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De rui.barbosa@edu para dilma@gov
Estimada presidenta,
O que a senhora quer fazer com a Casa de Rui, nome dado hoje ao que foi a Vila Maria Augusta, onde vivi de 1895 a 1923, é um caso de filhotismo republicano. Daqui, sei de tudo. O professor Emir Sader pleiteava o Ministério da Cultura. Perdido para D. Ana de Hollanda, acomodoram-no na ubre desse animal multimâmio que ora se chama governo. Coube-lhe a direção da Casa que leva meu nome e cuida tanto de uma humilde memória, como do nosso idioma. Essa não foi a primeira escolha da ministra, nem escolha dela foi.
Eu nada poderia dizer de Sader, pois assim como pouco deve saber a meu respeito, pouco sei dele. Numa entrevista, o professor anunciou o propósito de transformar a Casa de Rui num centro de debates. Consiga um exemplar do livro "Rui Barbosa em perspectiva", de Rejane de Almeida Magalhães e Marta de Senna, e a senhora verá como sacudi este Brasil fazendo conferências. Aceitei convite até do Abrigo dos Filhos do Povo, na Bahia.
Debates fazem bem ao país e está aqui o Raymundo Faoro dizendo-me que nossa última restauração democrática deveu mais ao Café-Teatro Casa Grande, no Leblon, do que à Casa de Rui.
Creio que ele tem razão. Cada coisa no seu lugar. Não é próprio querer transformar um café-teatro num centro de pesquisas, nem um centro de pesquisas em café-teatro. A Casa de Rui conserva minhas roseiras, meus 35 mil livros e outros 100 mil que foram acrescentados à biblioteca. Guarda acervos preciosos, como o do Plínio Doyle e o de Afonso Arinos, que ainda não foi catalogado. Chamemo-la torre de marfim. Que o seja. Essa instituição custou R$28 milhões no ano passado e tem 184 servidores (87 dos quais terceirizados). Ela prepara a edição das crônicas de Carlos Drummond de Andrade, cuida da minha obra e atualiza o vocabulário de português medieval, trabalho internacionalmente reconhecido. Ademais, estimula a pesquisa literária e, neste ano, ampara 18 monografias. No dia 15 discutiremos um livro que trata das palavras usadas para designar as moradas das gentes, coisas como bairro, condomínio, apartamento, comunidade ou periferia.
É esse patrimônio que corre risco numa reciclagem para café-teatro.
Debates, fazem-se em espaços públicos. Pesquisas, em centros de estudo.
Aviso-lhe que um terço do quadro de pesquisadores da Casa poderá se aposentar. Balance o arbusto e lá se irão as flores.
Em 2007, a Casa organizou um seminário sobre o filósofo francês Jean-Paul Sartre e convidou o professor Fernando Henrique Cardoso que, ainda jovem, o acompanhou na visita que fez a Araraquara. O ex-presidente não pôde comparecer, mas enviou o texto de sua palestra. Houve um protesto contra o convite. De quem? Do professor Sader.
Ele diz que pretende levar para a Casa a discussão do "Brasil para todos".
Meu receio é que esse Brasil seja o dele, ou, quem sabe, o vosso. A instituição que funciona no que foi a Vila de minha amada Maria Augusta pode ser de valia para estudarmos a obra de Clarice Lispector ou a correspondência de João Cabral de Melo Neto. Sua utilidade para "pensar os limites, as contradições e os potenciais" do aparelho teórico do poder de hoje é apenas física, imobiliária. Na magnífica construção do deputado Romário, peço-lhe: "Inclua-me fora dessa."
Do seu patrício
Rui
quarta-feira, 2 de março de 2011
Síndrome de abstinência (Rosângela Bittar)
ROSANGELA%2BBITTAR%2B2.jpg
Ex é ex, não tem mais o poder e, portanto, o mando e as atenções, obediência e vassalagem dos áulicos. Uma situação de doídos sentimentos. Condição que embute consideráveis dramas existenciais, até para quem, sendo forte, consegue reinventar a vida com rapidez. Não são necessárias novas provações, o ex é, por definição, um sofredor. Se é ex-presidente da República, sente mais, rodopia na vertigem de profunda e vertical passagem do Planalto à Planície.
A presidente Dilma Rousseff foi inventada por Luiz Inácio Lula da Silva. Seu governo também, já foi apelidado de Lula 3 no nascedouro. As pessoas que com ela trabalham, guardadas as exceções de praxe, ela as conheceu como colegas nos oito anos anteriores, com Lula. Sua campanha eleitoral se deu em torno da continuidade, seus votos são os de Lula. Engoliu ministros de áreas fundamentais para as quais tinha ideias e candidatos próprios para não faltar a um gesto de cortesia e deferência com o criador.
Tudo posto antes e em tudo o que se dizia no governo e na campanha. Lula não interferiria indevidamente no dia a dia da administração, deixaria Dilma governar e, se ela estivesse bem avaliada, dentro de quatro anos poderia pleitear reeleição, se não, ele voltaria. Deixou pré-postos em cargos chave, certamente por diferentes razões, criando constrangimentos e desequilíbrio na ação de ministros que estão vivendo a circunstância de desfazer seu próprio feito. E essa ambiguidade os alucina.
Eis que o governo Dilma começa e, com apenas dois meses, o ex-presidente já se inquieta. Lula se sente incomodado, e queixa-se a amigos, por mudanças que ocorreriam apesar da política de continuidade. Os mensageiros dos recados do ex têm importância suficiente para que Dilma saiba que está falando sério.
Desagradou o ex-presidente o Palácio do Planalto ter cassado o passe livre do lobista José Carlos Bumlai. Criador de gado no Mato Grosso do Sul, Lula gravou programa eleitoral na sua fazenda, em 2002, e ficaram amigos. Na crise do mensalão, Lula, isolado no palácio, passou a temer impeachment. Bumlai, solidário, ficou uma semana a seu lado: ganhou autorização para entrar e sair dos palácios presidenciais quando e quantas vezes quisesse, sem ser importunado com perguntas pelos seguranças ou responsáveis pelas agendas.
Bumlai teve que se enquadrar agora às regras gerais. Antes que o caso estourasse nos jornais, Dilma mandou cancelar o passe livre, avisou os funcionários que não queria deferências ou privilégios e que qualquer um poderia ser recebidos no Planalto, desde que marcasse audiência.
O amigo de Lula teve amplo acesso ao Planalto e atuação em missões importantes, inclusive a intermediação de negócios, como o de montar um consórcio de empresas para disputar o leilão da hidrelétrica de Belo Monte. Lula ficou agastado com a atitude de Dilma mas Bumlai continua sem passe livre.
Outro assunto que está deixando o ex-presidente irritadíssimo é o silêncio da Presidência sobre uma ação de improbidade proposta pelo Ministério Público do Distrito Federal contra ele e o ex-senador e ex-ministro Amir Lando. Quando Lando era ministro da Previdência, foram feitas cartas para segurados do INSS informando sobre a possibilidade de eles fazerem empréstimos consignados. Segundo a ação, só um banco, à época, oferecia esse tipo de empréstimo.
Lula enviou o caso à Presidência perguntando se sua defesa poderia ser assumida pela Advocacia Geral da União, e não obteve resposta. A AGU pode e deve defender o ex-presidente, como defende todos os ex que pedirem ajuda, em infrações ocorridas no período do exercício de seu mandato. Mas a agilidade não está correspondendo à aflição do ex.
As nuances da política externa delineada nesses dois meses de governo Dilma são outro fator de desgaste emocional do ex-presidente. Nesse caso, sobra também para o ministro Antonio Patriota, das Relações Exteriores, com quem Lula conversou bastante no seu período de governo, dado que ele era o segundo do chanceler Celso Amorim e este viajava muito. Lula, portanto, considera-o ainda um funcionário seu.
Até o nome do chanceler tem provocado arrepios no ex-presidente: "De Patriota ele não tem nada". Tudo por causa da mudança nas relações da presidente com as ditaduras, cuja ação de desrespeito aos direitos humanos tem rechaçado.
Lula acha que não merece críticas por ter vivido por aí abraçado ditadores iranianos, líbios, egípcios, como as mudanças do governo Dilma querem fazer crer. Acha que agiu seguindo uma política externa pragmática tendo em vista os interesses comerciais do Brasil. Nesta questão não vai ter muito jeito: Dilma pensa e manda fazer diferente.
Também os gestos mais amenos de Dilma com relação aos EUA, e uma certa descompressão nas relações entre os dois países logo após a saída do ex-chanceler Celso Amorim do governo, são outros efeitos da nova política externa que estão incomodando.
Mortificado também ficou o ex-presidente com o anúncio do corte de R$ 50 bilhões no orçamento de 2011, inclusive no PAC, e disse a amigos que isto representa um tiro na sua gestão. Acha, e diz, que fez tudo certo, e com as correções de rumo o governo está dando a impressão de que fez tudo errado. Um rápido parênteses: foi seu fidelíssimo chefe de gabinete, amigo, escudeiro e atual ministro do núcleo duro do governo Dilma, Gilberto Carvalho, quem definiu bem a razão do corte que incomodou o ex-presidente: "Todo mundo sabe que em 2009 e 2010 nós enfiamos o pé no acelerador para sair da crise. Desoneramos, estimulamos, fizemos concessões de toda sorte, e 2011 se afigura como um ano em que você precisa controlar", disse aos repórteres Cristiano Romero e Paulo de Tarso Lyra, em entrevista ao Valor.
Têm nome, sobrenome e endereço os vilões desse início de degeneração das relações de Lula com o governo Dilma, mas não há muita saída. O ex jamais se conformará com qualquer coisa que faça seu sucessor, e este quer também, por que não, entrar para a história. O governo mudou em primeiro de janeiro de 2011, e Dilma está fazendo o seu.
Rosângela Bittar
FONTE: VALOR ECONÔMIC
Ex é ex, não tem mais o poder e, portanto, o mando e as atenções, obediência e vassalagem dos áulicos. Uma situação de doídos sentimentos. Condição que embute consideráveis dramas existenciais, até para quem, sendo forte, consegue reinventar a vida com rapidez. Não são necessárias novas provações, o ex é, por definição, um sofredor. Se é ex-presidente da República, sente mais, rodopia na vertigem de profunda e vertical passagem do Planalto à Planície.
A presidente Dilma Rousseff foi inventada por Luiz Inácio Lula da Silva. Seu governo também, já foi apelidado de Lula 3 no nascedouro. As pessoas que com ela trabalham, guardadas as exceções de praxe, ela as conheceu como colegas nos oito anos anteriores, com Lula. Sua campanha eleitoral se deu em torno da continuidade, seus votos são os de Lula. Engoliu ministros de áreas fundamentais para as quais tinha ideias e candidatos próprios para não faltar a um gesto de cortesia e deferência com o criador.
Tudo posto antes e em tudo o que se dizia no governo e na campanha. Lula não interferiria indevidamente no dia a dia da administração, deixaria Dilma governar e, se ela estivesse bem avaliada, dentro de quatro anos poderia pleitear reeleição, se não, ele voltaria. Deixou pré-postos em cargos chave, certamente por diferentes razões, criando constrangimentos e desequilíbrio na ação de ministros que estão vivendo a circunstância de desfazer seu próprio feito. E essa ambiguidade os alucina.
Eis que o governo Dilma começa e, com apenas dois meses, o ex-presidente já se inquieta. Lula se sente incomodado, e queixa-se a amigos, por mudanças que ocorreriam apesar da política de continuidade. Os mensageiros dos recados do ex têm importância suficiente para que Dilma saiba que está falando sério.
Desagradou o ex-presidente o Palácio do Planalto ter cassado o passe livre do lobista José Carlos Bumlai. Criador de gado no Mato Grosso do Sul, Lula gravou programa eleitoral na sua fazenda, em 2002, e ficaram amigos. Na crise do mensalão, Lula, isolado no palácio, passou a temer impeachment. Bumlai, solidário, ficou uma semana a seu lado: ganhou autorização para entrar e sair dos palácios presidenciais quando e quantas vezes quisesse, sem ser importunado com perguntas pelos seguranças ou responsáveis pelas agendas.
Bumlai teve que se enquadrar agora às regras gerais. Antes que o caso estourasse nos jornais, Dilma mandou cancelar o passe livre, avisou os funcionários que não queria deferências ou privilégios e que qualquer um poderia ser recebidos no Planalto, desde que marcasse audiência.
O amigo de Lula teve amplo acesso ao Planalto e atuação em missões importantes, inclusive a intermediação de negócios, como o de montar um consórcio de empresas para disputar o leilão da hidrelétrica de Belo Monte. Lula ficou agastado com a atitude de Dilma mas Bumlai continua sem passe livre.
Outro assunto que está deixando o ex-presidente irritadíssimo é o silêncio da Presidência sobre uma ação de improbidade proposta pelo Ministério Público do Distrito Federal contra ele e o ex-senador e ex-ministro Amir Lando. Quando Lando era ministro da Previdência, foram feitas cartas para segurados do INSS informando sobre a possibilidade de eles fazerem empréstimos consignados. Segundo a ação, só um banco, à época, oferecia esse tipo de empréstimo.
Lula enviou o caso à Presidência perguntando se sua defesa poderia ser assumida pela Advocacia Geral da União, e não obteve resposta. A AGU pode e deve defender o ex-presidente, como defende todos os ex que pedirem ajuda, em infrações ocorridas no período do exercício de seu mandato. Mas a agilidade não está correspondendo à aflição do ex.
As nuances da política externa delineada nesses dois meses de governo Dilma são outro fator de desgaste emocional do ex-presidente. Nesse caso, sobra também para o ministro Antonio Patriota, das Relações Exteriores, com quem Lula conversou bastante no seu período de governo, dado que ele era o segundo do chanceler Celso Amorim e este viajava muito. Lula, portanto, considera-o ainda um funcionário seu.
Até o nome do chanceler tem provocado arrepios no ex-presidente: "De Patriota ele não tem nada". Tudo por causa da mudança nas relações da presidente com as ditaduras, cuja ação de desrespeito aos direitos humanos tem rechaçado.
Lula acha que não merece críticas por ter vivido por aí abraçado ditadores iranianos, líbios, egípcios, como as mudanças do governo Dilma querem fazer crer. Acha que agiu seguindo uma política externa pragmática tendo em vista os interesses comerciais do Brasil. Nesta questão não vai ter muito jeito: Dilma pensa e manda fazer diferente.
Também os gestos mais amenos de Dilma com relação aos EUA, e uma certa descompressão nas relações entre os dois países logo após a saída do ex-chanceler Celso Amorim do governo, são outros efeitos da nova política externa que estão incomodando.
Mortificado também ficou o ex-presidente com o anúncio do corte de R$ 50 bilhões no orçamento de 2011, inclusive no PAC, e disse a amigos que isto representa um tiro na sua gestão. Acha, e diz, que fez tudo certo, e com as correções de rumo o governo está dando a impressão de que fez tudo errado. Um rápido parênteses: foi seu fidelíssimo chefe de gabinete, amigo, escudeiro e atual ministro do núcleo duro do governo Dilma, Gilberto Carvalho, quem definiu bem a razão do corte que incomodou o ex-presidente: "Todo mundo sabe que em 2009 e 2010 nós enfiamos o pé no acelerador para sair da crise. Desoneramos, estimulamos, fizemos concessões de toda sorte, e 2011 se afigura como um ano em que você precisa controlar", disse aos repórteres Cristiano Romero e Paulo de Tarso Lyra, em entrevista ao Valor.
Têm nome, sobrenome e endereço os vilões desse início de degeneração das relações de Lula com o governo Dilma, mas não há muita saída. O ex jamais se conformará com qualquer coisa que faça seu sucessor, e este quer também, por que não, entrar para a história. O governo mudou em primeiro de janeiro de 2011, e Dilma está fazendo o seu.
Rosângela Bittar
FONTE: VALOR ECONÔMIC
terça-feira, 1 de março de 2011
Sonho de um sonho*, por Tarcísio Bahia
Fim de férias! Tou de volta com os meus rabiscos para divertir e chatear uns e outros. Então vamos lá.
Apesar de todo o avanço da ciência, creio que ainda não foi possível comprovar que os animais, obviamente com exceção do homem, possam sonhar.
E o sonho é algo indispensável à plenitude da vida humana. Com ele somos capazes de restabelecermos o equilíbrio diante da realidade por meio do intangível. A mente precisa desse contraponto que lhe permite enxergar coisas no escuro, encontrar novos caminhos mesmo se nenhum deles leve a algum destino.
Charles Darwin demonstrou que todos os animais evoluem a partir de um processo de seleção natural dos espécimes mais fortes, e sua teoria não exclui o homem desse desenrolar histórico. No entanto, ao poder sonhar, o homem foi capaz de dar um salto muito além dos demais seres vivos. Como na famosa cena de 2001, Uma odisséia no espaço de Stanley Kubrick, baseado no livro de Arthur C. Clarke, quando um ancestral humano vendo um osso, o pega com a mão e o utiliza como uma ferramenta, como um bastão que lhe permitiu sobrepujar seu oponente.
Sonhar é imaginar, ou seja, ver uma imagem aonde não havia nada, “ver no escuro”, pensar em outras possibilidades além daquelas consagradas por instinto, que é o que fazem os animais incapazes de sonhar.
Kubrick identificou no osso letal o salto a partir do qual o homem sonhador, imaginador, pôde chegar ao futuro, ao espaço, a criar uma nova entidade capaz de sonhar como ele. E por trás, quer dizer paralelo a tudo, a música!** Não poderia ser diferente, afinal a música é o que melhor expressa a capacidade sonhadora do homem. Podemos “ver” beleza num canto de um pássaro, mas ele o faz por instinto, sempre tocando a mesma música, ao contrário de um ser humano, que no silêncio consegue sonhar uma nova melodia. Daí, em posse de um instrumento, ele verá como a harmonia e o ritmo, guiados pela imaginação, proporcionarão a transformação da realidade pois algo novo acaba de surgir para dar um outro sentido ao real.
Se no início sonhamos dormindo, logo aprendemos a sonhar acordados, e felizes são aqueles que conseguem acordar do sonho que se faz acordado.
Há também o risco de, ao entrarmos no mundo dos sonhos, não sermos capazes de sair de lá deliberadamente. A realidade passa então a ser guiada arbitrariamente, pois Morfeu passa a dominar a totalidade das nossas ações. Deixando de ser um agente criativo que consultamos eventualmente, o príncipe dos sonhos inverte os papéis, aprisionando-nos num mundo fantástico tanto quanto irreal.
Em tese, isso ocorre muito mais por descuido, dado o fascínio que Morfeu nos exerce. O sonho em vez de ser um ambiente para descansarmos da realidade ao mesmo tempo em que nos alimenta de ideias para enfrentá-la, passa a ser fuga, um destino desejado do qual não queremos mais regressar. E há quem de lá não retorna nunca mais.
* Esse é o título do samba do carnaval da Unidos de Vila Isabel em 1980, composto por Martinho da Vila, Rodolpho e Graúna.
** Kubrick usou eloquentemente na trilha sonora composições de Johann e Richard Strauss.
*** Não deu pra falar da tragédia das chuvas, daí resolvi fazer um desenho que remetesse o desastre com o tema do primeiro rabisco do ano.
Apesar de todo o avanço da ciência, creio que ainda não foi possível comprovar que os animais, obviamente com exceção do homem, possam sonhar.
E o sonho é algo indispensável à plenitude da vida humana. Com ele somos capazes de restabelecermos o equilíbrio diante da realidade por meio do intangível. A mente precisa desse contraponto que lhe permite enxergar coisas no escuro, encontrar novos caminhos mesmo se nenhum deles leve a algum destino.
Charles Darwin demonstrou que todos os animais evoluem a partir de um processo de seleção natural dos espécimes mais fortes, e sua teoria não exclui o homem desse desenrolar histórico. No entanto, ao poder sonhar, o homem foi capaz de dar um salto muito além dos demais seres vivos. Como na famosa cena de 2001, Uma odisséia no espaço de Stanley Kubrick, baseado no livro de Arthur C. Clarke, quando um ancestral humano vendo um osso, o pega com a mão e o utiliza como uma ferramenta, como um bastão que lhe permitiu sobrepujar seu oponente.
Sonhar é imaginar, ou seja, ver uma imagem aonde não havia nada, “ver no escuro”, pensar em outras possibilidades além daquelas consagradas por instinto, que é o que fazem os animais incapazes de sonhar.
Kubrick identificou no osso letal o salto a partir do qual o homem sonhador, imaginador, pôde chegar ao futuro, ao espaço, a criar uma nova entidade capaz de sonhar como ele. E por trás, quer dizer paralelo a tudo, a música!** Não poderia ser diferente, afinal a música é o que melhor expressa a capacidade sonhadora do homem. Podemos “ver” beleza num canto de um pássaro, mas ele o faz por instinto, sempre tocando a mesma música, ao contrário de um ser humano, que no silêncio consegue sonhar uma nova melodia. Daí, em posse de um instrumento, ele verá como a harmonia e o ritmo, guiados pela imaginação, proporcionarão a transformação da realidade pois algo novo acaba de surgir para dar um outro sentido ao real.
Se no início sonhamos dormindo, logo aprendemos a sonhar acordados, e felizes são aqueles que conseguem acordar do sonho que se faz acordado.
Há também o risco de, ao entrarmos no mundo dos sonhos, não sermos capazes de sair de lá deliberadamente. A realidade passa então a ser guiada arbitrariamente, pois Morfeu passa a dominar a totalidade das nossas ações. Deixando de ser um agente criativo que consultamos eventualmente, o príncipe dos sonhos inverte os papéis, aprisionando-nos num mundo fantástico tanto quanto irreal.
Em tese, isso ocorre muito mais por descuido, dado o fascínio que Morfeu nos exerce. O sonho em vez de ser um ambiente para descansarmos da realidade ao mesmo tempo em que nos alimenta de ideias para enfrentá-la, passa a ser fuga, um destino desejado do qual não queremos mais regressar. E há quem de lá não retorna nunca mais.
* Esse é o título do samba do carnaval da Unidos de Vila Isabel em 1980, composto por Martinho da Vila, Rodolpho e Graúna.
** Kubrick usou eloquentemente na trilha sonora composições de Johann e Richard Strauss.
*** Não deu pra falar da tragédia das chuvas, daí resolvi fazer um desenho que remetesse o desastre com o tema do primeiro rabisco do ano.
Distritão, uma ideia que piora os vícios da política (Fernando Abrucio)
Uma boa reforma institucional depende da qualidade do diagnóstico que a sustenta. Boas ideias e soluções aparentemente engenhosas podem ser enganosas ou catastróficas se não vierem a responder aos problemas realmente existentes. Na hora em que o país volta a discutir reforma política, ganha força o projeto do “distritão”, que levaria à eleição dos parlamentares mais votados em cada Estado, independentemente da votação de seus partidos ou coligações. Seu intuito é tornar mais correta a representação, mas se trata de um grande engodo a serviço dos males do atual sistema.
Antes de discutir os possíveis efeitos do distritão, vale lembrar quais são os principais defeitos do sistema político brasileiro. Embora não haja consenso completo entre os especialistas, sabe-se que nosso modelo eleitoral dá maior ênfase à representação personalista, não obstante conter também a possibilidade do “voto partidário”. A lista aberta adotada pelo Brasil favoreceria uma disputa entre os próprios membros do partido pelo voto do eleitor. Apesar de isso criar um clima pouco cooperativo entre os políticos, eles, paradoxalmente, preferem ter em suas legendas “puxadores de voto”. São normalmente figuras populares com pouca afeição a siglas partidárias, pois isso aumenta a votação geral do partido ou da coligação.
Há ainda o problema da transferência de votos dentro das coligações, que faz com que muitos eleitores ajudem, na verdade, a eleger outros políticos que não seus preferidos, por conta da pouca transparência e mesmo da inconsistência das alianças nas disputas para postos legislativos. No capítulo da transferência indevida de votos, não se pode esquecer da excrescência representada pela figura do suplente de senador.
A qualidade da representação pode, ademais, ser prejudicada pela forma como se propaga a campanha. A briga para ter mais tempo no horário eleitoral gratuito resulta em alianças políticas, senão espúrias, ao menos com um formato estranho. Igualmente criticada é a vinculação personalista presente no financiamento de campanha. Desse modo, mais do que causas ou interesses partidários, os recursos financeiros tendem a favorecer o apoio a despachantes de grupos econômicos quase sempre invisíveis ao eleitor mediano.
O distritão foi talhado para o PMDB, partido de caciques, e vai aumentar a personalização da política
Feito esse sintético diagnóstico, muitos tenderiam a dizer que é preciso então revolucionar o sistema político brasileiro para acabar com esses tenebrosos vícios. Retrucaria em nome da parcimônia da análise. Primeiro porque temos, ao longo dos últimos anos, melhorado paulatinamente a estrutura institucional, com mudanças como a reeleição e a ficha limpa. Segundo porque quem pretende mudar tudo de uma vez só pode não conseguir fazer nenhuma alteração. Por fim, é necessário pautar possíveis reformas pelo diagnóstico, e não pela pretensa engenhosidade de determinada ideia.
É aqui que chegamos novamente à proposta do distritão. Seu objetivo nobre é só eleger os mais votados pelos eleitores. O padrinho maior dessa ideia é o PMDB, maior partido congressual do momento. Sendo assim, essa opção só pode significar duas coisas: ou o partido quer aproveitar sua liderança para ser o grande transformador do sistema – o que o colocaria na mesma posição em que estava quando da luta contra o regime militar – ou ele percebeu que pode consolidar sua força e retirar obstáculos a ela com a adoção do distritão.
Na verdade, essa proposta só reforça os piores vícios do sistema eleitoral. Primeiro e mais importante, porque vai aumentar gigantescamente a personalização da política brasileira. O partido contará cada vez menos e a busca pela democratização interna dos partidos será uma luta perdida. Ademais, o financiamento de despachantes de luxo tende a se consolidar.
O distritão foi talhado para o PMDB em seu formato atual de partido de caciques locais e que não conseguem ter uma diretriz partidária conjunta. Por isso, se aprovado esse exótico sistema eleitoral, a representação ficará prejudicada e a governabilidade será mais custosa para os futuros presidentes.
Fonte: Revista Época
Antes de discutir os possíveis efeitos do distritão, vale lembrar quais são os principais defeitos do sistema político brasileiro. Embora não haja consenso completo entre os especialistas, sabe-se que nosso modelo eleitoral dá maior ênfase à representação personalista, não obstante conter também a possibilidade do “voto partidário”. A lista aberta adotada pelo Brasil favoreceria uma disputa entre os próprios membros do partido pelo voto do eleitor. Apesar de isso criar um clima pouco cooperativo entre os políticos, eles, paradoxalmente, preferem ter em suas legendas “puxadores de voto”. São normalmente figuras populares com pouca afeição a siglas partidárias, pois isso aumenta a votação geral do partido ou da coligação.
Há ainda o problema da transferência de votos dentro das coligações, que faz com que muitos eleitores ajudem, na verdade, a eleger outros políticos que não seus preferidos, por conta da pouca transparência e mesmo da inconsistência das alianças nas disputas para postos legislativos. No capítulo da transferência indevida de votos, não se pode esquecer da excrescência representada pela figura do suplente de senador.
A qualidade da representação pode, ademais, ser prejudicada pela forma como se propaga a campanha. A briga para ter mais tempo no horário eleitoral gratuito resulta em alianças políticas, senão espúrias, ao menos com um formato estranho. Igualmente criticada é a vinculação personalista presente no financiamento de campanha. Desse modo, mais do que causas ou interesses partidários, os recursos financeiros tendem a favorecer o apoio a despachantes de grupos econômicos quase sempre invisíveis ao eleitor mediano.
O distritão foi talhado para o PMDB, partido de caciques, e vai aumentar a personalização da política
Feito esse sintético diagnóstico, muitos tenderiam a dizer que é preciso então revolucionar o sistema político brasileiro para acabar com esses tenebrosos vícios. Retrucaria em nome da parcimônia da análise. Primeiro porque temos, ao longo dos últimos anos, melhorado paulatinamente a estrutura institucional, com mudanças como a reeleição e a ficha limpa. Segundo porque quem pretende mudar tudo de uma vez só pode não conseguir fazer nenhuma alteração. Por fim, é necessário pautar possíveis reformas pelo diagnóstico, e não pela pretensa engenhosidade de determinada ideia.
É aqui que chegamos novamente à proposta do distritão. Seu objetivo nobre é só eleger os mais votados pelos eleitores. O padrinho maior dessa ideia é o PMDB, maior partido congressual do momento. Sendo assim, essa opção só pode significar duas coisas: ou o partido quer aproveitar sua liderança para ser o grande transformador do sistema – o que o colocaria na mesma posição em que estava quando da luta contra o regime militar – ou ele percebeu que pode consolidar sua força e retirar obstáculos a ela com a adoção do distritão.
Na verdade, essa proposta só reforça os piores vícios do sistema eleitoral. Primeiro e mais importante, porque vai aumentar gigantescamente a personalização da política brasileira. O partido contará cada vez menos e a busca pela democratização interna dos partidos será uma luta perdida. Ademais, o financiamento de despachantes de luxo tende a se consolidar.
O distritão foi talhado para o PMDB em seu formato atual de partido de caciques locais e que não conseguem ter uma diretriz partidária conjunta. Por isso, se aprovado esse exótico sistema eleitoral, a representação ficará prejudicada e a governabilidade será mais custosa para os futuros presidentes.
Fonte: Revista Época
Moacyr Scliar (Carlos Heitor Cony)
Ao longo de muitos anos no ofício, raríssimas vezes comentei os livros lançados no mercado editorial. Não faz muito, abri uma exceção para Moacyr Scliar, escrevi sobre seu último romance, "Eu vos abraço, milhões". Partindo de um verso de Schiller na "Ode à alegria", o mesmo poema que Beethoven aproveitou para compor sua "Nona Sinfonia", ele contou a história de uma geração atraída pelas conquistas sociais do comunismo romântico que se espalhou pelo mundo após a revolução soviética de 19l7.
A mesma geração que mais tarde se desencantou e se arrependeu de ter queimado o "Dom Casmurro" -um "romance burguês para burgueses". Uma geração que não chegou a ser perdida, como o próprio Scliar nunca se perdeu em sua honesta e brilhante trajetória humana e intelectual.
A repercussão de sua morte, no último domingo, que continuará por muito tempo ainda, lembrou seus méritos como escritor de primeiríssimo time, dono de uma obra que engrandece o nosso tempo cultural e literário. Para os que conviveram com ele, a perda foi funda e dolorosa.
No meu caso, perdi uma referência afetiva e posso dizer que clínica. Nos últimos anos, ele foi uma espécie de âncora que tomava conta de minha saúde. Ele queria saber tudo, ver os exames que eu fazia, examinar os remédios que me receitavam. Uma amizade mais do que fraterna, quase paternal da parte dele. Embora mais moço, tomava conta de mim -e será difícil, agora, frequentar a ABL sem ele.
Viajamos pelo mundo, Paris, Barcelona, Guadalajara, Buenos Aires, praticamente por todas as capitais brasileiras, era impressionante a maneira modesta, mas eficiente que sabia usar com os diversos auditórios que o buscavam. Valeu, Scliar, valeu muito, valeu tudo.
A mesma geração que mais tarde se desencantou e se arrependeu de ter queimado o "Dom Casmurro" -um "romance burguês para burgueses". Uma geração que não chegou a ser perdida, como o próprio Scliar nunca se perdeu em sua honesta e brilhante trajetória humana e intelectual.
A repercussão de sua morte, no último domingo, que continuará por muito tempo ainda, lembrou seus méritos como escritor de primeiríssimo time, dono de uma obra que engrandece o nosso tempo cultural e literário. Para os que conviveram com ele, a perda foi funda e dolorosa.
No meu caso, perdi uma referência afetiva e posso dizer que clínica. Nos últimos anos, ele foi uma espécie de âncora que tomava conta de minha saúde. Ele queria saber tudo, ver os exames que eu fazia, examinar os remédios que me receitavam. Uma amizade mais do que fraterna, quase paternal da parte dele. Embora mais moço, tomava conta de mim -e será difícil, agora, frequentar a ABL sem ele.
Viajamos pelo mundo, Paris, Barcelona, Guadalajara, Buenos Aires, praticamente por todas as capitais brasileiras, era impressionante a maneira modesta, mas eficiente que sabia usar com os diversos auditórios que o buscavam. Valeu, Scliar, valeu muito, valeu tudo.
"Inside Job", documentário imperdível (Luiz Gonzaga Belluzzo)
O sempre instigante Eu& Fim de Semana publicado nas edições de sexta-feira do Valor, ofereceu a seus leitores uma entrevista do economista Lawrence Summers. Summers, entre outras proezas, ficou conhecido por declarações polêmicas. Recomendou o incentivo à deslocalização de indústrias poluidoras para os países da periferia. Reitor de Harvard, Summers decretou a incapacidade da inteligência feminina em lidar com as complexidades das "hard sciences".
Observei Summers no café do pavilhão onde se realizava a reunião do Fórum Mundial Davos, em 1993. Entre um gole de café e outro, Summers iniciou um sermão aos circunstantes sobre políticas econômicas nos países em desenvolvimento. As lições de Summers sucederam uma tertúlia sobre a economia mexicana que, segundo os participantes da mesa, navegava de velas enfunadas rumo à prosperidade. Não faltaram reverências e salamaleques ao então presidente Salinas de Gortari e a seu ministro da Fazenda, Pedro Aspe.
Sentados na plateia, o professor Carlos Antonio Rocca e este locutor que vos fala, entre estarrecidos e irritados, ouvíamos os julgamentos peremptórios que fluiam do debate entre os sabidos da academia e financistas mais sabidos ainda. As opiniões iam da celebração incondicional do modelo mexicano às referências derrisórias ao Brasil. Digo estarrecidos porque, naquele momento, o México apresentava um déficit em transações correntes de 8% do Produto Interno Bruto (PIB), déficit fiscal elevado e a dolarização galopante de sua dívida interna, infestestada de Tesobonos.
Em dezembro de 1994, o México quebrou vítima de uma "parada súbita" e só sobreviveu com o socorro do Tesouro Americano e do Fundo Monetário Internacional (FMI), providência destinada a salvar os bancos de Tio Sam. Summers, então subsecretário do Tesouro de Clinton capitaneou a operação de salvamento.
Não havia como escapar da impressão de que Summers era encarnação mais acabada do personagem de Molière, o "idiot savant", cheio de si, como tantos outros que se abrigam sob o manto hoje prestigioso dos estudos da economia. (Evito a expressão ciência econômica para evitar que o ego já inflado dos sabichões sofra um processo fatal de inchaço e implosão).
Pois Summers é um dos personagens centrais do imperdível documentário "Inside Job" de Charles Ferguson que, na madrugada de ontem, levou o Oscar na sua categoria. O título do filme foi traduzido para o português como "Trabalhos Internos" - é lamentável a falta de imaginação do tradutor, que provavelmente não viu o filme. "Inside Job" é uma expressão idiomática. Um amigo, mais versado do que eu no idioma de Shakespeare, sugeriu "Trabalhos Promíscuos".
O documentário mostra que Summers faturou uma nota preta ao ministrar palestras remuneradas pelos senhores do Universo sobre as maravilhas da desregulamentação financeira. Entre suas idas e vindas ao governo, dedicava-se a assessorar instituições financeiras mediante farta remuneração. Não sei se ele está no rol de 19 economistas investigados no estudo do seu colega Gerald Epstein, da Universidade de Massachusetts Amherst.
O estudo trata do conflito de interesses entre a atividade acadêmica, a ocupação de funções no Estado e as atividades de consultoria, quando os personagens não advertem a opinião pública a respeito de suas ocupações e pertinências. Essa confusão de papéis está gerando um movimento entre os economistas americanos para a adoção de um código de ética.
Não se trata de limitar as atividades profissionais dos economistas, mas sim de tornar claro ao público que as opiniões podem estar viciadas e deformadas pela infiltração de interesses estranhos à independência acadêmica e à função pública.
Enquanto secretário do Tesouro de Clinton, Lawrence Summers trabalhou intensamente para a aprovação no Congresso dos Estados Unidos do Gramm-Leach-Bliley Act. Essa lei derrotou a legislação dos anos 1930, o Glass-Steagal Act, que separava os bancos de depósito, os bancos de investimento, seguradoras e instituições voltadas para o financiamento imobiliário e "fundeadas" na poupança das famílias.
Os mercados financeiros contemporâneos lograram capturar os controles da economia e do Estado, mediante o incrível aumento do seu poder social e político. As transformações ocorridas no sistema financeiro desataram a livre e brutal concorrência no capitalismo da grande empresa e das grandes instituições financeiras.
A expressão grande demais para falir esconde mais do que revela. Nos últimos anos, a securitização e a alavancagem construíram uma teia de relações de débito e crédito entre as grandes instituições espalhadas pelo mundo. Os bancos de investimento e os demais bancos sombra aproximaram-se das funções monetárias dos bancos comerciais, abastecendo seus passivos nos "mercados atacadistas de dinheiro" ("wholesale money markets"), amparados nas aplicações de curto prazo de empresas e famílias. Não por acaso, a dívida intrafinanceira como proporção do PIB americano cresceu mais rapidamente do que o endividamento das famílias e das empresas. Esse fenômeno corresponde ao controle da riqueza social pelas instituições privadas, o que torna impossível a omissão dos bancos centrais quando um elo da cadeia se rompe.
O depoimento mais constrangedor, entre tantos de "Inside Job", é prestado pelo economista Frederick Mishkin. Ex-membro do Federal Reserve, Mishkin não consegue explicar porque às vésperas do colapso dos bancos da Islândia produziu um relatório que assegurava a estabilidade do sistema financeiro do país, mediante o estipêndio de US$ 124 mil.
Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp.
Na "República do Relatório" (Raymundo Costa)
Incomoda o PT e o governo o noticiário sobre eventuais divergências entre a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor no cargo, Luiz Inácio Lula da Silva. Aparentemente, o que acontece é efeito colateral de uma até agora bem sucedida operação de marketing para marcar diferenças de estilo, acentuar as virtudes e criar uma personalidade política para Dilma Rousseff.
Trata-se de uma operação a seis mãos. As mãos da "presidenta", como Dilma prefere ser chamada, e as mãos do ministro Antonio Palocci (Casa Civil), a principal referência do governo nesses dois meses de mandato, e as do jornalista João Santana, marqueteiro da campanha eleitoral de Dilma. Santana, como se sabe, acha que há um lugar vazio a ser ocupado no imaginário político do brasileiro, o da "rainha". Ele quer coroar Dilma Rousseff.
Essa operação foi desencadeada no fim do ano passado, mas ganhou força em janeiro, com a posse do novo governo, e fevereiro, com o reinício dos trabalhos do Congresso.
Assim como ocorreu em janeiro, quando os dois outros Poderes se achavam em recesso, é positivo o balanço do governo Dilma no primeiro mês - fevereiro - de funcionamento pleno também do Congresso e do Judiciário. Nesse período, características da presidente foram ressaltadas pelo marketing e assimiladas, algumas delas mais, outras menos, pela opinião pública.
A primeira é a qualidade de boa gestora, uma executiva atenta a todos os movimentos da administração. Diga-se que o governo Dilma já está sendo chamado, entre os mais próximos, de "República do Relatório". Seja qual for o assunto, a presidente pede um relatório e explicações bem detalhadas.
Em segundo lugar, a imagem da governante destemida: não existe tema espinhoso que a "presidenta" não enfrente. Os exemplos já se multiplicam. Do adiamento da compra de armamentos, especialmente o novo caça da FAB, há mais de dez anos em banho-maria, até o corte de R$ 50 bilhões no Orçamento Geral da União (OGU), anunciado ontem, passando, pela fixação do novo salário mínimo de R$ 545, contra a vontade das centrais sindicais.
Por fim, Dilma "jogou duro" com o Congresso, o que costuma ser motivo do aplauso de onze em cada dez brasileiro. E ainda contou com a colaboração involuntária do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que esperneou até na web a perda das boquinhas que mantinha em Furnas Centrais Elétricas. O PMDB começou o governo falando em seis ministérios; contentou-se com quatro e um Orçamento menor do que controlava no governo do presidente Lula.
Por tudo o que fez com os partidos, pode-se dizer que Dilma saiu-se de maneira excepcional nas primeiras votações de interesse do Palácio do Planalto.
Na Câmara, a contabilidade da Arko Advice, empresa de consultoria de Brasília, registrou o apoio médio de 63,84% dos 373 deputados que integram a base nominal de apoio do governo. No Senado, este percentual foi de 50,46% dos 61 integrantes da coalizão governista. Números, nos dois casos, acima do apoio médio dos aliados nos dois mandatos de Lula.
Esses índices não devem ser entendidos como salvo-conduto para o mandato de Dilma. No início, os governos naturalmente costumam atrair o centro político, não importa sua ideologia (foi assim com Lula e FHC), numa espécie de reconhecimento da soberania popular exercida na eleição. Os governantes aproveitam esse período de lua de mel para apresentar programas, acentuar prioridades e desenhar o perfil do mandatário.
Apesar da média de apoio menor, no primeiro ano de governo os índices de Lula não foram muito diferentes, considerando-se, sobretudo, que o PMDB e outros partidos que agora chegaram ao governo em aliança com o PT não estavam formalmente na coalizão eleitoral de 2002.
Dois exemplos: o texto base da reforma da Previdência Social foi aprovado, em agosto de 2003, com 358 votos, bem acima do quórum constitucional de 308 deputados (mais de 20 petistas se declararam contrários ao projeto, mas 62 deputados da oposição votaram com o governo).
Outro exemplo ocorreu em setembro do mesmo ano, com a votação do projeto de reforma tributária, uma fonte de conflito entre os entes federados, que obteve 378 votos favoráveis. É certo que, depois disso, a reforma voltou ao limbo no qual se encontra há quase duas décadas, mas não deixou de ser uma impressionante manifestação de força de Lula. Ainda assim o Congresso foi a principal fonte de instabilidade do primeiro governo do ex-presidente.
O Congresso entra para valer em ritmo de funcionamento ordinário nos próximos dois ou três meses, período em que as eleições de 2012 também entram no radar dos partidos. A rigor, nenhuma sigla ficou satisfeita com a composição do ministério, do PT ao PCdoB, passando por PMDB e PSB. Mas ninguém se arriscou na empreitada de contestar as escolhas da presidente. O contencioso ainda surdo cresceu ontem com os cortes no OGU, que atingiu mais os ministérios de alguns partidos aliados (PMDB) do que de outros (PT).
A presidente e os congressistas dedicaram-se, até agora, a um reconhecimento mútuo de terreno. Dilma testou sua base de apoio, mas não sem uma ponta de receio em relação à reação que teriam os aliados; os congressistas aceitaram sem mais barulho as decisões da presidente por não saberem qual seria sua reação - eles ainda "calculam" o que Dilma é ou não capaz de fazer. Mas sua fama a precede.
Dizem petistas que erra quem aposta que Dilma vá acentuar ainda mais as diferenças com o ex-presidente da República. Não interessa a ela. O raciocínio é o seguinte: a mídia que hoje aplaude Dilma pode ser a mesma que vai criticá-la amanhã, ao primeiro sinal de dificuldades. Diferentemente das centrais sindicais aliadas e dos movimentos sociais. Estes podem até protestar contra o governo (espera-se por reclamações do corte no orçamento da reforma agrária do MST e movimentos afins). Mas estarão na linha de frente de defesa da presidente, em caso de uma crise política no Congresso.
FONTE: VALOR ECONÔMICO
Trata-se de uma operação a seis mãos. As mãos da "presidenta", como Dilma prefere ser chamada, e as mãos do ministro Antonio Palocci (Casa Civil), a principal referência do governo nesses dois meses de mandato, e as do jornalista João Santana, marqueteiro da campanha eleitoral de Dilma. Santana, como se sabe, acha que há um lugar vazio a ser ocupado no imaginário político do brasileiro, o da "rainha". Ele quer coroar Dilma Rousseff.
Essa operação foi desencadeada no fim do ano passado, mas ganhou força em janeiro, com a posse do novo governo, e fevereiro, com o reinício dos trabalhos do Congresso.
Assim como ocorreu em janeiro, quando os dois outros Poderes se achavam em recesso, é positivo o balanço do governo Dilma no primeiro mês - fevereiro - de funcionamento pleno também do Congresso e do Judiciário. Nesse período, características da presidente foram ressaltadas pelo marketing e assimiladas, algumas delas mais, outras menos, pela opinião pública.
A primeira é a qualidade de boa gestora, uma executiva atenta a todos os movimentos da administração. Diga-se que o governo Dilma já está sendo chamado, entre os mais próximos, de "República do Relatório". Seja qual for o assunto, a presidente pede um relatório e explicações bem detalhadas.
Em segundo lugar, a imagem da governante destemida: não existe tema espinhoso que a "presidenta" não enfrente. Os exemplos já se multiplicam. Do adiamento da compra de armamentos, especialmente o novo caça da FAB, há mais de dez anos em banho-maria, até o corte de R$ 50 bilhões no Orçamento Geral da União (OGU), anunciado ontem, passando, pela fixação do novo salário mínimo de R$ 545, contra a vontade das centrais sindicais.
Por fim, Dilma "jogou duro" com o Congresso, o que costuma ser motivo do aplauso de onze em cada dez brasileiro. E ainda contou com a colaboração involuntária do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que esperneou até na web a perda das boquinhas que mantinha em Furnas Centrais Elétricas. O PMDB começou o governo falando em seis ministérios; contentou-se com quatro e um Orçamento menor do que controlava no governo do presidente Lula.
Por tudo o que fez com os partidos, pode-se dizer que Dilma saiu-se de maneira excepcional nas primeiras votações de interesse do Palácio do Planalto.
Na Câmara, a contabilidade da Arko Advice, empresa de consultoria de Brasília, registrou o apoio médio de 63,84% dos 373 deputados que integram a base nominal de apoio do governo. No Senado, este percentual foi de 50,46% dos 61 integrantes da coalizão governista. Números, nos dois casos, acima do apoio médio dos aliados nos dois mandatos de Lula.
Esses índices não devem ser entendidos como salvo-conduto para o mandato de Dilma. No início, os governos naturalmente costumam atrair o centro político, não importa sua ideologia (foi assim com Lula e FHC), numa espécie de reconhecimento da soberania popular exercida na eleição. Os governantes aproveitam esse período de lua de mel para apresentar programas, acentuar prioridades e desenhar o perfil do mandatário.
Apesar da média de apoio menor, no primeiro ano de governo os índices de Lula não foram muito diferentes, considerando-se, sobretudo, que o PMDB e outros partidos que agora chegaram ao governo em aliança com o PT não estavam formalmente na coalizão eleitoral de 2002.
Dois exemplos: o texto base da reforma da Previdência Social foi aprovado, em agosto de 2003, com 358 votos, bem acima do quórum constitucional de 308 deputados (mais de 20 petistas se declararam contrários ao projeto, mas 62 deputados da oposição votaram com o governo).
Outro exemplo ocorreu em setembro do mesmo ano, com a votação do projeto de reforma tributária, uma fonte de conflito entre os entes federados, que obteve 378 votos favoráveis. É certo que, depois disso, a reforma voltou ao limbo no qual se encontra há quase duas décadas, mas não deixou de ser uma impressionante manifestação de força de Lula. Ainda assim o Congresso foi a principal fonte de instabilidade do primeiro governo do ex-presidente.
O Congresso entra para valer em ritmo de funcionamento ordinário nos próximos dois ou três meses, período em que as eleições de 2012 também entram no radar dos partidos. A rigor, nenhuma sigla ficou satisfeita com a composição do ministério, do PT ao PCdoB, passando por PMDB e PSB. Mas ninguém se arriscou na empreitada de contestar as escolhas da presidente. O contencioso ainda surdo cresceu ontem com os cortes no OGU, que atingiu mais os ministérios de alguns partidos aliados (PMDB) do que de outros (PT).
A presidente e os congressistas dedicaram-se, até agora, a um reconhecimento mútuo de terreno. Dilma testou sua base de apoio, mas não sem uma ponta de receio em relação à reação que teriam os aliados; os congressistas aceitaram sem mais barulho as decisões da presidente por não saberem qual seria sua reação - eles ainda "calculam" o que Dilma é ou não capaz de fazer. Mas sua fama a precede.
Dizem petistas que erra quem aposta que Dilma vá acentuar ainda mais as diferenças com o ex-presidente da República. Não interessa a ela. O raciocínio é o seguinte: a mídia que hoje aplaude Dilma pode ser a mesma que vai criticá-la amanhã, ao primeiro sinal de dificuldades. Diferentemente das centrais sindicais aliadas e dos movimentos sociais. Estes podem até protestar contra o governo (espera-se por reclamações do corte no orçamento da reforma agrária do MST e movimentos afins). Mas estarão na linha de frente de defesa da presidente, em caso de uma crise política no Congresso.
FONTE: VALOR ECONÔMICO
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