeto pessoal, para que se faça conhecer de maneira mais efetiva pelo país cuja memória ajuda a preservar.
PAULO WERNECK é editor da Ilustríssima.
Não é novidade que o Ministério da Cultura tornou-se palco de conchavos e cobiça partidária desmedida. Também não é de hoje que, no campo cultural, enfrentam-se os marxistas "old fashioned" (ou "marxistas parnasianos", na expressão do crítico literário Luiz Costa Lima) e os defensores de uma visão mais abrangente da atividade cultural.
O que é novo na disputa pela Casa de Rui Barbosa é a "transcendência" -para usar uma palavra que se consagrou na polêmica- do clima partidário-paroquial para uma discussão mais madura sobre as políticas culturais no país.
Com a "desnomeação" de Emir Sader afirmou-se a singularidade, o caráter público e a história de uma instituição que, pela perenidade inerente a suas atividades, não pode ficar ao sabor de ventos ideológicos personalistas.
O episódio poderá ajudar a afastar o mal da descontinuidade nas instituições culturais, especialmente pernicioso em atividades que só rendem frutos no médio e no longo prazo, como a catalogação e o estudo de acervos de intelectuais. É de esperar que, a partir de agora, partidos e governantes pensem duas vezes antes de indicar gestores culturais que desconheçam as instituições de que vão cuidar.
O episódio mostra que dos gestores públicos não se espera apenas decoro administrativo, mas também verbal. Se alguém derrubou Sader, foi o próprio sociólogo e suas infelizes palavras, inaceitáveis na boca de qualquer dirigente, de esquerda ou de direita.
A falta de tato de Sader ao lidar com o público por meio da imprensa deixou solitário um homem que, há poucos anos, viu pipocarem manifestos e mobilizações em seu favor.
Ontem, não se via uma única personalidade pública se manifestando pela permanência de Emir Sader na Fundação Casa de Rui Barbosa.
Embora política cultural não se faça com personalismos, ela depende de uma boa dose de ímpeto pessoal, o que é muito diferente. Paris não estaria tombada como patrimônio histórico se não fosse a atuação de um indivíduo, André Malraux, à cabeça do Ministério da Cultura francês. O mesmo se poderia dizer do parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, fruto da obstinação pessoal de Lota de Macedo Soares, ou do sistema de bibliotecas públicas em São Paulo, criado por Mário de Andrade nos anos 1930.
Superado o episódio, a "Casa Rui" tem, na gestão Dilma/ Ana de Hollanda, o desafio de se modernizar -e, por que não, de ganhar boa dose de ímpeto pessoal, para que se faça conhecer de maneira mais efetiva pelo país cuja memória ajuda a preservar.
PAULO WERNECK é editor da Ilustríssima.
Na tenda de Kadafi (Demétrio Magnoli)
Muamar Kadafi foi muito mais longe que Hosni Mubarak em seus pronunciamentos desesperados, em meio à revolução. Ele se dirigiu aos líbios como faria uma potência ocupante descontrolada, ameaçando emitir uma ordem de extermínio geral. A queda dramática do tirano da Líbia tem importância geopolítica incomparavelmente menor que a do regime egípcio. Contudo, tem um inigualável cortejo de significados simbólicos.
O fim de Kadafi assinala a segunda, e definitiva, morte do nasserismo. "A revolução é o meio pelo qual a nação árabe pode libertar-se de seus grilhões." A Carta Nacional divulgada por Gamal Abdel Nasser em 1962 definia a doutrina do pan-arabismo, que deveria destruir as fronteiras interestatais criadas pelas potências europeias e propiciar a "restauração da ordem natural de uma única nação". O Egito de Nasser figuraria, nesse percurso, como uma entidade transitória: o instrumento para a edificação da "nação árabe". O jovem Kadafi formou-se na academia militar nos anos áureos do nasserismo e liderou o golpe antimonárquico de 1969 para inscrever a Líbia na moldura da revolução anunciada pelo Egito. A humilhação árabe na Guerra dos Seis Dias, em 1967, foi o estampido para o levante dos oficiais líbios do grupo de Kadafi.
Nasser morreu em 1970, mas o nasserismo prosseguiu, sob Anuar Sadat, ainda por alguns anos e uma nova guerra árabe-israelense. A primeira morte do nasserismo se deu pela ruptura do Egito com a URSS e o subsequente tratado de paz com Israel. Então, em 1977, Kadafi enrolou-se nos farrapos da bandeira do pan-arabismo e lançou um ataque militar contra o povoado egípcio fronteiriço de Sallum, sofrendo uma contraofensiva devastadora. Na década seguinte, enquanto no Egito a herança doutrinária de Nasser se dissolvia num antissemitismo caricato, a Líbia de Kadafi, o "cachorro louco", proclamava guerra ao "imperialismo" e organizava atos de terror contra interesses ocidentais ao redor do mundo. Agora, quando o tirano desaba, fecha-se de vez o ciclo inaugurado pela revolução pan-arabista.
O fim de Kadafi assinala o ocaso do longo período em que os povos árabes foram ofuscados pela invocação do espectro do "inimigo externo". A ditadura nasserista no Egito, como as ditaduras baathistas implantadas na Síria, em 1963, e no Iraque, em 1968, reclamavam uma legitimidade derivada da luta contra o imperialismo ocidental e sua suposta cabeça de ponte no mundo árabe, o Estado de Israel. A supressão dos partidos de oposição, a repressão à dissidência interna, a interdição do debate político eram justificadas pelo imperativo da unidade árabe. No caso da Líbia, agentes de Kadafi perpetraram assassinatos de dezenas de "cães vadios", na expressão usada pelo tirano para designar dissidentes exilados, na Europa, nos EUA e mesmo na Arábia Saudita. A nova revolução árabe não segue estandartes antiocidentais. A sua consigna é a liberdade, são os direitos de cidadania, não a utopia geopolítica da "nação única".
O fim de Kadafi assinala a desmoralização das tiranias personalistas que derivam de sistemas de partido único e acabam por lhes tomar o lugar. O modelo do regime de partido-Estado ancora-se no conceito de que o partido dirigente coagula uma verdade histórica superior. Os partidos comunistas se exibiam como locomotivas do "trem da História", em marcha rumo à estação terminal do socialismo. No mundo árabe, os regimes de partido único apresentavam-se como condutores de uma caravana que avançava rumo ao oásis da unidade pan-árabe. Invariavelmente, o modelo evoluía para ditaduras pessoais: Joseph Stalin, Mao Tsé-tung, Kim Il-sung, Fidel Castro, Gamal Abdel Nasser, Hafez Al-Assad, Saddam Hussein. A Líbia de Kadafi não passou pelo estágio primário, organizando-se desde o início como uma tirania pessoal.
O golpe de 1969 substituiu a monarquia liberal do rei Ídris, baseada na rede de poder tribal da região da Cirenaica, por um "Estado de massas" (Jamahiriya) - isto é, de fato, por um Estado de comitês submetidos ao controle do tirano. Kadafi não ocupava nenhum cargo formal no governo líbio, mas enfeixava o poder de fato, concentrado no Conselho de Comando da Revolução, e subordinava as Forças Armadas a milícias especiais. A nação líbia, destituída de contrato constitucional operante, identificava-se à figura de Kadafi, o "Irmão Fraternal e Guia da Revolução".
Mais que qualquer ideologia, essa redução da nação à imagem de um condottieri atraiu a admiração de Fidel Castro e, mais tarde, de Hugo Chávez. Um ano e meio atrás, Lula dirigiu-se a Kadafi como "meu amigo, meu irmão, meu líder", saltando a fronteira que separa a cortesia protocolar da apologia repugnante. O cumprimento representou mais que uma esperteza instrumental, destinada à conquista de votos árabes e africanos para a pretensão brasileira a uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Ela evidenciou, ao lado da conhecida inclinação do ex-presidente por cortejar ditadores, uma ponta de inveja pelo estatuto de um líder não embaraçado por qualquer limite institucional.
O fim de Kadafi joga mais um facho de luz sobre a facilidade com que o Ocidente imola posições de princípio no altar das conveniências geopolíticas circunstanciais. O tirano operou como elo de articulação logística de variados grupos terroristas, ordenou a explosão do voo da Pan Am em Lockerbie, financiou milícias de mercenários no Chade e no Sudão, ajudou a montar as máquinas genocidas de Idi Amin, em Uganda, e Mengistu Mariam, na Etiópia, treinou o sanguinário exército de Charles Taylor na Serra Leoa. Nada disso evitou uma ignóbil "reabilitação", negociada pela CIA em 2003, na moldura da "guerra ao terror", e conduzida por Washington, Londres e Roma. Há, mesmo pequena, uma chance de Kadafi se sentar no banco dos réus de um tribunal para crimes contra a humanidade. Ele teria histórias interessantes a contar.
Sociólogo e Doutor em Geografia Humana pela USP.
FONTE: O ESTADO DE S.PAULO
O fim de Kadafi assinala a segunda, e definitiva, morte do nasserismo. "A revolução é o meio pelo qual a nação árabe pode libertar-se de seus grilhões." A Carta Nacional divulgada por Gamal Abdel Nasser em 1962 definia a doutrina do pan-arabismo, que deveria destruir as fronteiras interestatais criadas pelas potências europeias e propiciar a "restauração da ordem natural de uma única nação". O Egito de Nasser figuraria, nesse percurso, como uma entidade transitória: o instrumento para a edificação da "nação árabe". O jovem Kadafi formou-se na academia militar nos anos áureos do nasserismo e liderou o golpe antimonárquico de 1969 para inscrever a Líbia na moldura da revolução anunciada pelo Egito. A humilhação árabe na Guerra dos Seis Dias, em 1967, foi o estampido para o levante dos oficiais líbios do grupo de Kadafi.
Nasser morreu em 1970, mas o nasserismo prosseguiu, sob Anuar Sadat, ainda por alguns anos e uma nova guerra árabe-israelense. A primeira morte do nasserismo se deu pela ruptura do Egito com a URSS e o subsequente tratado de paz com Israel. Então, em 1977, Kadafi enrolou-se nos farrapos da bandeira do pan-arabismo e lançou um ataque militar contra o povoado egípcio fronteiriço de Sallum, sofrendo uma contraofensiva devastadora. Na década seguinte, enquanto no Egito a herança doutrinária de Nasser se dissolvia num antissemitismo caricato, a Líbia de Kadafi, o "cachorro louco", proclamava guerra ao "imperialismo" e organizava atos de terror contra interesses ocidentais ao redor do mundo. Agora, quando o tirano desaba, fecha-se de vez o ciclo inaugurado pela revolução pan-arabista.
O fim de Kadafi assinala o ocaso do longo período em que os povos árabes foram ofuscados pela invocação do espectro do "inimigo externo". A ditadura nasserista no Egito, como as ditaduras baathistas implantadas na Síria, em 1963, e no Iraque, em 1968, reclamavam uma legitimidade derivada da luta contra o imperialismo ocidental e sua suposta cabeça de ponte no mundo árabe, o Estado de Israel. A supressão dos partidos de oposição, a repressão à dissidência interna, a interdição do debate político eram justificadas pelo imperativo da unidade árabe. No caso da Líbia, agentes de Kadafi perpetraram assassinatos de dezenas de "cães vadios", na expressão usada pelo tirano para designar dissidentes exilados, na Europa, nos EUA e mesmo na Arábia Saudita. A nova revolução árabe não segue estandartes antiocidentais. A sua consigna é a liberdade, são os direitos de cidadania, não a utopia geopolítica da "nação única".
O fim de Kadafi assinala a desmoralização das tiranias personalistas que derivam de sistemas de partido único e acabam por lhes tomar o lugar. O modelo do regime de partido-Estado ancora-se no conceito de que o partido dirigente coagula uma verdade histórica superior. Os partidos comunistas se exibiam como locomotivas do "trem da História", em marcha rumo à estação terminal do socialismo. No mundo árabe, os regimes de partido único apresentavam-se como condutores de uma caravana que avançava rumo ao oásis da unidade pan-árabe. Invariavelmente, o modelo evoluía para ditaduras pessoais: Joseph Stalin, Mao Tsé-tung, Kim Il-sung, Fidel Castro, Gamal Abdel Nasser, Hafez Al-Assad, Saddam Hussein. A Líbia de Kadafi não passou pelo estágio primário, organizando-se desde o início como uma tirania pessoal.
O golpe de 1969 substituiu a monarquia liberal do rei Ídris, baseada na rede de poder tribal da região da Cirenaica, por um "Estado de massas" (Jamahiriya) - isto é, de fato, por um Estado de comitês submetidos ao controle do tirano. Kadafi não ocupava nenhum cargo formal no governo líbio, mas enfeixava o poder de fato, concentrado no Conselho de Comando da Revolução, e subordinava as Forças Armadas a milícias especiais. A nação líbia, destituída de contrato constitucional operante, identificava-se à figura de Kadafi, o "Irmão Fraternal e Guia da Revolução".
Mais que qualquer ideologia, essa redução da nação à imagem de um condottieri atraiu a admiração de Fidel Castro e, mais tarde, de Hugo Chávez. Um ano e meio atrás, Lula dirigiu-se a Kadafi como "meu amigo, meu irmão, meu líder", saltando a fronteira que separa a cortesia protocolar da apologia repugnante. O cumprimento representou mais que uma esperteza instrumental, destinada à conquista de votos árabes e africanos para a pretensão brasileira a uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Ela evidenciou, ao lado da conhecida inclinação do ex-presidente por cortejar ditadores, uma ponta de inveja pelo estatuto de um líder não embaraçado por qualquer limite institucional.
O fim de Kadafi joga mais um facho de luz sobre a facilidade com que o Ocidente imola posições de princípio no altar das conveniências geopolíticas circunstanciais. O tirano operou como elo de articulação logística de variados grupos terroristas, ordenou a explosão do voo da Pan Am em Lockerbie, financiou milícias de mercenários no Chade e no Sudão, ajudou a montar as máquinas genocidas de Idi Amin, em Uganda, e Mengistu Mariam, na Etiópia, treinou o sanguinário exército de Charles Taylor na Serra Leoa. Nada disso evitou uma ignóbil "reabilitação", negociada pela CIA em 2003, na moldura da "guerra ao terror", e conduzida por Washington, Londres e Roma. Há, mesmo pequena, uma chance de Kadafi se sentar no banco dos réus de um tribunal para crimes contra a humanidade. Ele teria histórias interessantes a contar.
Sociólogo e Doutor em Geografia Humana pela USP.
FONTE: O ESTADO DE S.PAULO
O segundo momento dos partidos pós-79 (Maria Inês Nassif )
Este é o segundo momento do quadro partidário brasileiro. O primeiro começou em 1979, quando a ditadura acabou com o bipartidarismo criado pelo Ato Institucional nº 2, de 1966, que extinguiu o quadro partidário anterior. A implosão da esquerda peemedebista, de um lado, em vários partidos; o esvaziamento eleitoral do PDS, legenda de apoio à ditadura, e a tentativa de formar "linhas auxiliares" de um governo ainda militar, de outro, definiram um quadro partidário com tendência à pulverização, tanto à esquerda como à direita.
O PMDB, esvaziado à esquerda, manteve sua centralidade política como herdeiro da oposição institucional ao regime durante algum tempo, quando boa parte do chamado grupo autêntico, que botou a cara para bater e correu riscos inclusive físicos de se opor à ditadura, migrava para outras legendas sem levar junto o prestígio do antigo partido.
Enquanto o centro oposicionista defendia manter a unidade em torno do PMDB, a esquerda, exceto os partidos comunistas, que ainda não haviam sido legalizados, procurou novos rumos. Vindos do exílio, Leonel Brizola e Miguel Arraes reuniram partidários e procuraram consolidar territórios próprios - Brizola, como herdeiro do velho petebismo, perdeu a legenda do PTB devido a manobras legais do regime e fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT); Arraes, sem conseguir ganhar espaço dentro do PMDB, sua primeira escolha partidária, acabou tomando o PSB. PDT e PSB nasceram em torno de lideranças carismáticas e viveram sob o controle absoluto de Brizola e Arraes. O PT, que vinha da experiência do movimento sindical dos anos 80 e atraiu grupos da esquerda mais radical e os movimentos de base da igreja progressista, teve uma origem menos personalista.
O ex-governador de Pernambuco fez um herdeiro, o atual governador Eduardo Campos. Ele toca o PSB ao estilo do avô. Quando Brizola morreu, sem ter deixado sucessores naturais - embora vários de seus netos estejam na política -, jogou o PDT numa profunda crise. O brizolismo é uma opção política em extinção; o PDT, um partido sem rumo.
O PSB, todavia, foi levado pelo pragmatismo do avô Miguel Arraes, e agora pelo neto Eduardo Campos. Arraes manteve suas pretensões políticas dentro dos limites de Pernambuco e fez acordos para ampliar o partido em outros Estados. Manteve uma equação política de absoluta hegemonia na política pernambucana, quebrada pouco antes de sua morte por desgastes acumulados em sucessivos períodos no governo; e controle total sobre as seções estaduais, que manipulava de acordo com os seus interesses regionais e nacionais. Alianças reiteradas nas eleições proporcionais com o PT mantiveram o partido dentro dos limites mínimos de representação exigidos pela lei, depois derrubados pelo Supremo Tribunal Federal. Arraes atraiu, em São Paulo, a ex-prefeita Luiza Erundina, quando ela rachou com o seu partido de origem, o PT; na Bahia, levou um núcleo que sempre atuou junto ao PCdoB e que girava em torno da ex-prefeita Lídice da Mata. Erundina e Lídice mantiveram-se no PSB por absoluta falta de opção, mas tinham discordâncias acentuadas quanto à forma de condução do partido por Arraes. Voltam a entrar na linha de confronto com as articulações de Eduardo Campos para cooptação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, hoje no DEM. Não é uma adesão confortável para quadros efetivamente socialistas do partido.
O pragmatismo do neto de Arraes tem mantido o partido em crescimento, embora sob constante crise de identidade. O PDT, acostumado a funcionar sob a batuta de um único líder, não tinha ninguém que minimamente desempenhasse o papel antes exercido por Brizola, nem mecanismos de decisão internos democráticos que o substituíssem. Os partidos comunistas, que ganharam identidade própria apenas após o governo José Sarney, quando foram legalizados, também sobreviveram na órbita de partidos maiores - o PCdoB ganhou representação parlamentar às custas de alianças proporcionais com o PT; o PCB, depois PPS, agora mantém essa equação com o PSDB, embora tenha feito, no passado, algumas alianças com o PT.
O quadro partidário pós-Lula já é um segundo momento daquele formado pós-79, no final da ditadura. Os partidos que se consolidaram e polarizam na política nacional, o PT e o PSDB, vivem crises de identidade - o primeiro, por ser governo; o segundo, por estar a tanto tempo fora do poder federal. Os pequenos partidos de esquerda, alguns perderam as lideranças que lhe davam rumo e outros, a organicidade dada por ideologias que entraram em crise no mundo e projetos de poder que foram assumidos pelo partido que exerceu a hegemonia sobre o bloco nas últimas décadas, o PT. A direita ideológica, em especial o DEM, montou uma estrutura partidária baseada em chefes políticos locais, e eles perderam espaço nas regiões mais pobres durante o governo Lula. Os líderes regionais não estão conseguindo se reaproximar dos velhos redutos - daí a tentativa de Kassab de driblar a lei para se encontrar, mais na frente, com um partido a sua esquerda, o PSB, e por meio dele compor a base do governo federal.
É um quadro que, por exaustão de algumas fórmulas tradicionais de organização partidária, tende a ser menos pulverizado. E vai ser concentrado rapidamente quando for proibida a coligação nas eleições proporcionais. Exceto o PSB, por pragmatismo de Campos, os demais partidos de esquerda dependem da coligação proporcional para sobreviver.
Da mesma forma, os pequenos partidos de direita aliados ao governo terão dificuldade de manter suas bancadas. Os médios e pequenos partidos de direita que se apoiam no PSDB estão com o mesmo problema. Já foram praticamente desalojados pela derrota do candidato José Serra à Presidência. E têm dificuldades de sobreviver fora do poder. A aproximação deles ao governo era previsível. Ainda assim, se a coligação proporcional for proibida, não há governo que os salve.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política.
FONTE: VALOR ECONÔMICO
Este é o segundo momento do quadro partidário brasileiro. O primeiro começou em 1979, quando a ditadura acabou com o bipartidarismo criado pelo Ato Institucional nº 2, de 1966, que extinguiu o quadro partidário anterior. A implosão da esquerda peemedebista, de um lado, em vários partidos; o esvaziamento eleitoral do PDS, legenda de apoio à ditadura, e a tentativa de formar "linhas auxiliares" de um governo ainda militar, de outro, definiram um quadro partidário com tendência à pulverização, tanto à esquerda como à direita.
O PMDB, esvaziado à esquerda, manteve sua centralidade política como herdeiro da oposição institucional ao regime durante algum tempo, quando boa parte do chamado grupo autêntico, que botou a cara para bater e correu riscos inclusive físicos de se opor à ditadura, migrava para outras legendas sem levar junto o prestígio do antigo partido.
Enquanto o centro oposicionista defendia manter a unidade em torno do PMDB, a esquerda, exceto os partidos comunistas, que ainda não haviam sido legalizados, procurou novos rumos. Vindos do exílio, Leonel Brizola e Miguel Arraes reuniram partidários e procuraram consolidar territórios próprios - Brizola, como herdeiro do velho petebismo, perdeu a legenda do PTB devido a manobras legais do regime e fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT); Arraes, sem conseguir ganhar espaço dentro do PMDB, sua primeira escolha partidária, acabou tomando o PSB. PDT e PSB nasceram em torno de lideranças carismáticas e viveram sob o controle absoluto de Brizola e Arraes. O PT, que vinha da experiência do movimento sindical dos anos 80 e atraiu grupos da esquerda mais radical e os movimentos de base da igreja progressista, teve uma origem menos personalista.
O ex-governador de Pernambuco fez um herdeiro, o atual governador Eduardo Campos. Ele toca o PSB ao estilo do avô. Quando Brizola morreu, sem ter deixado sucessores naturais - embora vários de seus netos estejam na política -, jogou o PDT numa profunda crise. O brizolismo é uma opção política em extinção; o PDT, um partido sem rumo.
O PSB, todavia, foi levado pelo pragmatismo do avô Miguel Arraes, e agora pelo neto Eduardo Campos. Arraes manteve suas pretensões políticas dentro dos limites de Pernambuco e fez acordos para ampliar o partido em outros Estados. Manteve uma equação política de absoluta hegemonia na política pernambucana, quebrada pouco antes de sua morte por desgastes acumulados em sucessivos períodos no governo; e controle total sobre as seções estaduais, que manipulava de acordo com os seus interesses regionais e nacionais. Alianças reiteradas nas eleições proporcionais com o PT mantiveram o partido dentro dos limites mínimos de representação exigidos pela lei, depois derrubados pelo Supremo Tribunal Federal. Arraes atraiu, em São Paulo, a ex-prefeita Luiza Erundina, quando ela rachou com o seu partido de origem, o PT; na Bahia, levou um núcleo que sempre atuou junto ao PCdoB e que girava em torno da ex-prefeita Lídice da Mata. Erundina e Lídice mantiveram-se no PSB por absoluta falta de opção, mas tinham discordâncias acentuadas quanto à forma de condução do partido por Arraes. Voltam a entrar na linha de confronto com as articulações de Eduardo Campos para cooptação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, hoje no DEM. Não é uma adesão confortável para quadros efetivamente socialistas do partido.
O pragmatismo do neto de Arraes tem mantido o partido em crescimento, embora sob constante crise de identidade. O PDT, acostumado a funcionar sob a batuta de um único líder, não tinha ninguém que minimamente desempenhasse o papel antes exercido por Brizola, nem mecanismos de decisão internos democráticos que o substituíssem. Os partidos comunistas, que ganharam identidade própria apenas após o governo José Sarney, quando foram legalizados, também sobreviveram na órbita de partidos maiores - o PCdoB ganhou representação parlamentar às custas de alianças proporcionais com o PT; o PCB, depois PPS, agora mantém essa equação com o PSDB, embora tenha feito, no passado, algumas alianças com o PT.
O quadro partidário pós-Lula já é um segundo momento daquele formado pós-79, no final da ditadura. Os partidos que se consolidaram e polarizam na política nacional, o PT e o PSDB, vivem crises de identidade - o primeiro, por ser governo; o segundo, por estar a tanto tempo fora do poder federal. Os pequenos partidos de esquerda, alguns perderam as lideranças que lhe davam rumo e outros, a organicidade dada por ideologias que entraram em crise no mundo e projetos de poder que foram assumidos pelo partido que exerceu a hegemonia sobre o bloco nas últimas décadas, o PT. A direita ideológica, em especial o DEM, montou uma estrutura partidária baseada em chefes políticos locais, e eles perderam espaço nas regiões mais pobres durante o governo Lula. Os líderes regionais não estão conseguindo se reaproximar dos velhos redutos - daí a tentativa de Kassab de driblar a lei para se encontrar, mais na frente, com um partido a sua esquerda, o PSB, e por meio dele compor a base do governo federal.
É um quadro que, por exaustão de algumas fórmulas tradicionais de organização partidária, tende a ser menos pulverizado. E vai ser concentrado rapidamente quando for proibida a coligação nas eleições proporcionais. Exceto o PSB, por pragmatismo de Campos, os demais partidos de esquerda dependem da coligação proporcional para sobreviver.
Da mesma forma, os pequenos partidos de direita aliados ao governo terão dificuldade de manter suas bancadas. Os médios e pequenos partidos de direita que se apoiam no PSDB estão com o mesmo problema. Já foram praticamente desalojados pela derrota do candidato José Serra à Presidência. E têm dificuldades de sobreviver fora do poder. A aproximação deles ao governo era previsível. Ainda assim, se a coligação proporcional for proibida, não há governo que os salve.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política.
FONTE: VALOR ECONÔMICO
O PMDB, esvaziado à esquerda, manteve sua centralidade política como herdeiro da oposição institucional ao regime durante algum tempo, quando boa parte do chamado grupo autêntico, que botou a cara para bater e correu riscos inclusive físicos de se opor à ditadura, migrava para outras legendas sem levar junto o prestígio do antigo partido.
Enquanto o centro oposicionista defendia manter a unidade em torno do PMDB, a esquerda, exceto os partidos comunistas, que ainda não haviam sido legalizados, procurou novos rumos. Vindos do exílio, Leonel Brizola e Miguel Arraes reuniram partidários e procuraram consolidar territórios próprios - Brizola, como herdeiro do velho petebismo, perdeu a legenda do PTB devido a manobras legais do regime e fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT); Arraes, sem conseguir ganhar espaço dentro do PMDB, sua primeira escolha partidária, acabou tomando o PSB. PDT e PSB nasceram em torno de lideranças carismáticas e viveram sob o controle absoluto de Brizola e Arraes. O PT, que vinha da experiência do movimento sindical dos anos 80 e atraiu grupos da esquerda mais radical e os movimentos de base da igreja progressista, teve uma origem menos personalista.
O ex-governador de Pernambuco fez um herdeiro, o atual governador Eduardo Campos. Ele toca o PSB ao estilo do avô. Quando Brizola morreu, sem ter deixado sucessores naturais - embora vários de seus netos estejam na política -, jogou o PDT numa profunda crise. O brizolismo é uma opção política em extinção; o PDT, um partido sem rumo.
O PSB, todavia, foi levado pelo pragmatismo do avô Miguel Arraes, e agora pelo neto Eduardo Campos. Arraes manteve suas pretensões políticas dentro dos limites de Pernambuco e fez acordos para ampliar o partido em outros Estados. Manteve uma equação política de absoluta hegemonia na política pernambucana, quebrada pouco antes de sua morte por desgastes acumulados em sucessivos períodos no governo; e controle total sobre as seções estaduais, que manipulava de acordo com os seus interesses regionais e nacionais. Alianças reiteradas nas eleições proporcionais com o PT mantiveram o partido dentro dos limites mínimos de representação exigidos pela lei, depois derrubados pelo Supremo Tribunal Federal. Arraes atraiu, em São Paulo, a ex-prefeita Luiza Erundina, quando ela rachou com o seu partido de origem, o PT; na Bahia, levou um núcleo que sempre atuou junto ao PCdoB e que girava em torno da ex-prefeita Lídice da Mata. Erundina e Lídice mantiveram-se no PSB por absoluta falta de opção, mas tinham discordâncias acentuadas quanto à forma de condução do partido por Arraes. Voltam a entrar na linha de confronto com as articulações de Eduardo Campos para cooptação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, hoje no DEM. Não é uma adesão confortável para quadros efetivamente socialistas do partido.
O pragmatismo do neto de Arraes tem mantido o partido em crescimento, embora sob constante crise de identidade. O PDT, acostumado a funcionar sob a batuta de um único líder, não tinha ninguém que minimamente desempenhasse o papel antes exercido por Brizola, nem mecanismos de decisão internos democráticos que o substituíssem. Os partidos comunistas, que ganharam identidade própria apenas após o governo José Sarney, quando foram legalizados, também sobreviveram na órbita de partidos maiores - o PCdoB ganhou representação parlamentar às custas de alianças proporcionais com o PT; o PCB, depois PPS, agora mantém essa equação com o PSDB, embora tenha feito, no passado, algumas alianças com o PT.
O quadro partidário pós-Lula já é um segundo momento daquele formado pós-79, no final da ditadura. Os partidos que se consolidaram e polarizam na política nacional, o PT e o PSDB, vivem crises de identidade - o primeiro, por ser governo; o segundo, por estar a tanto tempo fora do poder federal. Os pequenos partidos de esquerda, alguns perderam as lideranças que lhe davam rumo e outros, a organicidade dada por ideologias que entraram em crise no mundo e projetos de poder que foram assumidos pelo partido que exerceu a hegemonia sobre o bloco nas últimas décadas, o PT. A direita ideológica, em especial o DEM, montou uma estrutura partidária baseada em chefes políticos locais, e eles perderam espaço nas regiões mais pobres durante o governo Lula. Os líderes regionais não estão conseguindo se reaproximar dos velhos redutos - daí a tentativa de Kassab de driblar a lei para se encontrar, mais na frente, com um partido a sua esquerda, o PSB, e por meio dele compor a base do governo federal.
É um quadro que, por exaustão de algumas fórmulas tradicionais de organização partidária, tende a ser menos pulverizado. E vai ser concentrado rapidamente quando for proibida a coligação nas eleições proporcionais. Exceto o PSB, por pragmatismo de Campos, os demais partidos de esquerda dependem da coligação proporcional para sobreviver.
Da mesma forma, os pequenos partidos de direita aliados ao governo terão dificuldade de manter suas bancadas. Os médios e pequenos partidos de direita que se apoiam no PSDB estão com o mesmo problema. Já foram praticamente desalojados pela derrota do candidato José Serra à Presidência. E têm dificuldades de sobreviver fora do poder. A aproximação deles ao governo era previsível. Ainda assim, se a coligação proporcional for proibida, não há governo que os salve.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política.
FONTE: VALOR ECONÔMICO
Este é o segundo momento do quadro partidário brasileiro. O primeiro começou em 1979, quando a ditadura acabou com o bipartidarismo criado pelo Ato Institucional nº 2, de 1966, que extinguiu o quadro partidário anterior. A implosão da esquerda peemedebista, de um lado, em vários partidos; o esvaziamento eleitoral do PDS, legenda de apoio à ditadura, e a tentativa de formar "linhas auxiliares" de um governo ainda militar, de outro, definiram um quadro partidário com tendência à pulverização, tanto à esquerda como à direita.
O PMDB, esvaziado à esquerda, manteve sua centralidade política como herdeiro da oposição institucional ao regime durante algum tempo, quando boa parte do chamado grupo autêntico, que botou a cara para bater e correu riscos inclusive físicos de se opor à ditadura, migrava para outras legendas sem levar junto o prestígio do antigo partido.
Enquanto o centro oposicionista defendia manter a unidade em torno do PMDB, a esquerda, exceto os partidos comunistas, que ainda não haviam sido legalizados, procurou novos rumos. Vindos do exílio, Leonel Brizola e Miguel Arraes reuniram partidários e procuraram consolidar territórios próprios - Brizola, como herdeiro do velho petebismo, perdeu a legenda do PTB devido a manobras legais do regime e fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT); Arraes, sem conseguir ganhar espaço dentro do PMDB, sua primeira escolha partidária, acabou tomando o PSB. PDT e PSB nasceram em torno de lideranças carismáticas e viveram sob o controle absoluto de Brizola e Arraes. O PT, que vinha da experiência do movimento sindical dos anos 80 e atraiu grupos da esquerda mais radical e os movimentos de base da igreja progressista, teve uma origem menos personalista.
O ex-governador de Pernambuco fez um herdeiro, o atual governador Eduardo Campos. Ele toca o PSB ao estilo do avô. Quando Brizola morreu, sem ter deixado sucessores naturais - embora vários de seus netos estejam na política -, jogou o PDT numa profunda crise. O brizolismo é uma opção política em extinção; o PDT, um partido sem rumo.
O PSB, todavia, foi levado pelo pragmatismo do avô Miguel Arraes, e agora pelo neto Eduardo Campos. Arraes manteve suas pretensões políticas dentro dos limites de Pernambuco e fez acordos para ampliar o partido em outros Estados. Manteve uma equação política de absoluta hegemonia na política pernambucana, quebrada pouco antes de sua morte por desgastes acumulados em sucessivos períodos no governo; e controle total sobre as seções estaduais, que manipulava de acordo com os seus interesses regionais e nacionais. Alianças reiteradas nas eleições proporcionais com o PT mantiveram o partido dentro dos limites mínimos de representação exigidos pela lei, depois derrubados pelo Supremo Tribunal Federal. Arraes atraiu, em São Paulo, a ex-prefeita Luiza Erundina, quando ela rachou com o seu partido de origem, o PT; na Bahia, levou um núcleo que sempre atuou junto ao PCdoB e que girava em torno da ex-prefeita Lídice da Mata. Erundina e Lídice mantiveram-se no PSB por absoluta falta de opção, mas tinham discordâncias acentuadas quanto à forma de condução do partido por Arraes. Voltam a entrar na linha de confronto com as articulações de Eduardo Campos para cooptação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, hoje no DEM. Não é uma adesão confortável para quadros efetivamente socialistas do partido.
O pragmatismo do neto de Arraes tem mantido o partido em crescimento, embora sob constante crise de identidade. O PDT, acostumado a funcionar sob a batuta de um único líder, não tinha ninguém que minimamente desempenhasse o papel antes exercido por Brizola, nem mecanismos de decisão internos democráticos que o substituíssem. Os partidos comunistas, que ganharam identidade própria apenas após o governo José Sarney, quando foram legalizados, também sobreviveram na órbita de partidos maiores - o PCdoB ganhou representação parlamentar às custas de alianças proporcionais com o PT; o PCB, depois PPS, agora mantém essa equação com o PSDB, embora tenha feito, no passado, algumas alianças com o PT.
O quadro partidário pós-Lula já é um segundo momento daquele formado pós-79, no final da ditadura. Os partidos que se consolidaram e polarizam na política nacional, o PT e o PSDB, vivem crises de identidade - o primeiro, por ser governo; o segundo, por estar a tanto tempo fora do poder federal. Os pequenos partidos de esquerda, alguns perderam as lideranças que lhe davam rumo e outros, a organicidade dada por ideologias que entraram em crise no mundo e projetos de poder que foram assumidos pelo partido que exerceu a hegemonia sobre o bloco nas últimas décadas, o PT. A direita ideológica, em especial o DEM, montou uma estrutura partidária baseada em chefes políticos locais, e eles perderam espaço nas regiões mais pobres durante o governo Lula. Os líderes regionais não estão conseguindo se reaproximar dos velhos redutos - daí a tentativa de Kassab de driblar a lei para se encontrar, mais na frente, com um partido a sua esquerda, o PSB, e por meio dele compor a base do governo federal.
É um quadro que, por exaustão de algumas fórmulas tradicionais de organização partidária, tende a ser menos pulverizado. E vai ser concentrado rapidamente quando for proibida a coligação nas eleições proporcionais. Exceto o PSB, por pragmatismo de Campos, os demais partidos de esquerda dependem da coligação proporcional para sobreviver.
Da mesma forma, os pequenos partidos de direita aliados ao governo terão dificuldade de manter suas bancadas. Os médios e pequenos partidos de direita que se apoiam no PSDB estão com o mesmo problema. Já foram praticamente desalojados pela derrota do candidato José Serra à Presidência. E têm dificuldades de sobreviver fora do poder. A aproximação deles ao governo era previsível. Ainda assim, se a coligação proporcional for proibida, não há governo que os salve.
Maria Inês Nassif é repórter especial de Política.
FONTE: VALOR ECONÔMICO
MELÔ DO VACCAREZA - VOCÊ PENSA QUE CACHAÇA É ÁGUA
Uma homenagem ao deputado Cândido Vaccarezza que, motivado pelo clima de carnaval, andou confundindo (misturando) cachaça e água. Ou, quem sabe, lembrando suas passagens pelas festas do DCE no antigo Anchietinha (quando ainda tinha cabelos encaracolados sobre os ombros) e onde se bebia muita cerveja e cachaça.
quarta-feira, 2 de março de 2011
GLAUCO ARBIX (Presidente da Finep/entrevista)
Patentear a esmo não ajuda inovação na universidade
NOVO PRESIDENTE DA FINEP DIZ QUE FALTA VISÃO ESTRATÉGICA NAS TENTATIVAS DE ESTIMULAR EMPREENDEDORISMO DE CIENTISTAS NO BRASIL
http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1335616224005486732
SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO
Quem estiver perto do sociólogo Glauco Arbix vai ouvir com frequência a música tema de "Indiana Jones", personalizada como toque de seu telefone celular.
Desde que ele assumiu a presidência da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), as ligações não param. "Sua demanda é legítima, mas não é comigo que você deve tratar disso", argumentava Arbix ao celular quando recebeu a Folha.
A Finep é hoje uma das principais engrenagens do motor da inovação brasileira, embora as tentativas de transformar ciência em tecnologias lucrativas ainda engasguem em boa parte das grandes empresas do país.
No ano passado, o órgão desembolsou R$ 3,3 bilhões entre créditos e subvenções (valor não reembolsável para empresas fazerem pesquisa).
Em 2011, mesmo com contigenciamentos, o orçamento deve chegar a R$ 4 bilhões. O sociólogo entrou em cena para transformar a instituição numa espécie de "banco da inovação", num contexto em que empresários estão começando a inovar. "Não é a universidade que deve ter patentes", diz. Acompanhe a entrevista.
Folha - Como surgiu o convite do ministro Aloizio Mercadante [Ciência e Tecnologia] para a Finep?
Glauco Arbix - Eu tenho contato com ele há muitos anos. Também fui presidente do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] no primeiro mandato do presidente Lula [2003 a 2006]. O Aloizio era líder do governo no Senado e o Ipea fazia uma série de previsões para o governo. Mas eu não pensava em voltar a Brasília depois da experiência do Ipea...
O que aconteceu na sua experiência no Ipea?
Bom, eu era presidente e coordenador do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Isso me deu uma posição privilegiada -para o bem e para o mal. Quando você está dentro das entranhas do monstro, sabe como ele funciona.
A experiência de governo é muito absorvente e você não tem tempo de ler nem telegrama de casamento. Eu estava afastado do meio acadêmico e quis voltar.
Estar à frente de uma instituição muito tempo não é bom. Ela te molda e você molda a instituição. É preciso sacudir as instituições com a mudança de gestão.
O que o sr. poderia apontar como problemático na maneira como a Finep funciona?
Existe um problema institucional que é desenhar a Finep como uma instituição financeira. A Finep é uma instituição financeira, mas não é acompanhada e supervisionada pelo Banco Central.
Isso significa que os processos que a Finep tem nem sempre estão adequados às regras definidas pelo marco regulatório financeiro.
Há um mundo enorme: contabilidade, gestão de risco, áreas críticas, montagem da carteira. Esse é um problema, ou seja, como conceber a Finep como uma instituição financeira "especial"?
Ela não é um banco, e não adianta falar que ela será simplesmente um "banco de inovação". Ela não será um banco qualquer. Sem a Finep hoje a universidade brasileira acaba se esfarelando em minutos. Foram cerca de R$ 2 bilhões para as universidades do país em 2010.
Estamos estabelecendo uma relação com as empresas que nunca tivemos no Brasil. Os países avançados fazem isso há muito tempo. Os instrumentos são desenvolvidos a partir de modelos dos Estados Unidos.
O modelo de inovação dos EUA funciona plenamente?
Não. É um modelo que eu conheço bem. No semestre passado eu passei o segundo semestre dando aula no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachussets]. Eles têm problemas muito semelhantes, como o preconceito da indústria, que diz que a academia fica "voando".
Em todo lugar existe isso. O MIT é de 1861, nasceu com esse espírito e ainda enfrenta problemas gigantescos: coisas como controle do tempo da pesquisa, agenda, resultados. Institucionalmente falando, universidade e empresa não casam porque têm uma temporalidade diferente. A empresa é geradora e a universidade é gastadora.
Mas essa aproximação não seria papel das agências de inovação das universidades?
Eu acompanhei as agências de inovação do MIT. Mas as nossas são muito centradas na ideia de aproveitar o conhecimento da universidade para desenvolver patentes [de produtos inovadores.] Ajudam o professor a desenvolver patentes e, eventualmente, licenciar -o que nem sempre é muito claro, já que para licenciar é preciso ter análise comercial.
Não basta fazer patente para currículo. No MIT a análise da patente está próxima da análise de comercialização. A agências de inovação aqui parecem mais um "despachante inteligente", que está atrás de ideias. Os americanos começaram a estimular o processo patentário. Isso se espalhou pelo mundo todo e está chegando aqui.
Está mesmo chegando?
Acho que sim. As empresas brasileiras estão atentando para isso. O lugar para gerar patentes é nas empresas e não nas universidades. Estou em contato com uma empresa chinesa chamada Foxconn, que tem 37 mil patentes. É uma máquina de fazer patentes, e ela foi criada para isso. Entrar numa política dessas significa dar um valor à inovação para convencer o financeiro. Não basta só olhar o vizinho. Mas as empresas precisam ter isso internalizado.
E a China está dando um banho no Brasil nessa área?
A China está avançando muito, mas conta com "facilidades" que a gente não tem porque aqui vivemos numa democracia. Eu visitei Pequim duas vezes e, entre uma vez e outra, havia um anel viário novo na cidade. Não se constrói um anel viário em São Paulo nessa velocidade. Aqui você tem de convencer.
O empresariado brasileiro está acordando, mas o debate sobre inovação no Brasil ainda é levantado pelo poder público. Surgiram as leis de inovação, os incentivos fiscais. Sem isso não dá pra fazer inovação no Brasil. Inovação é muito caro, existe um custo de transição, você demora. A economia brasileira inova pouco e não é ligada à inovação. Esses são dois grandes gargalos.
As empresas brasileiras sabem como inovar?
Os empresários devem entender que inovação se faz com pessoas. Tecnologia é resultado de gente.
Hoje, na esmagadora maioria das empresas, salário continua sendo visto como custo. Mas não se inova, remodela e repensa um processo se o pessoal não receber bem. É preciso fazer inovação a partir de pessoas que ganham bem.
E elas têm de ganhar bem porque têm de ler, falar inglês, ter vida cultural ativa para ter um fluxo de ideias. Elas têm de funcionar como uma espécie de "antena" que capta informações. A verdadeira herança maldita do Brasil é achar que não se deve investir nas pessoas.
RAIO X
GLAUCO ARBIX
IDADE
59 anos (nascido em Americana, São Paulo)
PROFISSÃO
Sociólogo e professor livre-docente da USP
CARREIRA
Foi presidente do Ipea e coordenador geral do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2003-2006). Já foi professor da Unicamp e da FGV
frases
"Institucionalmente, universidade e empresa não casam [não fazem pesquisa juntos com facilidade] porque têm uma temporalidade bastante diferente. A empresa é geradora e a universidade, por sua vez, é gastadora"
GLAUCO ARBIX
Presidente da Finep
"Existe um problema que é desenhar a Finep como uma instituição financeira. A Finep não é acompanhada e supervisionada pelo Banco Central. Os processos nem sempre estão adequados às regras financeiras"
GLAUCO ARBIX
Presidente da Finep
ANÁLISE
Patentes podem provocar efeito inverso e limitar as inovações
HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA
Cuidado com o que você deseja. Patentes foram concebidas para estimular a inovação, mas há situações em que o tiro sai pela culatra, e a exclusividade de direitos bloqueia o processo inventivo. O fenômeno tem até nome: "a tragédia dos anticomuns".
O termo foi forjado pelo professor de direito Michael Heller. Num artigo para a "Science", em 1998, Heller mostrou que em algumas circunstâncias os mecanismos de mercado fracassam, e o resultado é ruim para todos.
"Tragédia dos comuns" é a metáfora do biólogo Garrett Hardin para explicar situações em que vários indivíduos, agindo racionalmente, exaurem recursos comuns limitados, pois nenhum dos coproprietários pode bloquear a ação dos demais.
Já a "tragédia dos anticomuns" é o movimento-espelho: como vários proprietários podem limitar o acesso dos demais ao bem, ele é subutilizado, ainda que isso não interesse a ninguém.
Um exemplo é a pesquisa biomédica. A fim de desenvolver novas tecnologias, nos anos 1980 o governo dos EUA incentivou universidades a patentear o que pudessem, mesmo que a pesquisa tivesse verbas públicas e não resultasse em produtos finais. Até trechos de genes foram patenteados.
Isso acabou criando feudos sobrepostos. Se um cientista quer desenvolver uma nova droga ligada ao gene patenteado, precisará negociar com o detentor da patente. Como uma pesquisa típica envolve até centenas dessas negociações, o trabalho é grande e o preço pode ser proibitivo. Muitos preferem nem tentar ou restringem os esforços a áreas menos minadas, que são as de menor interesse para a sociedade.
NOVO PRESIDENTE DA FINEP DIZ QUE FALTA VISÃO ESTRATÉGICA NAS TENTATIVAS DE ESTIMULAR EMPREENDEDORISMO DE CIENTISTAS NO BRASIL
http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1335616224005486732
SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO
Quem estiver perto do sociólogo Glauco Arbix vai ouvir com frequência a música tema de "Indiana Jones", personalizada como toque de seu telefone celular.
Desde que ele assumiu a presidência da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), as ligações não param. "Sua demanda é legítima, mas não é comigo que você deve tratar disso", argumentava Arbix ao celular quando recebeu a Folha.
A Finep é hoje uma das principais engrenagens do motor da inovação brasileira, embora as tentativas de transformar ciência em tecnologias lucrativas ainda engasguem em boa parte das grandes empresas do país.
No ano passado, o órgão desembolsou R$ 3,3 bilhões entre créditos e subvenções (valor não reembolsável para empresas fazerem pesquisa).
Em 2011, mesmo com contigenciamentos, o orçamento deve chegar a R$ 4 bilhões. O sociólogo entrou em cena para transformar a instituição numa espécie de "banco da inovação", num contexto em que empresários estão começando a inovar. "Não é a universidade que deve ter patentes", diz. Acompanhe a entrevista.
Folha - Como surgiu o convite do ministro Aloizio Mercadante [Ciência e Tecnologia] para a Finep?
Glauco Arbix - Eu tenho contato com ele há muitos anos. Também fui presidente do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] no primeiro mandato do presidente Lula [2003 a 2006]. O Aloizio era líder do governo no Senado e o Ipea fazia uma série de previsões para o governo. Mas eu não pensava em voltar a Brasília depois da experiência do Ipea...
O que aconteceu na sua experiência no Ipea?
Bom, eu era presidente e coordenador do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Isso me deu uma posição privilegiada -para o bem e para o mal. Quando você está dentro das entranhas do monstro, sabe como ele funciona.
A experiência de governo é muito absorvente e você não tem tempo de ler nem telegrama de casamento. Eu estava afastado do meio acadêmico e quis voltar.
Estar à frente de uma instituição muito tempo não é bom. Ela te molda e você molda a instituição. É preciso sacudir as instituições com a mudança de gestão.
O que o sr. poderia apontar como problemático na maneira como a Finep funciona?
Existe um problema institucional que é desenhar a Finep como uma instituição financeira. A Finep é uma instituição financeira, mas não é acompanhada e supervisionada pelo Banco Central.
Isso significa que os processos que a Finep tem nem sempre estão adequados às regras definidas pelo marco regulatório financeiro.
Há um mundo enorme: contabilidade, gestão de risco, áreas críticas, montagem da carteira. Esse é um problema, ou seja, como conceber a Finep como uma instituição financeira "especial"?
Ela não é um banco, e não adianta falar que ela será simplesmente um "banco de inovação". Ela não será um banco qualquer. Sem a Finep hoje a universidade brasileira acaba se esfarelando em minutos. Foram cerca de R$ 2 bilhões para as universidades do país em 2010.
Estamos estabelecendo uma relação com as empresas que nunca tivemos no Brasil. Os países avançados fazem isso há muito tempo. Os instrumentos são desenvolvidos a partir de modelos dos Estados Unidos.
O modelo de inovação dos EUA funciona plenamente?
Não. É um modelo que eu conheço bem. No semestre passado eu passei o segundo semestre dando aula no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachussets]. Eles têm problemas muito semelhantes, como o preconceito da indústria, que diz que a academia fica "voando".
Em todo lugar existe isso. O MIT é de 1861, nasceu com esse espírito e ainda enfrenta problemas gigantescos: coisas como controle do tempo da pesquisa, agenda, resultados. Institucionalmente falando, universidade e empresa não casam porque têm uma temporalidade diferente. A empresa é geradora e a universidade é gastadora.
Mas essa aproximação não seria papel das agências de inovação das universidades?
Eu acompanhei as agências de inovação do MIT. Mas as nossas são muito centradas na ideia de aproveitar o conhecimento da universidade para desenvolver patentes [de produtos inovadores.] Ajudam o professor a desenvolver patentes e, eventualmente, licenciar -o que nem sempre é muito claro, já que para licenciar é preciso ter análise comercial.
Não basta fazer patente para currículo. No MIT a análise da patente está próxima da análise de comercialização. A agências de inovação aqui parecem mais um "despachante inteligente", que está atrás de ideias. Os americanos começaram a estimular o processo patentário. Isso se espalhou pelo mundo todo e está chegando aqui.
Está mesmo chegando?
Acho que sim. As empresas brasileiras estão atentando para isso. O lugar para gerar patentes é nas empresas e não nas universidades. Estou em contato com uma empresa chinesa chamada Foxconn, que tem 37 mil patentes. É uma máquina de fazer patentes, e ela foi criada para isso. Entrar numa política dessas significa dar um valor à inovação para convencer o financeiro. Não basta só olhar o vizinho. Mas as empresas precisam ter isso internalizado.
E a China está dando um banho no Brasil nessa área?
A China está avançando muito, mas conta com "facilidades" que a gente não tem porque aqui vivemos numa democracia. Eu visitei Pequim duas vezes e, entre uma vez e outra, havia um anel viário novo na cidade. Não se constrói um anel viário em São Paulo nessa velocidade. Aqui você tem de convencer.
O empresariado brasileiro está acordando, mas o debate sobre inovação no Brasil ainda é levantado pelo poder público. Surgiram as leis de inovação, os incentivos fiscais. Sem isso não dá pra fazer inovação no Brasil. Inovação é muito caro, existe um custo de transição, você demora. A economia brasileira inova pouco e não é ligada à inovação. Esses são dois grandes gargalos.
As empresas brasileiras sabem como inovar?
Os empresários devem entender que inovação se faz com pessoas. Tecnologia é resultado de gente.
Hoje, na esmagadora maioria das empresas, salário continua sendo visto como custo. Mas não se inova, remodela e repensa um processo se o pessoal não receber bem. É preciso fazer inovação a partir de pessoas que ganham bem.
E elas têm de ganhar bem porque têm de ler, falar inglês, ter vida cultural ativa para ter um fluxo de ideias. Elas têm de funcionar como uma espécie de "antena" que capta informações. A verdadeira herança maldita do Brasil é achar que não se deve investir nas pessoas.
RAIO X
GLAUCO ARBIX
IDADE
59 anos (nascido em Americana, São Paulo)
PROFISSÃO
Sociólogo e professor livre-docente da USP
CARREIRA
Foi presidente do Ipea e coordenador geral do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2003-2006). Já foi professor da Unicamp e da FGV
frases
"Institucionalmente, universidade e empresa não casam [não fazem pesquisa juntos com facilidade] porque têm uma temporalidade bastante diferente. A empresa é geradora e a universidade, por sua vez, é gastadora"
GLAUCO ARBIX
Presidente da Finep
"Existe um problema que é desenhar a Finep como uma instituição financeira. A Finep não é acompanhada e supervisionada pelo Banco Central. Os processos nem sempre estão adequados às regras financeiras"
GLAUCO ARBIX
Presidente da Finep
ANÁLISE
Patentes podem provocar efeito inverso e limitar as inovações
HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA
Cuidado com o que você deseja. Patentes foram concebidas para estimular a inovação, mas há situações em que o tiro sai pela culatra, e a exclusividade de direitos bloqueia o processo inventivo. O fenômeno tem até nome: "a tragédia dos anticomuns".
O termo foi forjado pelo professor de direito Michael Heller. Num artigo para a "Science", em 1998, Heller mostrou que em algumas circunstâncias os mecanismos de mercado fracassam, e o resultado é ruim para todos.
"Tragédia dos comuns" é a metáfora do biólogo Garrett Hardin para explicar situações em que vários indivíduos, agindo racionalmente, exaurem recursos comuns limitados, pois nenhum dos coproprietários pode bloquear a ação dos demais.
Já a "tragédia dos anticomuns" é o movimento-espelho: como vários proprietários podem limitar o acesso dos demais ao bem, ele é subutilizado, ainda que isso não interesse a ninguém.
Um exemplo é a pesquisa biomédica. A fim de desenvolver novas tecnologias, nos anos 1980 o governo dos EUA incentivou universidades a patentear o que pudessem, mesmo que a pesquisa tivesse verbas públicas e não resultasse em produtos finais. Até trechos de genes foram patenteados.
Isso acabou criando feudos sobrepostos. Se um cientista quer desenvolver uma nova droga ligada ao gene patenteado, precisará negociar com o detentor da patente. Como uma pesquisa típica envolve até centenas dessas negociações, o trabalho é grande e o preço pode ser proibitivo. Muitos preferem nem tentar ou restringem os esforços a áreas menos minadas, que são as de menor interesse para a sociedade.
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